Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA II                                   




frica Antiga
EDITOR GAMAL MOKHTAR




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  II
                          frica antiga
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  II
frica antiga
EDITOR GAMAL MOKHTAR




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, II: Ancient Civilizations of Africa. Paris: UNESCO;
Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1981.
(Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010 (verso em portugus com reviso ortogrfica e reviso tcnica)

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Reviso e atualizao ortogrfica: Cibele Elisa Viegas Aldrovandi
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil



     Histria geral da frica, II: frica antiga / editado por Gamal Mokhtar.  2.ed. rev. 
           Braslia : UNESCO, 2010.
           1008 p.

         ISBN: 978-85-7652-124-2

         1. Histria 2. Histria antiga 3. Histria africana 4. Culturas africanas 5. Norte da frica
     6. Leste da frica 7. Oeste da frica 8. Sul da frica 9. frica Central 10. frica
     I. Mokhtar, Gamal II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade
     Federal de So Carlos


Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
                                      SUMRIO




Apresentao ...................................................................................VII
Nota dos Tradutores .......................................................................... IX
Cronologia ....................................................................................... XI
Lista de Figuras ............................................................................. XIII
Prefcio ..........................................................................................XXI
Apresentao do Projeto ..............................................................XXVII
Introduo Geral ......................................................................... XXXI

Captulo 1 Origem dos antigos egpcios .................................................. 1
Captulo 2 O Egito faranico ................................................................. 37
Captulo 3 O Egito faranico: sociedade, economia e cultura ................ 69
Captulo 4 Relaes do Egito com o resto da frica ............................. 97
Captulo 5 O legado do Egito faranico .............................................. 119
Captulo 6 O Egito na poca helenstica .............................................. 161
Captulo 7 O Egito sob dominao romana ......................................... 191
Captulo 8  A importncia da Nbia: um elo entre a frica central
           e o Mediterrneo................................................................. 213
Captulo 9 A Nbia antes de Napata (3100 a 750 antes da Era
            Crist) ................................................................................. 235
Captulo 10 O Imprio de Kush: Napata e Mroe .............................. 273
VI                                                                                                 frica antiga



Captulo 11          A civilizao de Napata e Mroe ...................................... 297
Captulo 12          A cristianizao da Nbia ................................................. 333
Captulo 13          A cultura pr-axumita ...................................................... 351
Captulo 14          A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII ............ 375
Captulo 15          Axum do sculo I ao sculo IV: economia,
                     sistema poltico e cultura .................................................. 399
Captulo 16          Axum cristo ..................................................................... 425
Captulo 17          Os protoberberes .............................................................. 451
Captulo 18          O perodo cartagins ........................................................ 473
Captulo 19          O perodo romano e ps-romano na frica do Norte ...... 501
                     PARTE I O perodo romano ....................................... 501
                     PARTE II De Roma ao Isl ......................................... 547
Captulo 20          O Saara durante a Antiguidade clssica ........................... 561
Captulo 21          Introduo ao fim da Pr-Histria na frica
                     subsaariana ........................................................................ 585
Captulo 22          A costa da frica oriental e seu papel no comrcio
                     martimo .......................................................................... 607
Captulo 23          A frica oriental antes do sculo VII ............................... 627
Captulo 24          A frica ocidental antes do sculo VII ............................ 657
Captulo 25          A frica central ............................................................... 691
Captulo 26          A frica meridional: caadores e coletores ...................... 713
Captulo 27          Incio da Idade do Ferro na frica meridional ................ 749
Captulo 28          Madagscar ...................................................................... 773
Captulo 29          As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro
                     Antiga .............................................................................. 803

Anexo   Sntese do colquio "O povoamento do antigo Egito e a
        decifrao da escrita merota"..................................................... 821
Concluso ................................................................................................ 857
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de
        uma Histria Geral da frica................................................... 865
Dados Biogrficos dos Autores do Volume II........................................ 867
Abreviaes e Listas de Peridicos ......................................................... 871
Referncias Bibliogrficas ...................................................................... 879
ndice Remissivo ..................................................................................... 939
                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                                              frica antiga



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                                        frica antiga



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
                      CRONOLOGIA


   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
      Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
       present), tendo como referncia o ano de + 1950; nesse caso, as datas so
       todas negativas em relao a + 1950.
      Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas
       so simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
       sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de Cristo" so substitudas
       por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
   Exemplos:
   (i) 2300 B.P. = -350
   (ii) 2900 a.C. = -2900
        1800 d.C. = +1800
   (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
         sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                       XIII




                             LISTA DE FIGURAS




Figura 1    O Nilo, fotografado por um satlite Landsat em rbita a 920 km da
            Terra ........................................................................................................... XXXVII
Figura 2    A Pedra de Palermo. .......................................................................................... XLI
Figura 3    O Papiro de Turim............................................................................................XLII
Figura 4    Cheias sazonais do Nilo................................................................................. XLVII
Figura 5    A Paleta em xisto de Narmer, I dinastia, face anterior e posterior .......................LII
Figura 6    Esttua do escriba sentado, Knubaf .................................................................LVIII
Figura 1.1 Representao proto-histrica de Tera-Neter, um nobre negro da raa dos
            Anu, primeiros habitantes do Egito ....................................................................... 7
Figura 1.2 Estatuetas pr-dinsticas ........................................................................................ 7
Figura 1.3 Cabo da faca de Djebel el-Arak, Pr-Dinstico Tardio ...................................... 14
Figura 1.4 Cativos semitas do tempo dos faras. Rocha do Sinai ....................................... 14
Figura 1.5 Cativos indo-europeus ......................................................................................... 15
Figura 1.6 Cativo indo-europeu ............................................................................................ 15
Figura 1.7 Quops, fara da IV dinastia, construtor da Grande Pirmide ............................ 19
Figura 1.8 Fara Mentuhotep I............................................................................................. 20
Figura 1.9 Ramss II e um Batutsi moderno ........................................................................ 23
Figura 1.10 A Esfinge, tal como foi encontrada pela primeira misso cientfica francesa
              no sculo XIX .................................................................................................... 23
Figuras 1.11, 1.12, 1.13 e 1.14 Quatro tipos indo-europeus ................................................. 24
Figura 1.15 Dois semitas ....................................................................................................... 24
Figura 1.16 Estrangeiro ......................................................................................................... 28
XIV                                                                                                                    frica antiga



Figura 1.17 Fechadura de porta, de Hieracmpolis. I dinastia egpcia ................................... 28
Figura 1.18 Prisioneiro lbio .................................................................................................. 28
Figura 1.19 Um fara da I dinastia egpcia ........................................................................... 29
Figura 1. 20 Zoser, tpico negro, fara da III dinastia ........................................................... 29
Figura 2.1 O Nilo, da Terceira Catarata at o Mediterrneo ................................................ 40
Figura 2.2 Cronologia da histria egpcia ............................................................................. 41
Figura 2.3 Tesouro de Tutancmon. Anbis na entrada do tesouro ...................................... 44
Figura 2.4 Qufren ................................................................................................................ 49
Figura 2.5 Rainha Hatshepsut sentada.................................................................................. 59
Figura 2.6 Aquenton diante do Sol ..................................................................................... 61
Figura 2.7 Tesouro de Tutancmon ....................................................................................... 64
Figura 2.8 Howard Carter, o arquelogo que descobriu o tmulo de Tutancmon .............. 64
Figura 3.1 Empilhamento do feno ........................................................................................ 71
Figura 3.2 Colheita ............................................................................................................... 71
Figura 3.3 Caa ao hipoptamo ............................................................................................ 73
Figura 3.4 Pesca com rede ..................................................................................................... 73
Figura 3.5 Abastecimento dos celeiros (desenho) ................................................................. 80
Figura 3.6 Prestao de contas .............................................................................................. 80
Figura 3.7 Tributo de prisioneiros lbios do Antigo Imprio ................................................ 85
Figura 3.8 Sti I matando um chefe lbio. ............................................................................ 85
Figura 3.9 Vindima e espremedura ....................................................................................... 90
Figura 4.1 O Chifre da frica e as regies vizinhas na Antiguidade .................................. 100
Figura 4.2 Pelicanos domesticados ...................................................................................... 103
Figura 4.3 Operaes navais ................................................................................................ 103
Figura 4.4 Tributo nbio de Rekhmira................................................................................ 109
Figura 4.5 Habitaes do reino de Punt............................................................................. 114
Figura 4.6 Tributo de Punt.................................................................................................. 114
Figura 5.1 Fabricao de tijolos........................................................................................... 122
Figura 5.2 Fabricao de vasos de metal ............................................................................. 125
Figura 5.3 Fabricao da cerveja. Antigo Imprio............................................................... 128
Figura 5.4 Modelo de uma oficina de tecelagem. XII dinastia, c. - 2000 ............................ 128
Figura 5.5 Marceneiros trabalhando.................................................................................... 129
Figura 5.6 Colunas protodricas de Deir el-Bahari ............................................................ 132
Figura 5.7 As pirmides de Snefru, no Dachur ................................................................... 132
Figura 5.8 Carnac: cmara do barco de mon .................................................................... 134
Figura 5.9 Gis: cmara do barco de Quops...................................................................... 134
Figura 5.10 Ramss II (tcnica dos fluidos) ........................................................................ 136
Figura 5.11 e 5.12 Vista parcial de Mirgissa, fortaleza militar construda h
              aproximadamente 4 mil anos ........................................................................... 145
Figura 5.13 Colunas fasciculadas do templo de Sacar ....................................................... 146
Lista de Figuras                                                                                                                     XV


Figura 5.14 e 5.15 Mirgissa: Rampa para barcos................................................................. 148
Figura 5.16 Um jardim egpcio ........................................................................................... 149
Figura 5.17 Urbanismo: planta da cidade de Illahun (Kahun) ............................................ 149
Figura 5.18 Mirgissa ........................................................................................................... 151
Figura 5.19 Mirgissa ........................................................................................................... 151
Figura 5.20 Mirgissa, Muralha externa ............................................................................... 153
Figura 5.21 Mirgissa. Muralha setentrional ........................................................................ 153
Figura 5.22 Mirgissa. Casa particular .................................................................................. 155
Figura 5.23 Modelo de uma casa do Mdio Imprio .......................................................... 155
Figura 5.24 A deusa Htor.................................................................................................. 157
Figura 6.1 Relevo representando a deusa sis com o filho Harpcrates em segundo
            plano. .................................................................................................................. 167
Figura 6.2 Cabea de Alexandre, o Grande......................................................................... 170
Figura 6.3 O Farol de Alexandria........................................................................................ 173
Figura 6.4 O mundo segundo Herdoto e Hecateu............................................................ 179
Figura 6.5 Ulisses fugindo de Polifemo, escondido sob o ventre de um carneiro. ............... 182
Figura 6.6 Pintura do tmulo de Anfushi, Alexandria ........................................................ 182
Figura 6.7 Fragmento de um balsamrio em bronze ........................................................... 184
Figura 6.8 Cabea grotesca.................................................................................................. 184
Figura 6.9 Estatueta (fragmento): "acendedor de candeeiro" negro, caminhando,
            vestindo uma tnica e carregando uma pequena escada no brao esquerdo
            (faltam o brao direito e os ps) ......................................................................... 184
Figura 6.10 Clepatra VII ................................................................................................... 188
Figura 7.1 Cabea de tetrarca .............................................................................................. 194
Figura 7.2 Cabea de Vespasiano ........................................................................................ 199
Figura 7.3 Termas romanas e hipocausto ............................................................................ 201
Figura 7.4 O corredor que circunda o teatro romano .......................................................... 201
Figura 7.5 Estatueta de um gladiador negro em p, vestindo uma tnica, couraa e
            elmo, armado de escudo e adaga ......................................................................... 204
Figura 7.6 Estatueta de um soldado negro em p, empunhando um machado duplo ......... 204
Figura 7.7 Ladrilho de cermica: negro ajoelhado, soprando um instrumento musical ...... 204
Figura 7.8 Pintura de Baouit ............................................................................................... 211
Figura 7.9 Mosteiro de Mari-Mina..................................................................................... 211
Figura 8.1 O vale do Nilo e o Corredor Nbio ................................................................... 214
Figura 8.2 A Nbia antiga................................................................................................... 216
Figura 8.3 A Alta Nbia sudanesa ...................................................................................... 217
Figura 8.4 Monumentos nbios de Filas em reconstruo na ilha vizinha de Agilkia ........ 220
Figura 8.5 O templo de sis em reconstruo em Agilkia ................................................... 220
Figura 9.1 A Nbia e o Egito ............................................................................................. 237
Figura 9.2 Tipos de sepulturas do Grupo A ....................................................................... 239
XVI                                                                                                                    frica antiga



Figura 9.3 Inscrio do rei Djer em Djebel Sheikh Suliman .............................................. 239
Figura 9.4 Tipos de cermica do Grupo A ......................................................................... 239
Figura 9.5 Sepulturas tpicas do Grupo C .......................................................................... 244
Figura 9.6 Tipos de cermica do Grupo C ......................................................................... 244
Figura 9.7 A Nbia, 1580 antes da Era Crist .................................................................... 247
Figura 9.8 As fortificaes ocidentais de uma fortaleza do Mdio Imprio em Buhen ...... 249
Figuras 9.9, 9.10 e 9.11 Cermica de Kerma ...................................................................... 251
Figuras 9.12 e 9.13 Cermica de Kerma ............................................................................. 253
Figura 9.14 Kerma: o Dufufa do Leste, com uma sepultura no primeiro plano ................. 255
Figura 9.15 Sepultura de Kerma ......................................................................................... 255
Figuras 9.16 e 9.17 Cermica de Kerma ............................................................................. 258
Figura 9.18 Ornamentos pessoais........................................................................................ 260
Figura 9.19 Cermica de Kerma ......................................................................................... 260
Figura 9.20 A Nbia durante o Novo Imprio ................................................................... 262
Figura 9.21 O templo de Amenfis III em Soleb ............................................................... 265
Figuras 9.22 e 9.23 Tipos de sepulturas do Novo Imprio.................................................. 270
Figura 10.1 Saqia................................................................................................................. 279
Figura 10.2 Esttua do rei Aspelta, em granito negro da Etipia ....................................... 281
Figura 10.3 Detalhe (busto) ................................................................................................ 281
Figura 10.4 A rainha Amanishaketo: relevo da pirmide Beg N6 de Mroe ...................... 287
Figura 10.5 Artigo de vidro azul pintado, de Sedinga ......................................................... 291
Figura 10.6 Coroa de Ballana.............................................................................................. 291
Figura 10.7 Stios merotas.................................................................................................. 293
Figura 11.1 Carneiro de granito em Naga .......................................................................... 301
Figura 11.2 Pirmide do rei Natakamani em Mroe, com runas de capela e pilono
               em primeiro plano ............................................................................................ 301
Figura 11.3 Placa de arenito representando o prncipe Arikankharor massacrando seus
               inimigos (possivelmente do sculo II da Era Crist) ....................................... 307
Figura 11.4 Rei Arnekhamani (templo dos lees em Mussawarat es-Sufra) ...................... 307
Figura 11.5 Recipientes de bronze originrios de Mroe .................................................... 315
Figura 11.6 Vrias peas de cermica merota ..................................................................... 321
Figura 11.7 Joias de ouro da rainha Amanishaketo (-41 a -12) .......................................... 323
Figura 11.8 O deus Apedemak conduzindo outros deuses merotas ................................... 329
Figura 11.9 O deus merota Sebiumeker (templo dos lees em Mussawarat es-Sufra) ...... 329
Figura 12.1 O Nilo da Primeira  Sexta Catarata ............................................................... 335
Figura 12.2 Arcadas da fachada leste da igreja de Qasr Ibrim ............................................ 337
Figura 12.3 Catedral de Faras ............................................................................................. 337
Figura 12.4 Planta geral do stio no interior das muralhas.................................................. 343
Figura 12.5 Edifcios cristos descobertos pela expedio polonesa (1961-1964) ............... 343
Figura 12.6 Cabea de Santa Ana: mural da nave norte da catedral de Faras
               (sculo VIII) ..................................................................................................... 345
Lista de Figuras                                                                                                          XVII


Figura 12.7 Faras: verga de porta decorada do incio da Era Crist (segunda metade do
            sculo VI ou incio do sculo VII) ...................................................................... 345
Figura 12.8 Fragmento de um friso decorativo em arenito do abside da catedral de
              Faras (primeira metade do sculo VII)............................................................. 347
Figura 12.9 Faras: Capitel de arenito (primeira metade do sculo VII) .............................. 347
Figura 12.10 Janela em terracota da Igreja das Colunas de Granito na Velha Dongola,
                Sudo (fim do sculo VII) ............................................................................. 348
Figura 12.11 Cermica da Nbia crist ............................................................................... 348
Figura 13.1 A Etipia no perodo sul-arbico..................................................................... 353
Figura 13.2 O "trono" ou "naos" de Halti .......................................................................... 356
Figura 13.3 Esttua de Halti ............................................................................................. 358
Figura 13.4 Altar de incenso em Addi Galamo .................................................................. 358
Figura 13. 5 A Etipia no perodo pr-axumita intermedirio ........................................... 369
Figura 13.6 Touro em bronze, Mahabere Dyogwe .............................................................. 373
Figuras 13.7, 13.8 e 13.9 Marcas de identidade em bronze de Yeha, em forma de
              pssaro, de leo e de cabrito monts................................................................. 373
Figura 14.1 Fotografia area de Axum. (Foto Instituto Etope de Arqueologia.) ............... 378
Figura 14.2 Leoa esculpida na parte lateral de uma rocha, perodo axumita....................... 384
Figura 14.3 Matara: alicerce de um edifcio axumita........................................................... 384
Figura 14.4 Base de um trono ............................................................................................. 390
Figura 14.5 Matara: inscrio do sculo II da Era Crist ................................................... 390
Figura 14.6 Gargalo de jarro ............................................................................................... 393
Figura 14.7 Incensrio de estilo alexandrino ....................................................................... 393
Figura 14.8 Presa de elefante............................................................................................... 393
Figura 15.1 Mapa da expanso axumita .............................................................................. 402
Figura 15.2 Moeda de ouro do rei Endybis (sculo III da Era Crist) ................................ 407
Figura 15.3 Moeda de ouro do reino de Ousanas ............................................................... 407
Figura 15.4 Inscrio grega de Ezana (sculo IV) .............................................................. 416
Figura 15.5 Inscrio em caracteres pseudo-sabeanos de Wa'Zaba (sculo VI) .................. 422
Figura 16.1 O bispo Frumncio, o rei Abraha (Ezana) e seu irmo Atsbaha, igreja de
              Abraba we Atsbaha (sculo XVII) ................................................................... 433
Figura 16.2 Debre-Damo visto a distncia.......................................................................... 437
Figura 16.3 O acesso ao convento em Debre-Damo........................................................... 437
Figura 16.4 Pintura da igreja de Goh: os Apstolos (sculo XV) ....................................... 440
Figura 16.5 Igreja de Abba Aregawi em Debre-Damo ....................................................... 449
Figura 16.6 Chantres inclinando-se religiosamente ............................................................ 449
Figura 17.1 Crnio de Columnata ...................................................................................... 455
Figura 17.2 Homem de Champlain: crnio ibero-maurusiense .......................................... 457
Figura 17.3 Crnio de homem capsiense ............................................................................ 457
Figura 17.4 Lees de Kbor Roumia ..................................................................................... 468
Figura 17.5 Estela lbia de Abizar (sudeste de Tigzirt) ....................................................... 471
XVIII                                                                                                                    frica antiga



Figura 19.1 As provncias romanas da frica do Norte no final do sculo II da Era
              Crist................................................................................................................ 503
Figura 19.2 Timgad (antiga Thamugadi, Arglia): Avenida e Arco de Trajano .................. 505
Figura 19.3 Mactar (antiga Mactaris, Tunsia): Arco de Trajano, entrada do frum ........... 505
Figura 19.4 As provncias romanas da frica do Norte no final do sculo IV da Era
              Crist................................................................................................................ 511
Figura 19.5 O aqueduto de Chercell (Arglia) .................................................................... 520
Figura 19.6 Sabrata (Lbia): Frons scaenae do teatro romano .............................................. 520
Figura 19.7 Mosaico de Susa: Virglio escrevendo a "Eneida"............................................. 529
Figura 19.8 Djemila (antiga Cuicul, Arglia): centro da cidade .......................................... 535
Figura 19.9 Lebda (antiga Leptis Magna, Lbia): trabalhos em curso no anfiteatro
              romano ............................................................................................................. 535
Figura 19.10 Mosaico de Chebba: Triunfo de Netuno ....................................................... 539
Figura 19.11 Trpoli (antiga Oea, Lbia): Arco do Triunfo de Marco Aurlio .................... 543
Figura 19.12 Timgad (Arglia): Fortaleza bizantina, sculo VI .......................................... 555
Figura 19.13 e 19.14 Haidra (Tunsia): Fortaleza bizantina, sculo VI. Detalhe e
                vista geral ....................................................................................................... 557
Figura 19.15 Sbeitla (Tunsia): Prensa de azeite instalada numa antiga rua da cidade
            romana (sculos VI a VII) .................................................................................. 559
Figura 19.16 Djedar de Ternaten, perto de Frenda (Arglia): Cmara funerria,
                sculo VI. ....................................................................................................... 559
Figura 20.1 Esqueleto da "rainha Tin Hinan" ..................................................................... 572
Figura 20.2 Bracelete de ouro da "rainha Tin Hinan" ......................................................... 572
Figura 20.3 O tmulo da "rainha Tin Hinan" em Abalessa................................................. 575
Figura 20.4 Tipos "garamantes" num mosaico romano de Zliten, Tripolitnia ................... 579
Figuras 20.5 e 20.6 A avaliao da idade das pinturas rupestres baseia-se em critrios
              de estilo e de ptina.......................................................................................... 581
Figura 21.1 Hipteses da origem dos Bantu e do incio da metalurgia do ferro ................. 587
Figura 21.2 Jazidas de cobre e rotas de caravana atravs do Saara ...................................... 599
Figura 23.1 frica oriental: mapa poltico e mapa indicativo da distribuio de lnguas
              e povos ............................................................................................................. 629
Figura 23.2 Agrupamentos de lnguas africanas ocidentais e suas relaes de parentesco... 642
Figura 24.1 frica ocidental: stios pr-histricos importantes ........................................... 663
Figura 24.2 Saara: mapa do relevo ...................................................................................... 664
Figura 24.3 Complexo do vale de Tilemsi........................................................................... 667
Figura 24.4 Regio de Tichitt ............................................................................................. 670
Figura 24.5 Montculos de detritos do Firki ....................................................................... 685
Figura 25.1 Mapa da frica central com a indicao dos lugares mencionados
              no texto............................................................................................................. 692
Figura 25.2 Mapa da frica Central com a indicao das regies de ocupao
              "neoltica" e da "Idade do Ferro Antiga" ........................................................... 695
Figura 25.3 Machado polido uelense (hematita) ................................................................. 698
Lista de Figuras                                                                                                                  XIX


Figura 25.4 Objetos encontrados no stio de Batalimo, no sul de Bangui
             (Repblica Centro-Africana) ......................................................................... 703
Figura 25.5 Objetos encontrados em Sanga ........................................................................ 705
Figura 26.1 Pintura rupestre: mulheres com bastes de cavar lastreados por pedras
            perfuradas ........................................................................................................... 723
Figura 26.2 Grupo de homens com arcos, flechas e aljavas ................................................. 723
Figura 26.3 Cena de pesca de Tsoelike, Lesoto ................................................................... 723
Figura 26.4 Grupo de caadores em sua caverna, cercados por uma srie de bastes
             de cavar, bolsas, aljavas e arcos.......................................................................... 729
Figura 26.5 Grande grupo de figuras, a maioria delas visivelmente masculinas,
             provavelmente numa cena de dana ................................................................. 729
Figura 26.6 Os encontros ocasionais de grupos so assinalados muito mais pelo
             conflito do que pela cooperao ....................................................................... 729
Figura 26.7 Mapa da frica meridional mostrando a distribuio de stios da Idade
            da Pedra Recente ................................................................................................ 737
Figura 26.8 As mais antigas datas conhecidas para o aparecimento da cermica e
             dos animais domsticos nos contextos da Idade da Pedra Recente na
             frica austral .................................................................................................... 738
Figura 26.9 Rebanho de carneiros de cauda grossa ............................................................. 742
Figura 26.10 Galeo pintado nas montanhas do Cabo ocidental ........................................ 742
Figura 26.11 Carroas, cavalos e trekkers (migrantes) observados quando se dirigiam
               para as pastagens entre montanhas do Cabo ocidental no princpio
               do sculo XVIII da Era Crist ...................................................................... 747
Figura 26.12 Grupo de pequenos ladres de gado armados com arcos e flechas,
               defendendo sua presa contra figuras maiores munidas de escudos e
               lanas ............................................................................................................. 747
Figura 27.1 frica meridional: stios da Idade do Ferro Antiga e stios conexos
             mencionados no texto ...................................................................................... 751
Figura 27.2 frica meridional: stios. .................................................................................. 753
Figura 27.3 Cermica de Mabveni e de Dambwa ............................................................... 758
Figura 27.4 Cermica da Idade do Ferro Antiga proveniente de Twickenham Road
             e de Kalundu .................................................................................................... 758
Figura 28.1 Madagscar: lugares citados no texto ............................................................... 775
Figura 28.2 Madagscar: stios importantes ........................................................................ 777
Figura 28.3 Aldeia de Andavadoaka no sudoeste ................................................................ 780
Figura 28.4 Cemitrio de Ambohimalaza (Imerina) ........................................................... 780
Figura 28.5 Porta antiga de Miandrivahiny Ambohimanga, Imerina ................................. 784
Figura 28.6 Canoa de pesca vezo de tipo indonsio, com balancim .................................... 788
Figura 28.7 Fole de forja com duplo pisto do tipo encontrado na Indonsia .................... 788
Figura 28.8 Cemitrio de Marovoay, perto de Morondava. ............................................... 791
Figura 28.9 Esttua de Antsary: arte antanosy das proximidades de Fort-Dauphin ........... 791
Figura 28.10 Cermica chinesa de Vohemar ....................................................................... 795
XX                                                                                                                 frica antiga



Figura 28.11 Caldeiro de pedra, civilizao de Vohemar ................................................... 795
Figura 28.12 Arrozais em terraos nas proximidades de Ambositra, semelhantes aos
             de Luzn, nas Filipinas.................................................................................. 799
Figura 28.13 Exerccio de geomancia: extremo sul.............................................................. 799
Figura 28.14 Tmulo antalaotse em Antsoheribory ............................................................ 801
Figura 28.15 Cermicas de Kingany e de Rasoky (sculo XV). Anzis de Takaly
             (sculo XII) .................................................................................................... 801
Prefcio                                                               XXI




                           PREFCIO
                   por M. Amadou - Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no
podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
    Se a Ilada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a "Idade Mdia"
europeia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XXII                                                                      frica antiga



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
ar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingustica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras,
e destinado ao trabalho forado, o africano veio a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior: a de
negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos africanos
no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria, em cuja apreciao das
realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, tm se esfor-
ado em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de
esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues  fontes africanas
originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os prprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                               XXIII



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e
metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas
criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esfor-
aram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar
a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questes meto-
dolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das
fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e  articu-
lao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito
de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao da obra:
apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim
como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo,
portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um
pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.



1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahi-
     li, peul e portugus; o volume II, em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano,
     kiswahili, peul e portugus; o volume III, em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV, em ingls,
     rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o volume V, em ingls e rabe; o volume VI, em ingls,
     rabe e francs; o volume VII, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII, em ingls
     e francs.
XXIV                                                                      frica antiga



    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e
nove membros, composto por africanos e no africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria
das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade,
palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no
perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que, at recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da
histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do
mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as
instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarre-
gado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz
original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa
"sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no
momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas conse-
quncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes
entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e
de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com
grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui
um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos
conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica
tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
Prefcio                                                                                                 XXV



    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicos amide utiliza-
dos na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histrico de valor, para mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cientfico
Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de
aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre certos
aspectos do passado da frica. Esses trabalhos, publicados na coleo UNESCO
 Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a constituir, de modo til,
um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo desdobrar-se- na
elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade his-
trica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as
Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afro-
descendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, em
maior ou menor grau, segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar
e agir de certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao
norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies
culturais herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclu-
sive, elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns
dos elementos mais importantes da populao.



2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; n. 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4  A historiografia da frica Meridional;
     n. 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6 
     Etnonmias e toponmias; n. 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n.
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; n. 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; n. 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11  Lbia Antiqua; n. 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXVI                                                                  frica antiga



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido de que os esforos dos povos da frica para conquistar
ou reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde
os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada
com vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de
certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
srio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra
de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica
e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso
mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra dever ento contribuir para favorecer
a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas
aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto
muito sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit
Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publi-
car essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
    APRESENTAO DO PROJETO
                    pelo Professor Bethwell Allan Ogot
             Presidente do Comit Cientfico Internacional
             para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros res-
ponsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
     Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estgio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
     A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVIII                                                                      frica antiga



         subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
         da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so
         analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias mul-
         tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da
         frica para o desenvolvimento da humanidade.
        A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das ideias
         e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela fundamenta-se sobre
         uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradio oral e a
         expresso artstica.
        A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu inte-
         rior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
         maneira atravs da qual os autores africanos veem sua prpria civilizao.
         Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
         dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
         para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando os
         fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de
         examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
         alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
         atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
         em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
         uma concepo particular dos valores humanos.
    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhes
de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreendendo
aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos, mapas e
desenhos tracejados).
    Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do
Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles se encarregam da ela-
borao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                   XXIX



da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comit ou,
entre duas sesses do Comit, ao Conselho Executivo.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes cap-
tulos so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido ao
exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Inter-
nacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de
um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especfico da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo, etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comu-
nidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
XXX                                                                  frica antiga



tarefa tal qual a redao de uma histria da frica, que cobre no espao todo
um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio,
estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tra-
dies histricas. Trata-se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se
unir e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhe-
cimento adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no
tocante aos elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continen-
tes, tudo isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre
os povos da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um
patrimnio cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                           Bethwell Allan Ogot
                                                       Em 8 de agosto de 1979
                                  Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                 para a redao de uma Histria Geral da frica
Introduo Geral                                                      XXXI




                   INTRODUO GERAL
                   G. Mokhtar colaborao de J. Vercoutter




    O presente volume da Histria Geral da frica refere-se ao longo perodo que
se estende do final do Neoltico  isto , em torno do VIII milnio antes da Era
Crist  at o incio do sculo VII da Era Crist.
    Esse perodo da histria africana, o qual abrange cerca de 9 mil anos, foi
abordado, depois de alguma hesitao, considerando-se quatro zonas geogrficas
principais:
        o corredor do Nilo, Egito e Nbia (captulos 1 a 12);
        a zona montanhosa da Etipia (captulos 13 a 16);
        a parte da frica comumente denominada Magreb e seu interior saariano
         (captulos 17 a 20);
        o restante da frica, inclusive as ilhas africanas do oceano ndico
         (captulos 21 a 29).
    Essa diviso  determinada pela compartimentao que atualmente caracteriza
a pesquisa em histria da frica. Poderia parecer mais lgico organizar o volume
de acordo com as principais zonas ecolgicas do continente, oferecendo cada
uma delas condies de vida semelhantes a todos os agrupamentos humanos que
as habitam, sem que haja barreiras naturais a impedir o intercmbio (cultural ou
de outro tipo) no interior de uma mesma regio.
    Nesse caso, obteramos um quadro inteiramente diferente: partindo do norte
e seguindo em direo ao sul, teramos aquilo que, desde o sculo VIII da Era
XXXII                                                                      frica antiga



Crist,  denominado ilha do Magreb  de geologia, clima e ecologia geral
predominantemente mediterrnicos  e a larga faixa subtropical do Saara com
seu acidente tectnico, o vale do Nilo. Em seguida, teramos a zona das grandes
bacias fluviais subtropicais e equatoriais, com sua costa atlntica. Depois, a leste
viriam as terras altas da Etipia e o Chifre da frica, voltado para a Arbia e
o oceano ndico. Finalmente, viria a regio dos Grandes Lagos equatoriais,
ligando as bacias do Nilo, Nger e Congo  frica meridional e seus anexos:
Madagscar e outras ilhas ocenicas prximas  frica.
    Infelizmente, a adoo dessa diviso  mais lgica do que aquela que tivemos
que utilizar   invivel. O pesquisador que deseja estudar a histria da frica
na Antiguidade , de fato, consideravelmente tolhido pelo peso do passado. A
compartimentao que a ele se impe  e que se reflete no plano aqui adotado 
deriva, em grande parte, da colonizao dos sculos XIX e XX: o historiador, fosse
ele um colono interessado no pas em que vivia ou um colonizado refletindo sobre
o passado de seu povo, encontrava-se, a contragosto, confinado a limites territoriais
arbitrariamente fixados. Para ele era difcil, se no impossvel, estudar as relaes
com pases vizinhos, embora, do ponto de vista histrico, esses pases e o pas que
o interessava diretamente quase sempre formassem um todo. Esse considervel
peso do passado no desapareceu completamente; em parte, por inrcia  quando
se cai numa rotina, tende-se a permanecer nela, ainda que a contragosto , mas
tambm pelo fato de os arquivos de histria da frica, constitudos por relatrios
de escavaes ou textos e iconografia, estarem, para algumas regies, reunidos,
classificados e publicados segundo uma ordem arbitrria que no se aplica 
situao atual da frica, mas que  muito difcil de se questionar.
    Este volume da Histria Geral da frica, talvez mais ainda do que o volume
anterior, teve que se apoiar em suposies. O perodo que ele abrange  obscuro,
devido  escassez de fontes, em geral, e de fontes precisamente datadas, em
particular. Isso se aplica tanto s desequilibradas colees de fontes arqueolgicas
quanto s fontes escritas e figuradas, exceto no que diz respeito a algumas regies
relativamente privilegiadas, como o vale do Nilo e o Magreb.  essa falta de
bases documentais slidas que torna necessrio o recurso a suposies, uma vez
que fatos seguramente estabelecidos constituem excees.
    Um outro ponto deve ser enfatizado: as fontes arqueolgicas de que o
historiador dispe so bastante inadequadas. As escavaes no se distribuem
de maneira uniforme por todo o continente. Em outras partes no h a mesma
densidade de escavaes que encontramos principalmente ao longo da costa,
no interior da franja setentrional e, sobretudo, no vale do Nilo, na regio que se
estende do mar at a Segunda Catarata.
Introduo Geral                                                          XXXIII



   Infelizmente, essa falta de documentos arqueolgicos no pode ser suprida
pela narrativa de viajantes estrangeiros contemporneos dos eventos ou fatos que
compem este livro. A natureza hostil e a extenso do continente desencorajaram,
na Antiguidade, como depois, a penetrao de forasteiros. Notaremos que as
viagens de circunavegao contriburam muito para elucidar a histria da frica.
Pelo que se sabe at agora, a frica  o nico continente em relao ao qual isso
ocorreu (cf. captulos 18 e 22).
   As consideraes acima explicam por que a histria da frica, de -7000 a
+700, ainda consiste amplamente em suposies. No entanto, essas suposies
nunca so infundadas; baseiam-se em informaes reais, ainda que raras e
insuficientes. A tarefa daqueles que contriburam para este trabalho foi coletar,
examinar e avaliar essas fontes. Sendo especialistas nas regies cuja histria 
por mais fragmentria que seja  eles investigam, apresentam aqui a sntese
daquilo que pode ser legitimamente deduzido, a partir dos documentos de que
dispem. As suposies que apresentam, embora sujeitas a reexame quando se
puder contar com novas fontes, certamente proporcionaro estmulo e indicaro
linhas de pesquisa para os futuros historiadores.
   Entre as zonas nebulosas que ainda escondem de ns a evoluo histrica da
frica, talvez uma das mais densas seja a que envolve os primeiros habitantes
do continente. Mesmo hoje em dia pouco se sabe a respeito desses habitantes.
As vrias teses apresentadas  que frequentemente se apiam em um nmero
insuficiente de observaes cientificamente vlidas  so de difcil comprovao,
numa poca em que a antropologia fsica est em processo de rpida mudana.
O prprio "monogenismo" (cf. captulo 1), por exemplo, ainda  apenas uma
hiptese de trabalho. Alm disso, o enorme lapso de tempo transcorrido entre o
aparecimento de seres pr ou proto-humanos, descobertos no vale do Omo e em
Olduvai (cf. volume 1), e de seres de tipo humano bem definido, notadamente
na frica meridional, deve, infelizmente, levar-nos a considerar a ideia de
continuidade ininterrupta e evoluo in situ como simples ponto de vista, pelo
menos at que se obtenham provas ou se descubram elos intermedirios desse
processo.
   Reveste-se de grande importncia a estimativa da densidade populacional
da frica durante o perodo crucial que vai de -8000 a -5000, por ser este o
perodo de surgimento das culturas que mais tarde se diferenciariam. Uma alta
densidade populacional pode estimular o desenvolvimento da escrita, ao passo
que uma baixa densidade pode torn-lo intil. A originalidade do antigo Egito
em relao ao resto da frica no mesmo perodo talvez resida principalmente
no fato de que a alta densidade populacional observada na Antiguidade ao
XXXIV                                                                     frica antiga



longo das margens do Nilo, entre a Primeira Catarata e a poro meridional do
Delta, tenha, pouco a pouco, tornado necessrio o uso da escrita para coordenar
o sistema de irrigao, fundamental para a sobrevivncia dos povos a fixados.
Em contrapartida, o uso da escrita no foi essencial ao sul da catarata de Assu,
regio de baixa densidade populacional ocupada por pequenos grupos somticos
que se mantinham independentes uns dos outros. Como se v,  lamentvel
que a densidade populacional durante esse perodo permanea no mbito das
suposies.
    Finalmente, a ecologia, que sofreu considerveis alteraes tanto no espao
como no tempo, desempenhou um papel muito importante. A ltima fase mida
do Neoltico terminou por volta de -2400, durante o perodo histrico, quando
os faras da V dinastia reinavam no Egito. As condies climticas  e, portanto,
as condies agrcolas  existentes na aurora das primeiras grandes civilizaes
da frica no eram as mesmas que iriam prevalecer mais tarde, e isso deve
ser levado em conta quando se estudam as relaes dessas civilizaes com
os povos vizinhos. O meio ambiente de -7000 a -2400 - um perodo de 4600
anos, que representa mais da metade do perodo estudado neste volume  era
muito diferente daquele da segunda metade do III milnio. Este ltimo parece
ter sido muito semelhante ao meio ambiente atual, e marcou profundamente as
sociedades humanas que nele se desenvolveram. A vida em comunidade no  
e no pode ser  a mesma nas grandes zonas desrticas subtropicais do norte e
do sul e na floresta equatorial, nas cadeias de montanhas e nas bacias fluviais, nos
pntanos e nos grandes lagos. A influncia dessas grandes zonas ecolgicas foi
fundamental para o estabelecimento das rotas que permitiram o deslocamento
de um domnio a outro: do Magreb, da montanhosa Etipia ou do vale do Nilo
para as bacias centrais dos rios Congo, Nger e Senegal, por exemplo; ou, ainda,
da costa atlntica para o mar Vermelho e o oceano ndico. No entanto, tais
rotas so ainda muito pouco conhecidas. Supe-se que elas tenham existido;
isto , sua existncia  muito mais "presumida" do que efetivamente conhecida.
Um estudo arqueolgico sistemtico a esse respeito nos ensinaria muito sobre a
histria da frica. Na verdade, s poderemos empreender um estudo frutfero
das migraes entre -8000 e -2500  que se seguiram s grandes mudanas
climticas e alteraram profundamente a distribuio dos agrupamentos humanos
na frica  quando essas rotas forem descobertas e exploradas a fundo.
    At o momento, dispomos de pouqussimos pontos de referncia para
determinadas rotas.  at possvel que haja algumas totalmente desconhecidas
para ns. Um estudo das fotografias de satlites provavelmente traria novos
esclarecimentos sobre os principais eixos antigos de comunicao transafricana,
Introduo Geral                                                             XXXV



bem como sobre as rotas secundrias, no menos importantes. No entanto, ainda
no se empreendeu nenhum estudo sistemtico dessas fotografias. Um tal estudo
nos possibilitaria orientar e facilitar a verificao arqueolgica em campo, o que
seria essencial, entre outras coisas, para a avaliao das influncias recprocas
entre as principais reas culturais da Antiguidade. Talvez seja este o domnio
para o qual mais podero contribuir as pesquisas, no futuro.
    Como se v, os captulos do volume II da Histria Geral da frica constituem
pontos de partida para pesquisas futuras mais do que relatos de fatos bem
estabelecidos. Estes so, infelizmente, bastante raros, exceto para algumas regies
muito pequenas se comparadas  imensa extenso do continente africano.
    O vale do Nilo, do Bahr el-Ghazal, ao sul, at o Mediterrneo, ao norte, ocupa
um lugar muito especial na histria da frica antiga, devido a vrios fatores:
primeiro,  sua posio geogrfica; depois,  natureza particular de sua ecologia
em relao ao resto do continente; finalmente, e acima de tudo,  abundncia 
relativa, mas sem paralelo na frica  de fontes originais precisamente datadas,
que nos permitem acompanhar sua histria desde o fim do Neoltico  por volta
de -3000  at o sculo VII da Era Crist.


    Egito: posio geogrfica
    Em grande parte paralelo s costas do mar Vermelho e do oceano ndico, aos
quais tem acesso atravs de depresses perpendiculares ao curso do rio, o vale do
Nilo, ao sul do 8. paralelo norte at o Mediterrneo, abre-se amplamente tambm
para oeste, graas aos vales que comeam nas regies do Chade, Tibesti e Ennedi
e terminam no prprio Nilo. Finalmente, a larga extenso do Delta, os osis da
Lbia e o istmo de Suez do-lhe amplo acesso ao Mediterrneo. Dessa maneira,
aberto para leste e oeste, para o sul e o norte, o corredor do Nilo  uma zona de
contatos privilegiados no apenas entre as regies africanas que o margeiam, mas
tambm com os centros mais distantes das civilizaes antigas da pennsula Ar-
bica, do oceano ndico e do mundo mediterrneo, tanto oriental como ocidental.
    Entretanto a importncia dessa posio geogrfica variou ao longo do tempo.
Na frica, o final do Neoltico caracterizou-se por uma fase mida, que no
hemisfrio norte durou at -2300, aproximadamente. Durante esse perodo,
que se estendeu do VII ao III milnio antes da Era Crist, as regies a leste e a
oeste do Nilo desfrutaram de condies climticas favorveis  fixao humana.
Consequentemente, os contatos e relaes entre o leste e o oeste do continente
foram to importantes quanto os estabelecidos entre o norte e o sul.
XXXVI                                                                   frica antiga



    Por outro lado, a partir de -2400, o ressecamento da parte da frica
compreendida entre os paralelos 13 e 15, ao norte, fez com que o vale do Nilo
se tornasse a principal rota de comunicao entre a costa mediterrnea do
continente e o que hoje se designa como frica ao sul do Saara. Era atravs do
vale do Nilo que matrias-primas, objetos manufaturados e, sem dvida, ideias
transitavam do norte para o sul e vice-versa,
     evidente que, devido s variaes climticas, a posio geogrfica do mdio
vale do Nilo, como a do Egito, no teve, no perodo entre -7000 e -2400, a
mesma importncia, ou, mais exatamente, o mesmo impacto que veio a ter
depois dessa poca. Durante esse tempo, os grupos humanos e as culturas
puderam deslocar-se livremente, pelo hemisfrio norte, entre o leste e o oeste,
assim como entre o norte e o sul. Esse foi o perodo primordial da formao e da
individualizao das culturas africanas. Foi tambm o perodo em que as relaes
entre leste e oeste, entre o vale do Nilo e o Oriente Mdio, de um lado, e entre a
frica ocidental e a oriental, de outro, foram mais fceis. De -2400 at o sculo
VII da Era Crist, entretanto, o vale do Nilo tornou-se a rota privilegiada entre
o norte e o sul do continente. Foi atravs desse vale que se realizaram os vrios
tipos de intercmbio entre a frica negra e o Mediterrneo.


   Fontes para a histria do vale do Nilo na Antiguidade
    A importncia e a situao privilegiada do vale do Nilo devem-se  posio
que ocupa na poro nordeste do continente. O vale teria permanecido apenas
um tema intelectualmente estimulante, servindo, no mximo, como uma
introduo  pesquisa histrica, se no fosse tambm a regio mais rica da frica
em fontes histricas antigas. Essas fontes nos permitem controlar e avaliar o
papel dos fatores geogrficos na histria da frica como um todo, a partir de
-5000. Permitem-nos tambm alcanar um conhecimento acurado dos eventos
histricos do Egito propriamente dito, bem como, mais especialmente, fazer
uma ideia precisa da cultura material, intelectual e religiosa do baixo e mdio
vale do Nilo, at os pntanos do Bahr el-Ghazal.
    As fontes de que dispomos so de natureza arqueolgica  portanto, mudas,
pelo menos aparentemente  e literria. As primeiras, especialmente para os
perodos mais antigos, s foram exploradas e organizadas recentemente. At
o momento, elas no apenas so incompletas e irregulares como tambm tm
sido pouco ou mal utilizadas. As fontes literrias, por outro lado, tm uma longa
tradio.
Introduo Geral                                                                                          XXXVII



   Na verdade, muito antes de Champollion, o misterioso Egito j despertava
curiosidade. No perodo arcaico, no sculo VI antes da Era Crist, os sucessores
dos pr-helenos j haviam chamado a ateno para a diferena entre os seus
costumes e crenas e os do vale do Nilo. Graas a Herdoto, essas observaes
chegaram at ns. Com o objetivo de compreender melhor seus novos sditos,
os reis ptolomaicos, surpreendidos pela originalidade da civilizao egpcia,
patrocinaram a compilao de uma histria do Egito faranico, no sculo III
antes da Era Crist, abordando aspectos polticos, religiosos e sociais. Mneton,
egpcio de nascimento, foi encarregado de escrever essa histria geral do Egito.
Tinha acesso aos arquivos antigos e sabia l-los. Se seu trabalho tivesse chegado




figura 1 O Nilo, fotografado por um satlite Landsat em rbita a 920 km da Terra (do artigo de Farouk
El-Baz, "Le Courrier de l'Unesco", jul. 1977, foto Nasa, EUA). O conjunto de sessenta fotografias do Egito
tiradas pelo satlite mostra nitidamente (em alto contraste) a estreita faixa frtil constituda pelo vale do Nilo,
bem como o tringulo do Delta e o osis do Fayum. O deserto ocupa dois teros da imagem, a oeste do Nilo.
Na parte inferior, podem-se distinguir fileiras de dunas desenhando curvas paralelas.
XXXVIII                                                                frica antiga



at ns na ntegra, teria evitado muitas incertezas. Infelizmente desapareceu
quando a biblioteca de Alexandria foi queimada. Os excertos preservados em
vrias compilaes, frequentemente reunidos para fins apologticos, fornecem-
nos, no obstante, um slido esquema da histria egpcia. Na verdade, as 31
dinastias "manetonianas" continuam sendo, at hoje, a base da cronologia relativa
do Egito.
   O fechamento dos ltimos templos egpcios sob Justiniano I, no sculo VI da
Era Crist, levou ao abandono das formas faranicas de escrita  hieroglficas,
hierticas ou demticas. Apenas a linguagem falada sobreviveu, no copta; as
fontes escritas caram gradualmente em desuso. Foi s em 1822, quando Jean-
Franois Champollion (1790-1832) decifrou a escrita hieroglfica, que se pde
novamente ter acesso aos documentos antigos, escritos pelos prprios egpcios.
   Essas fontes literrias egpcias antigas devem ser utilizadas com reservas,
pois tm uma natureza particular. Frequentemente foram elaboradas com um
propsito especfico: enumerar as realizaes de um fara, para mostrar que ele
cumprira plenamente sua misso terrestre de manter a ordem universal desejada
pelos deuses (Mat) e de resistir s foras do caos que cada vez mais ameaavam
essa ordem. Podiam tambm ter o propsito de garantir eterna devoo e
lembrana aos faras que fizeram por merecer a gratido das geraes seguintes.
Nessas duas categorias de documentos enquadram-se, respectivamente, os longos
textos e as imagens histricas que adornam certas partes dos templos egpcios,
e as venerveis listas de ancestrais, como aquelas entalhadas nos templos em
Carnac, durante a XVIII dinastia, e em Abidos, durante a XIX.
   Para compilar listas reais como as mencionadas acima, os escribas dispunham
de documentos redigidos por sacerdotes ou por funcionrios reais, o que sugere a
existncia de arquivos oficiais bem organizados. Infelizmente, apenas dois desses
documentos chegaram at ns, e, ainda assim, incompletos. So eles a Pedra de
Palermo e o Papiro real de Turim.
   A Pedra de Palermo (assim chamada porque o maior fragmento do texto 
conservado no museu dessa cidade da Siclia)  uma placa de diorito gravada
nas duas faces, com os nomes de todos os faras que reinaram no Egito desde
o comeo da V dinastia, por volta de -2450. A partir da III dinastia, a Pedra
de Palermo arrola no s os nomes dos soberanos na ordem de sucesso, mas
tambm os principais eventos de cada reinado ano a ano; tais listas constituem
verdadeiros anais.  lamentvel que esse documento incomparvel esteja
quebrado, tendo chegado incompleto at ns.
   O Papiro de Turim, preservado no museu dessa cidade, no  menos
importante, embora consista apenas em uma lista de governantes, com seus
Introduo Geral                                                          XXXIX



protocolos completos e o nmero de anos, meses e dias de seus reinados, em
ordem cronolgica. Fornece uma lista completa de todos os faras, desde os
primeiros tempos at aproximadamente -1200. Embora tenha sido descoberto
intacto no sculo XIX, este documento foi manuseado com tanto descuido por
ocasio do transporte que se despedaou, tendo sido necessrio anos de trabalho
para a sua restaurao. Mesmo assim, existem ainda hoje muitas lacunas. Uma
das peculiaridades do Papiro de Turim  o fato de agrupar os faras em sries.
No final de cada srie, o escriba acrescentou o nmero total de anos de reinado
dos faras de cada grupo. Temos aqui, sem dvida, a fonte das dinastias de
Mneton.


    Cronologia egpcia
    A Pedra de Palermo, o Papiro de Turim e as listas reais dos monumentos
tornam-se ainda mais importantes para a histria do Egito se levarmos em
conta que os egpcios no adotavam eras contguas ou cclicas, como as de
nossos sistemas  antes ou depois de Cristo, da Hgira ou das Olimpadas.
Seu cmputo baseia-se na pessoa do prprio fara; cada data  estabelecida
tendo como referncia o fara que reinava no tempo em que o documento
foi redigido. Por exemplo, uma estela poder trazer a data: "Ano do fara N,
segundo ms de Akhet (estao), oitavo dia", mas a contagem comea novamente
a partir de 1 quando o governante seguinte sobe ao trono. Esse costume explica
a importncia de se conhecerem os nomes de todos os faras que reinaram, e a
durao de cada reinado, para estabelecer a cronologia. O Papiro de Turim e a
Pedra de Palermo nos teriam fornecido essas informaes essenciais se tivessem
permanecido intactos. Infelizmente isso no aconteceu, e os outros documentos
que preenchem as lacunas dessas duas fontes principais ainda no so suficientes
para que tenhamos uma lista completa e exata dos faras do Egito. No s a
ordem de sucesso continua controversa para alguns perodos em que o Papiro de
Turim e a Pedra de Palermo no fornecem referncias, como a prpria durao
exata do reinado de alguns soberanos ainda  desconhecida. Na melhor das
hipteses, temos apenas a mais antiga data conhecida de um determinado fara,
mas seu reinado pode ter durado at muito depois da construo do monumento
que traz essa data.
    Mesmo com essas lacunas, a soma de todas as datas fornecidas pelas fontes
de que dispomos perfaz um total de mais de 4 mil anos. Essa  a cronologia
longa, aceita pelos primeiros egiptlogos at 1900. Percebeu-se, ento, que
XL                                                                     frica antiga



uma tal extenso de tempo era inadequada: estudos de textos e monumentos
mostraram que em certos perodos vrios faras reinaram ao mesmo tempo
(havendo, portanto, dinastias paralelas) e como por vezes ocorria, um fara podia
tomar um de seus filhos como corregente. Dado que cada governante datava
seus monumentos tendo como referncia seu prprio reinado, havia algumas
superposies; somando-se os reinados das dinastias paralelas e aqueles dos
corregentes aos reinados dos soberanos oficiais, chegava-se, necessariamente, a
um nmero total muito superior ao real.
    Provavelmente teria sido impossvel resolver esse problema se uma
peculiaridade do antigo calendrio faranico no nos tivesse fornecido uma
referncia cronolgica segura, por estar esse calendrio relacionado a um
fenmeno astronmico permanente, cujo clculo era fcil estabelecer. Referimo-
nos ao aparecimento da estrela Stis  a nossa Sirius  coordenado com o nascer
do Sol, na latitude de Helipolis-Mnfis.  a isto que se chama "nascer helaco
de Stis", fenmeno que foi observado e anotado na Antiguidade pelos egpcios.
Essas observaes forneceram as datas "sotacas", nas quais se baseia atualmente
a cronologia egpcia.
    No princpio, os egpcios, como a maioria dos povos da Antiguidade, parecem
ter utilizado o calendrio lunar, principalmente para estabelecer as datas das
festas religiosas. Mas, ao lado desse calendrio astronmico, usavam um outro.
Sendo os egpcios um povo campons, seu dia-a-dia era fortemente marcado
pelo ritmo da vida agrcola: semeadura, maturao, colheita, preparao de novas
sementes. Ora, no Egito, o ritmo agrcola do vale  condicionado pelo Nilo, e
suas mudanas  que fixam as datas das vrias operaes. Assim, no h nada
de surpreendente no fato de que, paralelamente ao calendrio religioso lunar, os
antigos habitantes do vale utilizassem tambm um calendrio natural baseado
na repetio peridica do evento mais importante para a sua subsistncia: as
cheias do Nilo.
    Nesse calendrio, a primeira estao do ano, Akhet em egpcio, marcava o
comeo da enchente. As guas do rio subiam pouco a pouco e cobriam a terra
ressecada pelo vero trrido. Os campos permaneciam encharcados durante
quatro meses aproximadamente. Na estao seguinte, a terra, que pouco a pouco
emergia da inundao, ficava pronta para a semeadura. Era a estao Peret 
literalmente, "sair" , termo que, sem dvida, faz aluso  terra que "sai" da
gua e, ao mesmo tempo,  "sada", ao despontar da vegetao. Terminada a
semeadura, o campons aguardava a germinao e a maturao dos gros. Na
terceira e ltima estao, os egpcios colhiam e estocavam a colheita. Depois
Introduo Geral                                                                               XLI




figura 2 A Pedra de Palermo. (Fonte: A. H. Gardiner, "The Egypt of the Pharaohs", Oxford University
Press, 1961.)
XLII                                                                                  frica antiga




figura 3 O Papiro de Turim. (Fonte: A. H. Gardiner, "The Royal Canon of Turin", Oxford, 1954. Foto
Griffith Institute, Ashmolean Museum, Oxford.)



disso, tinham apenas que esperar a nova enchente e preparar os campos para a
sua chegada. Essa era a estao Shemu.
     possvel  e mesmo muito provvel  que, por longos anos, os egpcios
tenham-se contentado com esse calendrio. O ano, ento, comeava quando as
guas subiam. A estao Akhet, assim iniciada, durava at a retrao das guas,
que marcava o incio da estao Peret. Esta, por sua vez, terminava quando os
gros amadurecidos estavam prontos para a colheita, marcando o comeo da
estao Shemu, que terminava somente com o incio da nova cheia. Era pouco
significativo para o campons que uma estao fosse mais longa do que a outra;
o que importava era a organizao do trabalho, que variava de acordo com as
trs estaes.
    Em que momento e por que razes os egpcios passaram a ligar a enchente
do Nilo ao aparecimento simultneo do Sol e da estrela Stis no horizonte? Isso
certamente ser difcil de determinar. No h dvida de que o estabelecimento
dessa relao foi resultado de observaes repetidas e, ao mesmo tempo, de
profundas crenas religiosas. A estrela Stis (Sirius, em egpcio Sepedet, "a
Introduo Geral                                                             XLIII



Pontuda") veio, mais tarde, a ser identificada com sis, a cujas lgrimas se
atribuam as enchentes do Nilo. Talvez tenhamos aqui o reflexo de uma crena
religiosa muito antiga, associando o aparecimento da estrela divinizada com a
subida das guas. Quaisquer que sejam as razes, ao vincular o comeo da cheia,
e, consequentemente, o primeiro dia do novo ano, a um fenmeno astronmico,
os egpcios forneceram-nos os meios para estabelecer pontos de referncia
concretos para a sua longa histria.
    Na latitude de Mnfis, o suave incio da enchente ocorria em meados de
julho. Poucos anos de observao parecem ter sido suficientes para mostrar aos
egpcios que o incio da enchente tinha uma recorrncia mdia de 365 dias. A
partir da, eles dividiram seu ano de trs estaes empricas em um ano de doze
meses de trinta dias cada um. Atriburam, assim, quatro meses para cada estao.
Acrescentando cinco dias suplementares (em egpcio, os cinco heryu renepet, os
cinco a mais  acrescentados  ao ano), que os gregos chamavam de epagmenos,
os escribas obtiveram um ano de 365 dias, que era, de longe, o mais adequado
de todos os adotados na Antiguidade.
    No entanto, no era perfeito. De fato, a Terra completa a sua translao em
torno do Sol no em 365 dias, mas em 365 dias e um quarto. A cada quatro
anos, o ano oficial egpcio se atrasava um dia em relao ao ano astronmico,
e somente a cada 1460 anos  o perodo sotaco  os trs fenmenos (nascer do
Sol, nascer de Stis e incio da cheia) ocorriam simultaneamente no primeiro
dia do ano oficial.
    Essa defasagem gradual entre os dois anos teve duas consequncias
importantes: primeiro, permitiu que os modernos astrnomos determinassem
quando os egpcios adotaram o seu calendrio, tendo essa data que coincidir,
necessariamente, com o incio de um perodo sotaco. A coincidncia dos
fenmenos  incio da enchente e nascer helaco de Stis  ocorreu trs vezes
nos cinco milnios anteriores  Era Crist em -1325/-1322, em -2785/-2782 e
em -4245/-4242. Por muito tempo, acreditou-se que os egpcios tinham adotado
seu calendrio entre -4245 e -4242. Atualmente, admite-se que isso s ocorreu
no incio do perodo sotaco seguinte, isto , entre -2785 e -2782.
    A segunda consequncia da adoo, pelos egpcios, do calendrio solar fixo foi
um distanciamento gradual entre as estaes naturais, determinadas pelo prprio
ritmo do Nilo, e as estaes oficiais, adotadas pelo governo, que se baseavam em
um ano de 365 dias. Essa defasagem de um dia a cada quatro anos  no incio,
quase imperceptvel  aumentava pouco a pouco para uma semana, um ms, dois
meses, at que o Shemu do calendrio oficial casse no meio da estao natural
Peret. Um tal descompasso no poderia deixar de chamar a ateno dos escribas
XLIV                                                                    frica antiga



egpcios: h textos que apontam oficialmente a diferena entre o verdadeiro
nascer helaco de Stis e o comeo do ano oficial. Essas observaes permitem-
nos estabelecer com uma aproximao de quatro anos as seguintes datas:
      o reinado de Sesstris III deve incluir os anos -1882/-1879;
      o ano de Amenfis I cai entre os anos -1550 e -1547;
      o reinado de Tutms III inclui os anos -1474/-1471.
   Combinando essas datas com as datas relativas fornecidas pelas fontes de que
dispomos  o Papiro de Turim, a Pedra de Palermo e os monumentos datados.
das vrias pocas , pudemos estabelecer uma cronologia bsica, a mais exata
de todas as do Oriente antigo. Ela estabelece o incio da histria do Egito em
-3000. As grandes divises de Mneton podem ser datadas como segue:
      III  VI dinastia (Antigo Imprio): aproximadamente -2750/-2200;
      VII  X dinastia (Primeiro Perodo Intermedirio): -2200/-2150;
      XI  XII dinastia (Mdio Imprio): -2150/-1780;
      XIII  XVII dinastia (Segundo Perodo Intermedirio): -1780/-1580;
      XVIII  XX dinastia (Novo Imprio): -1580/-1080;
      XXI  XXIII dinastia (Terceiro Perodo Intermedirio): -1080/-730;
      XIV  XXX dinastia (Baixa poca): -730/-330.
   A conquista de Alexandre da Macednia, em -332, marca o final da histria
do Egito faranico e o incio do perodo helenstico (cf. captulo 6).


   O meio ambiente niltico
    Talvez seja interessante citar aqui uma frase escrita por Herdoto (II, 35)
no final de sua descrio do Egito: "No s o clima do Egito  peculiar a esse
pas, e o comportamento do Nilo diferente daquele de outros rios em qualquer
outro lugar, mas tambm os prprios egpcios em seus usos e costumes parecem
ter invertido as prticas comuns da humanidade" (a partir da traduo de A.
de Slincourt). Ao escrever essa frase, Herdoto naturalmente se referia apenas
aos pases que margeiam o Mediterrneo. No entanto  verdade que, de todos
os pases da frica, o Egito  o que possui o meio ambiente mais caracterstico,
devido ao regime do Nilo. Sem o rio, o Egito no existiria. Isso foi dito e redito
mil vezes desde Herdoto: trata-se de uma verdade bsica.
    De fato, as condies rigorosas que o rio impunha s sociedades humanas que
viviam s suas margens, e que a ele deviam sua subsistncia, s foram reconhecidas
Introduo Geral                                                              XLV



pouco a pouco. Tornaram-se inelutveis apenas quando a civilizao egpcia
tinha mais de 700 anos. Os grupos humanos que constituram essa civilizao
tiveram tempo, portanto, para se acostumar gradualmente s exigncias impostas
pela ecologia do Nilo.
    A partir do final do Neoltico, entre -3300 e -2400 aproximadamente,
o nordeste da frica, incluindo o Saara, desfrutou de um sistema climtico
relativamente mido. Nesse perodo, o Egito no dependia exclusivamente
do Nilo para sobreviver. A estepe ainda se estendia a leste e a oeste do vale,
abrigando caa abundante e favorecendo uma criao de gado considervel. A
agricultura era, ento, apenas um dos componentes da vida cotidiana, competindo
em importncia com a criao de gado e mesmo com a caa, conforme se atesta
pela Pedra de Palermo. Esta nos leva a inferir que o clculo dos impostos devidos
 autoridade central pelos notveis do regime baseava-se no no rendimento das
terras que possuam, mas no nmero de cabeas de gado a cargo de seus pastores.
A cada dois anos, fazia-se um censo dessa riqueza bsica. As cenas que decoram
as mastabas do Antigo Imprio, do final da IV at a VI dinastia (-2500 a -2200),
mostram claramente que a criao de gado ocupava um lugar essencial na vida
dos egpcios daquele tempo.
    Assim, podemos supor que a busca do controle do rio pelo homem a realizao
fundamental da civilizao egpcia, pois que possibilitou seu florescimento  foi
provavelmente estimulada, no princpio, no pelo desejo de fazer melhor uso das
cheias para a agricultura, mas, especialmente, pela necessidade de evitar os danos
provocados pelas inundaes. Muitas vezes se esquece de que o transbordamento
do Nilo no  apenas benfico; pode acarretar calamidades. Foi sem dvida em
funo dessa ameaa que os habitantes do vale aprenderam a construir diques
e barragens para proteger suas povoaes, e a cavar canais para drenar seus
campos. Dessa maneira, foram lentamente adquirindo uma experincia que
passou a ser vital, na medida em que o clima da frica, entre os paralelos 13 e
15, ao norte, acabou por tornar-se to seco quanto  hoje, transformando em
deserto absoluto as vizinhanas do vale do Nilo, tanto no Egito como na Nbia.
A partir de ento, toda a vida do vale passou a ser estritamente condicionada
pelas cheias do rio.
    Pelo emprego das tcnicas de construo de diques e escavao de canais,
aperfeioadas ao longo dos sculos, os egpcios pouco a pouco desenvolveram
o sistema de irrigao por bacias (hods), garantindo, assim, no apenas sua
sobrevivncia em um clima cada vez mais desrtico, mas ainda a possibilidade
de expanso (cf. captulos 4 e 8). O princpio desse sistema era simples, mas sua
operao era complexa e exigia sincronizao. Utilizava duas elevaes naturais
XLVI                                                                     frica antiga



formadas pelo Nilo ao longo de suas margens, no decorrer de milhares de cheias,
ano aps ano. Essas defesas naturais, gradualmente reforadas pelos habitantes
das margens para se defender das cheias repentinas, eram suplementadas por
aterros de reteno, verdadeiras barragens artificiais que, sem dvida, tiveram
origem naquelas construdas pelos antigos habitantes para proteger suas moradias
quando as guas do rio subiam.
    Ao mesmo tempo, foram construdos diques paralelos ao Nilo, que acabaram
por dividir o Egito em uma srie de bacias (da o nome do sistema). O solo
dessas bacias era nivelado, de maneira que, quando o rio subisse, a bacia ficasse
inteiramente submersa. Canais de drenagem eram abertos nos aterros paralelos
ao rio para permitir que as bacias se enchessem. Depois de permanecer por
algum tempo, para impregnar os campos, a gua era devolvida ao rio. Alm
disso, um sistema de canais utilizando o declive natural do vale levava gua da
montante para as reas mais baixas localizadas na jusante do rio, de maneira a
irrigar terras que mesmo uma enchente muito grande no alcanaria.
    Esse sistema, que os egpcios gradualmente aprenderam por experincia
prpria, apresentava as vantagens de assegurar uma distribuio equitativa de
gua e matria orgnica por toda a terra cultivvel, irrigar aquelas partes do
vale que, de outra maneira, teriam permanecido estreis e, finalmente, e acima
de tudo, controlar o Nilo e suas enchentes. O preenchimento das bacias e o
desvio da gua de montante para jusante atravs de canais, tinham por efeito
moderar a correnteza do rio, evitando as consequncias desastrosas de uma
repentina liberao de milhes de metros cbicos de gua, que destruam tudo
 sua passagem. A diminuio da correnteza, por sua vez, facilitava a deposio
do limo, do qual a gua se encontrava carregada.
    No  exagero dizer que esse sistema nico de irrigao estava na prpria raiz
do desenvolvimento da civilizao egpcia. Ele explica como a engenhosidade
humana conseguiu progressivamente superar grandes dificuldades e modificar
a ecologia natural do vale.
    A nova ecologia, resultante da interveno humana, envolvia um trabalho
considervel. Depois de cada enchente, era necessrio reparar os aterros, reforar
os diques e limpar os canais. Era uma tarefa coletiva contnua que, de incio,
provavelmente se realizava ao nvel de cada povoao. No perodo histrico,
esse trabalho era administrado e supervisionado pelo governo central. Se este
ltimo deixasse de garantir, no devido tempo, a manuteno de todo o sistema, a
enchente seguinte poderia destru-lo, e o vale retomaria ao seu estado original. No
Egito, a ordem poltica condicionou amplamente a ordem natural. Para assegurar
a subsistncia de todos no era suficiente que o sistema de bacias funcionasse
                                                                                                                   Introduo Geral
                                                                                                                   XLVII
figura 4   Cheias sazonais do Nilo. (Fonte: Jacques Besanon, "L'Homme et le Nil", Paris, Gallimard, NRF, p.79.)
XLVIII                                                                  frica antiga



regularmente. Uma das caractersticas das cheias do Nilo  o fato de que seu
volume varia enormemente de um ano para o outro. As cheias podem ser fortes
demais, destruindo tudo  sua passagem, ou fracas demais, impossibilitando uma
irrigao satisfatria. Por exemplo, no perodo compreendido entre 1871 e 1900,
apenas a metade das enchentes ocorridas j teria sido suficiente para suprir as
necessidades do Egito.
    A experincia logo ensinou os egpcios a desconfiar da inconstncia do rio.
Para compensar a escassez peridica, era necessrio estocar cereais para alimentar
a populao e  mais importante ainda com vistas ao futuro garantir quantidade
suficiente de sementes para a semeadura seguinte, quaisquer que fossem as
circunstncias. Esses estoques de reserva eram fornecidos pelo governo central,
graas ao duplo celeiro real, que estocava cereais em armazns distribudos por
todo o pas. Limitando o consumo em perodos de abundncia e estocando o
mximo possvel para se precaver contra cheias insuficientes ou excessivas, o
governo central passou a controlar, por assim dizer, a ordem natural e veio a
desempenhar um papel muito importante.
    Mudando profundamente as condies impostas pela natureza, o homem
desempenhou um papel essencial na emergncia e expanso da civilizao no
vale do Nilo. O Egito no  apenas uma ddiva do Nilo: , acima de tudo, uma
criao do homem. Da a importncia dos problemas antropolgicos do vale.


   A ocupao do vale do Nilo
    J no Paleoltico, o homem ocupava, se no o vale propriamente dito, pelo
menos sua vizinhana imediata e em especial os terraos que o dominavam. A
alternncia de perodos midos e secos durante o Paleoltico e o Neoltico (cf.
volume I) alterava inevitavelmente a densidade populacional, que ora aumentava,
ora diminua. Mas o fato  que, por mais que recuemos no tempo, o Homo sapiens
sempre habitou o Egito.
    A que raa ele pertencia? Poucos problemas antropolgicos levantaram
discusses to apaixonadas. No entanto esse problema no  novo. Em 1874 j se
discutia se os antigos egpcios eram "brancos" ou "negros". Um sculo depois, um
simpsio promovido pela Unesco no Cairo mostrou que a discusso no estava
encerrada, e era provvel que no se esgotasse to cedo. No  fcil encontrar
uma definio de "negro", do ponto de vista fsico, que seja aceitvel para todos.
Recentemente, um antroplogo levantou dvidas sobre a possibilidade de se
encontrarem meios efetivos para determinar a raa a que um esqueleto pertence
Introduo Geral                                                              XLIX



 pelo menos no que se refere a restos humanos muito antigos, como os do
Paleoltico. Os critrios tradicionais adotados pelos antroplogos fsicos  ndice
facial, comprimento dos membros, etc.  atualmente j no so aceitos por todos,
e, como os antigos, voltamos a definir "negro" pelo tipo de cabelo e cor da pele
 medida cientificamente,  verdade, pela proporo de melanina. Contudo, o
valor desses ndices  posto em dvida por alguns. Nesse ritmo, depois de haver
perdido, ao longo dos anos, a prpria noo de raa "vermelha", corremos srios
riscos de sermos obrigados a abandonar a noo de raa "branca" e raa "negra".
De qualquer modo,  muito duvidoso que os habitantes que introduziram a
civilizao no vale do Nilo tenham pertencido a uma raa nica e pura. A
prpria histria do povoamento do vale refuta essa possibilidade.
    O homem no penetrou repentinamente em um vale vazio ou habitado
unicamente por animais selvagens. Estabeleceu-se na regio gradualmente,
ao longo de milhares de anos,  medida que a prpria densidade dos grupos
humanos ou as variaes climticas obrigaram-no a buscar novos recursos
ou maior segurana. Devido  sua posio, no ngulo nordeste do continente
africano, era inevitvel que o vale do Nilo como um todo e o Egito, em particular,
se tornassem o ponto de chegada das correntes migratrias oriundas no somente
da frica, mas tambm do Oriente Mdio, e mesmo da Europa. Portanto, no
 de surpreender que os antroplogos acreditem ter podido identificar, entre os
muitos esqueletos nilticos antigos, representantes das raas de Cro-Magnon,
armenoides, negroides, leucodrmicos, etc., embora esses termos devam ser
aceitos com reservas. Se algum dia existiu uma raa egpcia  e esta  uma
questo aberta , ela foi o resultado de miscigenaes, cujos elementos bsicos
variaram no tempo e no espao. Isso poderia ser verificado, se fosse possvel obter
um nmero suficiente de restos humanos para cada um dos perodos histricos
e para as diferentes regies do vale  o que est longe de ser o caso.
    No entanto, um fato  inegvel: a presena persistente, no Egito e na Nbia,
de um determinado tipo fsico que no se poderia definir como raa, uma vez
que, conforme seja encontrado no Alto Egito ou no Baixo Egito, apresenta
caractersticas ligeiramente diferentes. De cor mais escura no sul que no norte,
esse tipo , de maneira geral, mais escuro que no resto da bacia mediterrnea,
incluindo o norte da frica. O cabelo  preto e encaracolado; a face, arredondada
e imberbe, era, no Antigo Imprio, ornada s vezes por um bigode. Em geral
bastante esguio,  o tipo humano que conhecemos atravs dos afrescos, baixos-
relevos e esttuas dos faras; no nos devemos esquecer de que se tratava
efetivamente de retratos, tal como exigiam as crenas funerrias dos egpcios, j
que era o prprio indivduo, e no uma noo abstrata, quem sobrevivia  morte.
L                                                                         frica antiga



    Seria fcil, naturalmente,  selecionando determinados retratos e no
levando em conta a totalidade daqueles que chegaram at ns  atribuir o tipo
egpcio a uma raa particular; igualmente fcil seria, no entanto, escolher outros
exemplos que negassem essas concluses. De fato, qualquer pessoa pode ver que
os indivduos representados pela arte egpcia so os mais variados possveis, com
seus "perfis retos, perfis prognatas, algumas vezes com as mas do rosto salientes,
como no caso de Sesstris III, lbios carnudos, frequentemente encurvados; por
vezes com nariz levemente adunco (Hemeomu, Ppi I, Gamal Abdel Nasser),
mais frequentemente com um nariz grande e reto como o de Qufren e, no sul,
particularmente, com nariz chato e lbios mais grossos" ( Jean Yoyotte).
    Essa variedade mostra que, no vale do Nilo, estamos lidando com um tipo
humano, e no com uma raa; um tipo que se constituiu gradualmente, tanto
pelos hbitos e condies de vida peculiares ao vale, como pela miscigenao
da qual  produto. Um exemplo notvel disso  a esttua do Cheik-el-Beled,
um retrato vivo do prefeito da aldeia de Sacar na poca em que a esttua, com
mais de 4 mil anos, foi descoberta.  mais do que provvel que a estirpe africana,
negra ou clara, tenha predominado no antigo Egito; no se pode, contudo, ir
mais alm no atual estgio dos nossos conhecimentos.


    Escrita e meio ambiente
    O Egito foi o primeiro pas da frica a fazer uso da escrita, a julgar pelo
emprego, no sistema hieroglfico, de pictogramas representando objetos que
estavam fora de uso havia muito tempo no incio da poca histrica.  possvel
situar essa inveno no perodo amratiense, tambm chamado Nagada I (cf.
volume I), isto , em torno de -4000, de acordo com as datas sugeridas pelo
carbono 14. Assim,  um dos mais antigos sistemas de escrita de que se tem
conhecimento. Desenvolveu-se muito rapidamente, pois j aparece constitudo
na paleta de Narmer, o primeiro monumento histrico egpcio, que pode
ser datado de -3000. Alm disso, a fauna e a flora utilizadas nos signos so
essencialmente africanas.
    A escrita egpcia  fundamentalmente pictogrfica, como muitas escritas
antigas, mas, enquanto na China e na Mesopotmia, por exemplo, os sinais
pictogrficos originais evoluram rapidamente para formas abstratas, o Egito
permaneceu fiel ao seu sistema at o final de sua histria.
    Todos os objetos ou seres vivos que pudessem ser desenhados eram usados
como sinais ou caracteres na escrita egpcia: para escrever a palavra "arpo" ou
Introduo Geral                                                                  LI



"peixe" bastava ao escriba desenhar um arpo ou um peixe. So os chamados
signos-palavra, porque um nico signo  suficiente para escrever a palavra
inteira. Este princpio permaneceu em uso durante toda a civilizao faranica,
o que possibilitou que os escribas criassem tantos signos-palavra quantos
fossem necessrios para denotar seres ou objetos desconhecidos no tempo
em que o sistema de escrita foi criado; assim, por exemplo, "cavalo" e "carro".
No sistema puramente pictogrfico, aes tambm podem ser representadas
atravs de desenhos. Para escrever os verbos "correr" ou "nadar", o escriba deveria
simplesmente desenhar um indivduo correndo ou nadando.
    No entanto, apesar de toda a sua engenhosidade, o sistema pictogrfico no
se prestava  representao de termos abstratos, como "amar", "lembrar" ou
"tornar-se". Para superar essa dificuldade, os egpcios teriam que ultrapassar o
estdio da pura pictografia. Eles o fizeram empregando dois outros princpios: a
homofonia e a ideografia. Foi o uso simultneo desses trs princpios  pictografia
pura, homofonia e ideografia  que tornou to difcil, na atualidade, a decifrao
dos hierglifos. Na escrita egpcia, alguns signos so lidos foneticamente, outros
no: servem apenas para precisar o som ou o significado da palavra.
    O princpio da homofonia  simples: por exemplo, na linguagem falada a
palavra "tabuleiro de xadrez" era pronunciada men. Graas a esse princpio, o
signo pictogrfico representando um tabuleiro de xadrez poderia ser utilizado,
conforme se desejasse, tanto para significar o prprio objeto como para escrever
foneticamente todos os "homfonos", isto , todas as palavras cuja pronncia
fosse men, entre elas o termo abstrato "ser estvel". Da mesma forma, o signo
de "enxada" era pronunciado mer, podendo, portanto, ser utilizado para escrever
o verbo "amar", cuja pronncia era mer. Nesses casos, os signos-palavra originais
tornaram-se signos fonticos. Como o nmero de homfonos simples, palavra por
palavra  do tipo men, "tabuleiro de xadrez", e men, "ser estvel", ou mer, "enxada",
e mer, "amar" ,  relativamente pequeno, a inovao teria oferecido vantagens
bastante limitadas se os escribas no tivessem estendido seu emprego  formao
de palavras complexas. Por exemplo, para escrever o verbo abstrato "estabelecer",
que era pronunciado semen e no possua homfonos simples, empregavam
dois signos-palavra com valor fontico: um pedao de tecido dobrado, que se
pronunciava (e), e men, "tabuleiro de xadrez". Colocados lado a lado, esses dois
signos eram lidos foneticamente s(e) + men = semen e a combinao significava
"estabelecer", "fundar". Tendo chegado a esse estgio, o escriba egpcio tinha
 sua disposio um instrumento capaz de expressar foneticamente, atravs
de imagens, qualquer palavra da lngua, por mais complexa que fosse. Bastava
decompor a palavra em tantos sons quantos se pudesse transcrever por meio de
LII                                    frica antiga



Figura 5 A Paleta em xisto de
Narmer, I dinastia, face anterior
e posterior.  dos mais antigos
testemunhos da escrita egpcia. O
protocolo do rei, simbolizado pelo
peixe ncr e o cinzel mr, ocupa o
retngulo entre as duas cabeas
de Htor. Os outros pequenos
hierglifos inscritos embaixo da
cabea das diferentes personagens
indicam-lhes o nome ou o ttulo; o
chefe capturado talvez se chamasse
Washi (wr = arpo; s = charco),
O grupo no alto,  direita, deve
explicar, provavelmente, a figura
central; nessa poca, bastante
remota, o essencial de frases
inteiras, ao que parece, podia ser
exprimido por meio de simples
grupos de smbolos cujos elementos
sugerissem palavras distintas. A
este, por hiptese, pode-se dar a
seguinte interpretao: o Deus-
Falco Hrus (ou seja, o rei) fez
prisioneiros os habitantes da regio
do papiro (Tz - mhw, o Delta).
(Fonte: J. Pirenne, "Histoire de la
Civilisation de l'Egypte Ancienne",
Baconnire, Neuchtel, Sua, 1961,
v. I, figs. 6 e 7, pp. 28-9. Foto H.
Brugsch, Museu do Cairo.)
Introduo Geral                                                              LIII



um signo-palavra que tivesse aproximadamente a mesma pronncia. A escrita
hieroglfica j tinha alcanado esse estgio no perodo tinita, em tomo de -3000,
o que pressupe um perodo bastante longo de desenvolvimento anterior.
    No entanto, o sistema assim completado tinha falhas. Utilizava necessariamente
um grande nmero de signos  conhecemos mais de quatrocentos signos comuns
 que podiam deixar o leitor confuso quanto  maneira de l-los. Tomemos o
exemplo simples do desenho de um barco. Como deveria ser lido (bote, barco,
navio, embarcao, etc.)? Alm disso, era impossvel,  primeira vista, saber se
um determinado signo estava sendo empregado como signo-palavra, designando
o objeto representado, ou como signo fontico.
    A segunda dificuldade foi facilmente superada: os escribas adotaram o hbito
de acrescentar uma linha vertical depois do signo-palavra que designasse o
prprio objeto. Quanto  primeira, foi resolvida pelo estabelecimento gradual
de um complexo sistema de complementos fonticos (como  chamado pelos
egiptlogos). Consiste em 24 signos-palavra, cada um deles com apenas uma
consoante. Os escribas, pouco a pouco, passaram a utiliz-los para indicar a
leitura fontica dos signos. Vejamos um exemplo: o signo que representa um
po sobre uma esteira tem a pronncia hetep. Com o tempo, tornou-se habitual
colocar dois outros signos imediatamente aps o signo-palavra empregado
foneticamente: "po", pronunciado t, e "assento", pronunciado p. Esses dois
signos indicavam imediatamente ao leitor a pronncia hetep.
     evidente que esses 24 signos simples desempenham, de fato, o papel das
nossas letras, e que temos aqui o embrio da inveno do alfabeto, j que esses
signos expressam todas as consoantes da lngua egpcia, e que os egpcios, como
os rabes ou os hebreus, no escreviam as vogais. No havia, portanto, nenhuma
palavra na lngua que no pudesse ser escrita simplesmente por meio de signos.
No entanto os egpcios nunca deram o passo final nessa direo e, longe de
empregar apenas os signos simples, quase alfabticos, complicaram ainda
mais seu sistema de escrita  pelo menos aparentemente  acrescentando aos
signos utilizados foneticamente, e a seus complementos fonticos, novos signos
puramente ideogrficos. Esses signos eram colocados no final das palavras e
tornavam possvel classific-las,  primeira vista, em uma determinada categoria.
Os verbos que designavam uma ao fsica, como "atingir" e "matar", eram
seguidos por um signo que representava um brao humano empunhando arma.
Os que designavam um conceito abstrato, como "pensar" e "amar", eram seguidos
de um signo representando um rolo de papiro. Tambm os substantivos se
faziam acompanhar por ideogramas: a palavra "bacia", por exemplo, seria seguida
pelo ideograma "gua", trs linhas horizontais onduladas; os nomes de pases
LIV                                                                       frica antiga



estrangeiros seriam seguidos pelo signo "montanha"  em contraposio ao
Egito, que  plano  e assim por diante.
    Se os egpcios nunca utilizaram uma forma simplificada de escrita 
possumos apenas um texto em escrita alfabtica, que  muito tardio e pode
ter sido influenciado pelas escritas alfabticas utilizadas nos pases vizinhos ,
esse conservadorismo pode, sem dvida, ser explicado pela importncia que
atribuam  imagem e, portanto, ao signo como imagem. A imagem possua
um poder mgico latente. Ainda por volta de -1700, os escribas por vezes
mutilavam os signos que representavam seres perigosos (pelo menos a seus
olhos): as serpentes tinham o rabo cortado; certos pssaros apareciam sem os
ps. O poder mgico do signo estendia-se por todo o mundo; esse poder era
to grande que quando se desejava fazer mal a algum, o nome da pessoa era
cuidadosamente rasurado ou apagado, onde quer que estivesse escrito. O nome
era, de fato, parte do indivduo e, em certo sentido, a prpria pessoa: destruir o
nome era destruir a pessoa.
    Com esse intrincado sistema de signos-palavra, signos fonticos plurissilbicos,
complementos fonticos e determinativos ideogrficos  uma confuso de signos,
alguns devendo ser pronunciados, outros no  a escrita hieroglfica , de fato,
complexa, mas tambm muito evocativa. Os determinativos recortam bem as
palavras, a ordem rgida dos termos da orao  verbo, sujeito, objeto  facilita
a interpretao, e as dificuldades que o tradutor moderno enfrenta advm do
fato de que por vezes ele desconhece o significado de muitas palavras. Mesmo
assim, graas aos determinativos, podemos saber em que categoria devem
ser classificadas. Tem-se sugerido frequentemente que a escrita hieroglfica
foi trazida para o vale por invasores do Oriente, ou tomada de emprstimo 
Mesopotmia pelos egpcios. O mnimo que se pode dizer  que no h nenhum
vestgio material desse emprstimo na escrita do Egito faranico, tal como 
encontrada no despontar da Histria, em torno de -3000. Pelo contrrio, 
possvel acompanhar, passo a passo, a sua lenta formao: da pura pictografia para
os fonogramas complexos, destes para os complementos fonticos e, finalmente,
para os determinativos. Alguns signos empregados foneticamente representam
objetos que j no eram usados quando os primeiros textos apareceram, o que
prova que a escrita se constituiu na era pr-histrica, quando esses objetos ainda
eram de uso corrente. Finalmente, talvez o mais importante seja o fato de que
os antigos signos hieroglficos foram todos tomados da fauna e da flora do Nilo,
provando, assim, que a escrita  de origem puramente africana. Se admitirmos
que houve influncia externa no advento da escrita egpcia, tal influncia pode
ter sido, no mximo, da ideia de escrever, o que  pouco provvel se levarmos
Introduo Geral                                                                LV



em conta que a escrita tomou forma muito cedo no Egito, no IV milnio antes
da Era Crist.
    Uma das foras a presidir a inveno e o desenvolvimento da escrita
hieroglfica no vale do Nilo foi, sem dvida, a necessidade que tinham seus
habitantes de agir em conjunto e de maneira coordenada no combate aos
flagelos que periodicamente os ameaavam  dentre outros, as enchentes do
Nilo. Se uma famlia, um grupo de famlias ou mesmo uma pequena aldeia era
impotente para erigir uma proteo eficaz contra a subida inesperada das guas,
o mesmo no se podia dizer de grandes grupos humanos agindo em conjunto.
A prpria configurao do Egito favorece a criao desses grupos. O vale no
tem largura regular em toda a sua extenso. Limita-se, por vezes, ao curso do
rio, alargando-se, depois, para formar pequenas bacias, s vezes de considervel
extenso. Cada uma dessas bacias naturais constitui uma unidade geogrfica,
com um potencial agrcola definido. Ao que parece, tenderam rapidamente
a se transformar em pequenas unidades polticas, sob a autoridade do maior
agrupamento da rea, cuja deidade tutelar passava a ser a de toda a comunidade.
Essa foi, provavelmente, a origem dos nomos, que emergem, j constitudos, no
despontar do perodo histrico.
    Existe, evidentemente, um contraste geogrfico muito grande entre o Alto
Egito, o Said, segmentado em uma sucesso de bacias naturais bem definidas,
e o Baixo Egito, o Delta, onde, dividindo-se em vrios braos, o prprio Nilo
corta o solo em unidades de carter inteiramente diferente; menos distintas do
que as do Said.
    Deve-se relembrar aqui de que os termos tradicionais "Alto" e "Baixo" Egito so
falaciosos, quando empregados para o perodo de formao do Estado faranico.
No atual estgio dos nossos conhecimentos sobre as culturas pr-dinsticas, o
que chamamos Alto Egito no abrangia o sul da regio de el-Kab, e terminava
ao norte, nas vizinhanas do Faium. Seu centro poltico situava-se em Naqada,
na bacia de Tebas, mas desceria, em direo ao norte, para a regio de Abidos,
uma outra bacia natural que iria desempenhar um papel importante na histria
do Egito. O Baixo Egito, por sua vez, comeava no Faium, mas terminava, ao
norte, na ponta do Delta. Embora tenhamos muito poucas informaes sobre
sua extenso em era to longnqua, parece certo que o Baixo Egito no atingia
o mar. Seu centro estava localizado na regio de Cairo-Helipolis.
    Neste "bero" do Egito faranico, as bacias do sul constituam uma fora
pelo menos equivalente das bacias do norte; essa fora era mais bem estruturada
graas  individualidade das bacias que a compunham. Assim, compreende-se
facilmente por que a Confederao das provncias do sul acabou impondo uma
LVI                                                                     frica antiga



unidade cultural ao vale, subjugando a Confederao das provncias do norte,
cuja originalidade era menos acentuada.
    As pequenas unidades polticas do sul, que correspondiam s reas das bacias
que ocupavam, dispunham de mo de obra suficiente para executar o trabalho
coletivo indispensvel  sobrevivncia da provncia: reforo das margens do
rio, que pouco a pouco se transformaram em verdadeiros aterros (veja acima);
depois, construo de diques para proteger as povoaes. Para ser eficaz, esse
trabalho exigia organizao. A necessidade de organizao, por sua vez, deve ter
facilitado, se no a inveno, pelo menos o rpido desenvolvimento da escrita:
era preciso transmitir ordens a um grande nmero de homens, espalhados por
grandes distncias, para que se cumprisse uma tarefa a ser obrigatoriamente
realizada, num espao de tempo limitado: aps a colheita e antes da nova subida
das guas. Distribuio de trabalho, estabelecimento de prioridades, suprimentos
de ferramentas (mesmo as mais rudimentares), superviso local dos trabalhos,
tudo isso demandava uma administrao, por mais simples que fosse. Essa
administrao s poderia ser eficaz se fosse capaz de prever, planejar e dirigir
as vrias etapas das operaes a partir de um centro, por vezes inevitavelmente
distante do local onde o trabalho seria executado.  difcil imaginar que tudo
isso pudesse ser levado a cabo sem o instrumento incomparvel da escrita para
o registro dos dados essenciais nmero de homens, raes, altura do aterro a ser
construdo  e, acima de tudo, para a rpida transmisso das ordens aos vrios
pontos do territrio.
    A unificao poltica do Egito por Mens, em torno de -3000, fortaleceu
ainda mais o desenvolvimento da administrao e, consequentemente, da escrita.
De fato, ao chefe cabia, a partir de ento, cuidar da organizao dos trabalhos
de interesse coletivo no apenas dentro de uma rea limitada, mas em todo o
pas. Ora, uma das caractersticas desse pas  a sua grande extenso, o que faz
com que a capital, de onde emanam as ordens, esteja sempre muito distante
de uma grande parte do territrio. Alm disso, em razo da inconstncia das
cheias (ver figura), uma das responsabilidades do governo central era a de estocar
o mximo possvel de alimentos nas pocas de abundncia para amenizar a
escassez, que sempre poderia surgir de forma inesperada. Consequentemente,
era necessrio que a liderana  no caso, o fara  soubesse com exatido quais
os recursos em disponibilidade no pas, para poder, em caso de necessidade,
racion-los ou distribu-los s regies mais seriamente afetadas pela fome. Tal
 a base da organizao econmica do antigo Egito e, de fato, de sua prpria
existncia. Esse controle requer um complexo sistema de contabilidade, com
entradas e sadas tanto de bens como de pessoas, o que explica o papel essencial
Introduo Geral                                                             LVII



desempenhado pelo escriba na civilizao do antigo Egito. O escriba , assim, o
verdadeiro elemento-chave do sistema faranico. A partir da III dinastia  em
torno de -2800 , os funcionrios de estado mais graduados se fazem retratar
com o estojo de escrita sobre o ombro, e os princpios do Antigo Imprio sero
representados pelos escultores como escribas sentados (cf. fig. 5, Introduo).
Numa narrativa famosa, o prprio rei toma da pena, por assim dizer, para anotar
o que o profeta est prestes a lhe revelar. O poder mgico, sempre associado 
escrita, acentua a importncia do escriba na sociedade. Saber o nome das coisas
era ter poder sobre elas. No h exagero em se dizer que a civilizao egpcia
apoiava-se no escriba e que foi a escrita que possibilitou o seu desenvolvimento.
    O contraste entre o Egito e o vale nbio do Nilo permite-nos compreender
melhor o papel da escrita e as razes de sua existncia na emergncia e
desenvolvimento da civilizao egpcia. Ao sul da Primeira Catarata, encontramos
uma civilizao com a mesma composio daquela do Alto Egito. No entanto
a Nbia sempre foi refratria ao uso da escrita, embora no pudesse ignor-lo,
uma vez que mantinha contatos constantes com o vale egpcio. A razo dessa
resistncia parece residir na diferena entre os modos de vida dos dois pases.
De um lado, temos uma populao densa, que a necessidade de irrigao e
controle do rio  de que dependia sua prpria existncia  uniu estreitamente
em uma sociedade hierarquizada, na qual cada indivduo desempenhava um
papel especfico no desenvolvimento do pas. De outro lado, na Nbia, temos
uma populao que, na aurora da Histria, possua uma cultura material
equivalente, se no superior,  do Alto Egito, mas estava dividida em grupos
menores e bastante isolados. Esses grupos eram mais independentes e tinham
maior mobilidade, pois a criao de gado exigia deslocamentos frequentes e
desempenhava um papel econmico pelo menos to importante quanto o da
agricultura, muito limitada uma vez que na Nbia o vale era mais estreito do
que no Egito. Os povos nbios no sentiram a necessidade de escrita. Iriam
permanecer sempre no domnio da tradio oral, utilizando a escrita muito
raramente  ao que parece, apenas para fins, religiosos, ou quando estiveram
submetidos a um governo central de tipo monrquico (cf. captulos 10 e 11).
    A diferena de comportamento entre duas populaes de composio tnica
similar esclarece, de forma significativa, um fato aparentemente anormal: uma
delas adotou  e talvez tenha mesmo inventado  um sistema de escrita, enquanto
a outra, que tinha conhecimento dessa escrita, a desdenhou. O modo de vida
imposto ao grupo que habitava o baixo vale pela necessidade de controle do Nilo
iria favorecer a emergncia e o desenvolvimento da escrita. Esta, por sua vez, fez
desse grupo uma das primeiras grandes civilizaes do mundo.
LVIII                                                                                       frica antiga




figura 6 Esttua do escriba sentado, Knubaf. (Fonte: W. S. Smith, "The History of Egyptian Sculpture and
Painting in the Old Kingdom", 1.a ed., 1946, pr. 19a. Foto Museum of Fine Arts, Boston.)
Introduo Geral                                                                LIX



    O Egito africano, receptculo de influncias
    Por volta de -3700, pode-se notar uma unificao da cultura material dos dois
centros de civilizao do vale do Nilo; mais precisamente, o centro meridional,
embora mantendo suas caractersticas distintivas, adota parcialmente a cultura
do centro setentrional. Essa penetrao da civilizao do norte em direo ao sul
 frequentemente associada, por um lado,  inveno da escrita e, por outro, ao
aparecimento, no Egito, de povos invasores mais avanados do que os habitantes
autctones.
    Com relao  escrita, vimos anteriormente que uma origem puramente
niltica, portanto, africana, no s no deve ser descartada como, provavelmente,
reflete a realidade. Alm disso, uma invaso de elementos civilizadores externos,
principalmente mesopotmicos, apia-se em evidncias muito tnues. Entretanto,
a originalidade e a antiguidade da civilizao egpcia no devem encobrir o fato
de ter sido ela igualmente o receptculo de mltiplas influncias. Sua posio
geogrfica, alis, a predispunha a isso.
    O clima relativamente mido no final do Neoltico e durante todo o perodo
pr-dinstico, que assistiu  formao da civilizao no Egito, tornou o deserto
rabe, entre o mar Vermelho e o vale do Nilo, permevel, por assim dizer. Foi por
esse caminho, sem dvida, que as influncias mesopotmicas cuja importncia,
alis, talvez tenha sido superestimada  penetraram no Egito. Em contraposio,
por falta de investigao suficiente, pouco sabemos sobre os contatos do Egito
com as culturas do Saara oriental no final do Neoltico. Certos smbolos
inscritos nas paletas protodinsticas, no entanto, permitem-nos supor que havia
caractersticas comuns entre as populaes do deserto lbio e as do vale do Nilo.
    Em direo ao norte,  provvel que em pocas remotas as ligaes entre
o Egito e o corredor srio-palestino por intermdio do istmo de Suez no
fossem to estreitas quanto viriam a se tornar aps o estabelecimento do Antigo
Imprio; no entanto tambm a podem-se apontar vestgios muito antigos de
contatos com a Palestina, e  possvel que o mito de Osris tenha surgido das
relaes entre o centro de civilizao do Delta e a costa madeirfera do Lbano
 relaes que datariam, portanto, de tempos extremamente antigos.
     primeira vista, os vnculos com o sul parecem muito mais ntidos, mas 
difcil avaliar sua importncia. A partir do sculo IV antes da Era Crist, os povos
ao sul da Primeira Catarata (cf. captulo 10) esto em estreito contato com o baixo
vale do Nilo. Nos perodos pr e protodinstico h intenso intercmbio entre
os dois grupos populacionais: encontram-se as mesmas tcnicas de cermica e
argila esmaltada (faiana egpcia), os mesmos ornatos, armas similares, a mesma
LX                                                                     frica antiga



crena na vida aps a morte e ritos funerrios afins. Durante esses contatos, os
egpcios devem ter mantido relaes  diretas ou atravs de intermedirios 
com os povos mais distantes da frica, como se pode deduzir a partir ao nmero
de objetos de marfim e bano que foram recolhidos nos tmulos egpcios mais
antigos. Mesmo admitindo que a fronteira ecolgica do bano situava-se mais
ao norte do que atualmente, ainda assim era muito distante da Baixa Nbia; esse
fato nos fornece um precioso indcio de contatos entre a frica ao sul do Saara
e o Egito. Alm do marfim e do bano, o incenso, que aparece muito cedo, e a
obsidiana, ambos produtos estranhos ao vale do Nilo, podem ter sido importados
pelos egpcios. Atravs desse comrcio, tcnicas e ideias devem ter circulado com
facilidade de uma rea para outra, dado que, como vimos, os egpcios tinham
um considervel substrato africano.
    Assim, para onde quer que nos voltemos, para oeste ou leste, norte ou sul,
vemos que o Egito recebeu influncias externas. No entanto essas influncias
nunca afetaram profundamente a originalidade da civilizao que foi aos poucos
tomando forma s margens do Nilo, antes de influenciar, por seu turno, as
regies vizinhas.


     Pontos obscuros em nossos conhecimentos
    Para podermos avaliar a importncia das influncias externas no incio da
civilizao do vale do Nilo, seria necessrio um bom conhecimento da arqueologia
de todo o pas em tempos antigos.
    Um conhecimento bastante abrangente faz-se, de fato, indispensvel para
uma comparao frutfera entre o material arqueolgico coletado no Egito e o
fornecido pelas culturas vizinhas, visando distinguir importaes e imitaes,
nicas provas tangveis de contatos em larga escala.
    Mas se a arqueologia do IV milnio antes da Era Crist, tanto no Alto Egito
como na Baixa Nbia (entre a Primeira e a Segunda Catarata),  razoavelmente
conhecida, o mesmo no se pode dizer em relao s outras partes do vale do
Nilo. O Delta, em particular,  praticamente desconhecido no que se refere
aos perodos pr-dinstico e protodinstico, com exceo de algumas poucas
localidades de sua faixa desrtica. Todas as referncias a possveis influncias
provenientes da sia durante esses perodos  atravs do istmo de Suez ou da
costa mediterrnica  pertencem, pois, ao domnio das suposies.
    Encontramos as mesmas dificuldades no caso do alto vale do Nilo, entre a
Segunda e a Sexta Catarata. Nossa ignorncia a respeito da arqueologia primitiva
Introduo Geral                                                               LXI



dessa vasta regio  ainda mais lamentvel se levarmos em conta a possibilidade
de contatos e comrcio entre a parte egpcia do vale e a frica do sul do Saara.
Essa falta de conhecimento impede-nos de comparar as realizaes da civilizao
faranica nascente quelas das culturas no apenas do vale superior, mas tambm
das regies situadas a leste, oeste e sul do Nilo. Recentes descobertas entre a
Quinta e a Sexta Catarata sugerem a existncia, se no de contatos diretos, pelo
menos de uma desconcertante semelhana de formas e decoraes tanto do
mobilirio funerrio como do mobilirio comum do Alto Egito pr-dinstico e
do Sudo ao sul do paralelo 17.
     deficincia do nosso conhecimento no espao, por assim dizer, somam-se
as falhas do nosso conhecimento no tempo. A civilizao faranica propriamente
dita iria durar mais de 3 mil anos; no sabemos, ou sabemos muito pouco, sobre
o que aconteceu no Egito durante aproximadamente um tero desse enorme
perodo de tempo. A histria dos faras divide-se em perodos fortes e perodos
fracos (cf. captulo 2). Para os perodos de acentuada centralizao do poder real,
possumos muitos documentos e monumentos que nos permitem reconstituir
com preciso os eventos importantes. So esses os perodos conhecidos como
Antigo Imprio (-2700 a -2200), Mdio Imprio (-2000 a -1800) e Novo
Imprio (-1600 a -1100). Para os perodos em que o poder central era fraco, por
outro lado, as fontes de conhecimento se reduzem, e mesmo desaparecem, de
maneira que a histria faranica apresenta lacunas, que os egiptlogos chamam
de perodos intermedirios. Existem trs desses perodos: o primeiro se estende
de -2200 a -2000, o segundo de -1800 a -1600, e o terceiro de -1100 a
-750. Se somarmos a esses perodos o incio da monarquia faranica, de -3000
a -2700, cujo conhecimento  ainda muito insuficiente, veremos que mais de
dez sculos da histria egpcia permanecem, se no totalmente desconhecidos,
pelo menos bastante obscuros.


    Concluses
   Apesar dessas lacunas em nosso conhecimento, a civilizao faranica ocupa
um lugar primordial na histria da frica antiga. Atravs de seus monumentos,
de seus textos e do interesse que, no passado, despertou nos viajantes, fornece-
nos um grande volume de informaes sobre a maneira de pensar, de sentir e de
viver dos africanos em perodos que no poderamos conhecer por outros meios.
   Esse lugar, embora primordial,  sem dvida insignificante se comparado ao
papel que o conhecimento do antigo Egito e da Nbia poderia desempenhar na
LXII                                                                  frica antiga



histria do continente. Quando a arqueologia dos pases que margeiam o vale do
Nilo for mais explorada e, portanto, mais conhecida, o Egito e o Sudo niltico
proporcionaro ao historiador e ao arquelogo meios de comparao e datao
indispensveis  ressurreio do passado, assim como ao estudo das correntes
de influncia que, de sul a norte e de leste a oeste, constituem a prpria trama
da histria da frica.
Origem dos antigos egpcios                                               1



                                  CAPTULO 1


                  Origem dos antigos egpcios
                                   Cheikh Anta Diop




   A aceitao geral da hiptese da origem monogentica e africana da huma-
nidade suscitada pelos trabalhos do professor Leakey tomou possvel colocar
em termos totalmente novos a questo do povoamento do Egito, e mesmo do
mundo. H mais de 150 mil anos, a nica parte do mundo em que viviam seres
morfologicamente iguais aos homens de hoje era a regio dos Grandes Lagos,
nas nascentes do Nilo. Essa noo  e outras que no nos cabe recapitular aqui
 constitui a essncia do ltimo relatrio apresentado pelo dr. Leakey no VII
Congresso Pan-Africano de Pr-Histria, em Adis Abeba, em 19711. Isso quer
dizer que toda a raa humana teve sua origem, exatamente como supunham os
antigos, aos ps das montanhas da Lua. Contra todas as expectativas e a despeito
das hipteses recentes, foi desse lugar que o homem partiu para povoar o resto
do mundo. Disso resultam dois fatos de capital importncia: (a) necessaria-
mente, os primeiros homens eram etnicamente homogneos e negroides. A lei
de Gloger, que parece ser aplicvel tambm aos seres humanos, estabelece que os
animais de sangue quente, desenvolvendo-se em clima quente e mido, secretam
um pigmento negro (melanina)2. Portanto, se a humanidade teve origem nos
trpicos, em tomo da latitude dos Grandes Lagos, ela certamente apresentava,

1    PROCEEDINGS OF THE SEVENTH PANAFRICAN CONGRESS OF PREHISTORY
     AND QUATERNARY STUDIES, Dec. 1971.
2    MONTAGU, M. F. A. 1960, p. 390.
2                                                                              frica Antiga



no incio, pigmentao escura, e foi pela diferenciao em outros climas que
a matriz original se dividiu, mais tarde, em diferentes raas; (b) havia apenas
duas rotas atravs das quais esses primeiros homens poderiam se deslocar, indo
povoar os outros continentes: o Saara e o vale do Nilo. E esta ltima regio que
ser discutida aqui.
   A partir do Paleoltico Superior at a poca dinstica, toda a bacia do rio foi
progressivamente ocupada por esses povos negroides.


    Evidncias da antropologia fsica sobre
    a raa dos antigos egpcios
    Poder-se-ia pensar que, trabalhando com evidncias fisiolgicas, as desco-
bertas dos antroplogos poderiam dissipar todas as dvidas por fornecerem ver-
dades confiveis e definitivas. Isso no , de maneira nenhuma, o que acontece:
a natureza arbitrria dos critrios utilizados  para mencionarmos apenas um
aspecto , ao mesmo tempo que afasta qualquer possibilidade de uma concluso
ser aceita sem reservas, introduz tanta discusso suprflua entre os cientistas que
s vezes nos perguntamos se a soluo do problema no teria estado muito mais
prxima se no tivssemos o azar de abord-lo sob esse ngulo.
    No entanto, embora as concluses desses estudos antropolgicos se detenham
um pouco aqum da realidade, elas so unnimes em mencionar a existncia de
uma raa negra desde as mais distantes pocas da Pr-Histria at o perodo
dinstico. No  possvel, no presente captulo, citar todas essas concluses. Elas
esto sumarizadas no Captulo X de Histoire et Protohistoire d' Egipte (Institut
d'Ethnologie, Paris, 1949), do dr. Emile Massoulard. Citaremos apenas alguns
itens:
    "Miss Fawcett acredita que os crnios de Negadah compem uma coleo com
    homogeneidade suficiente para fundamentar a hiptese da existncia de uma raa
    de Negadah. Quanto  altura total do crnio,  altura auricular, do comprimento e
    largura da face, ao comprimento do nariz, ao ndice ceflico e ao ndice facial, essa
    raa parece aproximar-se da raa negra; quanto  largura do nariz,  altura da rbita,
    ao comprimento do palato e ao ndice nasal, ela parece mais prxima dos povos
    germnicos; assim, os negadenses pr-dinsticos provavelmente se assemelhavam,
    quanto a algumas de suas caractersticas, aos negros e, quanto a outras, s raas
    brancas" (pp. 402-3).
Origem dos antigos egpcios                                                               3



     importante observar que os ndices nasais dos etopes e dos dravidianos os
aproximariam dos povos germnicos, embora ambos pertenam a raas negras.
    Essas medidas  que deixariam abertas alternativas possveis entre os dois
extremos, representados pelas raas negra e germnica  do uma ideia da elas-
ticidade dos critrios empregados. Eis um exemplo:
    "Tentando determinar com maior preciso a importncia do elemento negroide nas
    sries de crnios de El-Amra, Abidos e Hou, Thomson e Randall MacIver dividiram-
    -nos em trs grupos: 1. crnios negroides (aqueles com ndice facial abaixo de 54
    e ndice nasal acima de 50, isto , face curta e larga e nariz largo); 2. crnios no-
    -negroides (ndice facial acima de 54 e ndice nasal abaixo de 50, face comprida e
    estreita e nariz estreito); 3. crnios intermedirios (podem ser atribudos a indivduos
    dos dois primeiros grupos, com base no ndice facial ou nas evidncias referentes ao
    ndice nasal, e ainda a indivduos marginais a ambos os grupos). A proporo de
    negroides no incio do perodo pr-dinstico parece ter sido de 24% de homens e 19%
    de mulheres, e, no final desse mesmo perodo, de 25% de homens e 28% de mulheres.
    Kieth contestou o valor dos critrios utilizados por Thomson e Randall MacIver
    para distinguir os crnios negroides dos no-negroides. Sua opinio  de que, se os
    mesmos critrios fossem aplicados para estudar qualquer srie de crnios ingleses
    contemporneos, a amostra conteria aproximadamente 30% de tipos negroides" (pp.
    420-1).
   Pode-se afirmar tambm o reverso da proposio de Kieth, isto , que, se
o critrio fosse aplicado aos 140 milhes de negros que hoje vivem na frica
negra, no mnimo 100 milhes deles apareceriam "branqueados".
    Deve-se enfatizar tambm que a distino entre "negroides", "no-negroides"
e "intermedirios" no  clara: "no-negroide" no significa de raa branca, e
"intermedirio", muito menos.
    "Falkenburger retomou o estudo antropolgico da populao egpcia num trabalho
    recente, no qual analisa 1787 crnios masculinos do perodo que se estende desde o
    Pr-Dinstico Antigo at nossos dias. Ele distingue quatro grupos principais" (p. 421).
   A classificao dos crnios pr-dinsticos nesses quatro grupos d, para o
total do perodo pr-dinstico, os seguintes resultados: "36% de negroides, 33%
de mediterrnicos, 11 % de cro-magnoides e 20% de indivduos que no se
enquadram em nenhum desses grupos, mas se aproximam dos cro-magnoides
ou dos negroides".
4                                                                                     frica Antiga



   A proporo de negroides  definitivamente mais alta do que a sugerida
por Thomson e Randall MacIver, a qual, no entanto, Kieth considera muito
elevada.
    "Os nmeros de Falkenburger refletem a realidade? No  nossa tarefa decidir. Se
    estiverem corretos, a populao pr-dinstica, longe de representar uma raa pura,
    como disse Elliot-Smith, compreendia pelo menos trs elementos raciais distintos:
    mais de um tero de negroides, um tero de mediterrnicos, um dcimo de cro-
    -magnoides e um quinto de indivduos mestios em vrios graus" (p. 422).
   O fundamental em todas essas concluses  que, a despeito das discrepn-
cias que apresentam, o seu grau de convergncia prova que a base da populao
egpcia no perodo pr-dinstico era negra. Assim, todas elas so incompat-
veis com a teoria de que o elemento negro se infiltrou no Egito em perodo
tardio. Pelo contrrio, os fatos provam que o elemento negro era preponde-
rante do princpio ao fim da histria egpcia, particularmente se observarmos,
uma vez mais, que "mediterrnico" no  sinnimo de "branco"; estaria mais
prximo da "raa morena ou mediterrnica" de Elliot-Smith. "Elliot-Smith
classifica esses protoegpcios como um ramo do que ele chama raa morena,
que corresponde  `raa mediterrnica ou euro-africana' de Sergi" (p. 418). O
termo "moreno" neste contexto refere-se  cor da pele e  simplesmente um
eufemismo de negro3.
   Assim, fica evidente que toda a populao egpcia era negra, com exceo de
uma infiltrao de nmades brancos no perodo protodinstico.
   O estudo de Petrie sobre a raa egpcia revela um elemento classificatrio
possvel muito fecundo, que no deixar de surpreender o leitor.
    "Petrie (...) publicou um estudo sobre as raas do Egito nos perodos pr-dinstico
    e proto-dinstico, trabalhando apenas com representaes. Alm da raa esteatop-
    gica, distinguiu seis diferentes tipos: um tipo aquilino, representante de uma raa
    lbia de pele branca; um tipo `com barba tranada', pertencente a uma raa invasora,
    vinda provavelmente das costas do mar Vermelho; um tipo `com nariz pontudo',
    proveniente, sem dvida, do deserto arbico; um tipo `com nariz reto', do Mdio
    Egito; um tipo `com barba protuberante', do Baixo Egito; e um tipo `com nariz fino',
    do Alto Egito. Segundo as representaes, teriam assim existido sete tipos raciais
    diferentes no Egito durante os perodos que estamos considerando. Nas pginas


3   Pelo mtodo descrito, pode-se avanar o estudo da pigmentao dessa raa. De fato, ELLIOT-SMITH
    muitas vezes encontrou fragmentos de pele nos corpos datando de pocas em que os mtodos de
    mumificao que causavam a deteriorao da pele ainda no estavam em uso.
Origem dos antigos egpcios                                                                                    5



    seguintes, veremos que o estudo dos esqueletos parece conferir pouca validade a
    essas concluses" (p. 391).
    Esse modo de classificao d uma ideia da natureza arbitrria dos critrios
utilizados para definir as raas egpcias. Seja como for,  evidente que a antro-
pologia est longe de ter estabelecido a existncia de uma raa egpcia branca e,
pelo contrrio, tenderia a sugerir o oposto.
    Nos manuais de maior divulgao, entretanto, a questo  suprimida: na
maioria dos casos, afirma-se simples e claramente que os egpcios eram brancos,
e o leigo fica com a impresso de que uma afirmao desse tipo deve necessaria-
mente ter como base uma slida pesquisa anterior. Mas, conforme se mostrou
neste captulo, essa pesquisa no existe. E, assim, geraes aps geraes foram
enganadas. Muitas autoridades no assunto contornam a dificuldade falando em
brancos de pele vermelha e brancos de pele negra, sem que por isso se abale o
seu senso de lgica.
    "Os gregos chamam a frica de Lbia, um nome equivocado ab initio, pois a frica
    contm muitos outros povos alm dos assim chamados lbios, que esto entre os
    brancos da periferia setentrional ou mediterrnica e, portanto, muito afastados dos
    brancos de pele morena (ou vermelha)  os egpcios."4
   Num livro didtico destinado ao curso colegial, encontramos a seguinte
frase: "Um negro se distingue menos pela cor da pele (pois existem `brancos'
de pele negra) do que por suas feies: lbios grossos, nariz chato ..."5. Ape-
nas com tais distores das definies bsicas  que se pde branquear a raa
egpcia.
    importante ter em mente os exageros dos tericos da antropossociologia
do sculo passado e do comeo deste sculo, que, em suas microanlises fisio-
nmicas, descobriram estratificaes raciais at mesmo na Europa, e particu-
larmente na Frana, onde, na verdade, havia um nico povo, hoje praticamente
homogneo6. Atualmente, os ocidentais que valorizam sua coeso nacional evi-

4    PEDRALS, D. P. de 1950, p. 6.
5    GEOGRAPHIE. Classe de 5.a. 1950.
6    Em seu Lutte des races (1883), L. GUMPLOVICZ afirma que as diferentes classes que formam um
     povo sempre representam diferentes raas, das quais uma estabeleceu sua dominao sobre as outras
     atravs da conquista. G. de LAPOUGE, em um artigo publicado em 1897, postula nada menos do que
     doze "leis fundamentais da antropossociologia", das quais podemos citar algumas que so tpicas: a "lei
     da distribuio da riqueza" postula que, em pases de populao mista alpino-europeia, a riqueza cresce
     em proporo inversa ao ndice ceflico; a "lei dos ndices urbanos", destacada por AMMON e ligada 
     pesquisa que realizou entre os prisioneiros de Badener, afirma que a frequncia de dolicocefalia entre os
     habitantes das cidades  maior do que entre os habitantes da zona rural adjacente; a "lei da estratificao"
6                                                                                             frica Antiga



tam zelosamente examinar suas prprias sociedades sob a luz de hipteses to
divisionistas, mas continuam, irrefletidamente, a aplicar os velhos mtodos s
sociedades no-europeias.


    As representaes humanas do perodo protohistrico:
    seu valor antropolgico
    O estudo das representaes humanas realizado por Flinders Petrie, num
outro plano, demonstra que o tipo tnico era negro: de acordo com Petrie, esses
povos eram os Anu, cujo nome, que conhecemos desde a poca proto-histrica,
era sempre "escrito" com trs pilares, nas poucas inscries subsistentes do final
do IV milnio antes da Era Crist. Os nativos do pas so sempre represen-
tados com inconfundveis emblemas de chefia, que no encontramos entre as
raras representaes das outras raas, cujos elementos aparecem todos como
estrangeiros servis, que chegaram ao vale por infiltrao (cf. Tera Neter7 e o rei
Escorpio, que Petrie rene em um mesmo grupo: "O rei Escorpio pertencia
 raa anu, j citada; alm disso, adorava Min e Seti")8.
    Como veremos adiante, Min, assim como os principais deuses do Egito, era
chamado, na prpria tradio egpcia, "o Grande Negro".
    Depois de fazer um apanhado dos vrios tipos humanos estrangeiros que
disputaram o vale com os negros nativos, Petrie descreve estes ltimos, os Anu,
nos seguintes termos:
    "Alm desses tipos, caractersticos do norte e do leste, existe a raa autctone dos
    Anu, ou Annu (escrito com trs pilares), povo que constituiu parte dos habitantes da
    poca histrica. O assunto se complica e d margem a dvidas se incluirmos todos
    os nomes escritos com um nico pilar; mas, considerando apenas a palavra Annu,
    escrita com trs pilares, descobrimos que esse povo ocupava o sul do Egito e a Nbia;
    o nome tambm  utilizado no Sinai e na Lbia. Quanto aos habitantes meridionais


    foi formulada nos seguintes termos: "em cada localidade, o ndice ceflico  tanto menor, e a proporo
    de dolicocefalia tanto maior, quanto mais alta  a classe social". Em seu Slctions Sociales, o mesmo
    escritor no hesita em afirmar que "a classe dominante no perodo feudal pertence quase exclusivamente 
    variedade Homo europaeus, de maneira que no  por mero acaso que os pobres ocupam as baixas posies
    na escala social, mas por sua inferioridade congnita".
    "Vemos, portanto, que o racismo alemo no inventou nada de novo quando Alfred Rosenberg afirmou
    que a Revoluo Francesa deve ser considerada como uma revolta dos braquicfalos de matriz racial
    alpina contra os dolicocfalos de raa nrdica." CUVILLIER, A. p. 155.
7   PETRIE, W. M. F. 1939, Fig. 1.
8   Id., ibid., p. 69.
Origem dos antigos egpcios                                                     7




Figura 1.1 Representao proto-histrica de Tera-Neter, um nobre
negro da raa dos Anu, primeiros habitantes do Egito. (Fonte: C. A. Diop.
"Antriorit des Civilisations Ngres: Mythe ou Realit Historique?". Paris,
Prsence Africaine, 1967. pr. XIV.)
Figura 1.2 Estatuetas pr-dinsticas. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. LVI (4).)
8                                                                              frica Antiga



     do Egito, temos o documento essencial: um retrato do chefe Tera Neter, rudemente
     modelado em relevo em faiana verde vitrificada, encontrado no mais antigo templo
     de Abidos. O endereo precede o nome, nesse primitivo carto de visita: `Palcio dos
     Anu na cidade de Hemen, Tera Neter'. Hemen era o nome do deus de Tuphium.
     Erment, do lado oposto, era o palcio dos Anu do Sul, Annu Menti. A prxima
     localidade ao sul  Aunti (Gefeleyn) e, depois, Aunyt-Seni (Esna)"9.
   Amlineau arrola, em ordem geogrfica, as cidades fortificadas construdas
ao longo do vale do Nilo pelos negros anu.

                 = Ant (Esna)

                ou         = An = "On" do Sul (hoje Hermonthis)

                          = Denderah, tradicionalmente, a cidade natal de sis

                            = Uma cidade tambm chamada "On", no nomo de Tnis

                     ou            = A cidade chamada "On" do Norte, a clebre Helipolis
   O ancestral comum dos Anu estabelecidos ao longo do Nilo era Ani ou An,
nome determinado pela palavra        (khet), o qual, desde as primeiras verses do
Livro dos Mortos,  atribudo ao deus Osris.
   A esposa de          , o deus Ani,  a deusa Anet           ,que  tambm sua
irm, da mesma forma que sis  irm de Osris.
   A identidade do deus An com Osris foi demonstrada por Pleyte10; devemos
lembrar que Osris  tambm cognominado o Anu: "Osris Ani". O deus Anu 
representado ora pelo smbolo , ora pelo smbolo . As tribos Anuak, que hoje
habitam o Nilo superior, teriam alguma relao com os antigos Anu? Pesquisas
futuras traro resposta a esta questo.
   Petrie acredita ser possvel distinguir entre o povo pr-dinstico, represen-
tado por Tera Neter e pelo rei Escorpio (que, j nessa poca,  um fara, como
mostram os enfeites em sua cabea) e um povo dinstico, que adorava o falco e
que provavelmente  representado pelos faras Narmer11, Khasekhem, Sanekhei
e Zoser12. Observando-se os rostos reproduzidos na ilustrao, percebe-se facil-



9    Id., ibid., p. 68.
10   AMLINEAU, E., 1908, p. 174.
11   Fig. 19.
12   Fig. 20.
Origem dos antigos egpcios                                                                           9



mente que no existem diferenas tnicas entre os dois grupos e que ambos
pertencem  raa negra.
    O mural da tumba SD 63 (Sequence Date 63) de Hieracmpolis mostra os
negros nativos subjugando os invasores estrangeiros, se aceitarmos a interpre-
tao de Petrie: "Abaixo, temos a embarcao negra em Hieracmpolis, perten-
cente aos homens negros, que aparecem subjugando os homens vermelhos"13.
    O cabo de faca de Djebel el-Arak tambm mostra cenas de batalhas similares:
"H tambm combates em que homens negros dominam homens vermelhos"14.
Entretanto, o valor arqueolgico desse objeto, que no foi encontrado in situ,
mas em poder de um mercador,  menor do que o dos itens anteriores.
    O que expusemos acima mostra que as representaes dos homens do per-
odo proto-histrico, e mesmo do perodo dinstico, so absolutamente incom-
patveis com a ideia de raa egpcia difundida entre os antroplogos ocidentais.
Onde quer que o tipo racial autctone esteja representado com alguma clareza,
ele  nitidamente negroide. Em parte alguma elementos indo-europeus ou semi-
tas so representados como homens livres, nem mesmo como cidados comuns
a servio de um chefe local. Eles aparecem invariavelmente como estrangeiros
submetidos. As raras representaes encontradas trazem sempre marcas inequ-
vocas de cativeiro: mos atadas atrs das costas ou amarradas sobre os ombros15.
Uma estatueta protodinstica representa um prisioneiro indo-europeu com uma
longa trana, de joelhos e as mos atadas ao corpo. As caractersticas do prprio
objeto mostram que ele devia ser o p de um mvel e representava uma raa con-
quistada16. A representao , com frequncia, deliberadamente grotesca, como
ocorre com outras figuras protodinsticas, mostrando indivduos com o cabelo
tranado  maneira que Petrie denomina rabo de porco (pigtail). Na tumba do
rei Ka (I dinastia), em Abidos, Petrie encontrou uma plaqueta representando um
indo-europeu cativo, acorrentado, com as mos atrs das costas. Elliot-Smith
acha que o indivduo representado  um semita17.
    A poca dinstica forneceu tambm os documentos reproduzidos nas figuras
4 e 5 das pginas 49 e 50, que mostram prisioneiros indo-europeus e semitas.
Em contraposio, as feies tipicamente negroides dos faras Narmer, I dinas-


13   PETRIE, W. M. F. 1939, p. 67.
14   Fig. 3.
15   Fig. 4.
16   Fig. 18.
17   Fig. 6. No ignoro que "indo-europeu" geralmente designa uma lngua, no uma raa, mas prefiro esse
     termo a "ariano", nos contextos em que no suscitar confuses.
10                                                                       frica Antiga



tia, fundador da linhagem faranica, Zoser, III dinastia, em cuja poca todos os
elementos tecnolgicos da civilizao egpcia j eram evidentes, Quops, o cons-
trutor da Grande Pirmide, um tipo caracterstico da regio da atual Repblica
de Camares18, Mentuhotep, fundador da XI dinastia, negro retinto19, Sesstris
I, a rainha Amsis Nefertri, e Amenfis I mostram que todas as classes da
sociedade egpcia pertencem  mesma raa negra.
    As figuras de 11 a 15 foram includas deliberadamente para contrastar tipos
semitas e indo-europeus com as fisionomias bastante diferentes dos faras
negros e para mostrar claramente que no h trao de nenhum dos dois pri-
meiros tipos na linhagem dos faras, se excluirmos as dinastias estrangeiras
(lbias e ptolomaicas).
     comum contraporem-se as negras da tumba de Horemheb ao tipo egpcio
tambm representado. Na verdade, essa contraposio  falsa:  social e no
tnica; h tanta diferena entre uma aristocrata senegalesa de Dacar e as cam-
ponesas da frica antiga, de mos calejadas e ps angulosos, quanto entre estas
ltimas e uma senhora egpcia das cidades da Antiguidade.
    Existem duas variantes da raa negra:
     y    os negros de cabelos lisos, representados na sia pelos dravidianos e, na
          frica, pelos nbios e os tubbou ou Tedda, todos com pele negro-azeviche;
     y    os negros de cabelo crespo das regies equatoriais.
     Os dois tipos entraram na composio da populao egpcia.


     Teste de dosagem de melanina
    Na prtica,  possvel determinar diretamente a cor da pele, e, portanto, a
filiao tnica dos antigos egpcios, atravs de anlises microscpicas de labo-
ratrio; duvido que a perspiccia dos pesquisadores que se dedicaram  questo
tenha ignorado essa possibilidade.
    A melanina, substncia qumica responsvel pela pigmentao da pele, ,
geralmente, insolvel e preserva-se por milhes de anos na pele dos animais
fsseis20. Portanto h razes de sobra para que seja facilmente encontrada na
pele das mmias egpcias, apesar da lenda persistente segundo a qual a pele


18   Fig. 7.
19   Fig. 8.
20   NlCOLAUS, R. A. p. 11.
Origem dos antigos egpcios                                                   11



das mmias, tingida pelo material de embalsamamento, j no  suscetvel
de qualquer anlise21. Embora a melanina se localize principalmente na pele,
os melancitos que penetraram a derme no nvel da epiderme, mesmo onde
esta ltima tenha sido praticamente destruda pelos materiais de embalsama-
mento, indicam um nvel de melanina inexistente nas raas de pele branca.
As amostras que eu mesmo analisei foram colhidas no laboratrio de antro-
pologia fsica no Museu do Homem, em Paris, das mmias provenientes
das escavaes de Marietta, no Egito22. O mesmo mtodo  perfeitamente
utilizvel para as mmias reais de Tutms III, Sti I e Ramss II, do Museu
do Cairo, que esto em excelente estado de conservao. H dois anos tenho
pedido  em vo  ao curador do Museu do Cairo amostras similares para
anlise. No seriam necessrios mais do que alguns milmetros quadrados de
pele para compor um espcime, com preparaes de poucos m de espessura
e clareadas com benzoato de etila. Elas podem ser estudadas  luz natural
ou sob luz ultravioleta, que torna os gros de melanina fluorescentes. De
qualquer forma, queremos simplesmente afirmar que a avaliao do nvel
de melanina atravs de exames de microscpio  um mtodo de laboratrio
que nos permite classificar os antigos egpcios inquestionavelmente entre as
raas negras.


     Medidas osteolgicas
    Dentre os critrios aceitos pela antropologia fsica para a classificao das
raas, o das medidas osteolgicas (osteometria) talvez seja o menos engana-
dor (por oposio  craniometria) para distinguir um homem branco de um
negro. Tambm segundo esse critrio, os egpcios pertencem s raas negras.
Tal estudo foi realizado pelo eminente sbio alemo Lepsius, no final do
sculo XIX, e suas concluses continuam vlidas: os progressos metodolgi-
cos subsequentes, no campo da antropologia fsica, no invalidaram em nada
aquilo que se conhece como "cnone de Lepsius", que estabelece, em nmeros
redondos, as propores corporais do egpcio ideal, de braos curtos e tipo
fsico negroide ou negrito23.



21   PETTIGREW, T. J. 1834, pp. 70-1.
22   DIOP, C. A. 1977.
23   FONTANE, M. E. pp. 44-5 (ver reproduo: T).
12                                                                                              frica Antiga



     Grupos sanguneos
     importante notar que, mesmo hoje, os egpcios, particularmente no Alto
Egito, pertencem ao mesmo Grupo B que as populaes da frica ocidental,
no litoral atlntico, e no ao Grupo A2, caracterstico da raa branca antes de
qualquer miscigenao24. Seria interessante estudar a extenso da distribuio
do Grupo A2 nas mmias egpcias, o que, alis, j  possvel realizar mediante
as tcnicas atuais.


     A raa egpcia segundo os autores clssicos
     da Antiguidade
    Para os escritores gregos e latinos contemporneos dos antigos egpcios, a
classificao fsica desses ltimos no colocava problemas: os egpcios eram
negros, de lbios grossos, cabelo crespo e pernas finas; ser difcil ignorar ou
subestimar a concordncia entre os testemunhos apresentados pelos autores com
referncia a um fato fsico to evidente quanto a raa de um povo. Alguns dos
testemunhos que se seguem so contundentes.
     (a) Herdoto, "o pai da Histria", -480 (?) a -425.
     Com relao  origem dos Kolchu25, ele escreve:

     ", de fato, evidente que os colqudios so de raa egpcia ( ... ) muitos egpcios me
     disseram que, em sua opinio, os colqudios eram descendentes dos soldados de
     Sesstris. Eu mesmo refleti muito a partir de dois indicadores: em primeiro lugar,
     eles tm pele negra e cabelo crespo (na verdade, isso nada prova, porque outros povos
     tambm os tm) e, em segundo lugar  e este  um indicador mais consistente 
     os egpcios e os etopes foram os nicos povos, de toda a humanidade, a praticar
     a circunciso desde tempos imemoriais. Os prprios fencios e srios da Palestina
     reconhecem que aprenderam essa prtica com os egpcios, enquanto os srios do


24   MONTAGU, M. F. A. p. 337.
25   No sculo V antes da Era Crist, quando Herdoto visitou o Egito, um povo de pele negra, os Kolchus,
     ainda vivia na Clquida, no litoral armnio do mar Negro, a leste do antigo porto de Trebizonda, cercado
     por naes de pele branca.
     Os estudiosos da Antiguidade ficaram intrigados quanto  origem deste povo, e Herdoto, em Euterpe,
     o segundo livro de sua histria do Egito, tenta provar que os Kolchu eram egpcios; da a argumentao
     citada. Herdoto, baseado nas estelas comemorativas erigidas por Sesstris em pases conquistados,
     afirma que esse monarca alcanara a Trcia e a Ctia, onde, ao que parece, as estelas ainda subsistiam no
     tempo de Herdoto. (Livro II, 103.)
Origem dos antigos egpcios                                                                    13



     rio Termodon e da regio de Pathenios e seus vizinhos, os macrons, dizem t-la
     aprendido, recentemente, com os colqudios. Essas so as nicas raas que praticam
     a circunciso, e deve-se observar que a praticam da mesma maneira que os egpcios.
     Quanto aos prprios egpcios e aos etopes, eu no poderia afirmar quem ensinou a
     quem essa prtica, pois ela , evidentemente, muito antiga entre eles. Quanto ao fato
     de o costume ter sido aprendido atravs dos egpcios, uma outra prova significativa
     para mim  o fato de que todos os fencios que comerciam com a Grcia param de
     tratar suas partes pudendas conforme a maneira egpcia e no submetem seus filhos
      circunciso"26.
    Herdoto retorna vrias vezes ao carter negroide dos egpcios, e a cada vez
o utiliza como dado de observao para discutir teses mais ou menos complexas.
Assim, para provar que o orculo grego de Dodona, no piro, era de origem
egpcia, um de seus argumentos  o seguinte: "e, quando eles acrescentam que
a pomba era negra, do a entender que a mulher era egpcia"27. As pombas em
questo  na verdade, eram duas, de acordo com o texto  simbolizam duas
mulheres egpcias, que se dizia terem sido trazidas de Tebas, no Egito, para
fundar orculos respectivamente na Grcia (Dodona) e na Lbia (osis de Jpi-
ter Amon). Herdoto no partilha da opinio de Anaxgoras segundo o qual
as enchentes do Nilo seriam causadas pelo degelo nas montanhas da Etipia28.
Apoiava-se no fato de que na Etipia no chove nem neva, "e l o calor torna
os homens negros"29.
   (b) Aristteles, -384 a -322, cientista, filsofo e tutor de Alexandre, o Grande.
   Num de seus trabalhos menores, Aristteles tenta, com surpreendente inge-
nuidade, estabelecer uma correlao entre a natureza fsica e a natureza moral
dos seres vivos, e nos fornece evidncias sobre a raa egpcio-etope que confir-
mam o testemunho de Herdoto. Segundo Aristteles,
      "Aqueles que so muito negros so covardes, como, por exemplo, os egpcios e os
     etopes. Mas os excessivamente brancos tambm so covardes, como podemos ver
     pelo exemplo das mulheres; a colorao da coragem est entre o negro e o branco"30.



26   HERDOTO. Livro II, 104. As mulheres egpcias submetiam-se tambm  exciso do clitris, como
     ocorre entre muitos povos da frica negra. Cf. ESTRABO. Geografia. Livro XVII, cap. 1.
27   HERDOTO. Livro II, 57.
28   SNECA. Questes Naturais. Livro IV, 17.
29   HERDOTO. Livro II, 22.
30   ARISTTELES. Fisionomia, 6.
14                          frica Antiga




     Figura 1.3 Cabo da faca de Djebel
     el-Arak, Pr-Dinstico Tardio. (Foto
     Giraudon, Muse du Louvre.)
     Figura 1.4 Cativos semitas do
     tempo dos faras. Rocha do Sinai.
     (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. LIX.)
Origem dos antigos egpcios                       15




figura 1.5 Cativos indo-europeus. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. LVIII (b).)
Figura 1.6 Cativo indo-europeu. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. LVIII (a).)
16                                                                             frica Antiga



   (c) Luciano, escritor grego, +125 (?) a +190.
   O testemunho de Luciano  to explcito quanto os de Herdoto e Aris-
tteles. Ele apresenta dois gregos, Licino e Timolaus, que iniciam um dilogo:
     "Licino [descrevendo um jovem egpcio]:  Este rapaz no  simplesmente preto; ele
     tem lbios grossos e pernas muito finas (...) seu cabelo tranado atrs mostra que
     no  um homem livre.
     Timolaus:  Mas no Egito esse  um sinal das pessoas muito bem-nascidas, Licino.
     Todas as crianas nascidas livres tranam o cabelo at atingirem a idade adulta. Esse
      um costume exatamente oposto ao dos nossos ancestrais, que achavam conveniente,
     para os velhos, prender o cabelo com um broche de ouro, para mant-lo em ordem"31.
   (d) Apolodoro, sculo I antes da Era Crist, filsofo grego.
   "Egito conquistou o pas dos homens de ps negros e chamou-o Egito, a
partir de seu prprio nome."32
    (e) squilo, -525(?) a -456, poeta trgico e criador da tragdia grega.
    Em As Suplicantes, Dnaos, fugindo com suas filhas, as Danaides, e perse-
guido por seu irmo, Egito, e os filhos deste, os Egitados, que querem desposar
suas primas  fora, sobe em uma colina, olha para o mar e descreve nos seguin-
tes termos os Egitados que remavam ao longe: "Posso ver a tripulao, com seus
membros negros e suas tnicas brancas"33.
    Uma descrio similar do tipo egpcio aparece novamente poucas linhas
abaixo, no verso 745.
   (f) Aquiles Tcio de Alexandria.
   Compara os guardadores de gado do Delta aos etopes e explica que so
escuros, como mestios.
   (g) Estrabo, -58 a aproximadamente +25.
   Estrabo visitou o Egito e quase todos os pases do Imprio Romano. Con-
corda com a teoria de que os egpcios e os Kolchu so da mesma raa, mas sus-
tenta que as migraes para a Etipia e Clquida vieram apenas do Egito. "Os
egpcios estabeleceram-se na Etipia e na Clquida"34. No h qualquer dvida
sobre a concepo de Estrabo a respeito da raa egpcia, pois ele procura, em
outra parte, explicar por que os egpcios so mais escuros do que os hindus,

31   LUCIANO. Navegaes, pargrafos 2-3.
32   APOLODORO. Livro II, "A famlia de nacos", pargrafos 3 e 4.
33   SQUILO. As Suplicantes. versos 719-720. Ver tambm verso 745.
34   ESTRABO. Geografia. Livro I, cap. 3, pargrafo 10.
Origem dos antigos egpcios                                                                              17



circunstncia que permitiria a refutao, se necessrio, de qualquer tentativa de
confundir "a raa hindu e a raa egpcia".
   (h) Diodoro da Siclia, aproximadamente -63 a +14, historiador grego e
contemporneo de Csar Augusto.
   Segundo Diodoro, provavelmente foi a Etipia que colonizou o Egito (no
sentido ateniense do termo, significando que, devido  superpopulao, parte do
povo emigrou para o novo territrio).
     "Os etopes dizem que os egpcios so uma de suas colnias35, que foi levada para o Egito
     por Osris. Eles afirmam que, no comeo do mundo, o Egito era apenas um mar,
     mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da
     Etipia, terminou por colmat-lo e tornou-o parte do continente (...). Acrescentam
     que os egpcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de
     suas leis"36.
   (i) Digenes Larcio.
   Sobre Zeno, fundador da escola estoica (-333 a -261), Digenes escreveu o
seguinte: "Zeno, filho de Mnaseas ou Demeas, era natural do Ccio, em Chipre,
uma cidade grega que havia recebido alguns colonos fencios". Em seu Vidas,
Timteo de Atenas descreve Zeno como tendo o pescoo torcido. Apolnio
de Tiro diz que ele era frgil, muito alto e negro, da o fato, citado por Crisipo
no Primeiro Livro de seus Provrbios. de algumas pessoas o chamarem "broto
de videira egpcio"37.
   (j) Amiano Marcelino, aproximadamente +330 a +400, historiador latino e
amigo do imperador Juliano.
   Com ele, atingimos o ocaso do Imprio Romano e o fim da Antiguidade
clssica. Quase nove sculos se passaram entre o nascimento de squilo e Her-
doto e a morte de Amiano Marcelino, nove sculos durante os quais os egpcios,
em meio a um mar de raas brancas, se miscigenaram constantemente. Pode-
-se dizer sem exagero que, no Egito, uma casa em cada dez inclua um escravo
branco, asitico ou indo-europeu38.


35   Grifo meu.
36   DIODORO. Histria Universal. Livro III. A antiguidade da civilizao etope  atestada pelo mais antigo
     e respeitado escritor grego, Homero, tanto na Ilada como na Odisseia:
     "Hoje, Jpiter, seguido por todos os deuses, recebe os sacrifcios dos etopes" (Ilada. I, 422).
     "Ontem, Jpiter transportou-se para a beira do oceano, para visitar a santa Etipia." (Ilada. I, 423).
37   DIGENES LARCIO. Livro VII, I.
38   Os notveis do Egito gostavam de ter uma escrava sria ou cretense em seus harns.
18                                                                            frica Antiga



      notvel que, apesar de sua intensidade, a miscigenao no tenha alterado
significativamente as constantes raciais. De fato, Amiano Marcelino escreve:
"... a maior parte dos homens do Egito so morenos ou negros, com uma
aparncia descarnada"39. Ele tambm confirma o depoimento j citado sobre
os Kolchu: "Alm destas terras est a ptria dos Camarita40, e o Fsis, com
sua correnteza veloz, banha o pas dos Kolchu, uma antiga raa de origem
egpcia"41.
   Esta rpida reviso dos testemunhos apresentados pelos antigos escritores
greco-latinos sobre a raa egpcia mostra que o grau de concordncia entre eles
 impressionante, constituindo um fato objetivo difcil de subestimar ou ocultar.
A moderna egiptologia oscila constantemente entre esses dois plos.
   Foge  regra o testemunho de um cientista honesto, Volney, que viajou pelo
Egito entre 1783 e 1785  isto , em pleno perodo da escravido negra  e
fez as seguintes observaes sobre os coptas (representantes da verdadeira raa
egpcia, aquela que produziu os faras).
     "Todos eles tm faces balofas, olhos inchados e lbios grossos, em uma palavra,
     rostos realmente mulatos. Fiquei tentado a atribuir essas caractersticas ao clima,
     at que, visitando a Esfinge e olhando para ela, percebi a pista para a soluo do
     enigma. Completando essa cabea, cujos traos so todos caracteristicamente negros,
     lembrei-me da conhecida passagem de Herdoto: `De minha parte, considero os
     Kolchu uma colnia do Egito porque, como os egpcios, eles tm a pele negra e
     o cabelo crespo'. Em outras palavras, os antigos egpcios eram verdadeiramente
     negros, da mesma matriz racial que os povos autctones da frica; a partir desse
     dado, pode-se explicar como a raa egpcia, depois de alguns sculos de miscigenao
     com sangue romano e grego, perdeu a colorao original completamente negra, mas
     reteve a marca de sua configurao.  mesmo possvel aplicar essa observao de
     maneira ampla, e afirmar, em princpio, que a fisionomia  uma espcie de docu-
     mento, utilizvel em muitos casos para discutir ou elucidar os indcios da histria
     sobre a origem dos povos..."
   Depois de ilustrar esta proposio com o caso dos normandos, que, nove-
centos anos depois da conquista da Normandia, ainda se assemelham aos dina-
marqueses, Volney acrescenta:


39   AMIANO MARCELINO. Livro XXII, pargrafo 16 (23).
40   Bandos de piratas que usavam pequenas embarcaes denominadas Camare.
41   AMIANO MARCELINO. Livro XXIII, pargrafo 8 (24).
Origem dos antigos egpcios                                                                              19




figura 1.7   Quops, fara da IV dinastia, construtor da Grande Pirmide. (Fonte: C. 1967. pr. XVIII.)
20                                                                      frica Antiga




Figura 1.8   Fara Mentuhotep I. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XXII.)
Origem dos antigos egpcios                                                                                21



     "Mas, voltando ao Egito, sua contribuio para a histria fornece muitos temas
     para a reflexo filosfica. Que temas importantes para meditao: a atual barbrie
     e ignorncia dos coptas, considerados como tendo nascido do gnio dos egpcios e
     dos gregos; o fato de esta raa de negros, que hoje so escravos e objeto de nosso
     menosprezo, ser a mesma a quem devemos nossa arte, nossas cincias e mesmo o
     uso da palavra escrita; e, finalmente, o fato de, entre os povos que pretendem ser
     os maiores amigos da liberdade e da humanidade, ter-se sancionado a escravido
     mais brbara e questionado se os negros teriam crebros da mesma qualidade que
     os crebros dos brancos!"42
    A esse depoimento de Volney, Champollion-Figeac, irmo de Champollion,
o Jovem, iria responder nos seguintes termos: "Os dois traos fsicos apresen-
tados  pele negra e cabelo crespo  no so suficientes para rotular uma raa
como negra, e a concluso de Volney quanto  origem negra da antiga populao
do Egito  nitidamente forada e inadmissvel"43.
    Ser preto da cabea aos ps e ter cabelo crespo no  suficiente para fazer de
um homem um negro! Isso nos mostra o tipo de argumentao capciosa a que a
egiptologia tem recorrido desde seu nascimento como cincia. Alguns estudiosos
sustentam que Volney estava tentando desviar a discusso para um plano filos-
fico. Mas basta reler Volney: ele simplesmente faz inferncias a partir de fatos
materiais brutos que se impem como provas aos seus olhos e  sua conscincia.


     Os egpcios vistos por si mesmos
   No  perda de tempo conhecer o ponto de vista dos principais envolvidos.
Como os antigos egpcios viam a si mesmos? Em que categoria tnica se coloca-
vam? Como denominavam a si mesmos? A lngua e a literatura que os egpcios
da poca faranica nos deixaram fornecem respostas explcitas a essas questes,
que os acadmicos insistem em subestimar, distorcer e "interpretar".
   Os egpcios tinham apenas um termo para designar a si mesmos:                 =
kmt ,= "os negros" (literalmente)44. Esse  o termo mais forte existente na lngua
faranica para indicar a cor preta; assim,  escrito com um hierglifo represen-
tando um pedao de madeira com a ponta carbonizada, e no com escamas de


42   VOLNEY, M. C. F. Voyages en Syrie et en Egypte. Paris, 1787. v. I, pp. 74-7.
43   CHAMPOLLlON-FIGEAC, J. J. 1839, pp. 26-7.
44   Essa importante descoberta foi realizada, do lado africano, por Sossou Nsougan, que deveria compilar
     esta parte do captulo. Para o sentido da palavra, ver Wrterbuch der Aegyptischen Sprache, Berlim, 1971.
     v. 5, pp. 122, 127.
22                                                                      frica Antiga



crocodilo45. Essa palavra  a origem etimolgica da conhecida raiz kamit, que
proliferou na moderna literatura antropolgica. Dela deriva, provavelmente, a
raiz bblica kam. Portanto foi necessrio distorcer os fatos para fazer com que
essa raiz atualmente signifique "branco" em egiptologia, enquanto, na lngua-
-me faranica de que nasceu, significava "preto-carvo".
    Na lngua egpcia, o coletivo se forma a partir de um adjetivo ou de um
substantivo, colocado no feminino singular. Assim, kmt, do adjetivo               =
km = preto, significa rigorosamente "negros", ou, pelo menos, "homens pretos".
O termo  um coletivo que descrevia, portanto, o conjunto do povo do Egito
faranico como um povo negro.
    Em outras palavras, no plano puramente gramatical, quando, na lngua fara-
nica, se deseja indicar "negros", no se pode usar nenhuma outra palavra seno
a que os egpcios usavam para designar a si mesmos. Alm disso, a lngua nos
oferece um outro termo,                 = kmtjw = os negros, os homens pretos
(literalmente) = os egpcios, opondo-se a "estrangeiros", que vem da mesma
raiz, km, e que os egpcios tambm utilizavam para descrever a si mesmos como
um povo distinto de todos os povos estrangeiros46. Esses so os nicos adjetivos de
nacionalidade usados pelos egpcios para designarem a si mesmos, e ambos
significam "negro" ou "preto" na lngua faranica. Os acadmicos raramente
os mencionam ou, quando o fazem, traduzem-nos por eufemismos, tais como
"os egpcios", nada dizendo sobre seu sentido etimolgico47. Eles preferem a
expresso                  = Rmt kmt = os homens do pas dos homens negros ou
os homens do pas negro.
    Em egpcio, as palavras so normalmente seguidas de um determinante, indi-
cando seu sentido exato; para essa expresso particular, os egiptlogos sugerem
que         = km = preto e que a cor qualifica o determinante que o segue e que
significa "pas". Assim, eles alegam que a traduo deveria ser "a terra negra",
a partir da cor do limo ou "o pas negro", e no "o pas dos homens negros",
como tenderamos a interpretar hoje em dia, tendo em mente a frica branca
e a frica negra. Talvez estejam certos; mas, se aplicarmos essa regra rigorosa-
mente a            = kmit, seremos obrigados a "admitir que aqui o adjetivo `preto'
qualifica o determinante, que significa todo o povo do Egito, representado pelos
dois smbolos de `homem'  `mulher' e os trs traos embaixo, designando plural".
Assim, se  possvel levantar alguma dvida sobre a expresso         = kme, no 

45   Wrterbuch ... , p. 122.
46   Ibid., p. 128.
47   FAULKNER, R. O. 1962, p. 286.
Origem dos antigos egpcios                                                                             23




figura 1.9   Ramss II e um Batutsi moderno. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XXXV.)
Figura 1.10 A Esfinge, tal como foi encontrada pela primeira misso cientfica francesa no sculo XIX.
Presume-se que esse perfil, tipicamente negroide, represente o fara Khafre ou Qufren (cerca de -2600, IV
dinastia), construtor da segunda pirmide de Gis. O perfil no  nem helnico nem semita:  bantu. (Fonte:
C. A. Diop. 1967. pr. XIX.)
24                                                  frica Antiga




Figuras 1.11, 1.12, 1.13 e 1.14 Quatro tipos
indo-europeus (Zeus, Ptolomeu, Serpis, Traja-
no). Compare com os grupos egpcios II e III. 
possvel fazer-se confuso? (Fonte: C. A. Diop.
1967. pr. LVII.)
Figura 1.15 Dois semitas. O tipo semita, assim
como o indo-europeu, inexiste na classe dominante
egpcia; ambos entravam no Egito apenas como
prisioneiros de guerra.
Origem dos antigos egpcios                                                     25



possvel faz-lo no caso dos dois adjetivos de nacionalidade          kmt e kmtjw,
a menos que se estejam escolhendo os argumentos sem nenhum critrio.
    interessante notar que os antigos egpcios nunca tiveram a ideia de aplicar
esses qualificativos aos nbios e a outras populaes da frica, para distingui-las
deles mesmos, da mesma forma que um romano, no apogeu do Imprio, no
usaria um adjetivo de "cor" para se distinguir dos germnicos da outra margem
do Danbio, que eram da mesma matriz tnica mas se encontravam ainda num
estdio de desenvolvimento pr-histrico.
   Nos dois casos, ambos os lados pertenciam ao mesmo universo, em termos de
antropologia fsica; portanto os termos usados para distingui-los relacionavam-
-se ao grau de Civilizao ou tinham sentido moral. Para o romano civilizado,
os germnicos, da mesma matriz tnica, eram brbaros. Os egpcios usavam
a expresso          = nahas para designar os nbios; e nahas48, em egpcio,  o
nome de um povo, sem conotao de cor. Trata-se de um equvoco deliberado
traduzi-lo como "negro", como aparece em quase todas as publicaes atuais.


     Os eptetos divinos
   Finalmente, preto ou negro  o epteto divino invariavelmente utilizado para
designar os principais deuses benfeitores do Egito, enquanto os espritos mal-
volos so qualificados como desrt = vermelho. Sabemos que, entre os africanos,
esse termo se aplica s naes brancas;  quase certo que isso seja verdade tam-
bm para o Egito mas, neste captulo, quero ater-me ao plano dos fatos menos
sujeitos a controvrsias.

     Os deuses recebiam os seguintes eptetos:
                            = kmwr = o "Grande Negro" para Osris49;
                       = km = negro + o nome do deus50;
            = kmt = negro + o nome da deusa51.




48   Wrterbuch , p. 128.
49   Ibid., p. 124.
50   Ibid., p. 125.
51   Ibid., p. 123.
26                                                                             frica Antiga



   O qualificativo km (negro),      ,  aplicado a Htor, pis, Min, Tot, etc.
            setkmt = a mulher negra = sis52. Por outro lado, seth, o deserto
estril,  qualificado pelo termo desrt = vermelho53. Os animais selvagens,
que Hrus combateu para criar a civilizao, so qualificados como desrt =
vermelhos, especialmente o hipoptamo54. Analogamente, os seres malvolos
expulsos por Tot so des =         = desrtjw = os vermelhos. Esse termo  o
inverso gramatical de Kmtjw, e sua construo segue a mesma regra que a da
formao de nisbs.


     Testemunho da Bblia
   A Bblia nos diz: "... os filhos de Cam [foram] Cush, e Mizraim (isto ,
Egito), e Fut, e Cana. E os filhos de Cush, Saba, e Hevila, e Sabata, e Regna,
e Sabataca"55.
   De maneira geral, toda a tradio semtica (judaica e rabe) classifica o antigo
Egito entre os pases dos negros.
   A importncia desses depoimentos no pode ser ignorada, porque os judeus
eram povos que viviam lado a lado com os antigos egpcios e, algumas vezes, em
simbiose com estes, e nada tinham a ganhar apresentando uma falsa imagem
tnica dos mesmos. Da mesma forma, neste caso no se sustenta a noo de
uma interpretao errnea dos fatos56.


     Dados culturais
   Dentre os inmeros traos culturais idnticos documentados no Egito e
na frica negra dos nossos dias, vamos referir-nos apenas  circunciso e ao
totemismo.
   Segundo o excerto de Herdoto citado anteriormente, a circunciso  de
origem africana. A arqueologia confirmou a opinio do Pai da Histria: Elliot-
-Smith pde comprovar, a partir do exame de mmias bem conservadas, que a


52   Note-se que set = kem = esposa negra em walaf. Wrterbuch ... , p. 492.
53   Wrterbuch ... , p. 493.
54   Desrt = sangue, em egpcio; deret = sangue, em walaf. Ibid., p. 494.
55   Gnesis, 10: 6-7.
56   DIOP, C. A., 1955, pp. 33 et seqs.
Origem dos antigos egpcios                                                             27



circunciso j era praticada, entre os egpcios, em tempos que remontam  era
proto-histrica57, isto , a antes de - 4000.
    O totemismo egpcio manteve sua vitalidade at o perodo romano58, e Plu-
tarco tambm o menciona. As pesquisas de Amlineau59, Loret, Moret e Adol-
phe Reinach demonstraram claramente a existncia de um sistema totmico no
Egito, refutando os defensores da tese da zoolatria.
     "Se reduzirmos a noo de totem  de um fetiche, geralmente animal, representando
     uma espcie com a qual a tribo acredita ter laos especiais, renovados periodicamente,
     e que  carregado para a batalha como um estandarte; se aceitarmos essa definio de
     totem, mnima mas adequada, pode-se dizer que no h outro pas onde o totemismo
     tenha tido um reinado mais brilhante do que no Egito, e nenhum outro lugar onde
     ele possa ser mais bem estudado"60.


     Afinidade lingustica
    O walaf61, lngua senegalesa falada no extremo oeste da frica, na costa
atlntica, , talvez, to prximo do egpcio antigo quanto o copta. Recentemente
foi feito um estudo exaustivo sobre essa questo62. Neste captulo, apresentamos
apenas o suficiente para mostrar que o parentesco entre as lnguas do antigo
Egito e as da frica no  uma suposio, mas um fato demonstrvel e impos-
svel de ser ignorado pelos crculos acadmicos.
    Como veremos, o parentesco  de natureza genealgica.




57   MASSOULARD, E. 1949, p. 386.
58   JUVENAL. Stiras, XV, v. 1-14.
59   AMLINEAU, E. Op. cit.
60   REINACH, A. 1913, p. 17.
61   Grafa-se, frequentemente, wolof.
62   DIOP, C. A. 1977 (a).
28                                       frica Antiga




Figura 1.16 Estrangeiro. (Fonte: C.
A. Diop. 1967. pr. LVIII (1).)
Figura 1.17 Fechadura de porta,
de Hieracmpolis. I dinastia egpcia.
(Fonte: University Museum, Phila-
delphia.)
Figura 1.18 Prisioneiro lbio. (Fonte:
C. A. Diop, 1967. pr. LVI (2).)
Origem dos antigos egpcios                                               29




Figura 1.19 Um fara da I dinastia egpcia. Segundo J. Pirenne,
tratar-se-ia de Narmer, o primeiro fara da Histria. (Fonte: C. A.
Diop. 1967. pr. XVI.)
Figura 1. 20 ( direita) Zoser, tpico negro, fara da III dinastia,
inaugurou a grande era da arquitetura em pedra revestida: a pirmide
em degraus e o complexo funerrio em Sacar. Em seu reinado,
todas as caractersticas tecnolgcas da civilizao egpcia j estavam
desenvolvidas. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XVII.)
30                                                                                   frica Antiga



     Verbos
              Egpcio                        Copta                            Walaf
       = kef = agar-                   (dialeto sadico)                  kef = apa-
rar, pegar, despojar                keh = domesticar64                nhar uma presa
(de alguma coisa)63
    PRESENTE                        PRESENTE                         PRESENTE
    kef i                           keh                              kef na
    kef ek                          kef ek                           kef nga
    kef et                          kef ere                          kef na
    kef ef                          kef ef
     kef es                         kef es
                                                                     kef ef
                                                                     kef es   } na
     kef n                          kef en                           kef nanu
     kef ton                        kef etet                        kef ngen
     kef sen65                      kef ey                           kef nanu
     PASSADO                        PASSADO                          PASSADO
     kef ni                         kef nei                          kef (on) na
     kef (o) nek                    kef nek                          kef (on) nga
     kef (o) net                    kef nere                         kef (on) na
     kef (o) nef
     kef (o) nes
                                    kef nef
                                    kef nes
                                                                     kef (on) ef na
                                                                     kef (on) es     }
     kef (o) nen                    kef nen                          kef (on) nanu
     kef (o) n ten                  kef netsten                      kef (on) ngen
     kef (o) n sen66                kef ney67                        kef (on) nau
                    Egpcio                                           Walaf
                   = feh = partir                    feh = partir precipitadamente
   Temos as seguintes correspondncias entre as formas verbais, com identidade
ou semelhana de significados: todas as formas verbais egpcias, com exceo de
duas, tambm so encontradas no walaf.

              EGPCIO                                          WALAF

          {   feh-ef
              feh-es                                       {   feh-ef
                                                               feh-es
          {   feh-n-ef
              feh-n-es                                     {   feh-n-ef
                                                               feh-n-es

63   LAMBERT, R. 1925, p. 129.
64   MALLON, A. pp. 207-34.
65   BUCK, A. de. 1952.
66   Id.
67   MALLON, A. pp. 207-34.
Origem dos antigos egpcios                                                                           31



               feh-w                                                 feh-w

           { feh-w-es
             feh-w-ef
                                                                 { feh-w-es
                                                                   feh-w-ef


           { feh-w-n-es
             feh-w-n-ef
                                                                 { feh-w-n-es
                                                                   feh-w-n-ef


           { feh-in-es
             feh-in-ef
                                                                 { feh-il-es
                                                                   feh-il-ef

               EGPCIO                                               WALAF

           { feh-t-es
             feh-t-ef
                                                                 { feh-t-es
                                                                   feh-t-ef


           { feh-tysy                                            {
             feh-tyfy                                                feh-ati-fy
                                                                     feh-at-ef
           { feh-tw-es
             feh-tw-ef                                               feh-at-es
                                                                 {   mar-tw-ef
                                                                     mar-tw-es
               feh-kw(i)                                             fahi-kw

           {   feh-n-tw-ef
               feh-n-tw-es                                       {   feh-an-tw-ef
                                                                     feh-an-tw-es
           {   feh-y-ef
               feh-y-es                                          {   feh-y-ef
                                                                     feh-y-es
               EGPCIO                                               WALAF
               = mer = amar                                          mar = lamber68

           {   mer-ef
               mer-es                                            {   mar-ef
                                                                     mar-es
           {   mer-n-ef
               mer-n-es                                          {   mar-n-ef
                                                                     mar-n-es
               mer-w                                                 mar-w

           { mer-w-es
             mer-w-ef
                                                                 { mar-w-es
                                                                   mar-w-ef

           { mer-w-n-es
             mer-w-n-f
                                                                 { mar-w-n-es
                                                                   mar-w-n-ef

           { mer-in-es
             mer-in-ef
                                                                 { mar-il-es
                                                                   mar-il-ef

           { mer-t-es
             mer-t-ef
                                                                 { mar-t-es
                                                                   mar-t-ef

           { mer-tw-es
             mer-tw-ef
                                                                 { mar-tw-es
                                                                   mar-tw-ef


68   Por extenso, = amar intensamente (de onde, o verbo mar-maral), tal como a fmea que lambe o filhote
     que ela acabou de parir. Esse sentido no se ope  ideia de um homem levando a mo  boca, que pode
     ser evocada pelo determinativo.
32                                                                                 frica Antiga




           { mer-t-tysy
             mer-tyfy
                                                            { mar-at-es
                                                              mar-at-ef


                                                            { mar-aty-sy
                                                              mar-aty-sy

               mer-kwi                                       mari-kw

           {   mer-y-ef
               mer-y-es                                     { mar-y-es
                                                              mar-y-ef

           {   mer-n-tw-ef
               mer-n-tw-es                                  { mar-an-tw-es
                                                              mar-an-tw-ef


                                                            { mar-tw-n-es
                                                              mar-tw-n-ef

     Demonstrativos egpcios e walaf
   Entre os demonstrativos egpcios e walaf existem as seguintes correspondncias
fonticas:
               EGPCIO                           WALAF

            = pw                                            ep               w
               (ipw)                             bw         p                b
                                                            w                w
            = pwy                                           p                b-
               (ipw)                             bwy        w                w
                                                            y                y
            = pn
               (ipn)
                                             {   ban
                                                 bal
                                                            p
                                                            n
                                                            p
                                                            n
                                                                             b-
                                                                             n
                                                                             b-
                                                                             l69
            = pf                                 bafe       p                b
               (ipf )                                       f                f
            = pf3                                bafa       p                b-
                                                            f                f
                                                            3                a
            = pfy                                           p                b-
               (ipfy)                            bafy       f                f
                                                            y                y
            = p3                                 b         p                b
                                                            3                
            = iptw                               batw       p                b
                                                            t                t
                                                            w                w
69   Veja, em seguida, a explicao desta importante lei.
Origem dos antigos egpcios                                                        33



             = iptn
                                    {   batn

                                        Batal      {{    p
                                                          t
                                                          n
                                                          n
                                                                         b
                                                                         t
                                                                         n
                                                                         l
             = iptf                     bataf       p                  b-
                                                     t                  t
                                                     f                  f
   Essas correspondncias fonticas no podem ser atribudas a afinidades
elementares ou a leis gerais do esprito humano, visto tratar-se de correspondncias
regulares, em pontos relevantes, que se estendem por todo o sistema: os
demonstrativos, nas duas lnguas, e as formas verbais. Foi atravs da aplicao
de leis como essas que se tornou possvel demonstrar a existncia da famlia
lingustica indo-europeia.
   A comparao poderia ir ainda mais longe, mostrando que a maioria dos
fonemas se mantm inalterados nas duas lnguas. As poucas mudanas de
grande interesse so as seguintes:
    (a) A correspondncia n (E) l (W)
             EGPCIO                        WALAF
               n                             l
             = nad = perguntar                   lad = perguntar
             = nah = proteger                    lah = proteger
             = ben ben = jorrar                  bel bel = jorrar
             = teni = envelhecer                 tal = importante


                                             {
             = tefnwt = a deusa nascida          tefnit = "cuspir" um ser humano
                         da saliva de Ra         teflit = saliva
                                                 tefli = aquele que cospe
             = nebt = trana
                                             { nab==trana o cabelo temporariamente
                                               let
                                                     tranar
    (b) A correspondncia h (E) g (W)
             EGPCIO                    WALAF
                h                        g
              = hen = falo               gen = falo
              = hwn = adolescente        gwn
                                         gon         }
                                                 = adolescente
               = hor = Hrus             gor = vir (varo?)
               = hor gwn = o jovem Hrus gor gwn = homem jovem (m..m)
34                                                                                              frica Antiga



   Ainda  cedo para se falar com preciso sobre os acompanhamentos vocli-
cos dos fonemas egpcios. Abre-se, porm, um caminho para a redescoberta do
vocalismo do antigo Egito a partir de estudos comparativos com outras lnguas
da frica.


     Concluso
    A estrutura da realeza africana, em que o rei  morto, real ou simbolica-
mente, depois de um reinado de durao varivel  em torno de oito anos ,
lembra a cerimnia de regenerao do fara, atravs da festa de Sed. Os ritos
de circunciso j mencionados, o totemismo, as cosmogonias, a arquitetura, os
instrumentos musicais, etc. tambm so reminiscncias do Egito na cultura
da frica Negra70. A Antiguidade egpcia , para a cultura africana, o que  a
Antiguidade greco-romana para a cultura ocidental. A constituio de um corpus
de cincias humanas africanas deve ter isso como base.
    Compreende-se como  difcil escrever um captulo como este numa obra
deste gnero, na qual o eufemismo e a transigncia, via de regra, prevalecem.
Por isso, na tentativa de evitar o sacrifcio da verdade cientfica, insistimos na
realizao de trs sesses preliminares  preparao deste volume, o que foi
aceito na sesso plenria realizada em 197171. As primeiras duas sesses leva-
ram  realizao do simpsio do Cairo, de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de
197472. Gostaria de mencionar algumas passagens do relatrio desse simpsio.
O professor Vercoutter, que fora encarregado pela Unesco de escrever o relatrio
preliminar, reconheceu, depois de uma discusso exaustiva, que a ideia conven-
cional de que a populao egpcia se dividia equitativamente em brancos, negros
e mestios no podia ser mantida:
    "O professor Vercoutter concordou que no se deve tentar estimar por-
centagens; elas nada significariam na medida em que no se dispe de dados
estatsticos confiveis para calcul-las".
    Sobre a cultura egpcia consta no relatrio:
    "O professor Vercoutter observou que, de seu ponto de vista, o Egito era
africano quanto  escrita,  cultura e  maneira de pensar".

70   Ver DIOP, C. A. 1967.
71   Ver Unesco. Relatrio Final da Primeira Sesso Plenria do Comit Cientfico Internacional para a redao
     de uma Histria Geral da frica. 30 mar./8 abr. 1974.
72   Simpsio sobre "O povoamento do Antigo Egito e a decifrao da escrita merotica". Cf. Unesco. Studies
     and Documents, I, 1978.
Origem dos antigos egpcios                                                           35



   O professor Leclant, por sua vez, "reconheceu o mesmo carter africano no
temperamento e maneira de pensar egpcios".
   Quanto  lingustica, afirma-se no relatrio que "este item, ao contrrio dos
outros discutidos anteriormente, revelou um alto grau de concordncia entre
os participantes. O relatrio elaborado pelo professor Diop e o relatrio do
professor Obenga foram considerados muito construtivos".
   Da mesma maneira, o simpsio rejeitou a ideia de que o egpcio faranico
era uma lngua semtica.
    "Abordando questes mais amplas, o professor Sauneron chamou a ateno para o
    interesse do mtodo sugerido pelo professor Obenga, seguindo o professor Diop. O
    egpcio manteve-se como uma lngua estvel por um perodo de, pelo menos, 4500
    anos. O Egito situa-se no ponto de convergncias externas, e seria de se esperar,
    portanto, que se fizessem emprstimos de outras lnguas; mas as razes semticas se
    reduzem a algumas centenas, para um total de muitos milhares de palavras. A lngua
    egpcia no pode ser isolada de seu contexto africano, e sua origem no pode ser
    totalmente explicada a partir das lnguas semticas. Portanto  natural que se espere
    encontrar na frica lnguas aparentadas ao egpcio".
   A relao gentica  isto , no acidental  entre o egpcio e as lnguas afri-
canas foi reconhecida:
    "O professor Sauneron observou que o mtodo utilizado era muito interessante, uma
    vez que a similaridade entre os sufixos dos pronomes da terceira pessoa do singular
    no egpcio antigo e na lngua walaf no poderia ser mera casualidade; ele espera que
    se tente no egpcio antigo e na lngua walaf reconstituir uma lngua paleoafricana,
    tomando como ponto de partida as lnguas atuais".
    Na concluso geral do relatrio, afirmava-se:
    "A despeito das especificaes constantes do texto preparatrio distribudo pela
    Unesco, nem todos os participantes prepararam comunicaes comparveis s dos
    professores Cheikh Anta Diop e Obenga, meticulosamente elaboradas. Consequen-
    temente, houve uma considervel falta de equilbrio nas discusses".
   Assim, escreveu-se no Cairo uma nova pgina da historiografia africana. O
simpsio recomendou que se fizessem novos estudos sobre o conceito de raa.
Tais estudos tm sido realizados desde ento, mas no trouxeram nada de novo
 discusso histrica. Dizem-nos que a biologia molecular e a gentica reco-
nhecem apenas a existncia de populaes, e que o conceito de raa j no tem
qualquer significado. No entanto, sempre que aparece alguma questo sobre a
36                                                                                           frica Antiga



transmisso de doenas hereditrias, o conceito de raa, no sentido mais clssico
do termo, reaparece, pois a gentica nos ensina que "a anemia fauciforme ocorre
apenas entre os negros". A verdade  que todos estes "antroplogos" j esquema-
tizaram em suas mentes as concluses derivadas do triunfo da teoria monoge-
ntica da humanidade, sem ousar diz-lo explicitamente, pois, se a humanidade
teve origem na frica, foi necessariamente negroide antes de se tornar branca
atravs de mutaes e adaptaes, no final da ltima glaciao na Europa, no
Paleoltico Superior. E agora compreende-se muito melhor por que os negroi-
des grimaldianos ocuparam a Europa 10 mil anos antes do aparecimento do
Homem de Cro-Magnon, prottipo da raa branca (por volta de -20000).
    O ponto de vista ideolgico tambm  evidente em estudos aparentemente
objetivos. Na histria e nas relaes sociais, o fentipo  isto , o indivduo ou
o povo tais como so percebidos   o fator dominante, em oposio ao gen-
tipo. A gentica atual nos autoriza a imaginar um Zulu com o "mesmo" gen-
tipo de Vorster. Isso significa que a histria que testemunhamos colocar esses
dois fentipos  isto , os dois indivduos  no mesmo nvel em todas as suas
atividades nacionais e sociais? Certamente no  a oposio continuar sendo
tnica, e no social. Este estudo torna necessrio que se reescreva a histria da
humanidade a partir de um ponto de vista mais cientfico, levando em conta o
componente negro-africano, que foi, por longo tempo, preponderante. Assim,
, doravante, possvel constituir um corpus de cincias humanas negro-africanas
apoiado em bases histricas slidas, e no suspenso no ar. Finalmente, se  fato
que s a verdade  revolucionria, deve-se acrescentar que s um rapprochement
realizado com base na verdade ser duradouro. No se contribui para a causa do
progresso humano lanando um vu sobre os fatos.
    A redescoberta do verdadeiro passado dos povos africanos no dever ser
um fator de diviso, mas contribuir para uni-los, todos e cada um, estreitando
seus laos de norte a sul do continente, permitindo-lhes realizar, juntos, uma
nova misso histrica para o bem da humanidade, e isto em consonncia com
os ideais da Unesco73.




73   Nota do coordenador: As opinies expressas pelo Professor Cheikh Anta Diop neste captulo so as
     mesmas que ele apresentou e desenvolveu no simpsio da Unesco sobre "O povoamento do antigo
     Egito", realizado no Cairo, em 1974. Um sumrio dos resultados desse simpsio se encontra no final
     do captulo. Os argumentos apresentados neste captulo no foram aceitos por todos os especialistas
     interessados no problema (Cf. Introduo, acima). Gamal Mokhtar
O Egito faranico                                                                             37



                                      CAPTULO 2


                             O Egito faranico
                                          A. Abu Bakr




   O fim da era glacial na Europa provocou importantes modificaes climticas
nas terras situadas ao sul do Mediterrneo. A diminuio do volume de chuvas
levou as populaes nmades da frica saariana a imigrarem para o vale do
Nilo  procura de suprimento permanente de gua. Portanto  provvel que
o primeiro povoamento efetivo do vale do Nilo tenha ocorrido no incio do
Neoltico (por volta de -7000). Nessa poca, os egpcios adotaram um modo
de vida pastoril e agrcola. Enquanto aperfeioavam seus instrumentos e armas
de pedra, inventaram  ou acolheram  a cermica, que viria a ser para ns
de grande utilidade na reconstituio de um quadro completo das diferentes
culturas egpcias durante o perodo neoltico1.
   Pouco antes do perodo histrico, os egpcios aprenderam a utilizar os
metais2, ingressando assim no chamado perodo calcoltico (ou cuproltico).
O metal aos poucos substituiu o slex. O ouro e o cobre fizeram tambm sua
primeira apario, embora o bronze no tenha sido empregado at o Mdio
Imprio e, aparentemente, o uso do ferro no se tenha generalizado at o ltimo
perodo da histria faranica.


1    Ver KI-ZERBO, J., coord. Histria Geral da frica. So Paulo, Unesco/tica, 1982. v. I, Cap. 28,
     "Pr-histria do vale do Nilo".
2    Id., ibid., Cap. 28, "Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos sistemas sociais at o
     sculo V antes da Era Crist".
38                                                                                    frica Antiga



     Pr-Histria
    O Egito, situado na extremidade nordeste da frica,  um pas pequeno
se comparado ao imenso continente de que faz parte. Contudo, a se originou
uma das mais importantes civilizaes do mundo. A prpria natureza dividiu o
pas em duas partes diferenciadas: as estreitas faixas de terra frtil situadas ao
longo do Nilo, de Assu at a regio do atual Cairo, denominadas Alto Egito,
e o extenso tringulo formado no curso de milnios pelos depsitos de limo
do rio, que corre para o norte em direo ao Mediterrneo, regio denominada
Baixo Egito ou Delta.
    O estabelecimento das primeiras populaes no se deu sem dificuldade, e
deve ter havido uma disputa acirrada entre os diferentes grupos humanos pela
posse das terras situadas ao longo do Nilo e na regio relativamente reduzida do
Delta. Somente os mais fortes e capazes teriam sobrevivido. Esses povos vindos
do leste, do oeste e do sul pertenciam, sem dvida, a diversos grupos somticos.
No surpreende que de incio os diferentes obstculos naturais, acrescidos 
diversidade das origens, tenham isolado os grupos que se fixaram nos vrios
territrios ao longo do vale. Pode-se atribuir a esses grupos a origem dos nomos,
que constituram a base da estrutura poltica do Egito no perodo histrico.
No entanto, o Nilo proporcionava um meio de comunicao natural entre as
diferentes localidades situadas em suas margens, facilitando o desenvolvimento
da unidade lingustica e cultural, que acabou por obscurecer as caractersticas
particulares de cada grupo.
    A grande realizao do perodo pr-histrico foi o controle da terra (ver
Introduo). Instalados inicialmente em afloramentos rochosos acima das
plancies de aluvio ou em reas mais elevadas na orla do deserto, os primeiros
egpcios conseguiram clarear o terreno  sua volta tornando-o prprio ao cultivo,
drenar os pntanos e construir diques para servir de anteparo s enchentes.
Pouco a pouco, descobriram as vantagens da utilizao dos canais de irrigao.
Tal empreendimento requeria um trabalho organizado em larga escala, o que
levou ao desenvolvimento de uma estrutura poltica local em cada provncia.
     possvel que alguns fragmentos de textos da literatura primitiva3 tenham
conservado a memria do desenvolvimento da unidade poltica no Egito. Parece
que em poca remota os nomos do Delta estiveram organizados em coligaes:
os nomos do oeste eram tradicionalmente ligados pelo culto ao deus Hrus,


3    Sobre os Textos das Pirmides, ver a traduo inglesa de FAULKNER, R. O. 1969.
O Egito faranico                                                                                 39



ao passo que os do leste tinham por protetor comum o deus Andjty, senhor de
Djedu, que posteriormente foi absorvido por Osris. Sugeriu-se que os nomos
do oeste teriam conquistado os do leste e formado um reino unido no Egito
setentrional. Desse modo, o culto de Hrus como deus supremo prevaleceu em
todo o Delta, propagando-se gradualmente at o Alto Egito e destronando Set,
o principal deus de uma coalizo de povos daquela regio4.


    O perodo Arcaico (-3200 a -2900)
    O primeiro evento historicamente importante de que se tem notcia  a
unio dos dois reinos pr-histricos, ou melhor, a sujeio do Baixo Egito pelo
soberano do Alto Egito, denominado Mens pela tradio (embora as fontes
arqueolgicas o chamem Narmer). Foi ele o fundador da primeira das trinta
dinastias ou famlias governantes, em que o historiador egpcio Mneton (-280)
dividiu a longa linhagem de soberanos at a poca de Alexandre, o Grande. A
famlia de Mens residia em Tnis, no Alto Egito, o principal centro da provncia
que inclua a cidade sagrada de Abidos. Foi perto de Abidos, onde se situa o
santurio do deus Osris, que Petrie exumou os imensos tmulos dos reis das
duas primeiras dinastias. Com certeza foi o reino meridional que imps seu
domnio a todo pas, tendo Narmer, logo aps sua primeira vitria, instalado a
capital em Mnfis, prximo  fronteira entre as duas regies5.
    Os reis das duas primeiras dinastias do perodo arcaico (ver Captulo 1) so
pouco conhecidos, e dificilmente se podero obter maiores informaes sobre os
acontecimentos de seus respectivos reinados. Todavia, no resta dvida de que
esse perodo foi marcado por rduo esforo de consolidao. A cultura do final
do perodo pr-dinstico prevaleceu durante os trezentos anos posteriores  I
dinastia, mas com a consumao da unidade poltica, durante a III e IV dinastia,
o novo Estado adquire estabilidade o bastante. Isso se d sob a forma de um novo
dogma, segundo o qual o rei egpcio era considerado sobre-humano, verdadeiro
deus a reinar sobre os homens. O dogma da divindade do fara6, difcil de definir,
teria sido elaborado durante as primeiras dinastias com o objetivo de consolidar
um poder nico sobre os dois territrios. Poder-se-ia dizer que a partir da III
dinastia o chefe do Estado no era um egpcio do norte ou do sul, mas um deus.


4    A referncia bsica para esta teoria, atualmente objeto de controvrsia,  SETHE, K. 1930.
5    Ver HAYES, W. C. 1965; CNIVAL, J. L. de. 1973.
6    Sobre o conceito da divindade do fara, consultar POSENER, G. 1960.
40                                                              frica Antiga




figura 2.1   O Nilo, da Terceira Catarata at o Mediterrneo.
O Egito faranico                                                                          41




figura 2.2   Cronologia da histria egpcia (todas as datas so anteriores  Era Crist)
42                                                                     frica Antiga



    Segundo a teoria da realeza, o fara encarnava o Estado e era responsvel
por todas as atividades do pas (ver Captulo 3). Alm disso, era o sumo
sacerdote de todos os deuses, servindo-os diariamente em cada um dos templos.
Obviamente, na prtica, era-lhe impossvel corresponder a tudo o que dele
se esperava. Necessitava de representantes para executar suas tarefas divinas:
ministros, funcionrios nas provncias, generais no exrcito e sacerdotes nos
templos. Embora seu poder fosse teoricamente absoluto, ele no podia, de fato,
exerc-lo livremente. Era ele a personificao de crenas e prticas muito antigas
que se desenvolveram progressivamente com o passar dos anos. Na realidade,
a vida dos reis era to codificada que estes no podiam passear ou banhar-se
sem submeter-se ao cerimonial estabelecido para cada um desses atos, regulado
por ritos e obrigaes. No entanto, sob suas coroas ricamente ornamentadas, os
faras possuam,  claro, uma dimenso humana: eram sensveis ao amor e ao
dio,  ambio e  desconfiana,  clera e ao desejo. Durante toda a histria
do antigo Egito, a arte e a literatura representaram o fara segundo um ideal
estereotipado, sendo, contudo, notvel que se tenha chegado a conhecer os reis
individualmente, como seres dotados de personalidade prpria.
     sabido que as naes antigas tinham grande interesse pelas crenas
egpcias, e que os indivduos que perdiam a f nas crenas de seus antepassados
costumavam procurar os "sbios" do Egito. Uma certa venerao pela sabedoria
egpcia subsistiu at o desaparecimento das religies politestas. A exemplo de
outros povos contemporneos, os egpcios do Neoltico acreditavam que seus
deuses se encontravam na natureza e que a Terra e o cu estavam povoados
de espritos. Acreditavam que esses espritos fixavam sua morada terrestre nos
animais, nas plantas ou em qualquer objeto notvel por seu tamanho ou forma.
Com o passar do tempo, porm, deixaram de considerar os animais ou os objetos
como deuses e gradualmente passaram a acreditar que se tratava da manifestao
visvel ou da morada de uma fora divina abstrata. O animal ou objeto escolhido
como a manifestao visvel de um deus tanto podia ser um animal til e amigo,
como a vaca, o carneiro, o cachorro ou o gato, quanto um animal selvagem e
temvel, como o hipoptamo, o crocodilo ou a cobra. Em cada um desses casos,
os egpcios rendiam homenagem e ofereciam sacrifcios a um nico espcime na
Terra. Adoravam a vaca, porm a abatiam para se abastecer de carne. Tambm
adoravam o crocodilo, mas o matavam para se defender.
    Trata-se de deuses locais; cada um era deus supremo em seu prprio domnio
e senhor incontestvel do territrio, com uma exceo: o deus local de uma
cidade em que o chefe de um grupo chegasse ao poder tinha precedncia sobre
os demais. Se o chefe ascendesse ao trono e lograsse estabelecer ou consolidar
O Egito faranico                                                                                     43



a unificao dos reinos do sul e do norte, o deus local seria promovido a deus
oficial de todo o pas.
    Alm disso, os primeiros egpcios viam foras divinas no Sol, na Lua,
nas estrelas, no cu e nas cheias do Nilo. Deviam temer suas manifestaes
visveis e impressionar-se com a influncia que exerciam, pois os adoravam e
os consideravam deuses poderosos: R ou R, o Sol, Nut, o cu, Nun, o oceano,
Shu, o ar, Geb, a Terra, e Hapi, a cheia7.
    Essas divindades eram representadas sob forma humana ou animal, e seu culto
no se limitava a uma localidade especfica. As deusas tambm desempenhavam
papel decisivo na religio, sendo objeto de grande venerao. Contudo seu nmero
provavelmente no excedia a doze, embora algumas, como Htor, sis, Neith e
Bastet, no deixassem de ser importantes em todo o pas. Via de regra, Htor
era associada a Hrus, e sis, a Osris; Neith era a deusa protetora da capital pr-
-histrica do Delta, e Bastet (a deusa-gata) alcanou grande popularidade aps
a a II dinastia, no dcimo oitavo nomo do Baixo Egito.
    Em nenhuma outra nao antiga ou moderna, a ideia de uma vida aps a
morte desempenhou papel to importante e influenciou tanto a vida dos crentes
como no antigo Egito8. A crena no alm foi sem dvida favorecida e influenciada
pelas condies geogrficas do Egito, onde a aridez do solo e o clima quente
asseguravam uma notvel conservao dos corpos aps a morte, o que deve ter
estimulado fortemente a convico de que a vida continuava no alm-tmulo.
    No decorrer da histria, os egpcios vieram a acreditar que seus corpos
encerravam diferentes elementos imortais. Um deles era o Ba, representado por
um pssaro com cabea de homem, traos idnticos aos do defunto e braos
humanos. O Ba adquiria vida com a morte do indivduo; as preces recitadas
pelo sacerdote que presidia as cerimnias fnebres, juntamente com o alimento
oferecido, ajudavam a assegurar a transformao do morto em Ba ou alma. O
segundo elemento, conhecido como Ka, era um esprito protetor que adquiria
vida com o nascimento de uma pessoa. Quando o deus Khnum, o deus-carneiro
de Assu, moldou os seres humanos a partir do limo, criou dois modelos para
cada indivduo, um para seu corpo e outro para seu Ka. O Ka era a imagem exata
do homem e permanecia com ele por toda a vida, mas passava para o alm antes
dele. Era para servir ao Ka que os egpcios proviam fartamente seus tmulos do
que chamamos "mobilirio funerrio"  um sortimento completo de tudo o que o
proprietrio possua em sua morada terrena. Embora o Ka permanecesse a maior

7    Pode-se encontrar um relato sistemtico e detalhado das crenas egpcias em KEES, H. 1941.
8    O trabalho bsico sobre as crenas funerrias dos egpcios  o de KEES, H. 1926; 2. ed., 1956.
44                                                                                      frica Antiga




figura 2.3 Tesouro de Tutancmon. Anbis na entrada do tesouro. (Fonte: The Connoisseur et M. Joseph.
"Life and Death of a Pharaoh: Tutankhamun". Foto Griffith Institute, Ashmolean Museum, Oxford.)
O Egito faranico                                                                                     45



parte do tempo dentro do tmulo, segundo se acreditava, podia tambm deix-
-lo. Desse modo, a necrpole era a morada dos Kas assim como a cidade era o
lugar dos vivos. O terceiro elemento importante era o Ib, o corao, considerado
o centro das emoes e a conscincia do indivduo. Era o guia das aes durante
sua vida terrena. O quarto elemento era o Akh, que os egpcios acreditavam ser
um poder divino ou sobrenatural, adquirido apenas aps a morte. As estrelas
que brilhavam no cu eram os Akhs dos mortos. Finalmente, havia o corpo
propriamente dito, o Khat ou invlucro externo, que perecia mas podia ser
embalsamado a fim de conservar-se adequadamente para compartilhar com o
Ka e o Ba a vida eterna do alm-tmulo.
    Alm das ideias sobre a vida futura no tmulo e na necrpole, os egpcios
desenvolveram pouco a pouco outras concepes relativas  eternidade e ao
destino reservado ao Ba. Duas dessas teorias, a solar e a osiriana, difundiram-se
amplamente. A princpio acreditava-se que o fara morto, sendo de essncia
divina, residia com os deuses; era identificado tanto com o deus-Sol (Hrus ou
R) quanto com Osris. Com o passar do tempo, essa concepo foi adotada
pelos nobres influentes (durante o Mdio Imprio) e mais tarde por todos os
egpcios, independentemente do nvel social.
    Tudo isso transparece nos textos morturios, cujas verses mais antigas
preservadas so os chamados "Textos das Pirmides", escritos em hierglifos
nas paredes das cmaras funerrias da pirmide do rei Unas, o ltimo fara da
V dinastia, e na pirmide de um da VI dinastia. Com a apropriao dos "Textos
das Pirmides" pelos chefes locais e rgulos do Primeiro Perodo Intermedirio,
e posteriormente pelos nobres do Mdio Imprio, grande parte das frmulas
mgicas e dos rituais foi eliminada, modificada ou recomposta de modo a
adaptar-se s pessoas comuns. Esses textos, geralmente conhecidos como "Textos
dos Sarcfagos"9, em sua maioria eram inscritos em escrita hieroglfica cursiva
nas superfcies internas dos caixes retangulares tpicos do Mdio Imprio, os
ttulos com tinta vermelha e o resto do texto com tinta preta. No Novo Imprio,
a maior parte das frmulas dos "Textos dos Sarcfagos", assim como inmeras
estrofes novas, eram escritas em rolos de papiro e colocadas junto aos corpos
mumificados. Os textos, com cerca de duzentas estrofes, so denominados O Livro
dos Mortos10. Mas esse ttulo  at certo ponto enganoso: na verdade, nunca


9    Com relao aos "Textos dos Sarcfagos", a edio bsica do texto isolado  de BUCK, A. de. 1935-61.
     Pode-se encontrar uma traduo inglesa dos textos em FAULKNER, R. O. 1974, 1978.
10   Traduo francesa em BARGUET, P. Paris, 1967. Por sua vez, o Oriental Institute of Chicago publicou
     em traduo inglesa comentada, um "Livro dos Mortos" completo. Ver ALLEN, T. G. 1960.
46                                                                                     frica Antiga



existiu um "livro" desse gnero; a escolha das estrofes escritas em cada papiro
variava segundo o tamanho do rolo, a preferncia do adquirente e a opinio do
sacerdote-escriba que as transcrevia. Um "Livro dos Mortos" mdio continha
entre quarenta e cinquenta estrofes. Alm desse livro, os sacerdotes do Novo
Imprio compuseram e popularizaram vrios outros "livros" funerrios, escritos
em papiro ou inscritos nas paredes dos tmulos, entre os quais se incluam o
que se conhece como o "Livro do Que Est no Inferno" (Imj-Dwat) e o "Livro
das Grandes Portas", guia mgico que descreve a viagem do Sol pelas regies
subterrneas durante as doze horas da noite.


     O Antigo Imprio11 (-2900 a -2280)
     III Dinastia
    J se observou que os reis das duas primeiras dinastias (perodo arcaico)
parecem ter-se preocupado principalmente com as conquistas e sua consolidao.
A nosso ver, porm, o novo dogma da realeza divina comeou de fato com a
II dinastia, e s ento o Egito se tornou uma nao unificada. A dinastia foi
fundada pelo rei Zoser, que, a julgar pelas evidncias, era um soberano vigoroso
e capaz. Entretanto sua fama foi consideravelmente obscurecida pela de seu
clebre sdito Imhotep (I-em-htp), arquiteto, mdico, sacerdote, mgico, escritor
e autor de provrbios. Vinte e trs sculos aps sua morte, tornou-se ele o deus
da medicina, em quem os gregos (que o chamavam de Imuthes) reconheciam
Asclpio. Sua realizao mais notvel como arquiteto foi a "pirmide de degraus"
e o vasto complexo funerrio construdo para seu fara em Saqqara, numa rea de
15 ha, na forma de um retngulo de 544 m por 277 m. A construo compreendia
um muro circular, semelhante a uma fortaleza, e Imhotep introduziu notvel
inovao substituindo a pedra pelo tijolo.
    Os outros reis da III dinastia so figuras to obscuras quanto os das duas
primeiras, embora a imensa pirmide em degraus inacabada do rei Sekhemkhet
(provavelmente filho e sucessor de Zoser em Saqqara) e a enorme escavao
de um tmulo no concludo em Zawijet-el-Aryan, no deserto ao sul de Gis,
sejam indicaes suficientes de que o complexo piramidal de Zoser no foi o
nico. O rei Huny, ltimo da III dinastia,  o predecessor imediato de Snefru,


11   Em ingls, ver SMITH, W. S. 3. ed. Cambridge, 1971; em francs, VANDIER, J. "L'Ancien Empire" e
     "La Fin de l'Ancien Empire et la Premire Priode Intermdiaire". In: DRIOTON, E. & VANDIER,
     J. pp. 205-38, 239-49.
O Egito faranico                                                                                          47



o fundador da IV dinastia. Foi ele quem edificou uma pirmide em Meidum,
cerca de 70 km ao sul do Cairo. Esse monumento, originalmente construdo
em degraus, sofreu vrias ampliaes e transformaes antes de se tornar uma
verdadeira pirmide (talvez por obra de Snefru).

     IV Dinastia
    A IV dinastia, um dos pontos altos da histria egpcia, comea com o longo e
ativo reinado de Snefru, cujos anais, em parte preservados na Pedra de Palermo12,
relatam as campanhas militares vitoriosas contra os nbios do sul e as tribos
lbias do oeste, a manuteno do comrcio (principalmente o de madeira) com
a costa sria e os grandes empreendimentos de construo executados durante
vrios anos, incluindo a edificao de templos, fortalezas e palcios em todo o
Egito. Snefru reinou 24 anos; provavelmente pertencia a um dos ramos menores
da famlia real. Para legitimar sua posio, casou-se com Hetep-Heres13, a filha
mais velha de Huny, infundindo sangue real  nova dinastia. Mandou construir
duas pirmides em Dachur, uma de tipo romboide (ao sul), e outra de forma
verdadeiramente piramidal (ao norte) e de dimenso prxima  da grande
pirmide de Khufu em Gis.
    Os sucessores de Snefru, Khufu (Quops), Khafre (Qufren) e Mankaure
(Miquerinos) so conhecidos principalmente pelas trs pirmides que erigiram
no alto do promontrio de Gis, 10 km a sudoeste do atual Cairo. A pirmide
de Khufu apresenta uma particularidade:  a maior construo de uma nica
pea j erigida pelo homem14 e, devido  perfeio do trabalho,  preciso
do projeto e  beleza das propores, continua a ser considerada a primeira
das Sete Maravilhas do mundo. As pirmides do filho e do neto de Khufu,
conquanto menores, apresentam semelhanas na construo e na disposio de
suas estruturas secundrias.
    Houve muitas interrupes na sucesso real da IV dinastia, devido s lutas de
sucesso entre os filhos das vrias esposas de Khufu. Seu filho Dedefre governou


12   Ver Introduo.
13   O tmulo da rainha Hetep-Heres foi descoberto em Gis e revelou um mobilirio de excelente qualidade,
     testemunho da habilidade dos artesos egpcios durante o Antigo Imprio. Ver REISNER, G. A. 1955.
14   Sabe-se que a pirmide propriamente dita, smbolo solar que contm ou cobre a cripta funerria onde
     repousa a mmia real,  apenas um elemento do complexo que constitui a sepultura real completa. Esta
     ltima inclui, alm da pirmide, um templo baixo, na plancie, em geral chamado o "Templo do Vale", e
     uma aleia aberta ou caminho, que se estende do templo  parte alta do complexo, no planalto desrtico,
     onde se situam a pirmide propriamente dita e o templo funerrio erigido na face oriental. Todo o recinto
      cercado por uma parede. Ver EDWARDS, I. E. S. 1970.
48                                                                                         frica Antiga



o Egito durante oito anos, antes de Khafre; outro se apoderou do trono durante
um curto perodo no final do reinado de Khafre.  provvel que um terceiro
filho tenha sucedido ao ltimo rei efetivo da dinastia, Shepseskaf.

     V Dinastia
   A origem dessa dinastia est ligada  crescente influncia do clero de
Helipolis. Uma lenda do Papiro Westcar15 relata que os trs primeiros reis
da V dinastia descendiam do deus R e de uma mulher chamada Radjedet,
esposa de um sacerdote de Helipolis. Os trs irmos eram Userkaf, Sahure e
Neferirkare. Sahure ficou conhecido principalmente pelos magnficos baixos-
-relevos que decoravam seu templo funerrio em Abusir, ao norte de Saqqara. 
fato bem conhecido que, apesar de as pirmides reais da V dinastia serem muito
menores do que os grandiosos tmulos da IV dinastia e sem embargo de uma
construo inferior, os templos funerrios vizinhos das pirmides eram obras
elaboradas, abundantemente decoradas com baixos-relevos pintados, alguns
deles de carter semi-histrico. A maior parte dos reis dessa dinastia mandou
construir nas proximidades das pirmides grandes templos dedicados ao deus-
-Sol, todos dominados por um gigantesco obelisco solar.
   Alm da construo e dotao de muitos templos, relacionados na Pedra de
Palermo, os faras da V dinastia concentravam suas atividades na defesa das
fronteiras do Egito e na expanso das relaes comerciais com os pases vizinhos.
Expedies punitivas contra os lbios do deserto ocidental, os bedunos do Sinai
e as populaes semitas do sul da Palestina foram registradas nas paredes de
seus templos funerrios. Embarcaes de grande envergadura visitaram a costa
da Palestina durante os reinados de Sahure e Issi. Os navios egpcios atingiram
tambm as praias de Punt, na costa somali,  procura de produtos de grande
valor, como mirra, bano e animais. O comrcio do cedro com a Sria continuou
a prosperar. No antigo porto costeiro de Biblos, no sop das encostas arborizadas
do Lbano, aumentava o nmero de frotas egpcias encarregadas do comrcio da
madeira para construo. Sabe-se que as relaes comerciais com Biblos existiam
desde as primeiras dinastias (ver Captulo 8). Um templo egpcio foi erigido
nesse local durante a IV dinastia, e descobriram-se objetos com os nomes de
vrios faras do Antigo Imprio na cidade e nos arredores do velho porto.


15   Texto redigido durante o Mdio Imprio: ver LEFEBVRE, G. 1949, p. 79. O relato do Papiro de Westcar
      fictcio. Os primeiros reis da V dinastia descendiam dos reis da IV dinastia. Ver BORCHARDT, L.
     1938. pp. 209-15. No entanto parece fora de dvida que o clero de Helipolis desempenhou um papel
     importante na poca da transio da IV para a V dinastia.
O Egito faranico                                                               49




figura 2.4   Qufren. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 116, fig. 33.)



    VI Dinastia
    No existem provas de que a transio da V para a VI dinastia foi
acompanhada de agitaes polticas. Com o longo e dinmico reinado de
Ppi I (o terceiro rei), a dinastia revelou toda a sua fora. Pela primeira vez um
rei egpcio abandonava as tticas militares puramente defensivas para penetrar
com o grosso de seu exrcito no corao do pas inimigo. Com o avano do
50                                                                                            frica Antiga



grande exrcito comandado por Uni, o general egpcio, os inimigos recuaram
para suas terras nativas at o monte Carmelo, ao norte, e durante a ltima de
cinco campanhas sofreram emboscadas de tropas terrestres desembarcadas de
navios egpcios na extremidade norte da costa palestina.
    A julgar por algumas indicaes,  possvel que Ppi I tenha nomeado seu
filho Merenr corregente, pois ao que parece teria reinado sozinho durante
cinco anos, aproximadamente. Nessa poca, porm, ele procurou expandir e
consolidar o poder egpcio na Nbia, e pouco antes de sua morte apareceu
pessoalmente na Primeira Catarata para receber a homenagem dos chefes das
provncias nbias.
    Com a morte de seu irmo Merenr, Ppi II, que contava seis anos, subiu ao
trono e governou o pas durante 94 anos, morrendo no ano de seu centsimo
aniversrio, aps um dos mais longos reinados da histria. Durante a minoridade
do rei, a administrao do pas ficou nas mos de sua me e de seu irmo.
O segundo ano do reinado de Ppi II foi marcado pelo retorno de Herkhuf,
monarca de Elefantina, que viajara pela Nbia at a provncia de Yam; este
trouxe consigo um rico carregamento de tesouros e um danarino pigmeu como
presente para o rei. Com grande entusiasmo, o rei de oito anos enviou uma
carta de agradecimento a Herkhuf, solicitando-lhe tomasse todas as precaues
possveis para que o pigmeu chegasse a Mnfis em bom estado16.
    O longo reinado de Ppi II terminou em meio  desorganizao poltica
cuja origem remonta ao incio da VI dinastia, poca em que o poder crescente
dos monarcas do Alto Egito lhes permitiu construir seus tmulos na prpria
provncia, e no ao lado da pirmide do rei, na necrpole. A descentralizao
progrediu rapidamente.  medida que o rei perdia o controle das provncias, a
autoridade se concentrava mais e mais nas mos dos poderosos governadores
provinciais. A ausncia de monumentos posteriores s construes de Ppi II
 um sinal evidente do empobrecimento da casa real. Como a desintegrao
evolua rapidamente, o empobrecimento atingiu todas as classes sociais. No
se sabe ao certo se as foras desintegradoras eram j demasiado intensas para
que um fara pudesse combat-las ou se o reinado muito longo de Ppi II, que
mal soube defender o pas, precipitou o colapso. O fato  que o Antigo Imprio
chegou ao fim quase imediatamente aps sua morte, iniciando-se o perodo de
anarquia denominado Primeiro Perodo Intermedirio.


16   Herkhuf, o monarca, fez gravar o texto da epstola real nas paredes de seu tmulo em Assu. A traduo
     do texto  de BREASTED, J. H. (1906. pp. 159-61). O aspecto antropolgico do problema do "ano
     danarino do deus" foi estudado por W. R. DAWSON (1938. pp. 185-9).
O Egito faranico                                                                                     51



     O Primeiro Perodo Intermedirio
    Com a morte de Ppi II, o Egito se desintegrou numa exploso de tumulto
feudal. Iniciou-se um perodo de anarquia, caos social e guerra civil. Em todo
o vale do Nilo, os chefes locais defrontavam-se em meio a tal confuso que
Mneton observou, em sua Histria do Egito, que a VII dinastia teve setenta reis
que governaram por setenta dias. Tratava-se provavelmente do estabelecimento
de um regime de exceo em Mnfis, que substitua temporariamente a realeza
desaparecida com o colapso da VI dinastia17.
    Pouco se sabe sobre a VIII dinastia, e embora se tenha registro dos nomes
dos reis, a ordem cronolgica de seus reinados  controversa. Contudo, surgiu
pouco depois uma nova casa real em Heraclepolis (no Mdio Egito) e houve
esforos no sentido de dar continuidade  cultura menfita. Sem dvida os reis
da IX e da X dinastia controlaram o Delta, que havia sido presa dos nmades
saqueadores do deserto. O Alto Egito, no entanto, dividiu-se em suas antigas
unidades, cada um dos nomos sob o controle de um regente local. A histria
posterior do Egito assinala-se pelo crescimento do poder tebano, que, durante
a XI dinastia, acabou por controlar o Alto Egito, e, pouco depois, todo o pas.
    O sbio Ipu-Ur foi quem melhor descreveu a situao do Egito aps a queda
do Antigo Imprio, que fora o instigador das mais importantes realizaes
materiais e intelectuais do pas e permitira a manifestao das mais elevadas
capacidades individuais. Seus escritos, que parecem remontar ao Primeiro
Perodo Intermedirio18, foram preservados num papiro do Novo Imprio que
hoje se encontra no Museu de Leida. A passagem citada a seguir mostra a
revoluo social ocorrida na primeira parte do Primeiro Perodo Intermedirio
e a ausncia de qualquer tipo de autoridade centralizada:
     "Tudo  runa. Um homem golpeia seu irmo, [o filho] de sua me; a peste se espalha
     por todo o pas. O sangue corre em toda parte . Alguns homens sem f nem lei no
     hesitam em pilhar as terras reais. Uma tribo estrangeira invadiu o Egito. Em toda
     parte os nmades do deserto tornaram-se egpcios, Elefantina e Tnis [dominam]
     o Alto Egito sem pagar os impostos, devido  guerra civil [ ... ]. O saqueador est
     em todos os lugares [ ... ]. Portais, colunas e paredes so consumidos pelo fogo. Os


17   O Primeiro Perodo Intermedirio (abreviado PPI) ainda apresenta muitos problemas. Os relatos gerais
     podem ser encontrados em SPIEGEL, J. 1950, e em STOCK, H. 1949. Excelentes resumos podem
     ainda ser encontrados em DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 235-7, 643-5.
18   A data do texto  controversa. Supe-se que pertena ao Segundo Perodo Intermedirio (cf. VAN
     SETERS, J. 1964. pp. 13-23). Contudo, esta nova data no teve aceitao.
52                                                                                   frica Antiga



     homens no navegam mais para o norte em direo a [Biblos]. Que faremos com o
     cedro? H falta de ouro. Em toda parte o trigo desapareceu [ ... ]. As leis da corte
     de justia so desprezadas [ ... ]. Aquele que nunca possuiu bens  agora homem
     prspero. Os pobres do pas tornaram-se ricos, e aquele que possua bens tornou-se
     o que nada tem ...".19
    Mas da desordem nasceram certos valores positivos: uma nfase nova e
encorajadora no individualismo, por exemplo, na igualdade social e na dignidade
do homem comum. Desse modo, em meio ao caos, os egpcios desenvolveram
um conjunto de valores morais que exaltavam o indivduo. Tudo isso aparece
claramente no famoso papiro conhecido pelo nome de Protestos do Campons
Eloquente20, da X dinastia. Trata-se da histria de um pobre campons que,
despojado de seus bens por um rico proprietrio de terras, reivindica seus direitos:
     "No despojes de seu bem um pobre homem, um fraco, como tu sabes. O que ele
     possui  o [prprio ar que respira] um homem sofredor, e aquele que o rouba corta-
     -lhe a respirao. Tu foste designado para presidir audincias, para decidir entre dois
     homens e punir o bandido [mas], observa,  o defensor do ladro que tu gostarias de
     ser. Confiou-se em ti, embora te tenhas tornado um transgressor. Tu foste designado
     para ser a barragem do sofredor, protegendo-o para que ele no se afogasse [mas],
     observa, tu s o lago que o engoliu".21
   Os egpcios sem dvida consideravam a democracia como a igualdade de
todos os homens perante os deuses por um lado, e perante os governantes
por outro. No entanto a mudana mais surpreendente se fez sentir no que
se conhece como a "democratizao da religio funerria". Durante o Antigo
Imprio, somente as pessoas pertencentes  realeza ou distinguidas pelo
fara estavam seguras de reunir -se aos deuses aps a morte. Mas com o
enfraquecimento da autoridade real, os poderosos deste mundo apropriaram-
-se dos textos funerrios reais e os inscreveram em seus prprios esquifes.
Os cidados comuns enriquecidos passaram a ser enterrados com cerimnias
apropriadas e estelas comemorativas. Dessa forma, as barreiras entre as classes
sociais desapareciam com a morte, tendo isso ocorrido, na verdade, graas ao
deus Osris.



19   Conforme GARDINER, A. H. 1909.
20   Pode-se encontrar uma traduo francesa do texto em LEFEBVRE, G. 1949. pp. 47-69. Existe uma
     traduo inglesa recente; cf. SIMPSON, W. K. 1972. pp. 31-49.
21   De acordo com WILSON, J. A. In: PRITCHARD, J. B. 1969. p. 409.
O Egito faranico                                                                                     53



   Osris era um dos deuses do Delta, conhecido desde os primeiros tempos,
e seu culto logo se espalhou por todo o pas. Seu sucesso se deveu menos 
importncia poltica alcanada por seus adoradores do que ao carter funerrio
de seus atributos. Desde a XI dinastia seu culto estava solidamente institudo
em Abidos, a grande cidade que, durante toda a histria egpcia, permaneceu
o centro do culto aos reis mortos. O fato de os sacerdotes de Abidos no
nutrirem ambies polticas poupou a Osris o destino de outros deuses, cujos
cultos sobreviviam apenas durante o perodo em que os reis entronizados os
prestigiavam. Durante o ltimo perodo da histria egpcia, o culto de Osris
e de sis conheceu sua maior difuso, estendendo-se s ilhas gregas, a Roma
e at mesmo s florestas da Alemanha22. No prprio Egito, no havia templo
consagrado a qualquer divindade que no reservasse um altar para o culto do
grande Deus dos Mortos e que no realizasse cerimnias, nos dias de festa, para
celebrar sua ressurreio.


     O Mdio Imprio (-2060 a -1785)23
    Embora os egpcios tivessem noo dos valores democrticos, terminaram
por perd- los de vista. Estes pareciam ficar ntidos em tempos de crise, mas se
eclipsaram rapidamente com o retorno da prosperidade e da disciplina durante
o Mdio Imprio, o segundo grande perodo de desenvolvimento nacional. O
Egito unificava-se uma vez mais pela fora das armas. Tebas, at ento um
nomo desconhecido e sem importncia, ps fim  supremacia de Heraclepolis,
reivindicando a soberania sobre o Estado egpcio; ao vencer a guerra, reunificou
os dois pases sob sua autoridade nica.
    O rei Mentuhotep II distingue-se como a principal personagem da XI
dinastia. Sua obra mais importante foi a reorganizao administrativa do pas.
Toda resistncia  casa real foi reprimida, embora de tempos em tempos devam
ter ocorrido alguns levantes de pouca importncia. De todo modo, o clima
poltico do Mdio Imprio contrastava com o dos primeiros tempos, na medida
em que no mais prevalecia  segurana pacfica do Antigo Imprio. Mentuhotep
II, que teve um longo reinado, construiu o templo funerrio de Deir el-Bahari,


22   O relato mais completo que possumos da lenda de Osris  o coletado e publicado por Plutarco em seu
     De Iside et Osiride. Em ingls, ver GRIFFITH, J. G. 1970, e em francs HANI, J. 1976.
23   Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 239-81, Capo 7; HAYES, W. C. 1971; WINLOCK, H.
     E. 1947.
54                                                                                          frica Antiga



o monumento mais importante do perodo tebano. Seu arquiteto criou uma
forma de construo nova e funcional. Tratava-se de um edifcio com terraos
guarnecidos por colunas e coberto por uma pirmide construda ao centro de
uma sala hipostila, situada no nvel superior24.
     Aps o governo de Mentuhotep II, a famlia entrou em declnio. Durante
o reinado do ltimo soberano da XI dinastia, um certo Amenems, que entre
outros ttulos ostentava o de vizir do rei, foi provavelmente o fundador da XII
dinastia, ou seja, o rei Amenems, primeiro de uma sucesso de poderosos
soberanos.
     Amenems I adotou trs medidas importantes, todas elas rigorosamente
respeitadas por seus sucessores. Fundou a nova capital, Ithet-Tawi ("Senhora das
Duas Terras"), prximo ao sul de Mnfis, de onde poderia controlar melhor o
Baixo Egito; instaurou o costume segundo o qual o fara coloca o filho a seu lado
no trono, como corregente, sem dvida expediente considerado oportuno aps
uma conspirao palaciana que o colocou em srio perigo de vida   qual ele alude
amargamente nos conselhos que deixou como orientao a seu filho Sesstris I25;
e, finalmente, planejou a sujeio da Nbia e criou um posto comercial mais ao sul,
empreendimento indito at ento. Foi ele, talvez, o fundador do posto comercial
fortificado de Kerma (perto da Terceira Catarata), que parece ter-se tornado um
centro de influncia egpcia a partir do reinado de Sesstris I.
     Sesstris I seguiu os passos do pai e, graas  sua energia, capacidade e viso,
pde implementar os planos para o enriquecimento e a expanso do Egito. Uma
srie de expedies, conduzidas pelo prprio rei ou por seus oficiais competentes,
reforou o controle egpcio da Baixa Nbia. Foi nessa poca que se construiu
a fortaleza de Buhen26, a jusante da Segunda Catarata. As atividades do rei a
oeste limitaram-se, ao que parece, a expedies punitivas contra os lbios temehu
e tehenu e  manuteno das comunicaes com os osis. Sua poltica para com
pases do nordeste limitava-se  defesa de suas fronteiras e  continuidade das
relaes comerciais com os pases do Oriente Prximo.
     Os dois reis seguintes, Amenems II e Sesstris II, parecem no ter-se
interessado pela consolidao e expanso das conquistas egpcias27. Contudo

24   NAVILLE, E. 1907-13.
25   Sobre a ascenso dessa dinastia, consultar POSENER, G. 1956.
26   Ver os relatos das escavaes e trabalhos recentes em Buhen, consecutivos  campanha lanada pela
     Unesco para salvar os monumentos da Nbia. Ver CAMINOS, R. A. 1975, e SMITH, H. S. 1976.
27   Convm notar que a fortaleza de Mirgissa, ao sul da Segunda Catarata, a maior das fortificaes na
     regio do Batn-el-Haggar nbio, foi construda por Sesstris II (ver VERCOUTTER, J. 1964. pp. 20 -2)
     e que, portanto, a Nbia ainda estava sob controle egpcio durante seu reinado.
O Egito faranico                                                                                    55



Sesstris III  lembrado pela reconquista e sujeio da Baixa Nbia, por ele
reduzida  condio de provncia egpcia. O longo e prspero reinado de seu
sucessor, Amenems III, distinguiu-se por ambicioso programa de irrigao, que
teve por consequncia uma grande expanso agrcola e econmica no Faium,
osis  margem de um grande lago alimentado por um canal procedente do Nilo.
Esse canal passava por estreita abertura nas colinas do deserto que beiravam o
vale a aproximadamente 80 quilmetros ao sul do Cairo. Graas a uma barragem,
controlou-se o escoamento da gua lanada no lago quando o Nilo subia, e a
abertura de canais de irrigao, aliada  construo de diques, permitiu uma
recuperao macia das terras.
   Com Amenems IV o poder da famlia real, segundo todas as evidncias,
comeou a declinar. Seu reinado breve e opaco, seguido pelo reinado ainda mais
transitrio da rainha Sobekneferu, assinala o fim da dinastia.


     O Segundo Perodo Intermedirio28
    Os nomes de alguns faras da XIII dinastia refletem a existncia de uma
grande populao asitica no Baixo Egito. Sem dvida esse elemento aumentou
com a imigrao de numerosos grupos provenientes das terras a nordeste do Egito,
forados a se deslocar para o sul devido aos amplos movimentos demogrficos no
Oriente Prximo. Os egpcios chamavam os chefes dessas tribos de Hka-Hasut,
ou seja, "Governantes de Pases Estrangeiros", de onde derivou o termo "hicsos",
criado por Mneton e hoje aplicado ao povo como um todo.
    Foi s por volta de -1729 que os hicsos passaram a representar um srio
risco para a autoridade da XIII dinastia. Em tomo de -1700, porm, eles j
apareciam como um povo de guerreiros bem organizados e bem equipados, tendo
conquistado a parte oriental do Delta, incluindo a cidade de Hat-Uaret (varis),
cujas fortificaes eles refizeram, e onde fixaram sua capital. De modo geral,
admite-se que a dominao dos hicsos no Egito no adveio de uma repentina
invaso do pas pelos exrcitos de uma nica nao asitica. Como vimos, foi o
resultado de uma infiltrao, ocorrida durante os ltimos anos da XIII dinastia,
de grupos pertencentes a vrios povos do Oriente Prximo, principalmente
semitas. Com efeito, a maioria de seus reis tinham nomes semitas, tais como
Anat-Hr, Semken, Amu ou Jakub-Hr.


28   O conjunto deste perodo muito obscuro da histria egpcia foi objeto de uma publicao. BECKERATH,
     J. von. 1965.
56                                                                                           frica Antiga



   No h dvida de que a ocupao dos hicsos teve profunda repercusso no
desenvolvimento egpcio29. Eles introduziram o cavalo, o carro e a armadura. Os
egpcios, que at ento nunca haviam tido a necessidade de tais equipamentos,
acabaram por utiliz-los com xito contra os prprios hicsos, expulsando-os
do pas. Era a primeira vez que os egpcios se encontravam sob dominao
estrangeira. A humilhao abalou o antigo sentimento de supremacia e de
segurana que lhes eram inspirados pela proteo dos deuses. Iniciou-se uma
guerra de libertao, conduzida pelos governantes do nomo de Tebas. Os
poucos documentos que restaram dessa poca dizem respeito sobretudo 
guerra empreendida pelos reis do final da XVII dinastia contra os opressores
asiticos, aps quase 150 anos de ocupao. Amsis finalmente conseguiu
expulsar os invasores do Delta. Tomou-lhes a capital, Avaris, e perseguiu-os
at a Palestina, onde sitiou a fortaleza de Sharuen. Prosseguindo em direo
ao norte, invadiu o territrio de Zahi, na costa fencia. O poderio hicso era
enfim destrudo.


     O Novo Imprio (-1580 a -1085)
     XVIII Dinastia30
   O rei Amsis I, aclamado pela posteridade como pai do Novo Imprio e
fundador da XVIII dinastia, foi, segundo todas as evidncias, um homem de
energia e capacidade excepcionais. Amenfis I (ou Amenhotep I), seu filho,
mostrou-se um sucessor  altura do pai, cuja poltica interna e externa prosseguiu
com vigor. Embora provavelmente estivesse mais preocupado com a organizao
do reino do que com as conquistas, consolidou e estendeu os domnios do Egito
na Nbia at a Terceira Catarata. Durante os nove anos de seu reinado no
ocorreram agitaes na Sria nem na Palestina.
   Amenfis I parece ter merecido sua reputao de grandeza, que chegou
ao apogeu quando ele e sua me, Ahms-Nefertri, tornaram-se divindades
tutelares da necrpole tebana31. Foi sucedido por Tutms I e Tutms II, e depois
pela rainha Hatshepsut, que se casou sucessivamente com seus dois meio-irmos,


29   Sobre os hicsos e as vrias questes em torno da ocupao do Egito por esse povo e suas consequncias,
     ver SETERS, J. Van 1966.
30   Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 335-42 Cap. 9, pp. 390-414 Cap. 10; JAMES, T. G. H.
     1973; HAYES, W. C. 1973.
31   CERNY, J. 1927. pp, 159-203.
O Egito faranico                                                                                  57



Tutms II e Tutms III. Todavia, no quinto ano de seu reinado, Hatshepsut j
alcanara poder suficiente para declarar-se soberana suprema do pas. A fim de
legitimar suas pretenses32, declarou publicamente ser filha do deus nacional
mon-R, que se apresentara  sua me como Tutms I. As duas dcadas do
pacfico reinado de Hatshepsut foram prsperas para o Egito. A rainha dedicou-
-se principalmente aos negcios internos e  edificao de grandes obras. As
realizaes de que mais se orgulhava foram a expedio a Punt e a construo
de dois grandes obeliscos no templo de Carnac. Ambos destinavam-se a celebrar
a devoo a seu "pai" mon-R.
    Finalmente, aps a morte de Hatshepsut, Tutms III assumiu o poder. Na
fora de seus trinta anos ele nos relata que, durante a juventude, participou
como sacerdote de uma cerimnia em Carnac, onde seu pai era oficiante;
durante a cerimnia, foi distinguido pela esttua de mon, que atravs de
um orculo o escolheu para rei. Seu primeiro ato como soberano foi destruir
as esttuas de Hatshepsut e apagar-lhe o nome e a imagem onde quer
que aparecessem. Acalmada sua sede de vingana, organizou rapidamente
um exrcito e marchou contra uma coalizo das cidades-Estado da regio
palestino-srio-lbia, que haviam reunido suas foras na cidade de Megido e se
preparavam para sublevar-se contra a dominao egpcia. Tutms surpreendeu
os inimigos e forou-os a refugiarem-se no interior dos muros da cidade.
Com a rendio de Megido, toda a regio at o Lbano meridional caiu sob
o controle egpcio. Tutms III empreendeu ao todo dezessete campanhas no
estrangeiro, e durante muitos anos os exrcitos egpcios impuseram respeito na
Sria e no norte da Mesopotmia. O Egito tornara-se uma potncia mundial, e
as fronteiras do imprio se estendiam por vastas reas. O reinado que nos legou
os registros mais completos foi o de Tutms III, graas aos anais gravados
nas paredes do templo de Carnac. Outros pormenores foram registrados por
seus generais. Esses eventos transformaram-se em contos populares, como o
de Joppa, que, surpreendido pelo general Djehuty, escondeu seus homens em
sacos e introduziu-os clandestinamente na cidade sitiada  histria que lembra
muito a de Ali-Bab e os quarenta ladres.
    Tutms III foi sucedido por dois faras capazes e enrgicos, Amenfis
II e Tutms IV, este ltimo intimamente ligado ao reino de Mitani por ter
desposado a filha da casa real.  essa princesa, com o nome egpcio de Mut-


32   Muito se tem escrito sobre o "problema de Hatshepsut" e a "perseguio" da rainha por Tutms III,
     Pode-se encontrar uma boa exposio do problema e das solues propostas em DRIOTON, E. &
     VANDIER, J. 1962. pp. 381-3.
58                                                                                           frica Antiga



-em-Wa, que figura nos monumentos como a esposa principal do fara e me
de Amenfis III.
   Quando Amenfis III sucedeu a seu pai, provavelmente j estava casado
com a rainha Teye, sua esposa principal. A ascenso do jovem rei ao trono
ocorreu numa poca em que, graas s notveis realizaes  internas e
externas  de aproximadamente dois sculos, o pas se encontrava no auge do
poder poltico, gozando de grande prosperidade econmica e desenvolvimento
cultural. Alm disso, o mundo passava por um perodo de paz, e o fara e seu
povo podiam desfrutar os vrios prazeres e luxos que a vida lhes oferecia. Ao
que parece, Amenfis III estava pouco interessado em manter seu poder no
exterior, embora se esforasse por conservar os Estados vassalos setentrionais
e seus aliados atravs de generosas doaes em ouro nbio. Pelo fim de
seu reinado, como evidenciam as cartas de Tell el-Amarna33, a ausncia de
demonstraes militares encorajou os homens de iniciativa a conspirarem
para reaver sua independncia e a se revoltarem contra a autoridade egpcia.
No entanto, parece que Amenfis III no deu muita importncia ao fato. Foi
como construtor e patrono das artes que mereceu o nome de "Amenfis, o
Magnfico". A ele devemos no s o templo de Lxor, considerado a mais
bela de todas as construes do Novo Imprio, mas tambm muitas outras
realizaes arquitetnicas em Carnac e em todo o Egito, bem como no exterior
(Soleb, na Nbia, etc.).
   Embora o culto de ton tenha-se iniciado no reinado de Amenfis III, seu
desenvolvimento teve pouca influncia, ao que parece, na adorao de outros
deuses at um perodo avanado do governo desse fara; possivelmente, s a
partir do trigsimo ano de reinado  que seu filho Amenfis IV (posteriormente
conhecido como Aquenton) tornou-se corregente. Fisicamente fraco, com um
corpo frgil e delicado, o novo rei no possua nem as qualidades de soldado
nem as de estadista. Preocupou-se sobretudo com as questes intelectuais e
espirituais, ou, mais precisamente, com sua prpria mente e esprito. Muito
orgulhoso de seu ttulo  "O que vive a verdade"  procurou uma aproximao
cada vez maior e mais harmoniosa com a natureza e, na religio, uma relao
mais direta e racional com sua divindade34.


33   Trezentas e setenta e sete placas cuneiformes encontradas nas runas dos Arquivos Pblicos da capital,
     consistindo principalmente na correspondncia de Amenfis III e Aquenton com os reis de Hatti,
     Arzawa, Mitani, Assria, Babilnia, Chipre e os governantes das cidades da Palestina e da Sria. Sobre
     estes textos, ver ALBRIGHT, W. F. 1973.
34   Recentemente Amenfis IV (Aquenton) e sua poca foram objeto de numerosas publicaes, incluindo
     ALDRED, C. 1968.
O Egito faranico                                                                                 59




figura 2.5 Rainha Hatshepsut sentada. (Fonte: C. Aldred. "New Kingdom Art of Ancient Egypt". fig. 21.
Foto The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
60                                                                     frica Antiga



    Amenfis IV, jovem e fantico, foi o responsvel por uma mudana
poltica radical. O alvo de seus ataques foi principalmente o clero de mon.
 provvel que suas razes fossem tanto polticas como religiosas, j que em
Tebas os grandes sacerdotes do deus nacional mon-R haviam adquirido
tanta riqueza e poder que constituam uma ameaa direta ao trono. No incio
de seu reinado, Amenfis IV ainda vivia em Tebas, onde construiu um grande
templo dedicado a ton, a leste do templo de mon em Carnac. Depois,
obviamente amargurado pelas reaes que suas reformas suscitavam em Tebas,
decidiu abandonar a cidade, fundando nova residncia em Tell el-Amarna, no
Mdio Egito. No sexto ano de reinado, ele e sua famlia, juntamente com um
grande squito de funcionrios, sacerdotes, soldados e artesos, mudaram-se
para a nova residncia, que chamou de Aquetton (Akhet-Aton), ("Horizonte
de ton"), onde morou at sua morte, quatorze anos mais tarde. Mudou seu
nome para Aquenton (Akh-en-Aton) ou "O que est a servio de ton", e
concedeu  rainha o nome real de Nefer-Neferu-ton, que significa "A beleza
das belezas  ton".
    Alm de proclamar ton o nico deus verdadeiro, Aquenton injuriou as
divindades mais antigas. Ordenou que o nome de mon, em particular, fosse
suprimido de todas as inscries, at mesmo dos nomes prprios, como o de
seu pai. Alm disso, decretou a dissoluo do clero e a disperso dos bens dos
templos. Foi com essa medida que Aquenton provocou a mais violenta oposio,
pois os templos eram sustentados por subvenes concedidas pelo governo em
troca de bnos solenes aos empreendimentos estatais.
    Enquanto os tumultos se alastravam  sua volta, Aquenton vivia na capital
adorando seu deus nico. Era a venerao do poder criador do Sol sob o nome
de ton. O culto, que dispensava totalmente as imagens do deus, era praticado
ao ar livre, no ptio do templo, consistindo principalmente em depositar flores
e frutas no altar. A religio de ton era bem mais simples que a tradicional,
visto apoiar-se na verdade e na liberdade individual. Tambm cultivava o amor
 natureza, uma vez que os poderes criadores de vida do Sol se expressavam
universalmente em todas as coisas vivas. O hino composto pelo rei35 exprime,
antes de tudo, uma alegria de viver espontnea e o amor a todas as coisas criadas,
nas quais o esprito de ton se encarnava.
    Aquenton, como esteta que era, desaprovava as formas estilizadas da arte
do retrato tradicional e insistia na adoo de um naturalismo livre, em que o


35   Traduo de J. A. WILSON. In: PRITCHARD, J. B. pp. 369-71.
O Egito faranico                                                           61



artista procurasse representar o espao e o tempo imediatamente perceptveis,
e no fixados na eternidade. Por isso permitiu que ele e sua famlia fossem
representados em atitudes informais: comendo, brincando com as crianas
ou abraando-as. No procurou esconder sua vida privada do conhecimento
pblico; assim agindo, escandalizou seus contemporneos, para quem essa
informalidade depreciava sua condio de rei-deus.




figura 2.6   Aquenton diante do Sol. (Foto fornecida pelo Dr. G Mokhtar)
62                                                                                  frica Antiga



    A revoluo de ton no sobreviveu  morte de Aquenton. Seu corregente e
sucessor, Semenkhar (Semenekh-Ka-Re), tratou imediatamente de reconciliar-
-se com o clero de mon. Estabeleceu-se um compromisso pelo qual mon seria
novamente reconhecido. Semenkhar reinou apenas trs anos e foi sucedido por
Tutancton (Tut-Ankh-Aton), que mudou seu nome para Tutancmon (Tut-
-Ankh-Amon)36. Sabemos que este jovem fara morreu com a idade aproximada
de dezoito anos e que reinou pelo menos nove; devia contar, portanto, oito anos
quando subiu ao trono. A origem desses dois reis  controversa; contudo, ambos
basearam suas pretenses ao trono no fato de terem desposado as filhas de
Aquenton. Durante o reinado de Tutancmon, e mesmo aps sua morte, no
foi unnime o repdio a ton, que, apesar da restaurao de mon, guardava seu
lugar entre os deuses. Tal situao perdurou durante o curto reinado do rei Ay,
que sucedeu a Tutancmon. Foi s com Horemheb que teve incio a perseguio
obstinada de ton, como ocorrera anteriormente com mon.

     XIX Dinastia37
   Horemheb pertencia a uma linhagem de nobres provinciais oriundos de
uma pequena cidade do Mdio Egito. Sua longa carreira como comandante
do exrcito egpcio e administrador permitiu-lhe avaliar a corrupo poltica,
que crescia perigosamente desde o incio do reinado de Aquenton. Assim que
ascendeu ao trono, iniciou uma ampla srie de reformas que beneficiaram o
pas. Promulgou tambm um decreto para ativar a arrecadao dos impostos
nacionais e acabar com a corrupo dos funcionrios civis e militares.
   Horemheb demonstrou acentuada predileo por um oficial do Exrcito
chamado Pa-Ramss, a quem nomeou vizir, escolhendo-o como seu sucessor
ao trono. No entanto, Pa-Ramss j estava velho e s reinou dois anos, sendo
substitudo por seu filho e corregente Sti I, o primeiro de uma linhagem de
guerreiros que concentraram todos os esforos no restabelecimento do prestgio
do Egito no exterior. Logo que subiu ao trono, Sti I teve de fazer frente 
perigosa coalizo de cidades-Estado srias, encorajada e at mesmo mantida
pelos hititas. Conseguiu desbaratar a coalizo, devolvendo ao Egito o controle
sobre a Palestina. Aps repelir um ataque lbio, Sti I penetrou novamente na


36   A descoberta sensacional, em 1926, do tmulo praticamente inviolado do jovem fara suscitou
     numerosos artigos, incluindo particularmente CARTER, H. & MACE, A. C. 1963; DESROCHES-
     -NOBLECOURT, C. 1963.
37   Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 349-56, Cap. 9, pp. 418-22, Cap. 10; FAULKNER, R.
     O. 1975.
O Egito faranico                                                              63



Sria setentrional, onde pela primeira vez as tropas egpcias entraram em conflito
aberto com os hititas. Conseguiu subjugar Kadesh, mas, embora obrigados a se
retirar temporiamente, os hititas mantiveram sua influncia na Sria setentrional.
A guerra prosseguiu com seu sucessor, Ramss II.
    Durante o reinado de Ramss II, a residncia real e o centro administrativo
foram transferidos para Pi-Ramss, cidade situada na parte nordeste do Delta,
onde se estabeleceu uma base militar adequada s manobras de grandes corpos
de infantaria e carros de guerra. No quinto ano de seu reinado, Ramss II parte
 frente de quatro exrcitos contra uma poderosa coalizo de povos asiticos
reunidos pelo rei hitita Mutawallis, dando continuidade s tentativas de seu
pai de recuperar as possesses egpcias na Sria setentrional. Na clebre batalha
ocorrida perto de Kadesh,  margem do rio Oronte, a vanguarda das foras de
Ramss cai numa armadilha inimiga e um de seus exrcitos  derrotado pelos
carros hititas; o prprio rei  obrigado a combater, mas consegue reagrupar
suas foras e transformar o que poderia ter sido uma derrota numa vitria um
pouco duvidosa. Representaes e relatos minuciosos dessa batalha, assim como
de algumas campanhas mais gloriosas na Palestina e na Sria, ocorridas antes
e depois desse conflito, foram gravados nas paredes dos templos de Ramss II,
esculpidos na rocha em Abu Simbel e em el-Derr, na Baixa Nbia, em seus
templos de Abidos e Carnac, no pilar que ele anexou ao templo de Lxor e
tambm em seu templo funerrio, o Ramesseu.
    As hostilidades entre os dois pases prosseguiram por vrios anos. Na
verdade, s depois do vigsimo primeiro ano de seu reinado  que Ramss II
concluiu a paz, assinando um famoso tratado com o rei hitita Hattusilis. A
partir da as duas potncias mantiveram relaes cordiais, e Ramss desposa
a filha mais velha de Hattusilis, numa cerimnia anunciada em todos os
lugares como smbolo de "paz e fraternidade". Em consequncia desse
acordo, a influncia egpcia estendeu-se ao longo da costa at Ras Shamra
(Ugarit), cidade da Sria setentrional. Embora os hititas ainda conservassem
seu poder no interior, perdiam influncia no Vale do Orontes. Com a morte
de Hattusilis, um novo perigo surgiu: a migrao dos Povos do Mar38. Essa
migrao em massa propagou-se dos Balcs e da regio do mar Negro para
todo o mundo mediterrnico oriental e no tardou a submergir totalmente
o reino hitita. O idoso Ramss, que governou 67 anos aps a assinatura do
tratado, no deu a devida ateno aos sinais inquietantes vindos do exterior,


38   Sobre os Povos do Mar, ver a ousada teoria de A. MIBBI.
64                                                                                           frica Antiga




figura 2.7 Tesouro de Tutancmon. Interior da antecmara, lado oeste. O leito de Htor.
figura 2.8 Howard Carter, o arquelogo que descobriu o tmulo de Tutancmon, precisou abrir um
sarcfago de pedra e trs atades embutidos um no outro antes de atingir o ltimo, que continha a mmia. A
mscara funerria em ouro macio colocada sobre seu rosto  uma das peas mais espetaculares da exposio
Tesouros de Tutancmon. (Foto Harry Burton, col. The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
O Egito faranico                                                                  65



e seu vigoroso sucessor Merneptah deparou-se com uma situao crtica
quando subiu ao trono.
    Um grande contingente dos belicosos Povos do Mar havia penetrado na
regio costeira a oeste do Delta e, aliando-se aos lbios, ameaavam o Egito.
Merneptah enfrentou-os numa grande batalha, no quinto ano de seu reinado,
infligindo-lhes esmagadora derrota. Nas estelas de Merneptah registraram-se
suas atividades militares na regio srio-palestina e enumeram-se as cidades e
Estados conquistados, incluindo Cana, Ascalon, Gezer, Yenoan e Israel  este
ltimo mencionado pela primeira vez nos documentos egpcios.

     A XX Dinastia39
   Aps a morte de Merneptah, travou-se uma luta dinstica e o trono foi
ocupado sucessivamente por cinco soberanos, cuja ordem de sucesso e grau de
parentesco ainda no foram estabelecidos com preciso.
   A ordem foi restaurada por Sethnakht, primeiro rei da XX dinastia, que
ocupou o trono durante trs anos. Sucedeu-lhe seu filho Ramss III, que, num
reinado de 31 anos, se empenhou no sentido de reviver as glrias do Novo
Imprio. No quinto e no dcimo primeiro anos de seu reinado, infligiu uma
derrota decisiva s hordas invasoras da Lbia ocidental e, durante o oitavo
ano, repeliu uma invaso sistemtica, por mar e terra, dos Povos do Mar. 
significativo que essas trs guerras fossem defensivas e ocorressem,  parte
uma operao terrestre contra os Povos do Mar, nas fronteiras ou mesmo no
interior do Egito. Uma nica derrota teria significado o fim da histria do
Egito como nao, pois essas invases no objetivavam apenas o saque ou
a dominao poltica, mas a ocupao do rico Delta e do vale do Nilo por
naes inteiras de povos vidos de terras, compreendendo os combatentes, suas
famlias, rebanhos e bens.
   Ramss III foi mais feliz na defesa contra os invasores estrangeiros do que
na soluo dos problemas internos que afligiam o pas. O Egito estava arruinado
pela desorganizao da fora de trabalho, pelos motins dos trabalhadores do
governo, pelo aumento inflacionrio dos preos do trigo e pela desvalorizao do
bronze e do cobre. A decadncia aumentou nos reinados seguintes, de Ramss
IV a Ramss XI. A frgil autoridade do casal real tornou-se ainda mais precria
devido ao poder crescente dos sacerdotes de mon, que finalmente elegeram
para o trono um sumossacerdote, Herihor. Iniciava-se uma nova dinastia.


39   Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962, pp. 356-66, Cap. 9, pp. 432-9, Cap. 10.
66                                                                                   frica Antiga



     Perodo de declnio40
     Da XXI  XXIV Dinastia
    Durante a XXI dinastia, o poder foi dividido, em comum acordo, entre os
prncipes de Tnis, no Delta41, e a dinastia de Herihor, em Tebas. Com a morte
deste ltimo, Smendes, que governava o Delta, ao que parece, passou a controlar
todo o pas. Esse perodo viu surgir um novo poder, o de uma famlia de origem
lbia vinda do Fayum. Originariamente, teriam sido soldados mercenrios que se
fixaram na regio quando o Egito se retirou42. Todavia um dos membros dessa
famlia, Sheshonq, apossou-se do trono egpcio e fundou uma dinastia que durou
aproximadamente duzentos anos.
    No final da XXII dinastia, o Egito encontrava-se irremediavelmente dividido
em pequenos Estados rivais e ameaado ao mesmo tempo pela Assria e pelo
poderoso Sudo independente. No entanto, um homem chamado Pedibast fundou
uma dinastia rival. Mneton chamou a XXIII dinastia de tanita, muito embora os
reis continuassem a usar os nomes dos faras da XXII dinastia: Sheshonq, Osorkon
e Takelot. Durante essas duas dinastias, o Egito manteve relaes pacficas com
Salomo, em Jerusalm, que chegou a se casar com uma princesa egpcia. Contudo,
no quinto ano de reinado do sucessor de Salomo, Sheshonq atacou a Palestina.
Embora o Egito no procurasse conservar a Palestina, esta recuperou parte de sua
antiga influncia, beneficiando-se de um comrcio exterior bastante desenvolvido.
    A XXIV dinastia teve apenas um rei, Bakenrenef, que os gregos chamavam de
Bcchoris, filho de Tefnakhte. Provavelmente foi Tefnakhte que assinou, com Hosea
da Samaria, um tratado contra os assrios. Bcchoris procurou apoiar o rei de Israel
contra o soberano assrio Sargo II, mas seu exrcito foi derrotado em Rafia em
-720. Seu reinado chegou ao fim quando o rei sudans Shabaka invadiu o Egito.


     A XXV dinastia ou dinastia sudanesa43
   Por volta de -720 o Egito foi alvo de outra invaso, desta vez, porm, vinda
do sul. Piankhy (Peye), sudans que governou o Sudo entre a Primeira e a

40   Ver KITCHEN, K. A. 1973. A genealogia e a cronologia desse perodo confuso so estudadas por
     BIERBRIER, M. 1975
41   Ver YOYOTTE, J. 1961. pp. 122-51.
42   Ver HOLSCHER, W. 1955.
43   Ver tambm Cap. 11. Uma viso de conjunto pode ser encontrada em H. von ZEISSL. Para maiores
     detalhes sobre esse perodo, ver Cap. 10 deste volume.
O Egito faranico                                                                                 67



Sexta Catarata, baseado numa capital situada na Quarta Catarata, considerou-
-se suficientemente poderoso para desafiar o trono dos faras. Um certo
Tefnakhte de Sas, tendo conseguido unificar o Delta, ocupou Mnfis e sitiou
Heraclepolis. Ao saber que o governante de Hermpolis (no Mdio Egito)
unira-se a Tefnakhte, enviou um exrcito ao Egito. Era, sem dvida, um
soberano valente. Sua atitude cavalheiresca na batalha, o digno tratamento
dispensado s princesas prisioneiras, seu amor pelos cavalos, o cumprimento
escrupuloso do ritual religioso e sua recusa em negociar com prncipes vencidos
(que, segundo o cerimonial, eram impuros por no serem circuncidados e por
comerem peixe) so reveladores de seu carter. Essa dinastia durou sessenta
anos, at o momento em que os assrios, ao cabo de inmeras campanhas,
conseguiram venc-la.

     O reino sata44
    O Egito foi libertado da dominao assria por um egpcio de nome
Psamtico. Em -658, auxiliado por Giges, da Ldia, e pelos mercenrios gregos,
este conseguiu destruir todos os vestgios da suserania assria, iniciando uma
nova dinastia, a XXVI. Os reis dessa dinastia esforaram-se corajosamente para
restabelecer a posio do Egito, promovendo a expanso comercial do pas. O
Alto Egito tornou-se uma rica regio agrcola, onde se cultivavam os produtos
vendidos ao Baixo Egito.

     O perodo persa45
    No reinado de Psamtico III, o Egito teve de submeter-se aos persas
chefiados por Cambises. Essa ocupao praticamente ps fim  histria do pas
como potncia independente. Os reis da XXVII dinastia eram persas. A XXVIII
dinastia era de origem local e ficou conhecida como a dinastia de Amirteu, que
articulou uma revolta durante o tumultuado reinado de Dario II. Graas s
alianas com Atenas e Esparta, os reis da XXIX e da XXX dinastia conseguiram
manter por aproximadamente sessenta anos a independncia assim conquistada.
    A segunda dominao persa no Egito iniciou-se sob Artaxerxes III, em -341,
terminando em -332, quando Alexandre, o Grande, invadiu o Egito aps ter
derrotado a Prsia na batalha de Isso.

44   Ver DRIOTON, E. & VANDIER, J. 1962. pp. 574-600, Cap. 13. Sobre a interveno sata na Nbia, de
     grande importncia para a histria da frica, ver SAUNERON, S. & YOYOTTE, J. 1952. pp. 157-207.
45   A obra bsica sobre esse perodo continua sendo a de POSENER, G. 1936.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                        69



                                         CAPTULO 3


                      O Egito faranico:
                 sociedade, economia e cultura
                                                   J. Yoyotte




    Economia e Sociedade
    Campos e pntanos
    A constituio do Estado faranico por volta do ano -3000 e o perodo
obscuro que se seguiu com certeza corresponderam a um grande desenvolvimento
econmico, evidenciado em alguns aspectos pelas sepulturas reais e privadas da
poca tinita: as construes tornaram-se mais amplas e os vrios objetos de arte
sugerem o aumento do luxo e o refinamento da tcnica dos artesos. No h
meios de saber se a necessidade de coordenar a irrigao foi a principal causa
da formao de um Estado unificado ou se a unificao do pas sob os reis
tinitas, aliada ao desenvolvimento da escrita, possibilitou organizar as economias
regionais, com a racionalizao dos trabalhos de infraestrutura e a distribuio
sistemtica dos recursos alimentares. O fato  que at o sculo XIX da Era Crist
a prosperidade e a vitalidade do Egito estiveram ligadas  cultura de cereais
(trigo, cevada). Um sistema de bacias de inundao, que controlava e distribua as
guas das enchentes e depositava o limo no interior de diques de terra, perdurou
at o recente triunfo da irrigao permanente: sua existncia  comprovada desde
o Mdio Imprio, podendo-se supor que seja ainda mais antigo1.

1    Os textos relativos s tcnicas de irrigao so muito raros. A mais antiga referncia segura  irrigao por
     bacias (hod) encontra-se nos textos dos sarcfagos do Mdio Imprio: BUCK, A. de. 1935-61. p. 138, b-c.
70                                                                                frica Antiga



    Evidentemente, esse sistema s permitia uma colheita por ano; por outro
lado, a curta durao do ciclo agrcola liberava grande quantidade de mo de
obra para os vultosos trabalhos exigidos pelas construes religiosas e reais. Os
antigos tambm praticavam a irrigao permanente, obtendo gua de canais ou
bacias escavadas at o lenol subterrneo. Mas, durante longo tempo, as pernas e
os ombros humanos carregados de jugos foram as nicas "mquinas" conhecidas
para puxar gua, sendo a irrigao por meio de valas utilizada somente para
os vegetais, rvores frutferas e vinhas (contudo,  possvel que a inveno do
shaduf durante o Novo Imprio tenha possibilitado duas colheitas de cereais por
ano em alguns lugares)2. Por no armazenar gua, os egpcios ainda no eram
capazes de atenuar as consequncias de enchentes anormalmente baixas, que
ocasionavam a infertilidade em vrias bacias, e de enchentes excessivamente
altas, que devastavam as terras e as habitaes. O desenvolvimento dos silos e
do transporte fluvial, porm, permitiu-lhes assegurar o abastecimento alimentar
de uma provncia para outra ou de um ano para outro. Os rendimentos mdios
eram bons: os excedentes alimentavam o grande nmero de funcionrios
governamentais e os trabalhadores de fbricas de mdio porte (estaleiros e
arsenais, fiaes ligadas a certos templos, etc.). As autoridades dos templos e
os altos funcionrios exerciam poderes de patronato atravs do controle dos
recursos alimentares, que variavam conforme o perodo.
    O po e a cerveja, feitos de cereais, constituam a base da dieta, mas
a alimentao dos antigos egpcios era surpreendentemente variada. 
impressionante a variedade de tipos de bolos e pes relacionados nos textos.
Como ocorre atualmente, as hortas produziam vagens, gro-de-bico e outras
leguminosas, cebola, alho-porr, alface e pepino. Nos pomares cultivavam-se
tmaras, figos, nozes de sicmoro e uvas. Tambm se produzia uma grande
variedade de vinhos, com uma viticultura engenhosa, praticada principalmente
em diversos pontos do Delta e nos osis. A criao de abelhas fornecia o mel.
O leo era extrado do ssamo e do nabk; a oliveira, introduzida durante o Novo
Imprio, continuou rara, no sendo seu cultivo muito bem sucedido.
    O Egito faranico no transformou todo o vale em terras agrcolas: alm
dos recursos que extraa dos campos e hortas, explorou tambm os grandes
pntanos e lagos das bordas setentrionais do Delta, as praias do lago Mride,
bem como as depresses  beira do deserto e os meandros do Nilo. Esses pehu
abrigavam muitas e variadas aves selvagens, que eram caadas ou capturadas

2    Ver a interpretao engenhosa que HELCK, W. e OTTO, E. (1973) propuseram para os dados do
     "Papiro Wilbur".
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                          71




figura 3.1 Empilhamento do feno. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. J, fig. 79 (embaixo), Mastaba de Ptah-
-Sekhem-Ankh. Museum of Fine Arts, Boston, n. 6483.)
Figura 3.2 Colheita. (Fonte: J. Pirenne. 1961. V. I, fig. 79 (no alto), p. 256. Mastaba de Akhet-hetep, Muse
du Louvre, n. 6889.)
72                                                                                        frica Antiga



com arapucas. O Nilo oferecia grande variedade de peixes, pescados com rede
de arrasto, nassa para enguias, linha ou cesto; apesar da proibio de seu
consumo em certas provncias ou em determinadas categorias sociais, tinham
um lugar definido na dieta popular, que tambm era suplementada pela coleta
de rizomas de cipercea comestvel, polpa de papiro e, a partir do perodo persa,
pelas sementes do loto ndico. Finalmente, os pntanos serviam de pastagem
para bovinos.
    Embora o clima, muito mido, no fosse particularmente favorvel  criao
de gado e, em consequncia, os rebanhos exauridos tivessem que ser supridos
regularmente pela Nbia e pela sia, essa atividade tinha uma importncia
considervel na vida do pas e nas concepes religiosas. As mesas dos deuses
e dos notveis deviam ser bem guarnecidas de carne bovina. O corte da
carcaa era uma arte refinada, e em geral as gorduras animais eram utilizadas
na fabricao de unguentos perfumados. Sabe-se que os egpcios do Antigo
Imprio tentaram criar vrias espcies, como rix, antlope, gazela, etc., e at
grous e hienas, mas tal prtica foi abandonada por consumir excessiva mo de
obra, com resultados desapontadores. Mais tarde, os ruminantes do deserto
passam a ser, nos provrbios e nos rituais mgicos, o smbolo de criaturas
indomveis3. Por outro lado, os egpcios conseguiram timos resultados na
criao de aves domsticas, principalmente o ganso do Nilo. As cabras, to
prejudiciais s escassas rvores do vale, e os carneiros criados nas terras incultas e
nas bordas do deserto, juntamente com os porcos (apesar de algumas proibies),
ocuparam um espao considervel na dieta popular. Em plena poca histrica,
observa-se uma transformao no tipo de rebanho ovino: por volta de -2000, o
antigo carneiro de chifres horizontais torcidos, que era a encarnao de Khnum,
Bs, Hershef e outros deuses antigos, foi sendo, gradualmente substitudo pelo
carneiro de chifres curvos, dedicado ao deus mon. Sua origem, africana ou
asitica,  controversa. Os egpcios obtiveram xito especial na domesticao de
duas espcies africanas, intimamente associadas, em nossas representaes, ao
passado faranico: o asno, utilizado desde o perodo arcaico, no como animal
de montaria, mas de carga (paradoxalmente dedicado a Set, deus do mal), e
o gato domstico, que s aparece a partir do fim do Antigo Imprio e incio
do Mdio Imprio (e que era cultuado como uma forma moderada das deusas
ameaadoras).



3    "Papiro Zanzing", 3, 8-9; CAMINOS, R. A. 1954. P. 382. Sobre a significao religiosa do rix, ver
     DERCHAIN, P. J. 1962.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                      73




figura 3.3    Caa ao hipoptamo.
Figura 3.4 Pesca com rede. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 201, fig. 66. Mastaba de Akhet-hetep. Muse
du Louvre. Fotos Archives Photographiques, Paris.)
74                                                                                                frica Antiga



     Minerao e indstria
    A nobreza e a guarda praticavam a caa  lebre e aos animais de grande
porte no deserto, como esporte e meio de variar a alimentao cotidiana, mas
 provvel que essa atividade no tivesse grande relevncia econmica. A real
importncia do deserto residia na variedade de recursos minerais que oferecia:
as tinturas verdes e negras do deserto arbico, utilizadas para tratar e embelezar
os olhos desde a Pr-Histria; pedras slidas e de bela aparncia usadas pelos
construtores e escultores (calcrio fino de Toura, arenito de Silsileh, granito
de Assu, alabastro de Hatnub, quartzito de Djebel el-Ahmar e grauvaca de
Hammamat)4; e pedras semipreciosas, como a turquesa do Sinai ou as cornalinas
e ametistas da Nbia. A vitrificao (esteatita vitrificada e "faiana egpcia" com
ncleo de quartzo) desenvolveu-se muito cedo, estimulando a manufatura de
objetos com a aparncia da turquesa ou lazurita. O Egito do Novo Imprio
aperfeioou as tcnicas de fabricao de vidro graas aos contatos com a sia,
adquirindo um domnio acurado do processo.
    Uma das riquezas que o pas extraa das vastas cercanias ridas era o ouro,
proveniente do deserto arbico e da Nbia. Smbolo da imortalidade perfeita, esse
metal ainda no desempenhava o papel econmico fundamental que iria adquirir
em civilizaes mais recentes, mas era considerado um smbolo de riqueza e bem
mais valorizado do que a prata, embora esta ltima, metal importado, sempre
fosse mais rara e, no Antigo Imprio, mais preciosa do que o ouro. As numerosas
jazidas de cobre existentes nos desertos eram de teor muito baixo (exceto no Sinai)
e o Egito logo se tornou dependente do cobre asitico. E preciso observar que as
inovaes tcnicas da metalurgia do Egito faranico sempre estiveram aqum das
que se verificaram no Oriente Prximo. A Idade do Bronze e posteriormente a
Idade do Ferro foram tardias no Egito. O metal era relativamente raro e precioso;
a madeira e o slex substituram-no com sucesso nos implementos agrcolas, e a
pedra dura nos instrumentos para esculpir; os utenslios e armas de metal eram
conservados e distribudos pelos servios pblicos5.
    Embora o antigo Egito tivesse que importar metais e madeira de seus
vizinhos asiticos, sua capacidade industrial era insupervel em dois setores.


4    A grauvaca (incorretamente chamada de xisto em muitos trabalhos)  uma `'rocha quartzosa, de granulao
     fina, compacta, dura e cristalina, muito parecida com a ardsia, apresentando, em geral, vrias tonalidades
     de cinza'': LUCAS, A. 1962. PP. 419-20.
5    Sob a XIII dinastia, as pontas de flecha e os dardos de pedra eram calcados nos modelos de metal, mas
     sua produo obedecia a tcnicas tradicionais arcaicas, como revelam as armas encontradas na fortaleza
     de Mirgissa: VILA, A. pp. 171-99.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                               75



Os faras exportavam txteis (o linho egpcio da poca era de uma qualidade
inigualvel) e papel. O papiro, usado para diversos fins  na confeco de velas,
cordas, vesturio, calados , possibilitou principalmente a fabricao de um
suporte muito flexvel para a escrita. Esse material era a fonte de poder do
escriba e foi muito solicitado no exterior com a expanso da escrita alfabtica
nas adjacncias do Mediterrneo oriental. O cultivo intensivo do papiro
provavelmente contribuiu para o desaparecimento dos pntanos, refgios dos
pssaros, crocodilos e hipoptamos, que, na opinio dos prprios antigos, davam
brilho  paisagem egpcia.
    O desenvolvimento dos transportes foi um fator determinante no progresso
do regime faranico. Raramente utilizados, os bovinos eram atrelados ao arado
ou ao tren funerrio; o asno, mais resistente e menos exigente, era o animal
de carga ideal nos campos e nas trilhas do deserto (sabemos que o cavalo,
introduzido durante o segundo milnio, continuou a ser um luxo reservado
aos guerreiros, e que o rico potencial econmico da roda, cujo princpio j
era conhecido desde o Antigo Imprio6, no foi explorado). O asno, com um
rendimento reconhecidamente menor  embora fosse conhecida a tcnica de
utiliz-lo em tropas  precedeu e muitas vezes substituiu o camelo, adotado lenta
e gradualmente nos campos a partir da poca persa. Para o transporte de carga
a longa distncia, o Egito utilizava o rio e seus canais: as embarcaes grandes
e pequenas eram rpidas e seguras. As qualidades precoces da nutica egpcia
possibilitaram tanto a centralizao econmica quanto as prodigiosas realizaes
arquitetnicas (pirmides, templos gigantescos, colossos, obeliscos). Alm disso,
mesmo em tempos muito antigos, barcos  vela percorriam o mar Vermelho e
o Mediterrneo (no h nada que prove a teoria de que os fencios ensinaram
os egpcios a navegar). Para deslocar os pesados blocos de pedra necessrios
principalmente s construes sagradas, a engenharia faranica inventou
mtodos engenhosos, mas de uma simplicidade surpreendente, utilizando, por
exemplo, as propriedades derrapantes do limo molhado para deslocar simples
trens (sem rodas nem rolamentos), aproveitando a enchente do Nilo para
lanar as barcaas carregadas de enormes blocos ou utilizando esteiras de junco
como ncora flutuante7.  atravs da reconstituio de tais procedimentos  em
que um homem moderno nunca pensaria, confundido que est por tecnologias



6    Uma escada de assalto montada sobre rodas acha-se representada numa sepultura da VI dinastia:
     SMITH, W. S. 1949. p. 212, fig. 85.
7    GOYON, G. 1970. pp. 11-41.
76                                                                                     frica Antiga



sofisticadas e outras ideias de eficincia  que a pesquisa est desvendando os
mistrios da cincia faranica8.
    A maior parte dos processos agrcolas e industriais foi inventada por volta
do III milnio; ao que parece, os egpcios eram lentos e tmidos  e at mesmo
preconceituosos , quando se tratava de adotar inovaes tcnicas provenientes
do exterior. No estgio atual dos estudos e da documentao, parece que as
notveis realizaes dos primeiros tempos forneceram solues para os problemas
mais vitais dos habitantes do vale e levaram ao estabelecimento de um sistema
social e poltico eficaz, o "despotismo faranico". As falhas desse sistema eram
minimizadas por uma representao religiosa to coerente que ainda sobreviveu,
nos templos, vrios sculos, aps ter a conquista estrangeira demonstrado a
incapacidade de a tradio e sua correspondente prtica social atenderem ao
desafio de foras novas.

     O sistema econmico e social
     prefervel evitar termos abstratos na descrio dos mtodos de produo
faranicos, j que o nosso conhecimento a respeito  bastante vago devido 
insuficincia de fontes9.
    Os documentos disponveis permitem distinguir alguns dados gerais. O
comrcio exterior, a explorao de minas e de pedreiras eram atividades estatais.
A maior parte das transaes comerciais conhecidas pelos textos envolve
pequenas quantidades de mercadorias e  constituda por contratos privados
entre particulares; a interveno de intermedirios profissionais  em geral
agentes comerciais do rei ou de um templo   rara. No h razo para se
acreditar na existncia de uma "burguesia" de empreendedores e comerciantes
privados, e embora a expresso "socialismo de Estado", por vezes utilizada,
seja ambgua e anacrnica, tudo indica que, de modo geral, a produo e a
distribuio estavam nas mos do Estado.
    De fato, uma investigao do material disponvel d a impresso de que
tudo dependia do rei.  verdade que em princpio todos os poderes de deciso
e todos os recursos materiais pertenciam a ele. O rei tinha o dever religioso de
assegurar a ordem csmica, a segurana do Egito e a felicidade de seu povo neste
mundo e no mundo ps-morte, no apenas exercendo sua autoridade como rei,
mas mantendo o culto aos deuses, o que o levava a partilhar seus privilgios


8    Mais recentemente, CHEVRIER, H. 1964. pp. 11-17; 1970. pp. 15-39; 1971. pp. 67-111.
9    Notas crticas e bibliografia em JANSSEN, J. J. 1975. pp. 127-85.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                77



econmicos com os templos. Por outro lado, tanto para celebrar o culto nos
templos quanto para administrar os negcios da nao, o fara, teoricamente
o nico sacerdote, guerreiro, juiz e produtor, delegava seu poder a toda uma
hierarquia de indivduos; um meio de pagar esses funcionrios era ceder-lhes
terras, cujas rendas passavam a lhes pertencer. Na verdade, em todos os perodos
o monoplio real dos meios de produo era mais terico do que prtico.
    Com certeza, as expedies para Punt, Biblos, Nbia e para o deserto 
procura de mercadorias exticas e pedras eram, em geral, enviadas pelo rei
e conduzidas por funcionrios governamentais. A construo dos templos
tambm era funo do governo. Na poca imperial, o reino de Kush, anexado,
e os protetorados palestino e srio, por exemplo, eram explorados diretamente
pela coroa. J o aproveitamento da terra egpcia no dependia exclusivamente
do fara. Ao lado dos domnios reais havia as terras dos deuses; estes possuam
campos, rebanhos, oficinas, etc. (no apogeu do culto a mon, o prprio deus
podia possuir minas), dispondo de uma hierarquia burocrtica prpria. O fato de
que os deuses por vezes ficassem isentos, por privilgio real, de certos impostos
e taxas significa, em ltima instncia, que os templos eram os "proprietrios" de
suas terras, do pessoal empregado e dos instrumentos de produo. Alm disso,
ao menos a partir da XVIII dinastia, os guerreiros recebiam o direito hereditrio 
posse da terra. Os altos funcionrios beneficiavam-se de dotaes fundirias que
eles mesmos dirigiam. As cenas da vida domstica esculpidas nas mastabas do
Antigo Imprio mostram que esses funcionrios tinham seus prprios rebanhos
e artesos, bem como uma pequena frota de barcos. No sabemos como se
constituam as fortunas privadas e transmissveis, mas  patente que tenham
existido e que, alm dos cargos oficiais  cuja transmisso aos descendentes
no dependia exclusivamente de seu detentor , havia os "bens domsticos",
que podiam ser legados livremente. Contudo, praticamente em todas as pocas,
o direito  posse da terra se aplicava a reas limitadas e esparsas, de modo
que as grandes fortunas no tomaram a forma  temida pelas autoridades 
de latifndios. Sabe-se que existiram pequenas propriedades, principalmente
durante o Novo Imprio, perodo em que o termo "campos de homens pobres"
de fato designava as terras de pequenos agricultores independentes, bem
diferenciados dos arrendatrios que trabalhavam os campos do rei ou dos deuses.
Em nmero relativamente pequeno, os estrangeiros deportados para o Egito ao
tempo das grandes conquistas eram trabalhadores especializados (viticultores
palestinos, tropeiros lbios) ou colonos militares. De modo geral, os escravos
adquiridos por particulares eram apenas serviais domsticos e, embora haja
provas de sua existncia, acredita-se que a mo de obra escrava (por vezes penal)
78                                                                      frica Antiga



forneceu uma fora de trabalho apenas limitada para a agricultura (ainda que,
posteriormente, associao dos "respondentes" mgicos  colocados  disposio
dos defuntos  a um grupo de escravos comprados10 fizesse crer que o escravismo
tornou possvel, sob os Ramssidas, a realizao dos principais trabalhos de
irrigao e beneficiamento das terras). Verdade  que a massa da populao
trabalhadora parece ter-se ligado de fato  terra, que s poderia abandonar em
caso de impossibilidade de pagamento dos impostos.
    Podemos supor que nas aldeias predominava uma economia domstica e que
a parte principal do trabalho no campo era feita pelos homens. Nas cidades-
-mercado, nos domnios reais e templos, a especializao profissional era bem
desenvolvida. As corporaes  s vezes bastante hierarquizadas de padeiros,
ceramistas, arranjadores de flores, fundidores, escultores, desenhistas, ferreiros,
aguadeiros, guardas de todos os tipos, guardadores de ces, pastores de ovelhas,
de cabras e de gansos, etc. trabalhavam para o rei ou para os templos, e o ofcio
se transmitia de pai para filho. Sabemos com certa segurana como vivia a
comunidade de trabalhadores que, instalados num povoado vizinho ao Vale
dos Reis (atual stio de Deir el-Medina), escavavam e decoravam os tmulos
dos faras e das rainhas. Os artistas e escavadores eram funcionrios pblicos
dirigidos por um escriba real e dois chefes de equipe nomeados pelo soberano11.
Eram pagos regularmente com cereais, algumas vezes coletados diretamente das
rendas de um templo, e raes de peixe, verduras, legumes ou outros alimentos.
Trocavam pequenos servios e bens entre si e administravam sua prpria justia
(exceto quando consultavam o veredicto oracular de um deus local). Seu status
era suficientemente elevado e sua posio moral slida o bastante para que a
comunidade pudesse recorrer  greve se houvesse atraso na distribuio de suas
raes.

     Os servios administrativos
   A organizao e a distribuio da produo, o controle da ordem pblica e a
superviso de toda e qualquer atividade eram responsabilidade de funcionrios
pblicos sob a autoridade do prncipe  o fara ou, em perodos de cisma,
os chefes locais  ou dos templos. Esses funcionrios eram recrutados entre
os escribas, j que o conhecimento da escrita era a chave de toda erudio
e permitia o acesso s tcnicas superiores (os interessados compraziam-se


10   CERNY, J. 1942. pp. 105-33.
11   Apud VALBELLE, D. 1974.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                             79



em demonstrar esse conhecimento nas suas Stiras das Prof isses e ensaios
epistolares), constituindo, assim, uma fonte usurpada de poder e de bem-estar.
Esses escribas, depositrios da cultura religiosa e leiga, dominavam todas as
atividades profissionais (no Novo Imprio os altos oficiais do exrcito eram
escribas). Podiam ser engenheiros, agrnomos, contadores ou ritualistas;
muitos acumulavam vrios cargos. Educados com bastante rigor, professavam
um cdigo moral geralmente elevado, carregado de intenes benevolentes,
um certo desprezo pela plebe e respeito pela ordem social, considerada como
a expresso perfeita da harmonia do universo. Mesmo que evitassem as
prevaricaes, conforme os princpios que regiam seus servios, desfrutavam
de gratificaes proporcionais  sua posio na hierarquia (era ampla a variao
dessas remuneraes, pelo menos na XII dinastia)12: doaes de terras, salrios
em mantimentos, benefcios sacerdotais deduzidos dos rendimentos regulares
dos templos e das oferendas reais, donativos honorficos ou presentes funerrios
recebidos diretamente do soberano. Os mais graduados viviam em grande estilo
neste mundo e no outro, e sua riqueza, sem falar de sua influncia, dava-lhes
poderes de patronagem.
    As listas de ttulos e as genealogias mostram claramente que no havia
uma casta de escribas distinta da casta dos guerreiros ou dos sacerdotes. A
classe dirigente era nica e se confundia com os quadros administrativos. Em
geral, todo bom estudante podia ocupar um cargo e ascender na carreira se sua
competncia e dedicao o distinguissem perante o rei, teoricamente o nico
rbitro em matria de promoo social. Contudo era normal transmitir-se aos
filhos pelo menos parte das funes, e no devemos dar muito crdito a uma
retrica que se apressa em representar todo funcionrio como algum que o rei
tirou do nada. Conhecemos as dinastias dos altos funcionrios e, na Tebas do
I milnio, observamos que vrias famlias partilhavam os postos e as funes
sacerdotais da "Casa de mon" numa poca, deve-se dizer, em que o direito de
hereditariedade assumia uma importncia considervel.
    A histria faranica parece ter-se desenrolado ao ritmo da luta entre o alto
funcionalismo, que tendia a se constituir num poder hereditrio e autnomo,
e a monarquia, apegada ao direito de controlar as nomeaes. Desse modo, o
Antigo Imprio desapareceu quando, nas provncias do sul, fortaleceram as
dinastias dos "grandes chefes" ou prefeitos hereditrios. No Segundo Perodo
Intermedirio, as altas funes tornam-se propriedade pessoal suscetvel de ser


12   Para um texto caracterstico, ver GOYON, G. 1957.
80                                                                                           frica Antiga




figura 3.5 Abastecimento dos celeiros (desenho). (Fonte: A. Badawy. "A History of Egyptian Architecture".
Los Angeles, 1966. p. 36, fig. 17.)
Figura 3.6 Prestao de contas. (Fonte: J. Pirenne. 1961. p. 297, fig. 94 (no alto). Mastaba de Mererouka,
Sacar. Foto Fondation Egyptologique Reine Elisabeth, n. 283.)
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                        81



comprada e vendida. O Novo Imprio chega ao fim quando o pontificado tebano
e o comando militar do sul reunidos tornam-se o apangio de uma dinastia de
sumos sacerdotes de mon; no perodo lbio repetir-se-, no Delta, o processo
de desmembramento j vivido pelo Alto Egito durante o Primeiro Perodo
Intermedirio. As implicaes econmicas e as causas e consequncias dessas
mudanas no podem ser identificadas com segurana, mas pode-se dizer que, em
cada perodo de enfraquecimento do poder central e de fragmentao territorial
do sistema administrativo, as lutas internas perturbavam a paz nos campos, e
a influncia externa e a segurana das fronteiras ficavam comprometidas. As
construes religiosas tornavam-se mais raras e modestas, e a qualidade dos
trabalhos artsticos declinava.

     A organizao poltica
    O ideal confesso da sociedade egpcia, portanto, era uma monarquia forte,
considerada como o nico meio de dar ao pas o impulso necessrio ao seu
bem-estar. O soberano era a personificao do servio pblico: o termo "fara"
vem da expresso per-ao, que designava no Antigo Imprio a "Grande Casa" do
prncipe, incluindo sua residncia e seus ministrios, e que no Novo Imprio
passou a designar a pessoa do rei. Este possua uma natureza diferente do resto
da humanidade: as lendas sobre sua predestinao, os quatro nomes cannicos e
os eptetos que acrescentava a seu nome, o protocolo que o cercava, as cerimnias
que acompanhavam suas aparies e decises, a multiplicao infinita de suas
imagens, cartuchos e ttulos nos edifcios sagrados, suas celebraes jubilares,
o estilo de sua sepultura (pirmides menfitas, tumbas talhadas tebanas)  tudo
isso acentuava a diferena. Uma das demonstraes mais evidentes do desgaste
peridico da autoridade faranica e de certas presses sociais  a adoo, por
parte de um nmero cada vez maior de indivduos, de estilos de tumbas13,
temas iconogrficos e textos funerrios antes reservados apenas ao rei. Alm
disso, embora a monogamia parea ter predominado entre os mortais, em geral
o rei-deus desposava vrias mulheres, por vezes sua irm ou mesmo suas filhas.
    A sucesso real cerca-se de algum mistrio. Com certeza, era costume que o
filho sucedesse ao pai no trono, conforme o modelo mtico de Osris e Hrus,


13   O fenmeno de diferenciao do tratamento pstumo dos reis e, posteriormente, de usurpao progressiva
     dos privilgios funerrios do soberano pelos indivduos comuns ocorre com frequncia. O primeiro ciclo
     comeou durante o Antigo Imprio e foi acelerado pelo enfraquecimento do poder real durante o
     Primeiro Perodo Intermedirio; todavia, no se pode mais sustentar que naquela poca tenha havido
     uma democratizao repentina dos privilgios funerrios.
82                                                                     frica Antiga



o prottipo do filho que sepulta o pai e vinga sua morte. Algumas vezes,
como na XII dinastia, o princpio da hereditariedade tem como consequncia
a coroao prematura do sucessor. Mas no se deve pensar que o direito de
realeza fundamentava-se apenas na transmisso hereditria masculina por
primogenitura. Os poucos soberanos que nos falam de seus antepassados
enfatizam que foram escolhidos livremente pelos pais como lugar-tenentes e
seus herdeiros provveis (Sti I, Ramss II, Ramss III, Ramss IV ). Contudo,
as palavras das frmulas pelas quais se reafirmava a "legitimidade" do rei so
idnticas, quer em se tratando do filho mais velho do predecessor, quer de um
adventcio. Cada soberano herdava a "realeza de R, a funo de Shu, o trono
de Geb", sendo assim o sucessor direto dos deuses que criaram e ordenaram
o mundo; cada um era "escolhido" pelo deus de sua cidade de origem. O rei,
predestinado a sua posio, era gerado pelas prprias obras do deus-Sol (mito
figurativo da teogamia)14, e, no Novo Imprio, a designao ou reconhecimento
do novo rei pelo orculo de mon era a garantia da legitimidade do novo
monarca. Desse modo, um "direito divino" direto superava a legitimidade
dinstica. Na realidade, cada reinado era um reincio. Era o ritual que fazia e
mantinha o soberano, e cada vez que ele agia como sacerdote ou legislador, as
mesmas purificaes, as mesmas funes e os mesmos ornamentos renovavam
sua "apario como rei". Comparado a um deus, algumas vezes adorado
durante sua existncia como um verdadeiro deus Amenfis III ou Ramss II,
por exemplo, atravs de seus prodigiosos colossos , o fara assumia um papel
sobrenatural sem, contudo, pretender seriamente a posse de dons sobrenaturais;
pelo contrrio, era acima de tudo o homem exemplar, que dependia dos deuses
e que devia servi-los15.
   Quatro mulheres tornaram-se faras: curiosamente, as duas primeiras (Nitcris
e Sebeknefru) assinalam o fim de uma dinastia, e as outras duas (Hatshepsut e
Tauosr) passaram  posteridade como usurpadoras. Eram prdigas as honras
demonstradas  me, esposas e filhas do rei. Algumas princesas do Mdio
Imprio e principalmente, em tempos posteriores, Teye, primeira esposa de
Amenfis III, e Nefertri, primeira esposa de Ramss II, receberam honras
excepcionais. Ahhotep, durante o governo de Amsis e Ahms-Nefertri, durante
o governo de Amenfis I, parecem ter exercido uma influncia determinante em
questes polticas ou religiosas. A atribuio da funo ritual de "divina esposa
de mon" a princesas ou rainhas mostra o papel indispensvel da feminidade

14   BRUNNER, H. 1964.
15   POSENER, G. 1960.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                 83



e da mulher no culto do deus csmico. Contudo no existe prova positiva de
um regime matriarcal no conceito egpcio de realeza16 e, em particular, no est
absolutamente demonstrada a teoria de que na poca amsida o direito dinstico
era normalmente transmitido atravs da mulher.
    Um estudo das listas de ttulos dos funcionrios superiores e inferiores
e dos poucos textos legislativos e administrativos que chegaram at ns d
uma noo razoavelmente precisa da organizao governamental: governo
dos nomos, hierarquia do clero e distribuio das obrigaes religiosas dos
sacerdotes, administrao real ou sacerdotal das terras arveis, dos rebanhos, das
minas, dos silos, dos tesouros, do transporte fluvial, da justia, etc. Organogramas
engenhosos, se no rigorosos  que evidentemente variavam de acordo com
o perodo  comprovam a existncia de prticas sofisticadas de gerncia e
de tcnicas de secretariado e contabilidade bastante avanadas (cabealhos,
classificao, tabelas com estorno, etc.). Esse trabalho de escriturao era, no
obstante, eficaz. Provavelmente o poder do Egito no exterior dependia mais de
sua organizao avanada do que de sua agressividade, e os monumentos, que
resistiram ao tempo, seguramente devem sua existncia  percia dos escribas
na manipulao em grande escala do trabalho humano e dos materiais pesados.
    No pice do sistema situava-se o tjaty ou "vizir", para usar uma designao
tradicional da egiptologia. Esse primeiro-ministro, responsvel pela ordem
pblica, era comparado ao deus Tot, "corao e lngua do Sol R"; era, antes
de tudo, a suprema autoridade legal na Terra, depois do fara e do ministro da
justia. Alguns vizires que serviram durante vrios reinados consecutivos devem
ter dominado a vida poltica do pas. Contudo o tjaty (ou os dois tjaty durante
o Novo Imprio) no era o nico conselheiro do rei, nem necessariamente
o principal. Muitos dignitrios vangloriavam-se de terem sido consultados
por seus soberanos a portas fechadas ou de terem sido escolhidos para
misses especiais. Na poca imperial, o governador da Nbia, um "filho real"
honorrio, quase soberano em seu prprio territrio, obedecia diretamente
ao fara. Em realidade, o poder poltico dos ministros ao que parece no se
refletia exatamente na hierarquia administrativa. Algumas personalidades,
como o escriba de recrutamentos Amenfis, filho de Hpu, um arquiteto que
paulatinamente foi levado ao nvel dos deuses por sua sabedoria, ou Khamois, o
sumo sacerdote de Ptah e um dos numerosos filhos de Ramss II17, com certeza
foram to influentes quanto os vizires de seu tempo. O despotismo radical

16   Dados teis em GROSS-MERTZ, B. 1952.
17   Sobre essa personagem, ver a tese recente de GOMAA, F. 1973.
84                                                                                    frica Antiga



da monarquia faranica entregava  Residncia a resoluo dos principais
conflitos polticos. A proscrio da memria de diversos altos funcionrios
no apenas Senmut e outros ntimos de Hatshepsut, mas tambm servidores
de soberanos menos contestados (dois prncipes reais e Usersatet, vice-rei da
Nbia durante o governo de Amenfis II)   o testemunho mudo das crises
governamentais.

     A organizao militar
    O rei era responsvel pela segurana do pas. Em tese, todo o mrito pelas
vitrias e conquistas era seu. Ramss II muito explorou em palavras e imagens,
a ttulo de propaganda, o fato de ter permanecido sozinho com sua guarda em
Kadesh, reafirmando a primazia do rei, nico salvador por graa divina, sobre
um exrcito que, na realidade, era responsvel pela fundao de sua dinastia. E
claro que, desde os tempos das pirmides, o pas dispunha de um alto comando
especializado, a um s tempo militar e naval, que dirigia foras j acostumadas
a fazer manobras e desfilar em alas disciplinadas. Contudo, no III milnio
os povos dos pases vizinhos no representavam grande ameaa. As razias
haviam facilmente dizimado a populao da Nbia, em benefcio do Egito; as
campanhas triunfais, em funo das quais se recrutava em massa a populao
rural, eram suficientes para intimidar e espoliar as populaes sedentrias dos
confins da Lbia e da sia; por sua vez, os "caadores do deserto" controlavam
os movimentos dos bedunos famintos.
    Sabe-se que os militares menfitas participaram em atividades de interesse
econmico e nos grandes trabalhos de construo. As "equipes de jovens
recrutas de elite", que compunham a guarda real, inspecionavam o transporte
de pedras destinadas s pirmides, bem como algumas expedies importantes
para as minas do Sinai ou para as pedreiras orientais. Um corpo paramilitar
especializado, os sementi18, investigava e explorava as minas de ouro da Nbia
e do deserto, enquanto que os "intrpretes" viajavam para muito longe a fim de
negociar ou se apoderar de produtos asiticos ou africanos. Com o Primeiro
Perodo Intermedirio, a diviso do reino em principados rivais modificou
a organizao militar: ao squito pessoal do prncipe e aos contingentes dos
nomos uniram-se as tropas de choque auxiliares recrutadas entre os nbios ou os
Amu asiticos. Dois aspectos, j manifestados no III milnio, sero caracterstica
constante dos exrcitos faranicos: a participao dos militares nos principais


18   Sobre o grupo pouco conhecido de garimpeiros, ver YOYOTTE, J. 1975. pp. 44-55.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura               85




figura 3.7 Tributo de prisioneiros lbios do Antigo Imprio.
Figura 3.8    Sti I matando um chefe lbio.
86                                                                     frica Antiga



empreendimentos econmicos ou de construo  como supervisores ou mo
de obra  e a utilizao de tropas violentas recrutadas no exterior. Embora com
fortes tendncias militares devidas ao senso de ordem e gosto pelo prestgio, os
egpcios no possuam temperamento guerreiro.
    Durante o Novo Imprio, poca de importantes conflitos internacionais,
houve, naturalmente, uma expanso indita do exrcito profissional. Dividia-se
ele em duas armas de servio, carros de batalha e infantaria, subdivididas em
grandes corpos comandados por uma hierarquia complexa e servidas por uma
grande burocracia. Essa ampla estrutura resistiu aos imprios e aos principados
da sia e parece ter resolvido com sucesso a crise gerada pela heresia atonista.
Os soldados recebiam pequenas doaes de terra; sob os Ramssidas, numerosos
cativos  nbios, srios, lbios, Povos piratas do Mar  incorporados ao exrcito
gozavam, tambm, de tais concesses. Apesar de sua aculturao relativamente
rpida, os lbios (contingente talvez reforado pelos invasores da mesma origem)
constituram-se numa fora autnoma e acabaram por fazer de seu chefe um
fara. Contudo esse Egito de guerreiros lbios meshwesh no conseguiu adaptar-
-se s novas tcnicas militares, enquanto a Assria se organizava numa formidvel
mquina de combate. No novo choque de imprios, os reis satas, ao invs de
mobilizar esses guerreiros apoiaram-se em novos colonos militares recrutados
entre jnios, carianos, fencios e judeus. E nas guerras finais contra o Imprio
Persa, os ltimos faras nativos, como seus adversrios, contrataram mercenrios
gregos recrutados por aventureiros cosmopolitas, O colapso do aparato defensivo
da nao, que no conseguiu dissipar nem o antigo mito do fara como nico
vencedor, nem a nostalgia das conquistas passadas (epopeia de Sesstris) nem
tampouco as recordaes lisonjeiras das guerras civis (ciclo de Petubstis), foi
o ponto fraco de um Egito que renascia e cuja economia e cultura ainda se
mantinham.


     Concepes Religiosas e Morais
     Os mitos
   Com certeza uma das maiores realizaes da civilizao faranica, e talvez
uma de suas fraquezas, foi a imagem esplndida que fez do mundo e das foras
que o regem, uma imagem coerente que se manifesta nos mitos, nos rituais, na
arte, na lngua e em suas obras de conhecimento. Um aspecto dessa mentalidade
deve ser lembrado para explicar por que a exposio sucinta e incompleta
da mitologia faranica feita a seguir no fornecer nem uma hierarquia ou
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                87



genealogia clara do panteo, nem uma cosmogonia e cosmografia sistemticas.
Para entender as foras da natureza e os fenmenos naturais, a mitologia aceita
todas as imagens e lendas legadas pela tradio. Podem-se ter vrias divindades
"nicas": o cu  um teto lquido, o ventre de uma vaca, o corpo de uma mulher,
uma porca, etc. Assim, havia vrias concepes da origem do universo, que se
combinavam de diversas maneiras nas grandes snteses elaboradas localmente
no decorrer dos sculos, cada uma das quais podendo ser restabelecida em toda
a sua pureza pela realizao de um determinado ato ritual, a que conferia uma
dimenso csmica. Os traos principais eram comuns a todos os sistemas. O
mundo atual  organizado e mantido pelo Sol, depois que a deusa (Methyer,
Neith) que nadava no Nun, as guas primevas  ou ainda um grupo de deuses
mais primitivos (o Ogdoad ou os "deuses mortos" em Edfu e Isna), ou ainda a
primeira terra seca (Ptah-Tenen) , preparou a manifestao desse demiurgo,
que existia como potencialidade "inerte" no seio do caos. Este desencadeou o
processo gerador com a ajuda de Sua Mo, a primeira deusa, e se reproduziu
em pares sucessivos: Shu (o ar) e Tefnut (a fora do fogo), ambos seres leoninos,
Geb (a terra) e Nut (o cu; assim, pouco a pouco, todos os membros das enades
 as vrias, manifestaes do divino  dele procederam. A estrutura atual do
cosmos, determinada pelo demiurgo, foi estabelecida e completada por sua
palavra divina, que deu forma aos sons. Foi assim, por exemplo, que o homem
(rome) originou-se de suas lgrimas (rame), assim como os peixes (remu).
    O poder da divindade solar, uma radiao vital que tambm pode ser
destrutiva,  o "Olho de R", entidade feminina que ocasionalmente se confunde
com a deusa atravs da qual se gerou o mundo animal quando o deus se dividiu
em dois. Esta, simultaneamente esposa e filha, manifesta-se nos penteados e
nas coroas reais sob o aspecto de uma naja, de um leo, de uma tocha ou do
incenso consumido pelo fogo. A gnese, que apenas expulsou as primeiras trevas,
repete-se praticamente todo dia ao nascer do sol. Cada dia, como no incio, o
criador deve enfrentar as foras hostis: o drago Appis, que ameaa secar o rio
celeste ou bloquear o Sol com seu olhar maligno19; a misteriosa tartaruga e os
"inimigos" inominveis que se enfurecem no oriente. Antes de cada apario
matinal, o Sol deve tambm se lavar nos reservatrios das margens do mundo e
se purificar da noite e da morte. O astro envelhece no curso de sua viagem diria
e se regenera misteriosamente durante a noite, enquanto atravessa outro mundo
por outro rio. No Novo Imprio, composies fantsticas, como o Livro de Am


19   Recentemente esse tema mitolgico foi evidenciado por BORGHOUTS, J. F. 1973. pp. 114-50.
88                                                                                       frica Antiga



Duat ou o Livro dos Prticos, simbolizam as fases desse rejuvenescimento fsico
da "carne" de R, descrevendo as praias frequentadas por divindades auxiliares,
formas e foras enigmticas, bem-aventurados e malditos.
    Nosso mundo  muito precrio. Durante a noite a Lua, um segundo Olho
divino, substitui o outro, mas no pra de definhar, atacada pela faca de um deus
terrvel, Tot ou Khons, que mais tarde se procurou identificar com o prprio Sol20
ou com Set, um porco, um rix... Vrias outras lendas contam que o Olho Direito,
a deusa incandescente, voa para longe do Sol e deve ser trazida de volta. Uma
delas liga explicitamente essa fuga a uma tentativa de destruir a humanidade,
que conspirava contra o R envelhecido. A revolta nasce entre os homens, e
estes acabam por perder sua igualdade original21. Periodicamente tambm, a ira
do Olho de R desperta, a poderosa Sekhmet aflige os homens com doenas, e
a cheia do Nilo faz-se baixa, aumentando as "calamidades do ano".
    R perdoou aos homens sua revolta e deu-lhes a magia como meio de
assegurarem a sobrevivncia, mas se distanciou deles. Uma dinastia divina passou
a governar este mundo. Nesses tempos, Set matou Osris, que, ressuscitado pelos
cuidados de sis e Anbis, o embalsamador, tornou-se o modelo de todos os
reis mortos e, por extenso, de todo defunto. Ele  tambm a imagem do Sol
que morre toda tarde, e a linfa que flui de seu corpo  a gua que nasce a cada
ano (uma imagem, dentre muitas, das cheias do Nilo). Seker-Osris  tambm
a semente que se enterra e que germina. Banido dos tmulos e dos santurios
de Osris, Set foi durante muito tempo adorado como um deus  vitalidade
brutal, entidade turbulenta, auxiliar de R contra Appis, a desordem necessria
 ordem22. Foi apenas por volta do sculo VIII antes da Era Crist que um novo
fervor expulsou Osris e sis do culto funerrio, no qual seu mito formava a base
da ideia de uma vida ps-morte, rebaixando Set ao nvel de Appis e tratando-o
como a personificao do mal e como patrono dos invasores.
    Harmonia pressupe unidade, e esta, sempre precria, exige a reunificao.
Set, rival de Hrus, filho de Osris,  a sua contrapartida indispensvel. Segundo
a tradio original, cada rei agrega em sua prpria pessoa a reconciliao de
Hrus e Set, assim como devem reunir-se as duas plancies do norte e do sul, ou
ainda a terra negra do vale e a terra vermelha do deserto. O mito segundo o qual
o Olho de Hrus fora dilacerado por Set e tratado por Tot se tornaria o objeto


20   Seleo de textos in SAUNERON, S. & YOYOTTE, J. 1952. Sobre o aspecto arcaico dos deuses lunares,
     POSENER, G. 1960.
21   BUCK, A. de. 1935-61. pp. 462-4.
22   VELDE, H. TE. 1967.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                                        89



de vrias glosas rituais que assimilam  recuperao do Olho curado (oudjat)
toda oferenda, todo acrscimo de gros nutritivos e a prpria Lua, smbolo de
tudo que deve estar completo para assegurar a fertilidade e a plenitude.
     ordem divina corresponde no apenas a estrutura e os ritmos do mundo
fsico, mas uma ordem moral  Mat , a norma da verdade e da justia que se
afirma quando R triunfa sobre seu inimigo e que, para a felicidade do gnero
humano, deve prevalecer no funcionamento das instituies e no comportamento
individual. "R vive por Mat". Tot, o deus dos sbios, contador de R, juiz dos
deuses,  "feliz por Mat"23.

     Os deuses
   Todas as doutrinas e imagens que acabamos de mencionar eram aceitas em
todos os templos. Os hinos que louvam os atributos csmicos e a maravilhosa
providncia do deus criador retomam os mesmos temas, quer se trate de uma
deusa primordial como Neith, de um deus-terra como Ptah, ou mesmo de
mon-R, Khnum-R, Sebek-R. Os grandes mitos  o Olho de R, o Olho
de Hrus, a paixo de Osris  bem como as prticas rituais bsicas so comuns
a todos os centros populacionais; contudo so deuses diferentes  cada qual
com seu prprio nome, imagem tradicional, manifestaes animais e deuses
associados  os "senhores" das vrias cidades: Khnum em Elefantina, Isna e
outras partes; Min em Coptos e Akhmin; Mont em Hermonthis; mon em
Tebas; Sebek em Sumenu, no Faium e outros lugares; Ptah-Seker em Mnfis;
Ra-Harakhte-Atum em Helipolis; Neith em Sas; Bastet em Bubstis; Uadjit
em Buto; Nekhbet em el-Kab, etc., havendo ainda numerosos deuses locais
chamados pelo nome de Hrus, assim como inmeras deusas  as temveis
Sekhmet ou as amveis Htor. Teriam anteriormente existido, espalhadas pelo
pas, figuras associadas a mitos mais ou menos esquecidos?  possvel; em
todo caso, a presena de diferentes religies locais em pocas pr-histricas
poderia explicar muito do politesmo que prolifera numa religio cuja unidade
 manifesta. Parece que esta tendia, atravs da identificao de certos, deuses
a outros, a reduzir essa pluralidade a poucos tipos: uma divindade suprema,
geralmente um deus solar e muitas vezes explicitamente identificado a R
(mon-R, Mont-R; Haroeris-R, etc.); uma deusa-consorte, que  o Olho


23   Os textos associam as desordens naturais s perturbaes na ordem poltica e social. Contudo, Mat 
     um conceito moral e judicirio e, a despeito da teoria bastante difundida, no  evidente que inclua a
     ordem fsica do mundo.
90                        frica Antiga




     Figura 3.9 Vindima e espre-
     medura. (Fonte: N. de G. Davies.
     "The Tomb of Rekh-mi-re at The-
     bes", 1943. v. II, pr. XLV. Foto:
     The Metropolitan Museum of Art,
     Nova Iorque.)
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                               91



de R (Mut = Bastet = Sekhmet = Htor, etc.); o deus-filho guerreiro, como
Hrus-Anhur; um deus morto, como Osris (Seker, Seph, etc.). Os telogos do
Novo Imprio representavam cada cidade "inicial" como um ponto de parada
do demiurgo no curso de sua gnese itinerante e consideravam os trs principais
deuses do Estado  mon, do ar, R, do Sol, e Ptah, do mundo dos mortos  trs
manifestaes cosmogrficas e polticas de `uma mesma  e nica  divindade.
O labirinto de problemas tericos apresentados por um panteo multiforme
deu origem a muitas especulaes teolgicas e mesmo filosficas: Ptah concebia
em "seu corao, que  Hrus", e criava por "sua lngua, que  Tot"; Sia, "o
conhecimento" e Hu, "a ordem", principais atributos do Sol; as quatro Almas,
que so R (fogo), Shu (ar), Geb (terra) e Osris (gua); o incognoscvel e
infinito Deus, que  "o cu, a Terra, o Nun, e tudo o que se encontra entre eles",
etc. Entre os letrados, pelo menos a partir do Novo Imprio, predominava um
sentimento de unidade divina aliado a uma f que venerava  assim como tantas
outras abordagens do inefvel  os mitos, os nomes e os dolos de todos os
deuses do pas. A conduta do famoso Akhenaton, que pretendeu reconhecer o
disco visvel do Sol como nico deus verdadeiro, ainda permanece na principal
corrente do pensamento egpcio, mas era hertica na medida em que subvertia
uma tradio que, permitindo o mistrio, aceitava e reconciliava todas as formas
de piedade e de pensamento.

    O templo
    Cada deus criou sua cidade; zela no s por seu domnio mas tambm por
todo o Egito. O rei ocupava-se simultaneamente de todos os deuses. Herdeiro
do Sol e sucessor de Hrus, era incumbido de manter a ordem criada pela
providncia divina, devendo, para tanto, sustentar os seres divinos  ameaados,
eles prprios, por um possvel retorno ao caos , desviar a ira da deusa, valer-se
da perptua colaborao com o divino para garantir o ciclo anual, a subida das
guas do Nilo, o crescimento normal da vegetao, o aumento do rebanho, o
malogro das rebelies, a segurana das fronteiras, a felicidade e o governo de
Mat entre seus sditos. Para conseguir tudo isso, a cincia sagrada empregava a
magia da palavra e do gesto, da escrita, das imagens e das formas arquitetnicas;
enfim, todos os processos tambm usados para assegurar a vida ps-morte.
    Nas cerimnias conduzidas pelos sacerdotes iniciados os atos rituais eram
acompanhados de frmulas verbais que reforavam seu poder de coao atravs
de palavras mgicas evocativas de precedentes mticos. A representao desses
ritos e a escrita desses textos nas paredes dos templos perpetuavam sua ao. Do
92                                                                                         frica Antiga



mesmo modo, as numerosas esttuas do rei e as imagens das pessoas comuns nos
recintos sagrados permitiam-lhes servir eternamente ao deus, habitar com ele e
receber uma fora vital adicional. O arquiteto fez do templo um modelo reduzido
do universo, dando-lhe, desse modo, perpetuidade: o pilar  a montanha do Sol
nascente, o santurio escuro  o lugar onde o Sol se pe, as colunas representam
o pntano original de onde emergiu a criao, e a base de seus muros  o solo do
Egito. Com seus jardins e reas de servio, o templo  isolado das impurezas que
poderiam poluir o divino por um alto muro de tijolos; os sacerdotes oficiantes
e as pessoas privilegiadas admitidas no tmeno so obrigados a submeter-se
s purificaes rituais e a observar as proibies alimentares, de vesturio e
de atividade sexual. Para mostrar que o culto  efetivamente celebrado pelo
fara, as cenas gravadas nas paredes representam-no oficiando os vrios ritos
e apresentando, em longas procisses, os nomos do Egito, as fases das cheias
e as divindades menores que presidem s diferentes atividades econmicas.
Durante o dia, o dolo  ou seja, a forma pela qual se entra em contato com o
deus   purificado, incensado, vestido, alimentado e longamente invocado em
hinos que exortam o deus a despertar, reafirmam seu poder divino e solicitam
sua ao benevolente. Nas grandes festividades o deus sai em procisso para se
realimentar de energia divina em contato com os raios solares, visitar os tmulos
dos reis mortos e dos deuses obsoletos, e restabelecer os eventos mticos atravs
dos quais o mundo se formou24.
   Acima de tudo. O templo  um lugar de trabalho onde o rei, auxiliado pelos
sacerdotes iniciados, pratica uma alta magia de Estado para assegurar a boa
marcha dos acontecimentos (fundamentalmente para assegurar a alimentao
de seu povo). Por mais distantes que fossem, os deuses, motores do mundo,
eram sentidos como seres pessoais, prximos de cada mortal. No Novo Imprio,
o povo rezava para eles diante dos portes laterais dos templos, nas capelas da
aldeia ou nas runas de monumentos antigos, onde se pode sentir sua presena (a
Grande Esfinge de Giz, principalmente, era considerada como um dolo tanto
do Sol como de Hurun, o deus curandeiro tomado de emprstimo aos cananeus).
Os hinos esto gravados em pequenas estelas, testemunhando a f dos mortais
no deus de suas cidades; imploram-se tambm as graas do grande mon  "juiz
imparcial, que atende aquele que o chama, que ouve suas splicas"  para a sade
ou para os negcios. Em toda a histria do antigo Egito, os nomes prprios


24   Nosso conhecimento do simbolismo dos templos e de sua decorao, bem como dos rituais, tem por base
     os grandes monumentos construdos e decorados nas pocas grega e romana (Edfu, Ombo, Denderah,
     Filas, etc.). Para informaes gerais, ver SAUNERON, S. & STIERLIN, H. 1975.
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                        93



mostram-nos que todas as camadas da populao reivindicavam a proteo
direta das grandes divindades. Alm disso, apesar de sua forte especificidade e
de um clero que guardava ciosamente os segredos que regiam a vida da nao, a
religio egpcia mostrou-se especialmente acolhedora. No Novo Imprio, anexou
as divindades srio-palestinas, fez de Bs, gnio protetor das mulheres e dos
bebs, um habitante do Sudo oriental, aceitou e egipcianizou Dedun, senhor da
Nbia, reconheceu mon no deus-carneiro dos nbios e implantou solidamente
o culto do deus tebano em Kush; posteriormente, identificou seus deuses com o
panteo grego e, nas zonas rurais, conquistou a f dos colonos gregos na poca
ptolomaica.
    Todavia, a identificao da terra egpcia com o mundo organizado  indicador,
em particular, da viso que tinham os sditos do fara do mundo exterior.
Os povos africanos e semitas e as cidades e monarquias estrangeiras eram
comparados s foras do caos, sempre prontas a subverter a criao (a escrita
hieroglfica caracteriza todo pas estrangeiro como um deserto montanhoso!).
Em ambos os lados das portas dos templos existem placas opostas mostrando,
ao sul, o rei vencendo os nbios e, ao norte, o rei subjugando os asiticos25.
Essas imagens nas entradas do microcosmo aniquilam atravs do poder da
mgica os "rebeldes" que ameaam a ordem; no Novo Imprio, as extensas sries
de representaes esculpidas nas paredes externas, mostrando as campanhas
vitoriosas e os saques levados ao deus, apenas ilustram com particularidades
histricas a cooperao constante entre o soberano e a divindade na manuteno
do equilbrio do universo. Uma manifestao interessante dessa mentalidade 
que at certo ponto qualificava o "chauvinismo" do dogma   o fato de os ritos
mgicos dirigidos contra os prncipes e os povos da sia, da Nbia e da Lbia
visarem antes livr-los de intenes hostis que destru-los.

     A tica
   O rei existe para manter a harmonia perfeita da criao. Nesse sentido, a
poca ideal foi "o tempo de R"; os sacerdotes do Perodo Final chegaram a
imaginar uma idade de ouro perdida, em que as serpentes no mordiam, os
espinhos no picavam, os muros no desmoronavam e Mat reinava sobre a
Terra26. O sistema perfeito no  uma utopia que se procura alcanar com
a inveno de novas regras  ele existiu no princpio e torna-se novamente


25   DESROCHES-NOBLECOURT, C. & KUENTZ, C. 1968. pp. 49-57 e notas 178-9 (pp. 167-8).
26   OTTO, E. 1969. pp. 93-108.
94                                                                     frica Antiga



real a partir do momento em que a pessoa se conforma a Mat. Isso significa
que a moral professada nos Ensinamentos redigidos pelos altos funcionrios de
Mnfis (Djedefhor, Ptahhotep) e por vrios escribas de perodos posteriores
(Ani, Amenemope), bem como as instrues para os sacerdotes gravadas nos
templos de pocas mais recuadas so fundamentalmente conformistas, e que
o ensino era bem pouco propcio ao florescimento da originalidade. Os textos
em que se descrevem descobertas pessoais so raros em comparao com as
autobiografias convencionais e as frmulas padronizadas. , portanto, notvel
que muitos escultores tenham conseguido imprimir uma marca pessoal em seus
trabalhos, embora aceitando sem objeo os cnones tradicionais.
   A tica corrente colocava no mesmo plano as virtudes propriamente ditas
e as qualidades intelectuais, a retido e o decoro, a impureza fsica e a baixeza
de carter. Baseada numa psicologia sem iluses, exaltava a submisso aos
superiores e a benevolncia com os inferiores. Admitia-se que o sucesso mundano
 consequncia natural da virtude, e, embora se desenvolvesse muito cedo a
ideia da retribuio pstuma das aes de uma pessoa, os expedientes mgicos
ofereciam frmulas funerrias a fim de evitar que o julgamento divino criasse
obstculos a isso. Dava-se muita ateno ao ensino do bom comportamento:
no falar muito, ter gestos comedidos e reaes moderadas, ideal que a estaturia
egpcia expressa com perfeio. Todo excesso  prejudicial: aquele que se deixa
levar pela emoo perturba os outros e provoca sua prpria perdio. Contudo
alguns sbios introduzem em suas reflexes uma forte religiosidade pessoal
e expressam uma aspirao  superioridade individual: um corao honesto
 prefervel  submisso formal aos rituais.  em Deus que se encontra o
"caminho da vida". No se deve subestimar a dvida da sabedoria bblica 
cultura egpcia. A preocupao pelo prximo  grande, mesmo se relacionada
com maior frequncia a necessidades sociais do que  compreenso caridosa.
Os reis e os escribas deixaram boas lies de tica social: concentrar esforos
para atender aos interesses do rei e de seu povo, no para beneficiar o forte em
detrimento do fraco, no para se deixar corromper, no para trapacear no peso
e na medida. O Egito tambm desenvolveu o conceito de dignidade humana:
"no usar a violncia contra os homens [ ... ] eles nasceram dos olhos de R,
so seus descendentes"; em uma das clebres narrativas do papiro Westcar, um
mgico se recusa a executar uma experincia perigosa num prisioneiro, "pois 
proibido agir assim com o rebanho de Deus".
   O quadro que a ideologia oficial traava da ordem ideal correspondia, sob todos
os pontos de vista, ao que o pas apresentava quando, com a reunificao das Duas
Terras, uma monarquia slida e uma administrao conscienciosa asseguravam
O Egito faranico: sociedade, economia e cultura                                 95



a prosperidade e a paz geral. Com o Primeiro Perodo Intermedirio, as guerras
civis, as infiltraes dos brbaros e a alterao brusca da situao despertaram
a ansiedade. "Mudanas esto em curso; as coisas no so mais como no ano
passado." Era necessrio encontrar "palavras novas", dizia o escritor Khakhperre-
-sonb (chamado Ankhu) em seus Discursos, para apreender o inusitado dos
acontecimentos. Desse modo, surgiu uma literatura pessimista, da qual se
originam principalmente a Profecia de Neferti, que evoca a crise que ps fim  XI
dinastia, e as Admoestaes do mestre do coro Ipu-Ur s vsperas da poca dos
hicsos 27. O Neferti e posteriormente o Orculo do Oleiro, bem como os diversos
contos relativos  expulso dos Impuros estigmatizam a subverso de Mat com
o nico intuito de fazer sobressair a vitria final do rei-salvador e da ordem. J o
Dilogo do Homem Desesperado com Sua Alma pe em dvida a utilidade dos ritos
funerrios, e os Cantos do Harpista so um convite ao carpe diem. Temas hedonistas
insinuam-se, por vezes, em composies convencionais. Se a literatura profana
tivesse sido melhor preservada, revelaria um universo mental mais diversificado
do que o mostrado pelas inscries rupestres reais e sacerdotais. Certos contos,
as canes de amor, os detalhes cmicos que animam as cenas da vida domstica
nas capelas funerrias, e os alegres esboos desenhados em stracos revelam, por
trs do conformismo faranico, um povo fundamentalmente feliz, habilidoso,
bem-humorado e amigvel, como hoje em dia.

     O direito
    Como vimos, a religio e a tica do nfase  manuteno de uma disciplina
rigorosa, que beneficia toda a comunidade dos sditos, e  ao exclusiva da
pessoa real na administrao e nos ritos. A prpria arte prefere o geral ao
particular, o exemplo tpico  espontaneidade individual. , portanto, notvel
constatar que o direito faranico permaneceu firmemente individualista. No
tocante s decises reais e aos procedimentos e penalidades legais, tudo indica
que homens e mulheres de todas as classes eram considerados iguais perante
a lei. A famlia restringia-se ao pai,  me e a seus filhos jovens; as mulheres
desfrutavam dos mesmos direitos em matria de propriedade e de assistncia
jurdica. No conjunto, a responsabilidade era estritamente pessoal. A famlia
no sentido amplo no tinha consistncia legal, e a posio de um homem no
se definia em funo de sua linhagem. No domnio da lei, o Egito faranico



27   Cf. SETERS, J. Van. 1964. pp. 13-23.
96                                                                      frica Antiga



diferencia-se claramente da frica tradicional e curiosamente antecipa as
sociedades modernas da Europa.

     Crenas e prticas funerrias
    O mesmo individualismo reinava nas crenas e nas prticas relativas  vida
ps-morte. Cada um, de acordo com seus recursos, preparava sua outra vida, a
de seu cnjuge e de seus filhos em caso de morte prematura. O filho deveria
participar dos ritos funerrios de seu pai e, se necessrio, assegurar seu enterro.
O ser humano (ou divino) rene, alm do corpo mortal, vrios componentes
 o Ka, o Ba e outras entidades menos conhecidas, cuja natureza ainda  difcil
definir e cujas interrelaes so obscuras. As prticas funerrias destinavam-
-se a garantir a sobrevivncia dessas "almas"; no entanto, uma caracterstica
bem conhecida da religio egpcia  o fato de ter ligado essa sobrevivncia
 preservao do prprio corpo pela mumificao, e de ter assegurado, com
arranjos elaborados, uma vida alm-tmulo pelo menos to intensa e feliz quanto
a terrena. Um tmulo  composto de uma superestrutura aberta para os parentes
vivos e de uma cripta onde repousa o defunto, acompanhado de objetos mgicos
ou domsticos. As pessoas abastadas pagavam regularmente, sob contrato, um
estipndio a sacerdotes profissionais que, de pai para filho, se encarregavam
de levar as oferendas de alimentos. E, como ltima precauo, empregava-se
o poder compulsrio da fala e da escrita e a magia das imagens esculpidas e
pintadas. Na capela  mastaba ou hipogeu eternizam-se os eficazes rituais do
enterro e da oferenda; outras cenas reconstituem o trabalho e os prazeres de um
mundo ideal; esttuas e estatuetas multiplicam os corpos substitutos. Nas tbuas
do caixo, nas pedras da cripta, no "Livro dos Mortos" confiado  mmia, esto
copiadas as frmulas recitadas no momento do enterro e as palavras mgicas que
possibilitam ao morto desfrutar de todas suas faculdades, escapar dos perigos
do Outro Mundo e cumprir seu destino divino. Como na teologia, a crena
egpcia relativa  vida ps-morte justaps vrias concepes: sobrevivncia como
companheiro do Sol, residncia no tmulo com despertar dirio ao nascer do
Sol, manifestao do Ba ao ar livre e usufruto dos objetos familiares, vida num
elsio maravilhoso ao lado de Osris. Qualquer que fosse o caso, aquele que
tivesse um belo enterro mudaria de status: seria igual aos deuses, a Osris e a
todos os reis, cada um deles um Osris.
Relaes do Egito com o resto da frica                                 97



                                          CAPTULO 4


                        Relaes do Egito com
                           o resto da frica
                   Abd El Hamid Zayed colaborao de J. Devisse




    Admite-se atualmente que a arqueologia no revelou indcios decisivos de
contatos entre o Egito e a frica ao sul de Mroe. Isso, naturalmente, no
impedia a presena de teorias baseadas em hipteses. No entanto, estas devero
ser consideradas como tais at que as evidncias arqueolgicas venham conferir-
-lhes peso necessrio.
    H poucos anos divulgou-se a descoberta de objetos egpcios em regies
longnquas no interior do continente. Uma estatueta de Osris, datada do sculo
VII antes da Era Crist, foi encontrada no Zaire, s margens do rio Lualaba,
prximo da confluncia do Kalunegongo; ao sul do Zambeze, descobriu-se uma
esttua gravada com o cartucho de Tutms III (-1490 a -1468). No entanto,
um estudo das circunstncias em que esses objetos foram descobertos no nos
permite concluir, no momento, serem eles testemunhos de relaes entre o Egito
e as regies acima mencionadas, nos sculos VII ou V antes da Era Crist 1.
Valendo-se de indcios pouco convincentes, A. Arkell concluiu pela presena
de contatos entre o Egito bizantino e Gana atual.
    Entretanto, isso no significa que se deva inferir, com base num raciocnio
a silentio, que na Antiguidade no houve vnculos de nenhuma espcie entre o
Egito e o resto do continente africano. Como nesse campo as informaes so
escassas e as concluses fundamentam-se, por vezes, em indcios insuficientes,

1    Ver LECLANT, J. 1956a. pp. 31-2.
98                                                                                           frica Antiga



deve-se proceder com um rigor cientfico maior do que o habitual, aceitando
apenas os fatos cientificamente estabelecidos.
    Por exemplo, alguns podem considerar confirmada a influncia, em deter-
minados aspectos, da civilizao egpcia em outras civilizaes africanas. Porm,
ainda que viesse a ser comprovada, essa influncia no constituiria uma prova de
contatos antigos. Eva L. R. Meyerowitz admite como prova da influncia egpcia
o fato de os Akan terem adotado o abutre como smbolo da autocriao2. Destaca
tambm a semelhana entre o deus Ptah e Odomankoma, deus akan, ambos
bissexuais, que, aps criarem a si mesmos, criaram o mundo com suas prprias
mos. Embora esta seja uma associao interessante3, no  indcio concludente
da existncia de contatos entre o Egito antigo, de um lado, e o Akan antigo ou a
regio do golfo de Benin, de outro. Do mesmo modo, por muito tempo atribuiu-
-se uma provvel origem egpcia ao culto da serpente, estudado em todas as
civilizaes africanas por vrios especialistas notveis. Tal hiptese, porm, no
leva em conta o fato de as culturas antigas observarem seu meio ambiente com
muita ateno, sendo perfeitamente capazes de criar seus cultos a partir da prpria
observao. Existem ainda outras interpretaes. J. Leclant4, por exemplo, refere-
-se  hiptese algumas vezes sugerida de que o culto da serpente teria chegado a
Mroe, e talvez a outras partes da frica, vindo da ndia. Esses poucos exemplos
bastam para ilustrar a importncia de se adotar uma abordagem cautelosa.
    Antes de enfocar os vestgios  quer sejam seguros, hipotticos ou improvveis
 das relaes do Egito com o restante do continente na Antiguidade, devemos
observar que, seja qual for a tese finalmente adotada com respeito ao povoamento
antigo do Egito5, parece haver uma considervel discrepncia cronolgica e
tecnolgica entre este ltimo e as civilizaes perifricas6. Embora do ponto
de vista tecnolgico fizesse parte da frica, a cultura egpcia desligou-se do
seu meio meridional e ocidental. Evidentemente o Egito passou a desconfiar
ainda mais dos seus vizinhos do norte quando estes se tornaram uma ameaa.
O Egito faranico sentia-se culturalmente defasado em relao a seus vizinhos.
E no h dvidas de que os ultrapassou, embora as causas desse avano sejam

2    MEYEROWITZ, E. L.-R. p. 31.
3    Observe-se que o problema da autocriao no se limita a Ptah (um semideus, mas patrono de todos os
     artesos), estendendo-se tambm a R e outras deidades. Ao que parece, existiu no Egito um mito geral
     subjacente, entre vrios grupos locais e, talvez, em diferentes perodos.
4    Ver LECLANT, J. 1956b. Cap. 10.
5    Ver Cap. 1 e a smula do Simpsio do Cairo.
6    H. J. HUGOT (1976. p. 76) assinala que quando o Egito foi unificado, por volta de - 3200, o Neoltico
     saariano atingia seu ponto culminante, rejeitando categoricamente a hiptese ocasionalmente formulada
     de que o homem neoltico egpcio seria de origem saariana (p. 73).
Relaes do Egito com o resto da frica                                                                    99



de difcil compreenso. A partir da, ainda que permanecesse a solidariedade
tnica, profundas diferenas quanto ao modo de vida acabaram por distanciar os
egpcios dos povos vizinhos.  de fundamental importncia perceber as razes
desse processo  sobretudo se se admite uma identidade tnica entre os egpcios
e seus vizinhos do sul  uma vez que esclareceriam em que medida a escrita foi
adotada como instrumento de coeso social e cultural no vale do Nilo. Esse 
o problema que a pesquisa deveria focalizar. A adoo e a utilizao da escrita
seriam fatos ligados a fenmenos biolgicos e naturais, um acidente essencial
relacionado ao esprito do povo, ou simplesmente o produto necessrio de uma
cultura num determinado estgio de integrao poltica e social?
    O Simpsio do Cairo (1974) enfatizou a estabilidade tnica e cultural do Egito
durante os 3 mil anos de governo faranico. O baixo vale do Nilo foi como uma
esponja que, por mais de trinta sculos, absorveu as infiltraes ou imigraes
oriundas de vrias periferias, exceto nas pocas em que se intensificava a presso
de povos estrangeiros. A oeste, e tambm ao sul, povos que mantinham entre si
diferentes graus de parentesco eram confinados em seu habitat pelas fortificaes
das fronteiras egpcias, ou ento considerados teis ao vale enquanto fornecedores
de alimentos ou homens para a sua defesa. A no ser por esse sentimento de
particularidade egpcia, que se desenvolveu gradualmente e era talvez caracterstico
apenas das classes altas da sociedade, torna-se difcil saber como os egpcios se
comportavam em relao aos seus vizinhos mais prximos. Considerava-se que
estes  assim como todos os outros povos com os quais os egpcios mantinham
contato  tinham a obrigao natural de contribuir com homens e riquezas para
a civilizao faranica. Desde o incio, o tributo constitua um dos smbolos de
submisso dos povos vizinhos do Egito, e o no-pagamento implicava o envio
de expedies punitivas. No entanto, a atitude dos vizinhos nem sempre era de
resignao e passividade. O Egito nem sempre estava em condies de ditar-lhes
ordens; suas relaes com a frica variaram com os sculos.


    Os vizinhos do ocidente: Saarianos e Lbios7
   Admite-se, de modo geral, que durante o perodo pr-dinstico decresceram
os frequentes intercmbios humanos com o Saara. Pouco se sabe a respeito


7    Quero registrar aqui meus agradecimentos ao professor T. GOSTYNSKY, autor de uma monografia
     sobre a Lbia antiga, que ele gentilmente enviou  Unesco a fim de facilitar a elaborao deste captulo.
     Utilizei-a em diversas ocasies.
100                                                                     frica Antiga




figura 4.1   O Chifre da frica e as regies vizinhas na Antiguidade.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                                     101



desses intercmbios, chegando-se por vezes a argumentar que no existiram8. 
certo que durante o perodo dinstico o Egito exerceu influncia sobre o Saara,
embora tambm pouco se saiba sobre isso9.
    Para os egpcios do perodo dinstico, de fato  segundo as pesquisas mais
recentes , os saarianos eram principalmente os lbios, que paulatinamente
se concentraram no norte de um dos desertos mais vastos e inspitos do
mundo. Era outra a situao no Neoltico, quando a rpida expanso do
deserto  intensificada durante o perodo dinstico  forou os lbios, pastores
e caadores, a recuarem para a periferia do seu habitat anterior, quando no
os levou a bater, famintos,  porta do paraso niltico, cujo acesso lhes era
proibido. Sua presso continuou a se exercer ininterruptamente, mas poucas
vezes com xito, exceto, talvez, na parte ocidental do Delta, onde a populao
saariana , sem dvida, antiga e homognea. Nos grandes osis cercados por
desertos  Kharga, Dakhla, Farafra e Siwa , a aristocracia egpcia dedicava-se
 caa, assumindo uma obrigao que originalmente cabia ao rei. Combater
e aniquilar os habitantes do deserto (mesmo a inofensiva lebre) significava
ajudar a manter a ordem csmica, pois o deserto pertencia a Seth e ao caos
primordial, que ameaava constantemente voltar  Terra e destruir a ordem
(Mat), desejada pelos deuses e pela qual o fara era responsvel. Assim, a
caa no era simplesmente um agradvel passatempo das classes privilegiadas.
Tinha um significado religioso profundo.
    Quando se caminhava para o sul, com destino ao Chade, ou para o norte,
rumo ao Fezzan e ao Nger, era preciso atravessar aqueles osis. Contudo, no
dispomos hoje de nenhuma prova de que tais rotas tivessem sido regularmente
utilizadas durante o perodo dinstico.
    Seria certamente importante realizar pesquisas sobre essas rotas, mais do
que pelo prprio interesse que lhes  inerente. A arqueologia e a toponmia
poderiam vir a descobrir se os egpcios utilizaram ou no as principais rotas
africanas para o Tibesti, Darfur, Bahr el-Ghazal e Chade, ou para o Fezzan
e Ghudamis.


8    Em vrias passagens do Relatrio Final do Simpsio do Cairo (1974). Uma das pesquisas atuais mais
     promissoras baseia-se em gravao em pedras e em pinturas "do Atlntico ao mar Vermelho". Embora
     referindo-se particularmente  Pr-histria, o estudo contm grande quantidade de dados precisos.
9    HUGOT, H.-J. 1976. p. 73. Note-se, porm, a advertncia (p. 82) contra concluses apressadas de
     estudiosos que, por exemplo, querem reconhecer em determinados temas das pinturas rupestres do Saara
     (carneiros com discos solares, feiticeiros com mscaras zoomrficas, etc.) vestgios de influncia da XVIII
     dinastia. Ele observa: " precipitar-se e descuidar facilmente da maneira de administrar a prova cientfica
     necessria  validao de uma hiptese".
102                                                                                           frica Antiga



    De qualquer maneira, pelo menos a partir da XIX dinastia, os lbios passaram
a constituir uma reserva de mo de obra e de soldados para o Egito. Os cativos
lbios, identificveis pela pluma que usavam sobre a cabea, tinham boa reputao
como soldados, principalmente como aurigas. Frequentemente marcados a
ferro, no eram utilizados nas grandes operaes coletivas nem no trabalho
domstico10. Eram arregimentados pelo exrcito, onde sua proporo aumentava
com o passar dos sculos e onde encontravam outros imigrantes, os nbios.
Como criadores de gado, forneciam animais para o consumo dos egpcios11;
esses animais eram recolhidos sob a forma de tributo, ou tomados durante as
razias. Os lbios desempenhavam, assim, um papel econmico comparvel ao
dos nbios.
    Naturalmente, a historiografia egpcia julgava severamente as invases
lbias, quando ocorriam12. Nos sculos XIII e XII antes da Era Crist, assim
como durante o Antigo Imprio, os lbios, levados pela necessidade, tentaram
penetrar no Egito. Sti I e Ramss II erigiram uma rede de fortificaes contra
os invasores e aprisionaram os mais ousados. Aps duas tentativas frustradas de
retomar  parte ocidental do Delta, de onde tinham sido afugentados, os lbios
obtiveram de Ramss III, no sculo XII antes da Era Crist, permisso para
se fixar naquela regio. Em troca, passaram a ter maior participao na defesa
militar do Egito. No sculo X, e por quase dois sculos os lbios governaram o
Egito sob a XXII e a XXIII dinastias. Essa nova situao provocou fortes reaes
no Alto Egito, onde se fizeram tentativas de destituir os governantes lbios com
o apoio do reino de Napata. A rivalidade entre guerreiros e polticos negros e
brancos deu incio a uma situao que se prolongaria por muito tempo na vida
do Egito. A rplica imediata dos nbios foi estabelecer uma dinastia etope
criada por Peye (Piankhy).
    Ao se considerarem as relaes entre o Egito e outras naes, sejam elas
africanas ou no,  preciso no esquecer o papel, ainda quase desconhecido,
desempenhado pelo Delta. As prospeces arqueolgicas nessa regio do Egito,
ainda insuficientes, no nos permitem ir alm de algumas suposies.




10    Snefru orgulhava-se de ter capturado 11 mil lbios e 13100 cabeas de gado.
11    As inscries mencionam importaes de vrias dezenas de bovinos, ovinos, caprinos e jumentos.
12    De -3000 a -1800 os egpcios conseguiram, segundo seus cronistas, conter as invases lbias. Todas as
      expedies mencionadas durante esse longo perodo vo do Egito para a Lbia. O prprio fato de terem
      ocorrido revela a presena de problemas nas relaes entre Egito e Lbia. De -1800 a -1300 as fontes
      nada dizem a esse respeito.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                                  103




figura 4.2 Pelicanos domesticados. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 188, fig. 61 (no alto). Baixo-relevo no
Museu de Berlim.)
Figura 4.3 Operaes navais. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 220-1, fig. 74-5. Mastaba de Akhet-hetep,
Muse du Louvre. Foto Archives Photographiques, Paris.)
104                                                                                          frica Antiga



    Durante o perodo dinstico, o Delta foi palco de frequentes migraes 
por vezes macias  de povos vizinhos do oeste, do norte e do nordeste13. Em
maior ou menor grau, isso sempre afetou a vida do Egito. Basta recordarmos as
relaes do Egito com Biblos (vital para o fornecimento de madeira), o episdio
dos hicsos, o xodo dos hebreus, os ataques dos lbios e dos povos do mar, para
compreendermos que o Delta sempre foi uma rea de conflito nos tempos do
Egito faranico. Particularmente ao procurar desenvolver um comrcio exterior
complementar com a frica, a sia e o Mediterrneo, o Egito viu-se obrigado
a exercer um rgido controle sobre a costa do Delta. Desde o incio do perodo
faranico, o compromisso da poltica comercial e militar egpcia com o norte
e o nordeste opunha-se, at certo ponto, ao desejo de fazer contatos com o
continente africano e de penetrar no seu interior.  preciso ter em mente essa
contradio fundamental sempre que se for lidar com a histria egpcia. O Egito,
pas mediterrnico e martimo, tinha de controlar um espao til aberto para
o Mediterrneo e para o norte do mar Vermelho. Varadouros bem construdos
entre este e o Nilo, ao norte da Primeira Catarata, bastavam para garantir a
conexo indispensvel entre as bacias econmicas ocidental e oriental. Como
povo africano, porm, os egpcios provavelmente se viram tentados a penetrar
profundamente o interior ao longo do Nilo, ao menos at a Quarta Catarata.
Teriam enfrentado, ento, dificuldades como as que so discutidas em outros
captulos deste livro. Tambm devem ter sido atrados pelo Chade, atravessando
os vales antigos que conduzem  margem esquerda do Nilo, e pela Etipia, rica
em marfim. O maior obstculo encontrado ao sul talvez tenham sido as extensas
regies pantanosas, que os egpcios devem ter tido dificuldades em alcanar ou
atravessar, e que durante toda a Antiguidade protegeram o segredo dos vales
extremos do alto Nilo. Embora tenhamos hoje condies de acompanhar com
certa facilidade a histria das relaes do Egito com o norte e dos varadouros
entre o mar Vermelho e o Nilo, lamentavelmente nos faltam dados arqueolgicos
sobre as relaes que os egpcios mantinham, por terra, com o sul distante.
    Portanto, no momento temos que recorrer a hipteses mais ou menos
provveis baseadas em textos, na lingustica, na etnologia ou, simplesmente,

13    Como enfatizado no Simpsio do Cairo, a histria antiga do Delta ainda est para ser descoberta. De
      fato, a poro do Egito setentrional cuja pr e proto-histria so conhecidas no vai muito alm do
      Cairo atual. No Antigo Imprio no se dispunha de maiores informaes. A faixa litornea deve ter
      permanecido por longo tempo como uma extensa rea fora da esfera egpcia. No IV milnio, de fato,
      formado o Estado egpcio, o Baixo Egito expandiu-se de Helipolis at o Faium, e o Alto Egito, do
      sul do Faium at El-Kab. Assim, o Delta esteve menos envolvido, e o Alto Egito, considerado "mais
      africano", deteve-se com o surgimento do arenito  corretamente qualificado como nbio , que marcou
      o ingresso num outro mundo, tanto tnico como poltico, o de Ta-Sti, a Terra do Arco.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                                  105



no senso comum. Mas por muito tempo os prprios egiptlogos consideraram
a histria do Egito mediterrnica e branca; assim, torna-se necessria, agora,
uma mudana das tcnicas e dos materiais de pesquisa  e principalmente da
mentalidade dos pesquisadores  para que se possa restituir a terra dos faras
ao seu contexto africano.


     Os vizinhos do sul: os egpcios, as bacias do
     alto Nilo e suas relaes com a frica
   As mais recentes escavaes arqueolgicas, cujas descobertas muitas vezes
ainda permanecem inditas, revelaram semelhanas entre a regio de Cartum
e o baixo vale do Nilo no perodo neoltico, semelhanas essas difceis de
explicar.
   Com o Antigo Imprio, porm, essa aparente similaridade deixou de existir.
J na I dinastia, fortificaes protegiam o sul do Egito contra os vizinhos
meridionais. Cada vez mais, no decorrer de toda a sua longa histria, diferenas
polticas e culturais e interesses conflitantes separaram os territrios ao norte da
Primeira Catarata daqueles que se situavam ao sul da Quarta Catarata. Apesar
disso, as complexas e variadas relaes entre os egpcios e os povos do sul, a quem
chamavam de nehesi, nunca foram inteiramente rompidas.
   De qualquer maneira, a Baixa Nbia interessava aos egpcios pelo ouro que
produzia, e as regies nilticas localizadas mais ao sul, pelas rotas que conduziam
ao interior africano atravs do Nilo Branco, dos vales saarianos ou do Darfur.
O acesso ao sul foi uma preocupao constante por toda a histria do Egito,
o que provavelmente tambm explica a importncia atribuda ao controle dos
osis ocidentais, outra rota de acesso paralela ao Nilo.
   Desde o incio do Antigo Imprio, o Sudo, assim como a Lbia, representou
para os egpcios uma fonte de mo de obra14, de animais e de minerais15. Os
nbios, famosos pelos seus arqueiros, ocupavam uma posio de destaque no
exrcito egpcio. Empregados igualmente como trabalhadores agrcolas (no Faium
do Mdio Imprio, por exemplo, as aldeias dos colonos nbios eram chamadas
de "aldeias dos nbios"), eram rapidamente assimilados pela vida sociocultural


14   O fara Snefru declarou ter trazido consigo 7 mil homens do sul, de uma terra chamada Ta-Sti (Seti:
     tipo arcaico de arco. GARDINER, A. H. 1950. p. 512. Ta-Sti: terra dos homens que carregam o arco
     Sti.)  interessante notar que todas as tribos sudanesas da bacia do Congo carregam o mesmo arco.
15   A partir de - 2500, fornalhas destinadas a fundir o cobre local foram instaladas pelos egpcios em Buhen,
     ao sul do Uadi Halfa.
106                                                                    frica Antiga



egpcia. Ao final da I dinastia,  bem possvel que tenham ocorrido na Nbia
mudanas que perturbaram suas relaes com o Egito. A lenta emergncia do
Grupo C, que parece s se ter constitudo plenamente na V dinastia, deixa uma
lacuna de cinco sculos no nosso conhecimento sobre essas relaes.
   O final da V dinastia marca o incio das relaes do Egito com o Sudo.
Nesse mesmo perodo, criou-se um novo cargo poltico e econmico conhecido
como "governador do sul". O detentor era responsvel pela defesa da entrada
meridional do Egito, pela organizao dos intercmbios comerciais e pelo
favorecimento da circulao das expedies mercantis. Esse cargo requeria certas
qualificaes, tais como o conhecimento do comrcio e das lnguas faladas pelos
habitantes da regio. Uni, um governador do sul na VI dinastia, tinha sob seu
comando recrutas vindos de diferentes partes da Nbia: nehesi (nbios) de Irtet,
Madja, Yam, Wawat e Kau.
   No final do Antigo Imprio as relaes comerciais entre o Egito e o Sudo
interromperam-se. O prncipe de Edfu, entretanto, relata na parede de seu
tmulo em Mealla que tinham sido enviados cereais a Wawat com o propsito
de evitar a fome. Fato que vem provar a continuidade das relaes entre o Egito
e a Nbia naquela poca. Alm disso, os soldados nbios desempenharam um
importante papel nas batalhas do Mdio Egito durante o Primeiro Perodo
Intermedirio. Miniaturas em madeira pintada representando um grupo de
vigorosos arqueiros nbios mostram a importncia que os egpcios atribuam
ao soldado sudans.
   Nessa poca, porm, o desenvolvimento do Grupo C na Baixa Nbia talvez
tenha sido responsvel, ao lado dos conflitos ocorridos durante o Primeiro
Perodo Intermedirio, pelo declnio das relaes entre egpcios e sudaneses.
   Pouco se sabe, no momento, sobre os povos do Grupo C. Durante muito
tempo pensou-se que se haviam infiltrado lentamente no vale do Nilo;
atualmente, porm, so considerados simples. sucessores dos povos do Grupo
A. Seja qual for a razo, o fato  que as relaes entre esses povos e os egpcios
sempre foram difceis. Diversas peas de cermica, descobertas perto de Djebel
Kekan, junto de Khor Baraka em Agordat (Eritreia), hoje no museu de Cartum,
assemelham-se a cermicas do Grupo C encontradas na Baixa Nbia. Isso
nos leva a perguntar se os povos desse grupo no teriam sido forados, por
alguma razo (seca, presena de foras egpcias na Nbia), a abandonar a Baixa
Nbia, provavelmente durante a XII dinastia. Esses povos teriam ento deixado
suas habitaes no vale do Uadi el-Alaki, rumando para as montanhas do mar
Vermelho, onde vivem hoje as tribos Beja. Da mesma maneira, alguns povos de
lngua nbia vivem hoje nos montes Nuba, no sul do Kordofan. Pode-se admitir,
Relaes do Egito com o resto da frica                                                                  107



ento, que o Sudo tenha testemunhado uma migrao do Grupo C, partindo
do norte em direo ao sul e oeste.
    O Imprio de Kerma, no sul, menos diretamente afetado pela invaso
egpcia, sofreu influncia do Egito no plano cultural desde -2000, mas conservou
identidade prpria at o seu trmino, por volta de -1580. Os egpcios acabariam
por dar a essa cultura, conhecida desde -2000, o nome de Kush; termo que
empregavam para caracterizar o reinado que se estabeleceu ao sul da Segunda
Catarata aps -1700.
    No incio do Mdio Imprio, os reis do Egito, ameaados pelos bedunos
asiticos, ao que tudo indica, pediram ajuda aos habitantes do Sudo.
Mentuhotep III, fundador da XI dinastia, talvez fosse negro, fato que poderia
explicar o reatar de relaes entre Egito e Sudo, interrompidas durante o
Primeiro Perodo Intermedirio.  bem provvel que alguns egpcios tenham
chegado ao interior do Sudo. Pelas estelas16 encontradas em Buhen, sabemos
que vrias famlias viveram por longo tempo na Nbia durante o Mdio Imprio;
tinham nomes egpcios e cultuavam os deuses locais17. Os reis desse perodo
construram catorze fortificaes na Nbia a fim de proteger as fronteiras e as
expedies comerciais.
    Quando os hicsos tomaram as regies setentrional e central do Egito, Kush
reforou sua independncia e seu poder. O reino de Kush constitua um perigo
em potencial para os faras. Um texto egpcio recentemente descoberto revela
que durante a batalha contra os hicsos, Kamsis, o ltimo fara da XVII dinastia,
foi informado da captura de um mensageiro enviado pelo rei dos hicsos para
propor ao soberano de Kush que se aliasse a ele contra os egpcios. Com a XVIII
dinastia, a presso contra o Sudo uma vez mais se fortaleceu, e as relaes
ampliaram-se numa escala sem precedentes18. Simultaneamente, tomou impulso
a egipcianizao das regies entre a Segunda e a Quarta Catarata. No reino
de Tutmsis III modificou-se a forma dos sepulcros da regio. Em lugar de
tmulos, construram-se sepulcros com formas egpcias, e, em vez de sepulcros
de pedra, construram-se pequenas pirmides semelhantes s encontradas em

16   VERCOUTTER, J. 1957. pp. 61-9. A datao adotada por J. VERCOUTTER neste artigo foi
     recentemente colocada em discusso: para J. VERCOUTTER, as estelas pertencem antes ao Segundo
     Perodo Intermedirio e so praticamente contemporneas dos hicsos.
17   POSENER, G. 1958. p. 65: "Esse reino [Kush] foi colonizado pelo Estado faranico. Durante muitos
     sculos esteve sob o domnio da civilizao egpcia, de seus hbitos, linguagens, crenas e instituies.
     Toda a histria da Nbia carrega a marca dos seus vizinhos do norte".
18   Trata-se do perodo em que, por razes ainda hoje no esclarecidas, a iconografia egpcia mostra uma
     grande alterao na maneira de representar os negros africanos. Muitas hipteses foram levantadas,
     inclusive a de que os contatos com o restante do continente se expandiram naquela poca.
108                                                                                            frica Antiga



Deir el-Medina. Da a semelhana das cidades de Buhen e de Aniba com as
cidades do Egito. Do mesmo modo, localizaram-se ushabtis e escaravelhos nos
sepulcros do Sudo. Os desenhos e os nomes dos tmulos dos prncipes foram
gravados em estilo tipicamente egpcio. O sepulcro de Heka-Nefer19, prncipe de
Aniba no reinado de Tutancmon, lembra os tmulos de pedra egpcios. Simpson
chegou a supor que sobre esse sepulcro tivesse sido erguida uma pirmide no
estilo daquelas de Deir el-Medina. O tmulo de Dhuty-Hetep, prncipe de
Debeira no reinado da rainha Hatshepsut, assemelha-se aos de Tebas.
    A Nbia e o Egito at ento nunca estiveram to prximos. Em -1400
foi construdo o templo de Soleb. O papel militar, e por vezes administrativo,
exercido pelos sudaneses tornou-se mais importante do que nunca, culminando
com a ascenso da dinastia etope. Mas, embora egipcianizados, os habitantes
dos altos vales no se tornaram egpcios: uma cultura distinta continuava a se
expressar, se bem que em moldes egpcios, mesmo na poca da XXX dinastia.
    Esta dinastia restabeleceu para o Egito uma dimenso africana que est
registrada em duas passagens da Bblia: quando Deus protege os hebreus contra
o ataque dos assrios, ao incutir no rei, durante um sonho, o temor de que viesse
a ser atacado por Tir-Hakah20, rei da Etipia, e quando o rei dos hebreus,
Ezequias, prope uma aliana entre o fara e o seu povo21.
    So esses os ltimos grandes momentos de unidade.
    A conquista de Tebas pelos assrios coincidiu com a ascenso do Imprio
Merota no sul. A defesa dessa regio contra os ataques do norte tomou-se
indispensvel, visto que os exrcitos egpcios, a partir dessa poca, passaram
a incorporar enormes contingentes de mercenrios hebreus, fencios e gregos.
Por falta de investigaes suficientes, pouco se sabe sobre as relaes, por certo
difceis, entre o Novo Imprio niltico e o Egito.


      Punt
   A exemplo do que ocorre com outros problemas da histria africana, gastou-
-se muita tinta, nem sempre de boa qualidade, com o propsito de se localizar
o legendrio reino de Punt, com que os egpcios mantiveram relaes pelo

19    SIMPSON, W. K. 1963.
20    2 Reis, 19:9, e Isaas, 37:9.
21    REICHHOLD, W. O autor oferece uma traduo interessante de uma passagem do captulo 17 do
      Livro de Isaas, a do envio de um mensageiro ao fara negro: "Vai, mensageiro veloz, at o povo alto e
      bronzeado, ao povo sempre temido,  nao poderosa e conquistadora cuja terra os rios dividem".
Relaes do Egito com o resto da frica   109
figura 4.4 Tributo nbio de Rekhmira.
110                                                                                             frica Antiga



menos durante o Novo Imprio, e que aparece nas imagens de Deir el-Bahari.
Foram feitas tentativas para localizar essa nao no Marrocos, na Mauritnia,
no Zambeze e em outras regies22. Hoje existe quase um consenso quanto 
localizao de Punt no Chifre da frica, embora ainda persistam muitas dvidas
com relao a seus limites precisos23. H uma teoria instigante segundo a qual
Punt se localizaria na parte da costa da frica que se estende do rio Poitialeh, ao
norte da Somlia, at o cabo Guardafui. Trata-se de uma regio montanhosa com
plantaes dispostas em terraos que lembram aqueles representados em Deir
el-Bahari e onde as rvores crescem em abundncia, incluindo-se o blsamo, de
que se extrai o incenso.
   Os navios da rainha Hatshepsut teriam atracado numa enseada da regio
hoje conhecida como Goluin, de onde o antigo rio Elephas corria em direo
ao oceano. Essa localizao e a referncia aos navios da rainha Hatshepsut que
rumavam para Punt sugerem que os egpcios utilizavam uma rota martima para
chegar  terra estrangeira. Recentemente R. Herzog tentou mostrar que isso no
correspondia aos fatos e que as relaes egpcias com Punt se davam por terra.
Essa teoria provocou fortes reaes em contrrio24.
   Uma pesquisa recente25 levou  descoberta, na costa do mar Vermelho  ao
norte de Quseir, na desembocadura do Uadi Gasus  de vestgios de ligaes
egpcias com Punt. O pesquisador assim transcreveu uma das inscries: "Rei do
Alto e do Baixo Egito, Kheperkare26, amado do deus Khenty-Khety, filho de R,
Sesstris, amado de Htor, senhora de Pwenet [Punt]". Outra inscrio contm
a seguinte passagem: "(...) a Mina de Punt, para alcan-la em paz e retomar
em paz". Essas inscries, respaldadas por outras, confirmam que as expedies
a Punt se faziam por mar. Lamentavelmente, devido ao local em que foram
encontradas, no oferecem indicaes referentes  posio geogrfica de Punt.
   Assim, ao que parece, j se chegou virtualmente a um acordo quanto ao fato
de os navios egpcios irem a Punt em busca do valioso incenso e de diversos




22    R. HERZOG (1968. pp. 42-5) apresenta uma lista completa das teorias sobre o assunto.
23    Id., ibid.
24    Ver, por exemplo, KITCHEN, K. A. 1971. No entanto, descobertas arqueolgicas recentes em pases
      localizados entre Punt e o Egito no podem justificar a rejeio, sem um estudo aprofundado, da hiptese
      de R. HERZOG.
25    SAYYD, Abd el-Halim. (Mana'im). 1976.
26    A inscrio refere-se a Sesstris I (cerca de - 1970 a - 1930), e textos egpcios mencionam expedies a
      Punt bem anteriores a essa data, durante o Antigo Imprio.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                             111



outros produtos antes fornecidos pela Arbia do Sul. Houve at mesmo uma
tentativa de reconstituio da rota percorrida por esses navios27.
   H quem afirme que vrios faras tentaram alcanar regies mais distantes.
Uma expedio a Punt no reinado de Ramss III  descrita no papiro de
Harris: "A frota ( ...) cruzou o mar Muqad". Os navios alcanaram o sul do
cabo Guardafui, chegando talvez at o cabo Hafun no oceano ndico. Mas essa
rota era bastante perigosa devido s tempestades que se abatiam sobre a rea.
Talvez possamos concluir que o cabo Guardafui era, ao sul, o ponto extremo
alcanado pelos navios que se dirigiam a Punt, e que os limites meridionais de
Punt ficavam prximos do cabo Guardafui. Quanto aos limites setentrionais,
pode-se dizer que se foram modificando com o correr dos sculos.
   Segundo P. Montet, o problema pode ser considerado sob um outro ngulo.
Escreve ele28: "(...) o pas de Punt situava-se certamente na frica  segundo
uma estela do perodo sata, o regime do Nilo era afetado quando chovia nas
montanhas de Punt  mas se estendia at a sia, conforme a expresso geogrfica
Punt da sia, da qual o nico exemplo (ainda indito) foi encontrado em Soleb.
A luz dessas indicaes, temos condies de identificar nas duas praias da terra
do deus as margens do estreito de Bab el-Mandeb. Mais uma prova  o fato de a
rvore da qual se extrai o incenso crescer tanto na Arbia Felix como na frica"29.
   Podemos distinguir etapas sucessivas nas relaes entre Egito e Punt.
   A primeira antecedeu o reinado da rainha Hatshepsut. Naquela poca, os
egpcios possuam muito poucas informaes sobre Punt. Obtinham incenso
atravs de intermedirios, que multiplicavam as lendas sobre esse pas distante
com a inteno de aumentar o preo do produto. Os poucos egpcios que, ao
que se sabe, concluram a viagem a Punt eram homens arrojados. Um habitante
de Assu, no Antigo Imprio, diz: "Parti onze vezes em expedio com meu
senhor, mais os prncipes e tesoureiros do deus Khui e do deus Tti, em direo
a Kush, a Biblos e a Punt" 30.
   A segunda etapa comeou com a rainha Hatshepsut. Uma frota de cinco
navios, segundo o artista que ornamentou o templo de Deir el-Bahari, foi enviada
com ordens para trazer rvores que produziam incenso. Perehu e sua esposa 



27   Pesquisa realizada por K. A. KITCHEN, 1971.
28   MONTET, P. 1970. p. 132.
29   K. A. KITCHEN (1971. p. 185) observa que a teoria  inaceitvel, j pela simples presena da girafa
     entre os animais caractersticos de Punt.
30   BREASTED, J. H. 1906. I,  361.
112                                                                                              frica Antiga



que era disforme31 , a filha e um grupo de nativos so representados recebendo
a expedio e trocando cumprimentos, presentes e produtos sabidamente
provenientes de Punt. Trs grandes rvores foram plantadas no jardim do deus
mon e atingiram uma altura tal que o gado podia passar por debaixo delas.32
Sob as rvores aparecem, amontoados, outros presentes, tais como marfim, cascos
de tartaruga, gado com chifres longos e curtos, "mirras com as razes envoltas na
terra de que foram arrancadas (como faz hoje um bom jardineiro), incenso seco,
bano, peles de pantera, babunos, chimpanzs, galgos, uma girafa, etc.".
    Numa cmara do mesmo templo h uma representao do nascimento divino
de Hatshepsut, em que sua me, Amsis,  despertada pelo aroma do incenso
originrio da terra de Punt. Nesse caso, a associao do nome de Punt com
a origem divina da rainha  um indcio da amizade que a rainha do Egito
mantinha com Punt, cujos habitantes adoravam mon.
    As pinturas que retratam essa expedio fornecem-nos informaes sobre a
vida na terra de Punt, seus habitantes, suas plantas e seus animais, suas cabanas
de forma cnica construdas sobre estacas, em meio a palmeiras, banos e
mirras.
    A julgar pelas pinturas de Punt encontradas nos templos, nada h de novo
para ser registrado aps o reinado da rainha Hatshepsut. Os textos mencionam
a chegada dos habitantes de Punt ao Egito. A partir de ento, Punt aparece
nas listas de povos vencidos, o que, em vista da grande distncia que separa
os dois pases, parece bastante improvvel. Exigia-se que os chefes de Punt
levassem presentes ao fara. Este encarregava um dos seus subordinados de
receber os chefes e os presentes. H alguns indcios de comrcio, nos portos do
mar Vermelho, entre habitantes de Punt e egpcios, assim como de transporte
de mercadorias de Punt, por via terrestre, entre o mar Vermelho e o Nilo (tumba
de mon-Msis em Tebas e tumba n. 143).
    Pouco antes do final do reinado de Ramss IV, cessaram as relaes com
Punt. Mas a lembrana desse pas ficou gravada na memria dos egpcios.


31    Principalmente por sua esteatopigia.
32    D. M. M. DIXON (1969. p. 55)  da opinio de que o xito da plantao da mirra que a expedio de
      Hatshepsut trouxe para o seu templo foi apenas temporrio. "Apesar do xito parcial e temporrio, as
      experincias de transplantao foram um fracasso. As razes exatas desse fracasso s sero esclarecidas
      quando se estabelecer a identidade botnica da(s) rvore(s) que produz(em) o incenso  o que no poder
      ser feito com base nas representaes egpcias convencionais. Enquanto isso, tem -se sugerido que, devido
      a interesses comerciais prprios, os puntitas teriam frustrado deliberadamente a experincia egpcia". Se
      o xito tivesse sido de curta durao, os reis que sucederam Hatshepsut no teriam prosseguido com a
      importao das rvores, como fizeram, por exemplo, Amenfis II (tumba n. 143, em Tebas), ou Ramss
      II e Ramss III, que ordenaram sua importao.
Relaes do Egito com o resto da frica                                         113



   Talvez devssemos incluir entre os testemunhos dessas relaes antigas o fato
de um "encosto para cabea" receber, em somali moderno, o nome de barchi ou
barki, semelhante  designao que recebia em egpcio antigo. Alm do mais,
os somalis denominam o ano-novo "Festa do fara".


    O restante da frica
    Os esforos de um povo ou de seus lderes para estabelecer relaes com
outras naes tm origem numa diversidade de fatores que, em ltima instncia,
podem geralmente ser reduzidos a termos simples. As necessidades constituem
um poderoso estmulo  explorao e  procura de relaes estveis. O Egito
precisava dos produtos africanos, como marfim, incenso, bano e, de modo
mais geral, madeira. Quanto  ltima, uma fonte alternativa era, evidentemente,
o Oriente Prximo. Todavia, a utilizao da madeira originria do interior
da frica s pode ser comprovada atravs de um exame da totalidade dos
testemunhos egpcios.
    As relaes do Egito com o restante da frica so vistas frequentemente como
um fluxo unilateral, como uma difuso da cultura egpcia para o exterior. Tal ptica
ignora o fato de o Egito ter dependido materialmente da venda de determinados
produtos africanos. Consequentemente, as influncias devem ter sido recprocas.
Nesse campo tudo ainda est por fazer, e a investigao  trabalhosa. A ecologia
sofreu transformaes entre os tempos remotos do Imprio e o aparecimento dos
gregos no Egito. A reconstituio da antiga rede de intercmbio de mercadorias a
partir de textos e representaes  que fornecem, no mximo, indcios indiretos 
exige extensa e minuciosa pesquisa fundamentada na arqueologia e na lingustica.
O que cincias como a arqueologia nos tm ensinado nos ltimos anos sobre
o antigo comrcio da obsidiana  mineral muito apreciado nos tempos pr-
-histricos  deve nos incitar  pacincia e  cautela, mas tambm infundir-nos
a esperana de chegar a resultados ainda insuspeitados.
    Uma expedio martima pelas costas da frica ao tempo do fara Necau
II (-610 a -595) atraiu a ateno de pesquisadores, mas nem todos concordam
quanto  exatido histrica dos fatos registrados, um sculo mais tarde, por
Herdoto.
    "A Lbia  circundada pelo mar, exceto na regio fronteiria com a sia;
quem por primeiro comprovou esse fato, ao que sabemos, foi Necau, rei do
Egito. Aps concluir a abertura do canal que liga o Nilo ao golfo Arbico, Necau
enviou navios tripulados por fencios, incumbindo-os de, na viagem de volta,
114                                         frica Antiga




figura 4.5   Habitaes do reino de Punt.
Figura 4.6 Tributo de Punt.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                           115



contornarem as Colunas de Hrcules at atingir o mar, ao norte, e da rumarem
para o Egito. Assim, os fencios partiram do mar Vermelho e navegaram pelo
mar Austral. Sempre que chegava o outono, em qualquer parte da Lbia que
estivessem, desembarcavam e semeavam a terra, e ali aguardavam a safra; em
seguida, realizada a colheita, partiam. Assim, passados dois anos, ao terceiro
contornaram as Colunas de Hrcules e voltaram para o Egito. L, relataram que
durante a viagem viram o sol  sua direita (h quem acredite nisso, mas no eu).
Foi assim que se obteve a primeira informao sobre a Lbia"33.
    No texto, Lbia significa, naturalmente, todo o continente africano, e as Colunas
de Hrcules so o estreito de Gibraltar. Os fencios partiram do seu prprio
pas, recentemente conquistado por Necau II. Assim, o problema continua sem
soluo. J. Yoyotte34 acredita na autenticidade do relato e dos fatos que descreve.
H poucos anos criou-se na Frana uma associao  a Associao Punt , com
o objetivo de realizar novamente a viagem pela frica tal como foi descrita
por Herdoto, usando para isso um navio especialmente construdo segundo as
tcnicas egpcias antigas. Mas no faltam os cticos, para os quais as passagens
de Herdoto no se referem  circunavegao do continente, ou que contestam
a prpria autenticidade de toda a questo. Como no caso do priplo de Hano, a
batalha entre os pesquisadores do assunto parece estar longe de terminar.
    Necau II, bastante recente na linhagem dos faras, empreendeu vrias outras
obras. A ele atribui-se o primeiro grande trabalho de construo de um canal,
cujo traado ainda  objeto de dvida entre os historiadores. Esse canal talvez
ligasse o Mediterrneo ao mar Vermelho; o mais provvel, porm,  que unisse o
Nilo ao mar Vermelho que, de fato, esteve aberto  navegao por vrios sculos
e que, na rea islmica, foi da maior importncia para as relaes entre o Egito
e a Arbia.
    Deveramos tambm atribuir  curiosidade e ao gosto pelo extico a expedio
de Harkhuf, a mando de Ppi II, a qual suscitou concluses contraditrias e
inaceitveis? Como veremos mais adiante35, Harkhuf levou para Ppi II um
ano danarino originrio da terra de Yam. Alguns chegaram a concluir, com
base na hiptese insustentvel de que o ano era um pigmeu36, que este exemplo
nico prova a existncia de relaes entre o Egito, o Alto Nilo e o Chade.  bem


33   HERDOTO. IV, 42.
34   YOYOTTE, J. 1958. p. 370.
35   Ver captulos 8, 9, 10 e 11.
36   P. MONTET (1970. p. 129) faz uma observao mais cautelosa sobre o assunto: "Antes de Harkhuf, um
     viajante de nome Bawerded trouxe consigo um ano danarino, nativo da terra de Punt".
116                                                                                            frica Antiga



verdade que a expedio de Harkhuf pertence ao domnio da histria, ao passo
que muitas outras se revestem de um carter lendrio ou fictcio37. Contudo,
pouco se sabe sobre o antigo habitat dos pigmeus, sendo, portanto, arriscado
afirmar que eram encontrados em grande nmero nas regies superiores das
bacias do Nilo38. Alm disso, no h provas de que o tal ano fosse um pigmeu,
e at o momento no se sabe com certeza onde se situava a terra de Yam39.
    Como se v, os indcios de contatos relacionados  curiosidade cientfica
ou ao gosto pelo extico so incertos e inconsistentes. A observao bastante
comum de que a fauna africana est presente na iconografia egpcia no constitui
de modo algum, no estdio atual dos nossos conhecimentos, prova decisiva da
existncia de relaes entre o Egito e o interior da frica. O babuno, animal
sagrado de Tot, e as peles de pantera, que faziam parte dos paramentos sacerdotais
no ritual do culto de Osris oficiado por Hrus, e tambm das vestes dos faras,
podem ter sido provenientes de pases fronteirios ou mesmo de trocas eventuais
entre mercadores. Uma avaliao segura da extenso do conhecimento que os
egpcios tinham da frica s ser possvel aps intensa pesquisa no sentido de
investigar a cronologia e o significado qualitativo e quantitativo das diversas
referncias a animais encontradas em textos e imagens egpcios.
    Quer as relaes com a frica tenham sido estabelecidas por necessidade,
quer por curiosidade, os indcios coletados so por demais inconsistentes e sua
interpretao  muito difcil e controversa para que possamos, nesse momento,
chegar a qualquer concluso. Existem, entretanto, vrios caminhos abertos para
uma investigao frutfera.
    O leitor no deve,portanto, ficar com a impresso de que o que segue  aceito
sem restries ou est provado, embora seja perfeitamente justificvel registrar
algumas hipteses e enfatizar a convenincia de se realizarem mais pesquisas.
     lcito que se pergunte  e at hoje quase ningum o fez  se os egpcios
tinham condies de utilizar o estanho nigeriano. Nos tempos antigos, havia dois
plos conhecidos de produo de estanho: a Cornualha e as ndias Orientais.
Seria absurdo supor que Nok teve origem nas antigas minas de estanho em
Bauchi, com um mercado no vale do Nilo?40 Por ora, trata-se meramente de

37    GIRGS, M. 1963.
38    Sobre as variaes quanto  localizao dos pigmeus, ver PRAUX, C. 1957. pp. 284-312.
39    R. HERZOG (1968)  da opinio de que Harkhuf alcanou os pntanos de Swadi ou as colinas do
      Darfur. T. SAVE-SODERBERGH (1953. p. 177) situa a terra de Yam ao sul da Segunda Catarata e
      acredita que "os osis da Lbia" ao sul do Nilo teriam servido como pontos de muda para expedies que
      se dirigiam ao sul e que prenunciam as futuras caravanas do Darfur.
40    Para uma crtica a esta suposio, ver o artigo de SCHAEFFER, em FEA. Na sua opinio, o estanho
      utilizado pelos egpcios teria vindo da frica.
Relaes do Egito com o resto da frica                                                           117



uma hiptese acadmica, mas que merece ser investigada: se os resultados fossem
positivos, elucidariam muitos aspectos das relaes entre o Egito antigo e a
frica mais ao sul, atualmente to difceis de compreender. Para tanto, seria
fundamental um exame minucioso, em todos os nveis e com a ajuda de todas as
disciplinas, de quaisquer vestgios remanescentes nas regies de passagem, como
Darfur e Bahr el-Ghazal, Nesse campo, como em tantos outros, quase tudo est
por fazer. Atravs de pesquisas extensas e minuciosas, os etnlogos poderiam
acrescentar novos dados a essa difcil questo.
    Muito se tem perguntado se o encosto para cabea com base de coluna inventado
pelos egpcios no se teria difundido, juntamente com sua civilizao, por outras
regies da frica41. Mais uma vez,  preciso ter cautela e evitar a tentao do
difusionismo. Seria esse encosto  assim como outros exclusivamente africanos
 originrio do Egito? No estariam presentes em outras culturas distantes da
frica? No seriam eles de natureza funcional, podendo, por conseguinte, terem
sido inventados em diferentes lugares, distantes uns dos outros?
    Em outro campo, seria possvel concluir  como fazem alguns pesquisadores
talvez um pouco precipitados  que toda e qualquer forma de "realeza sagrada"
na frica  de origem egpcia, resultado de um relacionamento fsico e histrico
entre o Egito antigo e seus criadores africanos?42 No seria plausvel pensar em
desenvolvimentos espontneos mais ou menos distantes no tempo?
    Quais teriam sido as rotas percorridas pelo culto ao carneiro, animal sagrado
de mon adorado em Kush, no Saara, entre os Ioruba e os Fon? Por enquanto,
devemos nos limitar a registrar todas essas semelhanas e presenas, evitando as
concluses apressadas43.
    Em diversos campos,  possvel apontar semelhanas entre as tcnicas, prticas
e crenas do Egito antigo e as da frica, de origem mais ou menos recente. Um
dos exemplos mais atraentes ,  primeira vista, o do "duplo" da pessoa fsica
(chamado de Ka no antigo Egito), a quem os egpcios atribuam grande importncia,
assim como o fazem hoje vrias sociedades da frica. As formas de ps-vida desses
"duplos" entre os Bantu, os Ule ou os Akan, por exemplo, tentam-nos a associ-las
com as concepes egpcias da poca dos faras44.

41   Uma observao sobre os encostos para cabea com base de coluna dos antigos egpcios e sobre as
     afinidades etnogrficas reveladas pelo seu uso, feita por E. T. HAMY no livro de G. PARRINDER,
     p. 61, d-nos um bom exemplo de um encosto de cabea africano, em exposio no Museu Britnico.
     Um outro foi descoberto no Fezzan: DANIELS, C. M. 1968b.
42   Ver HUNTINGFORD, G. W. B. In: OLIVER, R. & MATHEW, G. pp. 88-9, e DAVIDSON, B. 1962. p. 44.
43   WAINWRIGHT, G. A. 1951.
44   S. SAUNERON (Paris, 1959. p. 113) chama a ateno para a vantagem dessa associao, mas recomenda
     cautela.
118                                                                    frica Antiga



    H muito tempo tem-se observado que os Dogon enterram sua cermica para
magia  e no so, de maneira nenhuma, os nicos a faz-lo. Esse costume foi
comparado ao dos egpcios, que colocavam em gamelas fragmentos de cermica
inscritos com os nomes dos inimigos, enterrando-as em locais especficos.
Tambm se chegou a comparar os ritos de inumao egpcios com os que eram
oficiados por ocasio dos funerais dos reis de Gana no sculo XI antes da Era
Crist, conforme a descrio de al-Bakri.
    Seria interminvel a lista de prticas semelhantes acumuladas durante
dcadas por estudos de carter mais ou menos cientfico. A lingustica, por si s,
oferece um vasto campo de pesquisa, em que as probabilidades, at o momento,
superam as certezas.
    Tudo isso nos leva a concluir que a civilizao egpcia provavelmente exerceu
influncia  embora no se saiba ainda em que medida  sobre as civilizaes
africanas mais recentes. Ao se procurar abordar essas ltimas, seria prudente
considerar tambm a influncia em sentido contrrio, isto , at que ponto o
Egito foi influenciado por elas. Uma influncia que se prolongou por mais de
5 mil anos no constitui prova de contatos sincrnicos, do mesmo modo que
vestgios de contatos no constituem prova de sua continuidade. Trata-se de
uma investigao fascinante que est apenas comeando.
    Em termos gerais, os laos entre o Egito e o continente africano nos tempos
faranicos  um dos temas mais importantes a desafiar os historigrafos
africanos de hoje. Coloca em questo grande nmero de postulados cientficos
ou filosficos  como, por exemplo, a aceitao ou rejeio da hiptese de que os
mais antigos povos do Egito eram negros, sem exceo, e a aceitao ou rejeio
da teoria do difusionismo. Questiona tambm a metodologia ou a pesquisa, por
exemplo, referente  circulao das invenes, do cobre e do ferro, dos tecidos
aos suportes para a escrita. Levanta dvidas quanto  possibilidade, at agora
tranquilamente aceita, de um pesquisador isolado ser bem-sucedido num campo
to vasto sem a ajuda de disciplinas correlatas.
    Sob qualquer ponto de vista, este problema constitui um teste para a
conscincia cientfica, a preciso e a imparcialidade dos africanos que se
empenharem em esclarec-lo, com a ajuda, agora mais lcida do que no passado,
de pesquisadores estrangeiros.
O legado do Egito faranico                                               119



                                CAPTULO 5


                 O legado do Egito faranico
                   Rashid El-Nadoury colaborao de J. Vercoutter




    As valiosas contribuies que o Egito faranico legou  humanidade podem
ser verificadas em diversos campos, como a histria, a economia, a cincia, a arte
e a filosofia. H muito tempo, especialistas nessas reas  e em vrias outras 
reconheceram a importncia desse legado, embora frequentemente seja imposs-
vel determinar de que modo foi transmitido s culturas vizinhas ou posteriores.
    De fato, essa herana  ou pelo menos os seus testemunhos, to importan-
tes para a histria da humanidade  transmitiu-se, em grande parte, atravs da
Antiguidade clssica (grega e, depois, romana) antes de chegar aos rabes. Ora,
os pr-helenos e os gregos s entraram em contato com o Egito por volta de
-1600, estabelecendo laos estreitos com esse pas somente a partir do sculo
VII antes da Era Crist, com a disperso de aventureiros, de viajantes e, mais
tarde, de colonos gregos pela bacia do Mediterrneo, particularmente no Egito.
Simultaneamente, no II e no I milnio antes da Era Crist, os gregos e seus
predecessores tiveram contato com as civilizaes da sia Menor e, atravs delas,
com o mundo mesopotmico antigo do qual eram um prolongamento. Assim,
muitas vezes  difcil precisar em que meio cultural  asitico ou egpcio, ambos
estreitamente ligados  surgiu esta ou aquela inveno ou tcnica.
    Alm disso, a dificuldade em estabelecer a cronologia de perodos remotos
da Antiguidade faz com que qualquer atribuio de "paternidade" seja aleatria.
As dataes pelo carbono 14 so demasiado vagas para que se possa determinar,
120                                                                     frica Antiga



com uma aproximao de um ou dois sculos, num meio em que o conhecimento
sempre se transmitiu rapidamente, se a origem de uma inveno  asitica ou
africana. Finalmente, no se pode descartar as possveis convergncias. Para citar-
mos apenas um exemplo: h boas razes para se acreditar (cf. Introduo) que a
escrita foi descoberta quase ao mesmo tempo no Egito e na Mesopotmia, sem
que tenha havido, necessariamente, influncia de uma civilizao sobre a outra.
    Por tudo isso, a herana que o Egito legou s civilizaes posteriores, em
particular s antigas civilizaes da frica, no deve ser subestimada.


      Contribuies do Egito Pr-Histrico
    Um dos mais antigos e notveis avanos da civilizao egpcia verificou-
-se no campo da economia. Ao final do Neoltico, em torno de -5000, os
antigos egpcios transformaram gradualmente o vale do Nilo (cf. Captulo 1),
permitindo que seus habitantes passassem de uma economia de coleta a uma
economia de produo de alimentos; essa importante etapa do desenvolvimento
do vale trouxe grandes consequncias materiais e morais. O desenvolvimento
da agricultura possibilitou aos antigos egpcios adotarem uma forma de vida
alde, estvel e integrada, o que, por sua vez, afetou seu desenvolvimento social
e moral, no apenas no perodo pr-histrico, mas tambm durante o perodo
dinstico.
    No  certo que a sia tenha desempenhado um papel predominante e nico
na revoluo neoltica, como se pensava anteriormente (cf. Histria Geral da
frica. tica/Unesco, v. 1, Cap. 27). Seja como for, um dos primeiros resultados
dessa "revoluo" no vale do Nilo foi o fato de os antigos egpcios passarem a
considerar as foras naturais que os cercavam. Tais foras  em especial o Sol
e o rio  eram deificadas e simbolizadas sob muitas formas, principalmente de
animais e de aves familiares. O desenvolvimento da agricultura teve tambm por
consequncia o estabelecimento do princpio da cooperao dentro da comu-
nidade, sem a qual a produo agrcola teria permanecido bastante limitada.
Decorre da um outro desenvolvimento fundamental: a introduo de um novo
sistema social no interior da comunidade, ou seja, a especializao do trabalho.
Trabalhadores especializados surgem na agricultura, na irrigao, nas indstrias
agrcolas, na cermica e em diversas outras atividades afins. Um grande nmero
de vestgios arqueolgicos atesta a longa tradio desses ofcios.
    A civilizao faranica distinguiu-se pela continuidade do seu desenvolvi-
mento. Toda aquisio  transmitida  e aperfeioada  do comeo ao fim da
O legado do Egito faranico                                                    121



histria do antigo Egito. Assim, as tcnicas do Neoltico foram enriquecidas no
perodo pr-dinstico (-3500 a -3000), mantendo-se ainda em pleno perodo
histrico. E o que testemunha, por si s, a arte de trabalhar a pedra.
    J por volta de -3500, os egpcios, herdeiros do Neoltico do vale,
utilizaram-se dos depsitos de slex ali localizados, em especial os de Tebas,
para esculpir instrumentos de qualidade incomparvel, dos quais a faca de
Djebel el-Arak (cf. Captulo 1)  um exemplo entre centenas de outros. Pro-
duzidas por presso, as ondulaes finas e regulares da pedra do  faca uma
superfcie levemente ondulada e perfeitamente polida, inimitvel. A produo
de tais armas exigia uma notvel habilidade manual. Essa arte manteve-se
viva no Egito: uma cena pintada num tmulo de Beni-Hassan mostra arte-
sos do Mdio Imprio (cerca de -1900) esculpindo esse mesmo tipo de faca
com lmina encurvada.
    A mesma percia est presente na confeco de vasos de pedra. Tambm
nesse caso a tcnica do Neoltico passou ao perodo pr-dinstico e depois ao
Antigo Imprio, perdurando at o final da histria do antigo Egito. O escultor
egpcio utilizava todas as variedades de pedra, inclusive as mais duras, esculpindo
em basalto, brecha, diorito, granito e prfiro, com a mesma facilidade com que
trabalhava com pedras mais moles, como alabastros-calcrios, xistos, serpentinas
e esteatitas.
    As tcnicas de talhar a pedra foram transmitidas posteriormente ao mundo
mediterrnico. Tudo leva a crer que as tcnicas de confeco dos vasos de pedra
cretenses tenham sido aprendidas se no no prprio Egito, pelo menos num meio
inteiramente impregnado da cultura egpcia, como o corredor srio-palestino.
At mesmo as formas dos vasos esculpidos no minoico antigo denunciam sua
origem egpcia.
    A habilidade dos canteiros que trabalhavam com pedra dura transmitiu-se
aos escultores, o que se pode constatar pelas grandes esculturas egpcias nesse
material: do Qufren do Museu do Cairo, em diorito, aos grandes sarcfagos
dos touros de pis, em basalto negro. A tcnica passou, ento, para os escultores
do perodo ptolomaico e posteriormente encontrou expresso na estaturia do
Imprio Romano.
    As mudanas ocorridas no perodo neoltico refletiram-se particularmente
no desenvolvimento da planificao urbana no Egito. Um notvel exemplo
disso encontra-se numa das mais antigas aldeias do vale do Nilo, Merinde Beni
Salame, na margem ocidental do Delta.
    Ao lado da antiqussima crena egpcia na vida depois da morte e na imor-
talidade, temos aqui uma combinao de importantes progressos culturais e
122                                                                                      frica Antiga




figura 5.1 Fabricao de tijolos. (Fonte: N. de G. Davies. 1943. pr. LIX. Foto The Metropolitan Museum
of Art, Nova Iorque.)
O legado do Egito faranico                                                     123



sociais que podem ser acompanhados ao longo do Neoltico e do Calcoltico,
do Pr-Dinstico ao Protodinstico, e que levaram ao estabelecimento e desen-
volvimento da tradio do Egito faranico.


    Perodo histrico
    Na civilizao egpcia faranica do perodo histrico, podem-se distinguir
duas correntes principais, sendo a primeira constituda pelo legado material do
Neoltico e do Pr-Dinstico, e a segunda, tambm oriunda do passado remoto,
pelo legado cultural, mais abstrato. Ambas se interrelacionam, constituindo o
fenmeno cultural egpcio. O legado material compreende o artesanato e as
cincias (geometria, astronomia, qumica), a matemtica aplicada, a medicina, a
cirurgia e as produes artsticas; o cultural abrange a religio, a literatura e as
teorias filosficas.

    O artesanato
    A contribuio do antigo Egito  produo artesanal aparece nos trabalhos
em pedra, como j vimos, mas tambm no artesanato em metal, madeira, vidro,
marfim, osso e muitos outros materiais. Os egpcios exploraram diversos recursos
naturais do pas, e aos poucos foram aprimorando as tcnicas necessrias  pro-
duo de instrumentos de pedra e de cobre, como machados, cinzeis, marretas
e enxs, habilmente projetados para serem usados na construo e na indstria,
com a finalidade de abrir orifcios ou fixar blocos. Tambm faziam arcos, flechas,
adagas, escudos e clavas de arremesso.
    Durante muito tempo, e mesmo no perodo histrico, os instrumentos e
as armas herdados do Neoltico continuaram a ser feitos de pedra. As falsias
calcrias que margeiam o Nilo so ricas em slex de grandes dimenses e de
excelente qualidade, que os egpcios ainda utilizaram por muito tempo depois da
descoberta do cobre e do bronze. Alm disso, os rituais religiosos muitas vezes
exigiam o uso de instrumentos lticos, fato que contribuiu amplamente para a
perpetuao das tcnicas de talhar a pedra, em especial o slex.
    At o final do perodo faranico, o ferro foi pouco usado na confeco de
vasos; as tcnicas de metalurgia, no Egito, limitaram-se ao uso do ouro, da prata,
do cobre e de ligas de cobre, como o bronze e o lato. Vestgios de minerao e
processamento do cobre foram descobertos no Sinai, na Nbia e em Buhen, onde
os faras do Antigo Imprio dispunham de forjas para a fuso desse metal.
124                                                                     frica Antiga



    No Sinai e na Nbia, os egpcios trabalhavam em colaborao com as popu-
laes locais; consequentemente, as tcnicas empregadas no processamento do
metal passaram com facilidade de uma cultura para outra. Talvez por essa poca
a escrita faranica  por intermdio da escrita protosinata, que influenciou ,
tenha desempenhado um papel importante na inveno do alfabeto, ao mesmo
tempo que a metalurgia do cobre se difundia, primeiro pela bacia do Nilo e
depois para outras reas.
    J nos primrdios do perodo dinstico (cerca de -3000), os egpcios conhe-
ciam e empregavam na fabricao de seus utenslios de cobre todas as tcnicas
bsicas da metalurgia, como a forjadura, a martelagem, a moldagem, a estampa-
gem, a soldagem e a rebitagem, tcnicas estas que eles dominaram rapidamente.
Alm dos utenslios, foram encontradas grandes esttuas egpcias de cobre,
datadas de -2300. Textos mais antigos, datados de -2900, assinalam a existn-
cia de esttuas do mesmo tipo, e cenas de mastabas de um perodo ainda mais
remoto mostram as oficinas onde o ouro e o electro, liga de ouro e prata, so
transformados em joias. Embora a metalurgia do ouro e do cobre no tenha
surgido no Egito, no h dvida de que este contribuiu significativamente para
o seu aperfeioamento e expanso.
    Como sublinhamos no incio deste captulo, muitas vezes  difcil precisar
se determinada tcnica teve origem numa cultura asitica ou africana. Gra-
as, porm, s representaes encontradas em sepulcros, o Egito nos forneceu
inmeras informaes sobre as tcnicas utilizadas pelos artesos. Nas oficinas
representadas em pinturas ou em baixos-relevos nas paredes dos tmulos, pode-
mos ver, por exemplo, carpinteiros e marceneiros trabalhando na confeco de
mveis, armas e barcos. Tanto os instrumentos que empregavam  alicates mar-
telos, serras, brocas, enxs, cinzeis e marretas  quanto o modo de utiliz-las so
representados fielmente e com inmeros detalhes. Assim, sabemos que a serra
egpcia era uma "serra de puxar", e no "de empurrar", como a serra moderna.
Para os estudiosos da histria das tcnicas e das vias pelas quais elas chegaram
at ns, trata-se de uma verdadeira mina de informaes, que ainda no foi
inteiramente explorada.
    Alm dessas representaes, os antigos egpcios deixaram em suas sepulturas
miniaturas de oficinas com artesos ocupados na fabricao de vrios objetos.
Essas miniaturas so de valor inestimvel para o historiador na interpretao das
tcnicas e do modo pelo qual se desenvolveram. Ademais, a enorme quantidade
de objetos artesanais encontrados, feitos a mo ou com o auxlio de ferramen-
tas, atesta a diversidade de indstrias existentes no antigo Egito. A ourivesaria,
por exemplo, utilizava materiais preciosos e semipreciosos, como ouro, prata,
O legado do Egito faranico                                                                        125




figura 5.2 Fabricao de vasos de metal. (Fonte: N. de G. Davies. 1943. The Metropolitan Museum of
Art, Egypt Expedition. Nova Iorque. v. XI, pr. LIII. Foto The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
126                                                                    frica Antiga



feldspato, lpis-lazli, turquesa, ametista e cornalina, produzindo com notvel
preciso coroas, colares e demais adornos.
    A cultura precoce do linho fez com que muito cedo os egpcios adquirissem
grande habilidade na fiao manual e na tecelagem. Esta ltima j era conhecida
desde o incio do Neoltico (cerca de -5000), e seu surgimento coincidiu com
a emergncia da civilizao no vale do Nilo. As mulheres teciam o linho com
grande percia, com frequncia operando dois fusos simultaneamente. Uma
caracterstica da fiao egpcia era a produo de fios longos, segundo uma tc-
nica em que o fuso era colocado a grande distncia da fibra crua. Para aumentar
ainda mais essa distncia, as mulheres encarapitavam-se em bancos altos. Seus
teares  de incio horizontais e, a partir do Mdio Imprio, verticais  permi-
tiam a fabricao de tecidos longos, empregados na confeco de roupas de uso
dirio, bastante amplas, e de bandagens e mortalhas utilizadas nos rituais de
embalsamamento.
    Para os faras os tecidos constituam um produto de troca particularmente
apreciado no exterior. O mais fino, o bisso, era tecido nos templos e gozava de
fama especial. Os Ptolomeus supervisionavam as oficinas de tecelagem e con-
trolavam a qualidade da manufatura, e sua administrao central, sem dvida
seguindo o costume dos primeiros faras, organizava as vendas ao estrangeiro;
estas trouxeram ao rei grandes lucros devido  qualidade superior dos produtos
dos teceles egpcios. Temos aqui um exemplo de uma das maneiras pelas quais
se transmitiu o legado egpcio.
    As indstrias da madeira, do couro e do metal aperfeioaram-se e os seus
produtos conservaram-se em boas condies at nossos dias.
    Outros objetos fabricados pelos artesos egpcios incluam vasos de prata,
atades de madeira, pentes e cabos de marfim decorados. Os antigos egpcios
tinham um talento especial para tecer junco selvagem, confeccionando estei-
ras, e a fibra da palmeira possibilitou a produo de redes e cordas resistentes.
A manufatura da cermica teve incio na Pr-Histria, com formas bastante
rudimentares, evoluindo em seguida para uma cermica mais fina, vermelha e
de bordas negras, mais tarde polida e gravada. Os recipientes eram utilizados
para armazenar diversos materiais, mas alguns tinham finalidade puramente
decorativa. A crena em determinados valores e, em particular, na vida eterna,
por exigir a manufatura de uma grande quantidade de objetos  quase sempre
decorados  para os mortos, levou a uma grande produo, de alto grau de
perfeio.
    Deve-se ao Egito, se no a inveno, pelo menos a difuso das tcnicas de
fabricao do vidro a toda a civilizao mundial. Embora seja verdade que a
O legado do Egito faranico                                                  127



Mesopotmia e as civilizaes do Indo desde muito cedo conheciam a tcnica
da esmaltagem, base da fabricao do vidro, no h indcios de que tenham sido
os responsveis pela sua difuso. Pode-se, no mximo, supor que aqui tambm
houve convergncia e que a fabricao do vidro foi descoberta independente-
mente na sia e no vale do Nilo.
    O certo  que em pouco tempo os egpcios demonstraram grande habilidade
na arte da vidraria. H indcios da existncia de contas de vidro no perodo
pr-dinstico (cerca de -3500), embora no seja certo que tenham sido delibe-
radamente fabricadas pelos artesos. O vidro como tal tornou-se conhecido na
V dinastia (cerca de -2500) e comeou a se difundir durante o Novo Imprio
(cerca de -1600). Nessa poca, no era utilizado apenas na confeco de contas,
mas tambm na fabricao de vasos de uma grande variedade de formas, desde
o elegante clice com p at os vasos em forma de peixe. Em geral eram policro-
mos, e sempre opacos. O vidro transparente apareceu no reinado de Tutancmon
(cerca de -1300). A partir de -700 aproximadamente, os vasos egpcios de vidro
conhecidos como "alabastro" difundiram-se por toda a regio do Mediterrneo.
Os fencios os copiaram, e sua manufatura transformou-se em indstria.
    Na Baixa poca signos hieroglficos moldados em vidro colorido eram
incrustados em madeira ou pedra para formar inscries. As tcnicas dos vidrei-
ros faranicos transmitiram-se aos artesos do perodo helenstico, que inven-
taram o vidro "de sopro". Alexandria tornou-se, ento, o principal centro de
manufatura de objetos de vidro, exportando-os para regies distantes, como a
China. Aureliano imps uma taxa aos produtos de vidro egpcios importados
por Roma. Mais tarde, o Imprio Merota passou a importar objetos de vidro
do Egito, adotando as tcnicas de fabricao desse material e difundindo-as
para o alto vale do Nilo.
    Uma das indstrias mais importantes do antigo Egito foi a do papiro, de
inveno autctone. Nenhuma outra planta teve, no Egito, papel to significa-
tivo. As fibras do papiro eram usadas na fabricao ou calafetagem de embar-
caes e na confeco de pavios de candeeiros a leo, esteiras, cestos, cordas e
cabos. Os cabos que serviram para amarrar a ponte flutuante que Xerxes tentou
fazer atravessar o Helesponto foram fabricados no Egito, com fibras de papiro.
Reunidos em feixes, os talos do papiro funcionavam como pilares na arquitetura
primitiva, antes que os arquitetos clssicos os tomassem como modelo para suas
colunas simples ou fasciculadas, com capiteis em forma de flores abertas ou
fechadas. O papiro era utilizado principalmente na fabricao do "papiro", de
onde vem a palavra "papel", sem dvida um cognato do papera, termo egpcio
128                                                            frica Antiga




figura 5.3   Fabricao da cerveja. Antigo Imprio. (Foto
Otonoz.)
Figura 5.4 Modelo de uma oficina de tecelagem. XII
dinastia, c. - 2000. (Fonte: W. Wolf. 1955. pr. 45. Foto The
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.)
O legado do Egito faranico                                                                   129
figura 5.5 Marceneiros trabalhando. (Fonte: N. de G. Davies. 1943. pr. LV. The Metropolitan Museum
of Art, Nova Iorque.)
130                                                                       frica Antiga



que significa "Aquele da Grande Residncia" (Palcio Real), e que chegou at
ns atravs da Antiguidade clssica.
    O papiro era produzido dispondo-se transversalmente camadas sucessivas
de finas tiras extradas dos talos da planta, as quais, aps presso e secagem,
formavam uma grande folha.
    Vinte folhas de papiro, unidas enquanto ainda midas, formavam um rolo
de 3 a 6 m de comprimento. Vrios rolos podiam ser unidos de modo a formar
uma unidade de 30 ou 40 m de comprimento; tais rolos constituam os "livros"
egpcios. Eram segurados com a mo esquerda e desenrolados  medida que se
fazia a leitura. O herdeiro direto desse rolo  o "volume" da Antiguidade clssica.
    De todos os materiais empregados como suporte para a escrita na Antigui-
dade, o papiro certamente foi o mais prtico, por ser flexvel e leve. A fragilidade,
porm, era o seu nico inconveniente. Resistia por pouco tempo  umidade e
queimava facilmente. Calculou-se que para se manter em dia o inventrio de um
pequeno templo egpcio eram necessrios 10 m de papiro por ms. Durante a
dinastia ptolomaica, os notrios de provncia usavam de seis a treze rolos, ou 25
a 57 m por dia. Todas as grandes propriedades, palcios reais e templos manti-
nham registros, inventrios e bibliotecas, o que indica a existncia de centenas
de quilmetros de papiro, embora s tenham sido descobertas algumas centenas
de metros.
    Utilizado no Egito desde a I dinastia (cerca de -3000) at o fim do perodo
faranico, o papiro foi, mais tarde, adotado pelos gregos, romanos, captas, bizan-
tinos, arameus e rabes. Grande parte da literatura grega e latina nos chegou
em papiros. Os rolos desse material constituam um dos principais produtos
de exportao do Egito. O papiro foi, sem sombra de dvida, um dos maiores
legados do Egito faranico  civilizao.
    Todas essas indstrias demandavam tcnica e habilidade, levando  criao
de uma classe de artesos e ao aprimoramento das tcnicas. Museus e colees
particulares do mundo inteiro abrigam centenas e at mesmo milhares de exem-
plares arqueolgicos dos diversos produtos do antigo Egito.
    A tradio e a percia na construo em pedra no foram uma contribuio
tcnica menor dos egpcios ao mundo. No era nada fcil transformar os imensos
blocos brutos de granito, calcrio, basalto e diorito em blocos bem talhados e
polidos, destinados a diferentes projetos arquitetnicos.
    Alm disso, a busca de pedras para a construo dos monumentos, assim
como a prospeco de minrios metlicos e a procura de fibras, de pedras semi-
preciosas e de pigmentos coloridos, contribuiu para a difuso das tcnicas egp-
cias na frica e na sia.
O legado do Egito faranico                                                   131



    Os egpcios no hesitavam em procurar pedras em pleno deserto, por vezes
a uma centena de quilmetros do Nilo. A pedreira de onde se extraiu o diorito
para a famosa esttua de Qufren, atualmente no Museu do Cairo, localiza-se
no deserto da Nbia, a cerca de 65 km a noroeste de Abu Simbel. A explorao
das pedreiras remonta ao incio da histria do Egito (cerca de -2800).
    As tcnicas egpcias de extrao variavam segundo a natureza da pedra.
Em se tratando do calcrio, abriam-se galerias nas largas camadas das falsias
do Eoceno que margeiam o Nilo. Assim foram extrados enormes blocos de
pedra de excelente qualidade usados na construo das Grandes Pirmides, as
quais foram depois revestidas com blocos de granito. Os depsitos de arenito
na regio de el-Kab, no Alto Egito e na Nbia, eram explorados a cu aberto.
Para as pedras duras, os trabalhadores primeiro talhavam um sulco em torno do
bloco a ser extrado e depois, em vrios pontos ao longo do sulco, praticavam
profundos talhos no interior dos quais inseriam cunhas de madeira. Estas eram,
ento, molhadas, e a dilatao da madeira era suficiente para fender o bloco ao
longo dos sulcos. Essa tcnica ainda hoje  empregada nas pedreiras de granito.
Seria uma herana do Egito?
    As nicas ferramentas utilizadas pelos egpcios no trabalho das pedreiras
eram a marreta de madeira e o cinzel de cobre para pedras moles, como o
calcrio e o arenito, e o pico, o cinzel e o martelo de pedra dura para rochas
metamrficas, como o granito, o gnaisse, o diorito e o basalto. Se a pedreira
ficasse longe do Nilo, organizavam-se expedies das quais chegavam a parti-
cipar at 14 mil homens, entre oficiais e soldados, cavouqueiros e carregadores,
escribas e mdicos. Essas expedies eram equipadas para permanecer longos
perodos fora do Egito e devem ter contribudo para a difuso da civilizao
egpcia, especialmente na frica.
    A habilidade adquirida na extrao de pedras no incio do perodo dinstico
levou os egpcios,  poca do Antigo Imprio (cerca de -2400), a escavar suas
sepulturas diretamente na rocha. Muito antes dessa data, de -3000 a -2400, a
construo de sepulturas, projetadas como habitaes para os mortos, j os havia
levado a construir imponentes superestruturas que, com o passar do tempo,
vieram a constituir as pirmides em degraus e, posteriormente, as pirmides
propriamente ditas.
    A percia dos egpcios no trabalho da madeira manifesta-se brilhantemente
na construo naval. As necessidades da vida diria no vale do Nilo, onde o rio
era a nica via de comunicao acessvel, fizeram dos egpcios excelentes navega-
dores desde os tempos mais remotos. Os barcos ocupavam, desde a pr-histria,
uma posio de destaque entre seus primeiros trabalhos artsticos. Visto acre-
132                                       frica Antiga




figura 5.6 Colunas protodricas
de Deir el-Bahari. (Fonte: J.
Pirenne. v. II, p. 156-7, fig. 36. Foto
J. Capart.)
Figura 5.7 As pirmides de
Snefru, no Dachur. (Fonte: J.
Pirenne. 1961. v. I, p. 100, fig. 25.)
O legado do Egito faranico                                                  133



ditarem em uma vida ps-morte calcada na vida terrena, no  de surpreender
o fato de colocarem miniaturas de barcos nos tmulos ou representarem nas
paredes cenas de navegao e de construo de barcos. Chegavam mesmo a
enterrar embarcaes verdadeiras perto dos tmulos, para que os mortos pudes-
sem utiliz-las. Isso aconteceu em Heluan, num tmulo subterrneo das duas
primeiras dinastias, e no Dachur, nas proximidades da pirmide de Sesstris
III. O ano de 1952 foi marcado por uma descoberta extraordinria: duas gran-
des covas abertas na rocha e cobertas por lajes de calcrio foram descobertas
ao longo do flanco meridional da Grande Pirmide. No interior das mesmas
encontravam-se  parcialmente desmontados, mas completos, com seus remos,
cabinas e lemes  os barcos utilizados por Quops. Um deles foi removido e
restaurado, o outro ainda espera ser retirado do seu "tmulo".
    O barco de Quops, hoje abrigado num museu especial, foi reconstrudo.
Quando descoberto, consistia em 1224 peas de madeira que tinham sido par-
cialmente desmontadas e amontoadas em treze pilhas sucessivas no interior
da cova. O barco mede 43,4 m de comprimento por 5,9 m de largura e tem
capacidade para cerca de 40 t. As pranchas laterais tm uma espessura de 13 a
14 cm.  difcil calcular com preciso o seu calado, mas com certeza era bas-
tante reduzido em relao ao tamanho do navio. Embora com uma estrutura
elementar de vigas, o barco de Quops no possui quilha; tem o fundo plano e
 estreito. O mais notvel  o fato de ter sido construdo sem pregos: as peas
de madeira se mantm unidas apenas pelo emprego de encaixes do tipo macho e
fmea. Seus elementos constitutivos  pranchas, vigas e traves transversais  so
unidos entre si por meio de cordas, fato que facilitou a reconstituio. O navio
possui uma cabina central grande e espaosa e, na proa, um abrigo coberto. No
tem mastro, sendo impulsionado a remo ou rebocado, embora no Egito a vela
j fosse usada muito antes do reinado de Quops. Esse mtodo de construo,
em que as peas so unidas por meio de amarras, tornou possvel a realizao de
expedies militares anfbias longe do Egito, no mar Vermelho e no rio Eufrates.
De fato, o exrcito egpcio levava consigo, desmontadas, as embarcaes de que
poderia vir a necessitar.
    Pela proporo entre a largura e o comprimento dos barcos, bem como
por seu baixo calado, pode-se observar que foram projetados para a navegao
fluvial. O objetivo principal era obter uma capacidade mxima, evitando, ao
mesmo tempo, os encalhes. Entretanto, j na V dinastia, e provavelmente antes,
os egpcios sabiam como adaptar seus navios  navegao martima. Os barcos
de Sahure mostram que, para uso no mar, a altura da proa e da popa eram
consideravelmente reduzidas. No caso do barco de Quops, elevavam-se muito
134                            frica Antiga




figura 5.8 Carnac: cmara do
barco de mon.
Figura 5.9 Gis: cmara do
barco de Quops.
O legado do Egito faranico                                                    135



acima da linha da gua, o que dificultava a manobra da embarcao nas ondas do
Mediterrneo ou do mar Vermelho. Alm disso, os engenheiros navais egpcios
emprestaram grande solidez  estrutura do barco como um todo equipando-o
com um cabo de toro que passava por sobre a ponte e prendia firmemente a
popa  proa. Esse cabo tambm funcionava como quilha, assegurando a solidez
de toda a estrutura e reduzindo o risco de se partir ao meio.
   A introduo dessas modificaes permitiu s embarcaes egpcias afrontar
as expedies martimas mais longnquas empreendidas pelos faras, seja no
Mediterrneo, em direo  Palestina, Sria, Chipre e Creta, seja no mar Ver-
melho, em direo ao distante pas de Punt. No h razo para acreditar que
nesse mister os egpcios tenham sido influenciados pelos fencios. Ao contrrio,
 bem possvel  embora no se possa provar, dado o atual estgio dos conheci-
mentos  que os egpcios tenham sido os pioneiros no uso de velas nas viagens
martimas (as vergas e as velas egpcias eram ajustveis, permitindo velocidades
variadas), e que tenham inventado o leme: a partir do Antigo Imprio, os gran-
des remos direcionais situados na popa so providos de barras verticais, que os
transformam, de fato, em lemes.


    Contribuies Cientficas
   O Egito faranico nos deixou valiosa herana nos campos da fsica, qumica,
zoologia, geologia, medicina, farmacologia, geometria e matemtica aplicada.
De fato, legou  humanidade uma grande reserva de experincias em cada um
desses domnios, alguns dos quais foram combinados de modo a possibilitar a
realizao de objetivos especficos.

    A mumificao
   Um dos melhores exemplos da engenhosidade dos antigos egpcios  a
mumificao, que ilustra o conhecimento profundo que tinham de inmeras
cincias, como a fsica, a qumica, a medicina e a cirurgia. Esse conhecimento era
resultado do acmulo de uma longa experincia. Por exemplo,  descoberta das
propriedades qumicas do natro  encontrado em certas regies do Egito, em
particular no Uadi el-Natrum  seguiu-se a utilizao das mesmas no cumpri-
mento prtico das exigncias da crena na vida alm-tmulo. Preservar o corpo
humano era uma forma de dar realidade  crena. Anlises recentes revelaram
que o natro se compe de uma mistura de carbonato de sdio, bicarbonato de
136                                                                                       frica Antiga




figura 5.10   Ramss II (tcnica dos fluidos). (Foto Comissariat  l'Energie Atomique.)
O legado do Egito faranico                                                    137



sdio, sal e sulfato de sdio. Os antigos egpcios conheciam, portanto, as funes
qumicas dessas substncias. No processo de mumificao, o corpo era embe-
bido em natro durante setenta dias. O crebro era extrado pelas narinas, e os
intestinos removidos atravs de uma inciso num dos lados do corpo. Operaes
desse tipo exigiam um acurado conhecimento de anatomia, que  ilustrado pelo
bom estado de conservao das mmias.

    A Cirurgia
    Foram sem dvida os conhecimentos adquiridos com a prtica da mumifica-
o que permitiram aos egpcios o desenvolvimento de tcnicas cirrgicas desde
os primeiros tempos de sua histria. A cirurgia egpcia , com efeito, bastante
conhecida graas ao Papiro Smith, cpia de um original escrito durante o Antigo
Imprio, entre -2600 e -2400, um verdadeiro tratado sobre cirurgia dos ossos
e patologia externa. Quarenta e oito casos so examinados sistematicamente.
Em cada um deles, o autor do tratado comea o estudo com um ttulo geral:
"Instrues acerca de [tal e tal caso]". Segue-se ento uma descrio clnica:
"Se observares [tais sintomas]". As descries so invariavelmente precisas e
incisivas, seguidas de um diagnstico: "Em relao a isso, dirs: um caso de [tal
e tal leso]", e, dependendo do caso, "um caso que poderei tratar" ou "um caso
que no tem remdio". Se o cirurgio pode tratar o paciente, o tratamento a
ser administrado  ento explicado em detalhes; por exemplo: "no primeiro dia,
deves usar um pedao de carne como bandagem; depois, deves colocar duas tiras
de tecido de modo a juntar os lbios da ferida ...".
    Ainda hoje so aplicados vrios tratamentos indicados no Papiro Smith.
Os cirurgies egpcios sabiam suturar ferimentos e curar fraturas empregando
talas de madeira ou de cartonagem. Algumas vezes, o cirurgio simplesmente
recomendava que se permitisse  natureza seguir o seu prprio curso. Em dois
exemplos, o Papiro Smith instrui o paciente a manter sua dieta normal.
    Dos casos estudados pelo Papiro Smith, a maioria se refere a laceraes
superficiais do crnio ou da face. H tambm casos de leso dos ossos ou das
juntas, como contuses das vrtebras cervicais ou espinhais, luxaes, perfura-
es do crnio ou do esterno, e diversas fraturas que afetam o nariz, o maxilar,
a clavcula, o mero, as costelas, o crnio e as vrtebras. Exames nas mmias
revelaram vestgios de cirurgia, como  o caso do maxilar (datado do Antigo
Imprio) em que foram praticados dois orifcios para drenar um abscesso, ou do
crnio fraturado por golpe de machado ou espada e recomposto com sucesso.
Existem tambm indcios de tratamentos dentrios, como obturaes feitas com
138                                                                   frica Antiga



um cimento mineral; h uma mmia que apresenta uma espcie de ponte feita
de ouro ligando dois dentes pouco firmes.
    Por sua abordagem metdica, o Papiro Smith serve como testemunho da
habilidade dos cirurgies do antigo Egito, habilidade que, supe-se, foi trans-
mitida pouco a pouco  Africa,  Asia e  Antiguidade clssica pelos mdicos
que acompanhavam as expedies egpcias aos pases estrangeiros. Alm disso,
sabe-se que soberanos estrangeiros, como o prncipe asitico de Baktan, Bctria,
ou o prprio Cambises, mandavam chamar mdicos egpcios, e que Hipcrates
"tinha acesso  biblioteca do templo de Imhotep em Mnfis". Posteriormente,
outros mdicos gregos seguiram-lhe o exemplo.

      A Medicina
   Pode-se considerar o conhecimento da medicina como uma das mais
importantes contribuies cientficas do antigo Egito  histria da humani-
dade. Documentos mostram detalhadamente os ttulos dos mdicos egpcios
e seus diferentes campos de especializao. De fato, as civilizaes do antigo
Oriente Prximo e o mundo clssico reconheceram a habilidade e a reputao
dos antigos egpcios no campo da medicina e da farmacologia. Imhotep, o vizir,
arquiteto e mdico do rei Zoser, da III dinastia,  uma das mais significativas
personalidades da histria da medicina. Sua fama manteve-se durante toda a
histria do antigo Egito, chegando at a poca grega. Divinizado pelos egp-
cios com o nome de Imouthes, foi assimilado pelos gregos a Asclpio, o deus
da medicina. Com efeito, a influncia egpcia sobre o mundo grego, tanto na
medicina como na farmacologia,  facilmente reconhecvel nos remdios e nas
prescries. Alguns instrumentos mdicos utilizados em operaes cirrgicas
foram descobertos em escavaes.
   Os testemunhos escritos referentes  medicina egpcia antiga so consti-
tudos por documentos como o Papiro Ebers, o Papiro de Berlim, o Papiro
Cirrgico Edwin Smith, e muitos outros, que ilustram as tcnicas de operao
e descrevem, detalhadamente os mtodos de cura prescritos. Esses textos so
cpias de originais que remontam ao Antigo Imprio (cerca de -2500).
   Ao contrrio do Papiro Cirrgico Edwin Smith, altamente cientfico, os
textos puramente mdicos baseavam-se na magia. Os egpcios consideravam
a doena como obra dos deuses ou dos espritos malvolos, o que justifica o
recurso  magia. Isso tambm explica por que alguns dos remdios relacio-
nados no Papiro Ebers, por exemplo, mais parecem feitio do que prescrio
mdica.
O legado do Egito faranico                                                   139



    Apesar desse aspecto, comum tambm a outras civilizaes antigas, a medicina
egpcia no deve ser desconsiderada enquanto cincia, pois contm o embrio
de uma abordagem metdica, particularmente quanto  observao de sintomas;
no h dvida de que esse mtodo passou  posteridade por sua importncia.
O mdico egpcio examinava o paciente e determinava os sintomas do mal.
Em seguida, fazia o diagnstico e prescrevia o tratamento. Todos os textos que
chegaram at ns apresentam essa sequncia, de onde se pode concluir que se
tratava de um procedimento-padro. Para os casos duvidosos, fazia-se o exame
em duas etapas, com alguns dias de intervalo. Entre as doenas identificadas e
adequadamente descritas e tratadas pelos mdicos egpcios, incluem-se distr-
bios gstricos, dilatao estomacal, cnceres cutneos, coriza, laringite, angina
do peito, diabetes, constipao, hemorroidas, bronquite, reteno e incontinncia
da urina, esquistossomose, oftalmias, etc.
    Os mdicos egpcios tratavam seus pacientes com supositrios, unguentos,
xaropes, poes, unes, massagens, enemas, purgantes, cataplasmas e at mesmo
inalaes, cujo uso ensinaram aos gregos. Sua farmacopeia abrangia grande
variedade de ervas medicinais, cujos nomes, lamentavelmente, so intraduzveis.
As tcnicas medicinais e os medicamentos egpcios gozavam de grande prestgio
na Antiguidade, conforme nos revela Herdoto. Os nomes de aproximadamente
uma centena de mdicos egpcios chegaram at ns atravs dos papiros. Dentre
eles h oculistas e dentistas, dos quais Hesy-R, que viveu por volta de -2600,
na IV dinastia, pode ser considerado um dos mais antigos. Entre os especialistas
h tambm veterinrios. Para a execuo de seu trabalho, os mdicos dispunham
de uma grande variedade de instrumentos.

    A matemtica (aritmtica, lgebra e geometria)
   Um dos importantes domnios da cincia a que os antigos egpcios se dedi-
caram foi a matemtica. As medies acuradas dos seus enormes monumentos
arquitetnicos e escultricos constituem uma excelente prova de sua preocupa-
o com a preciso. Jamais teriam conseguido alcanar tal grau de perfeio sem
um mnimo de aptido matemtica.
   Do Mdio Imprio (-2000 a -1750) chegaram-nos dois importantes papi-
ros matemticos: o de Moscou e o Rhind. O mtodo egpcio de numerao,
baseado no sistema decimal, consistia em repetir os smbolos dos nmeros
(unidades, dezenas, centenas, milhares) tantas vezes quanto fosse necessrio
para obter o nmero desejado. No existia o zero.  interessante notar que os
smbolos egpcios para as fraes 1/2, 1/3, 1/4, e assim por diante, originaram-
140                                                                   frica Antiga



-se no mito de Hrus e de Set, em que um dos olhos de falco de Hrus foi
arrancado e cortado em pedaos por Set. Esses pedaos  que simbolizam
certas fraes.
    Na matemtica egpcia podem-se distinguir trs partes: a aritmtica, a lge-
bra e a geometria.
    A organizao administrativa egpcia requeria conhecimentos de aritmtica.
A eficincia da administrao altamente centralizada dependia do conhecimento
exato daquilo que ocorria. em cada provncia, em todas as esferas de ativi-
dade. No  de surpreender, portanto, que os escribas dedicassem uma enorme
quantidade de tempo a manter registros referentes s reas de terras cultivadas,
quantidade de produtos disponveis e sua distribuio, quantidade e qualificao
do pessoal e assim por diante.
    O mtodo de clculo dos egpcios era simples. Reduziam todas as opera-
es a sries de multiplicaes e divises por dois (duplicao), processo lento
que requer pouca memorizao e dispensa as tbuas de multiplicao. Nas
divises, quando o dividendo no era divisvel pelo divisor, o escriba introdu-
zia as fraes, mas o sistema utilizava apenas fraes cujo numerador fosse o
nmero 1. As operaes com fraes tambm eram realizadas por duplicao
sistemtica. Os textos contm numerosos exemplos de partilhas proporcionais
obtidas dessa maneira, sendo que ao final dos clculos o escriba acrescentava
a frmula " exatamente isso", que equivale ao nosso c. q. d. (como queremos
demonstrar).
    Todos os problemas colocados e resolvidos pelos tratados egpcios sobre
aritmtica apresentam um trao comum: so problemas materiais semelhan-
tes aos que o escriba, isolado em algum posto longnquo, teria de resolver
no dia-a-dia, como, por exemplo, a partilha de sete pes entre dez homens,
proporcionalmente ao seu grau hierrquico, ou o clculo do nmero de tijolos
necessrios  construo de um plano inclinado. Tratava-se, pois, basicamente
de um sistema emprico, com poucas caractersticas de natureza abstrata. 
difcil saber que elementos de um sistema como esse ter-se-iam transmitido
a culturas vizinhas.
    Talvez no se possa falar propriamente de uma lgebra egpcia; sobre esse
aspecto, os especialistas em histria da cincia sustentam diferentes pontos
de vista. Certos problemas descritos no Papiro de Rhind so formulados da
seguinte maneira: "Uma quantidade (ah, em egpcio) a que se soma (ou se
subtrai) tal ou tal poro (n) resulta na quantidade (N). Qual  essa quanti-
                                                  x
dade?" Algebricamente, trata-se da expresso x  n = N , fato que levou alguns
O legado do Egito faranico                                                141



historiadores da cincia a concluir que os egpcios utilizavam clculos alg-
bricos. Entretanto, as solues propostas a esse tipo de problema pelo escriba
do Papiro Rhind so sempre alcanadas pela aritmtica simples, e o nico
exemplo em que provavelmente se aplicou a lgebra refere-se a um problema
de diviso que implica na existncia de uma equao de segundo grau. O
escriba resolveu esse problema como um algebrista moderno o faria, mas em
vez de tomar como base do clculo um smbolo abstrato, como x, tomou o
nmero 1. A questo da existncia ou no da lgebra egpcia depende, por-
tanto, da aceitao ou rejeio da possibilidade de operar algebricamente sem
utilizar smbolos abstratos.
    Os historiadores gregos Herdoto e Estrabo concordam em que a geo-
metria foi inventada pelos egpcios. A necessidade de calcular uma superfcie
de terra retirada ou acrescentada a cada ano pelas enchentes do Nilo apa-
rentemente os levou a essa descoberta. Com efeito, tal como a matemtica,
a geometria egpcia era emprica. Os tratados antigos visavam, antes de mais
nada, fornecer ao escriba uma frmula que o habilitasse a calcular rapida-
mente a rea de um campo, o volume de gros de um silo ou o nmero de
tijolos necessrios  construo de um edifcio. O escriba nunca aplicava um
raciocnio abstrato para resolver determinado problema, fornecendo apenas
meios prticos de chegar  soluo, ou seja, nmeros concretos. Entretanto
os egpcios conheciam com perfeio o mtodo de calcular a rea de um
tringulo ou de um crculo, o volume de um cilindro, de uma pirmide ou de
uma pirmide truncada e, provavelmente, de um hemisfrio. Seu maior feito
foi o clculo da superfcie do crculo. Procediam pela reduo do dimetro
em 1/9 e elevavam o resultado ao quadrado, o que equivalia a atribuir o valor
de 3,1605 a , muito mais exato que o valor 3 dado a  por outros povos da
Antiguidade.
    O conhecimento da geometria encontrou considervel aplicao prtica
na agrimensura, que desempenhava um papel significativo no Egito. Muitos
so os tmulos decorados com representaes que mostram agrimensores
aplicados em conferir se os marcos dos campos no se deslocaram, medindo
com uma corda de ns, precursora da cadeia de agrimensura, a superfcie do
campo cultivado. A corda de agrimensor, ou nouh,  mencionada nos textos
mais antigos (cerca de -2800). O governo central dispunha de um escritrio
de cadastro cujos registros foram saqueados durante a revoluo menfita
(cerca de -2150), tendo sido reorganizados durante o Mdio Imprio (cerca
de -1990).
142                                                                     frica Antiga



      A Astronomia
    A documentao que possumos sobre a astronomia egpcia no se compara
ao material disponvel sobre matemtica (Papiros Rhind e de Moscou), ou
sobre cirurgia e medicina (Papiros Edwin Smith e Ebers). Contudo, h razes
para crermos que tenham existido tratados sobre astronomia. Embora o Papiro
Carlsberg 9, que descreve o mtodo para a determinao das fases da Lua, tenha
sido escrito, indubitavelmente, durante a poca romana, ele deriva de fontes
mais antigas e no recebeu nenhuma influncia helenstica. Pode-se dizer o
mesmo quanto ao Papiro Carlsberg 1. Infelizmente, essas fontes mais antigas
no sobreviveram at nossos dias, e a contribuio egpcia no domnio da astro-
nomia deve ser inferida de aplicaes prticas feitas com base em observaes.
Tal contribuio, porm, est longe de ser insignificante.
    Como vimos (cf. Introduo), o ano civil egpcio dividia-se em trs estaes
de quatro meses, cada qual com trinta dias; a esses 360 dias, eram acrescentados
outros cinco ao final de cada ano. O ano civil de 365 dias, o mais exato conhecido
na Antiguidade, est na origem do nosso ano civil, visto ter servido de base para
a reforma juliana (- 47) e para a reforma gregoriana, de 1582. Ao lado desse
calendrio civil, os egpcios tambm utilizavam um calendrio religioso, lunar,
estando aptos a prever com razovel preciso as fases da Lua.
    Desde a expedio de Napoleo ao Egito, os europeus se surpreendem com
a exatido do alinhamento das construes erguidas  poca dos faras, em
particular das pirmides, cujas quatro faces voltam-se para os quatro pontos
cardeais. As Grandes Pirmides apresentam um desvio de menos de 1 em
relao ao norte verdadeiro. Tal preciso s poderia ter sido alcanada atravs da
observao astronmica: direo da estrela polar na poca, culminao de uma
estrela fixa, bissetriz do ngulo formado pela direo de uma estrela a interva-
los de doze horas, bissetriz do ngulo do nascer e do ocaso de uma estrela fixa
ou afastamento mximo de uma estrela fixa (que para a Ursa Maior deve ter
sido de 7, segundo Z. Zorba). Em todos esses casos, o clculo do alinhamento
requer uma observao astronmica precisa. Os egpcios estavam perfeitamente
capacitados a realizar esse tipo de observao, j que dispunham de uma equipe
de astrnomos  que trabalhavam sob a autoridade do vizir  encarregados de
observar o cu  noite para anotar o nascer das estrelas, particularmente de Sirius
(Stis), e, sobretudo, para determinar o transcurso das horas da noite. Estas, para
os egpcios, variavam conforme as estaes: a noite, que devia comportar doze
horas, comeava sempre com o ocaso e terminava com a aurora. Segundo as
tabelas que chegaram at ns, cada hora da noite era marcada, ms aps ms, de
O legado do Egito faranico                                                  143



dez em dez dias, pelo nascer de uma constelao ou de uma estrela de primeira
grandeza. As tabelas distinguiam 36 dessas constelaes ou estrelas que consti-
tuam decans, cada um dos quais inaugurava um decndio (perodo de dez dias).
   Esse sistema remonta, pelo menos,  III dinastia (cerca de -2600). Os
sacerdotes-astrnomos possuam, alm das tabelas, instrumentos simples de
observao: uma mira e um esquadro ao qual se amarrava um fio de prumo, que
requeriam uma equipe de dois observadores. Apesar da natureza rudimentar
dessa tcnica, as observaes eram precisas, como se comprova pela exatido da
orientao das pirmides. Em certos tmulos, h pinturas representando o cu.
As estrelas aparecem sob a forma de imagens, o que possibilita a identificao
de algumas das constelaes reconhecidas pelos egpcios. A Ursa Maior  deno-
minada "Perna de Boi"; as estrelas ao redor de Arcturo so representadas por um
crocodilo e um hipoptamo acoplados; Cisne  representada por um homem
com os braos estendidos; rion, por uma pessoa correndo com a cabea voltada
para trs; Cassiopeia, por uma figura de braos estendidos; e Drago, Pliade,
Escorpio e ries, por outras figuras.
   Para determinar as horas do dia, que tambm variavam conforme as estaes,
os egpcios utilizavam um gnomon, isto , uma simples vara plantada vertical-
mente numa prancha graduada, munida de um fio de prumo. O instrumento
servia para a medio do tempo gasto na irrigao dos campos, uma vez que a
gua tinha de ser distribuda imparcialmente. Assim como o gnomon, os egp-
cios tinham relgios de gua colocados no interior dos templos. Esses relgios
foram tomados de emprstimo e aperfeioados pelos gregos: so as clepsidras
da Antiguidade. Eram feitos no Egito j em -1580.

    A Arquitetura
   Os antigos egpcios aplicaram seus conhecimentos de matemtica  extra-
o, transporte e assentamento dos enormes blocos de pedra utilizados em seus
projetos arquitetnicos. Tinham uma longa tradio no uso de tijolos e de vrios
tipos de pedra, tradio que remonta aos tempos primitivos. Comearam a usar
o pesado granito no incio do III milnio antes da Era Crist, aplicando-o nos
pisos de alguns tmulos da I dinastia em Abidos. Durante a II dinastia, empre-
garam o calcrio na construo das paredes dos sepulcros.
   Uma nova fase iniciou-se na III dinastia. Trata-se de um avano de funda-
mental importncia na histria da arquitetura egpcia: a construo da pirmide
em degraus de Saqqara  a primeira edificao egpcia inteiramente em pedra ,
que faz parte do imenso complexo funerrio do rei Zoser.
144                                                                     frica Antiga



    O arquiteto Imhotep, provavelmente vizir do rei Zoser (cerca de -2580), foi
o construtor do conjunto que inclui a pirmide em degraus, onde, pela primeira
vez, empregou a pedra talhada. Os blocos eram pequenos e pareciam uma imi-
tao, em calcrio, do tijolo cru, antes usado na arquitetura funerria. As colunas
incrustadas e as traves de sustentao do teto eram, igualmente, cpias em pedra
dos feixes de plantas e das vigas utilizadas na construo primitiva. Tudo indica,
pois, que a arquitetura egpcia estava entre as primeiras a fazer uso da pedra
talhada em fiadas regulares .
    O Egito desenvolveu uma grande variedade de formas arquitetnicas, das
quais a pirmide, sem dvida,  a mais caracterstica. As primeiras pirmides
eram em degraus e somente a partir da IV dinastia (cerca de -2300) foram
tomando a forma triangular. Desse perodo em diante, os arquitetos abando-
naram o uso das pedras pequenas da III dinastia, em favor dos enormes blocos
de calcrio e de granito.
    At a conquista romana, a arquitetura civil continuou a empregar o tijolo cru,
mesmo nas construes de palcios reais. Os edifcios anexos do Ramesseu, em
Tebas, e as grandes fortificaes nbias nos do uma boa ideia da versatilidade
desse material. Podia ser usado com muito requinte, como se pode observar no
palcio de Amenfis IV, em Tell el-Amarna, cujos pavimentos e tetos foram
decorados com pinturas.
    Outra contribuio no campo da arquitetura  a criao da coluna, que, a
princpio, era embutida na parede e mais tarde tornou-se isolada.
    O meio ambiente influenciou fortemente o desenvolvimento da arquitetura
no antigo Egito. A ideia da coluna, por exemplo, foi inspirada na observao de
plantas silvestres, como o junco e o papiro. Os capiteis das colunas eram talhados
na forma da flor do ltus, do papiro e de outras plantas, o que constitui uma
outra inovao arquitetnica. As colunas caneladas e os capiteis em forma de
ltus, de papiro, e de palma foram adotados pela arquitetura de outras culturas.
     provvel que os antigos egpcios tenham inventado a abbada durante a II
dinastia (cerca de -2900). No incio, as abbadas eram construdas com tijolos,
que por volta da VI dinastia foram substitudos pela pedra.
    A Grande Pirmide de Gis  uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Uma construo de propores to magnficas  prova da habilidade arqui-
tetnica e administrativa dos antigos egpcios. A construo dos corredores
ascendentes que conduzem  cmara de granito do rei e a existncia de duas
aberturas ou respiradouros (nos lados norte e sul da cmara real) que se esten-
dem para o exterior de modo a assegurar a ventilao so dois bons exemplos
de sua engenhosidade.
O legado do Egito faranico                 145




figura 5.11 e 5.12 Vista parcial de
Mirgissa, fortaleza militar construda h
aproximadamente 4 mil anos. (Fotos R.
Keating.)
146                                                                                               frica Antiga




figura 5.13   Colunas fasciculadas do templo de Sacar. (Fonte: J. Pirenne. 1961. v. I, p. 64, fig. 17.)
O legado do Egito faranico                                                147



    As propores, medidas e orientao exatas das cmaras e dos corredo-
res das pirmides, sem falar no talhe e na ereo dos gigantescos obeliscos
de pedra macia, indicam uma grande habilidade tcnica, de razes muito
antigas.
    Para o transporte e o assentamento dos blocos de pedra, os egpcios utili-
zavam alavancas, rolos e travessas de madeira. Seus empreendimentos arqui-
tetnicos, apesar das dimenses gigantescas, empregavam apenas a fora de
braos humanos, sem o uso de quaisquer meios mecnicos alm do princpio
da alavanca em suas diversas formas.
    O conhecimento tcnico adquirido pelos egpcios na construo e na irri-
gao  advindo da escavao de canais e da construo de diques e barragens
 manifestou-se ainda em outros campos relacionados  arquitetura.
    Por volta de -2550, tinham percia suficiente para construir uma barragem
de pedra talhada num uadi prximo ao Cairo. Pouco tempo depois, seus enge-
nheiros abriam canais navegveis nas rochas da Primeira Catarata, em Assu.
Pelo que tudo indica, por volta de -1740 conseguiram erigir uma barragem
no prprio Nilo, em Semneh, na Nbia, para facilitar a navegao em direo
ao sul. E, finalmente, durante o mesmo perodo, construram, paralelamente
 Segunda Catarata, uma rampa sobre a qual faziam deslizar as embarca-
es com o auxlio do limo fluido do Nilo. A rampa, predecessora do diolkos
do istmo de Corinto, tinha uma extenso de vrios quilmetros e evitava
que as corredeiras da Segunda Catarata viessem a constituir um obstculo 
navegao.
    A paisagstica e o urbanismo so outros aspectos da arquitetura egpcia.
Os egpcios apreciavam os jardins. Mesmo os pobres procuravam plantar
uma ou duas rvores no estreito ptio de suas casas. Quanto aos ricos, seus
jardins rivalizavam em tamanho e exuberncia com as prprias residncias.
Durante a III dinastia (cerca de -2800), era comum um alto oficial possuir
um jardim com mais de 1 ha sempre com uma piscina, trao distintivo dos
jardins egpcios. O jardim era organizado em torno de uma ou mais piscinas.
Elas serviam como viveiros de peixes, reservatriosde gua e como fonte de
ar fresco para a casa, que se situava nas proximidades. Muitas vezes o dono
da casa mandava construir um gracioso pavilho de madeira junto da piscina,
onde pudesse respirar o ar fresco da noite e receber amigos para um drinque
refrescante.
    Ocasionalmente, essas piscinas artificiais eram bastante grandes. O lago
do palcio de Snefru tinha dimenses suficientes para que seu dono pudesse
navegar em companhia de jovens remadoras levemente vestidas; Amenfis III
148                                       frica Antiga




figura 5.14 e 5.15 Mirgissa: Rampa
para barcos. (Fotos Misso Arqueolgica
Francesa para o Sudo.)
O legado do Egito faranico                    149




figura 5.16 Um jardim egpcio.
(Fonte: DAVIES, N. de G. 1943. The
Metropolitan Museum of Art, Egypt
Expedition. Nova Iorque. v. XI, pr. CX.
Foto The Metropolitan Museum of Art,
Nova Iorque.)
Figura 5.17 Urbanismo: planta da
cidade de Illahun (Kahun), segundo
Petrie, mostrando a aglomerao
dos bairros pobres. (No semicrculo,
tmulo de Maket, XIX-XX dinastias.)
(Fonte: BREASTED, J. H. "Histoire de
l'Egypte". v. I, p. 87. Repr. in J. Pirenne.
v. II, p. 74. Ed. de la Baconnire,
Neuchtel.)
150                                                                    frica Antiga



dispunha de uma imensa piscina em seu palcio tebano. Esse gosto egpcio por
jardins-parque transmitiu-se posteriormente aos romanos.
    Ao que parece, o urbanismo no  inveno do gnio grego. J em -1895,
no reinado de Sesstris II, a cidade de Kahun foi construda no interior de um
amuralhado retangular. Dispunha de edifcios administrativos e residenciais.
As casas destinadas aos trabalhadores, das quais aproximadamente 250 foram
reveladas pelas escavaes, eram construdas em blocos ao longo de ruas de 4
m de largura, que corriam em direo a uma artria central de 8 m de largura.
Cada casa ocupava uma rea de terreno de 100 a 125 m2 e continha uma
dzia de aposentos em um s nvel. Em outra parte da cidade, localizavam-se
as casas dos dirigentes  casas que chegavam a ter at setenta aposentos, ou
habitaes mais modestas, que, no entanto, eram consideravelmente maiores
do que as dos trabalhadores. Tambm eram construdas ao longo de avenidas
retas, paralelas aos muros da cidade. No centro dessas avenidas corria uma
valeta de escoamento.
    As grandes fortalezas da Nbia seguiram esse mesmo modelo de construo.
O mesmo planejamento urbano foi adotado no Novo Imprio, notadamente em
Tell el-Amarna, onde as ruas se cruzavam em ngulos retos, embora a prpria
cidade no apresentasse o mesmo rigor geomtrico de Kahun.
    Por certo seria arriscado sugerir que todas as cidades egpcias tinham uma
disposio semelhante  de Kahun ou Tell el-Amarna, que foram constru-
das ao mesmo tempo e sob as ordens de um nico soberano. Cidades que se
desenvolveram aos poucos deviam ter um aspecto menos regular. Mas o fato
 que os planos geomtricos da cidade e a padronizao das moradias revelam
as tendncias do planejamento urbano egpcio. E cabe aqui uma pergunta: no
seriam os egpcios os precursores do urbanismo helnico?
    Se, por um lado,  incontestvel a importncia da contribuio egpcia no
domnio da arquitetura, torna-se difcil, por outro lado, avaliar a influncia de
um tal legado no plano mundial. Arquitetos de diferentes culturas utilizaram  e
ainda hoje utilizam  colunatas, pirmides e obeliscos que, inegavelmente, so
de origem egpcia. Mas no ter havido, alm disso, uma influncia mais remota
que chegou at ns por intermdio dos gregos?  difcil no reconhecer nas
colunas fasciculadas de Saqqara e nas colunas protodricas de Beni-Hassan os
ancestrais remotos das colunas da Grcia e, mais tarde, da arte clssica romana.
Um fato, ao menos, parece confirmado: as tradies arquitetnicas dos faras
penetraram na frica atravs de Mroe e, depois de Napata, que transmitiram
formas  pirmides e pilonos entre outras  e tcnicas  construo com pedras
talhadas pequenas e bem modeladas.
O legado do Egito faranico                                                 151




figura 5.18   Mirgissa. (Foto Misso Arqueolgica Francesa para o Sudo.)
Figura 5.19    Mirgissa. (Foto R. Keating.)
152                                                                    frica Antiga



      Contribuio Cultural
   Esse aspecto abstrato do legado egpcio faranico abrange as contribuies
nos domnios da escrita, da literatura, da arte e da religio.

      A Literatura
    Os egpcios desenvolveram um sistema de escrita hieroglfica em que mui-
tos dos smbolos derivaram do seu meio ambiente africano. Pode-se afirmar,
portanto, que no se trata de um emprstimo, mas de uma criao original (cf.
Introduo).
    Os egpcios expressavam-se inicialmente por meio de ideogramas. Estes
logo se formalizaram em smbolos representativos de elementos fonticos que,
posteriormente abreviados, poderiam ser considerados uma etapa na criao da
escrita alfabtica.
    Os contatos culturais com a escrita semtica ocorridos no Sinai  onde se
desenvolveram sistemas de escrita caractersticos que tomaram de emprstimo
formas aparentadas aos hierglifos  devem ter contribudo para a inveno
de um verdadeiro alfabeto. Este foi tomado de emprstimo pelos gregos, e sua
influncia estendeu-se  Europa. Os antigos egpcios inventaram igualmente os
instrumentos de escrita (a que j nos referimos no item que trata das atividades
artesanais). A descoberta do papiro, transmitido  Antiguidade clssica, certa-
mente contribuiu  graas  leveza e flexibilidade desse material, e s dimenses
quase ilimitadas que podiam ter os "rolos" de papiro  para a difuso de ideias e
conhecimentos. A extensa literatura da poca faranica cobre todos os aspectos
da vida dos egpcios, desde as teorias religiosas at os textos literrios, como
narrativas, peas de teatro, poesia, dilogos e crtica. Essa literatura pode ser
considerada um dos legados culturais mais importantes do antigo Egito, ainda
que seja impossvel determinar que aspectos foram absorvidos pelas culturas
africanas vizinhas. Um etnlogo moderno identificou entre os nilotas da provn-
cia de Equatoria (Repblica do Sudo) uma lenda de origem egpcia, encontrada
num texto de Herdoto.
    Alguns dos exemplos mais impressionantes da literatura egpcia esto entre
os escritos do Primeiro Perodo Intermedirio e do incio do Mdio Imprio. O
eminente egiptlogo James Henry Breasted considerou essa literatura um sinal
precoce de maturidade intelectual e social. Descreveu esse perodo, em que o
homem podia dialogar com sua prpria alma sobre temas metafsicos, como a
aurora da conscincia. Um exemplo da literatura da poca  o papiro Protestos
O legado do Egito faranico            153




figura 5.20      Mirgissa, Muralha
externa.
Figura 5.21 Mirgissa. Muralha seten-
trional. (Fotos Misso Arqueolgica
Francesa para o Sudo.)
154                                                                      frica Antiga



do `Campons Eloquente, que exprime o descontentamento com a comunidade e
com a situao do pas. Essa obra pode ser considerada um dos primeiros passos
em direo  revoluo social e  democracia.
    Bom exemplo dos sentimentos expressos na literatura egpcia  o texto ins-
crito em quatro urnas funerrias de madeira encontradas em el-Bersheh, no
Mdio Egito: "Criei os quatro ventos para que todos os homens respirassem...
Provoquei a inundao para que o pobre se beneficiasse tanto quanto o rico...
Criei cada homem igual ao seu prximo ...".
    Pode-se admitir, finalmente, que determinados elementos da literatura egp-
cia tenham sobrevivido at nossos dias graas s maravilhosas narrativas da
literatura rabe. Esta, com efeito, parece ter suas fontes na tradio oral egpcia.
Assim, foi possvel estabelecer um paralelo entre a histria de "Ali Bab e os
Quarenta Ladres", das Mil e Uma Noites, e um conto faranico, "A Captura de
Joppe", assim como entre "Simbad, o Marujo" e "O Nufrago", conto faranico
do Mdio Imprio.

      A Arte
    No campo das artes plsticas, diversos meios de expresso foram utilizados:
escultura, pintura, relevo, arquitetura. Os antigos egpcios aliavam s suas ati-
vidades terrenas a esperana de uma vida aps a morte; assim, a arte egpcia 
particularmente expressiva por representar crenas profundamente arraigadas.
Ao cessarem todos os sinais de vida, o ser humano ainda subsiste integral-
mente: para um egpcio a morte  s aparente. No entanto, a sobrevivncia
da pessoa depende da preservao do corpo-suporte, seja atravs da mumi-
ficao, seja,  falta desta, atravs de uma imagem. As esttuas e estatuetas,
os baixos-relevos e as pinturas nos tmulos so recursos para a perpetuao
da vida do indivduo no alm. Por esse motivo, os detalhes do corpo humano
so representados com preciso. Para intensificar a vivacidade da expresso, os
olhos das esttuas eram incrustados, e at mesmo as sobrancelhas eram mol-
dadas em cobre ou prata. Os globos oculares eram feitos de quartzo branco,
e as pupilas, de resina. Produziam-se, por vezes, esttuas de ouro ou de cobre
martelado sobre um suporte de madeira, trabalho que requeria extrema habili-
dade e experincia na modelagem do metal. Tal habilidade pode ser observada
em numerosas esttuas datadas do perodo histrico provenientes de diversos
stios arqueolgicos.
    No domnio das artes menores, os egpcios produziram uma enorme quanti-
dade de amuletos, escaravelhos e sinetes, assim como objetos ornamentais e joias
O legado do Egito faranico                                                                  155




figura 5.22   Mirgissa. Casa particular. (Foto Misso Arqueolgica Francesa para o Sudo.)
Figura 5.23    Modelo de uma casa do Mdio Imprio. (Foto fornecida pelo dr. G. Mokhtar.)
156                                                                     frica Antiga



que, a despeito das pequenas dimenses, so de grande beleza. No h dvida
de que esses pequenos objetos eram os mais difundidos e apreciados na frica,
no Oriente Prximo e mesmo na Europa, sendo, muitas vezes, indicadores de
laos que, no passado, ligaram o Egito a outras naes.
    A produo artstica do antigo Egito no tinha, em seu conjunto, uma funo
essencialmente esttica, mas era, sobretudo, expresso da crena egpcia de que
a vida terrena se repetiria no alm.

      A religio
    Pode-se considerar a religio como uma das contribuies filosficas do
Egito. Os antigos egpcios desenvolveram inmeras teorias sobre a criao da
vida, o papel das foras naturais e a reao da comunidade humana frente a elas,
assim como sobre o mundo dos deuses e sua influncia no pensamento humano,
os aspectos divinos da realeza, o papel dos sacerdotes no interior da comunidade
e a crena na eternidade e na vida alm-tmulo.
    Essa profunda experincia do pensamento abstrato influenciou a comu-
nidade egpcia de tal modo que terminou por produzir um efeito duradouro
sobre o mundo exterior. Para o historiador,  particularmente visvel a influ-
ncia religiosa egpcia sobre certos aspectos da religio greco-romana, como se
pode constatar pela popularidade da deusa sis e do seu culto na Antiguidade
clssica.


      Transmisso do legado faranico. Papel do corredor
      Srio-Palestino
    A Fencia desempenhou um papel especialmente importante na transmisso
do legado faranico ao resto do mundo.
    A influncia do Egito sobre a Fencia pode ser atribuda aos contatos eco-
nmicos e culturais entre as duas regies. Essa relao tornou-se visvel quando
o comrcio e a explorao comearam a se expandir, durante as pocas pr-
-dinstica e protodinstica, com o objetivo de satisfazer as amplas necessidades
do perodo. A prpria inveno da escrita como meio essencial de comunicao
foi, em parte, consequncia de fatores econmicos e religiosos. Isso significa que
os contatos com a Fencia eram indispensveis para a importao de matrias-
-primas vitais, como a madeira, por exemplo, necessria para a construo de
templos e monumentos religiosos.
O legado do Egito faranico                                                   157




figura 5.24    A deusa Htor.



    Os comerciantes egpcios estabeleceram um santurio em Biblos, cidade
com que mantinham estreitos contatos comerciais. A cultura e as ideias egp-
cias difundiram-se por toda a bacia do Mediterrneo por intermdio dos
fencios.
    A influncia da cultura egpcia sobre a sabedoria bblica, entre outras, 
notvel (cf. Captulo 3). As relaes comerciais e culturais com o Levante
estabeleceram-se ao longo do II e do I milnio antes da Era Crist, perodo
que compreende o Mdio e o Novo Imprio, bem como as ltimas dinastias.
Os contatos desenvolveram-se naturalmente, acompanhando a expanso pol-
tica e militar egpcia; traos da arte egpcia aparecem em vrios stios srios e
palestinos, tais como Ras Shamra, Qatna e Megido, como se pode observar nas
158                                                                     frica Antiga



esttuas, esfinges e padres decorativos. A troca de presentes colaborou para a
expanso das relaes culturais e comerciais.
     importante assinalar que a influncia artstica egpcia se faz sentir na
arte sria, como resultado direto dos contatos entre o Egito e o Levante. Em
Mitani, no nordeste da Sria, tambm se podem observar elementos artsticos
egpcios, como a deusa egpcia Htor, representada em pinturas murais. Tudo
leva a crer que a influncia artstica egpcia se difundiu da Sria para as comu-
nidades vizinhas. Esse fato  ilustrado pelo uso de cabos e apliques de marfim,
assim como pela presena de motivos egpcios na ornamentao de vasilhas de
bronze, e, principalmente, pelas tentativas de imitao da indumentria egpcia,
dos escaravelhos alados e das esfinges com cabea de falco.
    A influncia artstica egpcia, observada nas artes fencia e sria, combina-se
com motivos artsticos locais e outros elementos estrangeiros, tanto na escultura
em ronde-bosse como no baixo-relevo. Esse fenmeno pode ser constatado no
apenas na Sria, mas tambm nos objetos fencios encontrados em Chipre e na
Grcia, uma vez que os fencios desempenharam um importante papel cultural
e comercial no mundo mediterrnico e levaram certos elementos da cultura
egpcia a outras regies.
    Vestgios da escrita hieroglfica egpcia foram encontrados nos textos semti-
cos do Levante, como podemos observar pela comparao entre alguns hiergli-
fos egpcios tpicos, os smbolos proto-sinatas e o alfabeto fencio. Os elementos
proto-sinatas receberam influncia dos ideogramas hieroglficos egpcios e os
simplificaram de modo a deix-los prximos dos smbolos alfabticos. A escrita
proto-sinata poderia ser vista como um passo em direo ao alfabeto fencio e,
portanto, ao alfabeto europeu.
    Esse vasto legado faranico, disseminado pelas civilizaes antigas do
Oriente Prximo, foi por sua vez transmitido  Europa moderna por interm-
dio do mundo clssico.
    Os contatos econmicos e polticos entre o Egito e o mundo mediterrnico
oriental, no perodo histrico, resultaram na disseminao de objetos da civi-
lizao faranica por regies como a Anatlia e o mundo egeu pr-helnico.
Uma taa gravada com o nome do templo solar de Userkaf, primeiro fara da V
dinastia, foi encontrada na ilha de Ctera, enquanto fragmentos de uma cadeira
de braos folheada a ouro exibindo os ttulos de Sahure foram encontrados em
Dorak, na Anatlia.
    Ao lado das relaes entre o Egito faranico e o mundo mediterrnico, 
importante sublinhar a presena de laos culturais a unir o Egito ao interior
africano. Tais vnculos existiram tanto na pr-histria mais longnqua quanto
O legado do Egito faranico                                                   159



na poca histrica. A civilizao egpcia impregnou as culturas africanas vizi-
nhas. Estudos comparativos comprovaram a existncia de elementos culturais
comuns  frica negra e ao Egito, como, por exemplo, a relao entre a realeza
e as foras naturais. Isso fica claro a partir dos achados arqueolgicos no antigo
territrio do pas de Kush: pirmides reais foram construdas em el-Kurru, Nuri,
Djebel Barkal e Mroe, testemunhando a magnitude da influncia egpcia sobre
a frica.
    Lamentavelmente, o nosso desconhecimento da lngua dos merotas, assim
como da extenso do seu Imprio, impede-nos de avaliar o impacto que a civi-
lizao egpcia deve ter exercido sobre o conjunto das culturas da frica antiga
a leste, a oeste e ao sul do imprio merota.
O Egito na poca helenstica                                                                    161



                                       CAPTULO 6


                 O Egito na poca helenstica
                               H. Riad colaborao de J. Devisse




   O Imprio de Alexandre, o Grande,  poca de sua morte, compreendia a
Macednia, uma grande parte da sia Menor, a costa oriental do Mediterrneo,
o Egito e estendia-se para leste, na sia, at o Pendjab. Aps sua morte, em
-323, as trs dinastias fundadas por trs de seus generais j estavam bem fortale-
cidas para poder dirigir o Imprio: os antignidas, na Macednia, os selucidas,
no antigo Imprio Persa, na sia, e os Ptolomeus, no Egito.
   Os Ptolomeus reinaram no Egito durante trs sculos, abrindo um perodo
bastante distinto dos anteriores na histria desse pas, pelo menos no que diz
respeito aos aspectos externos de sua vida e de sua geografia poltica. O Egito
cairia em seguida sob a dominao romana1.


    Um novo tipo de Estado no Egito
   Sob o reinado de mais de uma dzia de soberanos lgidas, o Egito foi,
de incio, fortemente marcado pela chancela dos governantes estrangeiros e



1    Esses limites so convencionais. Ver: TARN, W. 1930. p. 1 et seqs. M. BIEBER. (p. 1 et seqs.) d como
     limite -330 a -300 e menciona outros autores, como DROYSEN (de -280 at a poca de Augusto) e
     R. LAGUEUR, para o qual o perodo se inicia em -400.
162                                                                                          frica Antiga



pelas necessidades da nova poltica, seguindo-se uma lenta assimilao, como
de outras vezes, dos novos senhores2 do Delta3.
    A defesa avanada da capital  Alexandria , situada, pela primeira vez na
histria do Egito, no litoral (provavelmente a partir da poca de Ptolomeu II),
necessitava agora do controle militar e naval do Mediterrneo oriental. O duplo
perigo dos ataques dos rivais srios e nbios compeliu os lgidas a adotar uma
poltica militar demasiado dispendiosa. Em primeiro lugar, tinham que distri-
buir terras aos mercenrios, bem como arcar com pesadas despesas em numer-
rio; em segundo, viam-se obrigados a procurar em regies distantes do Egito as
bases materiais para uma fora militar satisfatria. Visando garantir um estoque
de madeira para a construo de embarcaes, restringiram-se os trabalhos de
construo no Egito, desenvolveram-se as plantaes reais no vale do Nilo e
importaram-se madeiras do Egeu e das ilhas, bem como alcatro, pez e ferro,
indispensveis na construo naval4. Criava-se, assim, o que se caracterizaria
como trao permanente da vida econmica egpcia por mais de mil anos. O
aspecto mais espetacular desse desenvolvimento martimo reside no estabeleci-
mento de bases para a caa do elefante ao longo da costa africana at a Som-
lia5, e na construo, extremamente custosa, de navios para o transporte desses
animais. Os elefantes eram utilizados nos combates com os rivais selucidas,
que, por sua vez, costumavam traz-los da sia6. Assim, fazia-se necessrio
tambm buscar na ndia cornacas (domadores) que adestrassem os elefantes
capturados. Desses esforos, o nico trao remanescente manifesta-se nas suas
consequncias de carter cultural: a descoberta do mecanismo das mones por
Hipalo, no reinado de Ptolomeu III, abreviou a viagem s ndias e tornou-a
menos perigosa e custosa. Cresceram, naturalmente, as relaes comerciais com
a sia7. Os Ptolomeus no pouparam esforos para a melhoria das relaes

2     Isso  particularmente verdadeiro na poca do fundador da linhagem, Ptolomeu Ster I (-367 a -283),
      de seu filho Ptolomeu II Filadelfo (-285 a -246) e de Ptolomeu III Evergeta (-246 a -221), que foram
      os mais notveis guerreiros  e talvez governantes  de toda a linhagem.
3     C. PRAUX (1950. p. III) faz justia ao chamar a ateno para a importncia inaudita do Delta nas
      relaes exteriores do Egito.
4     C. PRAUX (1939) sublinha a importncia da empresa: em -306, Ptolomeu I dispunha de duzentos
      navios, enquanto Ptolomeu Filadelfo espalhou mais de quatrocentos por todo o Imprio.
5     LECLANT, J. 1976b. v. I, p. 230. Ptolomeu Filadelfo mandou abrir portos em Arsnoe, Myos Hormos
      e Berenice. Empreendeu tambm a demarcao de estradas entre o Nilo e o mar Vermelho (PRAUX,
      C. 1930).
6     PRAUX, C. 1939.
7     "Ptolomeu Filadelfo procurou desviar da rota das caravanas rabes as mercadorias que, atravs dela,
      vinham da Etipia, da prpria Arbia e, por intermdio dos rabes, da ndia.  novamente Alexandria
      a beneficiria dessa poltica." Citado por A. Bernand, pp. 258-9.
O Egito na poca helenstica                                                 163



entre o mar Vermelho e o Delta. O canal que Dario I mandara abrir no brao
oriental do Nilo at os lagos Amargos foi aprofundado no reinado de Ptolomeu
Filadelfo, facilitando a navegao de embarcaes de grande porte. Sob esse
mesmo rei foi construda uma estrada ligando Coptos, em Tebaida, a Berenice,
no mar Vermelho.
    A poltica externa envolveu os lgidas em pesadas despesas, que precisavam
ser compensadas por meio de taxas que beneficiassem os cofres reais. O con-
trole rigoroso da economia e a superviso das exportaes, algumas das quais
desenvolvidas sistematicamente sob monoplio real, ofereceram soluo parcial
ao problema. O trigo era estocado nos imensos celeiros de Alexandria. O rei
dispunha, assim, de um produto que podia ser exportado para o norte em troca
de matrias-primas estratgicas; dispunha igualmente dos meios para recom-
pensar a numerosa populao de Alexandria, atravs da distribuio peridica
desse cereal, em particular nas pocas de escassez. O aumento da produo de
artigos de exportao deu origem a uma poltica sistemtica de cultivo de terras
virgens a expensas do tesouro real. O poder, porm, permaneceu indiferente ao
destino dos lavradores egpcios. Pelo menos no incio, no mais atuou como
coordenador da produo, tal como os faras haviam feito, mas simplesmente
como predador dos produtos de que o tesouro necessitava8.
    Outro recurso para fazer frente s enormes despesas com armamentos e
importaes consistiu na exportao de produtos africanos para o Mediterrneo:
marfim, ouro, plumas e ovos de avestruz eram comprados no sul do Egito e no
Chifre da frica e revendidos no Mediterrneo. Outras mercadorias  madei-
ras raras, corantes, sedas e pedras preciosas  provinham do oceano ndico e
eram reexportadas (em alguns casos, aps serem trabalhadas pelos alexandrinos)
para a Grcia, colnias gregas, Itlia e todo o Mediterrneo oriental at o mar
Negro. Mais uma vez, como se poder constatar, essa atividade comercial teria
considerveis repercusses culturais.
     provvel que os lgidas tenham vendido escravos, embora esse comrcio
fosse, por certo, mais modesto que o de Cartago durante o mesmo perodo9.
    Procurou-se, igualmente, reduzir as despesas advindas da compra de artigos
especialmente destinados  populosa colnia grega que vivia no Egito. Desse
modo, com a inteno de satisfazer os gostos e os hbitos dos gregos, os lgidas
tentaram a toda fora introduzir novas culturas, como, por exemplo, a do bl-
samo, mas os camponeses egpcios mostraram-se refratrios a essas novidades.

8    Naturalmente, o papiro estava entre esses produtos.
9    LECLANT. J. 1976b. p. 230.
164                                                                                         frica Antiga



    Uma orientao como essa s poderia frutificar s custas de um estado de
constante prontido militar e de permanente controle sobre o Mediterrneo
oriental, o mar Vermelho e o oceano ndico. Os lgidas nunca estiveram em
condies de conservar com firmeza todas as cartas nas mos: a partir do quarto
soberano da linhagem, o controle lhes foi escapando pouco a pouco, e o Egito
retomou lentamente sua economia tradicional.
    No obstante, os lgidas deram um vigoroso impulso  economia egpcia 
embora talvez demasiado artificial, j que o Estado e a classe dominante grega
foram seus principais beneficiados.
    A indstria de transformao desenvolveu-se particularmente bem nas regi-
es do Delta e de Alexandria. Dedicaram-se esforos especiais  obteno da l
e  introduo dos carneiros rabe e milsio. As fiaes aprenderam a trabalhar
a nova matria-prima em conjunto com o linho, produzindo-se ento catorze
diferentes variedades de tecido. Alexandria detinha o monoplio da manufatura
do papiro, uma planta peculiar ao Egito, que crescia nos pntanos do Delta,
no distantes da capital. A arte da vidraria, j conhecida ao tempo dos faras,
alcanou um alto grau de refinamento; novos mtodos foram aperfeioados no
reinado dos Ptolomeus. Durante sculos, Alexandria foi conhecida como centro
de fabricao de produtos de vidro. Seus artesos eram tambm donos de notvel
habilidade no trabalho de metais como o ouro, a prata e o bronze, e seus vasos
marchetados eram muito apreciados.
    Alexandria no s exportava as mercadorias que produzia (tecido, papiro,
vidro, joias, etc.), como tambm reexportava as que lhe chegavam da Arbia, da
frica oriental e da ndia.
    Parte do preo pago pelo desenvolvimento dessa espcie de produo indus-
trial no Delta foi, sem dvida, o crescimento da escravido10.
    A resoluo de todos esses problemas exigia uma forte moeda corrente11. Para
a ampliao do comrcio com o restante do mundo helenstico, era necessrio
que a moeda se ligasse aos padres monetrios daquele mundo, os quais eram
estranhos ao Egito. Instaurou-se ento um novo sistema financeiro. Os bancos
exerciam ento importante papel na vida econmica do Egito. Um banco cen-
tral estatal foi estabelecido em Alexandria, com filiais nas capitais dos nomos e
subfiliais nas aldeias mais importantes. Os bancos reais efetuavam toda sorte de


10    PRAUX, C. 1939.
11    Durante o reinado dos lgidas, intensifica-se a procura do ouro nos vales dos afluentes do Nilo, em
      direo  Etipia, Estrabo descreveu as condies de extrao como estarrecedoras. A quantidade de
      ouro produzida era insuficiente para vencer a demanda, e seu preo subia constantemente. Id.
O Egito na poca helenstica                                                                         165



transao bancria. Existiam tambm bancos privados, de papel secundrio na
vida econmica do pas. A operao dos monoplios reais e a pesada adminis-
trao fiscal eram dispendiosas e impunham  populao um pesado nus12. Esta
economia to bem estruturada no trouxe benefcios financeiros de nenhuma
espcie aos prprios egpcios.
    No domnio da agricultura eram constantes os conflitos entre a populao
nativa e os estrangeiros. Alguns desses conflitos terminavam com os campo-
neses procurando a proteo divina nos templos ou fugindo para longe de suas
habitaes.
    Os lgidas eram considerados os reis mais ricos de sua poca. Suas riquezas
certamente eram partilhadas por um grande nmero de gregos pertencentes 
classe dominante, que viviam em meio ao conforto. Se lhes aprazia, os lgidas e
os gregos de Alexandria podiam, por exemplo, obter facilmente uma variedade
de flores e de frutos, mesmo quando fora da capital13.
    Ptolomeu Filadelfo foi o primeiro a constatar que esse sistema poderia vir
a se constituir num fardo insuportvel para os egpcios. Alimentava o desejo
de tornar-se um verdadeiro soberano egpcio e herdeiro dos faras  sabemos,
por exemplo, que ele chegou a visitar os trabalhos de explorao das terras do
Fayum, uma tendncia que se acentuou entre os seus sucessores aps terem
fracassado no exterior.
    Os lgidas, no entanto, jamais lograram eliminar a desigualdade bsica da
sociedade que governavam.
    Do ponto de vista social, poltico e econmico, os estrangeiros viviam uma
situao bastante diferente daquela da populao nativa, gozando de grandes
vantagens. Os altos funcionrios do palcio e os membros do governo eram
estrangeiros, assim como os oficiais do exrcito e os soldados. Na rea da agri-
cultura, os estrangeiros contavam com maiores chances que os egpcios de se
tornarem proprietrios rurais. Na indstria, eram os empregadores, no os
empregados. A quase totalidade dos bancos reais e privados era dirigida por eles.
Em suma, os estrangeiros eram ricos, e os nativos, pobres. Quando um egpcio
queria fazer um emprstimo em dinheiro ou em gnero (trigo), tinha de faz-
-lo, em geral, junto a um estrangeiro; quando desejava arrendar um pedao de
terra, recorria, frequentemente, a um proprietrio estrangeiro, e assim por diante.
Desse modo, os nativos foram-se convertendo em dceis instrumentos nas


12   Como quase sempre acontecia, o peso da fiscalizao era maior quando os sucessos iniciais se seguiam
     de reveses. Id.
13   Sobre o conjunto da economia lgida, ver publicao de E. WILL (p. 133 et seq.).
166                                                                     frica Antiga



mos dos estrangeiros. Alm do trabalho habitual, os egpcios nativos viam-se
compelidos a cumprir inmeras obrigaes. Eram requisitados para o trabalho
nos canais e diques e, de tempos em tempos, nas minas e nas pedreiras. Por
favores especiais, os estrangeiros provavelmente estavam isentos desse trabalho
compulsrio, e certas classes dentre eles gozavam de privilgios nas taxaes
de impostos. No se deve exagerar, porm, o quadro dessa situao. Alguns
autctones, como Mneton, por exemplo, enriquecendo-se e colaborando com
os gregos, logravam alcanar um lugar entre as classes dominantes.
    A arqueologia por vezes oferece dados relacionados a essa sociedade que
desafiam a interpretao: E. Bernand publicou um epitfio dedicado a um
escravo negro, escrito por um poeta local de cultura grega14.
    Uma das consequncias menos previsveis da chegada ao Egito de um grande
nmero de gregos consistiu na propagao de certos cultos egpcios por todo o
mundo grego.
    De incio, os gregos recm-chegados tinham seus prprios deuses e suas
prprias crenas religiosas, bastante distintos dos cultos egpcios. No entanto
surge rapidamente a tendncia a associar certos deuses gregos a divinda-
des egpcias, criando-se, assim, uma nova trade, formada por Serpis como
Deus-Pai, sis como Deusa-Me e Harpcrates como Deus-Filho. Para os
egpcios, Serpis  o antigo deus Osir-Hapi, ou Osrapis (de onde derivou
o nome Serpis). Para os gregos, Serpis, representado por um velho barbudo,
assemelha-se a Zeus. Cada uma das comunidades venera-o  sua maneira. sis,
deusa puramente egpcia,  doravante representada vestindo uma tnica grega
com o caracterstico n sobre o peito. Harpcrates  Hrus, filho de sis, repre-
sentado por um menino com o dedo na boca.
    O ponto central dessa nova religio  o Serapeu, erguido a oeste de Alexandria.
Dispomos de pouca informao sobre as caractersticas desse templo, mas sabe-
mos, por descries de historiadores romanos, que se situava numa alta plataforma,
a que se tinha acesso por uma escada de cem degraus. J no sculo III antes da
era' crist, o culto de Serpis estendia-se rapidamente pelas ilhas do mar Egeu.
No sculo I, Serpis e sis so invocados por toda parte como salvadores. Seus
cultos propagam-se a regies longnquas: o de sis chega a Uruk, na Babilnia,
o de Serpis,  ndia. De todas as divindades do mundo helenstico, sis, a de
Nomes Inumerveis,  provavelmente a maior. O hino a sis, descoberto em Zos,
diz o seguinte: "Sou aquela a quem as mulheres chamam deusa. Ordenei que


14    BERNAND, E. pp. 143-7.
O Egito na poca helenstica                                                               167



as mulheres fossem amadas pelos homens, reuni marido e mulher e inventei o
casamento. Ordenei que as mulheres gerassem filhos, e que os filhos amassem
seus pais"15. Com o triunfo do cristianismo, apenas sis sobrevive; suas esttuas
servem como imagens da Madona.




figura 6.1   Relevo representando a deusa sis com o filho Harpcrates em segundo plano.



15   TARN, W. 1930. p. 324.
168                                                                                       frica Antiga



   Ao sublinhar o papel do negro africano na propagao do culto de sis16, Jean
Leclant observa que a cabea esculpida de um sacerdote de sis descoberta em
Atenas e datada do sculo I  provavelmente a de um mestio17.


      Uma capital clebre no litoral "ao lado do Egito"
    Durante o reinado dos Ptolomeus foi fundada Alexandria, cidade to prs-
pera que se converteu no apenas na capital do Egito mas tambm na mais
importante cidade do mundo helenstico. Convm ressaltar que o Egito, derro-
tado militarmente e incorporado politicamente ao Imprio Macednico, exerceu
um fascnio singular sobre Alexandre, que l queria fixar um dos seus projetos
urbanos mais clebres e onde, muito provavelmente, pensou estabelecer a capital
do Imprio. Alm disso, tinha-se a cultura egpcia em to alta considerao que
os sbios do Imprio logo passaram a viver em Alexandria. Enquanto se manteve
o reinado dos Ptolomeus, Alexandria foi considerada como a capital intelectual
do mundo mediterrnico. Falava-se dessa cidade como se no se situasse no
Egito, mas prximo ao Egito (Alexandria ad Aegyptum). Estrabo definiu-a da
seguinte maneira:
      "A principal vantagem da cidade est no fato de ser o nico lugar em todo o Egito
      igualmente bem situado para o comrcio martimo, em virtude da excelncia dos
      seus portos, e para o comrcio interno, pois o rio facilita o transporte de todas as
      mercadorias e rene-as nesse lugar que se transformou no maior mercado do mundo
      habitado"18.
    Nessas poucas linhas, porm, Estrabo excede nos elogios ao local descrito e
fica bem longe de pintar um quadro completo de Alexandria.
    A construo da cidade e dos seus portos exigiu, de fato, uma grande quan-
tidade de mo de obra durante um perodo bastante longo19.
    O local da nova cidade havia sido escolhido por Alexandre, o Grande,
quando este se deslocava de Mnfis para o osis de Amon (Siwa) para consul-
tar o clebre orculo no templo de Zeus-mon em -331. Maravilhou-se com
a excelente posio da faixa de terra situada entre o Mediterrneo, ao norte, e

16    LECLANT, J. 1976b. p. 282; ver tambm SNOWDEN Jr., F. M. 1976. pp. 112-6.
17    LECLANT, J. 1976b. nota 80.
18    Citado por E. BERNAND, p. 92.
19    Para citarmos apenas um exemplo, enormes cisternas conservavam gua fresca para os habitantes. No
      incio do sculo XIX, trezentas delas ainda podiam ser vistas. Id., p. 42.
O Egito na poca helenstica                                                    169



o lago Maretis, ao sul, distante dos pntanos do Delta e, no entanto, prxima
do brao canpico do Nilo. O local encontrava-se ocupado por uma pequena
aldeia chamada Rakoti, bem protegida das vagas e das tempestades pela ilha
de Faros. Os planos da futura cidade que imortalizaria o nome de Alexandre
foram traados pelo arquiteto Dincrates, e imediatamente postos em execuo.
 poca da morte de Alexandre, a obra no tinha avanado muito e, ao que tudo
indica, no foi terminada at o reinado de Ptolomeu II (-285 a -246).
    Tencionando ligar a ilha de Faros  terra firme, o arquiteto projetara um
imenso quebra-mar denominado Heptastdion (porque possua sete estdios
ou, aproximadamente, 1200 m de comprimento); essa construo est hoje
desaparecida sob os depsitos aluviais que se acumularam de ambos os lados.
    A construo do Heptastdion resultou na formao de dois portos: o do
leste, o "Portus Magnus", era maior e mais importante que o do oeste, denomi-
nado "Portus Eunostos", ou o porto do retorno seguro. Um terceiro porto sobre
o lago Maretis destinava-se ao comrcio interno.
    O planejamento da cidade seguiu o modelo das cidades gregas mais moder-
nas da poca. Sua principal caracterstica era o predomnio de linhas retas. As
ruas, em sua maioria, eram retilneas e cruzavam-se em ngulos retos.
    Com Ptolomeu I Ster, Mnfis ainda detinha o principal papel poltico, mas,
aps o corpo de Alexandre, segundo se diz, ter sido transportado para a nova
capital20, Ptolomeu II a instalou a sede do poder da dinastia lgida em carter
permanente.
    A cidade dividia-se em distritos. Filo de Alexandria (-30 a +45) diz terem
existido cinco distritos, designados pelas cinco primeiras letras do alfabeto grego.
Infelizmente pouco sabemos a respeito deles. O bairro real ocupava quase um
tero da cidade, limitando-se com o porto ocidental. Tratava-se da parte mais
atraente da cidade, com palcios reais rodeados por jardins, onde se encontravam
fontes magnficas e jaulas com animais trazidos de todas as regies conhecidas
do mundo. O distrito abrigava ainda o famoso Museu, a Biblioteca e o cemitrio
real.
    Os habitantes da cidade viviam em comunidades. A parte oriental era habi-
tada por gregos e estrangeiros, o distrito do Delta prximo ao bairro real, pelos
judeus, e a parte ocidental, pelos egpcios nativos, no distrito de Rakoti. A tota-
lidade da populao era tida como instvel, embora os diversos grupos tnicos
e sociais diferissem acentuadamente uns dos outros.


20   Id. p. 299: o tmulo, se existiu, nunca foi encontrado.
170                                           frica Antiga




figura 6.2   Cabea de Alexandre, o Grande.
O Egito na poca helenstica                                                                        171



    O espectro social da cidade abria-se em amplo leque. No topo, estavam o rei e
sua corte, os altos funcionrios e o exrcito. Seguiam-se os eruditos, os cientistas
e homens de letras, os negociantes ricos, os pequenos comerciantes, os artesos,
os estivadores, os marinheiros e os escravos. Os egpcios nativos, porm, forma-
vam o corpo principal da populao de Alexandria, abrangendo os camponeses,
os artesos, os pequenos comerciantes, os pastores, os marinheiros, etc.
    Falavam-se vrias lnguas nas ruas da cidade. O grego, em seus vrios diale-
tos, era naturalmente a mais difundida; o egpcio era a lngua falada nos bairros
dos nativos, enquanto no bairro judeu predominavam o aramaico e o hebraico;
ouviam-se igualmente outras lnguas semticas.
    Alexandria tornara-se particularmente clebre por certos monumentos, cuja
localizao  difcil de determinar nos dias de hoje. Algumas das partes mais
importantes da cidade helenstica acham-se atualmente abaixo do nvel do mar,
e o restante, soterrado sob a cidade moderna. Portanto, quando falamos nos
monumentos da cidade antiga,  com base em descries fornecidas por autores
da Antiguidade, assim como nas descobertas dos arquelogos.
    Na parte sudeste da ilha de Faros,  entrada do porto do leste, erguia-se
o clebre Farol (Pharos), considerado uma das sete maravilhas do mundo. Os
faris da Antiguidade dele herdaram o nome e a forma bsica. No sculo XIV,
o Farol de Alexandria foi inteiramente destrudo, de modo que o que sabemos
a respeito de sua forma e de sua disposio fundamenta-se em algumas poucas
referncias clssicas e descries de historiadores rabes21.
    As moedas antigas e as representaes em mosaico do-nos uma ideia de
sua forma. Foi concebido pelo arquiteto Sstrato de Cnido, por volta de -280,
no reinado de Ptolomeu Filadelfo. Media cerca de 135 m de altura, tendo sido
construdo principalmente com pedras calcrias. Os frisos e os ornamentos eram
em mrmore ou bronze.
    O Farol funcionou at a poca da conquista rabe em +642. Este ano marca
o incio de uma srie de catstrofes, que se sucederam at o sculo XIV. Em
+1480, o sulto mameluco Kait Bey aproveitou as pedras retiradas das runas do
Farol para a construo de um forte que fazia parte da defesa litornea contra



21   Em +1166 Abu-l-Hajjy Yussuf Ibn Muhammad al-Balawi al-Andalusi visitou Alexandria como turista.
     Ele nos deixou uma descrio precisa das dimenses do farol. A seo de base era um quadrado com
     8,35 m de lado; o primeiro estgio elevava-se a 56,73 m; o segundo, que tinha uma seo octogonal,
     erguia-se sobre o primeiro a 27,45 m, enquanto o terceiro era um cilindro com 7,32 m de altura (ver
     BERNAND, E. 1966. p. 106); As medidas fornecidas por esse autor rabe no coincidem com as que
     so tradicionalmente atribudas ao Farol de Alexandria.
172                                                                                          frica Antiga



os turcos, os quais, na poca, ameaavam o Egito. O forte ainda existe e traz o
nome do sulto.
   A palavra rabe al-manarah designa tanto "farol" quanto "minarete". O Farol
de Alexandria foi por diversas vezes considerado o prottipo dos minaretes
das mesquitas; embora se trate de um fato no estabelecido com absoluta cer-
teza, existem semelhanas curiosas entre as propores do Farol e as de certos
minaretes.
   O Museu, com sua imensa biblioteca, foi sem dvida a mais importante
realizao dos lgidas em Alexandria. Sua construo teve incio por deciso de
Ptolomeu I Ster, a conselho de um refugiado ateniense, Demtrio de Falero.
A palavra museu deriva de musas, entidades cuja adorao simbolizava o esprito
cientfico. Estrabo descreveu os edifcios do seguinte modo:
      "Os palcios reais tambm compreendem o Museu, que abrange um passeio, uma
      xedra e um vasto salo, no qual os fillogos se renem para as refeies. Existem
      tambm recursos gerais para a manuteno do colgio; o responsvel pela direo do
      Museu  um sacerdote nomeado pelos reis, ou, em nossos dias, por Csar"22.
   Assim, os cientistas e os homens de letras viviam naquela instituio, que
lhes fornecia moradia e alimentao e lhes dava condies de se dedicarem
integralmente s pesquisas e aos estudos, dispensando-os de qualquer tarefa de
natureza material. A organizao assemelhava-se  das universidades modernas,
com a diferena de que os residentes no eram solicitados para ministrar aulas23.
   No sculo II da Era Crist ainda havia quem ambicionasse o ttulo de resi-
dente do Museu de Alexandria.
   Demtrio de Falero aconselhara Ptolomeu Ster a criar uma biblioteca que
abrigasse toda a cultura contempornea, atravs da aquisio e cpia sistemtica
de manuscritos. Em pouco tempo, coletaram-se mais de 200 mil volumes. A
administrao desse repositrio cultural estava confiada a ilustres especialistas
do mundo grego contemporneo24.
   Uma outra biblioteca, de menor importncia, situada no Serapeu, abrigou
45 mil volumes.



22    Estrabo. Londres, 1917. pp. 17-8.
23    Como nossas universidades, o Museu por vezes recebia crticas. Um alexandrino queixava-se de que "no
      populoso Egito, os escribas, grandes amantes dos engrimanos, engordam e se entregam a infindveis
      querelas dentro do viveiro das Musas". Apud BERNAND, E. 1966.
24 Um deles, Calmaco de Cirene (-310 a -240), organizou um catlogo em 120 volumes de tudo o que a
   Biblioteca continha.
O Egito na poca helenstica          173




figura 6.3   O Farol de Alexandria.
174                                                                   frica Antiga



    Em nenhuma outra parte do mundo helenstico veio a existir uma instituio
da estatura do Museu de Alexandria. A nica biblioteca capaz de concorrer com
a de Alexandria situava-se em Prgamo. , em grande medida, graas  Biblio-
teca de Alexandria que hoje conhecemos as tragdias de squilo, as comdias
de Aristfanes, as odes de Pndaro, Baqulides e as histrias de Herdoto e de
Tucdides.
    Recursos culturais dessa natureza no podiam deixar de atrair os sbios do
mundo grego. Com efeito, muitos deles foram a Alexandria e fizeram no Museu
algumas das mais importantes descobertas da Antiguidade.
    Certos poetas atuaram tanto como secretrios quanto como cortesos. Cal-
maco comps ali, entre tantas obras, sua clebre elegia Os Cabelos de Berenice.
Berenice, esposa de Ptolomeu III Evergeta, prometeu dar aos deuses um anel
dos seus cabelos se seu marido voltasse so e salvo da guerra na Sria. Quando
ele retomou, a rainha cumpriu a promessa. No dia seguinte, a mecha real desa-
pareceu do templo. Na poca, Cnon, o astrnomo, havia descoberto uma nova
constelao, a que chamou Cabeleira de Berenice, criando a lenda de que os
prprios deuses haviam retirado a mecha do templo para coloc-la no cu. A
constelao ainda hoje tem esse nome. Calmaco exaltou o tributo corts do
astrnomo numa elegia que conhecemos apenas na traduo latina de Catulo
(cerca de -84 a -54).
    Os gegrafos, cosmgrafos e astrnomos desempenharam um importante
papel no desenvolvimento cientfico de Alexandria. Como veremos, porm,
algumas de suas descobertas devem-se essencialmente ao Egito e no apenas 
Biblioteca de Alexandria.
    Eratstenes, o pai da geografia cientfica, nasceu em Cirene, por volta de
-285. Em torno de -245, Ptolomeu ofereceu-lhe um posto de bibliotecrio, que
veio a ocupar at sua morte. Seu mais notvel empreendimento consistiu na
tentativa de medio da circunferncia da Terra, fundamentando seus clculos
na relao entre a sombra projetada no solstcio do vero no relgio de sol de
Alexandria e a ausncia de sombra em Siena (Assu). Concluiu que a circunfe-
rncia da Terra era de 252 mil estdios (isto , 46695 km), que ultrapassa em um
stimo a circunferncia real da Terra (40008 km). Eratstenes tambm chegou
a catalogar 675 estrelas.
    O gegrafo Estrabo (cerca de -63 a +24), a quem se deve a mais antiga
descrio sistemtica da geografia do Egito, nasceu na Capadcia, passou a
maior parte de sua vida em Roma e na sia Menor e finalmente se fixou em
Alexandria. Embora tenha pertencido ao perodo romano, o essencial de sua
O Egito na poca helenstica                                                 175



obra foi helnico. Seu tratado de geografia compreende dezessete volumes,
sendo os quase dois teros do ltimo volume dedicados  descrio do Egito.
    A geografia e a astronomia pressupem um conhecimento avanado da
matemtica. Entre os homens eminentes do Museu encontrava-se o clebre
matemtico Euclides (-300 a -275), o primeiro a receber a direo do depar-
tamento de matemtica e autor de importante obra sobre astronomia (os
Fenmenos) e do clebre tratado sobre geometria (os Elementos), que perma-
neceu como a obra bsica no assunto e foi traduzida para o latim e o rabe.
Arquimedes de Siracusa (-287 a -212), um dos grandes matemticos da escola
de Euclides, descobriu a relao entre o dimetro e a circunferncia, a teoria
da espiral e a lei da gravidade. Sua contribuio mais importante  matemtica
e  mecnica, porm, foi a inveno que ficou conhecida como o "parafuso de
Arquimedes", um dispositivo que ainda hoje  utilizado no Egito para elevar
a gua.
    Apolnio de Perga, o grande gemetra, deixou Palmira por volta de -240
para ir trabalhar na escola de matemtica de Alexandria, devendo sua fama
ao notvel tratado que elaborou sobre as sees cnicas. Foi o fundador da
trigonometria.
    A princpio demasiado dependente dos discpulos de Eudxio e de Pitgoras,
a partir do sculo III a escola de matemtica de Alexandria adquire caracters-
ticas prprias, tornando-se o principal foco da matemtica grega.
    Teofrasto, que viveu na poca de Ptolomeu I,  considerado o fundador da
botnica cientfica em virtude de sua obra sobre a histria e a fisiologia das
plantas.
    O historiador Diodoro da Siclia visitou o Egito em -59. O primeiro volume
da sua obra Biblioteca Histrica, escrita em lngua grega,  dedicado ao estudo
dos mitos, dos reis e dos costumes do Egito. Segundo Diodoro, a primeira
apario do homem na face da Terra deu-se no Egito. Nas suas palavras (I, 10):
"No comeo do mundo, o homem surgiu pela primeira vez no Egito, devido ao
clima favorvel do pas e  natureza do Nilo".
    Os mdicos tambm trabalharam no Museu e na Biblioteca. A liberdade
intelectual ali reinante permitiu-lhes fazer progressos no estudo da anatomia
com a disseco de cadveres.
    Herfilo da sia Menor, que chegou ao Egito na primeira metade do sculo
III antes da Era Crist, foi o primeiro a descobrir a relao entre os batimentos
do corao e o pulso e a distinguir entre artrias e veias. Atualmente ainda so
usados alguns dos nomes dados por ele a partes do corpo, como, por exemplo,
duodeno e torcular de Herfilo.
176                                                                    frica Antiga



    Erasstrato, outro eminente cirurgio tambm nascido na sia Menor, apro-
fundou os conhecimentos da anatomia do corao durante sua permanncia em
Alexandria.
    A celebridade da escola de medicina tambm sobreviveria por longo tempo.
Um verso necrolgico preservado em Milo diz a respeito do mdico a quem 
dedicado: "Teve como ptria o todo sublime Egito"25.
    Com o passar do tempo, a presena do elemento egpcio nativo foi cada vez
mais se fazendo sentir. Mneton, egpcio originrio de Samanud, no Delta, foi
um dos mais clebres sacerdotes-sbios do incio do sculo III antes da Era
Crist. Sua obra principal Aegyptiaca, seria nossa melhor fonte de informao
sobre a histria do Egito antigo se tivesse chegado at ns na ntegra. Os frag-
mentos remanescentes mostram listas de nomes de reis agrupados em dinastias
e mencionam a durao do reinado de cada soberano, mtodo adotado pelos
historiadores modernos.
    No entanto, o Museu e sua Biblioteca conheceram um fim deplorvel.
Acredita-se que a primeira catstrofe tenha ocorrido durante a campanha ale-
xandrina de Jlio Csar, quando este incendiou os navios atracados no porto
para impedir que cassem nas mos dos inimigos. De to violentas, as chamas
alcanaram os depsitos de livros, embora para alguns autores o fogo no tenha
atingido a Biblioteca propriamente dita, destruindo to-somente as lojas dos
livreiros.
    Aps a conquista romana do Egito, o declnio e a runa parecem ter sido
progressivos. O Museu e a Biblioteca sofriam os problemas da poca. Muitos dos
estudiosos abandonaram o pas, e os livros foram levados a Roma. Em +270, o
imperador Aureliano destruiu a maior parte de Bruchion, distrito de Alexandria
em que se situavam os famosos edifcios. A propagao e o triunfo do cristia-
nismo deram-lhes o golpe fatal. No h razes para crermos que ainda existissem
aps o sculo V. , portanto, destituda de fundamento a acusao de incndio da
Biblioteca dirigida a Amr Ibn al' -As pelo historiador srio cristo Abu al-Faraj
ibu al-Ibri (conhecido na Europa como Berbebraeus) no sculo XIII.


      A influncia egpcia na cultura helenstica
   Como vimos, os Ptolomeus empenharam-se no desenvolvimento das rela-
es entre o Egito e o oceano ndico. No que diz respeito  explorao da

25    BERNAND, A. 1966. p. 263.
O Egito na poca helenstica                                                                             177



terra, ainda se discute vivamente se mantinham uma poltica sistemtica para o
reconhecimento do curso do Nilo a fim de utiliz-lo, no extremo sul, como via
de penetrao e de relaes comerciais. Em todo caso,  certa a existncia de
exploraes ao sul do Egito: Temstenes, navarco de Filadlfia, visitou a Nbia;
Aristo reconheceu as costas da Arbia; Stiro percorreu a costa da frica at o
sul do cabo Guardafui. Os registros dessas exploraes constituem a matria-
-prima de obras de eruditos, como Agatarquida26.
    Estes exploradores, ademais, seguiam as pegadas de ilustres predecessores.
Em cerca de -500, Hecateu de Mileto, o primeiro gegrafo grego a visitar o
Egito, escreveu a primeira descrio sistemtica do mundo. Lamentavelmente,
restaram apenas fragmentos de seu tratado geogrfico. No Egito, realizou via-
gens por Tebas, e  bem provvel que tivesse includo uma descrio detalhada
do pas em seu trabalho. Hecateu considerava a Terra um disco plano cujo centro
era ocupado pela Grcia. Dividia o mundo em dois continentes: Europa e sia,
esta constituda pelo Egito e por toda a frica do Norte, conhecida quela poca
pelo nome de Lbia. Imaginava que o Nilo se ligasse ao sul com o rio Oceano,
que circundava o mundo inteiro. Herdoto de Alicarnasso visitou o Egito por
volta de -450, descendo pelo sul at Elefantina, que descreveu como a fronteira
entre o Egito e a Etipia. Herdoto consagrou ao Egito o segundo dos nove
livros de sua Histria. Foi o primeiro gegrafo a mencionar Mroe pelo nome,
tendo realmente encontrado merotas em Assu.
    Tambm para Herdoto a Terra era plana, mas, ao contrrio de Hecateu,
ele no acreditava que tivesse forma circular, nem que fosse circundada pelo
rio Oceano. Dividia o mundo em trs continentes: Europa, sia e Lbia (isto ,
frica), afirmando ser este ltimo rodeado pelo mar por todos os lados, exceto
no ponto em que se unia  sia.
    Tempos mais tarde, em -59, Diodoro visitou o Egito e descreveu o curso do
Nilo no primeiro volume de sua obra. Segundo ele, o Nilo nascia na Etipia e
banhava uma grande quantidade de ilhas, inclusive a conhecida como Mroe.
Diodoro dedicou todo o terceiro volume  Etipia, isto ,  regio que atual-
mente tem o nome de Sudo. Estrabo tambm se referiu  regio de Mroe
como se se tratasse de uma ilha, fornecendo ainda inmeros detalhes a respeito
de seus habitantes.


26   Ver PRAUX, C. 1939. p. 356. Naquela poca, as descries dos povos visitados concentravam-se na
     observao dos costumes, e os nomes utilizados para descrev-los refletiam seus hbitos alimentares;
     essas caractersticas passaram mais tarde para os textos latinos antigos e medievais e, at certo ponto,
     para as fontes rabes.
178                                                                                           frica Antiga



    Embora os gregos em geral considerassem uma proeza visitar a Primeira
Catarata e aventurar-se um pouco mais ao sul (proeza que comemoravam gra-
vando seus nomes nos monumentos egpcios27), os estudiosos mostraram grande
interesse pelo vale do Nilo ao sul de Assu (ento conhecida como Siena). A
poca de Ptolomeu Filadelfo j se conhecia a latitude exata de Mroe28. Era-
tstenes, que, como vimos, trabalhou em Siena, calculou a distncia de Mroe
at o Equador. Descreveu tambm, com profuso de detalhes, as condies de
navegao apresentadas pelo Nilo, e, pelo menos indiretamente, conheceu o Nilo
Azul e o Atbara. Suas descobertas, assim como as de vrios outros exploradores,
apareceram em obras posteriores: primeiramente nos trabalhos de Estrabo;
em seguida nos de Plnio, grande apreciador de detalhes pitorescos relaciona-
dos ao interior da frica e ao vale do Nilo, e, finalmente, nas obras do grande
cosmgrafo Ptolomeu, que depois veio a sistematizar os dados da herana
helenstico-egpcia. Esses autores, por sua vez, transmitiram tais informaes, s
vezes recheadas com detalhes ou observaes parcial ou inteiramente lendrios,
s culturas bizantina, ocidental e muulmana. O conjunto de conhecimentos
essenciais sobre o vale mdio do Nilo ficaria, pois, fixado durante muito tempo
 poca dos Ptolomeus. Foi dito que o vale mdio era o "plo de atrao dos
astrnomos e etngrafos" e que as expedies militares faziam-se acompanhar
regularmente por misses cientficas29.
    Ainda mais surpreendente foi a lenta absoro do meio grego pelos egp-
cios. Ao que parece, os egpcios resistiram  presso cultural. Sustentaram uma
atitude de independncia com relao aos lgidas, ao contrrio dos gregos, cuja
adulao ao soberano era evidente30. A lngua grega, entretanto, gozava quela
poca de prestgio internacional e oferecia maior facilidade  escrita que o egp-
cio. Oficialmente, todos falavam ou escreviam grego. Os arquelogos consta-
taram, porm, que papiros escritos tanto em demtico quanto em grego so
descobertos em nmero praticamente idntico31. O direito grego manifestou-se
lentamente nos instrumentos legais egpcios, enquanto o calendrio egpcio
foi gradualmente prevalecendo sobre o grego. Por outro lado, atravs da lngua


27    PRAUX, C. 1957. p. 310 et seqs.
28    Id.
29    Id.
30    PRAUX, C. 1939.
31    A grande diferena entre eles est no nmero de trabalhos que lhes so consagrados: os papiros gregos
      so objeto de numerosos estudos, o que no acontece com os demticos. Entretanto, estes ltimos podem
      constituir uma fonte abundante de informaes sobre a administrao dos templos e sobre a vida das
      famlias egpcias.
O Egito na poca helenstica                       179




figura 6.4   O mundo segundo Herdoto e Hecateu.
180                                                                    frica Antiga



grega toda uma herana egpcia se colocou  disposio do mundo, o que nunca
ocorreria sem o novo meio lingustico que lhe serviu de veculo.
    A arte  provavelmente o domnio em que a impregnao egpcia e mesmo
negro-africana da cultura helenstica foi mais surpreendente e espetacular.
Amantes do teatro como tinham sido em Atenas, os gregos erigiram no Egito
monumentos que refletiam seus gostos. Entretanto, o contato com os templos
egpcios deu-lhes o senso do colossal. A mesma tendncia se faz sentir na rea
da escultura, como prova a descoberta de uma cabea de Serpis com 51 cm, e
o grande nmero de esttuas colossais constantes do acervo do museu greco-
-romano de Alexandria.
    Evidentemente, a princpio as tcnicas e os gostos artsticos dos elementos
da comunidade grega no Egito assemelhavam-se aos de outras comunidades
gregas pertencentes ao vasto Imprio. Parece claro tambm que os produtos
dos atelis de Alexandria fossem em certa medida semelhantes aos da Grcia
e mostrassem influncia de modas alheias  frica. So inmeros os exemplos
dessa arte importada presentes no Museu de Alexandria. Entre os mais notveis
est a cabea de Alexandre, pertencente  tradio da escola de Lisipo. Mas
em Alexandria tambm havia lugar para a inovao, sendo a mais importante
a tcnica descrita pelos arquelogos com o termo italiano sfumato  uma fuso
entre luz e sombra nos contornos suaves dos traos do rosto, sem muita ateno
para a representao do cabelo ou das faces. Estes, em geral, eram moldados em
estuque, material que se presta s suaves modelagens preferidas pelos artistas
alexandrinos. Depois de acrescentadas, essas partes eram, em geral, coloridas. Os
escultores e os pintores inspiraram-se nos modelos egpcios em todos os nveis,
como demonstram as representaes dos deuses. sis usa uma tnica bem ajus-
tada, com o n caracterstico entre os seios; traz na cabea uma coroa egpcia,
mas o modelado do corpo  tipicamente grego. Entre as deusas gregas, Afrodite
 a favorita. Quase sempre as estatuetas a representam nua em diferentes atitu-
des: emergindo do mar, tranando o cabelo, erguendo o p e curvando-se para
desenlaar a sandlia ou procurando, com ambas as mos, manter o manto em
torno da parte inferior do corpo.
    Entre os heris gregos, Hrcules  frequentemente representado. Taas e can-
deeiros encontrados em Alexandria so decorados com cenas de seus trabalhos:
em luta com o leo, com o touro e com as amazonas.
    No Egito faranico, o rio era representado como um homem gordo que trazia
nos mamilos o ltus ou o papiro, plantas que crescem no vale do Nilo. Os gregos
representavam-no como um homem forte e barbudo, sentado ou deitado junto
de um hipoptamo, de um crocodilo e de uma esfinge, smbolos do Egito. As
O Egito na poca helenstica                                                  181



representaes de personalidades reais seguiam o mesmo modelo. A pintura, que
durante os sculos IV e III continuou fiel aos padres gregos, comeou no sculo
II a incluir cenas de estilo egpcio ao lado das de estilo grego, como mostram,
por exemplo, as representaes de um dos tmulos de Anfushi, em Alexandria.
A principal cmara morturia  decorada desde a entrada com uma mistura de
estilos egpcio e grego, tanto na arquitetura como na pintura.
    A representao imprecisa das palmeiras numa pintura de um outro tmulo
de Anfushi  tpica do sculo I. A decorao do segundo tmulo de Anfushi
contm muito mais elementos egpcios, com novas cenas nesse estilo.
    Os mosaicos apareceram primeiro a leste do Mediterrneo e, possivel-
mente, em Alexandria. Diversos pavimentos em mosaico com motivos pictri-
cos foram descobertos em Alexandria e nos seus arredores. O mais importante
deles traz o nome de Sophilos e representa, no interior do retngulo central, a
cabea de uma mulher com um mastro e uma lais de verga; a cabea  coroada
com uma coifa em forma de proa de navio. Segundo se cr, trata-se da per-
sonificao da cidade de Alexandria. Em torno do retngulo central h uma
srie de pomposas bordas decorativas. Esse mosaico foi descoberto a leste do
Delta, datado do sculo II.
    No resta dvida de que o aspecto mais surpreendente da produo hele-
nstica do Egito, pela variedade de suas invenes e gostos, reside na profuso
de estatuetas humorsticas, grotescas32 ou realistas que retratam cenas da vida
cotidiana e representam egpcios e negros africanos. As diminutas estatuetas
em bronze, mrmore, terracota ou estuque destinavam-se s pessoas comuns,
mas a existncia de peas mais valiosas atesta a grande popularidade desses
temas.
    Bs, o mais egpcio dos deuses adotados pelos gregos,  representado com
traos grotescos, recebendo, mais tarde, uma esposa igualmente cmica, Besa ou
Beset. A atrao dos gregos do Egito por tudo o que no fosse grego levou-os a
encomendar objetos de uso cotidiano, artigos de luxo ou enfeites representando
negros. O realismo dessas representaes atinge, por vezes, alta qualidade arts-
tica, mas amide demonstra mais a capacidade de observao do escultor que
propriamente seu gosto. Em alguns casos o assunto  uma cena de rua, como a
estatueta de um jovem negro dormindo ao lado de sua nfora. Os negros apa-
recem retratados em todos os tipos de objetos de uso dirio, como, por exemplo,
nos jarros de gua. A maneira como eram representados demonstra ausncia


32   BADAWY, A. 1965. pp. 189-98.
182                                frica Antiga




figura 6.5 Ulisses fugindo de
Polifemo, escondido sob o ventre
de um carneiro.
Figura 6.6 Pintura do tmulo
de Anfushi, Alexandria.
O Egito na poca helenstica                                                                      183



absoluta de medo ou de exotismo malso. Comumente apareciam ao lado de
elefantes, ou eram mostrados em luta com crocodilos; a introduo de anes,
por sua vez, constitui um eco abafado dos temas literrios antigos relacionados
aos pigmeus. Lutadores, danarinas, mgicos, oradores e msicos negros teste-
munham no s a fixao de cenas da vida real pelos escultores, mas tambm
o gosto do pblico por essas representaes. Algumas cabeas e retratos de
negros, de grande beleza, provam que personalidades de alta posio na escala
social provenientes da frica negra viveram na Alexandria ptolomaica ou por ela
passaram33. O interesse dos lgidas pelo grande osis pr-saariano, via de acesso
ao mundo africano negro, talvez pudesse explicar, em parte, a ateno que os
alexandrinos dedicaram aos negros.
    Por intermdio da arte helenstica do Egito, a figura do negro penetrou mais
do que nunca no mundo mediterrnico.


     O Egito na poca helenstica: relaes com a Lbia
    Atravs da Cirenaica (a parte oriental da Lbia), certos aspectos da civiliza-
o helenstica passaram do Egito  frica do Norte34. No era a primeira vez
que a civilizao grega aparecia na Cirenaica: sabemos que os gregos sados da
ilha drica de Thera emigraram para aquela regio, onde fundaram Cirene, sua
primeira colnia, em -631. A esta seguiram-se outras quatro: o porto de Cirene
(mais tarde Apolnia), Tauchira, Barca (atualmente Al-Marj) e Euhesprides.
Essas colnias, em especial Cirene, eram produtos da civilizao grega, sofrendo,
por conseguinte, as transformaes polticas que normalmente ocorriam em
qualquer cidade grega. Com a fundao de Cirene, inaugurou-se a dinastia
Batada, cujo trmino se deveu a lutas internas por volta de -440. Seguiu-se o
conflito tradicional entre a aristocracia e a democracia, que converteu Cirene
numa terra de desordens e disputas.
    Por essa poca, a totalidade do mundo antigo estava  beira de uma convulso
com a chegada de Alexandre, o Grande. Este invade o Egito no outono de -332
e ruma para oeste at Paretnio (atualmente Mersa-Matruh), a caminho do osis
de Siwa, onde iria consultar o orculo de Zeus-mon. Cirene e provavelmente
tambm as demais cidades (na verdade compreendendo mal as intenes de


33   Sobre esse assunto, ver SNOWDEN Jr., F. M. 1976. pp. 187-212.
34   No que respeita  Lbia, o autor deste captulo recebeu a colaborao do Dr. Mustapha Kamel Abdel
     Alim.
184                                                  frica Antiga




figura 6.7   Fragmento de um balsamrio em bronze.
Figura 6.8   Cabea grotesca.
Figura 6.9 Estatueta (fragmento): "acendedor de
candeeiro" negro, caminhando, vestindo uma tnica
e carregando uma pequena escada no brao esquerdo
(faltam o brao direito e os ps).
O Egito na poca helenstica                                                      185



Alexandre, e querendo evitar que invadisse a Cirenaica) tentaram salvaguardar
sua independncia mandando embaixadores para encontr-lo em Paretnio e
declarar-lhe fidelidade. Entretanto no puderam preservar indefinidamente sua
independncia: em -332, aps a morte de Alexandre, Ptolomeu, ainda strapa
do Egito, aproveitou-se das lutas intestinas em Cirene e anexou a Cirenaica,
iniciando, assim, o perodo helenstico naquele pas. Com exceo de um breve
perodo de independncia (cerca de -258 a -246), a dominao da Cirenaica
pelos Ptolomeus manteve-se de -322 at -96, quando Ptolomeu pio (filho de
Ptolomeu VII Evergeta II), governador da Cirenaica, entregou-a aos romanos,
e essa regio, juntamente com Creta, converteu-se em provncia romana.
    No incio da poca helenstica, a Cirenaica era um pas constitudo de
pequenas aldeias, com poucas cidades. No reinado dos Ptolomeus, as cidades
receberam novas denominaes, algumas das quais eram nomes dinsticos dos
Ptolomeus. Cirene continuou com o mesmo nome, mas Tauchira foi rebatizada
como Arsnoe (atualmente Tokra), e o porto de Barca tornou-se Ptolemaida
(atualmente Tolmeta), transformando-se no centro oficial da cidade. Euhesp-
rides deu origem a uma nova cidade, batizada com o nome de Berenice (atual-
mente Bengasi), em homenagem  princesa cirenense, esposa de Ptolomeu III.
O porto de Cirene foi elevado  categoria de cidade com o nome de Apolnia
(atualmente Susa).
    A Cirenaica era povoada por uma mistura de raas. Nas cidades, alm dos
gregos (que ou eram cidados plenos ou desfrutavam de alguns direitos limita-
dos), havia uma populao no-grega, composta principalmente de judeus e de
muitos outros estrangeiros. A populao rural (georgoi) era constituda por lbios
nativos e soldados mercenrios l estabelecidos como clerucos.
    Os georgoi cultivavam as terras arveis da Cirenaica, que compreendiam as
terras reais (g basilik), as terras da cidade (g politik) e as terras deixadas aos
lbios nativos. Tal estrutura social resultou num confronto entre os lbios autc-
tones e os colonos gregos.
    Durante o perodo helenstico, a Cirenaica foi um pas de grande impor-
tncia econmica, sendo considerada um dos celeiros do mundo antigo. Cirene
teria enviado um presente de 800 mil medimnos de trigo s cidades gregas por
ocasio da fome que assolou a Grcia entre -330 e -326. Muito se falou sobre
sua l, um monoplio dos reis batadas que provavelmente persistiu nas mos
dos Ptolomeus.
    A doao do trigo no  a nica prova das estreitas relaes entre os gre-
gos da Cirenaica e os da Grcia metropolitana.  do conhecimento geral que
Cirene contribuiu amplamente para a vida intelectual dos gregos, em particular
186                                                                    frica Antiga



no sculo IV, atravs de seus renomados filsofos e matemticos. Graas aos
estreitos contatos intelectuais que mantinha com Atenas, Cirene possibilitou o
florescimento da filosofia e de numerosos ramos do conhecimento no planalto
da Cirenaica. Ali se desenvolveu a escola filosfica conhecida como Cirenaica,
uma escola socrtica menor, fundada por Aristipo (cerca de -400 a -365), neto
de Aristipo, o amigo e companheiro de Scrates. A atividade e a fertilidade
intelectuais se manifestavam ainda  poca helenstica. Basta citar os nomes
de Calmaco (-305 a -240) e de Eratstenes (-275 a -194), que, entre outros,
trocaram Cirene por Alexandria para enriquecer as atividades desta ltima nos
domnios das cincias e da literatura. Na Academia, no Museu e na Biblioteca,
contriburam para a inteligncia criativa de Alexandria e permitiram  cidade
converter-se no principal plo de atrao intelectual da poca helenstica. A
presena de intelectuais de Cirene se fez sentir mesmo em Atenas: nessa cidade,
Carnades, o Cireneu (-305 a -240), um dos principais filsofos da escola ctica,
fundou a Nova Academia. Em Cirene, assim como em outras cidades gregas,
o sistema grego de educao foi conservado. Um grande nmero de inscries
faz referncia ao ginsio e ao efebeion.
    Muitas esttuas de filsofos, de poetas e das nove musas foram encontradas
em Cirene. A descoberta de um busto de Demstenes (ainda que se trate de uma
cpia romana)  de grande interesse, pois mostra o alto apreo que a populao
grega de Cirene manifestava por um orador de tamanha importncia.
    Alguns bons exemplos da escultura alexandrina foram encontrados entre
as numerosas esttuas de mrmore de Cirene. Os poucos retratos originais da
poca helenstica mostram uma estreita afinidade com a chamada arte helens-
tica de Alexandria. No surpreende o fato de que as tcnicas usadas em Ale-
xandria tenham sido, at certo ponto, copiadas pelos artistas de Cirene. Outra
semelhana entre a escultura grega da Cirenaica e a de Alexandria pode ser
observada nos bustos cireneus. A comparao entre bustos morturios cireneus e
retratos de mmias egpcias revela uma grande semelhana entre eles. Ainda que
as peas em questo sejam da poca romana, sua origem ptolomaica  inegvel.
    De Cirene vieram a cermica helenstica pintada e as estatuetas em terracota.
As estatuetas eram produzidas por artistas locais, que, tendo comeado pela
reproduo e imitao das terracotas gregas, desenvolveram aos poucos um estilo
prprio. O estudo dessas peas  importante na medida em que refletem a vida
cotidiana dos habitantes da Cirenaica, particularmente os das cidades.
    Na esfera da religio, observa-se a transmisso do culto dinstico dos Pto-
lomeus  Cirenaica, fato que  atestado pelas numerosas inscries dedicadas
aos reis e rainhas dessa dinastia. As cidades da Cirenaica adotam igualmente o
O Egito na poca helenstica                                                    187



culto de Serpis, e templos consagrados a sis e Osris so fundados em Cirene
e Ptolemaida.
    Da Cirenaica,  provvel que o culto greco-egpcio tenha passado  Tripolit-
nia, que nunca foi governada pelos Ptolomeus  poca pr-romana. O santurio
de Serpis e de sis foi descoberto em Leptis Magna, e  interessante observar
que em Sabrata o culto de sis era acompanhado de mistrios isacos. Os cultos
de sis e de Serpis devem ter-se propagado por distantes regies do oeste, 
medida que o culto de sis se generalizava e o de Serpis dava ao mundo antigo
a renovada esperana de uma vida melhor.
    Muito do que se disse sobre a Cirenaica helenstica refere-se apenas aos gre-
gos, dada a dificuldade em se descobrir dados relativos aos lbios autctones e em
saber at que ponto receberam influncias da civilizao helenstica. Sabemos
que os lbios nativos, escorraados das terras costeiras frteis e detidos no inte-
rior, no viam com bons olhos a presena dos gregos. Entretanto, a civilizao
helenstica deveu muito a essa regio da frica do Norte, a qual lhe permitiu se
desenvolver e florescer durante trs sculos.
    A grande prosperidade de Mroe, particularmente durante os reinados de
Ergamenes e de seus sucessores, deriva essencialmente das relaes amigveis
com o Egito. Descobriram-se at agora poucos vestgios da influncia helens-
tica nos templos e nas pirmides de Mroe35. O templo construdo por Erga-
menes em Dakka, na Baixa Nbia,  de concepo puramente egpcia. Quando
Ergamenes morreu, sua mmia foi encerrada no interior de uma pirmide pr-
xima de Mroe, decorada com cenas extradas do Livro dos Mortos. Azekranon
(Ezekher-mon), seu sucessor, mandou construir um templo em estilo egpcio
nas proximidades de Debd, no longe de Filas.
    A vida do povo de Mroe era muito semelhante  dos egpcios. Nossos
conhecimentos sobre a vida e a sociedade daquela poca baseiam-se unicamente
no estudo de achados arqueolgicos, j que a escrita merota ainda no foi deci-
frada 36e no dispomos de uma fonte de informaes sobre a vida cotidiana to
rica quanto as pinturas tumulares do antigo Egito.
    Como no Egito, o rei era considerado divino. As rainhas desempenhavam
papel importante na vida do pas e, por vezes, governavam. Os sacerdotes exer-
ciam considervel influncia, e os templos contavam ricas propriedades. Grande
parte das concepes religiosas oficiais dos merotas inspirara-se na religio
egpcia; contudo, eles tinham tambm seus prprios deuses.

35   Ver HINTZ, F. & U. 1967. pp. 23-8.
36   Ver cap. 10.
188                            frica Antiga




figura 6.10   Clepatra VII.
O Egito na poca helenstica                                                    189



    Os costumes funerrios merotas revelam uma mistura de tradies locais e
egpcias. Pelo mobilirio encontrado, sabemos que as camas eram de estilo anga-
reeb, semelhantes s do antigo Egito (atualmente ainda em uso no vale do Nilo).
    A principal atividade da maior parte da populao merota consistia na
agricultura. Para a irrigao de suas terras, utilizavam-se do shadouf e do sakkieh,
dois dispositivos ainda hoje usados no Egito e no Sudo para transportar gua
das terras baixas para as terras altas.
    Nos dois pases foram encontrados instrumentos e armas semelhantes, como
enxs, lminas de enxada, machados e cinzeis, e muitos outros artigos menores,
como pinas. Todos esses instrumentos so feitos de bronze. Descobriram-se,
porm, em Mroe, instrumentos grandes, de ferro; a presena de grandes montes
de escrias de ferro prximos da cidade indicam que a produo e o uso desse
metal eram comuns. O minrio era fundido em fornos simples a carvo vegetal,
combustvel proveniente da madeira das accias que cresciam ao longo do Nilo.
    Objetos encontrados no Egito e no Sudo apresentam semelhanas entre si;
alguns deles, no entanto  como apoios para cabea e instrumentos musicais ,
tm uma flagrante configurao egpcia, sendo provavelmente de origem merota.
O Egito sob dominao romana                                            191



                               CAPTULO 7


            O Egito sob dominao romana
                                 S. Donadoni




    Roma: da aliana  dominao do Egito
    O Egito passou do domnio dos Ptolomeus para o de Roma de maneira
quase imperceptvel. Durante muito tempo as relaes entre Alexandria e
Roma foram marcadas por uma cordialidade que remonta  poca de Ptolomeu
Filadelfo, o primeiro da dinastia a assinar um tratado de amizade e a enviar uma
embaixada a Roma (-273). Meio sculo depois, Ptolomeu Filopator reiteraria
essa cordialidade para com Roma durante a guerra com Anbal (-218 a -201);
em retribuio, Roma poria a salvo a independncia do Egito quando da
invaso de Antoco III em -168. No entanto, ao assumir esse comportamento,
a Repblica colocava-se em condies  e adotava o hbito  de controlar os
assuntos egpcios, fato que se tornou flagrante nos ltimos anos do reinado
dos Ptolomeus. As intrigas de Clepatra VII com os generais romanos (-51 a
-30) provavelmente tinham o propsito de conseguir que estes esposassem os
interesses do seu reino, mas o apoio incondicional a Marco Antnio f-la perder
definitivamente o trono quando este foi derrotado por Otvio em -31.
    A atitude do novo soberano para com o Egito mostrou claramente a
importncia que Roma atribua  nova provncia do seu Imprio. Estacionaram
ali trs legies, com aproximadamente 15 mil homens. A elas estava confiada
a tarefa de restabelecer o controle sobre o pas, avassalado desde o reinado dos
192                                                                    frica Antiga



ltimos Ptolomeus por uma anarquia que provocara a destruio de Tebas em
-88. O primeiro prefeito romano, Cornlio Galo, conduziu as tropas para o
Alto Egito, fazendo-as ultrapassar a Primeira Catarata. Petrnio, que o sucedeu,
reconquistou a provncia de Dodecaschene, na Baixa Nbia  assim chamada
por medir 12 schenes (cerca de 120 km)  de Siena (Assu) at Hierasykaminos
(Muharraqa). A provncia j havia sido territrio dos Ptolomeus, mas desde muito
os soberanos de Mroe (atualmente no Sudo) a tinham anexado ao seu reino. A
excessiva confiana que o prefeito Galo, amigo ntimo do imperador, depositava
no sucesso de seus prprios empreendimentos veio a custar-lhe a vida, fato que
demonstra a especial importncia ento atribuda por Otvio, j cognominado
Augusto,  sua conquista. O imperador reservou ciosamente a provncia do Egito
 sua administrao direta, negando ao Senado qualquer espcie de atribuio
sobre ela. Mais tarde, chegou mesmo a proibir expressamente os senadores de
colocarem os ps na regio, lei que seria aplicada com rigor. Assim, o imperador
romano sucedeu os Ptolomeus no Egito e tratou de assumir sua funo dentro
da estrutura do pas. Tomou a si a responsabilidade dos cultos religiosos, e no
tardou para que ficasse conhecido como construtor de numerosos templos,
dentre os quais os mais bem conservados encontram-se na Nbia, em Debd,
Talmis, Dendur e Pselkis. Assumiu igualmente a responsabilidade do bem-estar
comum, utilizando o Exrcito no apenas para a manuteno da ordem pblica,
mas tambm para a restaurao do sistema de canais, bastante danificado durante
o conturbado perodo dos ltimos Ptolomeus. O emprego de tropas do Exrcito
nesse tipo de trabalho viria a se tornar corrente nos reinados de Nero (54  68),
Trajano (98  117) e Probo (276  282).


      A administrao romana
   O imperador romano copiou dos Ptolomeus o modelo de administrao
do Egito, concebido como uma espcie de vasta propriedade privada em que
a receita era globalmente administrada pela coroa. Em pouco tempo essa
explorao converteu-se no ponto de partida de toda a poltica preconizada por
Augusto para o Egito, tendo persistido apesar de seu sucessor censurar o prefeito
pela excessiva taxao  lembrando-lhe que a ovelha devia ser tosquiada, mas
no esfolada.
   A autoridade exercida diretamente pelo imperador manifestava-se no fato
de ele nomear pessoalmente o prefeito  o mais alto cargo do pas  que era
sempre um cavaleiro (e no um senador), e os demais funcionrios que agiam
O Egito sob dominao romana                                                 193



em seu nome (os procuratores)1. Um pequeno detalhe administrativo ilustra a
condio especial do Egito: tratava-se do nico pas, em todo o Imprio, onde os
anos eram contados pelo reinado do imperador, e no pelos nomes dos cnsules
em exerccio. Perpetuava-se assim a antiga prtica dos Ptolomeus e dos faras,
que envolvia o chefe de Estado romano numa aura de realeza desconhecida em
qualquer outra parte dentro da organizao do Imprio.
   Essa explorao imperial, porm, comportava um fator no existente ao
tempo dos Ptolomeus: enquanto sob estes os produtos do campo e da indstria
egpcios tinham enriquecido uma dinastia cujos interesses no iam alm das
fronteiras do pas, os imperadores viam o Egito como o celeiro do trigo que
costumavam distribuir aos plebeus de Roma a fim de obter-lhes a complacncia.
A funo de "celeiro do Imprio" tirou do Egito o fruto do seu solo sem trazer
a contrapartida substancial de um comrcio regular. A mudana da condio
de Estado independente para a de provncia causou em verdade outras e mais
importantes diferenas estruturais. Podemos descrev-las em pormenores
graas  abundante informao acerca de vrios aspectos da vida cotidiana
no Egito contida nos preciosos papiros, documentos tipicamente egpcios.
So documentos pblicos e privados que, conservados durante milnios. pelo
solo seco do Egito, chegaram s mos dos estudiosos; estes h um sculo e
meio dedicam-se a estud-los do ponto de vista filolgico e histrico. Nosso
conhecimento fundamenta-se, portanto, em textos originais, que iluminam as
narraes dos historiadores com uma preciso de dados raramente alcanada em
outros domnios do mundo antigo.
   A unidade geogrfica do governo era o nomo (atualmente conhecido como
mudiria), que se subdividia em duas toparquias, cada uma contendo certo nmero
de aldeias (kome). Os nomos do Alto Egito compunham uma unidade superior,
a Tebaida, semelhante ao Heptanomis (os sete nomos do Mdio Egito) e aos
nomos do Delta. O nomo era governado por um estratego (antigo ttulo militar
ptolomaico), que tinha a seu lado, como tcnico administrativo, um escriba
real (ttulo tambm ptolomaico). Funcionrios subalternos administravam as
unidades menores, tambm obedecendo a tradies mais antigas.
   Nova, porm, era a administrao central, cujo ncleo estabelecera-
-se em Alexandria, a antiga cidade real, que funcionava agora como capital
em substituio a Mnfis. Esse estado-maior da administrao compunha-
-se apenas de cidados romanos nomeados diretamente pelo imperador. Em


1   Ou "representantes": pro = em lugar de; curare = encarregar-se de.
194                                                                                  frica Antiga




Figura 7.1 Cabea de tetrarca. (Fonte: Grimm et Johannes. "Kunst der Ptolemer  und Rmerzeit im
gypt". 1975. pr. 59. Foto Museu do Cairo.)
O Egito sob dominao romana                                                 195



primeiro lugar vinha o prefeito, chefe de todos os departamentos, inclusive
das finanas, do exrcito e da justia. Seu poder era limitado apenas pela
possibilidade de se apelar contra suas decises ao prprio imperador. Para o
cumprimento de seus deveres, o prefeito dispunha de um conselho, tambm
constitudo por cavaleiros romanos. O juridicus, o dikaiodotes e o archidikastes
assistiam-no na administrao da justia; o procurator usiacus2, na administrao
financeira dos recursos pessoais do imperador; e um cavaleiro encarregava-
-se dos templos. Os grupos de nomos estavam tambm sob a autoridade de
trs epistrategoi, cavaleiros da categoria do procurador. Segundo a tradio
da organizao romana, a pessoa encarregada do comando militar devia
ser igualmente responsvel pela administrao, em geral, e pela justia, em
particular. Essa ideia afetou profundamente o antigo mecanismo judicial, que,
sob a lei egpcia, reconhecia autoridade aos juzes locais nos casos em que
os documentos estivessem na lngua do pas e, nos demais casos, aos juzes
gregos. O prefeito passara a ser o nico juiz; podia, evidentemente, delegar
seu poder a outros, em especial aos estrategos, permanecendo, no entanto, o
nico responsvel. Todo ano fazia uma viagem pelo pas para resolver os casos
mais complexos (era o chamado conventus, que teve lugar em Pelsio, perto de
Alexandria, em Mnfis e em Arsnoe, no Faium). Aplicava o direito romano
aos cidados romanos e, aos outros, o direito dos estrangeiros, o qual acatava
os usos e costumes do pas, embora com algumas restries.
    Esses exemplos bastam para mostrar como a presena romana era capaz
de transformar a estrutura do Egito ptolomaico. Mas havia outros fatores,
j desde o incio da poca de Augusto, com um potencial de transformao
ainda maior. A administrao ptolomaica caracterizava-se pela centralizao
e compunha-se principalmente de funcionrios pagos, cuja remunerao
consistia no direito sobre propriedades agrcolas de dimenses proporcionais
 importncia de suas funes. O Exrcito, ademais, era uma organizao
hereditria que comportava o benefcio, igualmente hereditrio, de cultivar
propriedades cujas dimenses eram fixadas segundo determinados critrios (se
o funcionrio era grego ou egpcio, se possua um cavalo para sustentar ou no,
e assim por diante).  poca ptolomaica, o sistema j sofria de um desgaste
inevitvel e, sob os romanos, transformou-se completamente. O funcionrio
remunerado foi substitudo pelo magistrado honorrio. Ao mesmo tempo,
instituram-se colgios formados por pessoas que desempenhavam as mesmas


2   De ousia, propriedade.
196                                                                    frica Antiga



funes com responsabilidade coletiva. Ao lado do strategos encontravam-se
os archontes (comandantes); ao lado do komogrammateus, escriba da aldeia, os
presbyteroi (ancios).
    Embora o Estado no mais se encarregasse da administrao nem a custeasse,
as pequenas e mdias propriedades privadas ampliavam-se com a distribuio
de terras at ento reais e usufruturias (os kleroi indenizavam os empregados
pblicos). Surgiu assim uma classe de proprietrios, dentre os quais se elegiam os
magistrados no-remunerados; estes exerciam suas funes como um dever, um
munus, tendo sido previamente recompensados com direitos de propriedade. A
essa classe de proprietrios e de administradores potenciais, o Imprio confiava a
defesa de seus interesses, escolhendo como favorito um grupo social e opondo-o
aos demais.
    Durante o reinado dos primeiros Ptolomeus, os gregos ocupavam de facto
uma posio privilegiada, posio que sofreu considervel declnio aps a batalha
de Rafia (-217), quando as tropas do Egito foram vencidas, e sobretudo durante
os dias conturbados dos ltimos reis da dinastia.
    Diante da necessidade de opor um grupo a outro, os ocupantes romanos
retomaram o velho costume e devolveram aos gregos sua posio privilegiada,
dessa vez no apenas de fato, mas tambm de direito. Os egpcios pagavam
uma taxa de capitao (a laographia,  qual o homem estava sujeito pelo simples
fato de existir), de que os gregos estavam isentos. Os habitantes das capitais
dos nomos, as metrpoles, pagavam menos que os aldees; os camponeses no
podiam abandonar as terras que cultivavam, as idia. Assim, o importante era
pertencer a uma famlia de educao grega, estado que uma pessoa s estava em
condies de reivindicar caso pudesse provar com documentos que seus avs
paterno e materno haviam frequentado o gymnasion, a escola grega.  poca dos
Ptolomeus, o gymnasion era uma instituio livre; sob os romanos, no entanto,
ficou restrito aos metropolitanos e seu controle passou s mos do Estado.
S se podia considerar graduado no gimnasion (apo tou gymnasiou) aquele que
se submetesse a um exame dos ttulos genealgicos (epikrisis). Caso pudesse
comprovar sua pretenso, era considerado burgus urbano helenizante, em
oposio aos habitantes do campo, em sua maior parte camponeses e egpcios.
Os direitos dos egpcios enquanto tais desapareceram nesse novo contexto social,
que acima de tudo objetivava organizar uma slida classe mdia interessada no
futuro do Imprio.
    Cabe mencionar aqui o status particular das cidades autnomas (poleis)
no reinado dos Ptolomeus, tais como Ptolemaida, no Alto Egito, e a antiga
O Egito sob dominao romana                                                   197



e gloriosa Nucratis3, no Delta. A terceira polis, Alexandria, ainda era o maior
porto do Mediterrneo, rivalizando com Roma em importncia e populao.
   No entanto, perdeu seu Senado e se converteu na base da unidade naval
conhecida como frota Augusta Alexandrina, enquanto a dois passos dali, em
Nicpolis, acampava o Exrcito romano. Os alexandrinos, clebres por sua
mordacidade e por seu vigor de esprito, nunca mantiveram boas relaes com
seus novos senhores, e no perdiam a oportunidade de lhes demonstrar isso.


    O Egito sob a dominao romana
    Por muito tempo essas bases da dominao romana permaneceram intactas.
A vida provincial desenvolvia-se numa pax romana paga pelos impostos sobre o
trigo (annona), cuja taxao era fonte de constantes rebelies e protestos. Tibrio
(14  37), sucessor de Augusto, pde reduzir a duas as legies estacionadas no
Egito. Foi sob seu sucessor que irromperam pela primeira vez conflitos entre os
gregos de Alexandria e os numerosos judeus que viviam na cidade. Surgia assim
uma rivalidade onde se alternavam lutas sangrentas e queixas oficiais levadas ao
imperador em Roma. Uma literatura de carter edificante conhecida como Atos
dos Mrtires de Alexandria narra em tons apologticos os julgamentos dos judeus.
Roma procurou impor solues de equilbrio, que, no entanto, no contentaram
nenhuma das partes, cada qual se sentindo prejudicada.
    As relaes entre o governo e os judeus do Egito agravaram-se durante a
revolta na Judeia. Vespasiano (69  79), que se tornara imperador na Sria e
fora aclamado em Alexandria, convocou as legies de Nicpolis para o cerco de
Jerusalm. Aps a destruio desta cidade no reinado de Trajano (98  117), os
judeus do Egito rebelaram-se e sitiaram Alexandria, num acontecimento que,
durante longo tempo, foi lembrado como a "Guerra dos Judeus". Derrotados
os rebeldes pelo general Mrcio Turbo, a colnia, judaica de Alexandria deixou
de existir.
     exceo, porm, desses eventos particulares, todo o primeiro sculo do
Imprio e os primeiros anos do sculo seguinte constituram um perodo de
relativa calma e prosperidade. O imperador Nero (54  68) enviou exploradores
ao reino de Mroe, com o qual mantinha relaes comerciais pacficas; Vespasiano
tornou-se popular em Alexandria, onde se lhe atriburam poderes miraculosos;
Trajano (98  117) reduziu as legies estacionadas no Egito a apenas uma, o

3   Colnia grega que remonta ao perodo sata.
198                                                                    frica Antiga



que indica uma situao de calma. Este ltimo imperador ainda mandou abrir
um canal ligando o Nilo ao mar Vermelho com o propsito de desenvolver o
comrcio com o Oriente e competir com as rotas das caravanas, que levavam 
Sria por territrios fora do controle romano. Todas essas medidas beneficiaram
Alexandria, ainda o principal porto do Mediterrneo.  importante observar,
ainda, que Trajano enviou o trigo de que o Egito necessitava quando a fome
assolou esse pas, invertendo a norma que obrigava o Egito a pagar o annona
a Roma.
    O sucessor de Trajano, Adriano (117  138), demonstrou interesse ainda
maior pelo Egito, e em 130 e 131 realizou uma longa viagem pelo pas em
companhia da esposa. A ele o Egito deve a reparao das destruies perpetradas
em Alexandria durante a Guerra dos Judeus e a fundao, no Mdio Egito,
da cidade de Antinpolis, em homenagem ao seu favorito Antnoo, que ali
voluntariamente se afogara para salvar seu senhor  diz-se  de alguma obscura
ameaa anunciada pelo orculo. O jovem mrtir foi deificado e identificado a
Osris, conforme a tradio egpcia da apoteose por afogamento. Existiram,
porm, razes de ordem prtica para a fundao da cidade: Antinpolis ganhou
o status de polis, ou cidade livre, tornando-se um centro filo-romano no interior
do Egito e ponto de partida de uma rota de caravanas ligando o mar Vermelho
ao vale do Nilo.
    A situao econmica dos camponeses e dos pequenos proprietrios,
minuciosamente documentada nos papiros, mostra, no entanto, que a
discriminao em favor da classe mdia  norma da poltica romana  acabaria
por gerar maus frutos. Os humildes empobreceram, e a inquietao comeou a se
manifestar. Um dos primeiros sintomas foi o assassnio do prefeito de Alexandria
no reinado do sucessor de Adriano, Antonino Pio (138  161), que precisou
ir at o Egito para restabelecer a ordem. Seu filho, Marco Aurlio, filsofo e
filantropo (161  180), enfrentou uma situao ainda mais crtica quando os
boukoloi, criadores de gado do Delta, organizaram-se numa violenta insurreio
liderada pelo sacerdote egpcio Isidoro. Os rebeldes estavam unidos por um
entusiasmo mstico devido, como pretendem alguns,  prtica do canibalismo
ritual; no obstante, lutaram com herosmo pelo direito a uma vida menos
miservel e pelo reconhecimento racial. Os alexandrinos, que desfrutavam
de privilgios que os egpcios no tinham, colocaram-se ao lado de Roma. A
rebelio no pde ser debelada pelas guarnies locais. Foi preciso que o general
vido Cssio trouxesse suas legies da Sria; ainda assim, s logrou bater os
criadores de gado aps atir-los uns contra os outros. O mesmo vido Cssio,
em 175, ao se espalhar o boato de que o imperador estava morto, proclamou-se
O Egito sob dominao romana                                                                          199




figura 7.2   Cabea de Vespasiano. (Fonte: Grimm et Johannes. Op. cit. 1975. pr. 36. Foto Museu do Cairo.)
200                                                                    frica Antiga



imperador com o apoio de suas tropas em Alexandria. A intentona  a primeira
desse gnero na histria do Egito  terminou sem grandes danos, uma vez que
Marco Aurlio perdoou o imprudente general.
    A tenso entre Roma e Egito no cessou de aumentar apesar das reformas
de Stimo Severo (193  211). Este restituiu a Alexandria o Senado (boule)
que, smbolo de autonomia, fora dissolvido por Augusto. Quando Caracala
(211  217), seu sucessor, visitou Alexandria, ficou to irritado com as zombarias
dos cidados que imediatamente ordenou um massacre geral dos jovens aps
reuni-los sob o pretexto de incorpor-los ao Exrcito. Consumada a chacina, as
tropas deixaram os quartis de Nicpolis e estacionaram na cidade para for-la
 submisso.
    Esses episdios sangrentos em parte diminuram a importncia do gesto
mais clebre do imperador: a outorga da Constituio Antoniniana em 212.
Esse documento capital estendia o direito de cidadania a todos os habitantes
do Imprio, abolindo as barreiras que separam os provincianos dos cidados
romanos. At aquele momento, com exceo dos funcionrios vindos de fora,
era raro que cidados romanos se fixassem no Egito. A maior parte deles era
composta de egpcios, que, aps servirem no Exrcito romano por 20 ou 25 anos,
recebiam a cidadania no momento da dispensa e voltavam para sua cidade natal
como figuras de destaque dentro do pequeno grupo de metropolitanos.
    A Constituio extinguiu, em princpio, essa duplicidade de status dos
habitantes do Imprio. O direito de Roma passou a ser o direito comum, e a
estrutura geral da sociedade sofreu uma completa transformao. No entanto,
se algum pas sentiu menos que os outros essa revoluo social, foi o Egito.
Um artigo da Constituio exclua da cidadania os dediticii, aqueles que se
haviam rendido aps uma derrota militar, categoria em que ficavam includos
os egpcios. Mais uma vez os imperadores beneficiavam a classe mdia urbana
helenizada em detrimento do campesinato autctone. Um outro decreto de
Caracala interditou aos egpcos a entrada em Alexandria, exceto para a entrega
do combustvel destinado s termas e do gado para abate. Isentava, porm,
aqueles que desejassem  e que tivessem condies para isso  viver na cidade
visando adquirir uma formao que os assimilasse aos gregos. Nada poderia
mostrar com tanta clareza o carter econmico da discriminao.
    Juntamente com a Constituio, o sistema administrativo como um todo
sofreu transformaes. No momento em que Alexandria recobrava o Senado,
uma reforma geral alterou o status das cidades. As metrpoles transformaram-se
em cidades (poleis) e assumiram diretamente a administrao de suas provncias.
as cargos pblicos passaram a ser confiados a membros do Senado (boule) 
O Egito sob dominao romana                    201




Escavaes polonesas em Km el-Dikka,
Alexandria
Figura 7.3 Termas romanas e hipocausto.
Figura 7.4   O corredor que circunda o teatro
romano.
202                                                                      frica Antiga



agora presentes em todas as cidades  e no s pessoas "ricas e capazes" (euporoi
kai epitedeioi), que o epistratego escolhia ao acaso. Entretanto, cada senador
devia prestar servio por um determinado perodo na administrao e custe-
-la em parte. Alguns papiros registram relatos completos de reunies dos altos
colgios em que os prytanes (senadores) decidiam quem deveria ocupar os cargos
pblicos. Alguns candidatos qualificados procuravam evit-los. Com efeito, essas
honras comearam a se tornar insustentveis numa economia to fortemente
atingida pela revolta dos criadores de gado e pela consequente runa do sistema,
que, assim, perdeu grande parte de seu antigo esplendor.
    O Egito no era mais o celeiro do Imprio. Desse papel se incumbiu a frica
(o atual Magreb) j a partir do final do sculo II; isso s poderia significar que o
Egito se havia exaurido. Iniciou-se um movimento que aos poucos foi tomando
vulto e se tornou perigoso: a fuga (anachoresis) dos agricultores do campo para
o deserto, por no terem mais condies de pagar os impostos exigidos pelo
Estado.
    Em meados do sculo III irrompeu uma srie de acontecimentos altamente
dramticos. Um prefeito do Egito, Marco Jlio Emiliano, proclamou -se
imperador em 262 e aps reinar uns poucos meses foi violentamente derrotado
por Galiano; pela mesma poca, povos estrangeiros atravessaram as fronteiras,
fizeram incurses pelo pas e chegaram a ocupar o territrio durante algum
tempo. No foi por acaso que no reinado de Cludio II (268  270) um egpcio
de nome Thimagenes pediu o auxlio dos palmirenses. Estes viviam numa rica
aldeia caravaneira e, embora independentes, eram aliados do Imprio. Sua
rainha, Zenbia, sem romper abertamente relaes com Roma, enviou um
exrcito de 70 mil homens, que exigiu das legies romanas grandes esforos:
tomando o povo o partido dos invasores, as vitrias dos romanos tornavam-se
incuas. Mesmo aps Aureliano ter conseguido dominar a situao e rechaado
os palmirenses, algumas faces anti-romanas da populao, sob a liderana de
um certo Firmo, aliaram-se aos invasores que ainda permaneciam no Egito.
Ligaram-se tambm a um povo de quem se comeava a falar com temor, os
Blmios, que eram nmades que ocupavam a Baixa Nbia e amide apareciam
no Alto Egito  vindos do deserto, que controlavam , semeando o terror entre
as populaes agrcolas.
    O general Probo (276  282), que sucedeu a Aureliano aps ter comandado
suas tropas, conseguiu dominar os palmirenses, os Blmios e seus aliados da
guerrilha egpcia. No poupou esforos para melhorar a situao do pas, que
se encaminhava para a runa, desinteressado de uma vida social centrada na
administrao tradicional. A acolhida dispensada at mesmo aos Blmios, que
O Egito sob dominao romana                                                   203



agiam como saqueadores nmades, mostrou claramente que a comunidade
precisava ser fortalecida a partir do interior, insuflando nas populaes uma
nova confiana. Esse, sem dvida, foi o objetivo de Probo quando, aps derrotar
os brbaros e proclamar-se imperador, empregou seu exrcito na construo de
canais, visando introduzir melhorias na agricultura.
    A crise do Egito apenas refletia, num contexto bem-definido, a crise mais
ampla do prprio Imprio. Diocleciano (284  305) foi quem ousou enfrentar
esse problema, remodelando todo o sistema do Estado (por ser vasto, esse assunto
s ser tratado aqui no que respeita ao Egito). O novo imperador compreendeu
claramente a situao e decidiu abandonar a Nbia, aberta s invases dos
Blmios, entregando-a aos Nobatas, povo africano aparentado aos Blmios  na
condio de que assumissem a proteo da fronteira meridional do Imprio. Para
essa tarefa recebiam somas que seus rgulos (reguli, basiliskoi) se compraziam
em chamar de tributo.
    O Egito ficava, ento, dividido em trs provncias, cada qual compreendendo
uma epistrategia. As duas provncias setentrionais, o Delta e o Heptanomis (os
sete nomos), passaram a chamar-se Aegyptus Jovia e Aegyptus Herculia, ambas
sob o governo de um funcionrio civil (praeses) sem autoridade sobre as foras
armadas. A provncia meridional, Tebaida, mais exposta a invases, submetia-se
a um dux, com autoridade tanto civil quanto militar. O Egito perdeu o carter
de provncia isolada e passou a cunhar a mesma moeda do restante do Imprio.
Sua administrao viu surgir, assim como nas demais provncias, a figura nova do
curator civitatis, oficial de tributao da cidade que se encarregava das questes
fiscais. Ao mesmo tempo, passou a vigorar um novo sistema de impostos, que,
em termos gerais, fixava taxas para um perodo de quinze anos (indictiones). Isso
representava certa melhoria frente ao caos da tributao arbitrria e imprevisvel;
no entanto, s implicaria uma mudana significativa caso houvesse equilbrio
entre a tributao e todo o sistema de produo de riquezas. A comunidade
tendia, insensivelmente a princpio e cada vez mais manifestamente depois, a
se imobilizar em categorias fixas, das quais o contribuinte procurava escapar
quando as taxaes se tornavam demasiado pesadas. Por conseguinte, o Estado
teve de reforar a imobilidade: a ningum era permitido abandonar sua funo.
Os camponeses deviam continuar camponeses e permanecer na mesma terra,
convertendo-se em servos da gleba, mas tambm os honestiores (cidados
respeitveis) ficaram atados aos deveres de contribuintes e administradores.
Logo o anachoresis se transformou numa necessidade em todos os nveis da
escala social. Apenas as pessoas com autoridade poltica bem definida podiam
fazer valer seus direitos. Naturalmente, os menos afortunados tendiam a se
204                                             frica Antiga




figura 7.5 Estatueta de um gladiador negro
em p, vestindo uma tnica, couraa e elmo,
armado de escudo e adaga. (Fonte: E. Breccia.
"Terracota" II. 1934. Foto Museu Greco-Romano
de Alexandria, Inv. 23241.)
Figura 7.6 Estatueta de um soldado negro em
p, empunhando um machado duplo. (Fonte: E.
Breccia. 1934. Foto Museu Greco-Romano de
Alexandria, Inv. 23099.)
Figura 7.7 Ladrilho de cermica: negro
ajoelhado, soprando um instrumento musical.
(Foto Allard Pierson Museum, Amsterdam, Inv.
1991.)
O Egito sob dominao romana                                                  205



agrupar em torno desses potentados, acreditando na sua proteo contra o fisco
e confiando-lhes a disponibilidade de suas propriedades. O governo utilizava-
-se de todos os meios legais para combater essa tendncia  formao de uma
sociedade dominada e organizada por grandes proprietrios de terras; a lei
era, contudo, impotente, uma vez que no considerava as causas subjacentes
ao processo que procurava deter. Quando os grandes proprietrios rurais se
viram no direito de coletar, eles mesmos, os impostos que deviam ao Estado
(autopragia), o sistema de propriedade sofreu uma completa transformao.
A pequena propriedade, sustentculo da classe mdia no incio do Imprio,
desaparecia sob a propriedade  e a autoridade  baronial, que dividiu as antigas
unidades administrativas municipais em outras unidades econmicas.


    O impacto do cristianismo sobre a sociedade egpcia
   Todo esse processo evidentemente se desenvolveu durante longo tempo e
paralelamente a outro: a apario do cristianismo no Egito. A partir de uma
perspectiva histrica bastante abrangente, poder-se-ia considerar esse fenmeno
como um dos momentos de intercmbio entre o Egito e o restante do mundo
antigo no mbito da religio. So bem conhecidas a difuso e a importncia dos
cultos do vale do Nilo no Imprio Romano. sis e Osris (Serpis) so venerados
em toda parte e despertam em povos de diferentes regies as mesmas esperanas
msticas de salvao, as mesmas experincias de f ardente.
   Esses cultos, cuja influncia sobre a conscincia e os sentimentos das
massas dificilmente pde ser controlada pelas autoridades polticas, viam-se
frequentemente ameaados. Embora tivesse erguido templos no Egito, Augusto
no escondia sua descrena nos deuses do pas. Estes haviam ajudado seu inimigo
Antnio, cujas relaes com Clepatra, segundo certos rumores, chegavam a
ameaar a posio imperial de Roma. A derrota de Antnio em Actium tambm
representou, oficialmente, uma derrota dos deuses egpcios. J Calgula teve
outra atitude para com as divindades estrangeiras; Tito (79  81) consagrou um
touro a pis, e seu sucessor, Domiciano (81  96), foi um ardoroso adepto dos
deuses do Egito, a quem se sentia ligado por uma gratido supersticiosa desde
que, em situao de perigo, se salvara disfarando-se em sacerdote de sis. A
partir de ento a paixo de Osris, o luto de sis e a ressurreio de seu esposo
transformaram-se em esperana para os sofredores, que neles reconheciam
uma profunda harmonia com a natureza humana, ao lado de qualidades que a
transcendiam.
206                                                                      frica Antiga



    Desse modo, a experincia religiosa do Egito deve ter colaborado para a
propagao de uma outra religio de salvao  como se pode considerar, sob
alguns aspectos, o cristianismo , principalmente por se tratar de um pas em que
as preocupaes com a vida. alm-tmulo sempre foram um fator preponderante
na especulao religiosa. Alm do mais, durante alguns sculos existiu no Egito
uma colnia judaica, cuja presena, j  poca de Ptolomeu Filadelfo, fora
motivo para a traduo grega do texto da Bblia, conhecida como "Septuaginta".
Portanto,  provvel que, desde muito cedo e em diferentes comunidades; fossem
conhecidos no Egito os fundamentos bblicos do cristianismo, o que a princpio
deve ter facilitado a difuso da nova religio.
    Em verdade pouco se conhece do assunto. Importa assinalar que a difuso
do cristianismo assemelha-se  de outras experincias religiosas, como as dos
gnsticos ou dos maniqueus, cujos textos originais o Egito conservou em papiros
ou pergaminhos exumados de seu solo. Tudo isso indica uma crise no mundo
pago, cuja religio tradicional no mais satisfazia as necessidades espirituais dos
povos da poca. No Egito, o ensinamento religioso exigia que a linguagem do
pas fosse adotada como lngua ritual. O cristianismo, assim como o gnosticismo
e o maniquesmo, adotou o copta na forma de um ou outro dos seus diversos
dialetos provinciais ou regionais. Esse fato significa no apenas que os sacerdotes
falavam s classes mais humildes da populao, quelas que no tinham acesso 
cultura grega das classes dominantes, como tambm que, no domnio da religio,
dava-se prioridade  cultura nacional e  populao nativa, que praticamente
no gozava dos benefcios da Constituio Antoniniana e estava impedida de
participar dos novos quadros de cidados do Imprio. Enquanto do ponto de
vista oficial o egpcio nativo era um dediticius que no merecia ser assimilado,
a palavra "heleno" tornou-se, para os cristos, sinnimo de "pago", adquirindo,
assim, uma conotao pejorativa.
    O nmero e a importncia dos cristos manifestam-se, por um paradoxo
estranho mas no incomum, nas constantes perseguies movidas contra
eles pelo imperador A de Dcio (249  251) deixou no Egito uma srie de
documentos peculiares: trata-se dos certificados conferidos aos que, em presena
das autoridades, faziam um sacrifcio pago, queimando alguns gros de incenso
como saudao ao imperador. Os que se recusavam a faz-lo eram considerados
cristos e punidos como sditos desleais. Mas a perseguio que eclipsou todas
as demais na memria popular e inaugurou a era copta ("era dos mrtires") foi a
que Diocleciano (303) desencadeou com toda a energia e rigor de que era capaz.
Foi a prova final, a que patenteou a inutilidade de fazer frente a um movimento
que j se consolidara. Alguns anos mais tarde, Constantino reconheceu em
O Egito sob dominao romana                                                     207



Milo (313) o direito de professar a f crist, dando incio  longa tarefa de
adaptar a sociedade crist s necessidades do Imprio. A partir desse momento,
a histria do cristianismo no Egito fica estreitamente vinculada s relaes entre
Alexandria e Constantinopla, a nova capital do Imprio.


    O papel particular do Egito no interior do Imprio cristo
    A partir do momento em que o Imprio, sob Teodsio, torna-se oficialmente
cristo, a histria do Egito fica diretamente ligada  atitude oficial dos
imperadores, que, de Constantinopla, mais e mais reivindicam o direito de
definir o dogma a ser ensinado e aceito em todo o Imprio. O desejo de unidade
jurdica fez-se logo acompanhar de uma insistncia quanto  uniformidade da
religio, conhecida como ortodoxia.
    Enquanto religio, o cristianismo caracterizava-se por certo nmero de artigos
de f; desde os primeiros sculos de sua existncia, as diferentes concepes e
interpretaes desses artigos suscitaram divergncias entre os adeptos.
    Enquanto a Igreja no esteve em condies de sair  luz do dia, as querelas entre
os fiis no tiveram significado poltico. To logo, porm, a comunidade Crist
se tornou representativa das massas do Imprio, suas disputas transformaram-se
em assunto de Estado. O prprio Constantino teve de intervir vrias vezes para
eliminar as dissenses que comeavam a envenenar as relaes entre grupos de
cristos e que, sob o disfarce da teologia, no raro ameaavam a ordem pblica.
Para o esprito prtico e autoritrio de Constantino, a discusso religiosa 
a heresia  devia desaparecer para dar lugar a uma concepo ordenada e
definitivamente reconhecida do que era verdadeiro e, portanto, legtimo. Os
sucessores seguiram-lhe o exemplo; tal atitude originou constantes tenses entre
o palcio de Constantinopla e o bispado de Alexandria, cada qual chamando a
si a responsabilidade pela manuteno da verdadeira f, ou ortodoxia.
    Essas contendas religiosas opunham amide as tradies locais 
profundamente arraigadas, conservadas e veneradas  s decises abstratas e
remotas das autoridades. Tanto em Alexandria como em Antioquia, o prestgio
das sedes episcopais mais antigas da cristandade firmou-se pelas qualidades
pessoais de alguns dos prelados que as ocupavam. Mais importante talvez seja
o fato de as duas capitais intelectuais do mundo greco-romano imprimirem
s disputas religiosas ali desenvolvidas uma feio difcil de conciliar com as
concepes imperiais  e mesmo, por vezes, com as concepes do bispo de
Roma.
208                                                                     frica Antiga



    Em Alexandria o cristianismo assumiu, desde muito cedo e por um processo
normal de desenvolvimento, um carter acentuadamente diferente do cristianismo
do resto do pas. A cultura grega, de que a cidade estava impregnada, manifestava-
-se at mesmo na maneira com que a nova religio foi recebida. A mudana
para o cristianismo tomou a forma no de um ato revolucionrio, mas de uma
tentativa de justificar determinados conceitos novos e integr -los no amplo
quadro da filosofia e da filologia da Antiguidade. Os alexandrinos estavam diante
do modelo concebido, l mesmo, pelo judeu Filo (sculo I da Era Crist) que
procurou dar s Escrituras um sentido grego e universal. Organizou-se, ento,
um Didaskaleion, cujo fundador parece ter sido um homem chamado Panteno,
estoico convertido, e, portanto, versado em filosofia grega. A perseguio de
Stimo Severo fechou a escola por algum tempo; esta, no entanto, retomou suas
atividades sob a direo de personalidades como Clemente de Alexandria (cerca
de 145  210), homem de prodigiosa erudio, e seu discpulo Orgenes (185 
252), com quem a especulao filosfica e o interesse filolgico atingiram o pice.
Orgenes procurou reconciliar o cristianismo com o ensinamento do fundador
do neoplatonismo, Amnio Sacas. Essas figuras eminentes empenharam-se em
enxertar o cristianismo, ainda em formao, na tradio clssica, tornando-o
apto a receber a herana de uma civilizao  da Grcia e de Roma  que em
princpio parecia incompatvel com a doutrina crist. Essa foi a mais importante
contribuio do Egito ao cristianismo nascente. Tal atitude, porm, no atraiu,
ao que parece, a populao no-grega do pas, cuja experincia religiosa era de
carter mais instintivo. Quanto ao bispo de Alexandria, encontrava-se numa
situao bastante peculiar em relao aos padres (presbyteroi), uma vez que estes
formavam, como a princpio era comum na Igreja, um colgio poderoso. Para
manter sua autoridade, portanto, via-se obrigado a confiar nos bispos provinciais
(os chorepiskopoi, ou bispos da chora, isto , do Egito  exceo de Alexandria),
cuja consagrao dependia dele.
    Esse conflito de interesses e posies gerava srias disputas. A primeira
delas surgiu quando o bispo Melcio de Licpolis (Assiut) apoiou os defensores
do rigorismo, que recusavam admitir no seio da Igreja aqueles que se tinham
omitido durante as perseguies.
    Uma outra disputa, que acarretou consequncias mais srias, resultou das
diferenas de concepo entre clrigos e entre escolas filosficas quanto  dupla
natureza, humana e divina, de Cristo. Teria ele duas naturezas indissociveis
 sendo apenas uma divina e a outra, humana, simples aparncia  ou duas
naturezas distintas? O sacerdote rio, da Sria, optou pela segunda soluo ao
problema, suscitando uma rplica oficial da Igreja que acabou por conden-lo.
O Egito sob dominao romana                                                    209



O mais ardente defensor da ortodoxia foi Santo Atansio (293  373), patriarca
de Alexandria, que em meio a essa tempestade triunfou perante os prprios
imperadores que apoiavam o arianismo, sendo reconhecido como paladino da
Igreja tanto pelos gregos como pelos romanos. Meio sculo depois, outro patriarca
de Alexandria, Cirilo (412  444), ops-se s doutrinas de Nestrio, patriarca
de Constantinopla, e soube fazer frente ao prprio imperador, Teodsio II. Por
essa poca, Cirilo corrigiu as afirmaes anteriores dos telogos, sublinhando
que em Cristo havia uma s pessoa e duas naturezas. Aps sua morte, o monge
Eutquio, apoiado pelo sucessor de Cirilo, Discoro, foi alm ao sustentar que
em Cristo havia apenas uma natureza. O Conclio de Calcednia condenou
essa doutrina em 451. Posteriormente os alexandrinos, orgulhosos da sabedoria
e da santidade de seus patriarcas, adotaram-na como verdade absoluta. Essa
tendncia filosfico-teolgica seria conhecida mais tarde como monofisismo.
    As decises do Conclio de Calcednia (451), que resolveu definitivamente
a questo ao declarar obrigatria a crena na unio ntima de duas naturezas
em Cristo, deflagraram em Alexandria uma crise que durou at a conquista
muulmana. Aps o Conclio, Alexandria passou a ter dois patriarcas: um
melquita (do rabe malik, que significa rei), nomeado por Constantinopla e
subordinado ao rei, que exercia os poderes administrativo, judicirio e policial,
e um monofisita, que se opunha ao anterior e era, aos olhos dos egpcios, o
defensor da nica verdade teolgica aceitvel  a unidade da natureza de Cristo.
O poder do patriarca melquita, estribado na legitimidade e na fora imperiais,
chocava-se com o do patriarca monofisita, que tinha como apoio um sentimento
nacional cada vez mais antibizantino.
    As rixas encarniadas e por vezes sangrentas entre os fiis tiveram como cenrio
principal a cidade de Alexandria. Ecos dos eventos quase sempre escandalosos
ocorridos naquela cidade alcanaram as provncias; contudo, o cristianismo do
vale do Nilo soube demonstrar sua veia prtica, oposta ao especulacionismo
dos alexandrinos, numa experincia que se revelaria fundamental para o
desenvolvimento da Igreja. Considerando a vida mundana como fonte e ocasio
do pecado, os cristos do Egito cultivavam de modo sistemtico o hbito de
isolar-se do mundo, formando comunidades religiosas que talvez encontrassem
precedentes no Egito pago e entre os judeus do pas (tais como os therapeutes,
cujas prticas virtuosas foram descritas por Filo), mas que agora passavam a ser
os pilares da nova religio. Podem-se distinguir diferentes fases na histria desse
movimento conhecido como monasticismo. Seu primeiro representante ilustre
foi Paulo de Tebas (234  347), um eremita que, com seu discpulo Antnio
(251  356), organizou um grupo de anacoretas. O ltimo, mas no menos
210                                                                      frica Antiga



importante, foi Pacmio (276  349), que, com agudo senso prtico, imaginou
grupos a dividirem tarefas e responsabilidades, sujeitos a um cdigo de disciplina
comum e vivendo numa comunidade altamente desenvolvida (koinobia). Chega-
-se, assim, a Schenoute de Atripe (348  466), que no Convento Branco (Deir
el-Abiad) submetia homens e mulheres a uma rigorosa disciplina, aperfeioando
no Egito o sistema posteriormente desenvolvido na Europa medieval.
   Evidentemente a rejeio da vida mundana e a organizao de grandes
comunidades no eram simples atos de f. Tratava-se, antes de mais nada,
da transferncia para o domnio da religio de fatores que, como j tivemos
oportunidade de ver, encontravam-se presentes no Egito bizantino. O termo
anachoresis tem significado tanto religioso quanto fiscal (anachoretes designa
tanto o eremita quanto aquele que foge para evitar os impostos que no tem mais
condies de pagar); o entusiasmo com que as pessoas se retiravam para viver
nos desertos denuncia as adversidades da vida cotidiana. Ademais, os numerosos
documentos relativos  vida dos monastrios mostram-nos que se tratava de
grandes organizaes proprietrias de terras, animais, oficinas, lojas e instalaes
agrcolas. Um convento podia ser rico e ativo, e seus monges pessoalmente
pobres, dedicados  vida contemplativa; tal soluo, como se percebe facilmente,
assemelha-se quela que levou ao desaparecimento das pequenas propriedades
em favor dos latifndios. Os monges encontravam nos conventos a satisfao
no somente de suas aspiraes religiosas, mas tambm de um desejo profundo,
peculiar quela poca: a fuga s dificuldades da vida e a proteo contra uma
autoridade discricionria. Esse fato pode explicar a ocorrncia de uma populao
monstica numerosa, que chegava a alcanar as dezenas de milhares, conforme
documentos da poca. A utilizao dos monastrios como refgio contra o
Estado, ou ao menos como um atenuante da incapacidade deste em cumprir as
responsabilidades para com as populaes, levou as autoridades eclesisticas a
ocuparem cada vez mais o lugar das autoridades civis. Nessas circunstncias, os
imperadores tinham boas razes para tentar impedir que os administradores se
tornassem monges.
   No  difcil compreender que essa sociedade estava menos interessada que
no passado em adotar a tradio do helenismo, tanto em sua forma clssica
quanto modificado pelas inovaes que surgiram em Constantinopla. As
tradies figurativas do perodo romano evoluram localmente para a chamada
 de maneira bastante vaga  arte copta. A literatura nacional, que ento tratava
apenas de temas religiosos, exprimia-se na lngua do pas, e a rica proliferao
de textos sacros testemunha o desenvolvimento de uma tradio a que os
historiadores do passado talvez no tenham feito plena justia.
O Egito sob dominao romana                                                                        211




figura 7.8 Pintura de Baouit. (Fonte: K. Wessel. "Koptische Kunst". Recklinghausen. 1963. fig. 100. Foto
Museu do Cairo.)
Figura 7.9   Mosteiro de Mari-Mina.
212                                                                          frica Antiga



    No entanto, o esprito de resistncia alexandrino, essencialmente teolgico,
terminou por identificar-se, no sculo VI, com o dos anacoretas. Constantinopla
exercia uma presso cada vez mais forte para impor as doutrinas do Conclio de
Calcednia, assim como diversas outras surgidas mais tarde em Constantinopla, a
um Egito relutante em aceit-las. As circunstncias combinavam-se para aumentar o
descrdito, no Egito, da Igreja oficial, rica e autoritria, responsvel pela manuteno
da ordem, e para conferir popularidade aos monofisitas perseguidos, que no sculo V
receberam forte apoio doutrinrio da Sria e que acolheriam outros perseguidos srios
no sculo seguinte. Um sentimento geral de lassido dominava os egpcios em todas
as classes sociais. A certeza de que a posio egpcia era correta e justa foi reforada
pela multiplicao de textos apcrifos relativos a episdios da vida de Cristo no Egito.
Os bizantinos tornaram-se estrangeiros indesejveis, representantes de uma poltica
de ocupao intolervel.
    Os papiros guardam informaes bastante precisas sobre o estado de esprito
da populao nas diversas camadas da sociedade. O medo, a privao e o cansao
faziam-se presentes em toda parte. No admira que o pas, empobrecido por uma
administrao rapace e inepta, dividido internamente por conflitos e separado de
Constantinopla por uma desconfiana mtua, tenha perdido seu poderio econmico.
    Em poucos anos, duas derrotas militares puseram s claras a fragilidade da
dominao bizantina.
    O rei sassnida Csroes pretendia enfraquecer Bizncio. Os sassnidas j
dominavam o sul da Arbia e dificultavam o comrcio bizantino com o mar Vermelho.
Pressionavam em trs direes: rumo  Anatlia e Bizncio, a Alepo e Antioquia, e
a Acaba e Egito, chegando ao Delta do Nilo em 615. A ocupao persa foi marcada
pela insurreio dos judeus, finalmente libertados da longa opresso romana, e pela
reapario da Igreja monofisita, que durante alguns anos permaneceu a nica Igreja
oficial.
    A reconquista do Egito por Herclio, em 629, deu aos bizantinos apenas uma
breve trgua, uma vez que estes se viam obrigados a exercer estreita vigilncia sobre
uma colnia que agora parecia ingovernvel. O terror dominou o ano de 632, quando
Bizncio, por intermdio do patriarca melquita, decidiu impor uma nova ortodoxia,
que no era nem a do Conclio de Calcednia, nem a de Roma nem tampouco a dos
monofisitas. A partir de 639, o pas passa a sofrer a ameaa dos muulmanos, e em
642, os egpcios se rendem aos novos conquistadores, que prometem estabelecer uma
economia e condies sociais mais justas. A conquista rabe veio assinalar o incio de
uma nova era na histria do Egito.
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo   213



                                         CAPTULO 8


   A importncia da Nbia: um elo entre a
      frica central e o Mediterrneo
                       Shehata Adam colaborao de J. Vercoutter




   Um breve exame do mapa fsico da frica basta para mostrar a importncia
da Nbia como elo entre a frica central  a dos Grandes Lagos e da bacia do
Congo  e o mundo mediterrnico. O vale do Nilo, que em sua maior parte
corre paralelo ao mar Vermelho, em direo ao "corredor" nbio, entre o Saara,
a oeste, e o deserto arbico ou nbio, a leste, permitiu um contato direto entre
as antigas civilizaes do Mediterrneo e as da frica negra. Assim, no deve
causar espanto a descoberta de uma admirvel cabea de bronze de Augusto em
Mroe, a menos de 200 km de Cartum.
   Embora o Nilo constitua um meio seguro de atravessar essas regies
desrticas, a viagem no  to fcil como poderia parecer  primeira vista. De
Assu at as proximidades de Omdurman, as cataratas dificultam a navegao
na direo norte-sul, chegando a interromp-la em alguns trechos. Alm disso,
as duas enormes curvas do rio aumentam muito o trajeto, constituindo-se,
em certos pontos, num srio obstculo  navegao; entre Abu Hamad e
Uadi el-Milk, por exemplo, o Nilo toma a direo sudoeste, ao invs de fluir
para o norte. Assim, na maior parte do ano, o trfego rio acima depara-se
com o escolho dos ventos e das correntezas, embora a viagem rio abaixo seja,
naturalmente, muito mais fcil. Mais ao sul, enfim, os extensos pntanos de
el-Sudd, embora no sejam intransitveis, tambm no facilitam as trocas
culturais ou econmicas.
214         frica Antiga




      Figura 8.1 O
      vale do Nilo e o
      Corredor Nbio.
      (Mapa fornecido
      por J. Vercoutter.)
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo        215



    Apesar de tudo, a Nbia continua a ser, na frica, uma zona de contatos
privilegiada, no s entre norte e sul como tambm entre leste e oeste. Na parte
meridional da Nbia, o Nilo Azul, o Atbara e seus tributrios, as plancies de
piemonte da Etipia e a depresso perpendicular  costa do mar Vermelho
proporcionam fcil acesso s terras altas da Etipia, ao mar Vermelho e ao
oceano ndico. A oeste, os uadis el-Milk e Howar, atualmente secos, vo juntar-
-se ao Nilo entre a Terceira e a Quarta Catarata, oferecendo  Nbia, juntamente
com as plancies de Kordofan e do Darfur, uma rota de fcil acesso para a
depresso do Chade e dali para o vale do Nger e a frica ocidental. Como se v,
a Nbia constitui uma verdadeira encruzilhada de caminhos africanos, um ponto
de encontro das civilizaes do leste e do oeste, do norte e do sul da frica, sem
esquecer as do Oriente Prximo, da sia distante e da Europa mediterrnica.
    Nos ltimos anos, tem-se observado a tendncia a empregar o termo "Nbia"
para designar apenas a regio setentrional do pas, situada entre a Primeira e a
Segunda Catarata. A campanha da Unesco para a Salvaguarda dos Monumentos
da Nbia reforou, se no criou, essa tendncia. Na verdade a Nbia no termina
no temvel Batn-el-Haggar, rido e pedregoso, mas estende-se bem mais ao
sul. J em 1820, Costaz, em sua Descrio do Egito, definiu-a como "a regio
do vale do Nilo entre a Primeira Catarata e o reino de Sennar", cuja capital se
encontra a mais de 280 km ao sul de Cartum. Mesmo esse ponto de vista, porm,
conquanto mais generoso, subestima a verdadeira extenso da Nbia.
    Historicamente, segundo testemunham os mais antigos textos egpcios,
viajantes vindos do norte penetraram na Nbia um pouco ao sul de el-Kab.
Durante muito tempo, a provncia egpcia situada entre Tebas e Assu foi
denominada "Terra do Arco", Ta-Seti em egpcio antigo. Ora, os documentos
hieroglficos tradicionalmente designam com esse termo o que chamamos de
Nbia. Na aurora da Histria, a Grande Nbia comeava, portanto, nas regies
arenosas do vale do Nilo, onde os "arenitos nbios" substituem as formaes
calcrias do norte. Em suas origens, a Nbia inclua a Primeira Catarata.
Seu limite ao sul  mais difcil de determinar, mas as pesquisas arqueolgicas
mostram que, a partir do IV milnio antes da Era Crist, culturas idnticas
ou aparentadas entre si distribuam-se por toda a regio, desde os confins das
montanhas etopes, ao sul, at a parte egpcia do Nilo, ao norte. Assim, para dar
maior preciso  frase de Costaz, poderamos definir a Nbia histrica como
a parte da bacia do Nilo que se estende da fronteira oeste-noroeste da atual
Etipia at o Egito, incluindo o prprio vale do Nilo, partes do Nilo Branco e
do Nilo Azul e todos os seus tributrios situados ao norte do 12 paralelo, tais
como o Atbara, o Rahad e o Dinder (ver mapas).
216                                                                   frica Antiga




figura 8.2   A Nbia antiga (segundo K. Michalowski. 1967b. p. 29).
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo      217




figura 8.3   A Alta Nbia sudanesa (segundo F. e U. Hintze. 1967. p. 26).
218                                                                    frica Antiga



     importante precisar os limites geogrficos da Nbia, de forma a podermos
reexaminar o que se conhece desse pas e compreender melhor o seu papel
histrico de vnculo entre a frica central e o mundo mediterrnico. H, contudo,
uma enorme disparidade nos nossos conhecimentos acerca das diferentes regies
da Nbia. Graas s investigaes arqueolgicas efetuadas antes da construo
ou elevao das barragens de Assu, dispomos de informaes arqueolgicas
muito mais completas sobre a Baixa Nbia  isto , a regio entre Assu e
Batn-el-Haggar (Segunda Catarata)  do que sobre qualquer outra parte do
vale do Nilo. Note-se, porm, que nenhuma escavao foi realizada antes da
construo da primeira barragem em Assu, em 1896: todos os vestgios antigos
situados nas proximidades do rio e nos limites do primeiro reservatrio foram
destrudos antes que se pudesse ter uma ideia de seu nmero, natureza ou
importncia. Somente em 1902, quando a barragem foi ampliada pela primeira
vez,  que se retomaram sistematicamente as prospeces arqueolgicas. Desde
ento, tal prtica tornou-se comum antes de cada nova elevao. Aps a ltima,
ocorrida entre 1928 e 1938, escreveram-se mais de cinquenta volumes, vrios
deles in-flio, sobre os monumentos e a arqueologia da Nbia "egpcia". Antes
do trmino da nova barragem de Shelal, Sadd-al-Ali, efetuou-se uma srie de
novas investigaes at Batn-el-Haggar. Somente agora comeam a aparecer os
relatrios completos desse ltimo empreendimento.
    Pode-se, pois, dizer que a histria e a arqueologia da Baixa Nbia so
razoavelmente bem conhecidas. S depois de publicados todos os estudos
histricos, arqueolgicos e antropolgicos atualmente em curso  que poderemos
apreciar em seu justo valor o papel outrora desempenhado por essa parte da Nbia
como elo entre o norte e o sul do continente fricano. J a Nbia ao sul de Batn-
-el-Haggar encontra-se em situao bem diferente e muito menos satisfatria. 
exceo de algumas regies muito pequenas, grande parte do pas  ainda terra
incognita do ponto de vista arqueolgico e, portanto, histrico.  verdade que os
importantes stios "faranicos" entre a Segunda e a Quarta Catarata j foram ou
esto em vias de ser escavados. O mesmo se pode dizer de um certo nmero de
stios mais especificamente "sudaneses", tais como (do sul para o norte) Djebel
Moya, alguns povoados neolticos em Cartum ou nas suas proximidades, Naga,
Mussawarat es-Sufra, Uadi ben Naga, Mroe, Ghazali, Napata, Dongola e
Kerma; nenhum desses stios, contudo, foi totalmente explorado, e alguns dos
principais, como Kerma e Mroe  centros polticos de importncia vital para o
estudo da influncia nbia na frica , mal foram tocados.
    Independente das escavaes arqueolgicas, antigos textos faranicos,
assim como gregos e latinos, oferecem algumas informaes sobre a histria
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo          219



e a civilizao da Nbia antiga e nos permitem ter uma ideia de seu papel
na evoluo da frica. No entanto, essas fontes no podem suprir a falta de
informaes arqueolgicas e literrias referentes  maior parte da Nbia, quer
se trate dos grandes vales  o prprio vale do Nilo, ao sul da Segunda Catarata,
o do Nilo Azul, do Nilo Branco e do Atbara , quer das regies mais remotas,
como Darfur e Kordofan, quer ainda das rotas orientais em direo ao mar
Vermelho e  Etipia.
    Por sua situao geogrfica, a Nbia deveria ser a regio da frica mais prdiga
em informaes bem datadas sobre os vnculos histricos entre a frica central e
a do norte, assim como entre o leste e o oeste do continente. Mas a insuficincia
de fontes  salvo para o norte do pas  no nos permite formar seno uma ideia
superficial acerca da natureza, importncia e durao desses vnculos.
    Um fato que impressionou a todos os observadores do mundo mediterrnico
antigo merece especial ateno: a Nbia era, e , uma terra povoada por negros.
Os egpcios sempre retrataram os habitantes da Nbia com uma pele muito mais
escura do que a sua. Os gregos, e posteriormente os romanos, chamavam-nos,
de "etopes", isto , "os que possuem a pele queimada", enquanto os primeiros
viajantes rabes se referiam  Nbia como Bilad-al-Suden, o "pas dos negros".
Nos textos medievais, o ttulo "Prefeito dos Nbios" escreve-se Praefectus
Negritorum e os nbios so chamados nigritas. Finalmente, nas pinturas murais
de Faras, a pele escura dos nbios distingue-se da pele clara das personagens
celestes  o Cristo, a Virgem Maria e os santos.
    Todavia, no  nossa inteno entrar, ainda que pudssemos, no debate
puramente antropolgico acerca da origem "negra" ou "camtica" dos nbios.
As representaes egpcias anteriores a -1580 fazem uma clara distino entre
o tipo fsico dos Nehesyu da Baixa Nbia, que diferem dos egpcios s pela cor
da pele, e o dos "cuxitas" que nessa poca aparecem no vale do Nilo, seja como
invasores, seja  mais provavelmente  porque os egpcios e os nbios nehesyu
entraram em contato com eles nas regies situadas mais ao sul. Esses novos
"cuxitas" no apenas tinham a pele muito escura como possuam muitos dos
traos faciais ainda hoje observados na populao da frica central e ocidental;
eram muito diferentes tanto dos nbios antigos como dos modernos.
    Africanos na lngua e na civilizao, os habitantes da Nbia estavam bem
localizados para servir de elo entre as culturas que os cercavam e com quem
eram estreitamente aparentados. Como a longa histria da Nbia  de -7000 a
+700 aproximadamente   narrada por mido nos captulos seguintes (9-12),
faremos apenas um breve relato de alguns dos aspectos que elucidam as relaes
do pas com as civilizaes vizinhas.
220                                frica Antiga




figura 8.4 Monumentos
nbios de Filas em reconstruo
na ilha vizinha de Agilkia.
Figura 8.5 O templo de sis
em reconstruo em Agilkia. 
esquerda, colunata do "Mammisi",
ou "Casa do Nascimento", onde
nasceu Hrus, o deus-Sol. (Foto
Unesco, A. H. Vorontzoff. )
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo         221



    A partir de -7000 e sobretudo durante os perodos midos do fim do
Neoltico, a Nbia parece ter sido palco de uma cultura material comum, a
todo o seu territrio, desde os limites das montanhas etopes at a regio de
el-Kab e, ainda mais ao norte, at o Mdio Egito. Apenas por volta de -3000
 que se pode perceber uma clara diferena entre a civilizao do baixo vale do
Nilo, egpcio, e o alto vale, nbio. At essa poca, prticas funerrias, cermica,
instrumentos de pedra e posteriormente de metal, muito semelhantes, se no
idnticos, so encontrados desde Cartum, no sul, at Matuar, perto de Assiut, no
norte. Tais objetos testemunham um forte parentesco entre as vrias regies no
tocante tanto  organizao social, crenas religiosas e rituais funerrios, quanto
ao modo de vida, em que a caa, a pesca e a criao animal estavam associadas
a uma forma de agricultura ainda rudimentar.
    A escrita surge no Egito por volta de -3200, enquanto a Nbia ao sul da
Primeira Catarata continua ligada aos seus prprios sistemas sociais e  sua
cultura oral. Em tomo de -2800 o uso da escrita j se havia generalizado no Egito,
provavelmente em consequncia da necessidade de uma organizao poltica
altamente centralizada, contribuindo para o desenvolvimento da irrigao e,
portanto, de uma agricultura comunitria, que viria substituir a caa, a pesca e
a criao de gado. Isso tornaria mais e mais acentuadas as diferenas entre as
civilizaes da Grande Nbia e do Egito.
    No sul, as populaes negras da Nbia, com sua cultura oral, caracterizavam-
-se por uma organizao social e poltica fragmentada em pequenas unidades
que no sentiam necessidade de adotar a escrita, cuja existncia, contudo, no
deviam ignorar, pois ainda mantinham contatos, no raro violentos, com o
mundo faranico. Impelido pelas exigncias da irrigao, o Egito, por sua vez,
desenvolveu gradualmente um tipo de organizao monrquica altamente
centralizada, visto que uma autoridade central forte era o nico meio de compelir
a populao, quando necessrio, a executar os servios coletivos indispensveis
para tornar cultivvel todo o baixo vale do Nilo: construo e manuteno de
diques paralelos ao rio, nivelamento das "bacias", abertura de canais e construo
de barragens que permitissem distribuir da melhor maneira possvel a gua das
cheias, sempre variveis (ver acima). Era natural, portanto, que duas sociedades
to distintas nascessem e coexistissem no vale do Nilo: uma, na Nbia, pastoral e
talvez ainda seminmade, embora no destituda de habilidades agrcolas, e outra
essencialmente agrcola, voltada para o cultivo intensivo da terra e politicamente
centralizada. Essas duas civilizaes "especializadas", semelhantes e autnomas
at cerca de -3000, vieram, com o tempo, a se complementar economicamente,
o que facilitou os intercmbios mtuos.
222                                                                     frica Antiga



    Infelizmente,  muito difcil detectar, em seus pormenores, os vnculos
que se estabeleceram entre as duas sociedades. A partir do final do III
milnio, o conhecimento dessas relaes fundamenta-se exclusivamente
em fontes egpcias. As fontes literrias oferecem uma viso mutilada da
realidade, tendendo a mencionar apenas as expedies militares; por sua
vez, as evidncias arqueolgicas  exceto para a Baixa Nbia  so bastante
incompletas, limitando-se a artefatos nbios encontrados no Egito ou, no
melhor dos casos, a objetos egpcios descobertos em stios nbios entre Assu
e a Segunda Catarata.
    Tal como se apresentam, essas informaes sugerem a existncia de laos
estreitos entre o alto e o baixo vale do Nilo. Sua origem cultural comum, que
no deve ser negligenciada, favoreceu os intercmbios. Utenslios de cermica
egpcios protodinsticos e tinitas so encontrados em reas to meridionais
quanto a Catarata de Dal, e mesmo alm. Tais descobertas testemunham a
troca de artigos manufaturados entre o norte e o sul: aos objetos egpcios
encontrados na Nbia  vasos, prolas, amuletos  correspondem o bano, o
marfim, o incenso e talvez a obsidiana do sul, abundantes na moblia funerria
egpcia desse perodo. Esse comrcio deve ter contribudo para a difuso de
ideias e tcnicas de uma regio para outra, mas nossos conhecimentos so ainda
por demais fragmentrios para podermos avaliar a importncia ou mesmo a
direo de tais influncias. Por exemplo, a tcnica da esmaltagem, tal como era
aplicada a contas e amuletos, originou-se no norte ou no sul? Ela aparece quase
ao mesmo tempo em ambas as sociedades. O mesmo ocorre com a cermica
vermelha de borda preta, to caracterstica da arte do oleiro em todo o mundo
niltico antigo. Ela parece surgir no alto vale do Nilo, entre a Quarta e a Sexta
Catarata, antes de ser atestada no baixo vale, no Egito. Mas, ainda aqui, a datao
 pouco precisa para se arriscar qualquer afirmao categrica.
    Por outro lado, a cermica obtida de uma argila fssil amarelada, conhecida
pelos especialistas como "cermica qena",  indiscutivelmente egpcia, tanto pela
matria-prima utilizada como pela tcnica de manufatura. Essa cermica foi
importada em larga escala, pelo menos na Baixa Nbia, do fim do IV at o incio
do III milnio antes da Era Crist. Sua presena, muito frequente nos stios
nbios ao sul da Primeira Catarata, testemunha a existncia de um comrcio
ativo entre a regio tebana e a Baixa Nbia. A argila qena era utilizada na
fabricao de grandes vasos, capazes de guardar lquidos ou slidos; infelizmente
no sabemos o que continham  leos, gorduras, queijos? So, porm, um claro
indcio das frequentes trocas entre o Egito e o Corredor Nbio, cuja importncia
histrica  sem dvida maior que a das incurses ocasionais que, desde cerca de
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo       223



-3000, os faras costumavam empreender na regio situada entre a Primeira e
a Segunda Catarata, o Ta-Seti  a Terra do Arco.
    No entanto essas incurses, das quais h referncias nos primeiros textos
egpcios (ver Captulo 9), so a primeira indicao do duplo aspecto  militar e
econmico  dos contatos entre o norte e o sul ao longo do vale do Nilo. Apesar
de sua ambiguidade, esses contatos revelam a importncia do Corredor Nbio
como elo entre a frica e o Mediterrneo.
    Por volta de -3200, durante a I dinastia, os egpcios j conheciam o pas o
suficiente para aventurar-se a enviar um corpo de tropas at o incio da Segunda
Catarata. Podemos supor as razes de uma tal expedio. Primeiramente, a
necessidade de encontrar matrias-primas que estivessem faltando ou escasseando
no Egito, especialmente a madeira. A floresta-galeria que nos primeiros tempos
provavelmente recobria as margens do rio iria desaparecer pouco a pouco, 
medida que o baixo Nilo ia sendo dominado e o sistema de irrigao, com suas
redes de "bacias", se ampliava.
    Uma segunda razo importante para a interveno do exrcito egpcio na
Nbia seria o desejo de manter livre a passagem para o sul: incenso, goma,
marfim, bano e panteras no provinham da regio entre a Primeira e a Segunda
Catarata, mas de uma zona muito mais ao sul. Nessa poca, contudo, a Baixa
Nbia era densamente povoada, como se pode ver pelo nmero e tamanho dos
cemitrios do Grupo A (ver Captulo 9).
    Essa populao no provinha do norte, como at h pouco se acreditava,
mas descendia dos grupos neolticos que se haviam instalado no vale entre a
Primeira e a Terceira Catarata. No entanto, a julgar pelos objetos domsticos
recolhidos por arquelogos em ambas as reas, seria aparentada tambm s
populaes que ocuparam a parte alta do vale, entre a Quarta e a Sexta Catarata.
Alguns desses povos ainda eram caadores e pescadores, mas os que habitavam
as proximidades do rio estavam ligados sobretudo  agricultura, enquanto os
habitantes da savana, que se estendia de ambos os lados do Nilo, levavam uma
vida essencialmente pastoril ou mesmo seminmade. O clima ainda era o da
fase mida do final do Neoltico africano, de modo que o Corredor Nbio no
se restringia ao estreito vale do rio, mas provavelmente se alargava por uma
extenso considervel em ambas as margens. Assim, seus habitantes poderiam,
se quisessem, interceptar as caravanas egpcias que rumavam para o sul por via
terrestre ou ao longo do rio.
    Seja como for, o interesse dos egpcios pela Baixa Nbia  evidenciado pelos
vrios termos tnicos ou topnimos referentes a essa regio preservados na
maior parte dos antigos textos faranicos. No entanto, estes abrangem apenas
224                                                                      frica Antiga



cerca de 325 km do vale, entre Elefantina, ao norte, e os primeiros rpidos da
Segunda Catarata, ao sul, em Buhen (atualmente tais stios esto submersos
pelas guas da represa de Assu), que os egpcios certamente atingiram durante
o reinado do rei Djer da I dinastia, se no mesmo na poca do rei Escorpio, ao
final do perodo pr-dinstico.
    Por volta de -2700, as informaes sobre os contatos norte-sul, obtidas a partir
de escavaes nos stios do Grupo A, interrompem-se bruscamente, pelo menos
na Baixa Nbia. Encontram-se apenas uns poucos tmulos e estabelecimentos.
 como se os habitantes tivessem repentinamente abandonado sua terra.
Esse desaparecimento de uma populao outrora densa, entre a Primeira e a
Segunda Catarata, ainda no foi totalmente explicado. Seria uma decorrncia
da superexplorao do pas pelos faras ou da retirada voluntria dos nbios
 quer em direo  savana, de ambos os lados do vale, quer mais para o sul?
 muito difcil responder a essas questes, uma vez que a regio ao sul da
Segunda Catarata, assim como as vias de acesso a leste e a oeste do Nilo esto
praticamente inexploradas do ponto de vista arqueolgico.
    Assim, para o conhecimento desse perodo, que se estende de -2700 a
-2200 aproximadamente, temos de confiar nas pouqussimas aluses contidas
nas fontes literrias egpcias. Estas relatam campanhas militares na regio de
Ta-Seti, na Nbia, o que pode explicar o abandono do pas por seus habitantes.
Assim, sabemos que durante o governo de Snefru (cerca de -2680), as foras
do fara capturaram 11 mil prisioneiros e 200 mil cabeas de gado, nmeros
que confirmam tanto a densidade da populao no fim do perodo do Grupo A,
antes do abandono do pas, como a importncia da criao de animais em sua
sociedade, comparada algumas vezes ao atual cattle-complex do nordeste africano.
Uma tal quantidade de gado s pode ser explicada se admitirmos que esses
povos exploravam no s grande parte da estepe ou savana, que naquela poca
se estendia ao longo das margens do rio, como tambm o prprio vale do Nilo.
    Um importante achado arqueolgico de 1961-1962 ajudou a elucidar um
pouco mais os fundamentos histricos do Corredor Nbio durante esse perodo
obscuro. Com efeito, descobriu-se em Buhen, uma aldeia do Antigo Imprio
egpcio que empregava selos faranicos datados do fim da IV dinastia, mas
sobretudo da V. A aldeia estava ligada a um conjunto de fornos destinados 
fundio do cobre.
    Por um lado, essa descoberta revela que os egpcios no dependiam apenas
do cobre asitico  particularmente do Sinai  e que j se haviam dedicado
 explorao de metais na Nbia africana. Por outro lado, e principalmente,
indica que os egpcios foram capazes (ou se viram na obrigao) de introduzir
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo       225



tcnicas de fundio no alto vale do Nilo. O achado de Buhen prova que o
cobre africano j era produzido nessa poca. Todavia, para se produzir cobre, 
necessrio descobrir e escavar o veio, construir fornos especiais e aliment-los
com um combustvel apropriado, confeccionar cadinhos, fundir o metal  refin-
-lo, ao menos parcialmente, antes de transform-lo em lingotes. Dificilmente
os nbios poderiam ter presenciado todo esse processo  mesmo que dele no
participassem ativamente  sem adquirir ao menos um conhecimento rudimentar
da metalurgia. Essa iniciao precoce, ocorrida na metade do III milnio
antes da Era Crist,  provavelmente a melhor explicao para a habilidade
que demonstraram cerca de quinhentos anos depois (por volta de -2000) na
produo de objetos de cobre e na metalurgia do ouro.
    Pouco antes de -2200 esse perodo obscuro chega ao fim, e mais uma vez
nos deparamos com fontes arqueolgicas e literrias. Os documentos egpcios
da VI dinastia, a ltima do Antigo Imprio, incluem vrios relatos de expedies
 Alta Nbia (ver Captulo 9). No incio da dinastia, tais expedies tinham
um carter nitidamente comercial e pacfico: os egpcios procuravam obter na
Nbia as pedras raras necessrias s construes reais, ou simplesmente madeira.
Empregavam uma tcnica que seria reutilizada mais tarde, ou seja, a procura
simultnea de bens raros ou de grande porte e de madeira. A madeira obtida no
alto vale era usada na construo de barcos, que posteriormente transportariam
objetos pesados de volta ao Egito; l, a frota seria desmontada, e a madeira,
reutilizada para outros fins. Essa atividade tambm favoreceu a circulao de
ideias e tcnicas em ambos os lados do vale. O panteo egpcio chegou a adquirir
uma nova divindade africana, Dedun, provedora de incenso. Para facilitar as
comunicaes com o sul, os egpcios abriram canais navegveis nos rpidos da
Primeira Catarata, em Assu. Essa poltica, iniciada no III milnio antes da Era
Crist, teve prosseguimento com os faras do Mdio Imprio e, posteriormente,
com os do Novo Imprio. Alm das rotas ao longo do rio, as expedies egpcias
utilizaram as vias terrestres. Por essa poca, as rotas certamente no eram
desrticas, uma vez que mal terminara a fase mida neoltica; os caminhos
do sul deviam ser, se no arborizados, pelo menos prdigos em nascentes e
olhos-d'gua, j que normalmente eram empregados animais de carga que
necessitam de um suprimento regular de gua, como os asnos. Era por um
desses itinerrios, a chamada rota do osis, que os asnos transportavam para o
Egito incenso, bano, leos, peles de leopardo, marfim, etc. Descobertas recentes
parecem indicar que ao menos um desses caminhos partia do osis de Dakhla
e que o osis de Kharga ainda era um lago. Infelizmente, os textos egpcios no
nos dizem o que os egpcios davam em troca das mercadorias, nem informam
226                                                                   frica Antiga



onde, exatamente, obtinham seus suprimentos, o que  ainda mais lamentvel.
Esses textos mencionam diversos nomes de pases africanos, mas os especialistas
ainda no esto de acordo quanto  sua localizao. Ainda aqui muita coisa
poderia ser revelada pela explorao arqueolgica sistemtica no apenas do
vale nbio do Nilo ao sul da Segunda Catarata, mas tambm  o que  talvez
mais importante  das rotas terrestres em direo ao oeste do vale que ligam a
cadeia dos osis "lbios" com Selima e com os vales ou depresses que conduzem
a Ennedi, Tibesti, Kordofan, Darfur e ao lago Chade.
    Quer seguissem pelo vale, quer por via terrestre, parece muito provvel que
desde esses tempos remotos os egpcios j estavam em contato com a frica
ao sul do Saara e que o Corredor Nbio desempenhava um papel importante
nesses contatos. Sob Ppi II, por volta de -2200, uma expedio egpcia trouxe
do extremo sul um "ano para a dana sagrada" (ver Captulo 9). A palavra
usada para descrever essa personagem  deneg, ao passo que o termo usual para
"ano" nos textos hieroglficos  nemu. Podemos, pois, indagar  e provavelmente
a resposta seria positiva  se deneg no se refere, de fato, a um pigmeu. Neste
caso  e a traduo deneg = pigmeu  amplamente aceita hoje em dia , os
egpcios do Antigo Imprio devem ter mantido contato direto ou indireto com
essa raa proveniente da floresta equatorial. Mesmo que o habitat dos pigmeus
se estendesse muito mais ao norte do que hoje em dia  o que  possvel e at
mesmo provvel, devido  diferena de clima durante o III milnio , essa rea
ainda estaria muito ao sul da Nbia. Podemos, portanto, concluir que os egpcios
do Antigo Imprio mantinham contatos com a frica central e que a Nbia e
seus habitantes tiveram um papel importante no estabelecimento dessas relaes.
    Em todo caso, os contatos entre o Egito e a frica central devem remontar
a muito tempo, visto que a palavra deneg aparece nos Textos das Pirmides. No
h consenso quanto  data em que esses textos foram escritos, mas mesmo se
aceitarmos a estimativa mais conservadora, eles no poderiam ser posteriores 
V dinastia;  bem possvel que sejam muito mais antigos.
    Desse modo, na VI dinastia, o mais tardar, os egpcios sabiam da existncia
dos pigmeus, o que  confirmado por um texto da poca no qual se relata que
um deneg j tinha chegado ao Egito nos tempos do fara Isesi, o penltimo
rei da V dinastia. O pigmeu fora encontrado na terra de Punt; isto sugere que
sua ptria devia ficar bem ao sul da Nbia, uma vez que Punt provavelmente
se situava na costa da Eritreia ou da Somlia. Tambm aqui o "ano danarino"
parece ter sido entregue aos egpcios por terceiros. Nos dois casos, a provvel
presena dos pigmeus no Egito implica a existncia de contatos entre o baixo
vale do Nilo e a frica subequatorial.
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo        227



    Ao final da VI dinastia, no reinado de Ppi II, as pacficas relaes entre
o Egito e a Nbia, baseadas no interesse mtuo e na necessidade dos faras
de terem livre acesso s riquezas de regies distantes da frica, parecem
deteriorar-se. Os textos do final do reinado de Ppi II aludem a conflitos entre
as expedies egpcias e os habitantes do Corredor Nbio. Assim, por exemplo,
um egpcio que comandava uma expedio foi morto durante uma viagem para
o sul, e seu filho teve de preparar um ataque para resgatar o corpo e lev-lo de
volta ao Egito para o ritual funerrio.
     difcil no relacionar essa tenso com as mudanas climticas ocorridas
por volta de -2400, que certamente ocasionaram deslocamentos populacionais.
At -2400, toda a rea entre 15 e 30 N era mais mida do que atualmente
e, por isso, habitvel. Mesmo no sendo densamente povoada devido  sua
extenso, a regio deve ter comportado um grande nmero de habitantes. No
entanto, o progressivo dessecamento do clima forou esses povos a procurarem
refgio em regies menos inspitas: o sul e, naturalmente, o vale do Nilo. A
iconografia egpcia parece ter perpetuado a memria dessas migraes.  por
volta de -2350, na poca da V dinastia, que o tema dos pastores esquelticos
aparece pela primeira vez nas cenas da vida cotidiana que decoram as mastabas.
, sem dvida, tentadora  para dizer o mnimo  a associao dessas figuras
esfaimadas a pastores nmades ou seminmades, fugidos do deserto que se
alastrava para encontrar alimento e trabalho no Egito.
    Assim, parece intil procurar, como se tem feito at aqui, uma origem
remota para os chamados povos do Grupo C (ver Captulo 9), que aparecem
por volta de -2300 no Corredor Nbio. Na verdade, esses povos viviam nas
imediaes do vale e somente foram levados a se fixar ali devido  mudana nas
condies climticas. Todavia, esse movimento convergente a partir do deserto
em formao rumo s margens do Nilo deve ter provocado conflitos entre os
que j viviam naquela rea e os recm-chegados; os textos do final da VI dinastia
seriam um reflexo desse antagonismo.
    Seja como for, os povos recm-chegados eram descendentes diretos do
Grupo A, como mostram as fontes arqueolgicas. Tendo conservado a tradio
de intercmbio com o baixo vale do Nilo, iriam posteriormente servir de
intermedirios entre a frica e as civilizaes egpcia e mediterrnica.
    A partir de -2300, tanto quanto a arqueologia nos permite entrever, a
populao do Corredor Nbio dividiu-se em numerosas "famlias". Embora
estreitamente aparentadas, cada uma delas tinha sua prpria cultura material 
cermica, instrumentos, armas e ferramentas  e seus prprios ritos funerrios
 tipo e arranjo do tmulo, distribuio do mobilirio dentro e fora do sepulcro,
228                                                                    frica Antiga



etc. Contudo, as semelhanas eram muito maiores que as diferenas: a grande
importncia da criao de gado, o uso generalizado da cermica vermelha de
borda preta, as sepulturas do tipo tumulus, etc.
    De -2200 a -1580, os povos do Grupo C que viviam entre Assu e Batn-
-el-Haggar (ver mapa) permaneceram em estreito contato com o Egito, seja
porque este pas administrava diretamente a regio (cerca de -2000 a -1700),
seja porque muitos egpcios fixaram residncia no pas (cerca de -1650 a cerca de
-1580), provavelmente a servio do novo reino de Kush (ver abaixo e Captulo
9). Continuando, no entanto, a manter contato com sua ptria, Tebas, ajudaram
a difundir as ideias e tcnicas egpcias.
    Mais ao sul, a partir de Batn-el-Haggar, situa-se o reino de Kerma, que
recebeu o nome de seu mais importante centro at agora conhecido (ver Captulo
9). Sua civilizao difere daquela do Grupo C apenas em detalhes, e os achados
arquelgicos nos poucos stios escavados revelam ligaes no somente com o
Egito, mas tambm, a partir de -1600, com os hicsos asiticos, com quem talvez
estivessem em contato direto.
     fcil fixar o limite sententrional da rea administrada pelos "Kerma": 
o Batn-el-Haggar. J no  o caso da fronteira meridional. Achados recentes
(1973) de cermica kerma, entre o Nilo Branco e o Nilo Azul, ao sul de Cartum,
parecem sugerir que o reino de Kerma, ainda que no abrangesse a atual Gezira,
chegou a influenci-la, colocando-se, pois, em estreito contato com o mundo
niltico do el-Sudd (ver mapa).
     particularmente lamentvel que no possamos saber ao certo quais os
limites do reino de Kerma em direo  frica equatorial, j que esse reino,
provavelmente o primeiro "imprio" africano conhecido na histria, exerceu
profunda influncia sobre os pases do sul, ao longo do Alto Nilo e na frica
central, bem como a leste e a oeste, dado o alto grau de civilizao a que chegou.
Na hiptese de ter abrangido a rea entre a Terceira Catarata e o Nilo Branco, o
reino de Kerma teria controlado no apenas a grande artria norte-sul formada
pelo vale do Nilo, mas tambm as rotas leste-oeste, da frica atlntica ao mar
Vermelho e ao oceano ndico. Sua localizao favorecia, desde logo, a transmisso
de tcnicas e ideias provenientes do Egito ou da civilizao hicsa s culturas
fricanas dessas regies, com as quais mantinha contato.
    No se trata de discutir, aqui, a questo da origem egpcia ou nbia das
grandes construes que ainda dominam o stio de Kerma (ver Captulo 9).
Embora os tijolos tenham sido fabricados segundo a tcnica faranica, as
construes diferem bastante das do baixo vale  mesma poca. Na falta de
maiores informaes,  prefervel consider-las como trabalho "cuxita" que sofreu
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo       229



influncia egpcia. Kerma parece ter sido o mais importante centro urbano do
reino de Kush cujo nome aparece em textos faranicos a partir de -2000.
    Cabe salientar que esse reino pode ter exercido profunda influncia sobre
as culturas vizinhas atravs de suas tcnicas, especialmente no domnio da
metalurgia, e que sua fora poltica, testemunhada pelas grandes dimenses
da capital, teria projetado sua influncia por uma ampla rea. Infelizmente, a
pouca ou nenhuma explorao arqueolgica dos arredores do reino no nos d
condies de ir alm da especulao no que diz respeito ao papel do reino de
Kerma na difuso de ideias, tcnicas ou lnguas.
    Destacamos acima um fato que parece confirmado: o poder material de
Kush. Comprovam-no as precaues tomadas contra o reino pelos faras da XII
dinastia, de Sesstris I a Amenems III. A ameaa potencial de "Kerma" para
o Egito  muito bem ilustrada pela cadeia de fortificaes que, de Semneh at
Debeira, ao norte (ver mapa), protegem a fronteira meridional do Egito contra
os exrcitos cuxitas. As fortificaes, em nmero de onze, com muralhas de 6 m
a 8 m de espessura e 10 m a 12 m de altura, baluartes arredondados e acessos ao
rio bem protegidos, no apenas defendiam o Nilo como serviam de base militar
para campanhas no deserto ou no sul. Tais expedies, muito comuns durante
os reinados dos seis primeiros faras da dinastia, atestam a irredutvel energia
das populaes kerma, elas prprias, talvez, pressionadas por grupos tnicos
provenientes do sul distante. Uma das consequncias trgicas da construo da
nova barragem de Assu foi o inevitvel desaparecimento dessas obras-primas
da arte da fortificao.
    Os melhoramentos introduzidos pelos egpcios na rota norte-sul de -2000
a -1780 provam conclusivamente que o Corredor Nbio continuava a ser a
principal artria entre a frica, o baixo vale do Nilo e o mundo mediterrnico:
limpeza dos canais navegveis da Primeira Catarata, construo de um diolkos
 caminho para arrastar barcos por terra  paralelo aos rpidos intransponveis
da Segunda Catarata e de uma barragem em Semneh para facilitar a navegao
das correntezas menores de Batn-el-Haggar. Tais iniciativas demonstram que
os faras da XII dinastia estavam empenhados em melhorar ao mximo as vias
de acesso ao sul.
    Ao fixar a fronteira egpcia em Semneh, Sesstris III refora as defesas
militares contra um eventual e poderoso agressor meridional; contudo, conforme
relata um texto famoso, o mesmo fara entendia que as fortificaes no deviam
impedir o trfico comercial, que beneficiava tanto os egpcios como os nbios.
    Pouco se conhece acerca do agitado perodo que se estende de -1780 a
-1580, chamado pelos egiptlogos de Segundo Perodo Intermedirio, mas tudo
230                                                                     frica Antiga



indica ter sido a idade de ouro do reino de Kush. Sua capital, Kerma, parece ter
aproveitado o enfraquecimento da realeza egpcia para intensificar o comrcio
entre o baixo e o alto vale do Nilo, com que muito lucrava.
    No se deve subestimar a importncia desse comrcio. Inmeras marcas de
terra sigilar, usadas para selar correspondncia e diversas mercadorias procedentes
do norte foram encontradas em Kerma e nas fortalezas egpcias, que, ao contrrio
do que se acreditava, no foram abandonadas durante o Segundo Perodo
Intermedirio, ou s o foram tardiamente e por pouco tempo. Enquanto no
Mdio Imprio as tropas eram substitudas a intervalos regulares, no Segundo
Perodo Intermedirio as guarnies que ocupavam as fortalezas fixaram
residncia permanente na Nbia; os soldados levavam consigo suas famlias e l
eram sepultados.  at provvel que tenham, aos poucos, reconhecido a suserania
do rei de Kush. De origem egpcia, devem ter contribudo para difundir sua
cultura por toda a sociedade da qual eram membros.
    O contato entre o reino africano de Kush e o Egito parece ter sido
particularmente estreito durante a dominao dos hicsos (-1650 a -1580). Ao
longo de todo o Corredor Nbio encontraram-se escaravelhos e selos ostentando
os nomes dos reis asiticos que ento governavam o Egito. H tantos objetos
desse tipo na prpria Kerma que j se chegou a pensar que os hicsos, aps
conquistarem o Alto Egito, tivessem submetido tambm a Nbia. Sabe-se hoje
que tal no ocorreu; contudo, os africanos do mdio Nilo tinham vnculos to
ntimos com os asiticos do Delta que, quando os faras tebanos da XVII
dinastia se envolveram na reconquista do Mdio e do Baixo Egito, o rei dos
hicsos ofereceu auxlio aos aliados africanos e props empreenderem juntos uma
ao militar contra o inimigo comum, o fara do Egito (ver Captulo 9).
    Seja como for, as relaes entre o Alto Egito tebano e os cuxitas de Kerma
foram a um tempo hostis e complementares. De -1650 a -1580, os tebanos a
servio do rei de Kush levaram sua habilidade tcnica  Mdia Nbia. A presena
de numerosos egpcios nas fortalezas da Baixa Nbia assegurava a Kush o contato
com os soberanos hicsos do norte. Alm disso, os ltimos faras da XVII dinastia
empregaram mercenrios medja tanto nas lutas internas de unificao do Alto
Egito como na guerra contra os invasores hicsos. Esses soldados africanos do
deserto nbio eram da mesma raa e de cultura praticamente idntica  dos
Nehesyu, povo sedentrio estabelecido s margens do rio.
    Desse modo, o Segundo Perodo Intermedirio foi marcado pela presena
de nbios no Egito e de egpcios na Nbia, o que certamente favoreceu as
trocas comerciais e culturais. O Corredor Nbio tornou-se um cadinho onde,
aos poucos, elementos africanos e mediterrnicos se misturaram, produzindo
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo         231



uma cultura mista. Contudo, esses contatos muito ntimos tiveram dramticas
repercusses no desenvolvimento do primeiro reino de Kush em Kerma.
    Os faras da XVIII dinastia, os Tutmsis, herdeiros e descendentes dos que
haviam reunificado o Egito e expulsado os invasores hicsos, perceberam o perigo
que representava para o pas a presena de um reino africano unido ao sul de
suas fronteiras: pouco faltou para que uma aliana hicsos-cuxitas aniquilasse as
ambies tebanas. Alm disso, a ameaa asitica ainda se fazia presente, mesmo
aps a retirada dos hicsos para a Palestina. Para se proteger, o Egito empreendeu
uma poltica de interveno sistemtica no Oriente Prximo.
    Os recursos do Egito em mo de obra e matrias-primas eram inferiores ao
potencial da sia Menor, como a histria subsequente iria demonstrar. Os faras
tebanos sabiam que a frica ao sul de Semneh era rica em matrias-primas e
mo de obra, e no descansariam enquanto no obtivessem o completo controle
do Corredor Nbio, nico meio de atingir aquela parte da frica cujos recursos
faziam-se to necessrios  sua poltica asitica.
    Costuma-se afirmar que os exrcitos egpcios no encontraram grandes
dificuldades em submeter o Corredor Nbio, o que no  verdade. Foram
necessrias sucessivas campanhas sob cada um dos faras do Novo Imprio, de
Amsis a Seti I e Ramss II, para que a tarefa se completasse.
    A resistncia nbia parece ter assumido duas formas: revoltas contra a
dominao egpcia no pas e um xodo mais ou menos generalizado para o
sul. O pas despovoou-se gradualmente, como se pode observar pelo nmero
decrescente dos tmulos encontrados tanto na Alta como na Baixa Nbia. Isso
obrigou os faras a avanarem cada vez mais em direo ao sul, a fim de obter
na frica os suprimentos vitais para sua poltica de hegemonia no Oriente
Prximo.
    No reinado de Tutmsis I, toda a regio situada entre a Segunda e a Quarta
Catarata foi conquistada. Os egpcios detinham o controle direto dos caminhos
que levavam a Darfur, Kordofan e Chade, quer a partir de Sai, atravs de Selima e
do Uadi Howar, quer a partir da atual Debba, atravs do Uadi el-Milk. Poderiam
doravante avanar em direo  frica dos Grandes Lagos, seja seguindo o Nilo
a partir de Abu Hamad  em cuja rea foram encontradas inscries rupestres
com os cartuchos de Tutmsis I e Tutmsis III , seja atalhando pelo deserto de
Bayuda, a partir de Korti, at reingressar no curso principal do Nilo, pelos uadis
Muqaddam e Abu Dom, na altura da Quinta Catarata. Alm de ser muito mais
curta, essa rota evitava as dificuldades da viagem rio acima, na direo sudoeste-
-nordeste, entre Korti e Abu Hamad, assim como a travessia dos rpidos da
Quarta e da Sexta Catarata.
232                                                                    frica Antiga



    Teriam os faras do Novo Imprio tirado proveito dessas excepcionais
oportunidades de penetrar no corao da frica? Nada nos autoriza a afirm-
-lo. Ainda uma vez, observa-se a ausncia de um levantamento arqueolgico
completo dessas rotas  os uadis ocidentais (Howar e el-Milk), o trecho do Nilo
entre a Quarta e a Quinta Catarata e o Bayuda. Todavia, a partir do reinado de
Tutmsis IV (cerca de -1450), uma mudana surpreendente na representao
dos negros em tmulos e nos monumentos sugere a utilizao dessas rotas pelas
expedies egpcias ou pelos intermedirios a seu servio.
    As figuras negras representadas nos tmulos e monumentos faranicos
apresentam tipos fsicos inteiramente novos, ora semelhantes aos dos nilotas
atuais Shilluk e Dinka (tmulo de Sebekhotep), ora semelhantes aos dos
habitantes do Kordofan e dos montes Nuba do atual Sudo.
    Os poucos estudos antropolgicos completos sobre os povos que habitaram o
vale do Nilo entre a Segunda e a Quarta Catarata apesar da ocupao faranica,
no oferecem nenhuma evidncia das importantes mudanas tnicas ocorridas
na Nbia dessa poca. Mostram, ao contrrio, uma notvel continuidade no tipo
fsico dos habitantes da regio. Pode-se, pois, admitir  at prova em contrrio
 que os negros representados na iconografia do Novo Imprio entraram em
contato com os egpcios em seu prprio pas. Da concluirmos pela presena
de contatos diretos, ainda que limitados a breves expedies militares, entre
egpcios e negros no interior da frica, entre -1450 e -1200.
    Este breve levantamento mostra que o papel especial  por vezes involuntrio
 da Nbia como intermediria, resultante de sua posio geogrfica entre a
frica central e o Mediterrneo, firmou-se por volta de -1800. Revela tambm
os traos constantes  a importncia, para o Egito, do acesso aos recursos
africanos e o interesse da Nbia pelas culturas do norte  que determinaram
um intercmbio contnuo, que se manteve, com intensidade variada, durante
todos os perodos posteriores, de -1200 a +700.
    Para muitas civilizaes africanas  o reino de Napata (-800 a -300) e o
imprio de Mroe (-300 a +300), as civilizaes de Ballana e Qustul (Grupo X,
-300 a +600) e os reinos cristos aps +600  a Nbia foi o elo essencial entre a
frica central e as civilizaes mediterrneas. Os persas, os gregos, os romanos,
os cristos e os muulmanos, tal como os hicsos, que os precederam, descobriram
na Nbia o mundo da frica negra. Diferentes culturas se encontraram e se
mesclaram nessas encruzilhadas, exatamente como ocorrera de -7000 a -1200,
quando aos poucos ganhou corpo uma civilizao cujos aspectos nbios
fundamentais se impregnaram de uma inegvel influncia egpcia.
A importncia da Nbia: um elo entre a frica central e o Mediterrneo          233



    Por toda a Nbia, artefatos, tcnicas e ideias circularam do norte para o sul e,
sem dvida, do sul para o norte. Infelizmente  nunca  demais repetir  enquanto
a arqueologia da frica ao sul de 20o N no for mais intensamente explorada, o
quadro que acabamos de traar no passar de um esboo incompleto, mesmo
falacioso, pois o papel atribudo ao norte, em relao ao sul, fica sem dvida
exagerado simplesmente pela falta de conhecimentos a respeito deste ltimo.
E as frequentes teorias referentes  difuso de lnguas e culturas de lado a
lado do vale do Nilo, assim como entre o norte e o sul no ultrapassaro o
plano meramente especulativo enquanto no tivermos um conhecimento mais
detalhado das culturas "negras" presentes, de -7000 a +700, nos Sudds nilticos,
no Kordofan, no Darfur, no Chade, nos limites ocidentais da Etipia e, ainda,
na rea situada entre o Nilo e o mar Vermelho.
A Nbia antes de Napata                                                 235



                                   CAPTULO 9


               A Nbia antes de Napata
            (3100 a 750 antes da Era Crist)
                          Nagm-El-Din Mohamed Sherif




    O perodo do Grupo A
    Pelo fim do IV milnio antes da Era Crist floresceu na Nbia uma notvel
cultura, conhecida pelos arquelogos como cultura do Grupo A1. Os instrumentos
de cobre (os mais antigos utenslios de metal at hoje descobertos no Sudo)
e a cermica de origem egpcia exumados de tmulos do Grupo A indicam
que o desenvolvimento dessa cultura foi contemporneo da I dinastia no Egito
(-3100). Ela  identificada por uma simples letra, a exemplo do que ocorre com
outras culturas nbias, porque no conheceu a escrita, no existem referncias a
ela por parte de nenhum povo que possusse escrita e no se pode associ-la a
qualquer lugar preciso de descoberta nem a nenhum centro importante. Tratou-
-se, porm, de um perodo de prosperidade, caracterizado por um aumento
considervel da populao.
    At agora, os vestgios arqueolgicos caractersticos do Grupo A foram
descobertos na Nbia, entre a Primeira Catarata, ao norte, e Batn-el-Haggar
("O Ventre de Pedras"), ao sul. No entanto, encontraram-se tambm cermicas
parecidas com as do Grupo A na superfcie de vrios stios mais ao sul, no Sudo



1   REISNER, G. A. von. 1910-27.
236                                                                   frica Antiga



setentrional. Uma sepultura junto  ponte de Omdurman2 forneceu um pote
idntico a outro encontrado em Faras, numa sepultura do Grupo A3.
   Sob o aspecto tnico, o Grupo A era fisicamente muito semelhante aos
egpcios pr-dinsticos4. Era um povo seminmade, provavelmente de pastores de
ovelhas, cabras e alguns bovinos. Vivia geralmente em pequenos acampamentos,
deslocando-se sempre que a pastagem se exauria.
   O Grupo A pertence  cultura calcoltica. Isso significa que era
essencialmente neoltico, mas fazia um uso limitado de instrumentos de
cobre, todos importados do Egito. Uma caracterstica importante da cultura
do Grupo A  a cermica encontrada nas sepulturas das tribos a ele associadas.
Podem-se distinguir vrios tipos, mas "o trao constante da cermica do
Grupo A  o artesanato engenhoso e a decorao e o desenho artsticos, que
colocam essa arte cermica bem acima da praticada pela maior parte das
culturas contemporneas"5. Tpica da cultura do Grupo A  uma cermica bela
e delicada, com o interior preto polido e o exterior com decoraes pintadas
de vermelho, imitando um cesto de vime. Ao lado desse tipo de cermica,
encontram-se tambm grandes jarros em forma de bulbos com uma base
pontuda6, potes com alas de "bordas onduladas" e jarros cnicos de loua
rosa-escuro de origem egpcia7.
   Quanto aos costumes funerrios dos povos do Grupo A, conhecemos dois
tipos de sepultura. O primeiro era uma simples cova oval de aproximadamente
0,80 m de profundidade, e o segundo, uma cova oval de 1,30 m de profundidade,
com uma cmara mais profunda num dos lados. O corpo, envolvido numa
mortalha de couro, era colocado em posio fletida sobre o lado direito,
normalmente com a cabea voltada para oeste. Alm da cermica, os artigos
depositados na sepultura incluam paletas de pedra em forma de placas ovais
ou romboides, leques de penas de avestruz, ms de alabastro, machados e
furadeiras de cobre, bumerangues de madeira, braceletes de osso, imagens
femininas de argila e contas de colar de concha, cornalina e esteatita esmaltada
de azul.



2     ARKELL, A. J. 1949. pp. 99, 106 e pr. 91-100.
3     GRIFFITH, F. L. 1921-8. pp. 1-13.
4     EMERY, W. B. 1965. p. 124.
5     SCHNBCK, B. 1965. p. 43.
6     EMERY, W. B. 1965. p. 125.
7     EMERY, W. B. 1965. p. 125.
A Nbia antes de Napata                                        237




figura 9.1   A Nbia e o Egito. (Mapa fornecido pelo autor.)
238                                                                  frica Antiga



      O fim do Grupo A
   Ao Grupo A, que provavelmente sobreviveu na Nbia at o final da II
dinastia do Egito (-2780), seguiu-se um perodo de pobreza e acentuado declnio
cultural. Esse perodo estendeu-se do incio da III (-2780) at a VI dinastia
egpcia (-2258); em outras palavras, foi contemporneo do perodo conhecido
no Egito como Antigo Imprio8. Os primeiros arquelogos que trabalharam na
Nbia denominaram a cultura dessa poca de Grupo B. Segundo eles, a Baixa
Nbia, durante o Antigo Imprio egpcio, era habitada por um povo nativo
distinto do Grupo A, que o precedera9. Embora alguns especialistas10 ainda
considerem vlida essa hiptese11, outros a rejeitaram12. Hoje, a existncia do
Grupo B , de modo geral, considerada duvidosa13.
   A persistncia das caractersticas do Grupo A nas sepulturas atribudas
 cultura do Grupo B levam a crer que se tratava apenas de sepulturas do
povo empobrecido do Grupo A, quando do declnio de sua cultura. As novas
caractersticas atribudas ao Grupo B, que em alguns aspectos o diferenciam de
seu predecessor, seriam consequncia do declnio geral e da natureza. A causa
desse declnio pode ser encontrada nas repetidas investidas do Egito contra a
Nbia, desde sua unificao e transformao num Estado forte e centralizado,
governado por um nico soberano.

      O Egito na Nbia
   Desde os primeiros tempos, os antigos egpcios eram fascinados pela
Nbia, devido a suas riquezas em ouro, incenso, marfim, bano, leos, pedras
semipreciosas e outras mercadorias de luxo. Por isso eles sempre procuraram
obter o controle do comrcio e dos recursos econmicos desse pas14. Vemos
assim que a histria da Nbia  quase inseparvel da do Egito. Uma placa
de bano da poca de Hor-Aha, primeiro rei da I dinastia egpcia, parece
celebrar uma vitria sobre a Nbia15, mas ainda no se conhece a natureza


8     EMERY, W. B. 1965. pp. 124, 127.
9     REISNER, G. A. von. 1910-27. pp. 313-48.
10    EMERY, W. B. 1965. pp. 127-9.
11    TRIGGER, B. G. 1966. p. 78.
12    SMITH, H. S. 1966. p. 118.
13    HINTZE, F. 1968.
14    TRIGGER, B. G. 1965. p. 79.
15    PETRIE, W. M. F. 1901. p. 20 e pr. 1 e 2.
A Nbia antes de Napata        239




figura 9.2 T ipos de
sepulturas do Grupo A
(segundo W. B. Emery, 1965).
Figura 9.3 Inscrio do
rei Djer em Djebel Sheikh
Suliman.
Figura 9.4 Tipos de cermica
do Grupo A.
240                                                                    frica Antiga



exata de suas atividades contra os nbios. Poderia tratar-se apenas de uma
ao militar destinada a proteger sua fronteira sul, na altura da Primeira
Catarata16. Os objetos egpcios descobertos em Faras17, nas sepulturas do
Grupo A pertencentes aos reinos de Djer e Uadji (terceiro e quarto soberanos
da I dinastia), tambm indicam um contato entre os dois pases j naqueles
tempos remotos.
    Entretanto, o mais antigo testemunho de verdadeira conquista egpcia na
Nbia  um documento de extrema importncia, atualmente exposto no Jardim
das Antiguidades do Museu Nacional do Sudo, em Cartum. Trata-se de uma
cena gravada em placa de arenito, que se encontrava originariamente no cume de
um pequeno outeiro conhecido como Djebel Sheikh Suliman, cerca de 11 km ao
sul da cidade de Uadi Halfa, na margem esquerda do Nilo18. Essa placa remonta
ao reinado de Djer, o terceiro da I dinastia, como foi dito acima. A cena registra
uma batalha no Nilo, travada pelo rei Djer contra os nbios.
     direita da cena v-se um barco no estilo da I dinastia, com popa vertical e
proa alta. Vrios cadveres flutuam sob o barco e uma figura (talvez um capito
nbio) aparece suspensa da proa.  esquerda da embarcao distinguem-se
dois desenhos semelhantes a rodas; trata-se de hierglifos que significam uma
aldeia com uma encruzilhada, indicando uma cidade.  esquerda dos signos
da cidade observa-se o signo ondulado da gua (provavelmente denotando
que o campo de batalha foi a regio da catarata). Em seguida, v-se a figura
de um homem com os braos amarrados s costas e segurando um arco (Zeti,
em egpcio), personificao de Ta-Zeti, a Terra do Arco, ou seja, a Nbia.
Atrs da figura l-se o nome do rei Djer, sobre o que parece ser a fachada de
um palcio19.
    Outro registro de hostilidades egpcias contra a Nbia  o fragmento de
uma pedra gravada proveniente de Hieracmpolis (El-Komb-el-Ahmar, na
margem esquerda do Nilo, ao norte de Edfu), que mostra o rei Khasekhem,
da II dinastia, ajoelhado sobre um prisioneiro que representa a Nbia. Mas
a verdadeira conquista da Nbia parece ter ocorrido no reinado de Snefru,
fundador da IV dinastia. A Pedra de Palermo20 narra que o rei Snefru destruiu



16    SVE-SDERBERGH, T. 1941.
17    GRIFFITH, F. L. 1921-8. pp. 1-18
18    ARKELL, A. J. 1950. pp. 27-30.
19    SHERIF, N. M. 1971. pp. 17-18.
20    BREASTED, J. H. 1906. v. 1, p. 146.
A Nbia antes de Napata                                                       241



Ta-Nehasyu, "a Terra dos Nbios"21, e capturou 7 mil prisioneiros e 200 mil
bovinos e ovinos.
    Aps as operaes militares de Khasekhem e Snefru, os nbios devem
ter aceitado a supremacia do Egito, pois parece certo que os egpcios no
encontraram nenhuma dificuldade para explorar os vastos recursos minerais
da Nbia. Dos depsitos de diorito a oeste de Toshka extraam-se as pedras
para as esttuas reais. Expedies sucessivas gravaram nas rochas as inscries
de Quops, construtor da grande pirmide de Giz, de Dedefre e de Sahure,
da V dinastia (-2563 a -2423). Para explorar efetivamente os recursos minerais
da terra conquistada, os egpcios colonizaram a Nbia. Recentes descobertas
arqueolgicas em Buhen, logo abaixo da Segunda Catarata, revelaram a
existncia de uma colnia exclusivamente egpcia no local durante a IV e a V
dinastias. Uma das indstrias dessa colnia era o trabalho do cobre, como se
deduz dos fornos e vestgios de minrio de cobre a encontrados e que indicam
a existncia de jazidas de cobre na regio. Os nomes de vrios reis da IV e da V
dinastia foram descobertos em papiros e lacres de jarro22.
    Alm disso,  provvel que os egpcios tenham estendido sua autoridade 
regio ao sul da Segunda Catarata, pelo menos at Dakka, cerca de 133 km
ao sul de Buhen. Uma inscrio do Antigo Imprio, descoberta pelo autor
em Dakka, mostra que os egpcios procuravam minerais naquela parte da
Nbia23.
    Duas inscries descobertas na Primeira Catarata, citando o rei Merenr,24
podem indicar que durante a VI dinastia (-2434 a -2242) a fronteira sul do Egito
ficava em Assu. Contudo, parece que j naquela poca, os egpcios exerciam
certa influncia poltica sobre as tribos nbias, pois os registros indicam que o
rei Merenr se dirigiu  regio da Primeira Catarata para receber a homenagem
dos chefes de Medja, Irtet e Wawat, provavelmente regies tribais ao sul da
Primeira Catarata.
    Seja como for, a paz reinou na Nbia durante a VI dinastia. Os egpcios
reconheceram as enormes potencialidades comerciais daquela terra e
sua importncia para a prosperidade econmica de seu prprio pas. O
comrcio era bem organizado e dirigido pelos hbeis nomarcas de Assu,
cuja importncia aumentou enormemente, por sua situao como centro

21   GARDINER, A. H. 1961.
22   EMERY, W. B. 1963. pp, 116-20.
23   HINTZE, F. 1965. p. 14.
24   BREASTED, J. H. 1906. v. 1, pp. 317-18.
242                                                                   frica Antiga



comercial entre o norte e o sul e por ser um posto de controle de fronteira.
As crnicas desses reis, inscritas em seus tmulos na margem esquerda do
Nilo, em Assu, fornecem aos pesquisadores informaes muito interessantes
sobre as condies de vida na Nbia durante aquela poca. Segundo essas
crnicas, parece que foi dividida em diversas regies governadas por soberanos
independentes.
    A mais reveladora dessas inscries refere-se  vida de Herkhuf, o famoso
condutor de caravanas que serviu nos reinados de Merenr e Ppi II. Foi ele
quem conduziu quatro misses  terra de Yam, regio ainda no identificada,
mas que certamente se situava depois da Segunda Catarata, em direo ao
sul. Trs dessas expedies25 foram realizadas durante o reinado de Merenr
e a quarta sob o de Ppi II. Na primeira viagem, Herkhuf e seu pai estavam
encarregados de "encontrar um caminho para Yam", misso que lhes exigiu
sete meses. A segunda que Herkhuf fez sozinho, durou oito meses. Desta
vez ele tomou o caminho de Elefantina (a estrada do deserto que comea na
margem oeste, em Assu) e voltou atravs de Irtet, Mekher e Tereres. Aqui
Herkhuf deixa claro que as terras de Irtet e Setu estavam sob a jurisdio de
um nico soberano. Durante sua terceira viagem, na qual percorreu a "rota
dos osis", ele soube que o chefe de Yam havia ido  Lbia para conquist-
-la. Seguindo-o at aquele pas, conseguiu apazigu-lo. Voltou dessa viagem
"com trezentos burros carregados de incenso, bano, leo, peles de leopardo,
presas de elefante, troncos de rvore e vrios outros objetos de grande beleza".
Quando passou pelo norte, atravs dos territrios de Irtet, Setu e Wawat,
ento reunidos sob o comando de um nico chefe, Herkhuf foi acompanhado
por uma escolta militar de Yam. Na quarta e ltima expedio, trouxe da terra
de Yam um ano danarino para o jovem rei Ppi II, que ficou encantado
com o presente.
    No entanto, pelo tmulo de Pepinakht, outro nomarca de Elefantina, que
ocupou o cargo durante o reinado de Ppi II, sabe-se que, a despeito das boas
relaes entre os egpcios e os nbios (que certamente eram lucrativas para
ambos), durante a VI dinastia a paz esteve muitas vezes seriamente ameaada na
Nbia. Ao que parece, havia perodos de agitao em que o Egito era obrigado
a recorrer s armas. Em certa ocasio, Pepinakht foi enviado para "fazer em
pedaos Wawat e Irtet". Sua misso foi coroada de xito, pois ele matou grande
nmero de nbios e ainda fez prisioneiros. Numa segunda expedio ao sul, com


25    BREASTED, J. H. 1906. v. 1, pp. 333-5.
A Nbia antes de Napata                                                       243



o objetivo de "pacificar esses pases", ele conseguiu trazer dois chefes nbios
para a corte egpcia.


     O perodo do Grupo C
    No final do Antigo Imprio egpcio26, ou durante o perodo que os egiptlogos
chamam de Primeiro Perodo Intermedirio (-2240 a -2150)27, apareceu na Baixa
Nbia uma nova cultura independente (com objetos caractersticos e tradies
funerrias distintas), conhecida pelos arquelogos como Grupo C. Como o seu
precedente, o Grupo A, esta cultura era tambm calcoltica e sobreviveu nessa
parte do vale do Nilo at a poca em que a Nbia se egipcianizou por completo,
no sculo XVI antes da Era Crist. O limite norte da cultura do Grupo C
situava-se na aldeia de Kubanieh Norte, no Egito28, mas a fronteira sul ainda
no foi demarcada com preciso, embora se tenham encontrado vestgios dessa
cultura at Akasha, no limite meridional da regio da Segunda Catarata. Desse
modo,  provvel que a fronteira sul do Grupo C se localizasse em algum ponto
da regio de Batn-el-Haggar.
    Ainda no se sabe ao certo qual a origem da cultura do Grupo C ou do
grupo tnico ao qual pertencia. Face  ausncia de indcios mais precisos, os
arquelogos foram levados a formular vrias hipteses29. Uma delas sugere que
essa cultura poderia ser uma continuao de sua predecessora, o Grupo A,
pois as duas eram aparentadas30. Outra afirma que a cultura do Grupo C se
desenvolveu a partir de influncias introduzidas na Nbia com a chegada de um
novo povo. Os defensores dessa teoria divergem quanto  origem desses povos e
 direo da qual vieram. Os vrios argumentos baseiam-se em dados culturais
e anatmicos. Alguns afirmam que os novos povos penetraram na Baixa Nbia
pelo deserto oriental ou pela regio do rio Atbara31. Outros acreditam que eles
vieram do oeste, mais precisamente, da Lbia32. Uma teoria recente rejeita a
hiptese da migrao e considera a cultura do Grupo C como produto de uma


26   TRIGGER, B. G. 1965. p. 87.
27   ARKELL, A. J. 1961. p. 46.
28   JUNKER, H. 1919-22. p. 35.
29   BIETAK, M. 1961-5. pp. 1-82.
30   REISNER, G. A. von. 1910-27. p. 333.
31   FIRTH, C. M. 1910-27. pp. 11-12.
32   EMERY, W. B. & KIRWAN, L. P. 1935. p. 4.
244                                                                 frica Antiga




figura 9.5   Sepulturas tpicas do Grupo C (segundo Steindorff ).
figura 9.6 Tipos de cermica do Grupo C.
A Nbia antes de Napata                                                         245



evoluo cultural. De qualquer forma, ainda h muito para conhecer no que
diz respeito  arqueologia das reas em questo; enquanto no se realizar uma
pesquisa cientfica extensiva no local, todas essas teorias no passaro de meras
hipteses.
   O povo do Grupo C era essencialmente pastoril e vivia em pequenos
acampamentos ou, por vezes, em povoados. As casas descobertas na regio de
Uadi Halfa eram de dois tipos: num, os cmodos eram circulares, com paredes
construdas de pedras rebocadas com barro; o outro tinha paredes quadradas,
construdas com tijolo de barro 33. Suas caractersticas bsicas podem ser inferidas
do grande nmero de pinturas rupestres representando gado e da importncia
que ele tinha nos ritos funerrios.
   As mais antigas sepulturas da cultura do Grupo C caracterizam-se por
pequenas superestruturas de pedra sobre covas circulares ou ovais. O corpo,
semifletido, repousava sobre o lado direito, com a cabea voltada para leste e
geralmente apoiada num travesseiro de palha. No raro o corpo era envolvido
numa mortalha de couro. A esse tipo de sepultura seguiu-se um outro, de amplas
superestruturas de pedra sobre covas retangulares, quase sempre com cantos
arredondados e s vezes reforadas com placas de pedra. Ao Grupo C pertence
tambm um terceiro tipo, de data posterior. Nele encontramos capelas de tijolos
frequentemente apoiadas a norte e a leste das superestruturas de pedra. Em
geral, as sepulturas orientavam-se do norte para o sul. Animais eram enterrados
nos tmulos e por vezes crnios de bois ou de cabras, pintados com motivos em
vermelho e preto, eram colocados em toda a volta das superestruturas. Os objetos
funerrios compreendiam diferentes tipos de cermica, braceletes de pedra, osso
e marfim, brincos de concha, contas de osso e faiana, sandlias de couro, discos
de madreprola para braceletes e escaravelhos egpcios. Nas sepulturas do Grupo
C encontram-se s vezes espelhos de bronze e armas (punhais, espadas curtas
e machados de combate)34.
   A despeito do crescente contato com o Egito, a cultura do Grupo C continuou
a desenvolver-se de maneira independente, sem adotar nem a tecnologia, nem
a escrita, nem as crenas religiosas egpcias. Uma das caractersticas mais
importantes dessa cultura  a cermica, feita  mo e normalmente na forma de
vasos. No raro esses vasos se apresentam decorados com motivos geomtricos
por impresso ou inciso, frequentemente preenchidos com um pigmento


33   SVE-SDERBERGH, T. 1965. p. 48.
34   SVE-SDERBERGH, T. 1965. pp. 49-50.
246                                                                     frica Antiga



branco. Uma das ferramentas de pedra tpicas do Grupo C  o machado polido
de pedra-verde (nefrita).


      O Mdio Imprio
    Os soberanos do Mdio Imprio egpcio, tendo posto fim aos distrbios
internos do pas e unificando-o sob seu controle, voltaram sua ateno para
a terra ao sul do Egito, a Nbia. Essa empresa comeou sob o reinado da XI
dinastia tebana. Num fragmento proveniente do templo de Gebelein, no Alto
Egito, Mentuhotep II  representado atacando seus inimigos, entre eles os
nbios. Uma inscrio em rocha de Mentuhotep III, perto da Primeira Catarata,
menciona uma expedio "com navios para Wawat", o trecho do Nilo entre
Shellal e Uadi Halfa. Contudo algumas referncias mostram que os egpcios
da XI dinastia ocuparam a Nbia at Uadi Halfa, ao sul. H, por exemplo,
numerosos grafitos em duas colinas a oeste e ao norte da aldeia de Abdel
Gadir, situada na margem oeste do Nilo, logo abaixo da Segunda Catarata, que
mencionam Antef, Mentuhotep e Sebekhotep (nomes comuns na XI dinastia)
e descrevem as atividades de explorao de pedreiras, de caa e de trabalho de
escribas35. No entanto, fosse qual fosse a situao da Nbia durante a XI dinastia,
foi na XII dinastia (-1991 a -1786) que se deu a ocupao efetiva at Semneh,
onde se estabeleceu solidamente a fronteira meridional do reino. Nesse local
foi erigida a famosa estela de Sesstris III, o quinto rei da dinastia, para marcar
claramente um limite de fronteira. A estela proibia a todo nbio a passagem
"rio abaixo, por terra ou por barco e tambm a qualquer de seus rebanhos, com
exceo dos nbios que viessem comerciar em Iken ou em funo de todo bom
negcio que com eles se pudesse realizar"36. Sabe-se hoje que Iken  a fortaleza
de Mirgissa, cerca de 40 km ao norte de Semneh37.
    Inmeros documentos indicam que a ocupao permanente dessa parte da
Nbia foi iniciada por Amenems I, fundador da XII dinastia. Acredita-se
que sua origem seja parcialmente nbia, o que se pode deduzir de um papiro,
atualmente no Museu de Leningrado, cujo nico objetivo era legitimar sua
subida ao trono do Egito. Segundo o documento o rei Snefru, da IV dinastia,
convocou um sacerdote para entret-lo. Interrogado sobre o futuro, o sacerdote


35    ARKELL, A. J. 1961. pp. 56 e 58-59.
36    GARDINER, A. H. 1961. p. 135.
37    VERCOUTTER, J. 1964. p. 62.
A Nbia antes de Napata                                                        247




Figura 9.7   A Nbia, 1580 antes da Era Crist. (Mapa fornecido pelo autor.)
248                                                                    frica Antiga



vaticinou ao rei uma poca de sofrimentos e misria para o Egito, que terminaria
com a "chegada de um rei de nome Ameny, originrio do sul, filho de uma
mulher de Ta-Zeti [Nbia]". Ameny  abreviao de Amenems38.
    Uma inscrio rupestre encontrada perto de Korosko, na Baixa Nbia, datada
do 29o ano do reinado de Amenems afirma que suas tropas atingiram Korosko
a fim de "destruir Wawat". Nas instrues que deixou a seu filho, Amenems
declara: "Apoderei-me do povo de Wawat e capturei o povo de Medja"39. Outras
inscries do mesmo rei, a oeste de Abu Simbel, revelam atividades de explorao
de pedreiras na Baixa Nbia durante a ltima parte de seu reinado.
    A ocupao da Nbia, iniciada por Amenems I, foi completada por seu filho e
sucessor Sesstris I40. Numa grande pedra gravada  erigida no 18o ano do reinado
de Sesstris I, em Buhen, por um oficial de nome Mentuhotep  o deus tebano da
guerra, Montu,  representado presenteando o rei com uma fileira de prisioneiros
de guerra amarrados, provenientes de dez localidades nbias. Sob a cabea e os
ombros de cada prisioneiro, numa moldura oval, est inscrito o nome da localidade
cujo povo ele representa. Entre as terras conquistadas referidas nessa estela de
arenito, figuram Kush, Sha'at e Shemyk. Sha'at  a atual ilha de Sai41, a cerca
de 190 km ao sul de Buhen; Shemyk, de acordo com uma inscrio descoberta,
corresponde  regio da catarata de Dal, a 40 km a jusante da ilha de Sai.
    Kush, nome que os egpcios logo adotaram para designar um extenso
territrio do sul, era originariamente um territrio nbio restrito, cuja primeira
referncia data do Mdio Imprio42. De acordo com a estela de Buhen, que
enumera, assim como outros documentos do mesmo perodo43, os nomes de
lugares na ordem de localizao do norte para o sul, Kush se situaria no apenas
ao norte de Sha'at, mas tambm ao norte de Shemyk. Sabe-se hoje que Shemyk
 a ilha de Dal ou a regio da catarata de Dal, ao norte da ilha de Sai, o que nos
permite, com toda segurana, situar Kush ao norte de Dal e ao sul da Segunda
Catarata ou Semneh44.
    Uma segunda indicao da vitria de Sesstris I sobre a Nbia, que assegurou
aos faras da XII dinastia o pleno controle da regio ao norte de Semneh, provm


38    GARDINER, A. H. 1961. p. 126.
39    BREASTED, J. H. 1906. v. 1, p. 483.
40    ARKELL, A. J. 1961. pp. 59-60.
41    VERCOUTTER, J. 1958. pp. 147-8.
42    POSENER, G. 1958. p. 47.
43    POSENER, G. 1958. p. 60.
44    POSENER, G. 1958. p. 50.
A Nbia antes de Napata                                                                          249




figura 9.8 As fortificaes ocidentais de uma fortaleza do Mdio Imprio em Buhen. (Fonte: Ministrio
da Informao e da Cultura, Repblica Dem. do Sudo.)



da inscrio encontrada no tmulo de Ameny, nomarca de Beni-Hassan, no
Egito. Por ela ficamos sabendo que Ameny, navegando para o sul em companhia
do prprio rei, "foi alm de Kush e chegou ao fim da Terra''45.
   As razes que levaram os egpcios a ocupar parte da Nbia foram ao
mesmo tempo econmicas e defensivas. As razes econmicas eram, por um


45   GARDINER, A. H. 1961. p. 134.
250                                                                     frica Antiga



lado, o desejo de garantir as importaes dos produtos do sul, como penas
de avestruz, peles de leopardo, marfim e bano, e por outro a explorao das
riquezas minerais da Nbia46. Alm disso, a segurana do reino exigia a defesa
de sua fronteira meridional contra os nbios e os povos do deserto, a leste. Sua
estratgia consistia em manter uma regio-tampo entre a fronteira real do
Egito, na regio da Primeira Catarata, e a rea situada ao sul de Semneh (que
constitua verdadeira ameaa para os egpcios), a fim de controlar o trfico ao
longo do Nilo e prevenir as ameaas que lhes pudessem vir de Kush.
    A natureza defensiva da ocupao egpcia na Nbia durante o Mdio Imprio
 claramente atestada pelo nmero e pela solidez das fortalezas que os reis da XII
dinastia tiveram de construir no territrio ocupado. Um papiro do fim do Mdio
Imprio, descoberto num tmulo perto do Ramesseu, em Lxor47, menciona
dezessete fortes nbios entre Semneh, ao sul, e Shellal, ao norte. Esses fortes
se dividem em dois grupos: os que se localizam ao norte da Segunda Catarata,
destinados a manter um rigoroso controle sobre a populao nativa48, isto , o
povo do Grupo C, e os que foram construdos sobre elevaes situadas entre
a Segunda Catarata e Semneh, com a funo de proteger as embarcaes em
dificuldade nos bancos de areia e defender a fronteira49. Os prprios nomes
desses fortes tornam claro que foram construdos para defesa: "Repelir as Tribos",
"Reprimir ..." , "Controlar os Desertos", "Repelir os Inu" e "Repelir os Mazaiu"50.
    A solidez de tais fortalezas e os esforos desenvolvidos para torn-las
inexpugnveis podem ser ilustrados pelo forte de Buhen, um dos mais bem
conservados na Nbia at ser inundado pelas guas da nova barragem de Assu.
Essa formidvel fortaleza do Mdio Imprio compunha-se de uma complexa
srie de fortificaes dentro de fortificaes construdas segundo um plano
retangular de 172 m por 160 m51. O sistema de defesa compreendia um muro
de tijolos, de 4,80 m de espessura e pelo menos 10 m de altura, com torres
em intervalos regulares. Na base do muro principal havia uma plataforma
pavimentada de tijolos, protegida por uma srie de baluartes redondos com
duas filas de seteiras. Todo o forte era cercado por um fosso seco, escavado na
rocha, com uma profundidade de 6,50 m. O fosso tinha 8,40 m de largura e


46    TRIGGER, B. G. 1965. p. 94.
47    EMERY, W. B. 1965. p. 143.
48    GARDINER, A. H. 1961. p. 135.
49    ARKELL, A. J. 1961. p. 61.
50    GARDINER, A. H. 1961. p. 135.
51    EMERY, W. B. 1960. pp. 7-8.
A Nbia antes de Napata                                                                          251




figuras 9.9 9.10 e 9.11   Cermica de Kerma. (Fonte: Ministrio da Informao e da Cultura, Rep. Dem.
do Sudo.)
252                                                                     frica Antiga



a escarpa exterior era sustentada por obras de alvenaria. Havia duas portas no
lado leste, de frente para o Nilo, e uma terceira, solidamente fortificada, no lado
oeste, de frente para o deserto.
   Aps a queda do Mdio Imprio e a invaso dos hicsos (tribos asiticas),
os egpcios perderam o controle sobre a Nbia. Os fortes foram saqueados e
queimados pelos nativos, que parecem ter-se aproveitado do colapso do governo
central do Egito para recuperar sua independncia.


      Kerma (-1730 a -1580)
    Como foi dito, a fronteira sul do Mdio Imprio egpcio foi inquestionavelmente
fixada em Semneh por Sesstris III. Mas as importantes escavaes efetuadas
pelo arquelogo americano G. A. von Reisner entre 1913 e 1916, em Kerma,
pouco acima da Terceira Catarata e a 240 km ao sul de Semneh, em linha reta,
revelaram uma cultura, conhecida como cultura de Kerma, que tem sido objeto
de interpretaes divergentes por parte de especialistas.
    O antigo stio de Kerma compreende dois notveis edifcios, localmente
conhecidos como Dufufa do Oeste e Dufufa do Leste. O primeiro  uma massa
compacta de tijolos crus e o segundo uma capela funerria, tambm de tijolos
de barro, cercada por um amplo cemitrio. As duas construes so tpicas do
Mdio Imprio. No Dufufa do Oeste, Reisner encontrou fragmentos de vasos
de alabastro com os cartuchos de Ppi I e Ppi II, da VI dinastia, juntamente
com os de Amenems I e Sesstris I. Perto do Dufufa do Leste descobriu-
-se uma pedra gravada onde se narra que Antef, o nico companheiro do rei,
fora enviado para reparar uma construo em Inebu. A expresso usada era
Amenemhet maa Kheru, que significa "os muros de Amenems, o Justificado".
Num tmulo perto dessa capela funerria encontraram-se a parte inferior de
uma esttua de Hepzefia (prncipe de Assiut, no Egito, onde se encontra sua
sepultura), uma esttua de sua mulher Sennuwy e fragmentos de outras esttuas
de altos funcionrios e reis egpcios.  luz dessas descobertas, Reisner concluiu52
que: a) os muros situados abaixo do Dufufa do Oeste pertencem a um posto
comercial do Antigo Imprio; b) no Mdio Imprio, o Dufufa do Oeste era
a fortaleza situada mais ao sul da cadeia de fortes construdos pelos egpcios
entre Assu e Kerma para salvaguardar seus interesses na Nbia; c) Kerma era
o quartel-general dos governadores gerais egpcios, o primeiro dos quais teria

52    REISNER. G. A. von. 1923-a.
A Nbia antes de Napata           253




figuras 9.12 e 9.13 Cermica
de Kerma. (Fonte: Ministrio da
Informao e da Cultura, Rep.
Dem. do Sudo.)
254                                                                  frica Antiga



sido Hapidjefa; d) os governadores gerais egpcios eram enterrados  maneira
egpcia no cemitrio localizado perto do Dufufa do Leste; e) quando os hicsos
invadiram o Egito, o posto avanado de Kerma foi destrudo pelos nbios.
    O primeiro a questionar a interpretao de Reisner para os materiais
arqueolgicos descobertos em Kerma foi Junker53. O Dufufa do Oeste era
muito pequeno para ser um forte e ao mesmo tempo estava perigosamente
isolado, visto situar-se a 400 km de distncia do forte egpcio mais prximo,
em Semneh. Alm disso, as matrias-primas  como grafite, xido de cobre,
hematita, mica, resina, cristal de rocha, cornalina, casca de ovo de avestruz 
descobertas nas vrias dependncias indicam que o Dufufa do Oeste era antes
um posto comercial fortificado que um centro administrativo.
    Quanto ao cemitrio, a opinio de Reisner  segundo a qual ela seria a
necrpole dos governadores egpcios  assentava exclusivamente na descoberta
das esttuas de Hapidjefa e de sua esposa num dos grandes tmulos. O tipo
de sepultura nesses tmulos de Kerma era inteiramente nbio. A mumificao
no era praticada e a pessoa morta era enterrada num leito, com suas esposas,
filhos e criados, todos numa mesma sepultura. Sabendo-se que esses tmulos
no so egpcios nem por sua construo nem por seu modo de sepultura e
que os egpcios receavam ser enterrados fora de seu pas, pois poderiam ser
privados dos ritos funerrios,  difcil acreditar que uma pessoa da posio
social e poltica de Hapidjefa tivesse sido enterrada numa terra estranha,
segundo um rito completamente diverso das crenas religiosas egpcias.
Ademais, muitos dos objetos descobertos nos tmulos atribudos a Hapidjefa
datam incontestavelmente do Segundo Perodo Intermedirio ou perodo dos
hicsos54. Com base nesses dados, Sve-Sderbergh e Arkell55 concluram que as
esttuas encontradas nesse tmulo foram trocadas pelos comerciantes egpcios
por mercadorias nbias provenientes dos prncipes locais de Kerma, durante o
Segundo Perodo Intermedirio.
    Desse modo a teoria de Reisner referente ao Dufufa do Oeste e ao cemitrio
em torno do Dufufa do Leste foi rejeitada em seus pontos fundamentais. A
maioria dos especialistas sustentou que o Dufufa do Oeste era apenas um
posto comercial egpcio, enquanto o cemitrio se destinava ao sepultamento
dos prncipes nativos.



53    JUNKER, H. 1921.
54    SVE-SDERBERGH, T. 1941.
55    ARKELL, A. J. 1961. p. 71.
A Nbia antes de Napata                 255




figura 9.14 Kerma: o Dufufa do Leste,
com uma sepultura no primeiro plano.
(Fonte: Ministrio da Informao e da
Cultura, Rep. Dem. do Sudo.)
Figura 9.15    Sepultura de Kerma.
256                                                                    frica Antiga



    Reexaminando as diferentes teorias aventadas para explicar a questo de
Kerma, Hintze observa que elas "encerram contradies internas que fazem
duvidar de sua preciso"56. Em primeiro lugar, nota que os argumentos
apresentados por Junker contra a interpretao de Reisner so igualmente
vlidos para refutar a hiptese do prprio Junker, segundo a qual o Dufufa do
Oeste era um posto comercial fortificado. Hintze tambm considera improvvel
a existncia, nesse perodo, de um posto comercial fortificado egpcio nessa parte
da Nbia, principalmente se considerarmos que, como sustentam alguns dos
adversrios de Reisner57, Kerma constitua a base poltica de Kush, tradicional
inimigo do Egito durante o Mdio Imprio. E, como todas as teorias por ele
examinadas concordam em que o cemitrio  nbio e que o Dufufa do Oeste 
uma capela funerria a ele ligada, Hintze sublinha a improbabilidade de o fara
enviar um funcionrio egpcio ao "odioso Kush" a fim de reparar uma capela
ligada a um cemitrio nbio. Finalmente, Hintze enfatiza que, como j mostrara
Sderbergh, o cemitrio pertence ao Segundo Perodo Intermedirio, sendo
assim posterior ao Dufufa do Oeste. Por essa razo, os supostos governadores
do Dufufa do Oeste, no Mdio Imprio, no poderiam ser enterrados ali.
    Todas estas consideraes levaram Hintze a abandonar definitivamente
a "concepo de um posto comercial egpcio" em Kerma. Para ele, Kerma 
simplesmente o "centro de uma cultura nbia nativa e a sede de uma dinastia
local". O Dufufa do Oeste era a residncia do soberano nativo de Kush e foi
destrudo pelas tropas egpcias no incio do Novo Imprio.
    Trata-se de uma teoria simples, aparentemente mais prxima da verdade,
sobretudo se levarmos em conta as provas fornecidas pelo cemitrio. A data
dos objetos encontrados nas sepulturas, o estilo de sua construo e os ritos
funerrios mostram claramente que elas no se destinavam aos governadores
gerais egpcios do Mdio Imprio. Mas ainda so necessrias evidncias mais
substanciais para concluir que o Dufufa do Oeste era mesmo a residncia do
soberano nativo de Kush. A existncia em Kerma de um posto comercial egpcio
comum durante o Mdio Imprio no pode ser excluda to facilmente como
pretendia Hintze. Por enquanto, o stio pesquisado por Reisner  o nico j
explorado na regio de Dongola, e ainda assim no foi totalmente escavado.
A regio de Dongola  rica em stios da poca de Kerma, e enquanto no se
realizarem pesquisas arqueolgicas sistemticas muita coisa referente  cultura
de Kerma continuar desconhecida.

56    HINTZE, F. 1964.
57    ARKELL, A. J. 1961. p. 72.
A Nbia antes de Napata                                                      257



     O reino de Kush
    Como o nome geogrfico Kush est ligado a Kerma58, e considerando-se que
tmulos de Kerma serviam claramente de sepultura aos poderosos soberanos
nativos que mantinham relaes comerciais e diplomticas com os reis hicsos
no Egito, parece mais provvel que Kerma fosse a capital do reino de Kush, que
floresceu durante a poca conhecida na histria egpcia como Segundo Perodo
Intermedirio (-1730 a -1580). A existncia desse reino, cujo soberano era
chamado "prncipe de Kush",  atestada por inmeros documentos. A primeira
estela de Kams59, o ltimo rei da XVII dinastia egpcia e provavelmente o
primeiro a levantar a bandeira da luta organizada contra os hicsos, descreve a
situao poltica no vale do Nilo naquela poca. A estela indica a existncia de
um reino independente em Kush, com sua fronteira norte fixada em Elefantina,
de um Estado egpcio no Alto Egito, situado entre Elefantina, ao sul, e Cusae,
ao norte, e finalmente do reino dos hicsos no Baixo Egito. Outra estela60 nos
informa que Kams interceptou, na rota dos osis, uma mensagem enviada por
Apophis, o rei dos hicsos, ao soberano de Kush, pedindo-lhe ajuda contra o
rei egpcio. Alm disso, duas estelas descobertas em Buhen revelam que dois
funcionrios, chamados Sepedher61 e Ka62, estavam a servio do soberano de
Kush. O reino de Kush, que abrangia toda a Nbia ao sul de Elefantina aps a
queda do Mdio Imprio no Egito (em seguida  invaso dos hicsos), chegou
ao fim quando Tutmsis I conquistou a Nbia para alm da Quarta Catarata.

     A cultura de Kerma
   Os stios tpicos da cultura de Kerma descobertos na Nbia, ao norte, vo
apenas at Mirgissa63. Isso indica que a Segunda Catarata constitua a fronteira
entre a cultura de Kerma e a cultura do Grupo C. Os elementos caractersticos
da cultura de Kerma eram uma loua torneada fina e muito polida, vermelha,
com a parte superior preta, feita numa roda de oleiro; vasos em forma de animal
decorados com desenhos de animais; punhais especiais de cobre; artigos de
madeira decorados com motivos incrustados em marfim, figuras de mica; e ainda


58   POSENER, G. 1958. p. 39; ARKELL, A. J. 1961. p. 72.
59   HABACHI, L. 1955. p. 195.
60   SVE-SDERBERGH, T. 1956. pp. 54-61.
61   Philadelphia, 10984.
62   Khartoum, N.o 18.
63   VERCOUTTER, J. 1964. p. 59.
258                                                                                     frica Antiga




figuras 9.16 e 9.17   Cermica de Kerma. (Fonte: Ministrio da Informao e da Cultura, Rep. Dem. do
Sudo.)
A Nbia antes de Napata                                                      259



ornamentos costurados sobre gorros de couro. Embora boa parte dos objetos
descobertos em Kerma manifestem claramente uma tradio cultural nativa,
no se pode ignorar a influncia das tcnicas egpcias de artesanato e desenho64.
Admite-se que grande parte desses objetos foi efetivamente manufaturada pelos
artesos egpcios65, mas tambm se poderia dizer que eles foram produzidos
por artesos nativos, que haviam adquirido as tcnicas egpcias para satisfazer
o gosto local.
    No domnio religioso, os rituais funerrios so o trao caracterstico da
cultura de Kerma. Uma sepultura de Kerma caracteriza-se por um tmulo
de barro em forma de cpula, contornado por um crculo de pedras pretas
entremeadas de seixos brancos. Um dos grandes tmulos do cemitrio de
Kerma (K III) compreendia paredes de tijolo formando um crculo de 90 m
de dimetro66. Duas paredes paralelas que atravessavam o meio do tmulo de
leste para oeste formavam um corredor central que o dividia em duas partes.
Muitas outras paredes paralelas estendiam-se em ngulo reto desde os dois
lados desse corredor at a circunferncia do crculo, para o norte e para o sul.
No meio da parede sul do corredor abria-se uma entrada para um vestbulo que
levava  cmara principal da sepultura, em direo ao lado leste. Em Kerma,
a personagem principal enterrada era colocada num leito, deitada sobre o lado
direito. Nesse leito colocavam-se um travesseiro de madeira, um leque de penas
de avestruz e um par de sandlias. A seu lado e ao redor das paredes da cmara
depositava-se um grande nmero de vasos de cermica. O mais surpreendente
costume funerrio de Kerma era o dos sacrifcios humanos. O dono do tmulo
era acompanhado por duzentas a trezentas pessoas, a maioria composta de
mulheres e crianas, que eram enterradas vivas no corredor central.


     Novo imprio (-1580 a -1050)
   Quando os egpcios readquiriram o controle de seu pas aps libert-lo do
domnio dos hicsos, recomearam a concentrar sua ateno na fronteira sul, o
que resultou na mais completa conquista da Nbia empreendida pelo Egito
desde o incio de sua histria antiga.



64   TRIGGER, B. G. 1965. p. 103.
65   ARKELL, A. J. 1961. p. 74.
66   REISNER, G. A. 1923-a. p. 135.
260                                                                                     frica Antiga




figura 9.18   Ornamentos pessoais.
Figura 9.19   Cermica de Kerma. (Fonte: Ministrio da Informao e da Cultura, Rep. Dem. do Sudo.)
A Nbia antes de Napata                                                            261



    A primeira estela do rei Kams, j referida, explica como seus domnios se situavam
entre um reino no Baixo Egito e outro em Kush. A mesma estela declara que os
cortesos estavam satisfeitos com a situao na fronteira meridional do Egito, uma
vez que Elefantina estava firmemente controlada. Mas uma passagem da segunda
estela67 mostra que Kams moveu uma guerra contra os nbios antes de atacar os
hicsos. A crer na afirmao dos cortesos (segundo a qual a fronteira de Elefantina era
bem guardada e segura),  provvel que Kams tenha realizado apenas uma expedio
punitiva contra os nbios, o que explicaria a existncia dos nomes reais de Kams
perto de Toshka, na Baixa Nbia.
    A verdadeira ocupao da Nbia foi completada por Amsis, sucessor de Kams
e fundador da XVIII dinastia egpcia. Nossa principal fonte de informaes sobre
suas atividades militares na Nbia, bem como sobre as de seus sucessores imediatos,
 a autobiografia do almirante Ahmose, simples comandante de navio nascido
em Ebana, inscrita sobre as paredes de seu tmulo em el-Kab, no Egito. Por ela
ficamos sabendo que "Sua Majestade dirigiu-se a Khent Hennefer (localidade no-
-identificada na Nbia) para arrasar os nbios, aps ter aniquilado os asiticos".
Amsis pde reconstruir e ampliar a fortaleza de Buhen e ali erigir um templo. Pde
inclusive avanar at a ilha de Sai, 190 km a montante de Buhen, pois ali se encontrou
uma esttua sua e inscries contendo seu nome e o de sua esposa68.
    Entretanto coube a Tutmsis I (-1530 a -1520) completar a conquista do Sudo
setentrional, determinando assim o fim da independncia do reino de Kush. Ao
chegar a Tumbus, no extremo sul da Terceira Catarata, Tutmsis I gravou a sua
grande inscrio. Em seguida prosseguiu a marcha para o sul, ocupando efetivamente
toda a extenso do rio entre Kerma e Kurgus, 80 km ao sul de Abu Hamad, onde
deixou uma inscrio e provavelmente tenha construdo um forte69. Desse modo a
Nbia foi totalmente conquistada pelo Egito, tendo incio uma nova e brilhante era
de sua histria, cujas marcas permaneceram em sua vida cultural durante os perodos
posteriores.

     A Nbia sob a XVIII dinastia
   Sabemos, por uma inscrio rupestre entre Assu e Filas, datada do primeiro
ano do governo de Tutmsis II70, que houve uma revolta na Nbia aps a


67   SVE-SDERBERGH, T. 1956. p. 57.
68   VERCOUTTER, J. 1956; id. 1958.
69   ARKELL, A. J. 1961. p. 84.
70   BREASTED, J. H. 1906. v. 1, pp. 119-22.
262                                            frica Antiga




figura 9.20   A Nbia durante o Novo Imprio
A Nbia antes de Napata                                                       263



morte de Tutmsis I. De acordo com essa inscrio, um mensageiro deu a Sua
Majestade a notcia de que Kush comeara a se rebelar e de que o chefe de Kush
e outros prncipes estabelecidos mais ao norte conspiravam juntos. A mesma
inscrio nos informa do envio de uma expedio e da derrota dos rebeldes.
Aps essa expedio punitiva, a paz foi restaurada e firmemente estabelecida
na Nbia durante muitos anos.
    A paz prevaleceu durante todo o reinado da rainha Hatshepsut, que sucedeu
a Tutmsis II. O monumento mais importante dessa poca na Nbia  o
magnfico templo que ela fez construir em Buhen, dentro dos muros da cidadela
do Mdio Imprio71. Dedicado a Hrus, o deus com cabea de falco, "Senhor
de Buhen", esse templo reveste-se de grande interesse histrico e artstico. Nele
se encontram relevos do mais fino estilo e do mais belo lavor, caractersticos da
XVIII dinastia, e as cores nas paredes ainda esto bem preservadas. Mais tarde o
templo foi usurpado por Tutmsis III, que desvirtuou o plano original e apagou
sistemtica e implacavelmente os cartuchos e os retratos da rainha Hatshepsut.
    O templo foi construdo com arenito nbio e compreende duas partes
principais: um trio e um edifcio retangular com uma fileira de colunas nos
lados norte, sul e leste. A rainha Hatshepsut construiu tambm um templo
dedicado  deusa Htor, em Faras, na margem oeste do Nilo, exatamente na
atual fronteira poltica entre o Egito e o Sudo72.
    Os anais de Tutmsis III inscritos nas paredes do grande templo de mon,
em Carnac, mostram o pagamento dos tributos de Wawat, durante oito anos, e
dos de Kush, durante cinco anos. Isso indica claramente que o tributo da Nbia
aflua regularmente para os cofres do rei73, autorizando-nos a afirmar que a
paz continuou a reinar sob o governo de Tutmsis III. No segundo ano de seu
reinado, Tutmsis III reconstruiu em pedra o templo de tijolos de barro erigido
por Sesstris III a oeste de Semneh, que se achava em runas, e dedicou-o
ao deus nbio Dedwen, a Khnum e ao deificado Sesstris III. Esse  um dos
mais bem conservados templos independentes do perodo pr-ptolomaico em
todo o vale do Nilo. As paredes esto cobertas com cenas em relevo, inscries
hieroglficas e pinturas. Os textos e as cenas so incontestavelmente obras de
artesos de primeira classe74. Tutmsis III construiu tambm pequenos templos
nos fortes de Semneh Leste, Uronarti, Faras e talvez no da ilha de Sai.


71   MACIVER, D. R. & WOOLLEY, C. L. 1911.
72   GRIFFITH, F. L. 1921-8. p. 83.
73   ARKELL, A. J. 1961. p. 88.
74   CAMINOS, R. A. 1964-a. p. 85.
264                                                                   frica Antiga



    Tutmsis III foi sucedido por Amenfis II, em cujo reinado a Nbia
permaneceu em paz. Amenfis II concluiu o templo de Amada (importante
cidade da Baixa Nbia), iniciado por seu pai Tutmsis III. Uma estela datada
do terceiro ano de seu reinado e construda nesse templo registra seu retorno
vitorioso de uma campanha na sia, com os corpos de sete prncipes "que ele
matara com sua prpria clava". Amenfis fez pendurar seis desses prncipes
diante das muralhas de sua capital, em Tebas. A estela nos diz que o stimo
prncipe foi "enviado de navio  Nbia e pendurado na muralha de Napata,
para que o poder vitorioso de Sua Majestade seja visto por toda a eternidade"75.
    Do reinado de Tutmsis IV, que sucedeu a Amenfis II, temos um registro, na
ilha de Konosso, perto de Filas, de uma bem sucedida expedio para debelar uma
revolta na Nbia. Esse registro data do oitavo ano de governo de Tutmsis IV.
    Tutmsis IV foi sucedido por seu filho Amenfis III, que empreendeu uma
campanha contra a Nbia at Karei, no quinto ano de seu reinado. Em Soleb,
na margem esquerda do Nilo, 220 km ao sul de Uadi Halfa, ele erigiu o
templo mais grandioso de toda a Nbia, dedicado  sua prpria imagem
viva. Amenfis III construiu tambm um templo para sua rainha, Teye, em
Sedinga, 21 km ao norte de Soleb, na mesma margem do Nilo.
    A sublevao poltica no Egito, causada pela revoluo religiosa de
Amenfis IV (-1370 a -1352) no perturbou a paz na Nbia, e as atividades
de construo continuaram como antes. Em Sesebi, ao sul de Soleb, diante
de Delgo, Amenfis IV, antes de mudar seu nome para Aquenton, construiu
um grupo de trs templos sobre um alicerce comum76. Os templos ficavam
no interior de uma cidadezinha murada, onde havia um pequeno santurio
dedicado a ton, o novo deus. Parece que ele fundou tambm a cidade de
Gemton, situada em Kawa, diante da atual Dongola. Tambm em Kawa foi
construdo um pequeno templo, por seu sucessor Tutancmon 77. Em Faras,
Huy, vice-rei da Nbia sob o governo de Tutancmon, erigiu um templo e uma
colnia murada78.
    O fim da XVIII dinastia, embora caracterizado por problemas no Egito,
parece no ter afetado a paz e a estabilidade na Nbia. De modo geral, a Nbia
se desenvolveu pacificamente durante toda essa dinastia.



75    GARDINER, A. H. 1961. p. 200.
76    FAIRMAN, H. W. 1938. pp. 151-6.
77    MACADAM. M. F. L. 1949. p. 12.
78    GRIFFITH. F. L. 1921-8. p. 83.
A Nbia antes de Napata                                                                       265




figura 9.21 O templo de Amenfis III em Soleb. (Fonte: Ministrio da Informao e da Cultura, Rep.
Dem. do Sudo.)




    A Nbia sob a XIX dinastia
    A partir da poca de Aquenton, a posio do Egito foi se enfraquecendo
interna e externamente. Aquenton era um sonhador, e seu movimento religioso
trouxe muitos danos ao Imprio. Alm disso, os faras que o sucederam eram fracos,
completamente incapazes de encontrar solues para os problemas da poca. O pas
inteiro encontrava-se em estado de agitao. Havia razo para temer uma guerra
civil aberta, pois o pas se via ameaado por uma anarquia geral. Nesse momento
crtico, o Egito teve a sorte de encontrar um libertador na pessoa de um general
chamado Horemheb, lder capaz e experiente. Durante o reinado de Tutancmon,
Horemheb percorreu a Nbia na qualidade de chefe do exrcito, para verificar a
266                                                                          frica Antiga



lealdade da administrao aps a restaurao do antigo regime 79. Posteriormente,
quando usurpou o trono do Egito, fez uma segunda apario na Nbia. Segundo as
inscries nas paredes de seu templo comemorativo cravado na rocha em Silsileh, no
Alto Egito, essa viagem foi uma expedio militar. No entanto parece antes ter-se
tratado de uma simples visita do usurpador para assegurar sua posio numa regio
de importncia vital para ele no Egito. Em todo caso, Horemheb garantiu a lealdade
da administrao egpcia da Nbia, como mostra o fato de Paser, vice-rei da Nbia
no reinado anterior, ter continuado a ocupar o posto sob seu governo.
    Ramss I (-1320 a -1318), que sucedeu a Horemheb, foi o verdadeiro fundador
da XIX dinastia. No segundo ano de seu reinado ele erigiu uma estela no templo de
Hatshepsut, em Buhen, na qual nos conta que ampliou o nmero dos sacerdotes e
escravos do templo e que lhe acrescentou novas construes.
    Aps a morte de Ramss I, seu filho Seti I (-1318 a -1298) ascendeu ao trono.
Ele explorou as minas de ouro da Nbia para aumentar seu tesouro de modo a poder
executar seus imensos projetos de construo. Para aumentar a produo das minas de
ouro de Uadi el-Alaki, cavou um poo na estrada que vai de Kuban, na Baixa Nbia,
para o sudeste, mas no encontrou gua e por isso no conseguiu alcanar seu objetivo.
Na Alta Nbia, Seti I construiu uma cidade em Amara Oeste, a cerca de 180 km
ao sul de Uadi Halfa.  provvel que tenha sido ele tambm o construtor do grande
templo de mon em Djebel Barkal (o dw-w3b dos antigos egpcios: a montanha
sagrada), perto de Kareima. So raras as evidncias de atividades militares na Nbia
durante o reinado de Seti I. Parece que nunca houve necessidade de expedies
militares importantes, o que no exclui pequenas misses punitivas enviadas  Nbia
por uma ou outra razo.
    Seti foi sucedido por seu filho Ramss II (-1298 a -1232). Dispomos de numerosas
representaes de atividades militares na Nbia durante o longo reinado desse fara.
Porm, como elas no fornecem datas nem nomes de lugares, so consideradas sem
valor histrico80. De um modo geral, a paz parece ter prevalecido na Nbia durante
o tempo de Ramss II, como se pode ver pelas intensas atividades de construo
empreendidas por ele em toda a regio.
    No terceiro ano de seu reinado, encontramos Ramss II em Mnfis consultando
seus altos funcionrios sobre a possibilidade de abrir o pas de Alaki para desenvolver
as minas de ouro que seu pai infrutiferamente tentara explorar. O vice-rei de Kush,
que estava presente, explicou-lhe as dificuldades e relatou as vs tentativas de seu pai
no sentido de fornecer gua  rota. Contudo, o rei ordenou nova tentativa, esta bem-

79    ARKELL. A. J. 1961. p. 94.
80    EMERY. W. B. 1965. p. 193.
A Nbia antes de Napata                                                            267



-sucedida: encontrou-se gua apenas doze cvados abaixo da profundidade atingida
por seu pai, Seti I. Em Kuban, onde a estrada que leva s minas de Uadi el-Alaki
deixa o vale do Nilo, ergueu-se uma estela comemorativa desse sucesso.
    Como foi dito, Ramss II iniciou intensas atividades de construo na Nbia.
Edificou templos em Beit-el-Wali, Gerf Ussein, Uadi es-Sebua, el-Derr, Abu Simbel
e Akasha, na Baixa Nbia, bem como em Amara e Barkal, na Alta Nbia.
    Em Amara, as escavaes realizadas at agora81 mostraram que a cidade foi
fundada por Seti I, embora o templo tenha sido obra de Ramss II. Essa cidade foi
habitada sem interrupo durante a XIX e a XX dinastia e acredita-se que tenha sido
a residncia do vice-rei de Kush82.
    O templo de Abu Simbel, talhado num promontrio de arenito na margem
esquerda do Nilo,  uma das maiores estruturas escavadas na rocha em todo o
mundo e constitui sem dvida uma pea arquitetnica nica83. A localizao desse
grande templo talvez se deva ao fato de o lugar ser considerado sagrado bem antes
de sua construo. O templo era consagrado a R-Harakti, o deus do sol nascente,
representado como um homem com cabea de falco segurando o disco solar.
    Na fachada encontram-se quatro esttuas colossais de personagens sentadas,
tambm moldadas na rocha. Essas esttuas, duas em cada lado da entrada, representam
Ramss II usando a dupla coroa do Egito. A entrada abre-se diretamente para
a grande sala, onde se avistam duas filas de quatro pilares de base quadrada. Na
frente dos pilares encontram-se gigantescas esttuas do rei, em p, sempre com a
coroa dupla. Nas paredes da grande sala, de 9 m de altura, existem cenas e inscries
relativas s cerimnias religiosas e s atividades militares do fara contra os hititas
na Sria e os nbios no sul. Nas paredes norte e oeste da mesma sala localizam-se
as portas que conduzem a vrios depsitos, cujas paredes so totalmente cobertas de
baixos-relevos religiosos. Saindo da grande sala pela porta central da parede oeste,
entra-se numa pequena sala, cujo teto se apia em quatro pilares quadrados; tambm
aqui as paredes se apresentam cobertas de baixos-relevos de natureza religiosa. Entre
essa sala e o santurio existe outro aposento, com trs portas na parede oeste; as duas
portas laterais do acesso a peas menores, sem inscries nas paredes, enquanto a
porta do meio conduz ao santo dos santos, onde Ramss II est representado em
seu trono, ao lado dos trs deuses mais poderosos do Egito  mon-R, de Tebas,
R-Harakti, de Helipolis, a Cidade do Sol, e Ptah, de Mnfis, a antiga capital.



81   FAIRMAN, H. W. 1938; id. 1939. pp. 139-44; id. 1948. pp. 1-11.
82   ARKELL. A. J. 1961. p. 94.
83   EMERY, W. B. 1965. p. 194.
268                                                                         frica Antiga



      A administrao da Nbia
    A direo da mquina administrativa egpcia na Nbia, durante o perodo do
Novo Imprio, estava a cargo do vice-rei da Nbia. Desde o comeo, esse funcionrio
ostentava o ttulo de "governador dos pases do sul", juntamente com o de "filho do
rei". O primeiro ttulo era o que realmente correspondia  sua funo. No tempo
de Tutmsis IV, o vice-rei da Nbia tinha o mesmo nome que o prncipe herdeiro,
Amenfis. Para distinguir um do outro, o vice-rei da Nbia era chamado de "filho do
rei de Kush". Posteriormente, esse ttulo foi dado a todos os vice-reis que sucederam
a Amenfis; o ttulo no indica necessariamente que os vice-reis da Nbia procediam
de famlia real, mas pode ser uma indicao da importncia do cargo e da grande
autoridade de que gozava o vice-rei. Esses altos funcionrios eram escolhidos
entre homens de confiana, inteiramente devotados ao fara, perante o qual eram
diretamente responsveis. Tratava-se de administradores capazes.
    A Nbia estava dividida em dois vastos territrios: as terras entre Nekhen (no
Alto Egito) e a Segunda Catarata, conhecidas como Wawat, e toda a rea ao sul,
entre a Segunda e a Quarta Catarata, chamada Kush. O vice-rei dirigia um grande
nmero de departamentos administrativos claramente imitados dos seus congneres
no Egito. Assessoravam-no funcionrios encarregados dos diversos departamentos
administrativos necessrios para o governo da Nbia. As cidades nbias estavam
submetidas a governadores responsveis junto ao vice-rei. Um comandante dos
arqueiros de Kush e dois delegados, um para Wawat e o outro para Kush, compunham
o estado-maior do governante nbio. Ele tinha sob ordens as foras policiais destinadas
a garantir a segurana interna e tambm as guarnies das cidades e um pequeno
exrcito para proteger expedies enviadas s minas de ouro. Uma responsabilidade
importante do vice-rei da Nbia era a entrega pontual do seu tributo, pessoalmente,
ao vizir de Tebas84. Alm disso, ele era ainda o chefe religioso do pas.
    Os chefes tribais nativos tambm participavam da administrao da Nbia. A
poltica egpcia da poca era assegurar a lealdade dos prncipes locais85, o que se
obtinha permitindo que mantivessem a soberania em seus distritos.

      Egipcianizao da Nbia
   Nos estgios iniciais, a ocupao egpcia da Nbia, durante o Novo Imprio,
encontrou resistncia. Mas os nbios logo se acomodaram, sob a nova administrao
egpcia, a um desenvolvimento pacfico indito em seu pas. J vimos que os reis

84    ARKELL, A. J. 1961. p. 98.
85    TRIGGER, B. G. 1965. p. 107.
A Nbia antes de Napata                                                            269



da XVIII e da XIX dinastia construram templos em toda a Nbia. Em seguida,
desenvolveram-se em torno desses templos cidades importantes como centros
religiosos, comerciais e administrativos. Toda a Nbia foi reorganizada segundo
padres puramente egpcios e montou-se um sistema administrativo totalmente
egpcio, que requeria a presena de um nmero considervel de escribas, sacerdotes,
soldados e artesos. Tal processo acabou resultando na completa egipcianizao do
pas. Os nativos adotaram a religio egpcia e passaram a adorar divindades egpcias.
Os velhos costumes funerrios foram substitudos por rituais egpcios. O corpo no
era mais deitado de lado, em posio semifletida; em vez disso, passou a ser estendido
de costas ou colocado num caixo de madeira. As sepulturas desse perodo so de
trs tipos86: uma cova retangular simples, um poo cavado na rocha com uma cmara
funerria subterrnea na extremidade e uma cova retangular com um nicho lateral
cavado num dos lados mais longos. Os objetos funerrios depositados nesses tmulos
so artefatos egpcios tpicos da poca. As tcnicas aplicadas pelos egpcios nas artes
e na arquitetura tambm foram adotadas pelos nbios.
    O processo de egipcianizao, que na verdade havia comeado na Nbia durante
o Segundo Perodo Intermedirio, foi ento acelerado, atingindo o clmax. Entre
os principais fatores que contriburam para promover rapidamente a assimilao
cultural do modo de vida egpcio, pode-se citar a poltica adotada pela administrao
faranica na Nbia durante o Novo Imprio. Como j se mencionou, a poltica
oficial era a de assegurar a lealdade e o apoio dos chefes nativos. Seus filhos eram
educados na corte real do Egito, onde "escutavam a fala dos egpcios do squito do
rei, o que os fazia esquecer sua prpria lngua"87. Desse modo eles eram fortemente
egipcianizados e isto naturalmente ajudou a garantir a lealdade dos prncipes nbios
para com o Egito e a cultura egpcia. Quando um chefe se convertia a uma religio
estrangeira e aceitava em sua vida cotidiana as regras de outra cultura, era natural
que seus sditos lhe imitassem o exemplo. A egipcianizao atingiu inicialmente as
classes superiores, o que abriu caminho para a rpida difuso desse processo entre a
populao local da Nbia.
    Um dos prncipes locais que adotaram o modo de vida de um egpcio da classe
superior foi Djehuty-Hotep, prncipe de Serra (o antigo Teh-Khet), ao norte de
Uadi Halfa. Ele viveu durante o reinado da rainha Hatshepsut e herdou o principado
de seu pai, sendo depois sucedido por seu irmo Amenems. Por uma estatueta
pertencente a Amenems (hoje no Museu Nacional do Sudo), sabemos que ele
trabalhou como escriba na cidade de Buhen, antes de se tornar prncipe de "Teh-

86   EMERY, W. B. 1965. p. 178.
87   SVE-SDERBERGH, T. 1941. p. 185.
270                                                                                    frica Antiga




figuras 9.22 e 9.23 Tipos de sepulturas do Novo Imprio (segundo W. B. Emery, 1965).
A Nbia antes de Napata                                                        271



-Khet". Isso mostra que durante o Novo Imprio a classe nativa educada participava
da administrao da Nbia juntamente com os egpcios.
    O tmulo de Djehuty-Hotep foi descoberto a 1,5 km a leste do Nilo, prximo
 aldeia de Debeira, cerca de 20 km ao norte da cidade de Uadi Halfa88. Talhado
numa pequena colina de arenito ele foi concebido e decorado em estilo inteiramente
egpcio. Suas cenas descrevem o prncipe Djehuty-Hotep inspecionando o trabalho
em sua fazenda, recebendo a homenagem dos servos  maneira egpcia, caando
com arco e flecha num carro puxado por cavalos e divertindo-se num banquete com
seus convidados. Seria quase impossvel distingui-lo de um nobre egpcio do Novo
Imprio se ele no tivesse inscrito seu nome em nbio e em egpcio. As inscries
hieroglficas nos umbrais da porta de entrada do tmulo mencionam Anbis, o deus
com cabea de co da necrpole, Hrus e provavelmente a deusa Htor, Senhora de
Faras, outrora Ibshek89.

     A Economia da Nbia
    A importncia econmica da Nbia durante o Novo Imprio pode ser deduzida
principalmente das listas de tributo fixadas nos muros dos templos e tambm da
representao pictrica de produtos nbios nos tmulos de funcionrios egpcios
responsveis pela entrega desses produtos ao fara. Nessa poca, os egpcios
intensificaram a minerao na Nbia, de uma forma que ultrapassou qualquer limite
anterior, a fim de obter cornalina, hematita, feldspato verde, turquesa, malaquita,
granito e ametista. Mas o principal produto da Nbia era o ouro. Durante o reinado
de Tutmsis III, o tributo anual de Wawat atingia sozinho 550 libras90. O ouro da
Nbia vinha das minas da regio situada em torno de Uadi el-Alaki e Uadi Gabgaba,
no deserto oriental, e tambm das minas espalhadas ao longo do vale do Nilo at
Abu Hamad ao sul91.
    O Egito importava da Nbia tambm bano, marfim, incenso, leos, gado,
leopardos, ovos e plumas de avestruz, peles de pantera, girafas e enxota-moscas de
rabo de girafa, galgos, babunos e cereais. Pelo fim da XVIII dinastia, podem-se
observar produtos manufaturados nas representaes das mercadorias que a Nbia
enviava ao Egito como tributo. No tmulo de Huy, vice-rei da Nbia durante o



88   THABIT, H. T. 1957. pp. 81-6.
89   SVE-SDERBERGH, T. 1960. p. 30.
90   HINTZE, F. 1968. p. 17 .
91   VERCOUTTER, J. 1959. p. 128.
272                                                                      frica Antiga



reinado de Tutancmon, verifica-se que o tributo do sul inclua escudos, tamboretes,
camas e poltronas92.
    Por sua riqueza e tambm pela importncia de suas tropas, no fim do Novo
Imprio a Nbia passou a desempenhar um papel significativo nas questes de
poltica interna do prprio Egito. Desordem, fraqueza, corrupo e lutas pelo
poder caracterizaram essa poca no Egito. As faces em luta, percebendo a
importncia da Nbia para seus empreendimentos, esforavam-se por obter o
apoio da sua administrao. O prprio rei Ramss-Siptah, da XIX dinastia, foi
 Nbia no primeiro ano de seu reinado, a fim de nomear Seti como vice-rei93, e
seu delegado levou presentes e recompensas para os funcionrios mais graduados
da Nbia. Merneptah-Siptah, o ltimo rei da XIX dinastia, foi mesmo obrigado
a enviar um de seus funcionrios para receber o tributo da Nbia94,embora o
envio desse tributo figurasse entre os deveres do vice-rei quando o fara exercia
o controle efetivo sobre a totalidade de seu imprio.
    Durante a XX dinastia, a situao do Egito se deteriorou consideravelmente.
Na poca de Ramss III (-1198 a -1166) houve uma conspirao do harm para
depor o soberano. Entre os conspiradores, estava a irm do comandante dos
arqueiros na Nbia, que entrou em contato com seu irmo para que ele ajudasse
na execuo do compl. Mas  evidente que o vice-rei da Nbia permaneceu
leal ao fara. Sob Ramss XI, o ltimo rei da XX dinastia, irrompeu uma revolta
na regio de Assiut. Com a ajuda de Pa-nehesi, vice-rei de Kush, o rei e suas
tropas conseguiram dominar a rebelio e restaurar a ordem no Alto Egito. Aps
o levante, um certo Herihor tornou-se sumo sacerdote de mon em Tebas.
Parece que ele foi elevado a essa dignidade por Pa-nehesi e seus soldados nbios,
supondo-se ser ele um de seus seguidores. No 19o ano do governo de Ramss
XI, aps a morte de Pa-nehesi, Herihor foi nomeado vice-rei da Nbia e vizir
de Tebas. Desse modo passou a ser o senhor efetivo do Alto Egito e da Nbia.
Aps a morte de Ramss XI, Herihor tornou-se rei (-1085), e com ele teve
incio uma nova linhagem de soberanos egpcios. Da por diante o caos reinou
no Egito, iniciando-se na Nbia uma fase crtica, que perdurou at o sculo VIII
antes da Era Crist, quando Kush emergiu inesperadamente como potncia de
primeira grandeza.




92    DAVIES, N. de G. & GARDINER, A. H. 1926. p. 22.
93    BREASTED, J. H. 1906. v. 3.
94    MACIVER, D. R. & WOOLLEY, C. L. 1911. p. 26, pr. 12.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                      273



                                    CAPTULO 10


      O Imprio de Kush: Napata e Mroe
                                       J. Leclant




    Embora atualmente a regio esteja muito isolada pelos desertos e pelos
difceis obstculos da Segunda, Terceira e Quarta Cataratas do Nilo, Dongola e
as bacias vizinhas do Mdio Nilo foram outrora o centro de formaes polticas
ricas e poderosas. Na primeira metade do II milnio, a chamada cultura de
Kerma correspondia ao rico e prspero reino de Kush, mencionado nos textos
egpcios. As prospeces arqueolgicas bastante irregulares dessa regio ainda
hoje pouco conhecida tornam muito difcil elaborar o seu quadro histrico
aps a fase brilhante, mas relativamente curta, de domnio egpcio durante o
Novo Imprio (-1580 a -1085); por quase trs sculos parece ter-se rompido
o vnculo entre a frica e o mundo mediterrnico e um silncio quase total
envolve a Nbia. Contudo, h um despertar a partir do final do sculo IX antes
da Era Crist; a escavao empreendida por G. A. von Reisner na necrpole de
el-Kurru1, perto de Napata, a jusante da Quarta Catarata, revelou os tmulos
de uma srie de prncipes: de incio apenas montes de terra e depois estruturas
de alvenaria do tipo mastaba.




1   DUNHAM, D. & BATES, O. 1950-7.
274                                                                                                 frica Antiga



      A dominao sudanesa no Egito:
      a XXV dinastia ou dinastia etope
    So os reis ancestrais da linhagem que efetivou a unio do Egito e do
Sudo, conhecida na histria como XXV dinastia do Egito ou dinastia etope2.
A semelhana de certos nomes e o papel desempenhado pelo deus mon e seu
clero fizeram com que por muito tempo se acreditasse que a dinastia descendia
de refugiados egpcios originrios da regio tebana. Posteriormente, algumas
pontas de flecha do tipo saariano levaram a crer numa origem lbia. Na realidade,
trata-se de uma dinastia nativa, constituda talvez pelos sucessores dos antigos
soberanos de Kerma.
    Desconhece-se quem foram seus primeiros reis. Sabe-se que, a Alara, sucedeu
Kashta, nome que parece derivar de "Kush"; seus cartuchos, de estilo egpcio,
figuram numa estela descoberta em Elefantina. Naquela poca (cerca de -750),
os nbios ocupavam, pelo menos parcialmente, o Alto Egito.

      A estela de Peye (Piankhy)
    Com o monarca seguinte, o ilustre Piankhy, cujo nome ter doravante a
grafia "Peye"3, entramos no curso principal "da histria: uma das inscries que
ele mandou gravar em Napata e que, descoberta na metade do sculo passado,
encontra-se hoje preservada no Museu do Cairo  a Estela da Vitria4   um
dos textos mais longos e detalhados do antigo Egito. Nas suas duas faces e nos
lados encontram-se 159 linhas de hierglifos descrevendo as deliberaes do rei
em seu palcio e as etapas de sua campanha contra os prncipes lbios, senhores
do Mdio Egito e do Delta. Nesse relato sucedem-se episdios piedosos e
discursos: Peye sabe ser complacente; grande amante de cavalos, encoleriza-se
em Hermpolis por encontrar os animais mortos nos estbulos, mas perdoa.
Por outro lado, recusa-se a ir ao encontro dos "impuros", os dinastas do Delta,
que comiam peixe. E repentinamente, em meio a demonstraes de alegria, tem
lugar uma retirada para o sul, de volta ao Sudo. Ao mesmo tempo, em Tebas,


2     LECLANT, J. 1965-b. pp. 354-9.
3     O nome antigamente lido Piankhy inclui, na escrita hieroglfica, o sinal da "cruz alada", que se lia ankh, 
      maneira egpcia. Mas este signo parece ter sido considerado pelos merotas apenas como um ideograma,
      que designa "vida", correspondendo ao significado da raiz merota p (e) y (e), de onde a leitura "Peye",
      geralmente adotada hoje em dia. Cf. HEYLER, A. & LECLANT, J. 1966. p. 552; PRIESE, K. H. 1968.
      pp. 165-91; VITTMANN, G. 1974. pp. 12-16.
4     BREASTED, J. H. 1906; PRIESE, K. H. 1970. pp. 16-32; LECLANT, J. 1974. pp. 122-3.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                                                      275



a filha do prprio Kashta, Amenirdis, a anci,  investida Divina Adoradora de
mon5.
    Outra grande estela de Peye6, descoberta em 1920, define o carter federativo
do Imprio Cuxita, ao mesmo tempo que afirma a supremacia do deus mon:
    "mon de Napata fez-me soberano de todo o povo; aquele ao qual eu digo, `tu s
    rei', ser rei; aquele ao qual eu digo, `tu no sers rei', no ser rei. mon de Tebas
    fez-me soberano do Egito; aquele ao qual eu digo, `veste-te como rei', vestir-se-
    como rei; aquele ao qual eu digo, `tu no te vestirs como rei', no se vestir como rei
    ... os deuses fazem um rei, o povo faz um rei, mas foi mon quem me fez".


    O rei Shabaka
    Shabaka, irmo de Peye, que subiu ao trono por volta de -713, submeteu
ao Imprio de Kush7 todo o vale do Nilo at o Delta. Teria mandado queimar
Bocchoris, dinasta de Sais, por ter-lhe resistido; os compiladores das listas de
reis do Egito consideram-no o fundador da XXV dinastia. A poltica global do
Oriente Prximo arrastou os cuxitas em direo  sia, onde a presso assria
comeava a se fazer sentir; os apelos dos prncipes e cidades da Sria-Palestina,
em particular de Jerusalm8, tornavam-se insistentes. A princpio, contudo,
Shabaka parece ter mantido boas relaes com a Assria. No Sudo e no Egito,
ele deu incio a uma poltica de construo de monumentos expandida por seus
sucessores, os dois filhos de Peye  primeiro Shabataka (-700 a -690) e depois
o glorioso Taharqa (-690 a -664)9.

    O rei Taharqa: a luta contra os assrios
   O nome de Taharqa  encontrado em numerosos monumentos em todo o
vale. Ele construiu santurios ao p da montanha sagrada de Djebel Barkal,
uma espcie de mesa de arenito que domina a grande bacia frtil de Napata.
Seu nome  lido igualmente em muitos outros locais da Nbia, como Kawa,

5   LECLANT, J. 1973-b.
6   Museu de Cartum, n. 1851: REISNER, G. A. 1931. pp. 89-100 e il. V.
7   Os egpcios e os nbios deram a essa organizao poltica o nome de "Kush", tradicionalmente usado
    para a regio do Mdio Nilo desde o Mdio Imprio. Como o nome  encontrado na Bblia, os autores
    de lngua inglesa usam o adjetivo "cuxita", enquanto na tradio historiogrfica francesa a dinastia
    correspondente  a XXV do Egito   chamada de dinastia "etope" (cf. nota 2). Evitaremos aqui qualquer
    referncia a este ltimo termo, a fim de afastar todo risco de confuso com a Etipia atual.
8   ZEISSL, H. von. 1944. pp. 21-6.
9   LECLANT, J. 1965-b. ndice, p. 407.
276                                                                                          frica Antiga



por exemplo. Na regio tebana ele erigiu colunatas nos quatro pontos cardeais
do templo de Carnac e construiu grande nmero de pequenas capelas, onde
se associavam os cultos de mon e de Osris. H evidncias de sua presena
tambm em Mnfis e no Delta. Abandonando a tradicional necrpole de
el-Kurru, Taharqa construiu em Nuri o que parece ser um cenotfio comparvel
ao Osireion de Abidos10; em Sedinga descobriu-se um tmulo inscrito com
alguns de seus ttulos e distines11. Vrias esttuas de excepcional qualidade,
em granito esplendidamente esculpido e realado por ornamentos de ouro,
representam o monarca a caminhar em passos firmes, revelando-nos seus traos:
a face  pesada; o nariz carnudo dilata-se sobre a boca larga, de lbios grossos; o
queixo curto e forte sublinha o extraordinrio vigor do rosto. Muitos textos, em
particular vrias das grandes estelas descobertas por Griffith em Kawa, do-nos
uma ideia mais precisa de sua poltica: construes religiosas, ricas oferendas
em baixelas, objetos de culto, materiais preciosos e doaes de pessoal. O sexto
ano do reinado foi particularmente celebrado: uma grande cheia do Nilo fez
aumentar a prosperidade do reino12; relatando a vinda da rainha-me, Abale13,
o rei discorre sobre a situao do pas na poca.
    Taharqa aceitou o desafio de guerra contra os assrios, e seu nome aparece
muitas vezes na Bblia14 em passagens nas quais  evidente o terror causado
pelos guerreiros negros do reino de Kush. Assarado (-681 a -669) fracassou na
tentativa de invadir o Egito, e foi seu sucessor Assurbanipal quem,  frente de
um exrcito extremamente poderoso, ocupou e saqueou Tebas em -663.


      O rei Tanutamon: o fim da dominao sudanesa no Egito
   Nessa poca, Taharqa j tinha sido sucedido no trono por seu sobrinho
Tanutamon, filho de Shabataka. A chamada Estela do Sonho mostra
sucessivamente o aparecimento de duas serpentes  uma clara aluso ao duplo
uraeus dos soberanos etopes , a coroao de Tanutamon em Napata, sua marcha


10    DUNHAM, D. & BATES, O. 1955. v. 11, pp. 6-16.
11    Tmulo WT 1, Sedinga: GIORGINI, M. S. 1965. pp. 116-23.
12    Causada por uma chuva muito forte, esta "enchente que arrastou o rebanho" inundou todo o pas; mas a
      vontade providencial de mon evitou que a cheia fosse acompanhada de outras catstrofes, destruindo
      roedores e serpentes, no permitindo as devastaes de gafanhotos e impedindo que os ventos do sul
      soprassem com fria.
13    MACADAM, M. F. L. 1949. Inscr. IV. pp. 18-21.
14    Livro dos Reis, 19:9; Isaas, 37:9.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                             277



para o norte, a tomada de Mnfis, trabalhos de construo em Napata, uma
campanha no Delta com a submisso dos prncipes locais. Na realidade, com a
derrota infligida pelos assrios, os cuxitas retiraram-se para o sul, chegando ao
fim sua dinastia no Egito. Da em diante, o pas voltou-se para o Mediterrneo,
sendo sua unificao obra de um dinasta do Delta, o sata Psamtico I, que o
libertou dos assrios. No nono ano de reinado (-654), esse monarca conseguiu
que sua filha Nitocris fosse escolhida Divina Adoradora em Tebas15.


     Uma monarquia dupla
     importante fazer uma anlise mais detida desse perodo de cinquenta
anos durante o qual o Egito e o Sudo unidos formaram uma grande potncia
africana. O reino cuxita aparece como uma monarquia dupla, cujo smbolo 
o duplo uraeus, as duas serpentes que se erguem sobre a fronte do fara e o
protegem. Em seu comportamento geral, suas roupas e atitudes, os soberanos
da XXV dinastia copiam os faras do Egito que os precederam e de quem
afirmam ser sucessores, se no descendentes. O estilo de seus monumentos 
tipicamente faranico. As inscries so egpcias, relembrando a mais clssica
tradio, mas os caracteres fsicos assemelham-se mais aos dos pastores camitas,
sem dvida com traos negroides: osso da face marcado, queixo forte, lbios
grossos. Eles tambm usam ornamentos caractersticos do Sudo, como um
tipo de gorro justo que se amolda firmemente ao pescoo, com uma parte lateral
protegendo as tmporas, e seguro por uma faixa grossa, que  amarrada com
as pontas caindo por trs dos ombros. Os brincos e os berloques de colares so
enfeitados com cabeas de carneiro, o animal sagrado de mon. Na realidade,
mon  o grande deus da dinastia, adorado em quatro santurios principais 
Napata, Tor (provavelmente Sanam), Kawa e Pnubs (Tabo, na ilha de Argo).
Para o servio de cada um desses santurios eram consagradas princesas, como
musicistas de mon.
    Na parte sudanesa de seu imprio, os squitos dos cuxitas frequentemente
incluam suas mes, esposas, irms e primas, o que no ocorria no Egito
propriamente dito, embora os faras cuxitas fossem assistidos em Tebas pelas
Divinas Adoradoras  princesas consagradas  virgindade, que tinham o deus
mon como nico esposo. Com privilgios quase reais, as Amenirdis e as
Shepenoupets constituram uma espcie de dinastia paralela, com sucesso

15   CAMINOS, R. A. 1964-b. pp. 71-101.
278                                                                     frica Antiga



de tia para sobrinha; mas no eram epnimas e no tinham funes ligadas
s enchentes do Nilo. Apesar de dirigirem uma importante instituio, seu
poder era limitado pela presena, na prpria Tebas, de um prefeito da cidade,
representante do fara.
   A XXV dinastia foi gloriosa, e os autores clssicos desenvolveram toda
uma tradio a seu respeito. De fato, a arte da poca mostra um grande vigor.
Assumindo a melhor tradio do passado, os cuxitas deram-lhe um novo poder
e uma fora notvel.


      Napata, a primeira capital do Imprio Cuxita
    A histria dos cuxitas aps a sua retirada do Egito sob o ataque assrio  bem
mais difcil de determinar; mesmo a cronologia  extremamente vaga. Durante
um milnio, um Estado sobreviveu, tomando-se cada vez mais africano: o reino
de Kush, nome de sua prpria escolha, proveniente da antiga designao nativa
do territrio. Na viso da egiptologia tradicional, esse foi um longo perodo
de decadncia, durante o qual as influncias faranicas progressivamente se
deterioraram. Na realidade, trata-se de uma cultura africana que ora se firma em
sua especificidade ora procura alinhar-se  civilizao egpcia  ela mesma, alis,
africana. De tempos em tempos, chegam ecos do Mediterrneo, particularmente
aps a fundao de Alexandria.
    De incio, a capital se manteve em Napata, ao p da montanha sagrada de
Djebel Barkal. Mais tarde, provavelmente no sculo VI antes da Era Crist, foi
transferida para Mroe, bem mais ao sul. No se tem muita certeza acerca da
extenso do reino cuxita, e at agora as diferenas entre suas vrias regies ainda
esto mal explicadas.
    No extremo norte, a Baixa Nbia, uma espcie de terra de ningum,
permaneceu em litgio entre os merotas e os senhores do Egito: satas, persas,
ptolomeus e posteriormente romanos. Zona de silncio aps o fim do Novo
Imprio egpcio (por volta de -1085), esta regio pouco favorecida, mergulhada
na solido dos desertos do trpico, parece ter permanecido pouco povoada at
o incio da Era Crist. Seu renascimento provavelmente se deveu  introduo
da saqia (roda-d'gua) (cf. Captulo 11).
    O centro do Imprio, a Nbia propriamente dita, estendendo-se ao longo
do Nilo (bacias de Napata, Dongola e Kerma), sempre foi, ao que parece, muito
diferente da regio das estepes da "ilha de Mroe". Na direo leste, em Butana,
h numerosos stios ainda no explorados, o mesmo ocorrendo com as rotas de
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                           279



caravana e o litoral do mar Vermelho. As prospeces arqueolgicas no esto
desenvolvidas o suficiente para que se possam indicar os limites meridionais
de Kush, nas savanas e nas terras fertilssimas da Gezira; admite-se, contudo,
que o reino inclua o Sudo central e se estendia pelo menos at Sennar, no
Nilo Azul, e Kosti, no Nilo Branco; tambm devem ser levados em conta os
objetos desenterrados em Djebel Moya. Na direo oeste, sua influncia deve
ter alcanado pelo menos o Kordofan; h grandes expectativas em relao s
exploraes efetuadas na vasta faixa das savanas nilo-chadianas.
    Em Napata, os tmulos do cemitrio de Nuri16 esto entre os elementos
essenciais para determinar a histria, ainda muito pouco conhecida, dos reis da
dinastia napatense. Os primeiros soberanos eram ainda muito egipcianizados.




figura 10.1   Saqia. (Fonte: "Archaeology", 3 (17), Aut. 1977.)


16   DUNHAM, D. & BATES, O. 1950-7.
280                                                                    frica Antiga



Como no caso dos reis da XXV dinastia, seus cemitrios so dominados pelas
pirmides de estilo egpcio, cuja forma lembra mais a dos altos dignitrios do
fim do Novo Imprio do que a das pirmides reais da IV dinastia; a decorao
de suas cmaras funerrias e de seus macios sarcfagos de granito segue
pormenorizadamente o estilo egpcio: as inscries religiosas, numa tradio que
remonta aos Textos das Pirmides, cobrem as laterais, e os objetos funerrios que
escaparam  pilhagem  jarras de libao, ushabtis e estatuetas  so exatamente
iguais aos do Egito.
   Dos dois primeiros reis sabe-se pouco mais do que os nomes: Atlanarsa (-653
a -643), filho de Taharqa, e seu filho, Senkamanisken (-643 a -623), de cujas
esttuas foram encontrados fragmentos de grande beleza em Djebel Barkal. J
sobre os dois filhos e sucessores de Senkamanisken  primeiro Anlamani (-623 a
-593), e depois Aspelta (-593 a -568)  temos mais informaes. Em Kawa, uma
estela de Anlamani17 descreve a viagem do rei pelas provncias, cujos templos ele
aprovisiona; uma campanha contra um povo que pode ser os Blmios (Bedjas); a
vinda da rainha-me, Nasalsa, e a consagrao das irms do rei como tocadoras
de sistro perante o deus mon em cada um de seus quatro grandes santurios.
   Aspelta (-593 a -568), irmo e sucessor do rei, deixou duas grandes
inscries, descobertas anos atrs. O Texto da Entronizao ou Coroao
data do primeiro ano de seu reinado18 e mostra o exrcito reunido perto de
Djebel Barkal; os chefes decidem consultar mon de Napata, que designa
Aspelta, cuja descendncia pelas "Irms Reais"  particularmente ilustre; ele
toma as insgnias reais, agradece e invoca o deus; recebido com jbilo pelo
Exrcito, faz doaes aos templos. Tais so as bases militares e religiosas da
monarquia cuxita. A Estela do Apangio das Princesas, do terceiro ano do
reinado, conservada no museu do Louvre, descreve a investidura de uma
princesa como sacerdotisa. Um outro texto descoberto por G. A. von Reisner
em Djebel Barkal narra a fundao, pelo soberano, de uma capela morturia
em honra de Khaliut, filho de Peye, bem depois de sua morte. Por outro lado,
 duvidosa a atribuio a Aspelta da Estela da Excomunho, pois os nomes
do rei se acham desfigurados. O texto, bastante obscuro, descreve como os
membros de uma famlia que havia planejado um assassnio foram excludos
do templo de mon de Napata; o deus os condena a ser queimados e o rei
alerta os sacerdotes contra outros crimes desse tipo.


17    MACADAM, M. F. L. 1949. pp. 44-50, il. 15-16
18    HOFMANN, I. 1971-a.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe     281




figura 10.2 Esttua do rei Aspelta,
em granito negro da Etipia.
Figura 10.3 Detalhe (busto). (Fotos
Museum of Fine Arts, Boston. )
282                                                                                   frica Antiga



      A expedio de Psamtico II e a queda de Napata
   Aspelta foi contemporneo de Psamtico II. Trata-se de um dos raros
sincronismos realmente confirmados, quase o nico, em mil anos de histria.
Em 591, no segundo ano do reinado de Aspelta, Kush foi invadido por uma
expedio egpcia reforada por mercenrios gregos e carianos, sob o comando
de dois generais, Amasis e Potasimto19, e Napata foi tomada.


      Transferncia da capital para Mroe
    Os cuxitas procuraram ento manter a maior distncia possvel de seus
poderosos vizinhos do norte;  certamente a essa invaso egpcia, cuja importncia
foi durante muito tempo subestimada, que se deve atribuir a transferncia da
capital de Napata para Mroe, bem mais ao sul, no muito distante da Sexta
Catarata. Aspelta foi de fato o primeiro soberano comprovado de Mroe. Mas
sem dvida Napata manteve-se como capital religiosa do reino: at o fim do
sculo IV antes da Era Crist os monarcas continuaram a ser enterrados na
necrpole de Nuri.
    Em -525 configurou-se a ameaa persa, e conhecemos a resposta do rei
nbio aos embaixadores de Cambises20 (Herdoto, III, 21): "quando os persas
retesarem, to facilmente como eu, arcos to grandes quanto este, que marchem
ento com foras superiores contra os etopes". Cambises no levou em conta
o conselho; seu exrcito foi incapaz de realizar a travessia do Batn-el-Haggar
e teve de se retirar, com graves perdas. Apesar de tudo, os persas consideravam
os habitantes de Kush como seus sditos. No pedestal da magnfica esttua
de Dario descoberta em Susa, decorado com os povos do imprio, foi-lhes
reservado um escudo21. Pode-se supor que uma estreita faixa do territrio nbio
tenha permanecido sob seu controle e que houvesse contingentes cuxitas nos
exrcitos de Dario e Xerxes. H tambm referncias a presentes em ouro, bano,
presas de elefante e mesmo crianas  antigos tributos outrora coletados pelo
Egito  que teriam sido enviados a Perspolis e Susa.
    A transferncia da capital poderia ser explicada tambm por motivos
climticos e econmicos. As estepes ofereciam a Mroe uma extenso muito


19    SAUNERON, S. & YOYOTTE, J. 1952. pp. 57-207. Uma verso desse texto foi publicada por BAKRY,
      H. S. K. p. 225 et seq., il. 56-9.
20    HERDOTO. Livro III, 21.
21    PERROT, J. et al, 1972. pp. 235-66.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                                                    283



maior que as bacias em torno de Napata, confinadas pelos desertos. Alm da
criao de animais desenvolveu-se a agricultura, pois essa rea de chuvas de
vero era muito propcia ao cultivo; enormes bacias de irrigao (hafirs) foram
cavadas nas adjacncias dos principais stios. O comrcio deve ter sido ativo:
Mroe constitua um entreposto ideal para as rotas de caravanas entre o mar
Vermelho, o Alto Nilo e o Chade. Acima de tudo, a abundncia relativa de
rvores e de arbustos fornecia o combustvel necessrio ao processamento do
ferro, cujo minrio  encontrado no arenito nbio. O acmulo de escria indica
a amplitude das atividades de metalurgia; na opinio de autores mais recentes,
porm,  exagerado considerar Mroe como a Birmingham da frica22.
    As sepulturas reais so praticamente as nicas fontes de que os historiadores
dispem para pesquisar longos sculos que permanecem obscuros. O escavador
desses tmulos, G. A. von Reisner, comparou a lista dos nomes reais confirmados
com as pirmides descobertas. Trata-se, porm, de um trabalho aleatrio, que
passou por muitas revises e pode ainda ser objeto de modificaes. O ltimo
soberano enterrado em Nuri foi Nastasen, pouco antes de -300. A partir da,
reis e prncipes passaram a ser sepultados nos cemitrios de Mroe. Contudo,
vrios reis voltaram a Djebel Barkal, o que levou alguns historiadores a acreditar
na provvel existncia, no norte da Nbia, de duas dinastias paralelas s de
Mroe, uma imediatamente posterior a Nastasen e outra no sculo I antes da
Era Crist23.
    S uns poucos textos de grande extenso trazem algum esclarecimento,
embora de forma fragmentria. A lngua egpcia altera-se;  sob os smbolos
hieroglficos  que podem adquirir aspectos um tanto fantsticos  que se devem
buscar, talvez de modo mais acurado, notaes do estado contemporneo da
lngua  na realidade demtica  e tambm reflexos do merota, a lngua dos
cuxitas.
    Temos vrias inscries de Amannateieriko (pouco antes de -400). A melhor
delas descreve a eleio do rei, um "vigoroso homem de 41 anos", expedies
militares, festividades religiosas, uma retirada militar  luz de archotes, a visita
da rainha-me, o trabalho de restaurao em edifcios e doaes aos santurios.
    Em seguida vem Harsiotef, cuja clebre inscrio  dedicada a cerimnias
e campanhas contra um grande nmero de inimigos. O mesmo se d com a
estela de Nastasen, removida por Lepsius para Berlim, que pode eventualmente


22   Ver as referncias bibliogrficas a seguir, em particular: TRIGGER, B. G. 1969. pp. 23-50, e AMBORN,
     H. 1970. pp. 74-95.
23   Para a cronologia merota, ver referncias bibliogrficas a seguir.
284                                                                                           frica Antiga



fornecer um sincronismo, se uma das inscries for de fato o nome de Khababash,
efmero rgulo do Egito (segunda metade do sculo IV antes da Era Crist).
Numa de suas campanhas, Nastasen capturou 202120 cabeas de gado e
505200 animais de pequeno porte. Seria interessante poder identificar todos
os povos mencionados nas inscries; os despojos so muitas vezes enormes e,
evidentemente, certos grupos tnicos devem ser pesquisados na savana nilo-
-chadiana. A gravao da estela  de alta qualidade e testemunha a permanncia
 ou a volta  de uma influncia egpcia direta.


      Ergamenes, o fileleno
    A historiografia grega, no relato sobre "Ergamenes", confirma o renascimento
que parece ter marcado as dcadas seguintes. Aps descrever a posio todo-
-poderosa dos sacerdotes cuxitas, que podiam at mesmo obrigar o rei a cometer
suicdio se ele deixasse de contentar o povo, Diodoro da Siclia24 conta como um
soberano impregnado da cultura grega, Ergamenes, ousou resistir, condenando 
morte diversos sacerdotes. Contudo persistem as dvidas quanto  identidade de
Ergamenes. Qual dos trs soberanos merotas  ele: Arkakamani, Arnekhamani ou
Arqamani? Arnekhamani foi o rei que construiu o Templo do Leo em Mussawarat
es-Sufra25, no qual se podem ler hinos compostos em bom egpcio ptolomaico e
onde devem ter trabalhado artistas e escribas egpcios. No entanto, trata-se de relevos
em estilo totalmente merota: os penteados, adornos e insgnias reais tm inspirao
local e os rostos no correspondem aos cnones egpcios. Ao lado das divindades
faranicas cultuam-se deuses puramente merotas  Apedemak, o deus-leo26, e
Sbomeker. Certamente as relaes com o Egito no foram rompidas, uma vez
que existem santurios de devoo comum em Filas e em Dakka, na Baixa Nbia.
Contudo as revoltas no sul do Egito ptolomaico, no final do sculo III antes da Era
Crist, podem ter sido apoiadas pelos rgulos nbios: Ptolomeu V teve de fazer
campanha no pas e Ptolomeu VI fundou colnias na Triacontaschona27.


24    DIODORO DA SICLIA. III, 6. No h corroborao para a afirmao de que os sacerdotes realmente
      pudessem induzir o rei  morte.
25    HINTZE, F. 1976.
26    ZABKAR, L. V. 1975.
27    Os gregos davam o nome de Dodecaschenes  rea ao sul de Filas, com cerca de "12 schenes" de
      comprimento, isto , por volta de 120 km. Um ponto discutido  se os aproximadamente 320 km da
      "Triacontaschenes'' tambm seriam contados a partir de Filas ou, ao contrrio, do extremo sul da rea
      previamente definida.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                                                        285



     A lngua e a escrita merotas
    Com a rainha Shanakdakhete (por volta de -170 a -160) parece ter ascendido
ao poder um matriarcado28 tipicamente local.  numa edificao em honra de seu
nome, em Naga, que se encontram inscries gravadas em hierglifos merotas.
Tais inscries contam-se entre as mais antigas de que se tem conhecimento.
Esses hierglifos foram tomados de emprstimo ao egpcio, mas diferem dele
em vrios aspectos. So escritos e lidos em sentido contrrio ao dos textos
egpcios, o que pode atestar um desejo deliberado de diferenciao. A esses
hierglifos corresponde uma escrita cursiva frequentemente abreviada; os signos
parecem derivar em parte da escrita demtica usada no Egito, naquele perodo,
para os documentos administrativos e privados. De qualquer forma, a lngua
merota, cuja natureza ainda  desconhecida, bem como seu sistema grfico,
 completamente diferente do egpcio. Os 23 signos usados representam as
consoantes, algumas vogais e as silbicas; grupos de dois pontos geralmente
separam uma palavra da outra. Em 1909, o especialista ingls F. L. Griffith
achou a chave da transliterao. Desde ento, os textos tm sido classificados
em diferentes tipos, colocando -se em paralelo expresses comparveis,
principalmente as extradas dos textos funerrios. Aps uma invocao a sis
e Osris, vm os nomes do falecido, de sua me (geralmente no alto da lista)
e de seu pai, de alguns parentes consanguneos ou por afinidade, todos com
muitos ttulos e altas distines, e os nomes de lugares e divindades. Mas 
difcil ir alm. O estudo do uso do artigo, principalmente, possibilitou a diviso
dos textos em unidades conhecidas como versos, de uma extenso conveniente
para a anlise. Os verbos tambm foram pesquisados, tendo-se descoberto um
sistema de afixos. Mais recentemente, as tcnicas de computao permitiram o
registro sistemtico de textos transliterados, junto com os elementos de anlise
correspondentes29. Por enquanto, contudo, a traduo propriamente dita de cerca
de oitocentos textos recuperados permanece, em seu conjunto, irrealizvel.
    Os primeiros textos longos em lngua merota aparecem em duas estelas do
rei Taniydamani, datadas aproximadamente do final do sculo II antes da Era
Crist. O grau de incerteza da cronologia merota agrava-se particularmente
no que se refere a esse perodo, a ponto de  como vimos  certos especialistas


28   Cf. HAYCOCK, B. G. 1954. pp. 461-80; KATZNELSON, I. S. 1966. pp. 35-40 [em russo]; MACADAM,
     M. F. L. 1966. pp. 46-7; DESANGES, J. 1968. pp. 89-104; id. jul. 1971, pp. 2-5.
29   O Groupe d'tudes Mroitiques de Paris deu incio a um registro baseado em computador dos textos
     merotas agrupados no Rpertoire d'Epigraphe Mroitique. Ver as referncias bibliogrficas seguintes, em
     particular os artigos publicados em Cartum, 1974, pp. 17-40.
286                                                                                    frica Antiga



terem acreditado na existncia de um Estado independente em Napata, o que
parece bem pouco provvel.
    Duas rainhas tiveram ento um papel preponderante: Amanirenas e
Amanishaketo. Seus maridos permanecem esquecidos, e no se sabe sequer o
nome do de Amanishaketo. O trono tambm foi ocupado durante alguns anos
por um prncipe que se tornou rei, Akinidad, filho da rainha Amanirenas e do
rei Teriteqas. Seria importante conhecer a ordem de sucesso das duas rainhas,
ambas "Candace"  transcrio do ttulo merota Kdke, de acordo com a tradio
dos autores clssicos30.

      Roma e Mroe
   Amanirenas ou Amanishaketo manteve contato com Augusto num episdio
famoso  uma das raras ocasies em que Mroe aparece no cenrio da histria
universal. Depois do saque de Assu pelos merotas (quando provavelmente foi
roubada a esttua de Augusto, cuja cabea foi descoberta enterrada sob a soleira
da porta de um dos palcios de Mroe), o prefeito do Egito romano, Petrnio,
preparou uma expedio punitiva e tomou Napata em -23.
   Em Primis (Oasr Ibrim), os romanos instalaram uma guarnio permanente,
que resistiu aos ataques dos merotas31. Em -21 ou -20, negociou-se um tratado
de paz em Samos, onde na poca residia Augusto. A guarnio romana parece
ter sido retirada; deixou-se de cobrar tributo aos merotas e fixou-se em
Hierasykaminos (Muharraqa) a fronteira entre os imprios Romano e Merota.
Talvez nunca se saiba se foi Amanirenas ou Amanishaketo a "Candace" de um
olho s e "de aparncia viril" que, de acordo com Estrabo, Plnio e Don Cssio,
conduziu as negociaes com os invasores romanos.

      O Imprio Merota em seu apogeu
    O perodo prximo ao incio da Era Crist  um dos pontos culminantes da
civilizao merota, como atestam vrias construes. Os nomes de Akinidad
e da rainha Amanishaketo esto inscritos no Templo T, em Kawa. Atribui-se
 soberana um palcio descoberto nos ltimos anos em Uadi ben Naga, perto
do Nilo32.


30    Ver nota 28.
31    DESANGES, J. 1949. pp. 139-47, e PLUMLEY, J. M. 1971. pp. 7-24, I mapa, II il.
32    VERCOUTTER, J. 1962. pp. 263-99.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                          287




figura 10.4   A rainha Amanishaketo: relevo da pirmide Beg N6 de Mroe.
288                                                                                       frica Antiga



    Sua bela sepultura ainda pode ser vista no Cemitrio Norte de Mroe33. A
pirmide, precedida a leste pela capela e pelo pilono tradicionais,  uma das mais
imponentes da velha cidade. Em 1834, foram entregues ao aventureiro italiano
Ferlini as luxuosas joias que constituem hoje em dia a glria dos museus de
Munique e de Berlim. Ornamentos semelhantes enfeitam os relevos, em que rainhas
e prncipes exibem um luxo exagerado, que no deixa de lembrar o de Palmira,
uma outra civilizao de ricos mercadores nas fronteiras do mundo helenizado. Ao
luxo acrescenta-se um toque de violncia, com cenas cruis de prisioneiros sendo
estraalhados pelos lees, transpassados por lanas ou devorados pelas aves de rapina.
    Natakamani, genro e sucessor de Amanishaketo, e sua esposa, a rainha
Amanitere (-12 a +12) tambm foram grandes construtores: seus nomes so
sem dvida os que mais vezes ocorrem nos monumentos cuxitas. Por todas as
principais cidades do imprio, esses monumentos testemunham o poder de uma
dinastia em seu apogeu. Ao norte, em Amara, ao sul da Segunda Catarata, os
soberanos construram um templo cujos relevos so trabalho egpcio,  exceo
do detalhe do penteado real merota, uma touca justa circundada por uma
fita pendendo atrs. Durante muito tempo, atribuiu-se a Natakamani os dois
colossos da ilha de Argos, pouco acima da Terceira Catarata34.
    O casal real tambm empreendeu a restaurao de Napata, devastada pela
expedio de Petrnio, e em particular do templo de mon. Em Mroe, os nomes
de Natakamani e de sua esposa aparecem no grande templo de mon, juntamente
com o do prncipe Arikankharor. Em Uadi ben Naga, o Templo Sul  obra dos
dois soberanos. Eles dedicaram particular ateno a Naga, o grande centro das
estepes, ao sul de Mroe: o acesso frontal ao templo de mon foi transformado em
pilono, e sua decorao associa influncias egpcias e traos inteiramente merotas.
A construo mais famosa, contudo,  o Templo do Leo de Naga, cujos relevos
esto entre os exemplos mais representativos da arte merota. As pirmides do rei,
da rainha e dos prncipes foram identificadas em Mroe.
    Os dois soberanos gostavam de ser retratados com um dos prncipes reais
 Arikankharor, Arikakhatani ou Sherakarer , variando de acordo com o
monumento; talvez os prncipes fossem vice-reis das provncias em cujos templos
principais eram retratados. Sherakarer parece ter sucedido a seus pais, pouco aps
o incio da Era Crist; um relevo rupestre em Djebel Qeili, no sul de Butana,



33    DUNHAM, D. & BATES, O. 1950-7. IV, pp. 106-11.
34    S. WENIG sugere que eles seriam atualmente identificados como os deuses Arensnuphis e Sebiumeker:
      1967, pp. 143-4.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                                                         289



mostra-o triunfante sobre numerosos inimigos, sob a proteo de uma divindade
solar.

     Mroe e os pases vizinhos
    Nos anos seguintes ocorre o famoso episdio, registrado nos Atos dos Apstolos
(8, 27-39): na estrada de Jerusalm a Gaza, o dicono Felipe converte "um
etope, um eunuco, alto funcionrio de Candace, rainha da Etipia, encarregado
de todo o seu tesouro ..."35. Esse testemunho, quaisquer que sejam seu valor e
sua importncia, mostra que Mroe era bem conhecido.
    Durante muito tempo, os pesquisadores tentaram encontrar as ligaes de
Mroe com o mundo exterior por um caminho completamente diferente: uma
representao de Apedemak, o deus-Leo, mostra-o com uma tripla cara de leo
e quatro braos36. Essa figura evoca a ndia, assim como os relevos em Naga,
que mostram uma flor de ltus, de onde emerge uma serpente; seu pescoo
torna-se a parte superior de um corpo humano, com a cabea de Apedemak
encimada por uma trplice coroa. Nas runas de Mussawarat es-Sufra existem
numerosas representaes de elefantes; uma das mais curiosas  aquela em que
o animal serve para rematar um largo muro. As pesquisas mais recentes tendem
a abandonar a hiptese hindu e a considerar fatos estritamente locais, bem mais
interessantes, do reino de Kush37.
    Esse pas distante continuava a intrigar os romanos. Por volta de +60, Nero
enviou dois centuries ao Nilo; na volta, eles declararam que a terra era pobre
demais para ser digna de conquista38. H uma inscrio em latim gravada num
dos muros de Mussawarat, e moedas romanas, embora em nmero irrisrio,
chegaram a alguns pontos da Nbia e do Sudo: uma moeda de Cludio foi
encontrada em Mroe, uma de Nero em Karanog, uma de Diocleciano no
distante Kordofan (El-Obeid) e uma outra da metade do sculo IV da Era
Crist em Sennar. Esses modestos vestgios tm lugar ao lado das descobertas




35   Na traduo francesa da Bblia conhecida como "Bblia de Jerusalm", as notas explicam que a rea
     referida situa-se "acima da Primeira Catarata: Nbia ou Sudo Egpcio" isto , o reino de Kush, que
     definimos anteriormente, na nota 7.
36   Ver nota 26.
37   Ver as referncias bibliogrficas a seguir. Sobre possveis ligaes com a ndia, cf. ARKELL, A. J. 1951;
     HOFMANN, I. 1975.
38   Para fontes documentais sobre a expedio de Nero, ver HINTZE, F. 1959-a.
290                                                                                  frica Antiga



das termas de Mroe, dos bronzes de centenas de tmulos ou do magnfico lote
de artigos de vidro recentemente descoberto em Sedinga39.
    As relaes mais constantes mantidas por Mroe foram com o templo de
sis em Filas: regularmente enviavam-se embaixadas com ricos presentes ao
santurio da deusa, onde esto conservados numerosos grafitos em demtico, em
grego e em merota. Tais registros possibilitam estabelecer o nico sincronismo
de um dos ltimos reinos merotas, o de Teqorideamani (+246 a +266), que
enviou embaixadores a Filas em +253. Sabe-se muito pouco acerca dos ltimos
sculos de Mroe. O componente nativo toma-se cada vez mais importante na
cultura. Provavelmente no era fcil manter o controle das rotas de caravanas
entre o vale do Nilo, o mar Vermelho e a savana nilo-chadiana, base econmica
do imprio. As pirmides reais tomaram-se progressivamente menores e mais
pobres, e a raridade dos objetos egpcios ou mediterrnicos indica um corte nas
influncias externas  causa ou consequncia da decadncia do reino.

      Declnio e queda de Mroe
   Os merotas, que at ento tinham rechaado os ataques das tribos nmades,
tornaram-se uma presa tentadora para seus vizinhos  os axumitas ao sul, os
nmades blmios a leste e os Nubas a oeste.  quase certo que a este ltimo
grupo  mencionado pela primeira vez por Eratstenes em -200  se deva 
queda do Imprio Merota, da qual temos apenas um testemunho indireto.
   Por volta de +330, o reino de Axum, que se desenvolvera nos elevados
planaltos da Etipia atual, chegara rapidamente ao pice de seu poder; Ezana40,
o primeiro monarca a adotar o cristianismo, atingiu a confluncia do Atbara
e se vangloriou de ter preparado uma expedio "contra os Nubas" que rendeu
muitas presas de guerra. De tudo isso pode-se concluir que o reino merota j
havia rudo na poca da campanha de Ezana. Desde ento cessaram as inscries
em merota, que provavelmente cedera lugar  lngua ancestral do atual nbio.
Mesmo a cermica, embora tenha permanecido fiel  sua tradio milenar,
adquiriu novas caractersticas.
   Alguns especialistas levantaram a hiptese de que a famlia real cuxita
tenha fugido para o oeste, estabelecendo-se no Darfur, onde haveria traos



39    Cf. ORIENTALIA, 1971, 40 : 252-5, il. XLIII-XLVII; LECLANT, J. 1973-a. pp. 52-68. 16 figs.;
      LECLANT, J. ln: MICHALOWSKI, K., ed. 1975. pp. 85-7. 19 figs .
40    KIRWAN, L. P. 1960. pp. 163-73; HOFMANN, I. 1971-b. pp. 342-52.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                          291




                                    Figura 10.5 Artigo de vidro azul
                                    pintado, de Sedinga. (Foto Museu de
                                    Cartum.)
                                    Figura 10.6 Coroa de Ballana.
                                    (Fonte: W. B. Emery. `'The Royal
                                    Tombs of Ballana and Qustul". Cairo,
                                    1938. Foto Museu do Cairo.)
292                                                                                          frica Antiga



de sobrevivncia de tradies merotas 41. Em todo caso, as exploraes
nessas regies e no sul do Sudo devero permitir uma compreenso maior
de como as influncias egpcias foram transmitidas para o interior da frica
por intermdio de Mroe. Seguramente, a glria de Kush se reflete em certas
lendas da frica central e ocidental. Entre os Sao, preserva-se a memria de
conhecimentos introduzidos por homens vindos do leste. Os conhecimentos
tcnicos propagaram-se. Alguns povos, por exemplo, fundiam o bronze pelo
mtodo da cire perdue, como no reino cuxita. Mas sobretudo  e essa  uma
contribuio fundamental  parece ter sido graas a Mroe que a explorao do
ferro se difundiu no continente africano42.
    Qualquer que seja a importncia dessa penetrao de influncias merotas
no restante da frica, o papel de Kush no pode ser subestimado: durante mil
anos, primeiro em Napata e depois em Mroe, floresceu uma civilizao muito
original que, sob a aparncia razoavelmente constante de um estilo egpcio,
permaneceu profundamente africana.


      A Nbia aps a queda de Mroe: "Grupo X"
   Pode-se deduzir que os Nubas, provenientes do oeste ou do sudoeste, foram
os portadores da lngua nbia, cujos ramos so ainda lnguas vivas, tanto em
certas regies montanhosas do Darfur como em diversas reas da Alta e da
Baixa Nbia.
   Como vimos, certos grupos nubas tinham-se instalado na parte sul do reino
merota. Em termos arqueolgicos, so identificveis pela cermica de tipo
bem africano. Suas sepulturas so tumuli, alguns dos quais foram escavados em
Tanqasi43, perto de Djebel Barkal e em Ushara; outros ainda esto por explorar,
principalmente ao longo da margem oeste do Nilo. Ao que parece, foi por volta
de +570 que o bispo monofisita Longino converteu estes Nubas ao cristianismo.
   No norte, os remanescentes do reino merota parecem ter conhecido um
destino at certo ponto diferente. Com base na pesquisa de G. A. von Reisner,
em 1907, passou-se a designar a fase cultural posterior  queda de Mroe por
uma letra  o Grupo X , o que  uma franca confisso de ignorncia. Essa


41    Em particular, A. J. ARKELL (1961. pp. 174 et seq.) apresentou essa hiptese, com base na existncia
      de runas e traos onomsticos. Contudo no parece ter ido alm do campo da pura hiptese.
42    Ver nota 22, e as referncias bibliogrficas a seguir.
43    SHINNIE, P. L. 1954-b; KIRWAN, L. P. 1957. pp. 37-41.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe   293




figura 10.7   Stios merotas.
294                                                                                       frica Antiga



cultura estendeu-se por toda a Baixa Nbia, at Sai e Kawa no sul, em direo
 Terceira Catarata; nessa rea, ela se desenvolveu durante o perodo que vai da
primeira metade do sculo IV at meados do VI, ou seja, at a introduo do
cristianismo e o rpido florescimento dos reinos cristos da Nbia.
    O luxo brbaro dos rgulos do Grupo X revelou-se no perodo de 1931-3, quando
os arquelogos ingleses Emery e Kirwan escavaram em Ballana e Qustul44, a poucos
quilmetros ao sul de Abu Simbel, enormes tmulos, que J. L. Burckhardt,
pesquisador pioneiro e infatigvel da Nbia, j havia descoberto no incio do
sculo anterior. Rodeado por suas esposas, servos e cavalos ricamente enfeitados,
o defunto repousa sobre uma liteira, como nos velhos tempos de Kerma. Seus
diademas pesados e braceletes de prata enfeitados com pedras coloridas lembram
em riqueza o Egito ou Mroe, como a cabea de carneiro de mon sustentando
uma enorme coroa atef ou as franjas de uraei ou ainda o busto de sis. As
influncias alexandrinas so muito evidentes nos tesouros de prataria que cobrem
o assoalho: entre os jarros, xcaras e ptenas, h uma placa mostrando Hermes
sentado sobre um globo, com um grifo ao lado; h tambm grandes lmpadas
de bronze e uma arca de madeira incrustada com almofadas em marfim gravado.
Mas a cermica  ainda do tipo merota tradicional, persistindo assim, atravs
dos milnios, as qualidades de uma tcnica genuinamente nbia.

      Nobatas ou Blmios
    Quais foram as populaes do Grupo X: Nobatas ou Blmios? Os Blmios45
eram nmades belicosos, geralmente identificados com as tribos bedja do deserto
oriental. Quanto aos Nobadas ou Nobatas, aps muitas controvrsias, foram
reconhecidos como Nubas; o autor inclina-se a consider-los os senhores de
Ballana e de Qustul. Para ns, em todo caso, Blmios e Nobatas so apenas
nomes, parecendo-nos prefervel usar a expresso "Grupo X" ou "cultura ballana".
    Antigos testemunhos literrios e documentos epigrficos permitem
estabelecer as principais linhas histricas. O historiador Procpio afirma que,
no final do sculo III, quando o imperador romano Diocleciano fez retroceder
a fronteira at a Primeira Catarata, levou os Nobatas a deixarem a regio dos
osis e a se instalarem no Nilo, contando com sua ajuda para colocar o Egito
ao abrigo das incurses dos Blmios. Na realidade, sob Teodsio, por volta de



44    Ver referncia bibliogrfica a seguir, e especialmente EMERY, W. B. & KIRWAN, L. P. 1938.
45    CASTIGLIONE, L. 1970. pp. 90-103.
O Imprio de Kush: Napata e Mroe                                            295



+450, Filas foi atacada pelos Blmios e pelos Nobatas, que foram rechaados
pelas foras comandadas por Mximo e em seguida pelo prefeito Floro.
    Com o advento do cristianismo, esses povos foram autorizados a manter
suas visitas ao santurio de sis em Filas e, por ocasio de certas festividades
importantes, tinham licena para tomar emprestada a esttua da deusa. Qasr
Ibrim pode ter sido um dos pontos de parada dessa peregrinao, visto que a
se encontrou o que parece ter sido uma estatueta de sis em loua pintada. O
templo de Filas foi fechado somente sob Justiniano, entre +535 e +537, quando
seu general Narses expulsa os ltimos sacerdotes.
    Na mesma poca teve incio a evangelizao da Nbia. A acreditar em Joo
de feso, os ortodoxos melquitas, enviados do imperador, foram afastados pelo
missionrio monofisita Juliano, apoiado pela imperatriz Teodora. Em +543,
ele conseguiu converter o rei dos Nobatas. Numa inscrio em grego brbaro,
infelizmente sem data, do templo de Kalabsha, o rei nobata Silko vangloria-se
de, graas  ajuda de Deus, ter conquistado os Blmios, que ento desapareceram
da Histria.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                 297



                                      CAPTULO 11


            A civilizao de Napata e Mroe
             A. M. Ali Hakem colaborao de I. Hrbek e J. Vercoutter




    Organizao Poltica
    O carter da realeza
    A caracterstica mais notvel do poder poltico na Nbia e no Sudo central,
desde o sculo VIII antes da Era Crist at o sculo IV da Era Crist parece
ter sido a sua extraordinria estabilidade e continuidade. Ao contrrio de vrios
reinos antigos, o pas escapou das convulses que acompanham as mudanas
dinsticas violentas. Pode-se dizer que, essencialmente, a mesma linhagem real
governou sem interrupo, seguindo as mesmas tradies.
    At poca recente, a teoria mais divulgada era a de que a dinastia de Napata
era de origem estrangeira, lbia1 ou egpcia, neste ltimo caso oriunda dos sumos
sacerdotes de Tebas2. Mas os argumentos em que tais teorias se baseiam so
fracos, e a maior parte dos especialistas modernos tende a considerar que a
dinastia  autctone3. Alm das caractersticas fsicas registradas nas esttuas




1    REISNER, G. A. von. 1918-9. pp. 41-4; id. 1923-b. pp. 61-4; e vrios outros textos de sua autoria; cf.
     tambm GRIFFITH, F. L. 1917. p. 27.
2    MASPERO, G. 1895. p. 169; MEYER, E. 1931. p. 52; CURTO, S. 1965.
3    Um relato da controvrsia  dado por DIXON, D. M. M. 1964. pp. 121-32
298                                                                                         frica Antiga



dos reis4, vrios outros traos  o sistema de eleio, o papel das rainhas-mes,
os costumes funerrios e outras indicaes  sugerem claramente a existncia de
uma cultura e de uma origem indgenas, livres de influncias externas.
    A anlise de muitas dessas caractersticas permite chegar a concluses vlidas
sobre o carter e a natureza da estrutura poltica e social do Imprio de Kush.
    Um dos aspectos peculiares do sistema poltico merota era a escolha do
soberano por eleio. Autores clssicos desde Herdoto (sculo V antes da Era
Crist) at Diodoro da Siclia (sculo I antes da Era Crist), em seus relatos sobre
os "etopes", como eram geralmente denominados naquela poca os habitantes
do Imprio de Kush, mostram-se surpresos com essa prtica, to diferente da
adotada em outros reinos da Antiguidade. Eles se referem especialmente 
escolha oracular do novo rei; Diodoro afirma que:
      "Os sacerdotes selecionam previamente os melhores dentre os candidatos e, dos que
      so convocados, o povo elege rei aquele que o deus escolhe enquanto  transportado
      em procisso... A partir daquele momento, ele  tratado e reverenciado como um
      deus, uma vez que o reino lhe foi confiado pela vontade divina"5.
    Nessa passagem, Diodoro limita-se a descrever  com certeza baseando-se
em fontes orais  a cerimnia convencional de instaurao de um novo reinado,
que incorporava smbolos religiosos. Contudo, tanto ele quanto seus informantes
desconheciam os mecanismos da escolha propriamente dita.
    Felizmente,  possvel reconstituir os procedimentos da sucesso com base
nas inscries de Napata, que narram minuciosamente as cerimnias de escolha
e coroao. As mais antigas referem-se ao rei Peye (Piankhy) (-751 a -716) e as
mais recentes a Nastasen (-335 a -310).  possvel que haja inscries sobre a
coroao posteriores a essas datas, mas nesse caso a escrita e a lngua utilizadas so
merotas, ainda indecifradas e, portanto, sem utilidade para ns. Desse modo, as
inscries de Napata sobre a coroao so a melhor fonte para a compreenso das
instituies polticas, em particular das caractersticas da realeza e outras instituies
a ela relacionadas. Embora escritos no estilo dos hierglifos egpcios da poca,
tais documentos diferem grandemente das inscries similares comuns no Novo
Imprio; sero, pois, considerados como um produto de sua prpria cultura6.

4     Cf. LECLANT, J. 1976-b.
5     DIODORO DA SICLIA. III, 5; DESANGES, J. 1968. p. 90.
6     Sobre a Estela da Conquista de Peye e a Estela do Sonho de Tanwetamane, ver BREASTED, J. H.
      1906. pp. 406-73. A Estela de Taharqa, as estelas do Rei Anlarnani e a Grande Inscrio do Rei
      Amannateieriko foram traduzidas por MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1, pp. 4-80. Sobre a Estela da
      Eleio de Aspelta, a Estela da Dedicao da Rainha Madiqen, a Estela da Excomunho do Rei Aspelta,
      os Anais de Harsiotef e os Anais do Rei Nastasen, ver BUDGE, E. A. T. WALLIS. 1912.
A civilizao de Napata e Mroe                                               299



    Dentre essas inscries, as trs mais recentes  de Amannateieriko (-431
a -405), Harsiotef (-404 a -369) e Nastasen (-335 a -310)  mostram que os
reis procuravam cumprir com rigor as prticas tradicionais e explicitar a sua
fidelidade s tradies e costumes dos ancestrais. Ao mesmo tempo, fornecem
mais detalhes que as inscries anteriores, embora a linguagem empregada seja
de difcil compreenso.  possvel observar uma grande homogeneidade no
contedo e, por vezes, at mesmo na fraseologia.  assim que, nos trs casos, se
descreve o rei, antes de sua nomeao, vivendo entre os outros "Irmos Reais"
em Mroe. Primeiro,  nomeado rei em Mroe; em seguida, viaja at Napata,
ao norte, onde se realizam as cerimnias. De fato, Amannateieriko afirma
categoricamente que foi eleito rei pelos chefes de seus exrcitos aos 41 anos e
que empreendera uma campanha militar antes de poder dirigir-se a Napata para
a coroao. Chegando a essa cidade, apresentou-se ao palcio real, onde recebeu
a coroa de Ta-Sti como confirmao adicional de sua ascenso ao trono. Em
seguida, entrou no templo para a realizao da cerimnia em que solicitou ao
deus (dirigindo-se  sua esttua ou ao santurio) que lhe concedesse a realeza,
a que o deus acedeu, como simples formalidade.
    As inscries mais antigas comprovam que a sucesso ao trono era decidida
antes que o rei ingressasse no templo. A sucesso de Taharqa (-689 a -664),
por exemplo, foi decidida por Shebitku (-701 a -689), que residia em Mnfis,
no Egito. Escolhido entre seus "Irmos Reais" para ocupar o trono, Taharqa
empreendeu uma viagem para o norte, passando certamente por Napata, e
prestou homenagens em Gemton (Kawa) antes de chegar a Tebas7.
    O relato das cerimnias, de acordo com a estela do rei Tanwetamani (-664
a -653), revela que este residia fora de Napata, talvez entre seus "Irmos Reais",
com sua me Qalhata. Proclamado rei, dirigiu-se para o norte, em procisso,
passando por Napata, Elefantina e Carnac. Assim,  provvel que o lugar de onde
partiu a procisso ficasse ao sul de Napata, ou seja, Mroe. Consequentemente,
a sucesso foi decidida fora de Napata, conforme o costume. Anlamani (-623 a
-593) descreve em termos semelhantes os episdios das festas de coroao em
Gemton (onde foi descoberta a estela) e acrescenta ter trazido sua me para
assistir s cerimnias, como fizera Taharqa antes dele8.
    Em sua famosa estela, Aspelta (-593 a -568) d mais detalhes sobre a
cerimnia de coroao. Ele confirma que sucedeu a seu irmo Anlamani e que foi
escolhido entre seus "Irmos Reais" por um grupo de 24 altos funcionrios civis

7    MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1.
8    MACADAM, M. F. L. 1949. p. 46.
300                                                                     frica Antiga



e chefes militares. Para justificar suas pretenses ao trono, Aspelta invoca no s
a vontade do deus mon-R como tambm a sua prpria origem (afirmando,
assim, o direito hereditrio de sucesso atravs da linhagem feminina). Portanto,
 evidente que, apesar das longas aes de graas ao deus mon-R, o papel do
clero era limitado. Aspelta tambm d detalhes mais precisos sobre sua entrada
no templo, onde encontra os cetros e as coroas de seus predecessores e recebe a
coroa de seu irmo Anlamani. O relato  semelhante aos de Amannateieriko e
Nastasen, mencionados acima.
    Algumas concluses importantes podem ser extradas dessas inscries. Uma
delas  que a viagem para o norte, durante a qual vrios templos eram visitados,
era parte importante da cerimnia de coroao. Outra  que o templo de mon
em Napata tinha um papel especial na cerimnia e que sua importncia era
incontestvel. Tais concluses tm uma relao direta com a teoria de G. A. von
Reisner, relativa  existncia de dois reinos de Napata independentes, retomada
recentemente por Hintze9.
    A teoria proposta por G. A. von Reisner pretendia explicar a distribuio das
sepulturas reais. Ele partia do postulado de que a localizao dessas sepulturas
estava diretamente ligada  capital: o rei devia ser enterrado num lugar prximo
 residncia real. Assim, o cemitrio real de el-Kurru, o mais antigo, e o
cemitrio de Nuri, que o sucedeu, foram utilizados pelos reis at a poca de
Nastasen, quando a capital era Napata. Aps o reinado de Nastasen, a capital
foi transferida para Mroe (por volta de -300), e os cemitrios de Begrawiya
sul e norte tomaram-se cemitrios reais. Em Djebel Barkal (Napata) existem
dois grupos de pirmides; consideraes arqueolgicas e arquitetnicas levaram
Reisner a sugerir que o primeiro grupo  imediatamente posterior a Nastasen e
que o segundo data do sculo I antes da Era Crist, tendo sido destrudo quando
os romanos invadiram Napata, em -23 ou logo depois.
    Cada grupo era ligado a um ramo da famlia real que governava em Napata,
independentemente da famlia reinante principal instalada em Mroe10.
    Contudo, a maior parte dos especialistas abandonou a hiptese da diviso do
reino11; um estudo detalhado dos procedimentos de sucesso e das cerimnias
de coroao mostra que a hiptese de Reisner  insustentvel. De fato, 
inconcebvel que um soberano fosse proclamado rei em sua capital e em seguida
tivesse que se dirigir  capital de um reino independente para ser coroado,

9     HINTZE. F. 1971-b.
10    REISNER, G. A. von. 1923-b. pp. 34-77.
11    WENIG, S. 1967. pp. 9-27.
A civilizao de Napata e Mroe      301




figura 11.1 Carneiro de
granito em Naga. (Fonte: W. S.
Shinnie. "Meroe, a Civilization of
the Sudan". 1967. (Foto Oriental
Institute, Univ. of Chicago.)
Figura 11.2 Pirmide do rei
Natakamani em Mroe, com
runas de capela e pilono em
primeiro plano. (Fonte: W. S.
Shinnie. 1967. Foto Oriental
Institute, Univ. of Chicago.)
302                                                                                         frica Antiga



particularmente quando esta  a sede de um pas insignificante, como sugere a
hiptese de Reisner. Por outro lado, no h nenhuma prova de que a cerimnia
foi abandonada, uma vez que autores gregos confirmam a sua existncia durante
os sculos III e II antes da Era Crist como indicou Bon12, e durante o sculo
I antes da Era crist, conforme o relato de Diodoro da Siclia. Contudo, pode-
-se afirmar com segurana que Napata desempenhou um papel importante no
reino merota: os reis empreendiam uma viagem at esta cidade para receber
as insgnias de soberano, de acordo com uma tradio estabelecida, e por vezes
eram a enterrados.
    Uma anlise de todos os textos relevantes mostra que o cargo de rei era
hereditrio por linhagem real, ao contrrio do sistema faranico ou de qualquer
outro sistema oriental antigo, em que normalmente o filho sucedia ao pai. Em
Napata e Mroe o rei era escolhido entre seus "Irmos Reais", e a iniciativa de
escolha do novo soberano partia dos chefes militares, dos altos funcionrios
e/ou dos chefes de cl. Todo pretendente impopular entre esses grupos ou de
capacidade duvidosa poderia perfeitamente ser excludo. A confirmao oracular
era simplesmente a ratificao formal de uma escolha prvia e tinha mais um
carter simblico, destinado a persuadir o pblico de que o prprio deus tinha
elegido o novo soberano. Alm disso, pode-se afirmar com segurana que em
teoria a coroa devia passar para os irmos do rei antes de ser entregue  gerao
seguinte: dentre 27 reis que governaram antes de Nastasen, quatorze eram
irmos dos reis precedentes. Naturalmente, havia excees: um rei podia usurpar
o trono; em tais casos, no entanto, ele procurava justificar e legalizar seu ato.
H tambm alguns sinais de que o direito ao trono poderia depender mais das
pretenses fundadas na descendncia materna que na paterna. Muitas, inscries
testemunham o papel da rainha-me na escolha de um novo rei, e algumas
caractersticas desse costume so semelhantes s observadas em reinos e chefias
de vrias partes da frica13.
    Todas as cerimnias de coroao indicam o carter sagrado de que se revestia
a realeza em Napata e Mroe: o rei era considerado filho adotivo de diversas
divindades. No se sabe at que ponto ele mesmo se considerava uma divindade
ou sua encarnao; seja como for, eram os deuses que o guiavam  j que o
haviam escolhido  por intermdio dos preceitos do direito consuetudinrio.


12    BON  autor de vrios tratados sobre geografia e histria natural, dos quais so conhecidos poucos
      fragmentos atravs de diferentes autores da Antiguidade. PLNIO, o Antigo, menciona particularmente
      em sua Histria Natural, livro VI, uma lista de cidades ao longo do Nilo elaborada por Bon.
13    Por exemplo, em Kaffa, Ankola, entre os Shilluk, em Monomotapa e outros lugares.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                           303



Observa-se nessa prtica um conceito bastante elaborado  o rei, designado
por vontade divina, dispensa julgamento e justia conforme a vontade do deus
(ou deuses)  que constitui a essncia de todas as realezas absolutas, antigas
e modernas. Embora em teoria seu poder fosse absoluto e indivisvel, o rei
tinha que governar rigorosamente de acordo com o direito Consuetudinrio;
alm disso, tinha sua ao limitada por inmeros tabus. Estrabo e Diodoro da
Siclia citam casos em que os sacerdotes, alegando terem recebido instrues
divinas, ordenavam ao rei que cometesse suicdio14. Afirmam que tal costume
persistiu at a poca de Ergamenes (cerca de -250 a -215), que, tendo recebido
uma educao grega que o havia libertado das supersties, mandou executar
os principais sacerdotes para puni-los por sua arrogncia; aps esse episdio, o
costume de suicdio real foi abolido15.
   Os soberanos de Napata e Mroe usavam nas inscries os ttulos faranicos
tradicionais, e no enunciado de seus ttulos no se encontra a palavra merota
correspondente a "rei". Esse ttulo, Kwr (l-se qere, qer ou queren), aparece apenas
no relato de Psamtico II sobre a conquista de Kush, quando menciona o rei
Aspelta16. Embora esse ttulo fosse possivelmente a forma habitual de se dirigir.
aos soberanos cuxitas, no se permitiu a sua inscrio nos monumentos de Kush.

     A candace: o papel da rainha-me
   No est claro qual o papel exato das mulheres de sangue real nos perodos
anteriores, mas h muitas indicaes de que ocupavam posies proeminentes
e cargos importantes no reino. Quando o Egito se encontrava sob a dominao
cuxita, a funo de grande sacerdotisa (Dewat Neter) do deus mon em Tebas
era exercida pela filha do rei, o que lhe conferia grande influncia econmica e
poltica. Mesmo aps a extino do cargo, em consequncia da perda do Egito,
as mulheres da famlia real continuaram a ocupar altas posies e a exercer um
poder considervel sobre o clero do templo de mon em Napata e em outros
lugares.
   O importante papel da rainha-me nas cerimnias de eleio e coroao de
seu filho  mencionado por Taharqa e Anlamani, de modo a no deixar dvidas


14   ESTRABO. XVII, 2, 3; DIODORO DA SICLIA. III, 6.
15   DIODORO, loc. cit., assinala que o sacrifcio ritual dos reis sob a ordem dos sacerdotes ou notveis so
     frequentes na frica. Cf. FROBENIUS, L. 1931.
16   S. SAUNERON e J. YOYOTTE (1952, pp. 157-207) reconheceram pela primeira vez kwr como o
     ttulo merota para "rei". A palavra moderna Alur ker, "a qualidade de chefe", provavelmente se relaciona
     etimologicamente com a palavra merota. Cf. HAYCOCK, B. G. 1954. p. 471, n. 34.
304                                                                                      frica Antiga



acerca de sua influncia decisiva e de seu status especfico. Muito importante
tambm era a sua participao em um complicado sistema de adoo, pelo
qual a rainha-me, designada pelo ttulo Senhora de Kush, adotava a esposa do
filho. Assim, Nasalsa adotou Madiqen, esposa de Anlamani, que logo morreu;
este foi sucedido pelo irmo Aspelta, cuja esposa Hennutskhabit foi adotada
por Nasalsa e Madiqen. Na estela de Nastasen (-335 a -310) a cena superior
mostra sua me, Pelekha, e a esposa Sakhakh, ambas empunhando um sistro, que
parece ter sido o smbolo do cargo que ocupavam. A inscrio de Anlamani diz
que esse rei consagrou quatro de suas irms aos quatro templos de Amon, para
desempenharem a funo de tocadoras de sistro e rezarem por ele.
    A iconografia confirma o elevado status das rainhas-mes. Nas cenas religiosas
representadas nas paredes dos templos elas ocupam posies proeminentes,
subordinadas apenas ao prprio rei, enquanto nas cenas que ornam as capelas das
pirmides a rainha aparece, por trs do rei falecido, como a principal portadora
de oferendas.
    Posteriormente, as rainhas  mes ou esposas  passaram a assumir o poder
poltico e proclamaram-se soberanas, chegando a adotar o ttulo real de "Filho
de R, Senhor das Duas Terras" (sa Ra, neb Tawy) ou "Filho de R e Rei" (sa Ra,
nswbit)17, Muitas delas tornaram-se famosas, e no perodo greco-romano Mroe
era conhecida por ter sido governada por uma linhagem de Candaces, Kandake,
ou rainhas-mes reinantes. Esse ttulo deriva da palavra merota Ktke ou Kdke18
e significa rainha-me. O outro ttulo, qere ("chefe"), no foi utilizado at o
surgimento da escrita merota. Na realidade, conhecemos apenas quatro rainhas
que o utilizaram: Amanirenas, Amanishaketo, Nawidemak e Maleqereabar,
todas, por definio, candaces19.  interessante notar que as sepulturas reais
de Nuri, de Taharqa (cerca de -664) a Nastasen (cerca de -310) no fornecem
nenhum indcio do sepultamento de uma rainha como monarca reinante; a
concluso a se extrair  que durante o perodo no houve rainha governante.
    A rainha mais antiga de que se tem provas  Shanakdakhete, do incio
do sculo II antes da Era Crist, a quem foi concedida uma sepultura real
em Begrawiya norte.  mais provvel que, de incio, o ttulo e o cargo no
significassem mais que rainha-me. Nesse caso, sua funo era educar as crianas
reais, conforme se depreende da estela de Taharqa; este menciona ter ficado
com sua me, a rainha Abar, at a idade de 21 anos, vivendo com seus irmos

17    HINTZE, F. 1959-a. pp. 36-9.
18    O n  frequentemente suprimido nos nomes prprios merotas. Cf. GRIFFITH, F. L. 1911-2. p. 55.
19    MACADAM, M. F. L. 1966.
A civilizao de Napata e Mroe                                                305



reais  "esses jovens de essncia divina"  entre os quais era escolhido o herdeiro
do trono. A rainha-me dispunha, assim, de grande poder e influncia, como
testemunha o papel especial que desempenhava na cerimnia de coroao e na
adoo da nora. A certa altura as rainhas devem ter superado em importncia
seus filhos ou maridos, e, num momento oportuno, assumido a totalidade
do poder. A partir de Shanakdakhete, o governo  exercido por uma srie de
rainhas, mas, sob Amanirenas, no sculo I antes da Era Crist, h indcios de
modificaes. Trata-se da estreita associao da primeira esposa do rei com
seu filho primognito (?), observvel em vrios monumentos importantes. Isto
sugere um certo grau de corregncia, j que a esposa que sobrevivesse ao marido
frequentemente se tomava a candace governante. Contudo, esse sistema no
durou mais que trs geraes e parece ter chegado ao fim aps Natakamani,
Amanitere e Sherakarer, na primeira metade do sculo I da Era Crist. Tudo
isso indica a evoluo interna de uma instituio local que no era cpia de
uma prtica estrangeira, como a dos ptolomeus no Egito, de que Clepatra 
um exemplo. Na verdade, podemos observar que essas instituies, no decorrer
dos sculos, se revestiram de uma complexidade crescente.
    O sistema de realeza que se desenvolveu em Kush tinha algumas vantagens
em relao ao sistema rgido de sucesso direta, pois eliminava o perigo de um
sucessor indesejvel, quer se tratasse de um rei na minoridade, quer de uma
personalidade impopular. A incorporao de novos membros  famlia real era
assegurada pelo sistema de adoo, enquanto os vrios contrapesos e controles a
ele inerentes, bem como a proeminncia da rainha-me e a importncia atribuda
 legitimidade da descendncia, garantiam a sua continuidade no poder. Esses
fatores podem ter contribudo para a continuidade e a estabilidade de que se
beneficiaram Napata e Mroe durante tantos sculos.

    Administrao central e provincial
   O nosso conhecimento da estrutura administrativa central e provincial
ainda  incompleto e fragmentrio, dada a ausncia de documentos de natureza
biogrfica relativos a pessoas privadas. Esses documentos poderiam fornecer
informaes acerca de ttulos e cargos, sua significao e funes respectivas.
   No centro da administrao estava o rei, autocrata absoluto de quem
emanavam as leis e que no delegava seu poder a outrem nem o dividia. De
fato, no havia um nico administrador que concentrasse poderes em suas
mos, como o fazia, por exemplo, um sumo sacerdote (para os templos) ou
um vizir. A residncia real constitua o centro do sistema administrativo e,
306                                                                        frica Antiga



segundo pesquisas recentes20, Mroe parece ser a nica cidade que se pode
considerar como sede principal da realeza e centro da administrao. Peye no
fornece informaes precisas quanto  localizao de sua residncia, embora
seja evidente que Mnfis foi a capital de seus sucessores imediatos da XXV
dinastia do Egito. J Taharqa indica claramente que vivia entre seus "Irmos
Reais", com sua me; de acordo com outras inscries, pode-se ter certeza de
que esses "Irmos Reais" residiam em Mroe. A esse respeito,  notvel que
seja apenas em Mroe, e particularmente no cemitrio de Begrawiya oeste, que
se encontrem sepulturas de crianas (entre as quais recm-nascidos) contendo
objetos funerrios que indicam terem elas vivido na corte real. H uma clara
ausncia de sepulturas similares nos cemitrios reais de el-Kurru e Nuri, do
que se pode concluir que a famlia real estava fixada em Mroe, provavelmente
residncia permanente do rei.
    A administrao central era dirigida por um certo nmero de altos funcionrios,
cujos ttulos egpcios esto preservados em duas estelas de Aspelta. Entre esses
ttulos encontramos  sem levar em conta os comandantes militares  chefes
de tesouro, guardies dos selos, chefes de arquivo, chefes de celeiro, o escriba-
mor de Kush e outros escribas21.  difcil afirmar se os ttulos correspondiam
s funes reais de seus titulares, ou apenas refletiam os modelos egpcios. De
qualquer maneira, tais funcionrios desempenhavam um papel importante na
eleio do novo rei, assim como na administrao do reino. Talvez a decifrao
da escrita merota venha esclarecer essa importante questo.
    Nessas inscries, os chefes militares aparecem vrias vezes em situaes
crticas. Eles eram incumbidos de proclamar a sucesso do novo rei e de efetuar
as cerimnias tradicionais de coroao; podem ter desempenhado um papel
significativo na escolha do sucessor. Muito provavelmente, a maioria dos chefes
militares pertencia  famlia real  talvez fossem prncipes de elevada posio22.
Segundo o costume, o rei no deveria ir  batalha, mas permanecer em seu
palcio, sendo o comando da guerra atribudo a um de seus generais; tal ocorreu
na campanha de Peye no Egito, na guerra de Amannateieriko contra os Reherehas
em Butana e na campanha de Nastasen. Contudo, no sabemos o que aconteceu
aos generais; mesmo aps uma campanha bem-sucedida eram relegados a um
segundo plano e o rei colhia todas as honras da vitria.



20    ALI HAKEM, A. M. 1972-a, p. 30 et seq.
21    STEINDORFF, G. von. 1903. v. 3; SCHFER, H. 1905-8. pp. 86, 103-4.
22    BUDGE, E. A. T. WALLIS. 1912. p. 105. et seq.
A civilizao de Napata e Mroe                     307




figura 11.3 Placa de arenito representando o
prncipe Arikankharor massacrando seus inimi-
gos (possivelmente do sculo II da Era Crist).
(Fonte: W. S. Shinnie. 1967. pr. 33. Foto Worces-
ter Art Museum, Mass.)
Figura 11.4 Rei Arnekhamani (templo dos
lees em Mussawarat es-Sufra). (Fonte: F. & U.
Hintze. "Alte Kulturen im Sudan". 1966. pr. 91.)
308                                                                                  frica Antiga



    No tocante  administrao das provncias menciona-se a existncia de
palcios reais em vrias localidades, sendo que cada palcio constitua uma
pequena unidade administrativa, dirigida, talvez, por um chanceler que
administrava as contas e as compras da residncia23.
    Contudo, para o perodo mais recente  a partir do fim do sculo I antes da Era
Crist  dispe-se de um nmero suficiente de documentos de administradores
provinciais para se reconstituir pelo menos um esboo da provncia setentrional
do reino. Esta parece ter-se desenvolvido muito rapidamente em resposta s
condies de instabilidade resultantes da conquista do Egito pelos romanos
e de sua fracassada tentativa de avanar para a Nbia, mais ao sul. Criou-se
uma administrao especial para a Baixa Nbia visando enfrentar a situao na
fronteira; na sua direo estava o Paqar (pqr), uma das principais personagens da
corte, que talvez fosse o prncipe herdeiro, j que o ttulo foi usado pela primeira
vez por Akinidad, filho de Teritiqas e Amanirenas, adversrios dos romanos na
Nbia. Arikankharor, Arikakhatani e Sherakarer (os reis das pinturas rupestres
do Djebel Qeili)24 e os trs filhos de Natakamani e Amanitere (-12 a +12)
tambm usaram o mesmo ttulo. Seus nomes, acompanhados da palavra pqr,
foram encontrados nas inscries de Napata, Mroe e Naga25; contudo, nenhum
estava associado  Baixa Nbia, e o termo parece ter sido uma designao
genrica para os prncipes, e no um ttulo especfico para o vice-rei do norte.
    Todavia, o ttulo Paqar  muitas vezes mencionado juntamente com outros
ttulos menos importantes, como taraheb e anhararab da pequena cidade de
Taketer, ou harapen, chefe da regio de Faras26, donde se deduz que o seu
detentor era o chefe provincial da Baixa Nbia merota. Sob a autoridade do
Paqar, o principal funcionrio encarregado da administrao era o peshte27, ttulo
registrado pela primeira vez no sculo I antes da Era Crist e que parece tornar-
-se mais importante durante o sculo III da Era Crist.
    A rea sob a jurisdio do peshte era Akin, isto , toda a Nbia merota
at Napata, ao sul. No se sabe ao certo como se atingia a posio de peshte 
por hereditariedade, decreto real ou nomeao pelo Paqar. Contudo, o grande
nmero de portadores desse ttulo indica que ocupavam suas funes por um


23    MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1, p. 58.
24    HINTZE, F. 1959-a. pp. 189-92.
25    ARKELL, A. J. 1961. p. 163.
26    GRIFFITH, F. L. 1911-2. p. 62.
27    GRIFFITH, F. L. 1911-2. p. 120 e ndice. Corresponde ao egpcio p. s. nsw, psente; MACADAM,
      M. F. L. 1950. pp. 45-6.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                309



perodo de tempo muito curto. Ao ttulo de peshte estavam associados outros,
por vezes designativos de elevadas posies na hierarquia religiosa, no s local
como tambm de Napata ou de Mroe. Dois outros importantes dependentes
do peshte eram o pelms-at (general da gua) e o pelms-adab (general da terra),
os quais, ao que parece, ocupavam-se da superviso dos escassos  porm vitais 
sistemas de comunicaes da Nbia, por terra e por gua, procurando assegurar
o fluxo de comrcio com o Egito, controlar as fronteiras e deter os perigosos
movimentos dos nmades a leste e a oeste do Nilo. Esses funcionrios eram
auxiliados por escribas, sacerdotes e administradores locais. No sabemos se
existiu em outras provncias um sistema semelhante de administrao provincial.
Pode-se afirmar, porm, que as condies especficas de vida e povoamento no
Butana exigiam um tipo de administrao diferente do utilizado na Baixa Nbia
ao longo do vale do Nilo. Infelizmente, no possumos outros documentos alm
dos imponentes templos, os quais, alm de desempenhar suas funes religiosas,
devem ter constitudo uma base slida para unidades administrativas.
    Em seu apogeu, o reino merota era to vasto e os meios de comunicao
provavelmente to pobres, que uma descentralizao do poder em favor dos
governadores provinciais deve ter sido indispensvel ao bom funcionamento da
administrao. Os chefes de vrios grupos tnicos instalados nas fronteiras do
reino mantinham relaes muito menos estreitas com o governo central. Em
perodos mais recentes, o Estado abrangia vrios principados; Plnio escreve que
na "ilha de Mroe" reinaram 45 reis etopes28 (sem considerar as candaces), e
outros autores clssicos falam dos tyrannoi, vassalos dos reis merotas29.
    Ao sul de Mroe estavam instalados os Simbriti, refugiados de origem
supostamente egpcia governados por uma rainha colocada sob a soberania
merota, ao passo que na margem esquerda do Nilo (no Kordofan) viviam
numerosos grupos de Nubai chefiados por diferentes principculos que se
mantinham independentes de Mroe30. Situao semelhante parece ter existido
no deserto oriental, habitado por vrios grupos nmades diferentes dos merotas
quanto  lngua e  cultura.
    Como indicam numerosas inscries, os reis merotas frequentemente
empreendiam expedies militares contra esses grupos tnicos independentes
ou semi-independentes, seja para subjug-los, como represlia s incurses, seja
visando a obteno de butim (gado e escravos). Os povos mais citados eram os

28   PLNIO. 186.
29   Cf. BON e NCOLAS DE DAMASCO. In: MULLER, C., ed. v. 3, p. 463; v.4, p. 351;SNECA. VI, 8, 3.
30   ESTRABO. XVII, 1, 2, citando ERATSTENES.
310                                                                                        frica Antiga



Reheres e os Majai, que provavelmente viviam entre o Nilo e o mar Vermelho e
podem ter sido os ancestrais dos Beja.
   Esses diferentes indcios mostram que Kush no era um Estado centralizado
e que, durante o perodo mais recente, compreendia diversos principados, os
quais se colocavam sob a dependncia dos reis merotas31.


      Vida Econmica e Social
      Ecologia
    O reino de Kush contava com uma ampla e variada base de atividades
econmicas, correspondente  diversidade geogrfica de seu territrio. Este
se estendia da Baixa Nbia ao sul de Sennar e  regio de Djebel Moya na
plancie meridional de Gezira; compreendia tambm extensas reas entre o
vale do Nilo e o mar Vermelho. Amplas regies a oeste do Nilo  de extenso
ainda desconhecida  estavam provavelmente sob influncia merota. Esse vasto
territrio varia de zonas ridas at regies que recebem quantidades considerveis
de chuvas no vero. Na Nbia, a atividade econmica baseava-se na agricultura
caracterstica do vale do Nilo, onde o rio  a nica fonte de gua. A terra arvel,
que em certas regies est ausente ou se reduz a uma faixa estreita, estende-se em
amplas bacias em alguns locais da Alta Nbia. O cultivo ribeirinho prolonga-se
ao sul, ao longo das margens do Nilo e seus tributrios. A situao geogrfica da
Baixa Nbia influenciou diretamente a vida poltica e socioeconmica; trabalhos
arqueolgicos recentes revelaram que no passado os nveis do Nilo eram baixos e,
dado que a Nbia se situava fora da zona de chuva, suas condies ecolgicas no
eram adequadas ao desenvolvimento de uma agricultura que pudesse sustentar
uma populao considervel. H a hiptese de que, durante o perodo inicial
de Napata, a Baixa Nbia esteve totalmente despovoada por muito tempo; foi
apenas a partir do sculo III ou II antes da Era Crist que a regio se repovoou,
graas  introduo da saqia32.
    Na Alta Nbia, as plancies de inundao  tais como as bacias de Kerma,
Letti e Nuri, cultivveis graas s enchentes do Nilo ou, na ausncia destas, ao
uso de dispositivos de elevao de gua  permitiram o desenvolvimento de
grandes centros urbanos de considervel importncia histrica, como em Barkal,


31    Mesmo no perodo de Napata, o Imprio Cuxita tinha um carter federativo. Cf. Cap. 10.
32    TRIGGER, B. 1965. p. 123.
A civilizao de Napata e Mroe                                                              311



Kawa, Tabo, Soleb, Amara, etc. Nessa rea, a economia agrria desempenhou
um papel mais importante; as plantaes de tmaras e videiras, sobretudo, so
mencionadas com frequncia nas inscries de Taharqa, Harsiotef e Nastasen.
    Contudo, a partir da metade do sculo V antes da Era Crist, a regio passou
por vrios perodos de seca e de extenso da zona desrtica, ligados s mudanas
ecolgicas que reduziram a rea das pastagens do interior. Tais condies podem
ter induzido os nmades do deserto oriental a se dirigirem para o vale do Nilo,
onde entraram em conflito com a populao local. Talvez tenha sido essa a
razo das guerras que se estenderam at o norte de Mroe durante o reino de
Amannateieriko (-431 a -404) e dos reis subsequentes. Esses acontecimentos
fizeram com que a Alta Nbia perdesse muito de sua importncia durante os
ltimos sculos da monarquia merota.
    A partir da confluncia do Atbara com o Nilo, que se estende para o sul,
esse ltimo deixa de ser a nica rota a atravessar o deserto. Cada um dos
afluentes do Nilo (o Atbara, o Nilo, o Nilo Branco, o Dinder, o Rahad, etc.)
torna-se igualmente importante e oferece as mesmas possibilidades agrcolas
e econmicas, o que torna possvel a extenso da rea de cultivo. Alm disso,
a regio situada entre os afluentes recebe uma quantidade aprecivel de chuva
durante o vero, que a torna propcia  atividade agropastoril. De fato, o Butana
(isto , a ilha de Mroe, situada entre o Atbara, o Nilo e o Nilo Branco) era o
corao do reino merota, e o pastoreio nmade ou seminmade constitua a
principal atividade econmica da regio.

     Agricultura e criao de animais
   Na poca da ascenso do reino de Napata, a criao de animais j possua
uma tradio milenar e, juntamente com a agricultura, representava a principal
fonte de subsistncia da populao. Alm do gado de chifres longos e curtos, a
populao criava carneiros, cabras e, em menor escala, cavalos33 e burros, utilizados
como animais de carga. Os camelos s foram introduzidos relativamente mais
tarde, ao final do sculo I antes da Era Crist34.
   A criao de gado desempenhava um papel to importante na vida econmica
do pas que a mudana da residncia de Napata para Mroe poderia ser explicada
pela necessidade de esta ficar prximo da principal rea de pastagem, j que a


33   Existe um cemitrio de cavalos em el-Kurru; DUNHAM, D. & BATES, O. 1950-7. pp. 110-7.
34   Uma figura de camelo em bronze foi descoberta no tmulo do rei Arikankharer (25 a 15). Cf.
     DUNHAM, D. & BATES, O. 1950-7. Gravura XLIL.
312                                                                                        frica Antiga



zona de chuvas comea ao sul da nova capital. Uma outra razo para a mudana
pode ter sido a eroso gradual do solo do norte do pas em ambas as margens
do Nilo, causada pelo pastoreio intensivo. Seja como for, a transferncia do
centro administrativo no sculo IV aparentemente deu um novo impulso ao
desenvolvimento da criao de gado. Depois de algum tempo, o fenmeno de
eroso se repetiu  o gado destruiu alm do pasto, os arbustos e as rvores 
iniciando-se outro ciclo de dessecamento. No sculo I da Era Crist as terras
de pastagem ao sul de Mroe j no podiam sustentar a antiga populao de
pastores que, muito densa, foi forada a mudar-se para o oeste ou para o sul.
A longo prazo, essa evoluo foi provavelmente uma das principais razes da
decadncia e, posteriormente, da queda do Imprio Merota.
    A primazia da criao de gado no Imprio de Kush  atestada por numerosos
indcios: a iconografia, os ritos funerrios, as metforas (compara -se um exrcito
sem chefe a um rebanho sem pastor)35, etc.
    As oferendas aos templos consistiam principalmente em animais domsticos,
e ao que parece, a riqueza dos reis, da aristocracia e dos sacerdotes do templo era
avaliada em gado. Os relatos de autores clssicos (Estrabo, Plnio e Diodoro da
Siclia) no deixam dvidas acerca do carter pastoril da sociedade merota, que
se assemelha em muitos aspectos s sociedades pastoris africanas posteriores.
    Durante toda a histria de Napata e Mroe, o desenvolvimento da agricultura
no norte foi influenciado tanto pelo clima quanto pela escassez de terra frtil no
estreito vale do Nilo. A falta de terra foi uma das razes por que os habitantes 
ao contrrio de seus vizinhos do norte, os egpcios  no sentiram necessidade
de criar um sistema de irrigao, com todas as consequncias sociais e polticas
que esse empreendimento pode acarretar. Isso no significa que a irrigao fosse
desconhecida nessa parte da Nbia: descobriram-se vestgios de antigas obras
de irrigao no planalto de Kerma, datando do sculo XV antes da Era Crist.
O principal dispositivo de irrigao utilizado na poca era o shaduf, substitudo
posteriormente pela saqia. Essa ltima, denominada Kole36 em nbio, apareceu
na Baixa Nbia somente na poca merota, sendo difcil determinar uma data
mais precisa. Os stios de Dakka e Gammai, do sculo III antes da Era Crist,
parecem ser os mais antigos a conter vestgios da saqia37. A introduo deste
dispositivo mecnico de irrigao teve uma influncia decisiva na agricultura,


35    MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1, inscr. IX.
36    Muitos topnimos entre Shellal e es-Sebua so derivados desta palavra: Koledul, Koleyseg, Arisman-
      -Kole, Sulwi-Kole, etc. Cf. MONNERET DE VILLARD, U. 1941. p. 46 et seq.
37    BATES, O. & DUNHAM, D. 1927. p. 105; HERZOG, R. 1957. p. 136.
A civilizao de Napata e Mroe                                               313



especialmente em Dongola, j que permite elevar a gua (atravs de uma roda)
de 3 m a 8 m com muito menos esforo e em menos tempo do que o shaduf;
este ltimo necessita de trabalho humano, enquanto a saqia  acionada pelo
bfalo ou outros animais.
    Mesmo as regies meridionais do pas, pelo menos no final do sculo VI
antes da Era Crist, eram predominantemente pastoris, a julgar por um relato
de Herdoto, que descreve a ilha de Mroe como sendo habitada na maior parte
por criadores de gado, com uma agricultura insuficientemente desenvolvida38.
A arqueologia parece confirmar essa opinio, uma vez que no nvel B de Djebel
Moya  que data do perodo de Napata e de uma poca posterior (sculo VI a
V antes da Era Crist)  no se encontrou nenhum trao de atividade agrcola39.
    Com a mudana gradual do centro do imprio para o sul e o aumento da rea
de terra irrigada a situao se modificou. No auge do reino merota, a "ilha de
Mroe" foi cultivada de maneira intensiva, e a rede de canais e hafirs (bacias de
irrigao) testemunha o fato. Um dos emblemas dos reis e sacerdotes merotas
da poca era um cetro em forma de arado (ou de enxada), semelhante ao que
era amplamente utilizado no Egito.
    Os principais cereais cultivados eram a cevada, o trigo e, sobretudo, o sorgo
ou durra, de origem local; plantava-se tambm a lentilha (Lens esculenta), o
pepino, o melo e a abbora.
    Entre as culturas tcnicas, a do algodo colocava-se em primeiro plano.
Embora desconhecido no antigo Egito, h muitas indicaes de que o seu
cultivo no vale do Nilo teve incio durante o Imprio de Kush, pouco antes da
Era Crist. So escassas as informaes a respeito de pocas mais antigas, mas
por volta do sculo IV antes da Era Crist o cultivo do algodo e a tcnica de sua
fiao e tecelagem atingiram em Mroe um nvel muito elevado, chegando-se
a afirmar que a exportao de txteis foi uma das fontes de riqueza do reino40.
O rei axumita Ezana vangloria-se, em suas inscries, de ter destrudo extensas
plantaes de algodo em Mroe41.
    Nossas fontes nada dizem acerca do regime fundirio e de explorao da
terra; contudo podemos supor a existncia de uma comunidade alde tradicional,
uma vez que esse tipo de organizao perdurou at o sculo XIX. O rei era
considerado o nico proprietrio da terra, caracterstica  comum a muitas


38   HERDOTO. III, 22-3.
39   ADDISON, F. S. A. 1949. p. 104.
40   CROWFOOT, J. W. 1911. p. 37, Memrias, n. 19
41   LITTMANN, E. 1950. p. 116.
314                                                                   frica Antiga



sociedades antigas  que deu origem a vrias formas de posse da terra; assim, 
absolutamente impossvel extrair qualquer concluso sobre as relaes efetivas
no domnio da produo.
   Um ramo importante da agricultura era o cultivo de frutas e uvas; muitos
pomares e vinhedos pertenciam aos templos, sendo cultivados por escravos.
   De maneira geral, os mesmos ramos da agricultura encontrados no antigo
Egito faziam-se presentes nos perodos de Napata e Mroe, apresentando,
entretanto, rendimentos diferentes. A criao de animais era mais importante
que a agricultura, e o cultivo de hortas e pomares, menos desenvolvido. No
entanto, o algodo comeou a ser cultivado na regio muito mais cedo que no
Egito. At onde se sabe, os produtos agrcolas no eram exportados, pois mal
atendiam ao consumo local.

      Recursos minerais
   Durante a Antiguidade, o Imprio de Kush foi considerado uma das regies
mais ricas do mundo conhecido. Essa fama se devia mais  riqueza mineral das
terras fronteirias situadas a leste do Nilo que  do interior do prprio reino.
   Kush foi uma das grandes reas produtoras de ouro do mundo antigo. O
metal era extrado entre o Nilo e o mar Vermelho, sobretudo na regio ao norte
do 18 paralelo, onde se encontraram numerosos traos de antigas mineraes.
A produo do ouro deve ter constitudo uma ocupao importante no Imprio
Merota e, ao que parece, os templos possuam grandes quantidades desse
metal. Taharqa dotou um de seus numerosos templos com 110 kg de ouro em
nove anos42. Recentes escavaes realizadas em Mroe e Mussawarat es-Sufra
revelaram templos com muros e esttuas folheados a ouro. Alm de constituir
uma das principais fontes de riqueza e de grandeza do reino, a exportao do
ouro exerceu grande influncia sobre as relaes com o Egito e Roma. Calcula-
-se que, durante a Antiguidade, Kush produziu cerca de 1.600.000 kg de ouro
puro43, que provavelmente pertenciam aos povos nmades, como testemunham
vrios relatos; num deles, o rei Nastasen exige aproximadamente 300 kg de ouro
das vrias tribos que venceu nas proximidades de Mroe44.
   Embora numerosos objetos de prata e bronze tenham sido encontrados nas
sepulturas, e as oferendas aos templos frequentemente contivessem artefatos de


42    VERCOUTTER, J. 1959. p. 137.
43    QUIRING, H. 1946. p. 56.
44    SCHFER, H. 1901. pp. 20-1.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                       315




                                   a
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                                   d                            e



figura 11.5 Recipientes de bronze originrios de Mroe. (Fonte: W. S. Shinnie. 1967. pr. 64-8. Fotos a, c,
d: Shinnie, Professor of Archaeology, Cartum; b: British Museum; e: Ashmolean Museum. Oxford.)
316                                                                                     frica Antiga



prata, por vezes de alta qualidade artstica, parece que nem a prata nem o cobre
foram produzidos localmente, sendo provavelmente importados.
    Por outro lado, o deserto oriental era rico em pedras preciosas e semipreciosas,
tais como a ametista, o rubi, o jacinto, a crislita, o berilo e outras. Mesmo que
as minas no fossem totalmente controladas por Mroe, todos os seus produtos
passavam pelos canais comerciais merotas, aumentando, assim, a fama desse
reino como um dos pases mais ricos do mundo antigo.

      O trabalho do ferro
   Os grandes montes de escria encontrados perto da antiga cidade de Mroe
e em outras regies do Butana foram causa de numerosas especulaes sobre a
importncia do ferro na civilizao merota. Afirmou-se que o conhecimento
de sua fuso e de seu manuseio em vrios lugares da frica subsaariana proveio
de Mroe. J em 1911, A. H. Sayce declarou que Mroe foi possivelmente a
"Birmingham da antiga frica"45; essa opinio, corrente at h pouco tempo
entre os especialistas, tornou-se uma teoria aceita na maioria dos trabalhos sobre
a histria africana ou sudanesa46.
   Nos ltimos anos, esse ponto de vista foi contestado por alguns especialistas,
que levantaram srias objees a seu respeito47. Esses autores mostraram que
 extremamente reduzido o nmero de objetos de ferro encontrados nas
sepulturas. Wainwright j havia notado que a presena do ferro limitava-se a
alguns traos por volta de -400 e que de modo algum esse metal  frequente
at a queda do reino merota (cerca de +320). Por sua vez, Tylecote afirmou
categoricamente que h vestgios de fuso de ferro antes de -200, enquanto
Amborn, numa anlise minuciosa de todos os objetos metlicos encontrados
na necrpole, demonstrou a preponderncia dos utenslios de bronze sobre os
de ferro, mesmo no perodo posterior. Ele concluiu ser mais provvel que esses
utenslios tenham sido produzidos com ferro importado, talvez trabalhado na
Nbia por ferreiros locais, cuja existncia, contudo, s  conhecida a partir da
cultura do Grupo X ps-merota. De qualquer maneira, no se pode deduzir, a
partir da presena de objetos de ferro trabalhado, que existisse uma verdadeira
metalurgia do ferro.

45    SAYCE, A. H. 1911. p. 55.
46    WAINWRIGHT, G. A. 1945. pp. 5-36; ARKELL, A. J., em muitos dos seus escritos; id. 1966. p. 451
      et seq.; SHINNIE, P. L. 1967. p. 160 et seq.; KATZNELSON, I. S. 1966. p. 289 et seq. e outros.
47    Cf. TRIGGER, B. G. 1969. pp. 23-50; TYLECOTE, R. F. 1970. pp. 67-72; AMBORN, H. 1970. pp.
      71-95.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                 317



   Amborn  da opinio de que os montes de escria encontrados em Mroe
so vestgios de outras indstrias. Se correspondessem, de fato, ao refugo da
fundio do ferro, a rea  sua volta deveria abrigar grande nmero de fornos;
ora, at hoje no se encontrou sequer traos de um forno de fundio48.
   A controvrsia est longe de ser resolvida, e mais pesquisas arqueolgicas
se fazem necessrias para que se chegue a uma prova categrica da presena
da metalurgia do ferro em Mroe. A escassez de objetos de ferro nos stios
funerrios no sugere uma produo em larga escala, fato que invalida a teoria
que pretende fazer de Mroe a "Birmingham da frica". Por outro lado, isso no
significa que a fundio desse metal fosse totalmente desconhecida na regio
nem que no fosse praticada em regies vizinhas na frica. O problema do ferro
em Mroe  um dos mais importantes da histria africana e merece ser estudado
em profundidade, utilizando-se todas as tcnicas modernas  disposio dos
arquelogos e historiadores. S aps esse estudo  que poderemos avaliar o papel
de Mroe na Idade do Ferro africana.

     Cidades, artesanato e comrcio
   O vale do Nilo, regulado pela infalvel inundao anual, favoreceu o
desenvolvimento de povoaes permanentes e o consequente crescimento de
cidades, o que, por sua vez, encorajou o desenvolvimento do artesanato. Quando
esses centros urbanos se situavam em pontos estratgicos, tornavam-se passagens
para o comrcio com o interior e com outras comunidades mercantis. Muitos
desses estabelecimentos urbanos tambm desempenharam o papel de centros
administrativos e religiosos49.
    possvel considerar o desenvolvimento urbano na Baixa Nbia como o
resultado de uma evoluo poltica e do crescente interesse dos merotas por suas
fronteiras com o Egito, ao norte. Os exrcitos merotas foram enviados por diversas
vezes  Baixa Nbia e, finalmente, os soldados se fixaram nessa regio, criando
uma economia auto-suficiente. Eles se beneficiaram das relaes comerciais com
o Egito e, em consequncia, multiplicaram-se na Baixa Nbia grandes cidades e
comunidades locais prsperas situadas em posies estratgicas, tais como Qasr
Ibrim ou Djebel Adda. A vida poltica e religiosa concentrava-se em torno de


48   H. AMBORN (1970. pp. 83-7 e 92); P. L. SHINNIE e F. Y. KENSE acabaram de lanar uma
     comunicao feita na Third International Meroitic Conference em Toronto, 1977, onde contestam a
     afirmao de AMBORN: na verdade, foram descobertos em Mroe (Begrawiya) fornos de fundio de
     ferro, durante escavaes recentes.
49   ALI HAKEM, A. M. 1972-b. pp. 639-46.
318                                                                    frica Antiga



um magnata local ou de uma famlia com posto hereditrio administrativo ou
militar. Essa aristocracia vivia em castelos, como o de Karanog, ou em palcios,
como o "Palcio do Governador" em Mussawarat es-Sufra.
    Baseando-se em Bon e Juba, Plnio nos transmitiu os nomes de muitas
cidades merotas situadas em ambas as margens do Nilo, entre a Primeira
Catarata e a cidade de Mroe50.
    O monumento merota mais setentrional  a capela de Arqamani, em Dakka
(antiga Pselkis), mas a verdadeira cidade fronteiria parece ter-se localizado ao
sul de Uadi es-Sebua, onde se encontraram vestgios de um grande povoado com
um cemitrio. Outros habitats urbanos importantes nessa regio foram Karanog,
perto da moderna cidade de Aniba, e, localizado  sua frente, o grande forte de
Qasr Ibrim; a maioria dos edifcios remanescentes , no entanto, ps-merota.
    A cidade de Faras (Pakhoras) foi o principal centro administrativo da
provncia de Akin, que correspondia  Baixa Nbia. Foram exumados alguns
edifcios oficiais, entre eles o chamado "Palcio do Oeste", do sculo I da Era
Crist, construdo com tijolos crus, e uma fortificao situada na margem do rio.
    Ao sul de Faras, so raras as povoaes merotas. A regio  inspita e o
vale muito estreito para satisfazer as necessidades de uma grande populao. 
somente na vizinhana de Dongola que vamos encontrar maiores extenses de
terra e indcios mais numerosos de ocupao antiga. Defronte  moderna cidade
de Dongola situa-se Kawa, onde uma grande cidade com vrios templos atesta
uma longa histria. Nesse local, as escavaes revelaram numerosos monumentos
e inscries merotas importantes.
    A montante de Kawa no se encontra nenhum stio de importncia antes de
Napata, cujo papel nas cerimnias reais e costumes religiosos foi salientado nas
pginas precedentes. A importncia desse ncleo urbano deve-se tambm  sua
localizao na extremidade setentrional de uma rota de caravanas que margeava
trs cataratas de difcil navegao. Todas as mercadorias provenientes das regies
meridionais e centrais do reino, bem como do interior da frica tinham que
passar por Napata. Embora o stio da cidade de Napata continue parcialmente
inexplorado, os cemitrios reais de el-Kurru, Nuri e Djebel Barkal e os templos
de Djebel Barkal e de Sanam foram objeto de investigaes completas, o que
permite avaliar a importncia de Napata como sede da realeza e centro religioso
durante o perodo mais antigo da histria de Kush. At a poca de Nastasen, os
cemitrios em torno de Napata eram utilizados para as sepulturas reais; mesmo


50    HIST. BAT. VI, 178, 179.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                319



aps esse perodo, alguns reis que normalmente seriam enterrados em Mroe
preferiam ter sepultura em Djebel Barkal.
    O segundo centro urbano mais importante do vale do Nilo situa-se em
Dangeil (8 km ao norte de Berber), onde foram descobertos vestgios de
edifcios e de muros de tijolos. O prprio stio parece encontrar-se sobre uma
rota importante que ligava Mroe ao norte.
    Na ilha de Mroe, que corresponde aproximadamente  plancie atual do
Butana, situada entre o Atbara e o Nilo Azul, foram encontrados muitos traos
de povoamento merota51.
    Embora a cidade de Mroe seja mencionada pela primeira vez no ltimo
quartel do sculo V antes da Era Crist (inscrio de Amannateieriko no templo
de Kawa) , com o nome de B.rw.t, os estratos inferiores do stio indicam a
presena, j no sculo VIII, de uma grande povoao no local. Herdoto (II,
29) descreve-a como uma "grande cidade". As escavaes confirmaram que esse
ncleo urbano ocupava uma grande rea, com uma parte central cercada por
subrbios e, talvez, por um muro. Alm de ser, por muitos sculos, a capital e
a residncia real, Mroe atuou como um dos principais centros econmicos e
comerciais do pas, situando-se na encruzilhada das rotas de caravana e servindo
igualmente de porto fluvial. A maior parte da rea compreendida pela cidade,
composta de vrios montculos recobertos por fragmentos de tijolo vermelho,
ainda est  espera dos arquelogos52. Mas a poro at agora explorada 
suficiente para mostrar que Mroe, no seu apogeu, foi uma cidade de enormes
propores, dotada de todos os atributos que se ligam  vida urbana. Como tal,
deve ser includa entre os monumentos mais importantes do incio da civilizao
no continente africano. Os principais elementos descobertos nas partes em que
se realizaram escavaes so a cidade real com seus palcios, as termas reais e
outros edifcios, alm do templo de mon. Nas vizinhanas foram encontrados
os templos de sis, dos Lees e do Sol, assim como muitas pirmides e cemitrios
que no eram destinados aos reis.
    Nas proximidades de Mroe encontra-se o stio de Uadi ben Naga, que abriga
runas de pelo menos dois templos; escavaes recentes revelaram um grande
edifcio  talvez um palcio  e uma construo em forma de colmeia, que
pode ter sido um enorme silo. Tais descobertas, assim como o grande nmero



51   ALI HAKEM, A. M. 1972-b.
52   Cabe mencionar aqui as escavaes (1972-5) realizadas pelas Universidades de Calgary e Cartum,
     durante as quais numerosos templos foram descobertos.
320                                                                                       frica Antiga



de montculos espalhados pelas imediaes do stio, indicam a importncia da
cidade, residncia das candaces e porto do Nilo53.
    Alguns outros stios de importncia merecem ser mencionados. Basa, situado
em Uadi Hawad, possui um templo e um enorme hafir rodeado por esttuas de
lees em pedra. No entanto, o trao mais interessante desse stio  que a cidade
no se desenvolveu de maneira anrquica, mas foi estritamente planejada de
acordo com as variaes do terreno, na poca recoberto por rvores e arbustos54.
De excepcional importncia, sob vrios pontos de vista,  Mussawarat es-Sufra,
que fica um pouco distante do Nilo, no Uadi el-Banat. Sua principal caracterstica
 o conjunto denominado a Grande Cerca, que consiste em numerosos edifcios
e muros a rodear um templo construdo no sculo I antes da Era Crist ou pouco
antes. O nmero de representaes de elefantes nos muros sugere que esse animal
desempenhava um papel de importncia. O stio abriga ainda alguns templos,
sendo o mais importante o Templo dos Lees, dedicado ao deus Apedemak.
Escavaes recentes efetuadas por F. Hintze55 elucidaram diversos aspectos da
histria, da arte e da religio merotas, mas muitas caractersticas desse povo
ainda so desconhecidas.
    Independentemente de suas funes administrativas e religiosas, as cidades
merotas tambm foram importantes centros de artesanato e comrcio. No
h, at o momento, nenhum estudo dedicado a esse aspecto da histria
econmica merota, mas os indcios existentes mostram que os produtos
artesanais eram de alto nvel tcnico e artstico. A construo e decorao dos
numerosos monumentos (palcios, templos, pirmides, etc.) tornava necessria a
especializao em diferentes ofcios. Embora no perodo inicial seja indiscutvel
a influncia egpcia, a partir do sculo III antes da Era Crist vrios elementos
autctones indicam que os artesos e artistas merotas se libertavam dos modelos
estrangeiros, criando uma tradio artstica independente e muito original.
    A cermica est entre os produtos mais conhecidos da civilizao merota,
devendo sua fama  alta qualidade de sua textura e decorao. No tocante  arte
cermica, h duas tradies distintas: a cermica feita a mo (por mulheres),
que mostra uma notvel continuidade de forma e estilo e reflete uma tradio
africana profundamente arraigada56, e a cermica feita no torno (por homens),


53    Cf. VERCOUTTER, J. 1962.
54    CROWFOOT, J. W. 1911. pp. 11-20.
55    Cf. HINTZE, F. 1962; id. 1971-a.
56    P. L. SHINNIE (1967. p. 116) salienta que essa cermica ainda  produzida segundo o mesmo estilo,
      no somente no Sudo mas em outras partes da frica.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                    321




                                                              b

                                  a




                                                                          c




                                      d                       e

figura 11.6 Vrias peas de cermica merota. a e b: Vasos decorados com figuras caricaturais. c: Vaso
pintado mostrando um leo devorando um homem. d: Vaso pintado com cabeas do deus-leo Apedemak.
e: Vaso de loua vermelha decorado com uma faixa de sapos sentados dois a dois e separados por plantas.
(Fonte: W. S. Shinnie. 1967. pr. 44-8. Fotos Ashmolean Museum. Oxford.)
322                                                                                     frica Antiga



mais variada e suscetvel s mudanas estilsticas. Essas diferenas permitem
concluir que desde os primeiros tempos a cermica torneada desenvolveu-se
como um ramo distinto do artesanato cuja produo, destinada ao comrcio,
ficava sujeita s variaes da moda e  demanda das classes mdias e superiores
da sociedade merota, enquanto o povo continuava a usar a cermica tradicional,
feita em casa pelas mulheres.
    Outro ramo do artesanato que atingiu um alto grau de desenvolvimento
foi a joalheria. Foi sobretudo nos tmulos reais que se descobriram joias em
quantidades considerveis. Como ocorre com os outros artefatos, a joalheria
dos primeiros tempos seguia rigorosamente os padres egpcios e somente mais
tarde encontraram-se joias caracteristicamente merotas quanto ao estilo e 
ornamentao. Esses objetos  placas, colares, braceletes, brincos e anis  eram
feitos principalmente em ouro, prata e pedras semipreciosas. O desenho das joias
apresenta considervel variedade: alguns so de inspirao egpcia, mas outros
pertencem claramente  tradio de artesos e artistas merotas. A escultura em
marfim ligava-se  joalheria; dadas a abundncia e a acessibilidade desse material
em Mroe, no  de surpreender que os escultores desenvolvessem suas prprias
tcnicas e tradies, com motivos extrados principalmente do mundo animal
(girafas, rinocerontes e avestruzes).
    Os marceneiros fabricavam vrios tipos de mveis, especialmente camas,
mas tambm porta-joias, cofres e at mesmo instrumentos musicais; os teceles
produziam tecidos de algodo e de linho, e os curtidores tratavam peles e couros.
Vestgios do trabalho desses artesos foram descobertos em vrias sepulturas
reais e no-reais.
    Todas essas indicaes revelam a presena de uma classe relativamente
numerosa de artesos em Mroe,  qual tambm pertenciam os artistas, arquitetos
e escultores. At agora no se sabe como os ofcios eram organizados, pois seus
nomes, que figuram em inscries merotas, continuam indecifrados.  provvel
que existissem oficinas destinadas aos servios do templo, como no Egito57, e
talvez da corte real.
    O Imprio de Kush constituiu um entreposto ideal para as rotas de caravanas
entre o mar Vermelho, o Alto Nilo e a savana nilo-chadiana. Assim, no  de
admirar que o comrcio exterior tivesse um papel importante tanto na economia
quanto na poltica merota. Os indcios das relaes comerciais com o Egito
so em nmero suficiente para que se possa determinar sua magnitude, suas

57    Essas oficinas foram encontradas no templo T em Kawa, datando do sculo VII ou VI antes da Era
      Crist. Cf. MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1, pp. 211-32.
A civilizao de Napata e Mroe                                                                      323




figura 11.7 Joias de ouro da rainha Amanishaketo (-41 a -12). (Fonte: F. & U. Hintze. 1966. pr. 132. Foto
Staattiche Museum, Berlim.)
324                                                                                         frica Antiga



mercadorias e rotas. J em relao ao comrcio com outras partes da frica,
pode-se apenas levantar hipteses; muitas questes ainda esto sem resposta.
Desde os tempos antigos, os principais produtos de exportao da Nbia eram
o ouro, o incenso, o marfim, o bano, os leos, as pedras semipreciosas, as penas
de avestruz e as peles de leopardo. Embora algumas dessas mercadorias tivessem
por origem o territrio merota, outras provinham com certeza de pases situados
mais ao sul.
    O comrcio exterior dirigia-se principalmente para o Egito e o mundo
mediterrnico  mais tarde, talvez, para a Arbia do Sul. A rota comercial mais
importante passava ao longo do Nilo, embora em algumas partes atravessasse a
savana (entre Mroe e Napata, e entre Napata e a Baixa Nbia, por exemplo).
A "ilha de Mroe" deve ter sido cruzada por inmeras rotas de caravanas; era
tambm o ponto de partida para as caravanas que se dirigiam  regio do mar
Vermelho, da Etipia do norte, do Kordofan e do Darfur. O controle dessa
extensa rede de rotas era uma preocupao constante dos reis merotas, pois
os povos nmades atacavam frequentemente as caravanas. Como medida de
segurana, os soberanos construram fortalezas em pontos estratgicos da estepe
de Bajuda  entre Mroe e Napata, por exemplo  e mandaram abrir poos ao
longo das rotas comerciais.
    Os poucos indcios de que dispomos no nos permitem acompanhar todas
as etapas do desenvolvimento do comrcio exterior de Mroe durante o curso
da sua histria. Pode-se apenas supor que esse comrcio tenha atingido o
pice no comeo do perodo helenstico, com o aumento da demanda de
mercadorias exticas originrias da frica por parte da dinastia ptolomaica.
Posteriormente, a rota principal foi transferida do eixo do Nilo para o mar
Vermelho (incio do sculo I antes da Era Crist). Isso reduziu o volume de
mercadorias diretamente exportadas de Mroe, j que vrias delas podiam
ser obtidas na Etipia do norte onde, naquele momento, comeava a surgir
Axum. Os ltimos sculos do reino merota coincidiram com a crise do
Imprio Romano, que levou inicialmente a um acentuado declnio e depois
 interrupo quase total das relaes comerciais entre Mroe e Egito. Vrias
cidades da Baixa Nbia, dependentes desse comrcio, arruinaram-se. Alm
disso, nem Roma nem Mroe foram capazes, na poca, de defender as rotas
comerciais contra as invases dos nmades blmios e nobatas.58




58    Para uma anlise das causas do declnio, ver KATZNELSON, I. S. 1966. p. 249 et seq.
A civilizao de Napata e Mroe                                                325



    Estrutura social
    Dada a ausncia de qualquer informao direta,  quase impossvel apresentar
um quadro coerente da estrutura social em Mroe. At o momento sabemos
apenas da existncia de uma classe superior ou dirigente (composta pelo rei e
sua famlia), de uma corte e de uma aristocracia provincial que preenchia vrias
funes administrativas e militares, e de um clero muito influente. No extremo
oposto da escala social, as fontes de que dispomos mencionam frequentemente
a presena de escravos recrutados entre prisioneiros de guerra. A partir de
testemunhos indiretos pode-se supor que alm dos agricultores e criadores de
gado, os quais devem ter formado a maior parte da populao merota, existia
uma classe mdia de artesos, negociantes, pequenos funcionrios e criados,
mas no se sabe absolutamente nada acerca da sua posio social. At que se
disponha de informaes mais precisas, seria prematura qualquer tentativa de
caracterizar as relaes sociais e de produo.
    Documentos epigrficos e outros do a entender que as atividades militares
desempenharam um papel no-negligencivel no reino, mas  difcil dizer como
os exrcitos eram recrutados e organizados. Parece que, independentemente
de uma guarda real permanente, todos os habitantes do sexo masculino eram
mobilizados em caso de necessidade. Relatos do perodo romano indicam que o
exrcito dividia-se em infantaria e cavalaria, mas que os soldados merotas no
eram muito disciplinados em comparao com as legies romanas. Travavam-se
guerras contra os grupos nmades que habitavam o deserto oriental, os quais,
nunca inteiramente subjugados, aguardavam o momento oportuno para invadir
as terras cultivadas. Ao mesmo tempo, moveram-se vrias guerras de agresso
visando aumentar o territrio e apoderar-se do butim (gado e escravos), que
deve ter constitudo uma importante fonte de riqueza para as classes dirigentes
e para o clero. Um grande nmero de prisioneiros de guerra  e por vezes at
os territrios recm-ocupados  era doado regularmente aos templos pelos reis.
O contingente de escravos deve ter sido proporcionalmente muito elevado; no
perodo romano, exportou-se grande nmero de escravos negros para o Egito
e para os pases do Mediterrneo. A mo de obra escrava era empregada na
construo de pirmides, templos, palcios e outras edificaes monumentais,
bem como no cultivo dos pomares e jardins dos templos; talvez fosse utilizada
tambm na escavao e reparo de canais de irrigao e bacias (hafirs). A escravido
desenvolveu-se em Mroe como em outros reinos orientais, porm de maneira
mais lenta, e nunca chegou a constituir a base principal da produo, uma vez
que esse tipo de trabalho tinha uma esfera de aplicao comparativamente mais
326                                                                   frica Antiga



limitada. Nas inscries menciona-se sempre um nmero maior de mulheres que
de homens, o que indica ter sido a escravido domstica a forma prevalecente.


      Religio
      Aspectos gerais
    Os povos merotas tomaram do Egito a maior parte de suas ideias religiosas
oficiais. A maioria dos deuses cultuados nos templos de Mroe correspondia s
divindades egpcias; os primeiros reis consideravam mon como o deus mais
importante, de quem recebiam seus direitos ao trono. Os sacerdotes dos templos
de mon exerceram uma influncia considervel, pelo menos at a poca
do rei Ergamenes, que, ao que parece, destitui-os de seus poderes absolutos.
No entanto, mesmo mais tarde, os reis demonstraram  pelo menos em suas
inscries  venerao por mon e seus sacerdotes, os quais eram favorecidos
de vrias maneiras por ddivas de ouro, escravos, gado e terras.
    Ao lado de divindades faranicas  sis, Hrus, Tot, Arensnuphis, Satis,
etc.  com seus smbolos originais, eram cultuados deuses puramente merotas,
como o deus-leo Apedemak ou o deus Sebiumeker (Sbomeker). O culto
desses deuses s se tornou oficial no sculo III antes da Era Crist; parece que
anteriormente eram deuses locais das regies meridionais do imprio, e que s
adquiriram proeminncia quando a influncia egpcia comeou a enfraquecer
e foi substituda pelos traos culturais mais autenticamente merotas. Deve-se
lembrar que  tambm por volta dessa poca que a escrita e a lngua merotas
foram introduzidas nas inscries.
    Apedemak, deus guerreiro, era uma divindade de grande importncia para
os merotas. Ele  representado com uma cabea de leo, animal que, ao que se
sabe, desempenhava um certo papel nas cerimnias do templo, especialmente
em Mussawarat es-Sufra59. Nessa mesma localidade encontramos outro deus
merota desconhecido dos egpcios, Sebiumeker, que talvez fosse a principal
divindade local, j que era tido como criador. Algumas deusas tambm esto
representadas em Naga, mas seus nomes e posies no panteo merota
continuam desconhecidos.
    A presena de dois grupos de divindades, um de origem egpcia e o outro de
origem local, reflete-se tambm na arquitetura dos templos.


59    ZABKAR, L. V. 1975.
A civilizao de Napata e Mroe                                                             327



     Os templos de mon
    O simbolismo religioso exerceu considervel influncia na arquitetura dos
templos do antigo Egito. O culto era expresso em ritos elaborados e complexos
e cada parte do templo tinha um papel especfico no desenvolvimento do
ritual. Essas vrias partes (salas, ptios, cmaras, capelas, etc.) eram dispostas
axialmente, formando um longo corredor de procisso. Templos desse tipo foram
edificados na regio de Dongola por Peye, Taharqa e seus sucessores; o mais
importante deles, dedicado a mon-R em Napata, foi construdo em Djebel
Barkal. Todavia, nas primeiras inscries de coroao no consta que Mroe
tenha um templo dedicado a mon.
    Por volta do fim do sculo I antes da Era Crist, contudo, a cidade de Mroe
foi honrada com a construo de um desses templos,  frente do qual foi colocada
uma longa inscrio em merota. Os primeiros nomes a ele associados so os
do rei Amannikhabale (-65 a -41) e da rainha Amanishaketo (-41 a -12). Esse
templo se tornou talvez o mais importante dentre os consagrados a mon-R
na ltima metade da histria do reino. Deve-se notar que a partir dessa poca
templos similares porm de dimenses menores  foram construdos em Mroe,
Mussawarat es-Sufra, Naga e Uadi ben Naga. O templo de mon em Mroe
desempenhou um papel semelhante ao de Napata, em Djebel Barkal; deve
ter-se tornado um perigoso rival para este ltimo, chegando a super-lo em
importncia. Mesmo durante o perodo anterior  construo do templo de
mon em Mroe, Napata no detinha o monoplio como centro religioso:
existiam outros templos que dominavam a vida religiosa em todo o Butana e
estendiam sua influncia para o norte. Trata-se dos templos dos lees, para os
quais devemos agora nos voltar.

     Os templos dos Lees
    O nome "templo dos lees" deve-se a uma preponderncia marcante de
figuras de leo, esculpidas em ronde-bosse, guardando o acesso e a entrada dos
templos ou ocupando posio de destaque nos baixos-relevos. A figura do leo
representa o importante deus merota Apedemak; isso no significa, contudo, que
todos os templos dos lees fossem dedicados unicamente a Apedemak. Embora
a existncia desses templos tenha sido constatada por diversos especialistas60, eles



60   GARSTANG, J. et al. 1911. p. 57; MACADAM, M. F. L. 1949. v. 1. p. 114; HINTZE, F. 1962; id.
     1971-a.
328                                                                                          frica Antiga



receberam diferentes denominaes quando descritos isoladamente61: templo
de pis, templo de sis, templo do Sol, templo principal de Augusto (Cmara
de afrescos), etc. O uso de tais termos levou, em alguns casos, a concluses
equivocadas e enganosas62. O emprego da expresso "templo dos lees" eliminaria
novos mal-entendidos, sendo a figura do leo seu trao mais caracterstico. As
esttuas de leo esto inteiramente ausentes dos templos de mon (Barkal,
Kawa, Mroe, Naga)  a que se associam as esttuas de carneiro , embora o
deus-leo Apedemak fosse provavelmente uma das divindades ali cultuadas e
sua imagem aparea entre as representaes de outros deuses. Do mesmo modo,
as divindades com cabea de carneiro, mon-R e Khnum, aparecem muito
frequentemente nos baixos-relevos dos templos dos lees, embora no haja um
nico exemplo de esttua de carneiro associada a qualquer um dos templos dos
lees.

      Distribuio e tipos de templos dos lees
    Alm dos 32 templos dos lees registrados, existem quatorze stios em
que a sua presena  quase certa. Se acrescentamos a ocorrncia nos textos
merotas de ttulos religiosos associados a templos situados em localidades
como Nalete, Tiyi, etc., eles devem ter sido realmente muito numerosos; ao que
parece, distribuam-se por toda a rea de Mroe. A partir de um estudo dessa
distribuio, configuram-se dois fatos. O primeiro  que em quatro stios foram
descobertos vrios templos: Naga (oito templos), Mussawarates-Sufra (seis),
Mroe (seis) e Djebel Barkal (trs).
    A presena de vrios templos numa mesma localidade indica a importncia
religiosa do stio. Os mais elaborados e talvez os principais do reino so os de
Mussawarat es-Sufra e o templo do Sol em Mroe (M 250). No entanto, Naga
tem mais templos do que qualquer outro stio, e Barkal fornece os mais antigos
exemplares datveis: B 900, que foi construdo por Peye (-750 a -716) e possua
originariamente duas cmaras, depois transformadas num templo com pilono
e cmara nica; e B 70, iniciado por Atlanarsa (-653 a -643) e terminado por
Senkamaniskem (-643 a -623).



61    PORTER, B. & MOSS, R. 1951. p. 264 et seq.
62    O nome "Templo do Sol", por exemplo, criado por SAYCE com base em uma indicao de Herdoto
      a propsito da presena de uma "Mesa do Sol", levou alguns especialistas a sugerirem a existncia de
      um culto especial do Sol em Mroe. Termos como "Templo de sis" e "Templo de pis" podem levar a
      concluses igualmente equivocadas.
A civilizao de Napata e Mroe        329




figura 11.8 O deus Apedemak
conduzindo outros deuses merotas.
(Fonte: F. Hintze. "Die Inschriften
des Lwentempels von Mussawarat
es -Sufra, Abhandlungen der
Deutschen         A k ad e m i e der
Wissenschaften zu Berlin". Kl. fr
Spr., Lit. und Ku. Jahrgang 1962, n
1, Berlin, 1962, pr. II.)
Figura 11.9 O deus merota
Sebiumeker (templo dos lees em
Mussawarat es-Sufra). (Fonte: F. &
U. Hintze. 1966. 101.)
330                                                                    frica Antiga



    O segundo fato  que os dois tipos de templo concentram-se em diferentes
regies.  possvel argumentar que, de maneira geral, os templos de mon se
situavam na regio de Napata, enquanto os templos dos lees se encontravam
na ilha de Mroe, onde os primeiros foram construdos apenas a partir do
sculo I da Era Crist.
    Os templos dos lees podem ser divididos em dois tipos bsicos: o primeiro
 de cmara dupla (os exemplares mais antigos foram construdos com tijolo
cru, sem pilono); o segundo tem uma nica cmara, e a maioria   exceo dos
primeiros exemplares   dotada de pilono.
    O aparecimento do segundo tipo de templo dos lees poderia ser explicado
por duas fontes locais. Por um lado, parece evidente que se desenvolveu a partir
do primeiro modelo, a julgar pelo fato de que o B 900 foi reconstrudo conforme
a planta do segundo tipo. Por outro lado, existem em Barkal63 e em Kerma64
vrias construes pequenas, de cmara nica, de que pode ter-se derivado. Os
exemplares mais antigos de tais construes talvez se encontrem sob Mroe M
250, sendo possivelmente anteriores a -50065.
    A arquitetura do templo dos lees pode igualmente ter sofrido a influncia
do Egito, onde capelas foram construdas, em diferentes pocas, no interior de
outros templos ou  beira do deserto. Essas capelas eram o lugar de descanso
para o barco ou para a esttua do deus durante as vrias procisses. A maior parte
das construes  elaborada e possui vrias cmaras66, e embora a XXV dinastia
em Tebas tenha construdo ou ampliado vrias capelas pequenas em Carnac e
outros lugares67, estas normalmente no se assemelham aos templos dos lees.
Portanto, uma origem autctone parece mais provvel. Bastante simples, esse
tipo de monumento era apropriado para reas como Butana, onde a falta de
mo de obra e materiais impedia construes elaboradas como a dos templos de
mon, pelo menos no perodo mais antigo. Talvez o seu despojamento reflita
um tipo simples de culto, como seria de se esperar entre comunidades nmades
do Butana e outras regies.
    Embora a existncia dos dois tipos de templo sugira,  primeira vista, a
presena de duas religies diferentes em Mroe, uma reconsiderao cuidadosa
indica que de fato havia apenas uma. Isso porque a coexistncia de duas religies


63    REISNER, G. A. von. 1918. p. 224.
64    REISNER, G. A. von. 1923-a. p. 423.
65    HINTZE, F. & U. 1970.
66    BADAWY, A. 1968. p. 282.
67    LECLANT, J. 1965-b. p. 18.
A civilizao de Napata e Mroe                                               331



pressupe quer um grau considervel de tolerncia, fato bastante improvvel
 poca, quer um conflito feroz e guerras religiosas contnuas, a que as fontes
disponveis no fazem qualquer referncia. Pelo contrrio, o panteo cultuado nos
templos de mon tambm parece ter sido o mesmo dos templos dos lees, com
a exceo de que a certos deuses era dada maior proeminncia em um templo
do que em outro. Esse panteo era, alis, constitudo por uma mistura de deuses
egpcios como mon-R ou a trade de Osris e deuses locais como Apedemak,
Mandulis, Sebiumeker68. As arquiteturas diversas indicam diferenas antes nos
rituais que na religio. Assim, os rituais ligados s cerimnias de coroao
exigiam templos como o de mon para a realizao das festas e procisses. Tal
prtica religiosa tornou possvel incorporar sem conflito vrios deuses e crenas
locais, concorrendo assim, durante um perodo bastante longo, para a coeso de
um reino constitudo de elementos muito diversificados.




68   LECLANT, J. 1970-b. pp. 141-53.
A cristianizao da Nbia                                                    333



                                CAPTULO 12


                     A cristianizao da Nbia
                                   K. Michalowski




   Dois fatores explicam, basicamente, tanto a estrutura social quanto a histria
da Nbia no perodo cristo: de um lado, a decadncia do reino de Mroe, que
ocupara o territrio do sculo III antes da Era Crist at o sculo III da Era Crist;
de outro, a romanizao e posterior cristianizao do Egito, seu vizinho do norte.
    queda do reino de Mroe seguiu-se uma longa srie de lutas, culminando
com a expulso dos Blmios (Bega ou Buga) para o deserto oriental, e o controle
do vale do Nilo pelos Nobatas. Formou-se, assim, ao norte, o Estado nobata,
entre a Primeira Catarata e o Dal (regio que fica entre a Segunda e a Terceira
Catarata).
   Dispomos hoje de muitas informaes sobre este perodo da histria nbia
graas s escavaes realizadas por misses internacionais, como parte de uma
campanha para preservao dos monumentos da Nbia.
   Em Faras, a misso polonesa obteve provas de que a antiga Pakhoras era a
capital dos Nobatas, no perodo final de seu reino. L se encontrava o palcio
real, mais tarde transformado na primeira catedral1.
   Pelos vestgios encontrados, percebe-se a profunda diferena que havia entre
os padres de vida na sociedade dessa poca. As massas eram relativamente
pobres. Devido  extrema simplicidade dos seus "cemitrios", o arquelogo


1    MICHALOWSKI, K. 1967-b. pp. 49-52.
334                                                                      frica Antiga



americano G. A. von Reisner2, ao descobrir essa civilizao, designou-a
meramente por "cultura do Grupo X",  falta de uma definio histrica mais
precisa. Contrastando com o baixo nvel de vida do povo, as classes governantes,
os prncipes, a corte, cultivavam as tradies de arte e cultura dos merotas.
Como resduos representativos dessa fina camada superior da sociedade, temos
o j mencionado palcio real em Faras e a luxuosa moblia funerria dos famosos
tmulos de Ballana, descobertos em 1935 por W. B. Emery3.
    S recentemente se esclareceu a interdependncia das culturas de Ballana e
do Grupo X4. At pouco tempo atrs, havia ainda controvrsia entre os peritos.
Alguns consideravam o Grupo X um enigma5 na histria da Nbia, atribuindo
aos Blmios6 os tmulos de Ballana e  cultura merota7 tardia os outros objetos
do mesmo perodo. Havia tambm quem chamasse "civilizao de Ballana"8 a
todo o perodo.
    Foi durante as escavaes polonesas em Faras que se descobriu, sob o palcio
real, uma igreja crist de tijolos crus, construda provavelmente antes do sculo V.
 verdade que essa datao remota foi recentemente contestada9, mas o fato 
que havia tmulos cristos10 entre as sepulturas do Grupo X e que lmpadas
a leo crists, bem como cermica decorada com grafitos em forma de cruz,
foram encontradas em camadas do Grupo X na ilha de Meinarti11. Isso prova
que a f crist j alcanara os Nabatas, ganhando adeptos entre os pobres, muito
antes que a imperatriz Teodora de Bizncio enviasse a misso chefiada pelo
padre Juliano para cristianizar oficialmente a Nbia. Outra prova da penetrao
precoce da f crist entre os nbios so os mosteiros e eremitrios existentes na
regio desde o fim do sculo V12. Podemos, pois, afirmar tranquilamente que a
religio crist j se infiltrara aos poucos na Nbia bem antes da sua converso
oficial  que ocorreu, segundo Joo de feso13, em 543.

2     REISNER, G. A. von. 1910-27. p. 345.
3     EMERY, W. B. & KIRWAN, L. P. 1938.
4     MICHALOWSKI, K. 1967-a. pp. 194-211.
5     KIRWAN, L. P. 1963. pp. 55-78.
6     EMERY, W. B. 1965. pp. 57-90.
7     GRIFFITH, F. L. 1926. p. 21 et seq.
8     TRIGGER, B. G. 1965. p. 127.
9     GROSSMAN, P. 1971. pp. 330-50.
10    SVE-SDERBERGH, T. 1963. p. 67.
11    ADAMS, W. Y. 1965-a. p. 155; 1965-b. p. 172.
12    JAKOBIELSKI, S. 1972. p. 21.
13    KIRWAN, L. P. 1939. pp. 49-51.
A cristianizao da Nbia                                                         335




figura 12.i   O Nilo da Primeira  Sexta Catarata. (Mapa fornecido pelo autor.)
336                                                                                 frica Antiga



    Muitos fatores contriburam para essa cristianizao precoce do reino nobata.
No apenas o Imprio Romano, ainda hostil ao cristianismo no sculo III, mas
tambm o prprio Imprio Cristo dos sculos IV, V e VI perseguiam todos
quantos desobedecessem s injunes oficiais em assunto de religio. Por isso,
talvez, muitos egpcios ou mesmo nbios fugissem do Egito, trazendo sua f aos
Nobatas do sul de Assu. Caravanas de mercadores, atravessando Assu rumo ao
sul, tambm traziam, alm do comrcio, suas crenas religiosas. No foi menos
importante o papel da diplomacia: nos sculos V e VI, Bizncio ansiava por
uma aliana com Axum contra a ameaa persa no mar Vermelho; em 524, um
tratado formal permitia que Blmios e Nobatas participassem de uma expedio
projetada ao Imen. Durante tantos contatos e transaes, os padres certamente
no ficavam inativos.
    Na verdade, quando a imperatriz Teodora enviou  Nbia o padre Juliano, em
543, apenas os reis do pas foram batizados segundo o ritual monofisita. A maior
parte do povo h muito que se deixara seduzir pela nova f, sob a influncia do
Egito cristo. No sculo VI j existia s margens do Nilo, num bairro afastado,
uma igreja para atender  comunidade crist dos humildes. Para os soberanos
nobatas, a converso ao cristianismo foi um importante ato poltico: nessa poca
eles j no tinham uma ideologia religiosa bem definida que lhes garantisse a
submisso do povo e, por outro lado, o cristianismo vinha abrir-lhes as portas
do Egito, onde os bispos residiam desde o sculo IV, na ilha de Filas14. Atravs
do Egito, os nbios teriam acesso ao Mediterrneo e ao centro da civilizao
da poca  Bizncio.
    O reino da Nobadia (Nuba, em rabe) estendia-se desde Filas at a
Segunda Catarata e tinha por capital Faras. No sculo VI, outro reino nbio se
desenvolveu at o stio da antiga Mroe, sendo mais tarde chamado de Makuria
(Muqurra, em rabe). Sua capital era a Antiga Dongola (Dungula, em rabe).
Ao contrrio da Nbia setentrional, que adotara a doutrina monofisita, Makuria
foi convertida  ortodoxia melquita em 567-7015, pela misso que lhe enviara o
imperador Justino II.
    Depois de 1964, quatro igrejas e o palcio real cristo desse reino foram
identificados nas escavaes polonesas16. Um dos edifcios data do fim do sculo

14    MONNERET DE VILLARD, U. 1938; MUNIER, H. 1943. p. 8 et seq.
15    MONNERET DE VILLARD, U. 1938. p. 64; KIRWAN, L. P. 1966. p. 127.
16    MICHALOWSKI, K. 1966. pp. 189-299; id. 1969. pp. 30-3; JAKOBIELSKI, S. & OSTRASZ.
      A. 1967; JAKOBIELSKI, S. & KRZYZANIAK, L. 1967; MICHALOWSKI, K. 1969. pp. 163 -6;
      JAKOBIELSKI, S. 1970. p. 167 et seq., pp. 70-5; MARTENS, M. 1973. pp. 263-71; JAKOBIELSKI,
      S. 1975-b. pp. 349-60.
A cristianizao da Nbia        337




figura 12.2 Arcadas da fachada
leste da igreja de Qasr Ibrim.
(Foto fornecida pelo dr. Gamal
Mokhtar.)
Figura 12.3 Catedral de
Faras. (Foto Museu Nacional de
Varsvia.)
338                                                                                               frica Antiga



VII ou princpio do VIII; por baixo dele, encontraram-se os restos de uma igreja
ainda mais antiga, de tijolos crus. No era a catedral, mas contava cinco naves
e dezesseis colunas de sustentao, com 5,2 m de altura. A magnitude desses
vestgios leva a crer na veracidade histrica das entusisticas descries feitas por
um viajante rabe no sculo XI: Dongola era certamente uma capital importante,
ao menos por seus monumentos.
    Finalmente, entre 660 e 700, tambm os Makuritas adotaram a doutrina
monofisita, fato que no deixou de ter importantes consequncias.
    Ao sul, na regio da Sexta Catarata, formou-se o terceiro Estado cristo da
Nbia: Alodia (Alwa, em rabe), cuja capital, Soba, no ficava muito longe da
atual Cartum.
    Por volta de 580, com o apoio dos Nobatas, chegava a Alodia uma misso
bizantina, mas seu chefe, o bispo Longino, verificou que o pas j estava em
parte convertido pelos axumitas. Temos, portanto, ao fim do sculo VI, uma
Nbia j crist, composta de trs reinos: Nobadia, ao norte; Makuria, no centro,
e Alodia, ao sul. As relaes entre os trs ainda no esto bem definidas, pelo
menos durante o incio de sua existncia autnoma17.
    Ainda h pouco tempo, a histria da Nbia crist era estudada como parte da
egiptologia ou da histria antiga e paleocrist, ligando-se mais especialmente 
histria do Egito copta. Tudo quanto se sabia sobre a Nbia crist estava contido
no trabalho fundamental de Ugo Monneret de Villard18. Em quatro volumes
sobre a Nbia medieval19, esse autor publicou um material ilustrativo bastante rico
para a poca e ainda hoje muito valioso para a pesquisa de numerosos detalhes.
Embora escrevesse sobre descobertas arqueolgicas, perscrutou tambm textos
de autores rabes, dos quais muitos constituem a nica fonte de informao,
at agora, sobre fatos importantes da histria da Nbia e sobre a cronologia
de seus reis. Entre os manuscritos mais notveis esto os de Al-Yaqubi (874),
Al-Mas'udi (956), Ibn Hawqal (c. 960), Selim al-Aswani (c. 970), Abu Salih
(c. 1200), al-Makin (1272), Ibn Khaldun (1342-1406) e principalmente
Maqrizi (1364-1442)20.
    Desde a pesquisa de Monneret de Villard, vm-se acumulando os achados
arqueolgicos, principalmente a partir da "campanha da Nbia" (1960-65),


17    ADAMS, W. Y. 1965. p. 170.
18    MONNERET DE VILLARD, U. 1938.
19    MONNERET DE VILLARD, U. 1935-57.
20    Uma lista dos mais importantes textos rabes e cristos sobre a histria da Nbia crist foi levantada por
      VANTINI, G.
A cristianizao da Nbia                                                                             339



organizada pela Unesco com o objetivo de explorar os terrenos que seriam
inundados pelas guas do Nilo retidas na barragem de Sadd-al-Ali. Em alguns
lugares da Nbia setentrional a subida das guas foi to lenta que permitiu o
prosseguimento das escavaes at 1971; em Qasr Ibrim, regio no inundada,
a pesquisa continua at hoje.
    Os resultados das ltimas investigaes, muitos de valor excepcional, puseram
novamente em foco os problemas da Nbia crist. Publicaram-se os primeiros
relatrios sobre os resultados das pesquisas: no Kush (Nbia sudanesa) e nos
Anais do Servio de Antiguidades do Egito (Nbia egpcia). Alguns relatrios
forneceram matria para sries de publicaes independentes21. Novos trabalhos
de sntese surgiram, e os grupos de estudo deslocaram-se para regies ao sul da
rea ameaada pelas guas.
    Uma nova abordagem do problema do cristianismo na Nbia deve-se a W.
Y. Adams (especialmente quanto  classificao de cermica)22, B. Trigger 23, L.
P. Kirwan24, P. L. Shinnie25, J. M. Plumley26, K. Michalowski27, S. Jakobielski28 e
W. H. C. Frend29. Merecem particular ateno as informaes detalhadas que J.
Leclant30 publica anualmente em Orientalia sobre as mais recentes descobertas
na Nbia.
    Em 1969, realizou-se na Villa Hugel, em Essen, o primeiro simpsio sobre
a Nbia crist. Reuniram-se muitos dados  em parte hipotticos , que foram
depois publicados em separata sob a orientao de E. Dinkler31. Em 1972, tinha
lugar em Varsvia o segundo simpsio, cujos resultados foram editados em 197532.
    Embora a Nbia no pertencesse, como o Egito, ao Imprio Bizantino, havia
entre ambos um lao especfico, criado pelas misses dos padres Juliano e Longino. A

21   SVE-SDERBERGH, T. 1970; ALMAGRO, M. 1963-5; MICHALOWSKI, K. 1965-c.
22   ADAMS, W. Y. 1961. pp. 7-43; id. 1962-a. pp. 62-75; id. 1962-b. pp. 245-88; ADAMS, W. Y. &
     NORDSTRM, H. A. 1963. pp. 1-10; ADAMS, W. Y. 1964-a. pp. 227-47; id. 1965-a. pp. 148-
     -76; id. 1965-b. pp. 87-139; id. 1966-a. pp, 13-30; id. 1968. pp. 194-215; id. 1967. pp. 11-19; SVE-
     -SDERBERGH, T. 1970. pp. 224, 225, 227, 232, 235; id. 1972. pp. 11-17.
23 TRIGGER, B. G. 1965. pp. 347-87.
24   KIRWAN, L. P. 1966. pp. 121-8.
25   SHINNIE, P. L. 1965. pp. 263-73; id. 1971-a. pp. 42-50.
26 PLUMLEY, J. M. 1970. pp. 129-34; id. 1971. pp. 8-24.
27 MICHALOWSKI, K. 1965-a. pp. 9-25; id. 1967-b. pp. 194-211; id. 1966-b.
28 JAKOBIELSKI, S. 1972.
29   FREND, W. H. C. 1968. p. 319; id. 1972-a. pp. 224-9; id. 1972-b. pp. 297-308.
30   LECLANT, J. 1954.
31   MICHALOWSKI, K. 1975.
32   MICHALOWSKI, K. 1975.
340                                                                               frica Antiga



organizao do governo nbio era calcada diretamente sobre a burocracia bizantina,
conforme revela a prpria nomenclatura.  certo que, ao invadirem o Egito em
616, os persas detiveram-se na fronteira da Nbia mas existem evidncias de que
o reino nbio do norte foi invadido por destacamentos sassnidas acampados ao
sul da Primeira Catarata. De qualquer modo, a ocupao de Csroes II ps fim
s comunicaes diretas entre a Nbia e o Egito, que nessa poca j era cristo,
interrompendo os contatos entre o clero nbio e o patriarcado de Alexandria,
oficialmente responsvel pela Igreja da Nbia. Em 641 o Egito caa sob o poder dos
rabes e, durante sculos, a Nbia crist permaneceu isolada da cultura mediterrnica.
    A princpio, os rabes no deram grande importncia  conquista da Nbia,
limitando-se a incurses armadas nas terras do norte. Uma vez submetido o
Egito, assinaram com a Nbia um tratado (baqt) que obrigava os nbios a um
tributo anual de escravos e mercadorias em troca de uma quantidade razovel
de roupas e alimentos que os rabes se comprometiam a fornecer-lhes. Durante
os sete sculos de independncia da Nbia crist, o tratado foi respeitado, em
princpio, por ambas as partes. Alguns choques ocasionais, como o ocorrido
logo aps a assinatura do baqt, em 651-2, quando o emir Abdallah ibn Abi Zar
penetrou at Dongola, no impediram que se mantivesse entre a Nbia e o Egito
muulmano um comrcio constante33.
    Foi sem dvida por causa das primeiras escaramuas entre nbios e rabes do
Egito que dois reinos nbios, o do norte e o do centro, se uniram num s Estado.
Baseando-se em fontes rabes, mais antigas, Maqrizi afirma que, em meados do
sculo VII, o mesmo rei, Qalidurut34, governava a Nbia setentrional e central,
at os limites de Alodia. J as fontes crists parecem provar que a unio da Nbia
foi obra do rei Merkurios, que subiu ao trono em 697 e fez de Dongola a capital
do reino unido. A este rei se atribui a introduo do monofisismo em Makuria.
    A questo do monofisismo na Nbia ainda no est bem clara, especialmente
no que concerne s relaes do reino com a Igreja ortodoxa melquita.  possvel
que o rito melquita persistisse, de certa forma, no interior do reino. Sabe-se,
efetivamente, que ainda no sculo XIV a provncia de Maris, ou seja, o antigo
reino da Nbia setentrional, pertencia  diocese de um bispo melquita que, como
metropolita residente em Tafa, controlava a Nbia toda. Por outro lado, a no
ser durante o sculo VIII, Alexandria teve sempre dois patriarcas: um monofisita
e outro melquita35.

33    ADAMS, W. Y. 1965-c. p. 173.
34    MICHALOWSKI, K. 1967-b.
35    MONNERET DE VILLARD, U. 1938. pp. 81, 158-9; SHINNIE; P. L. 1954-a. p. 5.
A cristianizao da Nbia                                                                                   341



    A unio dos dois reinos nbios resultou em grande progresso poltico e
econmico. A Merkurios sucedeu o "grande" rei Kyriakos, a quem estavam
subordinados trinta governadores. Como os faras do Egito, tambm os reis
da Nbia eram altos sacerdotes. Alm de poder intervir em matria de religio,
desempenhavam certas funes religiosas  com a condio de no manchar as
mos com sangue humano36.
    Ao saber que um governador omada aprisionara o patriarca de Alexandria,
o rei Kyriakos usou desse pretexto para atacar o Egito e penetrar at al-Fustat37.
Libertado o patriarca, retornaram os nbios a seu pas. Isso demonstra que a
Nbia no se limitava estritamente  defesa, mas tomava tambm a ofensiva
contra o Egito muulmano.
    Descobriram-se recentemente em Qasr Ibrim alguns papiros importantes
para o esclarecimento das relaes entre o Egito e a Nbia durante esse perodo.
Trata-se de uma correspondncia entre o rei da Nbia e o governador do Egito:
do texto mais longo, datado de 758, consta um protesto escrito em rabe por
Musa K'ah Ibn Uyayna contra os nbios que desrespeitavam o baqt38.
    As expedies militares no so, porm, as nicas evidncias de que o Estado
nbio j florescia no incio do sculo VIII. H testemunhos arqueolgicos do
extraordinrio desenvolvimento da arte, da cultura, da arquitetura monumental
nbia a esse tempo. Em 707, o bispo Paulos reconstruiu a catedral de Faras,
decorando-a com esplndidos murais39. Durante o mesmo perodo, importantes
edifcios religiosos foram construdos na antiga Dongola40, e outras igrejas foram
cobertas de magnficas pinturas, como em Abdallah Nirqui41 e es-Sebua42. A
partir dessa poca a pintura mural aparece em todos os locais de cerimnia.
    Quanto ao cristianismo entre as classes humildes, tanto as escavaes recentes
como as que foram realizadas em stios conhecidos h algum tempo revelam at
que ponto ele estava difundido nas aldeias, j no sculo VIII43.

36   MONNERET DE VILLARD, U. 1938. p. 99.
37   MONNERET DE VILLARD, U. 1938. p. 98.
38   PLUMLEY, J. P. & ADAMS, W. Y. 1974. pp. 237-8; MOORSEL, P. Van, JACQUET, J. & SCHNEI-
     DER, H. 1975.
39   MICHALOWSKI, K. 1964. pp. 79-94; LECLANT, J. & LEROY, J. 1968. pp. 361-2; HINTZE, F.
     & U. 1968. pp. 31-3, figs. 140-7; WEITZMANN, K. 1970. pp. 325-46; GOLGOWSKI, T. 1968. pp.
     293-312; MARTENS, M. 1972. pp. 207-50; id. 1973; MICHALOWSKI, K. 1974.
40   Ver nota 16 acima.
41   KLASENS, A. 1964. pp. 147-56; MOORSEL, P. Van. 1967. pp. 388-92; id. 1966. pp. 297-316; id. Actas
     del VIII Congreso Internacional de Arqueologia Cristiana. Barcelona, 1972. pp. 349-95; id. 1970. pp. 103-10.
42 DAUMAS, F. Cairo, 1967. p. 40 et seq.; id. 1965. pp. 41-50
43   VERCOUTTER, J. 1970. pp. 155-60.
342                                                                          frica Antiga



    Foi provavelmente em fins do sculo VIII e princpios do IX que o rei
Yoannes anexou ao reino unido da Nbia a provncia meridional de Alodia44.
    O perodo cristo, na Nbia, foi marcado por grande progresso econmico.
S na regio setentrional, a populao chegou a cerca de 50 mil pessoas45. Com
a saqia (roda d'gua), introduzida no perodo ptolomaico e romano, era possvel
o aproveitamento das terras entre as enchentes do Nilo, muito abundantes
nessa poca46: cultivava-se o trigo, a aveia, o sorgo, a vinha. Nas plantaes de
tamareiras, as fartas colheitas contribuam para elevar o nvel de vida. Aumentara
o comrcio com as naes vizinhas, estendendo-se mesmo aos pases mais
distantes. Makuria vendia marfim para Bizncio, cobre e ouro para a Etipia.
Caravanas de mercadores, em camelos ou em barcos a remo, penetravam at o
corao da frica, onde ficam hoje a Nigria e Gana.
    Os trajes preferidos pela populao mais abastada eram os bizantinos. As
mulheres usavam longas tnicas, geralmente enfeitadas com bordados coloridos47.
    O sistema de governo, como dissemos, seguia o modelo bizantino. O governador
civil da provncia era o eparca; o smbolo de sua autoridade, uma coroa com chifres,
que ele usava sobre um elmo ornado com um crescente48. Vestia geralmente uma
tnica larga, presa por uma faixa. Os bispos usavam, sobre trajes litrgicos ricos e
elaborados, uma estola com franjas enfeitadas com pequenos sinos.
    Muitos autores antigos referem-se  fama dos nbios como arqueiros. Alm
do arco, manejavam tambm o dardo e a espada.
    As residncias particulares eram de tijolo cru; tinham diversos compartimentos,
com tetos abobadados ou telhados planos de madeira, palha e argila. Na poca de
maior prosperidade do reino, as paredes eram mais macias e caiadas. Edifcios
de mais de um andar destinavam-se, talvez,  defesa. Em alguns bairros, havia
gua encanada. Nas ilhas da Segunda Catarata, encontraram-se restos de paredes
de pedra bruta. No norte da Nbia, as aldeias eram cercadas de muralhas para
proteo contra invases rabes. s vezes, os habitantes construam armazns
comunitrios para o caso de se verem sitiados. Junto ao centro da aldeia, erguia-
-se a igreja.
    Nos edifcios sacros, empregavam-se geralmente tijolos crus. As raras excees
conhecidas so as catedrais de Qasr Ibrim, Faras e Dongola, com paredes de


44    MONNERET DE VILLARD, U. 1938. p. 102; MICHALOWSKI, K. 1965-a. p. 17.
45    TRIGGER, B. G. 1965. p. 168.
46    TRIGGER, B. G. 1965. p. 166.
47    HOFMANN, I. 1967. pp. 522-92.
48    MICHALOWSKI, K. 1974. pp. 44.5.
A cristianizao da Nbia                                                                                      343




figura 12.4 Planta geral do stio no interior das muralhas. No meio: o Grande Kom; no alto,  esquerda:
vestgios da Grande Igreja; embaixo,  direita: a Igreja da Porta do Rio.
Figura 12.5 Edifcios cristos descobertos pela expedio polonesa (1961-1964).
4.a. Igreja de tijolo; 4.b. a catedral; 4.c. tmulos de bispos dos sculos VIII e IX; 4.d. pilar sustentando a cruz;
4.e. tmulos de bispos do sculo X; 4.f. capelas comemorativas de Yoannes; 4.g. tmulos de Yoannes; 4.h.
corredor norte; 4.i., 4.j. antigo mosteiro e palcio; 4.k. mosteiro norte; 4.l. igreja do mosteiro; 4.m. casas; 4.n.
residncia do bispo (provavelmente um mosteiro); 4.o. edifcio no identificado; 4.p. igreja sobre a encosta
sul de Kom; 4.q. tmulo do bispo Petros.
344                                                                                                 frica Antiga



pedra ou de tijolo cozido. O estilo predominante era o basilical, mas encontram-
-se, por vezes, igrejas cruciformes ou de plano central. Quanto  decorao no
primeiro perodo, isto , at o fim do sculo VII, no h outras fontes alm das
grandes catedrais j mencionadas.
    A no ser em caso de reaproveitamento de edifcios pagos, como em Faras,
por exemplo, a decorao era de arenito e repetia as volutas tradicionais, motivos
helensticos que a arte merota copiara do oriente romano. So dignos de nota
os capitis admiravelmente esculpidos com volutas e ornatos de folhagem. 
muito provvel que se usassem, como imagens rituais, cones esculpidos ou
pintados sobre madeira.
    Nos monumentos mais antigos da arte crist, na Nbia, notam-se fortes
influncias do Egito copta49, especialmente quanto aos motivos, como por exemplo
no friso de pombas ou guias, que faz lembrar as imagens dessas aves nas estelas
coptas50.
    A partir do sculo VIII, a tcnica usada na pintura decorativa das igrejas
nbias  a do fresco-secco. Foi possvel reconstituir certa evoluo geral do estilo na
pintura nbia51, depois que se descobriram, em Faras, de 1961 a 1964, 120 murais
perfeitamente conservados. Neles apareciam os bispos cujos nomes e tempo
de episcopado constavam da Lista dos Bispos. As dedues com base nesses
documentos foram confirmadas por fragmentos de murais de outras igrejas nbias.
    Era Faras, incontestavelmente, o centro artstico pelo menos da Nbia
setentrional, nessa poca52. O estilo das pinturas encontradas mais ao norte,
em Abdallah Nirqi53 e em Tamit54 ou ao sul, em Sonqi Tino55,  positivamente
provinciano em comparao com as obras-primas de Faras.
    Do comeo do sculo VIII at meados do IX, os pintores nbios preferiram
os tons violeta em suas composies. Havia, ento, uma forte influncia da arte
copta, cujas tradies remontavam ao estilo expressivo dos retratos do Faium.

49    DU BOURGUET, P. 1964-b. p. 221 et seq.; WESSEL, K. 19.64. p. 223 et seq.; id. 1963; DU
      BOURGUET, P. 1964-a. pp. 25-48.
50    PLUMLEY, J. M. 1970. pp. 132-3, figs. 109-19; JANSMA, N. & GROOTH, M. de. 1971. pp. 2-9;
      TRK, L. 1971.
51 MICHALOWSKI, K. 1964. pp. 79-94; ver tambm nota 39 acima.
52    MICHALOWSKI, K. 1966.
53    KLASENS, A. 1967. p. 85 et seq.; CASTIGLIONE, L. 1967. pp. 14-19; MOORSEL, P. Van. 1966. pp.
      297-316; id. 1967. pp. 388-92; id. 1970. pp. 103-10; id. Actas del VIII Congreso Internacional de Arqueologa
      Cristiana. Barcelona, 1972. pp. 349-95; MOORSEL, P. Van, JACQUET, J. & SCHNEIDER, H. 1975.
54    Misso Arqueolgica da Universidade de Roma no Egito. Roma, 1967.
55    DONADONI, S. & VANTINI, G. 1967. pp. 247-73; DONADONI, S. & CURTO, S. 1965. p. 123 et
      seq.; DONADONI, S. 1970. pp. 209-18.
A cristianizao da Nbia                                                                            345




figura 12.6 Cabea de Santa Ana: mural da nave norte da catedral de Faras (sculo VIII). (Foto Unesco.)
Figura 12.7 Faras: verga de porta decorada do incio da Era Crist (segunda metade do sculo VI ou incio
do sculo VII). (Foto Museu Nacional de Varsvia.)
346                                                                                         frica Antiga



Entre as obras mais representativas dessa fase, podemos situar a cabea de Santa
Ana de Faras (hoje no museu de Varsvia)56. Entretanto, mesmo nessa obra,
pode-se observar certa relao com a arte e os temas bizantinos57.
    Depois, esse estilo evoluiu, e at meados do sculo X predomina a tonalidade
branca, talvez refletindo o influxo da pintura srio-palestina, onde  caracterstica
a representao de pregas duplas no vesturio e de outros traos iconogrficos58.
A fonte dessa evoluo estaria talvez em Jerusalm, nesse tempo um local de
peregrinao para todos os povos cristos do Oriente.
    Sabe-se que laos muito estreitos ligavam, na poca, o reino monofisita da
Nbia e a seita monofisita dos jacobitas de Antioquia. Tanto o dicono Joo59
como Abu Salih60 relatam que, durante o reinado de Kyriakos, o chefe da Igreja
nbia era o patriarca monofisita (jacobita) de Alexandria.  tambm por esse
tempo que aparece pela primeira vez na pintura nbia uma forte tendncia
realista, cujo melhor exemplo  o retrato do bispo Kyrios, de Faras (hoje no
Museu de Cartum)61.
    Durante as escavaes, encontrou-se grande quantidade de objetos, entre os
quais predominava, naturalmente, a cermica. Sobre eles, W. Y. Adams realizou
estudos sistemticos62, conseguindo identificar vestgios de um interessante
desenvolvimento tcnico, estilstico e socioeconmico.
    Aps os progressos alcanados na poca do Grupo X, a cermica modelada
perdeu em criatividade, como se observa pela escassez de formas novas e de
padres decorativos no incio do perodo cristo. Tambm a cermica torneada
sofreu uma evoluo: se, por um lado, a produo de vasos para armazenamento
e consumo de vinhos parece diminuir com a interrupo do comrcio com o
Mediterrneo, por outro lado verifica-se um certo refinamento, aparecendo os
primeiros vasos com suporte para facilidade de manipulao.




56    MICHALOWSKI, K. 1965-b. p. 188, il. 11, 2; id. 1967. p. 109, il. 27, 32; ZAWADZKI, T. 1967. p. 289;
      MICHALOWSKI, K. 1970. fig. 16; MARTENS, M. 1972. p. 216, fig. 5.
57    MICHALOWSKI, K. 1967-b. p. 74; JAKOBIELSKI, S. 1972. pp. 67-9; MARTENS, M. 1972. pp. 234-49.
58    WEITZMANN, K. 1970. p. 337.
59    PATROLOGIA ORIENTALIS. pp. 140-3.
60    EVETTS, B. T. A. & BUTLER, A. J. 1895; MONNERET DE VILLARD, U. 1938. pp. 135-6;
      GRIFFITH, F. L. 1925. p. 265.
61 MICHALOWSKI, K. 1966-b. p. 14, il. VI, 2; id. 1967-b. p. 117, il. 37; JAKOBIELSKI, S. 1966. pp.
   159-60, fig. 2 (lista); MICHALOWSKI, K. 1970. il. 9; MARTENS, M. 1972. pp. 240-1, 248 et seq.;
   JAKOBIELSKI, S. 1972. pp. 86-8, fig. 13.
62    Mais recentemente, ADAMS, W. Y. 1970. pp. 111-23.
A cristianizao da Nbia                                                                            347




figura 12.8 Fragmento de um friso decorativo em arenito do abside da catedral de Faras (primeira metade
do sculo VII). (Foto Museu Nacional de Varsvia.)
Figura 12.9 Faras: Capitel de arenito (primeira metade do sculo VII). (Foto Museu Nacional de Varsvia.)
348                                                  frica Antiga




figura 12.10 Janela em terracota da Igreja das
Colunas de Granito na Velha Dongola, Sudo (fim
do sculo VII). (Foto Museu Nacional da Varsvia.)
Figura 12.11 Cermica da Nbia crist. (Foto
fornecida pelo dr. Gamal Mokhtar.)
A cristianizao da Nbia                                                     349



    Mesmo antes de 750, grande parte da cermica usada no sul era proveniente de
Assu; esse fornecimento no foi interrompido mesmo quando os muulmanos
ocuparam o Egito.
    Em suma: at o sculo IX, a Nbia gozou de um perodo inicial de
prosperidade, sem ser muito perturbada pela vizinhana dos muulmanos, em
geral pacficos. No  fcil discernir uma unidade cultural entre as primeiras
comunidades crists da Nbia. Em Faras, aristocratas e oficiais administrativos
falavam grego, como tambm os dignitrios da Igreja. O clero compreendia
inclusive o copta, que talvez fosse a lngua de muitos refugiados. Quanto ao
dialeto nbio, embora largamente empregado pela populao, no chegou at
ns em forma escrita. Os registros que temos so de data bem mais recente,
provavelmente no anterior a meados do sculo IX.
    Estava ainda por vir, ao redor do ano de 800, o perodo ureo da Nbia crist.
A cultura pr-axumita                                                     351



                             CAPTULO 13


                        A cultura pr-axumita
                               H. De Contenson




   Quase nada se sabe acerca dos primeiros habitantes da Etipia setentrional.
Ao que parece, at emergirem da Pr-Histria, por volta do sculo V antes da
Era Crist, sua densidade demogrfica no era muito elevada. A julgar pelas
raras informaes de que dispomos, sua evoluo no deve ter sido muito
diferente da dos outros grupos humanos dessa regio oriental que, por seu
aspecto cartogrfico, foi cognominada "o Chifre da frica".
   Os poucos utenslios de pedra que restam dos dez ltimos milnios antes
da Era Crist assemelham-se s indstrias da Idade da Pedra Tardia da frica
meridional.
   Pelas pinturas rupestres encontradas desde o norte da Eritreia at a terra
de Harrar, pode-se deduzir que a regio era habitada por povos pastores, que
reproduziam nos rochedos as figuras de seus animais: um gado sem corcova, de
chifres longos, parecido com o que se criava, a esse tempo, no Saara e na bacia
do Nilo. Conclui-se que eram muito antigas as relaes entre esses povos e o
mundo egpcio.
   Tambm no campo lingustico deve-se considerar a importncia do elemento
cuxita como um fato local que comea a manifestar-se em outras reas.
   Algumas descobertas recentes em Gobedra, perto de Axum (Phillipson, 1977),
revelam que j no III ou IV milnio se usava a cermica e se cultivava o sorgo.
Isso quer dizer que, paralelamente s atividades pastoris, existia nessa poca uma
352                                                                          frica Antiga



agricultura especificamente etope; essas novas tcnicas j denunciam um tipo de
vida mais sedentrio, mais propcio ao desenvolvimento de uma civilizao.
    Muito pouco nos dizem os autores antigos gregos e latinos sobre os sculos
que precederam a construo da cidade de Axum e a fundao de sua primeira
dinastia real. Podemos, no entanto, situar esses fatos no sculo II da Era Crist,
segundo o testemunho do gegrafo Cludio Ptolomeu1, confirmado cerca de
um sculo depois pelo Periplus Maris Erithraei (Priplo do Mar da Eritreia)2 e,
recentemente, pelas descobertas arqueolgicas3.
    O que sabemos pelos antigos  que Ptolomeu Filadelfo fundou em meados
do sculo III antes da Era Crist o porto de Adulis, e que este foi ampliado por
seu sucessor, Ptolomeu III Evergeta, sendo considerado por Plnio, por volta de
+75, um dos mais importantes portos de escala do mar Vermelho (maximum hic
emporium Troglodytarum, etiam Aethiopum). E tambm Plnio que nos fala das
numerosas tribos dos Asachae, que viviam da caa ao elefante nas montanhas
situadas a cinco dias do mar (inter montes autem et Nilum Simbarri sunt, Palugges,
in ipsis veri montibus asachae multis nationibus; abesse a mari dicuntur diem V
itinere: vivunt elephantorum venatu)4. Entretanto, a associao que se props
entre o termo tnico asachae e o nome de Axum no passa de uma hiptese.
    Outras fontes escritas da mesma poca, e particularmente os textos sul-
-arbicos at hoje conhecidos, no parecem conter a menor aluso ao que se
passava ento na margem africana do mar Vermelho.
    Excetuando-se as lendas, que no constituem matria deste captulo, a nica
fonte de informao de que dispomos so as descobertas arqueolgicas feitas
a partir do incio do sculo XX. Atravs dos achados foi possvel reconstituir
a poca pr-axumita, que, segundo F. Anfray, pode ser subdividida em dois
perodos: o perodo sul-arbico e o perodo intermedirio5.


      O perodo sul-arbico
   E um perodo de "forte influncia sul-arbica sobre a Etipia do norte", a
qual se manifesta sobretudo na semelhana entre as inscries e os monumentos


1     PTOLOMEU, Cludio. 1932; CONTENSON, H. de. 1960. pp. 77, 79, fig. 2.
2     CONTENSON, H. de. 1960. pp. 75-80; PIRENNE, J. 1961. pp. 441, 459.
3     CONTENSON, H. de. 1960. pp. 80-95.
4     PLNIO. 1938-62; CONTENSON, H. de. 1960. pp. 77, 78, fig. 1.
5     ANFRAY, F. 1967. pp. 48-50; id. 1968. pp. 353-6.
A cultura pr-axumita                                                                                   353




figura 13.1 A Etipia no perodo sul-arbico. Os pontos representam os stios arqueolgicos, sendo os
mais importantes grafados com maiscula. Os crculos indicam as cidades atuais. (Mapa fornecido pelo autor.)
354                                                                                  frica Antiga



descobertos na Eritreia e no Tigre e os da Arbia do Sul  poca da hegemonia
do reino de Sab. Os exemplares sul-arbicos esto datados dos sculos V e
IV antes da Era Crist  cronologia adotada pelos especialistas com base nos
estudos paleogrficos e estilsticos de J. Pirenne6.  de consenso geral que as
mesmas datas podem ser atribudas aos achados da Etipia. Entretanto, no se
pode afastar definitivamente a hiptese de C. Conti-Rossini, que admite uma
defasagem entre as duas margens do mar Vermelho7. Segundo F. Anfray, "h
razes para crer que no futuro a cronologia deva ser reduzida, talvez avanando-
-se as datas do perodo sul-arbico".
    O nico monumento arquitetnico conservado desse, perodo  o templo de
Yeha, mais tarde transformado em igreja crist. Edificado com grandes blocos
meticulosamente ajustados com entalhaes e bossagens, consiste em uma cela
retangular de cerca de 18,60 m por 15 m, apoiada numa base piramidal de oito
degraus. Como observou J. Pirenne, as fachadas desse templo, conservadas at a
altura de 9 m, receberam o mesmo tratamento dado a edifcios encontrados em
Marib, capital do reino de Sab, cujo templo tambm se erguia sobre degraus.
Entretanto, o plano de Yeha no corresponde ao de nenhum dos santurios
sul-arbicos conhecidos8. Ao mesmo perodo parecem pertencer as runas de
outro edifcio de Yeha, que vo agora surgindo com as escavaes em Grat-Beal-
-Guebri9: so pilares megalticos retangulares erguidos sobre um terrao elevado.
Pilares semelhantes foram encontrados tambm em dois outros stios: Halti e
Kaskas. No alto da colina de Halti, ao sul de Axum, dispem-se em aparente
desordem; talvez nem estejam na posio original10. Em Kaskas, na estrada que
vai de Yeha a Adulis, encontram-se seis pilares, cujo alinhamento se desconhece,
pois que o stio ainda no foi explorado11. De qualquer maneira, lembram as
sries de gigantescos pilares megalticos quadrangulares dos santurios de Marib
(Awwam, Bar'an) e de Timna (templo de Ashtar).
     ainda para Marib que apontam outros elementos esculpidos descobertos
em Yeha, como as placas denticuladas e caneladas, e o friso com figuras de
cabritos-monteses, tambm encontrados na regio de Melazo, em Halti e Enda


6     PIRENNE, J. 1955; id. 1956.
7     CONTI-ROSSINI, C. 1928. pp. 110-1.
8     KRENCKER, D. 1913. pp. 7984, fig. 164-76; PIRENNE, J. 1965. pp. 1044-8.
9     KRENCKER, D. 1913. pp. 87-9, fig. 195-9; ANFRAY, F. 1963. pp. 45-64; id. 1972-a. pp. 57-64;
      FATTOVICH, R. 1972. pp. 65-86.
10    CONTENSON, H. de. 1963-b. pp. 41-86; PIRENNE, J. 1970-a. pp. 121-2.
11    KRENCKER, D. 1913. pp. 143-4, fig. 298-301.
A cultura pr-axumita                                                        355



Cerqos. Este setor de Melazo, cerca de 10 km ao sul de Axum, revelou-se um
rico centro de esculturas do perodo sul-arbico. Alm das estelas de Halti e
das placas j mencionadas, que podem ter servido de revestimento para paredes,
descobriram-se ainda vrias obras reutilizadas em posteriores reformas; as mais
notveis so o naos e as esttuas encontradas em Halti.
    O monumento a que J. Pirenne props chamar naos, denominao mais
apropriada que "trono", anteriormente sugerida, foi esculpido em um nico
bloco do fino calcrio local e mede cerca de 140 cm de altura. Quatro ps em
forma de patas de touro, duas voltadas para diante e duas para trs, sustentam
uma base decorada com duas barras, sobre a qual repousa um nicho coberto
de ornamentos (exceto na parte posterior, inteiramente lisa). Sobre o nicho
h um dossel em forma de arco rebaixado, com 67 cm de largura e 57 cm
de profundidade. Em toda a borda, da espessura de 7 cm, vem-se cabritos-
-monteses deitados, em duas filas que convergem para uma rvore estilizada, no
ponto mais alto do naos. Tambm as bordas laterais so decoradas com figuras
de cabritos-monteses voltadas para o centro do nicho, em mtopes superpostas
de 13 cm de largura. Na face externa, uma mesma cena  representada em baixo-
-relevo na decorao de ambos os lados: duas figuras em atitude de marcha.
Um homem alto e barbado, carregando uma espcie de ventarola,  precedido
por uma pequena figura segurando um basto. O nariz de ambos, ligeiramente
aquilino, d-lhes aparncia semtica; os cabelos so representados por pequenas
pastilhas. A personagem menor veste uma tnica lisa, que se alarga na altura dos
tornozelos, e traz uma capa sobre os ombros; sobre sua cabea, do lado direito
do naos, h um nome prprio masculino em escrita sabeana: RFS (Rafash). A
personagem maior usa uma espcie de calo bufante, com um pano solto atrs
e preso  cintura por uma faixa que parece amarrada nas costas, deixando uma
parte pendente. O manto que traz sobre os ombros tem duas pontas amarradas
num grande n achatado sobre o peito. No baixo-relevo do lado esquerdo, ele
segura com ambas as mos o objeto descrito como uma espcie de ventarola;
no da direita, porm, a mesma personagem ostenta um bracelete qudruplo no
pulso esquerdo, e a mo direita empunha, alm da ventarola, uma espcie de
clava. Essas pequenas diferenas no chegam a sugerir que a cena no seja a
mesma nos baixos-relevos de ambos os lados do naos. Mais adiante trataremos
da sua interpretao.
    No mesmo stio, em Halti, descobriram-se vrias esttuas de um mesmo
tipo, das quais apenas uma est relativamente completa. Esta foi encontrada aos
pedaos, misturados com fragmentos do naos. Mede 82 cm de altura e  feita de
fino calcrio branco com veios lils, pedra originria do lugar. Representa uma
356                                                   frica Antiga




figura 13.2 O "trono" ou "naos" de Halti:
1.a. lado esquerdo; 1.b. frente; 1.c. lado direito.
(Fotos: Instituto Etope de Arqueologia.)
A cultura pr-axumita                                                                 357



mulher sentada, com as mos pousadas sobre os joelhos, inteiramente vestida
com uma tnica longa de estreitas pregas verticais representadas por estrias que
acompanham as linhas do corpo. O decote, ligeiramente chanfrado na frente,
e a faixa lisa e estreita que termina a barra da saia so debruados por um galo.
Por cima da tnica traz um colar feito de trs grossos cordes anelados, que
sustenta, na frente, um peitoral em forma de escudo e, atrs, entre as omoplatas,
um contrapeso em forma de trapzio com seis hastes verticais. Nos pulsos, tem
braceletes tricos qudruplos. As mos esto estendidas sobre os joelhos e os ps
descalos repousam sobre um pequeno suporte retangular. A cabea, tambm
nua, foi encontrada intacta, com exceo do nariz e da orelha direita. Os cabelos
so representados por fileiras de pequenas pastilhas, e os olhos acentuados por
uma linha em relevo. O queixo  redondo e as faces cheias desenham covinhas
junto  boca, dando-lhe o aspecto de um bico e uma expresso sorridente,
talvez involuntria. Percebe-se que essa esttua se destinava a ser encaixada num
assento, pois a parte posterior das pernas  achatada e tem no meio uma cavilha
vertical, bastante danificada12.
    Alm dos fragmentos de pelo menos duas esculturas semelhantes, encontrou-
-se tambm uma esttua sem cabea, que s diferia daquela descrita anteriormente
por ser de execuo mais grosseira e ter como ornamento apenas o colar de trs
voltas. Est sentada num tamborete decorado com uma barra.
    A atitude das esttuas de Halti lembra a de uma estatueta descoberta por
acaso, entre outras antiguidades, em Addi Galamo, stio antigamente conhecido
como Azbi Dera ou Hawila-Asseraw, na encosta ocidental do planalto do Tigre13.
A estatueta mede 40 cm de altura aproximadamente e  bem mais rstica. As mos
descansam sobre os joelhos mas seguram duas taas cilndricas, provavelmente
receptculos de oferendas. O cabelo tambm  representado por pastilhas, e as
ranhuras guardam ainda os vestgios de um colar com contrapeso e de braceletes,
talvez de metal precioso. A tnica termina em franja e no  pregueada, mas
enfeitada com rosetas  provavelmente incrustadas , que talvez representem
bordados. O assento  um simples tamborete decorado com uma barra.
    Em Matara, importante stio nas vizinhanas de Kaskas, numa camada
pr-axumita da colina B, a equipe de F. Anfray desenterrou um fragmento de
cabea parecido com as de Halti, apenas mais rudimentar e em alto-relevo14.


12   CONTENSON, H. de. 1962. pp. 68-83; PIRENNE, J. 1967. pp. 125-33.
13   SHIFERACU, A. 1955. pp. 13-5; CAQUOT, A. & DREWES, A. 1. 1955. pp. 18-26, pr. V-VIII;
     DORESSE, 1. 1957. pp. 64-5.
14   ANFRAY, F. & ANNEQUIN, G. 1965. pp. 60-1.
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figura 13.3   Esttua de Halti. 2.a. lado esquerdo; 2.b.
busto.
Figura 13.4 Altar de incenso em Addi Galamo. (Fotos:
Instituto Etope de Arqueologia.)
A cultura pr-axumita                                                                           359



    O Museu Nacional de Roma abriga em seu acervo (MNR 12113) uma
estatueta em calcrio amarelado que apresenta muitos aspectos em comum com
as de Halti: a cabea e os braos quebraram-se, mas pela parte conservada,
que mede 23,7 cm de altura, v-se que  uma mulher sentada, com um longo
vestido de pregas e um colar de duas voltas de onde pendem vrios berloques
esfricos e um peitoral com o respectivo contrapeso. Na parte inferior, em forma
de pedestal, est inscrito um nome sul-arbico, Kanan, cuja grafia, segundo J.
Pirenne, data do fim do sculo IV antes da Era Crist15. Admite-se que essa
estatueta um tanto rstica provenha da Arbia do Sul; entretanto, desde que
no se conhece com preciso a sua origem, no  impossvel que tenha sido
produzida na Etipia durante o perodo sul-arbico.
    Na verdade, o material encontrado at agora na Arbia do Sul s revela
semelhanas de ordem geral  a posio sentada, por exemplo: as chamadas
"imagens de ancestrais", algumas femininas; representaes de mulheres sentadas,
nos baixos-relevos funerrios de Marib, Haz ou do Museu de Aden; e a esttua
de "Lady Bar'at" em Timna, em que J. Pirenne v a grande deusa sul-arbica16.
    J nos sculos IX e VIII antes da Era Crist, era muito comum no domnio
srio-hitita (Tell Halaf, Zindjirli, Marash, Neirab) a figura da deusa ou mulher
sentada, muitas vezes com uma taa nas mos. Percebe-se, realmente, um certo
parentesco entre as esttuas etopes e as da sia Menor do fim do sculo VII e
incio do VI antes da Era Crist (brnquides, efgies funerrias de Mileto), que
representavam personagens corpulentas, sentadas com as mos sobre os joelhos,
usando trajes longos. Na mesma poca e na mesma regio, vamos encontrar
rostos cheios, de olhos saltados, bocas em arco de crculo com os cantos voltados
para cima, uma fisionomia muito semelhante  da esttua de Halti. Os mesmos
traos aparecem tambm numa deusa frgia de Boghaz Keuy, conforme observou
H. Seyrig, e numa cabea de Mileto, assim como em outras esculturas jnicas.
Essa expresso vai transformar-se em verdadeiro sorriso nas obras da tica,
durante a primeira metade do sculo VI antes da Era Crist17. Alis, vrias
afinidades da arte sul-arbica com a arte grega orientalizante do sculo VI, ou
com os estilos dela derivados, do sculo V, j foram apontados por J. Pirenne.
    A mesma figurao estilizada dos cabelos, lembrando as esttuas de Halti,
pode ser observada numa cabea da Acrpole, numa cabea greco-persa de
Amrit e ainda na Apadana de Perspolis, em que representa tanto os cabelos

15   JAMME, A. 1956. p. 67; CONTENSON, H. de. 1962. pp. 74-5, fig. 9; PIRENNE, J. 1965. pp. 1046-7.
16   CONTENSON, H. de. 1962. p. 76; PIRENNE, J. 1967. p. 131.
17   CONTENSON, H. de. 1962. p. 77.
360                                                                   frica Antiga



encarapinhados dos cuxitas negroides como as mechas cuidadosamente
onduladas do oficial meda que os comanda18.  difcil, portanto, saber se os
cabelos pastilhados so uma estilizao de cabelos encaracolados ou a reproduo
fiel dos cabelos crespos  uma diferena que bem poderia levar a concluses de
ordem tnica.
    Se, por um lado, as esttuas sentadas encontram correspondentes tanto no
helenismo orientalizante como na parte semita do Oriente Prximo, por outro
lado nota-se a influncia egpcia, e mais particularmente merota, nos colares
com contrapeso, inspirados na mankhit, e tambm nas roupas pregueadas.
Estas, conforme observa J. Pirenne, lembram as tnicas das rainhas de Mroe
e a corpulncia que estas herdaram de Ati de Punt, contempornea de
Hatshepsut19.
    Tais aproximaes evidenciam a diversidade de influncias refletidas nas
"mulheres sentadas" do Tigre, mas no nos esclarecem quanto ao que elas
representam. Tambm no  muito elucidativa a inscrio no pedestal de
Addi Galamo, que parece fazer parte da estatueta: segundo A. J. Drewes, esse
texto poderia significar "para que ele conceda um filho a YMNT"; segundo
G. Ryckmans, "quele que socorre Yamanat. Walidum"; segundo J. Pirenne, "
proteo [divindade protetora] do Imen. Walidum". Restam dvidas, ainda,
sobre se as mulheres representam rainhas ou altas personagens ou se, como
quer J. Pirenne, so imagens da grande deusa. Apesar da dificuldade levantada
pela presena simultnea de vrias efgies mais ou menos idnticas,  preciso
lembrar, em favor desta ltima interpretao de J. Pirenne, que os pedaos da
esttua completa e os do naos estavam misturados, por ocasio das escavaes, e
que as propores de ambos correspondiam, o que nos levou a crer que os dois
monumentos deviam completar-se.
    Inclinando-nos, pois, a rejeitar a hiptese de um trono vazio, do tipo
encontrado na Fencia, em Adulis ou em Tacazz, e a seguir nossa primeira
impresso, vendo no naos, como J. Pirenne, a "reproduo em pedra de um
naos processional" em que repousasse uma imagem de culto. Afora uns poucos
fragmentos encontrados em Halti, que poderiam provir de um monumento
semelhante, esse naos  nico no gnero. Embora nada de anlogo tenha
aparecido na Arbia do Sul  o que se poderia atribuir meramente ao estado
atual das pesquisas arqueolgicas no Imen , alguns elementos idnticos aos
do naos so observveis em achados arqueolgicos provenientes dessa regio.

18    CONTENSON, H. de. 1962. p. 82.
19    CONTENSON, H. de. 1962. p. 78; PIRENNE, J. 1967. p. 132.
A cultura pr-axumita                                                        361



    Os mesmos cascos de touro voltados para a frente e para trs podem ser
vistos numa moblia de pedra identificada por G. van Beek e numa estatueta
de Marib, em mrmore20. Os cabritos-monteses de chifres recurvados aparecem
frequentemente na regio de Sab (Marib, Haz), sempre deitados e muitas
vezes em mtopes superpostas e ainda na borda de uma estela chata, como a
que se descobriu recentemente em Matara21. Num altar de Marib, reaparecem
os cabritos associados a uma rvore estilizada, talvez comendo seus frutos. O
significado religioso desses animais, associados ou no a uma "rvore da vida",
parece no deixar margem a dvidas. Grohmann praticamente demonstrou
que o cabrito-monts simbolizava o deus lunar Almaqah, ao qual se consagrava
tambm o touro22.
    Quanto aos baixos-relevos laterais do naos, embora estejam mais prximos
da tcnica persa aquemnida do que das obras sul-arbicas at agora conhecidas,
aparentemente posteriores, existem paralelos entre as figuras neles representadas
e a ronde-bosse em bronze de Marib: cabelos, olhos, orelhas, tanga, sandlias23.
No h diferena no tratamento dos olhos, da boca, dos cabelos em relao 
estatueta de Halti. O nariz, que est faltando na estatueta, acentua, no naos,
os traos semticos da personagem maior, tipo ainda bastante comum no Tigre.
Essa figura  muito semelhante  do rei de Punt, encontrada em Deir el-Bahari:
a atitude decidida, o cabelo curto, a barba em ponta, o nariz aquilino, o cinto
atado atrs, o calo com uma aba pendente24.
    A interpretao da cena representada nesses baixos-relevos ainda  objeto de
discusses. Desde a primeira publicao, levantaram-se duas hipteses. Uma,
mais realista, associa a imagem maior a um servo que carrega um abanador ou
um estandarte e mais uma clava ou um mata-moscas na mo direita; a figura
que o precede seria uma criana, cujo sexo estaria determinado pela inscrio
do nome masculino RFS. A segunda hiptese, mais conforme s convenes
antigas, v na personagem maior uma divindade ou um ser humano poderoso
protegendo um ser inferior25. Adepto desse ltimo ponto de vista, A. Jamme
atribuiu o nome RFS  personagem maior, considerando-a uma divindade
portadora de um abanador e uma clava, a resguardar uma mulher grvida 


20   CONTENSON, H. de. 1962. p. 79.
21   CONTENSON, H. de. 1962. p. 80; ANFRAY, F. 1965. p. 59, pr. LXIII, 2.
22   GROHMANN, A. 1914-b. pp. 40, 56-67.
23   ALBRIGHT, F. P. 1958.
24   CONTENSON, H. de. 1962. pp. 82-3.
25   CONTENSON, H. de. 1962. p. 73.
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que no caso no seria outra seno a "mulher sentada" supostamente associada
ao "trono"26. Por sua vez, J. Pirenne conclui tratar-se de uma personagem
importante, "talvez mesmo um mukarrib ou chefe", chamada RFS, apresentando
 deusa (cuja esttua estaria colocada sobre o naos) as insgnias do poder: o
abanador ou guarda-sol e a clava. Precedendo-a, viria uma mulher corpulenta,
talvez sua prpria esposa (figura menor), oferecendo o basto27. Ainda que
essa explicao possa parecer, atualmente, a mais plausvel,  difcil admitir
que o nome RFS, dada a posio em que foi inscrito, se aplique  personagem
maior. Por outro lado, restaria explicar qual a associao entre a deusa-me e
os smbolos do deus lunar masculino.
    Entre as esculturas do perodo sul-arbico contam-se tambm as esfinges,
embora estas at hoje s tenham sido encontradas na Eritreia, com exceo
apenas de um pequeno fragmento, achado em Melazo28. A mais conservada
provm de Addi Gramaten, no nordeste de Kaskas: tem cabelos tranados,
como algumas cabeas de terracota de um perodo posterior, em Axum, e como
ainda hoje usam as mulheres do Tigre. Ostenta tambm um colar triplo 29,
detalhe observado em outras duas esfinges, com cara trabalhada a martelo, que
se projetam em relevo de uma placa de pedra encontrada em Matara30. Ainda
em Dibdib, ao sul de Matara, encontrou-se outra esfinge, bastante mutilada31. J.
Pirenne observa que estes lees de cabea humana nada tm em comum com os
grifos e as esfinges aladas de tradio fencia, produzidos na Arbia do Sul num
perodo posterior32. Sua origem encontra-se, talvez, nos prottipos egpcios ou
merotas, conforme j se sugeriu a respeito de uma cabea sul-arbica de cabelos
tranados e colar33.
    Uma categoria de objetos esculpidos em pedra muito bem representada
na Etipia do norte  a dos altares de incenso. A maioria deles  de um tipo
bem conhecido na Arbia do Sul: forma cbica com decorao arquitetnica,
geralmente sobre uma base piramidal. Destes, o mais belo exemplo  o de Addi
Galamo  segundo J. Pirenne, superior a todos os descobertos na Arbia do

26    JAMME, A. 1963. pp. 324-7. No se sabe ao certo em que o autor se baseia para afirmar que a mulher
      do lado direito est grvida, mas no a do esquerdo, j que as duas figuras so exatamente idnticas.
27    PIRENNE, J. 1967. p. 132.
28    LECLANT, J. 1959-b. p. 51, pr. XLII, a.
29    DAVICO, A. pp. 1-6.
30    ANFRAY, F. 1965. p. 59, pr. LXIII, 4.
31    CONTI-ROSSINI, C. 1928. p. 225, pr. XLIII, n. 128-9; FRANCHINI, V. pp. 5-16, fig. 7-8, II-I.
32    PIRENNE, J. 1965. pp. 1046-7.
33    GROHMANN, A. 1927. fig. 55.
A cultura pr-axumita                                                                             363



Sul. Achou-se uma srie desses altares em Gobochela, Melazo, vrios em Yeha,
alguns fragmentos em Matara, e outros em locais no identificados34. De todos
eles, porm, apenas dois, apesar de seus caracteres frustos, podem ser atribudos
ao perodo sul-arbico: um, o primeiro da Etipia explicitamente designado
como altar para queima de perfumes, mqtr, foi exumado em Matara35, e o outro
no muito distante dali, numa localidade chamada Zala Kesedmai. Este ltimo
distingue-se pelos baixos-relevos que ornamentam suas quatro faces: numa,
v-se o smbolo divino do disco e do crescente; na face oposta, uma "rvore da
vida" estilizada, que de certo modo lembra a de Halti; para ela esto voltados
os cabritos-monteses esculpidos nas outras duas faces36.
    Um grupo de quatro altares descobertos em Gobochela representa uma
variante at ento desconhecida: o altar de incenso de forma cilndrica sobre
um pedestal troncnico37. Sua decorao resume-se a um friso de tringulos e
ao smbolo divino sul-arbico: o crescente encimado pelo disco.
    Como na Arbia do Sul, junto a essas piras encontraram-se altares de libao,
reconhecidos pelas canaletas por onde se escoava o lquido das oferendas. Em
Yeha encontraram-se vrias plataformas, anlogas s de Hurreigha ou da regio
de Marib, cujo canal de escoamento reproduz a forma de um bucrnio. Numa
delas, reproduzia-se certamente a cabea de um animal, que no pde ser
identificado devido ao desgaste da pedra38. Outras ostentam belas inscries
em relevo e so ornamentadas com frisos de barras, como os queimadores de
incenso39. O nome que recebem localmente essas plataformas  mtryn, termo
no confirmado pelos achados da Arbia do Sul  foi tirado das inscries
existentes nos prprios objetos: no primeiro aqui citado, em um exemplar do
segundo grupo e em um altar indito, tambm para libaes, descoberto em
Matara. Deste mesmo stio provm espessas mesas de oferendas, anlogas  de
Yeha40. J o altar de Addi Gramaten aproxima-se muito mais do tipo elaborado,


34   Addi Galamo: CAQUOT, A. & DREWES, A. J. 1955. pp. 26-32, pr. IX-XI; Gobochela: LECLANT, J.
     1959-b. pp. 47-53; DREWES, A. J. 1959. pp. 90-7, pr. XXX, XXXI, XXXIV, XXXVIII; PIRENNE, J.
     1970. p. 119, pr. XXIV, b; Yeha: DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 58-9, pr. XVI; id. 1970.
     p. 62, pr. XIX; Matara: ANFRAY, F. & ANNEQUIN, G. 1965. pp. 59, 75, 89-91, pr. LXIII, 3, LXXI;
     Stios no-identificados: SCHNEIDER, R. 1961. p. 64, pr. XXXVIII, b.
35   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1967. pp. 89-91, pr. XLIII, 1-2.
36   ANFRAY, F. & ANNEQUIN, G. 1965. p. 76, pr. LXXIV.
37   LECLANT, J. 1959-b. pp. 48-9; DREWES, A. J. 1959. pp. 88, 89, 91, 94, pr. XXXV-XXXVII.
38   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 59-60, pr. XVI, b-e.
39   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 60-2, pr. XVIII, a-b.
40   ANFRAY, F. & ANNEQUIN, G. 1965. pp. 59, 75, 90, pr. LXXII, 1-3.
364                                                                               frica Antiga



com frisos de barras em degraus41. O de Fikya, perto de Kaskas, em formato
de bacia e ornado com esfinges e lees, lembra mais o estilo merota, na opinio
de J. Pirenne42.
    Alm de esculturas, tudo o que se descobriu em termos de vestgios materiais,
durante as escavaes, foi uma cermica ainda pouco conhecida. Algumas jarras
grandes, com asas e estrias rolias horizontais, bem como vasos em forma de
tulipa, encontrados em Yeha e Matara, foram atribudos a este perodo por F.
Anfray, que relacionou esse material ao coletado em Es Soba, poucos quilmetros
ao norte de Aden, que dataria do sculo VI antes da Era Crist43.
    Os documentos epigrficos que a paleografia permite situar no perodo mais
antigo so todos em caracteres sul-arbicos. A. J. Drewes, porm, divide-os em
dois grupos: ao primeiro pertencem as inscries de monumentos, em autntica
lngua sabeana com algumas particularidades locais; ao segundo, as inscries
rupestres, numa grafia que imita a do primeiro grupo mas transcreve uma lngua
semtica provavelmente apenas aparentada ao sabeano44. Pelo que se deduz das
pesquisas at hoje realizadas, a extenso geogrfica desse segundo grupo devia
limitar-se ao distrito de Acchele Guzai, na parte norte do planalto da Eritreia.
As inscries rupestres dessa regio, em que predominam os nomes prprios de
aspecto sul-arbico, trouxeram sobretudo informaes de ordem onomstica,
enquanto as dos monumentos do primeiro grupo contriburam mais para dar
uma ideia das crenas e da estrutura social da poca.
    Alm de termos designativos de objetos de culto, como incensrios ou
mesas de oferendas, esses textos citam um certo nmero de divindades que
vo constituir um panteo mais ou menos idntico ao do reino de Sab. A
lista mais completa que se conhece aparece num bloco reutilizado na igreja
de Enda Cerqos, em Melazo: "... Astar e Awbas e Almaqah e Dat-Himyan e
Dat-Ba'dan..."45.
    O nome Astar aparece em duas outras inscries: uma de Yeha e outra de
origem desconhecida46.  simplesmente a forma etipica de Athtar, deus estelar
tambm associado a Almaqah em trs textos votivos, um em Yeha e dois em


41    DAVICO, A. 1946. pp. 1-3.
42    DREWES, A. J. 1956. pp. 179-82, pr. I; ANFRAY, F. 1965. pp. 6-7, pr. 111.
43    ANFRAY, F. 1966. pp. 1-74; id. 1970. p. 58.
44    DREWES, A. J. 1962.
45    DREWES, A. J. 1959. p. 99; SCHNEIDER, R. 1961. pp. 61-2.
46    SCHNEIDER, R. 1961. p. 64-5 ( JE 671, grafia B1-B2); DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970.
      pp. 60-1.
A cultura pr-axumita                                                                        365



Matara47. Ainda em Matara, existe um altar dedicado a ShRQN, epteto do
mesmo deus, identificado ao planeta Vnus48.
    O segundo nome, Awbas,  o de uma divindade lunar s conhecida atravs de
duas inscries, em toda a Etipia, uma na esfinge e outra no altar de Dibdib49.
    Almaqah (ou Ilumquh, segundo A. Jamme), porm,  o deus lunar que parece
ter sido o mais venerado, tanto em Sab como na Etipia. Alm de seu nome
constar das inscries de Matara, Yeha e Enda Cerqos, j mencionadas, s
a ele so dedicados todos os textos de Gobochela, Melazo, o altar de Addi
Galamo e um altar de libaes em Yeha50. Foram-lhe consagrados tambm os
grandes santurios de Awwam e Bar'an, em Marib, e provavelmente o templo
de Yeha. Finalmente, so smbolos de Almaqah os cabritos de Matara, Yeha e
Halti, os cascos de touro esculpidos no naos de Halti e o touro de alabastro
de Gobochela51.
    As duas deusas Dat-Himyan e Dat-Ba'dan representam o culto solar;
correspondem, respectivamente, ao "sol de vero" e ao "sol de inverno". A
primeira  mencionada tambm no altar de libaes de Addi Gramaten, em
Yeha e em Fikya; a segunda, em inscries fragmentrias de Matara e Abba
Pantalewon, perto de Axum52.
    Outras divindades citadas nos altares de libaes de Yeha parecem
desempenhar papel secundrio. NRW, outro deus estelar correspondente ao sul-
-arbico Nawraw,  mencionado duas vezes, numa delas juntamente com Astar53.
No mesmo altar, aparece a inscrio YF'M que, segundo Littman, seria o nome
de outro deus. Outro altar  dedicado a SDQN e NSBTHW54. Finalmente, A.
Jamme considera tambm um nome de divindade a palavra inscrita no naos de
Halti: RFS.
    Uma religio assim to elaborada faz pensar num povo de organizao social
bastante complexa.
    De maneira geral, os textos das dedicatrias no fornecem mais do que a
filiao dos personagens; os de Gobochela, contudo, revelam que a populao se

47   DREWES, A. J. 1959. pp. 89-91; DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 58-9.
48   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1967. pp. 89-90.
49   CONTI-ROSSINI, C. 1928. p. 225, pr. XLIII, n. 128-9; FRANCHINI, V. 1954. pp. 5-16, fig. 7-8,
     11-14; DREWES, A. J. 1954. pp. 185-6.
50   DREWES, A. J. 1959. pp. 89-94, 97-9; DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 61-2.
51   HAILEMARIAN, G. 1955. p. 50, pr. XV; LECLANT, J. 1959-b. p. 51, pr. LI.
52   SCHNEIDER, R. 1965-a. p. 90.
53   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 61, 62.
54   DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 59-60.
366                                                                                 frica Antiga



organizava em cls. Quatro deles e mais um texto de Yeha mencionam "LHY,
do cl de GRB, da famlia [ou filho de] YQDM'L FQMM, de Marib". Em
algumas dedicatrias, o nome dessa personagem aparece junto com o de seu
irmo SBHHMW; na de Yeha, ele consagra a Astar e Almaqah os seus bens
terrenos e o seu filho Hyrmh55. GRB designa, com certeza, um grupo tnico
 assim como, muito provavelmente, YQDM'L e FQMM. As expresses "de
Marib" e "de Hadaqan", em dois textos de Matara56, parecem referir-se mais a
um topnimo do que a uma tribo; poderiam indicar localidades fundadas no
norte da Etipia por colonos sul-rabes, mas, segundo L. Ricci, essas expresses
significariam antes que tais grupos eram originrios da prpria Arbia57.
    Por outras inscries, especialmente as do altar de Addi Galamo e de um
bloco encontrado em Enda Cerqos, Melazo58, sabe-se alguma coisa sobre a
organizao poltica da Etipia do Norte durante o perodo sul-arbico. Devia
tratar-se de uma monarquia hereditria, pois que dois dinastas, RBH e seu filho
LMN, usam o mesmo ttulo: "rei SR'N da tribo de YG'D, mukarrib de D'iamat
e de Sab". O primeiro, RBH, citado no altar de Addi Galamo, acrescenta ao
seu nome: "descendente da tribo W'RN de Raydan". O segundo, mencionado
tambm no altar de origem desconhecida consagrado a Astar, pode ser o mesmo
LMN mencionado em dois textos de Matara. Trate-se do filho de SR'N ou
de um homnimo, num dos dois textos esse nome aparece juntamente com o
de um mukarrib sabeano, Sumu'alay59. A referncia explcita  tribo Waren de
Raydan demonstra a importncia, para esses reis, da descendncia sul-rabe. O
ttulo de mukarrib de D'iamat e de Sab pode explicar-se de diversos modos: a
primeira hiptese  que essas regies pertencessem  Arbia do Sul e que os seus
prncipes exercessem seu domnio tambm sobre o norte da Etipia; a segunda
 que fossem distritos africanos aos quais os colonos sul-rabes tivessem dado
os nomes de suas provncias natais; a terceira  que esses nomes tivessem uma
significao poltica e no territorial. A primeira dessas hipteses  altamente
improvvel; seria preciso pensar, como A. J. Drewes, que os dinastas exerciam
o poder de mukarrib de Sab sobre seus sditos sul-rabes ou de extrao sul-
-arbica. Os ttulos de "rei SR'N, da tribo de YG'D" poderiam ser interpretados


55    DREWES, A. J. 1959, pp. 89, 91, 97-9; DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 58-9.
56    SCHNEIDER, R. 1965-a. pp. 89-91.
57    RICCI, L. 1961. p. 133; DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. p. 59.
58    CAQUOT, A. & DREWES, A. J. 1955. pp. 26-33; SCHNEIDER, R. 1965-b, pp. 221-2.
59    SCHNEIDER, R. 1961. pp. 64-5; SCHNEIDER, R. 1965-a. p. 90; DREWES, A. J. & SCHNEIDER,
      R. 1967. pp. 89-91.
A cultura pr-axumita                                                            367



como "rei dos Tsar'ane, da tribo dos Ig'azyan", indicando que eles governavam
tambm a parte autctone da populao, e que provinham da tribo local de
YG'D (ou IGZ), em que A. J. Drewes v os ancestrais dos Gueze.
    Trs inscries fragmentrias, a de Abba Pantalewon, a do altar de Addi
Galamo e a do panteo de Enda Cerqos, aludem a um acontecimento histrico
que parece ter ocorrido durante o reinado de RBH: a tomada e o saque de
D'iamat, "sua parte oriental e sua parte ocidental, seus vermelhos e negros".
Infelizmente,  duvidosa ainda a identificao dessa regio e de seus agressores.
    Em suma, os testemunhos da arquitetura, das obras de arte, da epigrafia, bem
como os dados fornecidos pelos textos sobre as crenas religiosas e a organizao
social na Etipia do Norte indicam uma forte influncia sul-arbica nessa regio
durante os sculos V e IV antes da Era Crist. Conforme observa F. Anfray, essa
cultura predominantemente semtica emergiu aps vrios sculos de penetrao
silenciosa, sem dvida em consequncia de presses demogrficas e polticas que
ainda ignoramos: so "pequenos grupos de imigrantes que carregam consigo a
cultura sul-arbica"60. O mesmo pesquisador sugere que devem ter sido esses
colonos os primeiros a introduzir tcnicas agrcolas, especialmente o uso do
arado, e a construir as primeiras aldeias em pedra na Etipia.
    Os trabalhos de L. Ricci e A. J. Drewes do a impresso de que em alguns
centros predominou o elemento sul-arbico, desenvolvendo um embrio de
vida urbana ao redor de um santurio: foi o caso de Yeha, da regio de Melazo,
e talvez de Addi Galamo e de Matara. A base da cultura local, com certas
influncias nilticas, acha-se melhor representada na regio da Eritreia, pelos
stios de Acchele Guzai, Addi Gramaten e Dibdib.
    Em toda a parte setentrional do planalto etipico, porm, chegou a verificar-
-se uma unidade cultural de indiscutvel coerncia interna. Esse fato coincide,
certamente, com a subida ao poder de um grupo que se manteve como classe
dominante, mas  provvel que nunca venhamos a saber se esse grupo era
constitudo por descendentes de colonos sul-rabes ou se por autctones que
assimilaram a cultura sul-arbica, superior  sua, como se esta fosse a sua cultura
original. C. Conti-Rossini insistiu particularmente sobre a predominncia dos
aspectos sul-arbicos nessa primeira civilizao etipica. Reagindo contra essa
tendncia, J. Pirenne e F. Anfray valorizaram as caractersticas originais da cultura
etope, sntese de influncias diversas, que, se chega a inspirar-se em formas
sul-arbicas, mostra-se superior aos prprios modelos. A expresso "perodo


60   ANFRAY, F. 1967. pp. 49-50; id. 1968. pp. 353, 356.
368                                                                                  frica Antiga



etope-sabeano" definiria melhor o carter especfico dessa cultura. Entretanto,
como reconhece F. Anfray, a aparente superioridade das produes africanas pode
ser apenas uma impresso causada pela descontinuidade de que at hoje sofrem
as pesquisas arqueolgicas no Imen. Novas descobertas, tanto na Etipia e na
margem oriental do mar Vermelho como no antigo reino de Mroe, sem dvida
permitiro, um dia, conhecer melhor os processos de aculturao que devem
ter-se desenrolado na segunda metade do ltimo milnio antes da Era Crist.
O certo  que a Etipia j era ento um ponto de cruzamento de correntes
comerciais e influncias culturais.


      O perodo intermedirio
    Assim foi chamado o segundo perodo pr -axumita, cujos vestgios
arqueolgicos evidenciam j uma cultura local com assimilao de influncias
estrangeiras.
    Percebe-se ainda, sem dvida, elementos sul-arbicos, mas no se trata mais
de um influxo direto e, sim, de uma evoluo interna a partir de contribuies
anteriores, conforme observa F. Anfray. Inscries em grafia muito mais
rudimentar revelam que a lngua cada vez mais se afasta do dialeto sul-arbico
primitivo61. J no h meno aos mukarribs, mas um texto encontrado em
Kaskas faz referncia a um rei de nome sul-arbico: Waren Hayanat (W'RN
HYNT), descendente de Salamat62. V-se que existia ainda nesse tempo o cl
de GRB, de que se encontraram, em Gobochela (Melazo), testemunhos da
fase sul-arbica: no h mais referncias  sua ligao com Marib, mas um
membro desse cl oferece a Almaqah um altar de incenso do tipo cbico com
base piramidal63. Dedicada ao mesmo deus, encontrou-se uma rude estatueta
de touro, em xisto64. Entre os achados de Addi Gramaten, havia inscries
acrescentadas num perodo posterior: no altar, uma segunda dedicatria, a
Dat-Himyan; na esfinge, um nome: Wahab-Wadd. A documentao epigrfica
 completada por inscries em sul-arbico cursivo, como as de Der'a e de Zeban




61    RICCI, L. 1959. pp. 55-95; id. 1960. pp. 77-119; DREWES, A. J. 1962, passim.
62    DAE. pp. 62-3.
63    LECLANT, J. 1959-b. p. 47; DREWES, A. J. 1959. p. 92, pr. XXXII-XXXIII.
64    DREWES, A. J. 1959. pp. 95-7, pr. XXXIX-XL.
A cultura pr-axumita                                                                                  369




figura 13. 5 A Etipia no perodo pr-axumita intermedirio. Os pontos representam os stios arqueolgicos,
sendo os mais importantes grafados com maiscula. Os crculos indicam as cidades atuais. (Mapa fornecido
pelo autor.)
370                                                                                frica Antiga



Mororo, e pela laje inscrita de Tsehuf Emni, onde a lngua no  sul-arbica
nem etipica65.
    Em matria de arquitetura, pouco se encontrou alm das construes
religiosas da regio de Melazo. Uma delas, onde J. Leclant encontrou todos os
objetos de Gobochela, tanto os originais como os reutilizados,  uma construo
retangular orientada no sentido leste-oeste. Consiste num ptio fechado de
18,10 m por 7,30 m, no interior do qual uma esplanada leva a uma cela de 8,90
m por 6,75 m; esta se abre por uma porta no centro da face ocidental, sendo
a face oriental ocupada por um banco sobre o qual se encontravam os objetos
consagrados66.
    A esttua e o naos de Halti achavam-se num corredor entre dois prdios
muito danificados, orientados de leste para oeste67. S nessa direo  possvel
conhecer ao certo suas dimenses: 11 m para o edifcio norte e 10,5 m para
o edifcio sul. Cada um deles tem, na face oriental, uma pequena escada,
provavelmente situada no centro da construo, o que nos daria a dimenso
norte-sul: 13 m para o edifcio norte e 11 m para o edifcio sul. Cada escada
dava acesso a um terrao, sendo difcil saber se este era coberto ou no.  volta
toda do terrao corria um banco estreito, s interrompido junto  escada, sobre
o qual estavam colocados ex-votos em cermica e metal. A maioria dos objetos
votivos em terra cota eram figuras de animais  geralmente estilizados, mas s
vezes bastante naturais: bovdeos, alguns com cangas em miniatura; animais de
carga com seus fardos, quadrpedes estranhos, com a lngua pendente, javalis,
leopardos, galinhas-d'angola. Acharam-se tambm bandejas para ablues,
modelos de casas, algumas mulheres sentadas e, junto s escadas, esfinges de
terracota68.
    Alm de serem todas orientadas segundo os pontos cardeais, as construes
desse perodo tm outro aspecto em comum: j no so feitas de calcrio, mas de
granito azul ou xisto local. Esta ser, mais tarde, uma caracterstica da arquitetura
axumita, mas j est presente nas construes da Eritreia, no perodo 2 de
Matara, e nas runas ainda virgens de Fikya, que parecem pertencer igualmente
 fase intermediria69.



65    CONTI-ROSSINI, C. 1947. p. 12, pr. 11-111; DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1970. pp. 66-7.
66    LECLANT, J. 1959-b. pp. 44, 45, pr. XXIII-XXVI.
67    CONTENSON, H. de. 1963-b. pp. 41-2, pr. XXVI-XXIX.
68    CONTENSON, H. de. 1963-b. pp. 43-4, pr. XXXV-XL.
69    ANFRAY, F. 1965. pp. 6-7, pr. III, pp. 59, 61, 72, 74.
A cultura pr-axumita                                                                              371



    Tpica desse perodo  ainda a acumulao de objetos em depsitos
subterrneos, seja nos tmulos em forma de poo de Yeha e Matara, seja nas
fossas de Sabea e Halti70. Deve-se notar que, de trs fossas esvaziadas em Sabea,
cujo nome parece evocar a Arbia do Sul, duas parecem ter a mesma forma que
os tmulos em poo construdos na mesma poca, a julgar pela descrio de J.
Leclant.
    Nesses depsitos, bem como na colina de Halti, ao redor dos santurios,
encontraram-se objetos de metal em grande quantidade, especialmente
importantes por sugerirem um considervel desenvolvimento da metalurgia
local a partir do sculo III antes da Era Crist.
    Foi provavelmente durante essa fase que se iniciou a fabricao dos
instrumentos de ferro: alm de vrios fragmentos de objetos desse metal
colocados em redor dos templos de Halti, encontraram -se anis, tesouras,
espadas e punhais em Yeha, e uma espada e anis em Matara.
    Muito mais abundantes, porm, so os objetos de bronze, talvez por esse
metal resistir melhor  corroso. Em Sabea, descobriu-se certa quantidade de
grossos anis abertos, de seco retangular; um objeto do mesmo tipo jazia sobre
o banco de um santurio de Halti. Talvez servissem de braceletes ou ornato
para os tornozelos,  moda merota, mas no  impossvel que fossem utilizados
tambm como moedas71. J os anis encontrados em Yeha e Matara eram mais
leves: poderiam servir como pulseiras ou brincos.
    Em matria de instrumentos, havia vrios com gume largo, que talvez fossem
utilizados para trabalhar a madeira: machados (Halti e Yeha), enxs curvos com
encaixe (Yeha e Sabea); a estes se podem acrescentar os instrumentos de Mai
Mafalu, na Eritreia72. Em Yeha, acharam-se ainda buris retos, bem como buris
curvos, cujo modo de utilizao no ficou bem esclarecido. Em Yeha, Halti e
Gobochela, surgiram foices rebitadas, que sugerem trabalhos agrcolas. No que
diz respeito a armas, encontraram-se: em Halti, uma acha ou alabarda em
forma de crescente, e dois punhais rebitados; em Matara, duas facas  uma com
rebites e outra com punho e boto em forma de crescente.
    Os tmulos de Yeha continham tambm panelas, pratos de balana e uma
sineta; no cume da colina de Halti recolheram-se pedaos de recipientes. Em


70   Yeha: ANFRAY, F. 1963. pp. 171-92, pr. CXIV-CLVI; Matara: ANFRAY, F. 1967. pp. 33-42, pr. IX-XVII,
     XXX-XXXIV, XLII; CONTENSON, H. de. 1969. pp. 162-3; Sabea: LECLANT, J. & MIQUEL, A. 1959.
     pp. 109-14, pr. LI-LXIII; Halti: CONTENSON, H. de. 1963-b. pp. 48-51, pr. XLIX-LX.
71 TUFNELL, O. 1959. pp. 37-54.
72   CONTI-ROSSINI, C. 1928.
372                                                                            frica Antiga



Halti, Yeha e Matara, acharam-se agulhas e alfinetes; em Sabea, Halti e Yeha,
pequenas contas de bronze.
   Uma ltima categoria de objetos de bronze reflete a tradio sul-arbica:
pequenas placas perfuradas, a que se chama de "marcas de identidade"73. Essas
placas, segundo A. J. Drewes e R. Schneider, so de dois tipos. O primeiro
consiste em objetos pequenos e finos, de forma geomtrica, dotados de um
anel de preenso e desenhos simtricos, onde s vezes  possvel reconhecer
monogramas ou letras isoladas. A esta srie pertencem os achados em Sabea e
Halti, e a maior parte dos de Yeha. O segundo tipo corresponde a uma srie
de objetos encontrados apenas em Yeha: maiores e mais espessos, seu formato
representa um animal estilizado (touro, cabrito-monts, leo, pssaro). Trazem
nomes prprios escritos em sul-arbico cursivo, que parecem revelar tambm
uma lngua intermediria entre o sabeano e o gueze. Desses nomes, o que se
pode ler com mais clareza  W'RN HYWT  justamente o do rei mencionado
em Kaskas ( interessante observar que figuraes anlogas aparecem tanto em
inscries rupestres como em cacos de cermica desenterrados em Halti  no
gravados, mas em relevo). Excetuando-se alguns objetos de bronze da Arbia do
Sul, at hoje no se encontrou nada semelhante a essas placas, fora da Etipia.
    Esses objetos revelam uma tcnica to avanada que parece cabvel aceitar a
sugesto de F. Anfray, atribuindo aos artfices etopes do perodo intermedirio
outros objetos de bronze, como um par de cascos de touro em miniatura,
encontrado perto dos santurios de Halti, ou a vigorosa figura de touro de
Mahabere Dyogwe74, que seria ainda um testemunho do culto a Almaqah. Disso
conclui Anfray, muito judiciosamente, que no devem ser anteriores  poca
axumita as representaes de gado com corcova encontradas, por exemplo, em
Matara, Zeban Kutur ou Addi Galamo, sendo que neste ltimo stio elas seriam
contemporneas dos altares trpodes de alabastro e do cetro de bronze de Gadar.
   O ouro era empregado em joias, como os anis encontrados em Yeha, e os
brincos, anis, contas e fios enrolados de Halti. Mas em todos os stios do
perodo, acharam-se tambm inmeros fragmentos de colares coloridos feitos
de massa de vidro (frita), ou mesmo de pedra, como os descobertos em Sabea
e Matara.
   Ainda em pedra, podemos citar os pequenos incensrios de arenito, de forma
retangular ou discoide, de Yeha, Matara e Halti: um sinete de Sabea, um vaso
de alabastro e um anel entalhado, de serpentina, achado em Yeha.

73    DREWES, A. J. & SCHNEIDER, R. 1967. pp. 92-6, pr. XLIV.
74    CONTENSON, H. de. 1961. pp. 21-2, pr. XXII; ANFRAY, F. 1967. pp. 44-6.
A cultura pr-axumita                    373




figura 13.6 Touro em bronze,
Mahabere Dyogwe.
Figuras 13.7 13.8 e 13.9 Marcas
de identidade em bronze de Yeha, em
forma de pssaro, de leo e de cabrito
monts. (Fotos: Instituto Etope de
Arqueologia. )
374                                                                                       frica Antiga



   O depsito de Halti continha, finalmente, dois amuletos de faiana,
representando um Ptah-patec e uma cabea de Htor; nas camadas inferiores
achou-se um amuleto de cornalina representando um Harpcrates.
   Entre os achados de Addi Galamo, havia quatro vasilhas de bronze, entre as
quais uma tigela decorativa, finamente gravada com desenhos de rs e flores de
ltus. Havia tambm um fragmento de vaso, tendo uma fila de gado trabalhada
em relevo. O maior interesse desses objetos reside na sua origem merota  o que
vem confirmar as relaes existentes entre a Etipia antiga e o vale do Nilo75.
   Manifesta-se ainda a influncia merota em algumas cermicas caractersticas
do perodo intermedirio76. Nunca mais, depois disso, se revelou na Etipia tanta
variedade e elegncia de formas. Usava-se argila, tanto preta como vermelha, do
tipo micceo; as superfcies eram geralmente vidradas. Os desenhos geomtricos,
quase sempre incisos, aparecem s vezes pintados, em branco e vermelho; h
casos, tambm, em que os ornamentos incisos so preenchidos com uma pasta,
em geral branca, mas ocasionalmente vermelha ou azul. Ao material retirado
das fossas acrescentam-se a farta documentao, em grande parte indita, obtida
no alto da colina de Halti, nas camadas mais profundas de Yeha e Matara e,
provavelmente, a cermica mais antiga de Adulis.
   Se, por um lado, os ex-votos de Halti sugerem que a base da economia era
essencialmente agrcola e pastoril, por outro lado os progressos na metalurgia do
ouro, do ferro e do bronze, a fabricao em srie de objetos de pedra ou de massa
de vidro, a refinada arte da cermica atestam o desenvolvimento do artesanato
especializado. Ao que tudo indica, um processo de urbanizao estava em curso
em alguns centros fundados no perodo sul-arbico, como Melazo, Matara e
Yeha, ou mais recentes, como Adulis. Embora se conserve ainda a lembrana
das tradies sul-arbicas, um novo impulso parece vir do reino de Mroe, que
teve um papel primordial na difuso das tcnicas metalrgicas na frica.
    bem possvel que, com o declnio de Mroe e o enfraquecimento dos reinos
da Arbia do Sul, os etopes passassem a controlar todo o comrcio de ouro,
incenso, marfim e produtos trazidos do oceano ndico, condio sem dvida
favorvel  criao do reino axumita, no sculo II da Era Crist.



75    CONTENSON, H. de. 1963. p. 48, pr. XLIX, b, c; KIRWAN, L. P. 1960. p. 172; LECLANT, J. 1961.
      p. 392; LECLANT, J. 1962. pp. 295-8, pr. IX-X.
76    PARIBENI, R. 1908. pp. 446-51; LECLANT, J. & MIQUEL, A. 1959. pp. 109-14, pr. LI-LXIII;
      CONTENSON, H. de. 1963. pp. 44, 49-50, pr. XLI, LIII, b, LX; ANFRAY, F. 1963, pp. 190-1, pr.
      CXXVIII-CXLV; ANFRAY, F. 1968. pp. 13-15, pr. XLVII-L, fig. 1, 2, II; ANFRAY, F. 1967. p. 42, pr.
      XXX-XXXIX, XLII.
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                          375



                                       CAPTULO 14


                     A civilizao de Axum do
                      sculo I ao sculo VII
                                                  F. Anfray




    Segundo as fontes primrias, a histria do reino de Axum alongou-se por
aproximadamente um milnio, a partir do sculo I da Era Crist. Nela se
registram alguns acontecimentos de relevo, como as trs intervenes armadas
na Arbia do Sul no decorrer dos sculos III, IV e VI, uma expedio a Mroe
no sculo IV e, na primeira metade deste ltimo, a introduo do cristianismo.
    Vinte reis, conhecidos em sua maioria apenas pelas moedas que emitiram,
sucederam-se no trono de Axum. Os mais famosos foram Ezana e Caleb. A
tradio conservou os nomes de outros monarcas, mas nesse caso, infelizmente,
no dispomos de base segura. O rei mais antigo de que se tem registro 
Zoscales, mencionado num texto grego do fim do sculo I, porm ainda no
sabemos com segurana se seu nome corresponde ao de Za-Hekale, citado nas
listas tradicionais de reis.
    Nosso conhecimento da civilizao axumita deriva de fontes vrias, entre as
quais se incluem passagens de autores antigos, desde Plnio, que menciona Adulis,
at os cronistas rabes, como Ibn Hischa, Ibn Hischam e Ibn Hawkal. No geral,
porm, esses fragmentos so um tanto vagos, e o essencial da documentao 
fornecido pela epigrafia local e pelo material arqueolgico que se foi reunindo
com o passar dos anos. As inscries, pouco numerosas, comearam a ser
coletadas no sculo XIX. Os textos de Ezana, gravados em pedra, figuram entre
os mais importantes. A descoberta de outras inscries de Ezana, de Caleb e de
376                                                                     frica Antiga



um de seus filhos (Wazeba), em grego, ges e pseudo-sabeano, proporcionou
mltiplas informaes, a que se juntaram os testemunhos recolhidos nos ltimos
vinte anos, representados sobretudo pelas inscries rupestres e pelos textos em
placas de xisto encontrados na Eritreia. Tais inscries remontam ao sculo II
da Era Crist; so os escritos mais antigos do perodo axumita.
    A observao arqueolgica e o produto das escavaes constituem sem dvida
a principal fonte documentria a respeito da civilizao axumita. A partir do
sculo XIX, viajantes comeam a registrar a existncia de stios, monumentos
e inscries. Publicaram-se inmeros estudos, alguns do maior interesse 
como, por exemplo, a obra fartamente documentada da misso alem para
Axum (1906). Criado em 1952, o Instituto Etope de Arqueologia deu incio
a trabalhos sistemticos. Diversos stios foram objeto de pesquisas exaustivas,
caso de Axum, Melazo, Halti, Yeha e Matara. Ao mesmo tempo, o mapa de
povoamentos antigos cresceu consideravelmente. Sabe-se hoje da existncia de
aproximadamente quarenta stios importantes, nmero que por certo crescer
com a realizao de novas prospeces. Estas, no entanto, so ainda insuficientes,
donde a precariedade do nosso atual conhecimento. A datao da maioria dos
vestgios descobertos no  precisa, sendo as inscries praticamente as nicas
evidncias que nos permitem esboar um quadro cronolgico, mesmo assim nem
sempre definitivo. Os dados disponveis no so suficientes sequer para se traar
as linhas mais gerais da civilizao axumita.


      A rea de Axum
   Segundo as indicaes arqueolgicas, o reino axumita ocupava uma superfcie
retangular de aproximadamente 300 km de comprimento e 160 km de largura,
entre 13 e 17 de latitude norte e 30 e 40 de longitude leste, estendendo-se da
regio ao norte de Keren at Alaki, ao sul, e de Adulis, na costa, s cercanias de
Taqqase, a oeste. Situado a uns 30 km de Axum, Addi-Dahno  praticamente
o ltimo stio conhecido desse local.


      Perodo proto-axumita
   O nome de Axum surge pela primeira vez no guia naval e comercial Periplus
Maris Erythraei (Priplo do Mar da Eritreia), compilado no final do sculo I por um
negociante egpcio. Ptolomeu, o Gegrafo, no sculo II, tambm alude ao territrio.
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                               377



    O Periplus fornece informaes sobre Adulis, hoje coberta de areia, situada
a cerca de 50 km ao sul de Massaua. Descreve-a como "uma grande aldeia a
trs dias de viagem de Kolo, cidade do interior e principal mercado de marfim.
Desse lugar  cidade do povo chamado axumita so mais cinco dias de viagem.
Para l  levado todo o marfim da terra situada alm do Nilo, atravs da regio
denominada Cyenum, e da para Adulis". Era essa aldeia, portanto, a via de
escoamento de mercadorias para Axum, notadamente do marfim. O mesmo
texto informa que ali tambm se vendiam chifres de rinocerontes, carapaas
de tartaruga e obsidiana, artigos que figuram entre as exportaes assinaladas
por Plnio, j antes do autor do Periplus, a propsito do comrcio de Adulis.
Por conseguinte, a referncia ao nome de Adulis  anterior  referncia ao de
Axum. Segundo Plnio, Adulis localiza-se na terra dos trogloditas: "Maximum
hic emporium Troglodytarum, etiam Aethiopum ...". Desde o sculo I, portanto,
romanos e gregos sabiam da existncia dos axumitas e de suas "cidades" na
hinterlndia de Adulis.
    Poucas so as informaes fornecidas pela arqueologia acerca da cultura
material dos primeiros sculos do perodo. Algumas inscries dos sculos II
e III constituem praticamente os nicos testemunhos datveis, apresentando,
apesar de pouco numerosas e lacnicas, algumas notveis particularidades. Nelas
esto registradas as primeiras formas do alfabeto etope, cujo uso se mantm
ainda hoje. Essas inscries no so certamente as mais antigas dentre as
encontradas na regio axumita, pois que muitas outras, de tipo sul-arbico,
remontam  segunda metade do ltimo milnio antes da Era Crist. A escrita
sul-arbica serviu de modelo  etope. No sculo II da Era Crist, a grafia etope
passou por notvel evoluo, separando-se da sul-arbica.
    Alm da escrita, tem-se como certa a existncia de outros vestgios dos
primeiros sculos, como runas de edifcios, restos de cermica e de outros
objetos, mas o atual estgio das pesquisas ainda no permite identific-los.
Vrios monumentos do sculo III ou do incio do IV, como as estelas de Matara
e de Anza, mostram que a civilizao axumita no rompeu inteiramente com a
cultura do perodo pr-axumita. Neles se pode observar, gravado ou em relevo,
o smbolo lunar de um disco sobre um crescente, semelhante ao encontrado nos
incensrios do sculo V antes da Era Crist, que figura tambm nas moedas.
Uma escrita parecida com a sul-arbica ainda pode ser vista nas grandes pedras
de Ezana e Caleb. Observam-se, entretanto, importantes transformaes: a
religio se alterou, como mostram as inscries; j no se invocam os antigos
deuses e,  exceo do smbolo lunar, todos os demais emblemas so abandonados
 bode, leo, esfinge, etc. Foi por essa poca que principiou uma nova forma de
378                                                                               frica Antiga




figura 14.1   Fotografia area de Axum. (Foto Instituto Etope de Arqueologia.)



civilizao, muito diferente da anterior, conhecida como pr-axumita. O mesmo
fenmeno ocorre no tocante a outros aspectos da vida cultural, como se pode
verificar nos stios escavados.


      Stios axumitas
   Assentados nas duas extremidades da rota antiga, segundo o Periplus, os stios
de Adulis e Axum so os mais importantes e tambm os nicos cujo nome original,
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                               379



confirmado nos textos e inscries, se conservou nas respectivas localidades at
nossos dias. Adulis  um stio deserto, mas os habitantes das aldeias vizinhas
ainda chamam Azuli s suas runas. Todos os outros stios antigos, ou pelo menos
a maioria deles, so designados por nomes que decerto no correspondem aos
da antiguidade axumita. Concentram-se principalmente na regio oriental, de
Aratou, ao norte, a Nazret, ao sul, e incluem Tokonda, Matara, Etch-Mare e
Kohaito  provavelmente Kolo (ver mapa no Captulo 16).

    Axum
    A cidade de Axum e o reino do mesmo nome gozavam de slida reputao
no sculo III da Era Crist, a crer num texto da poca atribudo a Mani, que
descreve o reino como o "terceiro no mundo". Na prpria cidade, com efeito,
grandes monumentos e numerosos testemunhos materiais preservam a memria
de um perodo histrico de grande importncia. Diversos elementos nos fazem
entrever um passado glorioso: estelas gigantescas  dentre elas, o mais alto
monlito entalhado , uma enorme mesa de pedra, bases de trono macias,
fragmentos de colunas, sepulturas reais, vestgios de construes aparentemente
imensas debaixo de uma baslica do sculo XVIII e, enfim, as lendas e tradies.
    No princpio deste sculo, uma misso alem fez um levantamento grfico
e fotogrfico de todos os monumentos visveis, descobrindo, na zona oriental
da cidade, as runas de trs conjuntos arquitetnicos, identificados com muita
propriedade como vestgios de palcios. Trabalhos arqueolgicos subsequentes,
em especial os do Instituto de Arqueologia, trouxeram  luz novos monumentos
e reuniram vasta documentao referente  antiga cidade real.
    Dos trs edifcios conhecidos, segundo a tradio, como Enda-Simon, Enda-
-Michael e Taakha Maryam, apenas os alicerces subsistiram, e hoje s podem ser
vistos nos desenhos e fotos da misso alem. O maior desses palcios ou castelos,
Enda-Simon, media 35 m2; Enda-Michael tinha 27 m2, e Taakha Maryam, 24
m2. Ptios e construes anexas circundavam os castelos, formando conjuntos
retangulares que chegavam a medir em Taaka Maryam, por exemplo, 120 m de
comprimento por 85 m de largura, aproximadamente.
    Sob a igreja de Maryam-Tsion encontram-se as runas de outro edifcio
imponente. Abaixo do nvel do terrao, a leste da construo, ainda se conservam
os vestgios do alicerce, com 30 m de largura e 42 m da extremidade ao centro.
    Na parte ocidental da cidade, uma misso do Instituto Etope de Arqueologia
descobriu e estudou, de 1966 a 1968, os restos de outro conjunto arquitetnico.
As runas, localizadas em Dongour, ao norte da estrada de Gondar, pertencem
a outro castelo, construdo por volta do sculo VII.
380                                                                        frica Antiga



    No terreno em declive havia um outeiro arredondado, com a parte superior
plana. Conta uma tradio local que esse amontoado de terra e pedras recobria
o tmulo da rainha de Sab. Os vestgios a descoberto do castelo ocupam uma
rea de cerca de 3000 m2; os muros formam um quadriltero irregular, com um
dos lados medindo 57 m de comprimento e o outro, meio metro a menos. No
centro das runas, os muros ainda tm 5 m de altura.
    Quatro grupos irregulares de edifcios, compreendendo ao todo cerca de
quarenta aposentos, dispem-se na forma de um quadrado ao redor do corpo
principal do castelo. Construdo sobre uma base em degraus, com 1,80 m de altura,
este pavilho central consta de sete salas, s quais trs escadas externas do acesso.
Trs ptios separam o pavilho de suas dependncias, e os muros externos incluem
partes salientes e reentrantes, alternadamente. Pilares macios de alvenaria, aos
grupos de dois ou quatro, enterrados sob vrios cmodos do edifcio principal e das
habitaes secundrias, serviam de base a pilares de pedra ou, mais provavelmente,
a vigas de madeira, que sustentavam estruturas superiores. Nos vestbulos do
pavilho central, amplas bases de pedra cobertas por pavimento geomtrico
exerciam a mesma funo. Certas caractersticas na disposio das partes nordeste
e sudoeste do stio sugerem que nesses pontos as escadas conduziam a um andar
superior, onde ficava a principal rea de habitao.
    Descobriram-se trs fornos de tijolo cozido na parte oeste do stio enquanto
ao sul, numa sala das construes contguas, uma estrutura de tijolos chamuscados
parece ter funcionado como dispositivo de aquecimento.
    O stio de Dongour constitui o mais belo exemplo conhecido da arquitetura
axumita. Em vista de sua situao perifrica e de suas dimenses relativamente
modestas, Dongour no parece ter servido de residncia real. O mais provvel
 que fosse habitada por algum cidado importante.
    Outro edifcio notvel erguia-se numa colina a nordeste de Axum. A tradio
atribui essa construo a Caleb e seu filho Guebre Meskel. Duas espcies de
capelas foram erigidas sobre criptas compostas de vrias abbadas e cobertas
por lajes de pedra. H cinco abbadas na cripta de Guebre Meskel, ao sul,
e trs na de Caleb, ao norte. A parte superior da construo  relativamente
recente e apresenta sinais de frequentes alteraes. H motivos para crer que
as criptas so mais antigas e que as abbadas foram reutilizadas em meados do
sculo VII ou VIII. Na escada do tmulo de Caleb, grandes blocos poligonais
de pedra evocam certos monumentos da Sria do norte, dos sculos II e III. O
monumento era rodeado por vasta necrpole, e recentemente se descobriram
nos arredores vrios tmulos em forma de poo. Mais distantes, a leste, existem
ainda outras sepulturas.
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                               381



   Em Bazen, a leste da cidade, tmulos tipo forno esto escavados na rocha,
no flanco das colinas. Alguns deles dispem de um poo e abbadas no fundo,
em ambos os lados. Um tmulo mltiplo com escada de dezessete degraus,
tambm escavada na rocha, encontra-se no mesmo setor, ocupado por uma
estela, que antigamente no estaria isolada, porquanto um viajante ingls,
no comeo do sculo XIX, afirma ter visto nesse local catorze "obeliscos"
derrudos.
   A antiga cidade ocupava o espao entre as estelas gigantes e o monumento
de Dongour, rea em que se acham enterradas suas runas. O afloramento de
paredes aqui e ali evidencia a existncia de construes axumitas, e, to logo se
torne possvel dar incio a escavaes arqueolgicas nos lugares tradicionalmente
denominados Addi-Kilt e Tchaanadoug, um longo perodo do passado de
Axum dever se revelar.

    Adulis
    So raros os vestgios de superfcie nesse stio, localizado a uns 4 km
em direo ao interior. As pedras, a areia e a vegetao recobrem uma vasta
extenso de runas, que ocupam um retngulo de aproximadamente 500 m de
comprimento por 400 m de largura, conforme se deduz dos elementos visveis.
Em alguns lugares, montculos de entulho assinalam os trabalhos executados
por vrias expedies arqueolgicas. Ao norte, o solo apresenta-se recoberto por
fragmentos de pilares e grande profuso de cacos de cermica. Em 1868, uma
fora expedicionria inglesa desembarcou nas proximidades e exumou alguns
vestgios de construes. Dos trabalhos realizados pouco restou, a no ser os
muros descobertos pela misso de Paribeni, em 1906, e os vestgios encontrados
pela misso do Instituto Etope de Arqueologia, em 1961-2.
    No incio de 1906, o sueco Sundstrm descobriu uma edificao de grandes
propores no setor norte. Pouco depois, Paribeni escavou duas runas menores,
a leste e a oeste. Todas as runas consistem em alicerces em degraus e redentes
de estruturas retangulares, circundados por construes contguas. Sundstrm
denominou "palcio" ao monumento que descobriu, formado por um vasto
conjunto de 38 m de comprimento e 22 m de largura, abrangendo uma rea
mais extensa que a do castelo de Axum, Enda-Simon, cujo pavilho central
media 35 m de comprimento. Sobre o embasamento, quatro fileiras de pilares
dividem a construo em seis partes, trs no sentido do comprimento e trs no
da largura. Trata-se de uma planta de baslica, a sugerir, no um palcio, mas um
santurio cristo.
382                                                                      frica Antiga



    O embasamento descoberto por Paribeni a oeste desse monumento ostenta
as mesmas caractersticas arquitetnicas, medindo aproximadamente 18,50 m
de comprimento. A parte superior era coberta por um pavimento, guardando
vestgios dos pilares de uma nave. Na extremidade oriental, uma abside
semicircular entre duas salas mostra que as runas pertenciam a uma baslica.
O nvel inferior do edifcio fazia parte de uma construo mais antiga, que o
arquelogo italiano chamou de "Altar do Sol".  luz de outras constataes,
podemos hoje consider-la como restos de um edifcio, provavelmente religioso,
pertencente a uma poca anterior  da baslica sobre ele construda.
    A leste do monumento descoberto por Sundstrm, Paribeni encontrou a base
de outra igreja, de 25 m de comprimento, com traos de uma abside semicircular.
O edifcio apresentava duas particularidades notveis: a presena de uma pia
batismal no aposento situado ao sul da abside e, no centro, os vestgios de oito
pilares dispostos em forma octogonal. Desse modo combinavam-se no mesmo
edifcio os planos retangular e quadrado.

      Matara
    No planalto da Eritreia, a 135 km ao sul de Asmara, nos arredores de Senafe,
encontra-se um dos stios arqueolgicos mais antigos da Etipia  Matara. Suas
camadas mais profundas pertencem a uma importante construo do perodo
sul-arbico.
    De 1959 a 1970 o Instituto de Arqueologia efetuou escavaes sistemticas
nesse stio, mas muito trabalho ainda est por ser feito. Os nveis pr-axumitas
foram apenas sondados, principalmente devido  existncia de numerosas
estruturas arquitetnicas na parte superior. O nvel axumita foi escavado
aproximadamente at a metade, revelando quatro grandes vilas, trs igrejas
crists e um quarteiro de habitaes comuns com cerca de trinta casas. As
quatro vilas esto construdas segundo o tipo ento habitual: uma residncia
principal, edificada sobre uma base em degraus e circundada por dependncias
externas. Como algures, as pilastras de alvenaria enterradas sob os aposentos do
edifcio principal serviam de base para as vigas que sustentavam os vestbulos.
As escadarias das entradas principais deviam ser protegidas por alpendres; nos
cantos das escadas existem cavidades que poderiam ter servido para sustentar
os pilares de madeira dos alpendres.
    As casas comuns compreendem dois ou trs aposentos, com paredes de 70 cm
de largura, em mdia. Vestgios de lareiras, fornos de barro e numerosos recipientes
permitiram localizar os solos de habitao.
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                                  383



    Um outro tipo de casa, de tamanho intermedirio em relao s vilas e s
moradias comuns, apresenta certos traos do edifcio central das vilas: desenho
semelhante e escadas externas.  de supor que essa tipologia arquitetnica reflita
uma hierarquia social.
    Ao sul e a leste da cidade, os edifcios religiosos, em seu aspecto exterior, mal
se distinguem das demais estruturas: compem-se de um edifcio central cercado
por ptios e dependncias e tm idntico modo de edificao. Um dos edifcios
 uma espcie de capela funerria parecida com o tmulo de Caleb, em Axum,
conquanto de propores menores. Essa capela, com 15 m de comprimento e
10 m de largura, est construda sobre uma cripta a que se tem acesso por uma
escada de catorze degraus.
    A leste, outra igreja  a terceira, de baixo para cima, de uma superposio de
runas de quatro edificaes  tinha uma nave central separada das naves laterais
por duas fileiras de quatro pilares, cujas bases ainda subsistem. No eixo da nave,
orientada na mesma direo em todos os edifcios desse tipo, uma abside ocupa
o espao entre duas salas. Os muros externos do monumento medem 22,40 m
de comprimento e 13,50 m de largura. Num cmodo situado a leste da igreja,
atrs da abside, descobriu-se uma pia batismal onde a gua era lanada por uma
srie de nforas embutidas umas nas outras, de modo a formar um canal, que se
estendia at o muro exterior.
    Havia uma outra igreja, relativamente pequena, na colina de Goual-Saim,
ao sul do stio de Matara. A maior parte de suas paredes foi destruda, mal se
lhes podendo distinguir o desenho. Contudo, ainda subsistem vestgios de um
pavimento de xisto e de bases de pilares.

    Kohaito
   Situado ao norte de Matara, a uma altitude de 2600 m, o stio de Kohaito
apresenta runas de grande interesse arquitetnico. Cerca de dez montes,
disseminados por uma extensa rea, conservam os vestgios de importantes
construes do final do perodo axumita e, ao que tudo indica, de runas
mais antigas. Ainda hoje os arquelogos deparam com inmeros pilares ao
longo dessas colinas, os quais, segundo se supe, pertenceriam em sua maioria
a igrejas de propores semelhantes s de Matara. Os muros encontrados
nesses outeiros apresentam traos das obras de alvenaria axumita e obedecem
ao mesmo padro retangular observado nos demais stios desse perodo. Sete
desses conjuntos arquitetnicos so facilmente distinguveis; alm dos edifcios
em runas, descobriu-se a noroeste uma barragem de pedras, construda com
384                                                                                          frica Antiga




figura 14.2   Leoa esculpida na parte lateral de uma rocha, perodo axumita.
Figura 14.3   Matara: alicerce de um edifcio axumita. (Fotos Instituto Etope de Arqueologia.)
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                                385



blocos ajustados com perfeio em fileiras regulares, destinada a represar a gua
proveniente da regio sudeste de uma bacia natural denominada "bacia de Safra".
A barragem atinge 67 m de comprimento e uma altura de aproximadamente
3 m em sua parte central, onde dois conjuntos de pedras salientes formam
degraus que ligam o alto da barragem ao nvel da gua.
   A leste, um tmulo em forma de poo escavado na rocha contm duas cmaras
ou criptas funerrias. Um de seus lados  decorado por uma cruz esculpida de
tipo axumita. Num desfiladeiro prximo ao stio h uma rocha pintada e gravada
com figuras representando bois, camelos e outros animais.


    Cidades e mercados
    As grandes povoaes, incluindo as localidades j mencionadas e outras mais,
formavam comunidades densas e compactas, cujas habitaes se agrupavam
estreitamente ao redor de grandes edifcios com variadas funes. As escavaes
realizadas em Axum, Adulis e Matara mostraram que essas localidades
constituam verdadeiros centros urbanos. No quarteiro popular de Matara
existe uma pequena rua sinuosa. Semelhantes indcios sugerem a existncia de
uma populao relativamente numerosa, cujas atividades no se limitavam 
agricultura. A presena de moedas ajuda-nos a compreender o desenvolvimento
da economia, a exemplo dos diversos tipos de objetos a descobertos, como
vidros e nforas mediterrneas. Por sua vez, as obras de arte (uma lmpada de
bronze, vrios artefatos de couro) indicam um certo luxo.
     necessrio ressaltar que a maioria das construes visveis ou reveladas
pelas escavaes pertence ao perodo axumita mais recente. Entretanto, existem
vestgios mais antigos, embora nem sempre datados com preciso, sobre os quais
se erigiram as edificaes do ltimo perodo, o que indica certas semelhanas
entre as duas pocas. Como ficou dito atrs, o autor do Periplus, no sculo I,
descreve Kolo como uma "cidade do interior" e "principal mercado de marfim", e
designa Adulis como um centro comercial que obtm marfim da "cidade do povo
chamado axumita", onde teve incio a coleta da mercadoria. H, portanto, razes
para identificar Adulis como outra cidade comercial, o mesmo sucedendo com
os demais centros urbanos (Aratou, Tokonda, Etch-Mar, Degoum, Haghero-
-Deragoueh, Henzat, etc.). No se sabe ao certo se o comrcio era praticado
dentro dessas cidades. O mais provvel  que ele se efetuasse na periferia, pois as
cidades antigas no eram cercadas de muralhas. No entanto, ainda no dispomos
de evidncia para resolver esta questo.
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      A arquitetura axumita  caractersticas gerais
   As principais caractersticas da arquitetura axumita so o emprego da pedra,
a planta quadrada ou retangular, a alternncia sistemtica de partes salientes
ou recuadas, os alicerces em degraus que sustentam grandes edificaes e
uma alvenaria que se serve apenas da argila como argamassa. Junte-se a isso
uma caracterstica surpreendente: os traos arquitetnicos se reproduzem
praticamente em todos os lugares. J se observou que as mesmas frmulas se
aplicam a todos os principais edifcios, religiosos ou no. As construes so
edificadas sobre as mesmas bases em degraus, e o acesso se d por escadas
monumentais, geralmente de sete degraus. Todos os edifcios so circundados
por dependncias, que deles se separam por pequenos ptios.
   Pode-se afirmar com segurana que os castelos e vilas incluam pelo menos
um pavimento acima do rs do cho, o qual, por sua altura, bem poderia chamar-
-se primeiro andar. Dada a exiguidade das dependncias do primeiro andar,
obstrudo por pilares e vigas,  provvel que a parte habitada da casa ficasse
num andar superior. Uma questo que se apresenta  a de saber se os grandes
castelos de Axum tinham vrios pavimentos. No comeo do sculo, o arquiteto
da misso alem tentou, num esboo, reconstituir o monumento de Enda-
-Michael. O desenho mostra torres de quatro andares nos ngulos do pavilho
central. Como quase nada subsistiu do edifcio (hoje mais arruinado do que
em 1906), no  fcil concluir da plausibilidade dessa tentativa. Mas, a julgar
pelas obras de alvenaria mostradas em fotografias e desenhos e exemplificadas
em outras construes  muros pouco espessos, feitos de pedras ligadas por
simples argamassa de argila e, portanto, de frgil contextura ,  de duvidar
que Enda-Michael ou os demais castelos tivessem mais de dois andares. Pode
ser que alguns castelos mais slidos contassem com trs pavimentos, o que 
bastante improvvel; supor mais de trs seria um despropsito. No sculo VI,
Cosmas Indicopleustes, em sua Topografia Crist, afirma ter visto na Etipia
(posto no especifique Axum,  provvel que tenha estado l) uma "residncia
real com quatro torres". Demasiado sucinta, a observao no alude  posio
das torres, mas assinala a presena de construes elevadas, e isto  o que
importa.
   Os axumitas incluam a madeira entre os materiais de construo,
empregando-a nas molduras das portas e janelas e em certos pontos das paredes,
especialmente nos cantos das salas, onde se introduziam vigas de madeira na
alvenaria para refor-la. As traves que sustentavam os assoalhos dos aposentos
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                              387



superiores ou os tetos, provavelmente planos, eram igualmente de madeira. As
estelas esculpidas que mostram as extremidades das vigas do uma imagem fiel
dos mtodos de construo da poca.
    Outro costume consistia em executar as bases das grandes construes com a
maior solidez possvel, o que se conseguia colocando-se grandes blocos de pedra
talhada nos cantos ou em longas fileiras no topo. Muitos desses blocos ainda
podem ser vistos nas edificaes do perodo axumita mais recente, sendo que
alguns deles foram utilizados em construes anteriores.  fora de dvida que
os construtores do primeiro perodo axumita, particularmente nos sculos III e
IV, nutriam especial predileo pelos grandes blocos de pedra. Isso  ilustrado
de maneira notvel pelas estelas e pela gigantesca laje colocada  sua frente.


    Monumentos monolticos
    As estelas de Axum so dos mais variados tipos. Muitas delas no passam de
grandes pedras desbastadas, como as de Goudit, no setor sul do stio de Dongour.
Espalhadas pelo campo, no deixam dvida quanto  funo que exerciam
na Antiguidade, qual seja a de marcar o local das sepulturas. Outras estelas
apresentam as faces lisas e o topo em forma de arco, atingindo por vezes 20 m de
altura. Podem ser encontradas em vrios lugares, embora sejam mais frequentes
nas proximidades do grupo das estelas gigantes. Estas ltimas, em nmero de
sete, sobressaem por ostentar entalhes decorativos. Delas, apenas uma permanece
de p  as demais jazem pelo cho, quebradas. A stima foi levada para Roma e,
em 1937, erigida perto do teatro de Caracala, onde se encontra at hoje.
    Os entalhes imitam construes de vrios andares. A mais alta das estelas,
com 33 m, representa nove andares superpostos em uma de suas faces. Portas,
janelas, pontas de vigas foram esculpidos com perfeio na pedra dura. O
significado dessa arquitetura imaginria  totalmente desconhecido. No h,
por assim dizer, termo de comparao entre essa obra e aquelas encontradas
em outras partes. Uma das estelas apresenta lanas esculpidas no fronto; outra,
que no pertence  categoria das estelas arquiteturais, ostenta uma espcie
de escudo  mas ser mesmo um escudo?  sob o que parece ser um teto de
inclinao dupla. As cavidades ou antes pregos de metal serviam para a fixao
de emblemas, hoje desaparecidos. Por isso no sabemos o que eram ou mesmo se
foram acrescentados posteriormente. O mais provvel  que esses monumentos
constituam cipos funerrios, mas no podemos afirmar se eram dedicados a
alguma divindade ou se celebravam a existncia de algum vulto importante. O
388                                                                  frica Antiga



simbolismo da decorao nos coloca diante de um quadro de total incerteza. As
diferentes dimenses das estelas correspondem provavelmente a uma hierarquia
de status social.
    A incerteza tambm prevalece com relao ao significado da enorme laje de
pedra defronte das grandes estelas, colocada, ao menos originariamente, sobre
grossos pilares. Suas dimenses (comprimento: cerca de 17 m; largura: 6,50 m;
espessura: 1,30 m), desafiam a imaginao do observador que porventura tente
calcular a soma de energia necessria ao deslocamento da laje por uma distncia
que se avalia em centenas de metros. No sabemos de onde se extraam esses
blocos. Existe uma antiga oficina de talhar perto de uma alta colina a oeste
de Axum, onde comeou a ser desbastado um grande bloco de cerca de 27 m
de comprimento. Mas no se pode afianar que a enorme laje ou as estelas
esculpidas vieram desse lugar, situado a uns 2 km do stio em questo. Mesmo
sem levar em conta o problema do transporte, o simples fato de se terem erigido
as pedras sugere a existncia de uma poderosa organizao coletiva.
    Em Matara e Anza, no planalto ocidental, existem duas estelas com o topo
em forma de arco e medindo aproximadamente 5 m de altura. Elas apresentam
duas particularidades: um crescente, smbolo da religio sul-arbica, e uma
inscrio em ges. Tais inscries tm um significado comemorativo, o que j 
certo pelo menos com relao  estela de Matara. Fatores paleogrficos indicam
que elas pertencem ao sculo III ou ao princpio do IV. A execuo desses
monlitos  a mesma das estelas lisas de Axum.
    Ainda em Axum, nota-se a presena de monlitos de outro tipo, dispersos
por vrios lugares. Trata-se de grandes plataformas de pedra, doze das quais
se acham enfileiradas na rea ocupada pelas estelas gigantes, perto da baslica
de Maryam-Tsion. Eram provavelmente bases de tronos. Algumas tm mais
de 2,50 m de comprimento e uma espessura mdia de 40 a 50 cm. A parte
central da superfcie superior forma uma salincia notada de cavidades, onde se
encaixariam os ps de um assento. Uma dessas bases encontrava-se outrora no
stio de Matara. At o presente, foram registrados 27 monlitos.
    Esses tronos, de grande importncia na cultura axumita, so mencionados
em duas inscries de Ezana. No sculo VI, Cosmas aludiu  existncia de um
trono perto de uma estela em Adulis. "O trono tem uma base quadrada". " feito
de excelente mrmore branco" e "inteiramente... talhado num nico bloco de
pedra". Tanto o trono como a estela apresentavam-se "cobertos com caracteres
gregos". A inscrio do trono foi executada por ordem de um soberano axumita
que governou por volta do sculo III No se conhece ao certo o significado
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                               389



desses monumentos. Seriam tronos comemorativos de vitrias? Plpitos votivos?
Smbolos do poder real? So to enigmticos quanto as grandes estelas.
    O grupo encontrado perto de Maryam-Tsion est disposto de tal forma
que todos os tronos ficam de frente para o leste, na mesma direo que as faces
entalhadas das estelas. Se for esse o arranjo original,  de supor que estivessem
voltados para um templo que na poca, provavelmente, se situava no stio da
atual igreja, onde existem muitas runas.
    As prprias inscries esto gravadas na pedra dura, um tipo de granito. Um
dos textos de Ezana, em trs escritas diferentes  etope, sul-arbica e grega ,
est gravado nos dois lados de uma pedra de mais de 2 m.
    Essa predileo pelos monumentos de vastas propores parece ter
prevalecido tambm no caso das esttuas. No incio do sculo, descobriu-se
em Axum uma pedra lisa, com pegadas de 92 cm. Essa pedra fora utilizada
como suporte de uma esttua, provavelmente de metal. As inscries de Ezana
informam que ele erigiu esttuas em honra da divindade, e num dos textos
se l o seguinte: "Em sinal de reconhecimento quele que nos criou, Ares, o
invicto, erigimos esttuas  Sua glria, uma de ouro, outra de prata e trs de
bronze". Ainda no se conseguiu recuperar nenhuma esttua axumita, mas as
investigaes arqueolgicas esto longe de ter-se encerrado. Descobriram-se
poucas representaes de animais, em pedra ou em metal. Cosmas afirma ter
visto "quatro esttuas de bronze" representando unicrnios (rinocerontes, sem
dvida) "no palcio real".


    A cermica
    Os stios axumitas oferecem grande quantidade de vasos em terracota, uns
quebrados, outros intactos. Trata-se, em essncia, de uma cermica utilitria, em
terracota vermelha e preta, com largo predomnio da primeira. Em inmeros
potes, o acabamento da face exterior  feito em cores opacas. Muitos so polidos
com pedra, enquanto outros apresentam-se revestidos de vermelho. No h
evidncias a indicar o uso do torno.
    Os vasos tm diversos tamanhos, variando de minsculos copos a vasilhas de
80 cm de altura. Os jarros, vasos, cntaros, gamelas, bacias e taas nem sempre se
apresentam decorados. Quando isso acontece, a decorao consiste geralmente
em desenhos geomtricos gravados, pintados, modelados ou estampados. Em
sua maioria, os padres so simples: grinaldas, ziguezagues, crculos agrupados,
xadrez, espirais, barras, etc. Raramente aparecem temas naturalistas: espigas
390                                                                                          frica Antiga




figura 14.4   Base de um trono.
Figura 14.5   Matara: inscrio do sculo II da Era Crist. (Fotos Instituto Etope de Arqueologia.)
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                              391



de milho, pssaros e serpentes modelados. Certas decoraes tm significado
simblico bvio, como os braos moldados nas bordas dos vasos. A cruz crist
aparece repetidas vezes nas bordas, nos lados ou no fundo dos vasos.
    H diferena entre as cermicas procedentes do leste e do oeste do planalto.
Na regio de Axum, observa-se um tipo de vaso com incises lineares nos lados,
modalidade muito rara no planalto oriental.  de Matara uma vasilha com
salincia e nervuras sob a borda, tipo de cermica ausente na regio de Axum;
aqui, porm, existe um jarro com gargalo em forma de cabea humana de que
at agora no se encontrou paralelo.
    Os trabalhos em curso permitem classificar os grupos de cermica em sries
cronolgicas. Contudo, ainda  necessrio aguardar o desenrolar das escavaes
para se poder chegar a dataes um pouco mais precisas.
    Na camada axumita de todos os stios descobriu-se tambm cermica
importada, principalmente jarros com asas e lados com nervuras. Essas nforas,
muito numerosas em Adulis, so de origem mediterrnica. No raro eram usadas
como urnas funerrias para bebs, como se verificou em Adulis, Matara e Axum.
No se encontrou nenhum trao dessas nforas nos nveis pr-axumitas. Na
camada axumita, descobriram-se tambm vrios fragmentos de frascos, garrafas
e copos de vidro, assim como vasos azuis vitrificados do fim do perodo axumita,
a maioria deles importada do oceano ndico (geralmente so desenterrados em
fragmentos). Pequenos copos com aspecto de terra sigillata eram provavelmente
importados do Egito.
    A abundncia de cermica nos stios faz supor um grande consumo de
madeira. A paisagem devia ser muito mais arborizada, portanto, na Antiguidade
do que hoje em dia.


    Alguns objetos especiais
    As pesquisas arqueolgicas trouxeram  luz vrios objetos: selos moldados em
pedra ou em terracota, gravados com motivos geomtricos ou perfis de animais;
pequenas ferramentas feitas de metais diversos; dados de terracota; fragmentos
de lminas; estatuetas de animais; estatuetas femininas semelhantes s figuras
da fertilidade da Pr-Histria, etc.
    Dentre os objetos, meno especial deve ser feita a uma lmpada de bronze
e a um tesouro descoberto durante as escavaes de Matara. A primeira consiste
num vaso oval que repousa sobre um suporte imitando uma colunata de palmeiras
estilizadas. Na parte de cima do vaso, o motivo em ronde-bosse representa um
392                                                                    frica Antiga



cachorro com coleira na caa a um bode. No dorso est modelado um bucrnio
em gracioso relevo. A lmpada fica a 41 cm de altura, tendo o vaso 31 cm de
comprimento. A julgar por seu simbolismo  provavelmente um ritual de caa,
hiptese reforada pela presena do bucrnio , a lmpada deve ser originria
da Arbia do Sul, onde se descobriram objetos anlogos.
   O tesouro foi encontrado no interior de um vaso de bronze de 18 cm e
consiste em duas cruzes, trs correntes, um broche, sessenta e oito pingentes,
sessenta e quatro contas de colar, catorze moedas de imperadores romanos dos
sculos II e III (principalmente dos Antoninos) e duas placas decorativas. Todos
os artefatos so de ouro e apresentam notvel estado de conservao. Segundo
o lugar onde foram encontrados, esses objetos devem ter sido agrupados em
meados do sculo VII (as moedas, no caso, no constituem critrio de datao,
porquanto,  exceo de uma nica, todas possuem argolas, a indicar seu emprego
como joias).
   Os nveis axumitas revelam por vezes inscries sul-arbicas e fragmentos de
incensrios do sculo V antes da Era Crist. As pedras, geralmente quebradas,
foram reutilizadas por construtores axumitas. Observam-se ainda objetos
importados do Egito e da Nbia ou, como em Halti, estatuetas em terracota
que, segundo Henri de Contenson, o explorador do stio, "parecem guardar
uma relao com as encontradas na ndia nos perodos Mathura e Gupta".
Contenson informa, ainda, que "os dois primeiros sculos da Era Crist foram
exatamente o perodo de apogeu dos contatos comerciais entre a ndia e o
Mediterrneo, por via do mar Vermelho".


      A Numismtica
   As moedas axumitas revestem especial importncia. Com efeito, somente
graas a elas  que ficamos conhecendo os nomes dos dezoito reis de Axum.
   Descobriram-se milhares de moedas, sobretudo nos campos arados ao redor
de Axum, em especial durante a estao chuvosa, quando a gua revolve o solo.
A maioria  de bronze, com tamanho varivel entre 8 e 22 mm. Em geral as
moedas trazem o busto dos reis, com ou sem coroa. Apenas um est representado
num trono, de perfil. Seus smbolos so variados: os dos primeiros reis (Endybis,
Aphilas, Ousanas I, Wazeba, Ezana) ostentam o disco e o crescente. Aps a
converso de Ezana ao cristianismo, todas as moedas retratam a cruz no centro
de uma das faces ou entre as letras da legenda inscrita  sua volta. Em alguns
casos o busto do rei  enquadrado por duas espigas de milho curvadas, noutros
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII          393




figura 14.6    Gargalo de jarro.
figura 14.7    Incensrio de estilo alexandrino.
figura 14.8 Presa de elefante. (Fotos Instituto Etope
de Arqueologia.)
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por uma espiga reta no centro, como sucede nas moedas de Aphilas e Ezana.
As espigas de milho so talvez emblemas de algum poder ligado  fertilidade
da terra.
    As legendas esto inscritas em grego ou etope, nunca em sul-arbico. O
grego aparece nas moedas mais antigas, e somente a partir de Wazeba  que
se comea a empregar o etope. As palavras da legenda variam: "Pela graa de
Deus", "Sade e felicidade para o povo", "Paz para o povo", "Ele triunfar atravs
de Cristo", etc. E, naturalmente, o nome do rei se faz acompanhar do respectivo
ttulo: "Rei dos axumitas" ou "Rei de Axum".
    Como as moedas no apresentam datas, formularam-se vrias hipteses
objetivando classific-las. O tipo mais antigo  provavelmente do reinado
de Endybis  no remonta alm do sculo III, ao passo que o mais recente,
ostentando o nome de Hataza, data do sculo VIII.


      A escrita e a lngua dos axumitas
    O mais antigo alfabeto usado na Etipia, desde o sculo V antes da Era
Crist, pertence ao tipo sul-arbico. A lngua por ele transcrita assemelha-se
aos dialetos semitas da Arbia meridional.
    A escrita axumita difere da sul-arbica, no obstante derivar dela.
    Os primeiros testemunhos da escrita etope propriamente dita datam do
sculo II da Era Crist e apresentam uma forma consonntica. Os caracteres
conservam ainda um aspecto sul-arbico, mas evoluem progressivamente para
formas particulares. Varivel a princpio, a direo da grafia acabou se fixando,
indo da esquerda para a direita. As primeiras inscries esto gravadas em placas
de xisto; so pouco numerosas e encerram poucas palavras. A mais antiga foi
descoberta em Matara, na Eritreia. Uma inscrio gravada em objeto de metal,
datada do sculo III, menciona o rei Gadara, e pela primeira vez o nome de
Axum aparece num texto etope. Outras inscries esto gravadas em pedra. As
grandes inscries do rei Ezana so do sculo IV, e com elas surge o silabismo,
que logo se tornar regra na escrita etope. Os signos voclicos integram-se no
sistema consonntico, indicando os diversos timbres da lngua falada.
    Essa lngua revelada pelas inscries  conhecida como ges, pertencendo ao
grupo meridional da famlia semita.  a lngua dos axumitas.
    Durante o perodo axumita, utilizavam-se as escritas sul-arbica e grega,
conquanto de forma limitada. A escrita sul-arbica ainda pode ser encontrada
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                                 395



no sculo VI, nas inscries de Caleb e de um de seus filhos, Wazeba. Por volta
do sculo V, a bblia foi traduzida para o ges.


    O progresso da civilizao axumita
    Cinco sculos antes da Era Crist, uma forma particular de civilizao,
marcada por influncias sul-arbicas, estabeleceu-se no planalto etope do norte.
Essencialmente agrcola, teve sua poca de prosperidade nos sculos V e IV
antes da Era Crist e entrou em declnio no decorrer dos sculos seguintes,
pelo menos a julgar pela atual indigncia de documentao arqueolgica. Mas a
cultura no desapareceu, e algumas de suas caractersticas foram preservadas na
civilizao axumita. Certos traos da lngua e da escrita, um emblema religioso,
o nome de uma divindade (Astar aparece ainda numa inscrio de Ezana), as
tradies arquitetnicas e agrcolas (provavelmente, entre outras, o uso do arado)
mostram que nos primeiros sculos da Era Crist uma antiga herana ainda
permanecia. Igualmente digno de nota  que a maior parte dos estabelecimentos
axumitas, sobretudo no planalto oriental, ocupa os mesmos stios do perodo
pr-axumita, o que indica uma espcie de continuidade.
    Os testemunhos arqueolgicos dos primeiros sculos da Era Crist, no
entanto, revelam muitos aspectos novos. Embora a escrita usada derive da sul-
-arbica, a grafia das inscries denota uma mudana importante. A religio
tambm se modifica.  exceo de Astar, os nomes das antigas divindades
desapareceram e foram substitudos, nos textos de Ezana, pelos da trade
Mahrem, Beher e Meder. A arquitetura, posto continue a caracterizar-se pelo
emprego de pedra e madeira e pela base em degraus dos edifcios, apresenta
vrios traos novos. A cermica  muito diferente em sua manufatura, forma
e decorao. Em todos os stios encontram-se tambm cermicas importadas
e vidros.  nesse perodo que o nome de Axum aparece pela primeira vez na
Histria, e no deixa de ser significativo o fato de no ter o stio, aparentemente,
nenhum passado aprecivel antes do sculo I.


    Fatores econmicos
   Durante o perodo axumita, como nos sculos anteriores, a agricultura e
a criao de animais constituram a base da vida econmica. Entretanto, o
desenvolvimento axumita assumiu um aspecto caracterstico, provavelmente
em decorrncia de dois fatores.
396                                                                    frica Antiga



    Todas as fontes antigas indicam que, no decorrer dos dois primeiros sculos,
o trfico martimo no mar Vermelho se intensificou, o que se pode atribuir 
expanso romana nessa regio, favorecida pelo progresso da navegao.  sabido
que os mtodos de navegao se aperfeioaram a partir do incio do sculo I. O
piloto Hipalo demonstrou que os marinheiros poderiam tirar partido da correta
utilizao dos ventos, e isso sem dvida deu novo impulso ao trfego martimo.
Estrabo assinala que "todos os anos, no tempo de Augusto, cento e vinte navios
partiam de Myos Hormos".
    Multiplicavam-se as relaes comerciais, as embarcaes traziam mercadorias
e possibilitavam o comrcio com a ndia e o mundo mediterrnico. Adulis era
o ponto de encontro para o trfico martimo, assim como  e este  o segundo
fator  para o comrcio terrestre. No interior, avultava o comrcio de um valioso
artigo, o marfim. Alis, Plnio e o autor do Periplus pem esse produto  to
indispensvel ao luxo romano  em primeiro lugar na lista de exportaes de
Adulis. Axum era o grande centro coletor de marfim, procedente de vrias
regies. J na poca dos Ptolomeus, o elefante da Etipia era muito valorizado,
sendo utilizado pelos exrcitos como um tipo de carro de assalto. Mais tarde
passou a ser caado por suas presas. Quando os autores da Antiguidade falam
de Adulis, de Axum ou da Etipia (frica oriental), nunca deixam de salientar
o elefante e seu marfim. Mencionam tambm outras mercadorias, como peles de
hipoptamo, chifres de rinoceronte, carapaas de tartaruga, escravos e temperos;
o elefante, porm,  objeto de especial interesse. De acordo com o Periplus, os
elefantes viviam no interior, a exemplo dos rinocerontes, mas por vezes eram
caados "na prpria costa, perto de Adulis". No reinado de Justiniano, Nonnosus
visitou Axum e no caminho avistou uma manada de 5 mil elefantes. Cosmas
observa que h "uma grande quantidade de elefantes com longas presas; da
Etipia as presas so expedidas por barcos para a ndia, a Prsia, a terra dos
Himiaritas e a Romnia" (Topografia Crist, XI, 33). Em 1962, a misso do
Instituto Etope de Arqueologia descobriu uma presa de elefante nas runas
axumitas de Adulis, e em 1967 os fragmentos de uma estatueta de elefante em
terracota nos muros do castelo de Dongour.


      As razes africanas
   A civilizao de Axum desenvolveu-se no decorrer dos primeiros sculos
da Era Crist, mas suas razes fincam-se na Pr-Histria. Seus prenncios
podem ser observados nos cinco sculos que precedem o incio da Era Crist. A
A civilizao de Axum do sculo I ao sculo VII                               397



arqueologia vem tentando definir-lhe os traos caractersticos, mas por enquanto
apenas uns poucos aspectos foram investigados, e a catalogao dos dados
relativos  Antiguidade est por demais incompleta. A tarefa principal consiste
em determinar o que procede das influncias externas e o que  realmente
indgena. Como outras civilizaes, a axumita  produto de um processo
evolutivo secundado pelas condies geogrficas e pelas circunstncias histricas.
A contribuio indgena  de grande relevo, visto no haver dvida de que a
civilizao axumita , antes de tudo, produto de um povo cuja identidade tnica
se vem manifestando progressivamente a partir do estudo de suas inscries,
linguagem e tradies. Aos poucos a pesquisa arqueolgica vai descobrindo a
singularidade das conquistas materiais de Axum. Ainda h muito a ser feito, e
os trabalhos vindouros devero concentrar-se na interpretao dos testemunhos
escavados, mas j sabemos que foi a raiz africana que deu  civilizao de Axum
sua fisionomia particular.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura    399



                                        CAPTULO 15


           Axum do sculo I ao sculo IV:
         economia, sistema poltico e cultura
                                          Y. M. Kobishanov




   As fontes histricas dos sculos II e III registram a rpida ascenso de
uma nova potncia africana: Axum. A primeira referncia aos axumitas como
povos etopes, datada da metade do sculo II aproximadamente,  de Cludio
Ptolomeu, que, embora ignorasse a existncia de Axum, conhecera as cidades de
Mroe e Adulis. Uma outra fonte  a obra Aethiopica de Heliodoro, autor greco-
-fencio do sculo III, que relata a chegada de embaixadores axumitas a Mroe,
os quais se apresentam ao rei no como sditos e tributrios, mas como amigos
e aliados, detalhe que nos permite entrever a situao no nordeste da frica
quela poca. O Periplus Maris Erythraei (Priplo do Mar da Eritreia), onde se
encontram dados sobre diferentes perodos entre pouco antes de 105 da Era
Crist at o sculo III, refere a "metrpole dos assim chamados axumitas" como
uma cidade pouco conhecida, e a fundao do reino de Zoscales (sem dvida,
Za-Hecale, da lista de reis axumitas) como muito recente. O reino de Zoscales
estendia-se por toda a costa eritreana do mar Vermelho, enquanto o deserto
beja ficava sob o domnio de Mroe. Esse equilbrio entre as duas potncias  a
antiga metrpole dos merotas e a nova metrpole dos axumitas   evocado pela
obra de Heliodoro. O Periplus no faz referncia  expanso axumita em direo
 Arbia do Sul. As primeiras fontes a mencion-la so as inscries sabeanas
do fim do sculo II e incio do sculo III, onde se relata que os "abissnios"
ou axumitas se acham em guerra com o Imen, ocupando uma parte do seu
400                                                                                            frica Antiga



territrio. Ao que parece, entre 183 e 213, o rei axumita Gadara e seu filho foram
os soberanos mais poderosos da Arbia meridional e os verdadeiros lderes da
coalizo anti-sabeana. No fim do sculo III e incio do sculo IV, "Azbah, rei de
Axum, tambm combateu na Arbia do Sul"1. Os reis axumitas, mesmo depois
da unificao do pas pelos himiaritas, ainda se reivindicavam soberanos desses
povos, como se pode observar por seus ttulos.
    Duas inscries gregas feitas pelos reis de Axum, cujos nomes e perodo
de reinado ignoramos, tambm relatam as guerras na Arbia meridional; a
mais longa dessas inscries foi copiada na metade do sculo VI por Cosmas
Indicopleustes. Seu autor conquistou as regies costeiras do Imen "at o pas
dos sabeus" e vastos territrios na frica, "das fronteiras do Egito"  terra do
incenso, na Somlia2.
    Por volta de 270, a fama do novo Estado j chegara  Prsia. O Kephalaia do
profeta Mani (216-76) descreve Axum como um dos quatro maiores imprios
do mundo.
    De quais recursos e de que tipo de organizao dispunha Axum para obter
tais sucessos?


      Ocupaes
   A grande maioria dos axumitas dedicava-se  agricultura e  criao de
animais, levando uma vida praticamente idntica  dos atuais camponeses
do Tigre. Nas encostas montanhosas construam terraos para a agricultura,
que eram irrigados pela gua canalizada das torrentes. Nos contrafortes das
montanhas e nas plancies, faziam cisternas e barragens para armazenar a gua
da chuva, cavando canais de irrigao. As inscries indicam que cultivavam
o trigo3 e outros cereais; conheciam tambm a viticultura e utilizavam arados
puxados por bois. Possuam numeroso rebanho de bois, carneiros e cabras,
alm de asnos e mulas. Como os merotas, aprenderam a caar e a domesticar



1     As principais inscries encontram-se no Corpus Inscriptionum Semiticarum ab Academiae Inscriptionum...
      Pars quarta. 1889-1929; JAMME, A. 1962; RYCKMANS, G. 1955; id. 1956. Para algumas observaes
      sobre as inscries ver RYCKMANS, G. 1964. Para um relato dos eventos ver tambm WISSMANN,
      H. von. 1964. Para a cronologia ver LOUNDINE, A. G. & RYCKMANS, G. 1964.
2     WINSTEDT, E. O. 1909. pp. 74-7.
3     DEUTSCHE AKSUM EXPEDITION, n. 4 :21; DAE, n. 6: 10; DAE, n. 7: 12; LITTMANN, E.
      1910-5; DREWES, A. J. 1962. p. 30 et seq.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura                   401



elefantes, que eram reservados ao uso exclusivo da corte real4. De acordo com
as inscries, os axumitas alimentavam-se de bolos de trigo, cerveja, vinho,
hidromel, mel, carne, manteiga e leo vegetal5.
    Os ofcios e ocupaes dos ferreiros e outros artesos metalrgicos, dos
oleiros, pedreiros, canteiros e escultores, entre outros, revelam um nvel muito
alto de destreza e senso artstico. A inovao tcnica mais importante foi a
utilizao de instrumentos de ferro, cuja expanso, j ento bem maior que no
I milnio antes da Era Crist, iria inevitavelmente influir no desenvolvimento
da agricultura, do comrcio e da arte militar. Outra inovao foi o uso, em
alvenaria, de uma argamassa que facilitava a cimentao e que iria permitir o
desenvolvimento de um tipo de construo  base de pedra e madeira.


    Estrutura poltica
    Axum parece ter sido, inicialmente, um principado que com o tempo veio
a tornar-se a primeira provncia de um reino "feudal". A seus governantes a
histria imps vrias tarefas, das quais a mais urgente era afirmar sua hegemonia
sobre os Estados segmentrios da Etipia setentrional, e uni-los em um s
reino. O sucesso dependia do poder do soberano de Axum e da sobrepujana
de sua fora em relao  dos demais prncipes da antiga Etipia. Por vezes um
monarca, ao ascender ao trono, via-se obrigado a inaugurar seu reinado com
uma campanha militar por todo o pas para obter dos principados ao menos
uma submisso formal. Ezana, por exemplo, logo no incio de seu reinado teve
de empreender tal campanha embora, antes dele, outro monarca axumita cujo
nome no chegou at ns, mas que nos deixou o Monumentum Adulitanum, a
tivesse realizado6.
    A fundao do reino serviu de base para a edificao de um imprio. Do fim
do sculo II ao incio do sculo IV, Axum tomou parte nas lutas diplomticas
e militares que opunham os Estados da Arbia meridional. Os axumitas
submeteram as regies situadas entre o planalto do Tigre e o vale do Nilo. No
sculo IV, conquistaram o reino de Mroe, ento em decadncia.
    Desse modo foi se construindo um imprio, que abarcava as ricas terras
cultivadas do norte da Etipia, o Sudo e a Arbia meridional, incluindo todos


4    DINDORFF, L. A. 1831. pp. 457-8; WINSTEDT, E. O. 1909. p. 324.
5    DAE, n. 4 :13-21; DAE, n. 6 :7-11; DAE, n. 7 :9-13; DREWES, A. J. 1962. p. 73.
6    WINSTEDT, E. O. 1909. pp. 72-7; DAE, n. 8; DAE, n. 9.
402                                       frica Antiga




figura 15.1   Mapa da expanso axumita.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura                                    403



os povos que ocupavam as regies situadas ao sul dos limites do Imprio Romano
 entre o Saara, a oeste, e o deserto de Rub al-Khali, no centro da Arbia, a leste.
    O Estado se dividia entre Axum propriamente dito e seus "reinos vassalos",
cujos monarcas estavam sujeitos ao "rei dos reis" de Axum, a quem pagavam
tributo. Os gregos designavam o potentado de Axum por basileus (somente
Atansio, o Grande, e Philostorgius o chamavam tirano): os reis vassalos eram
conhecidos como arcontes, tiranos ou etnarcas. Os autores srios, como Joo de
Beso, Simeo de Beth-Arsam e o autor do Livro dos Himiaritas, chamavam rei
(mlk') ao "rei dos reis" de Axum, mas tambm aos reis de Himiar e de Alwa, seus
sditos. No entanto,  preciso considerar que o termo axumita empregado para
todos eles era negus. S em determinados casos, quando se escrevia para leitores
estrangeiros,  que se empregavam as variaes terminolgicas7. Cada "povo",
reino, principado, cidade, tribo tinha seu prprio negus8. Existem referncias a
negus no exrcito axumita (ngsra srawit) (DAE, n. 9: 13). Alm do comando
dos exrcitos em tempo de guerra esses negus dirigiam os empreendimentos de
construo9. Entre os negus, as inscries citam reis de quatro tribos de Bega
(Beja), cada qual governando sobre aproximadamente 1100 sditos (DAE, n. 4:
19-20; DAE, n. 6: 7-17; DAE, n. 7: 6-18), e o senhor do principado de Agabo,
cujo nmero de sditos mal ultrapassava a faixa dos 200 a 275 homens adultos,
ou um total de 1000 a 1500 pessoas. Os reinos vassalos situavam-se no planalto
do Tigre e na regio da baa de Zula (Agabo, Metin, Agame, etc.), adiante do
rio Taqqase (Walqa'it, Samen, Agaw), nas regies ridas em torno das terras
altas etopes (Agwezat) e na pennsula arbica. Aps a vitria de Ezana, esses
reinos se estenderam at a Alta Nbia, entre a Quarta Catarata e Sennar. Alguns
reis feudatrios, corno os da Arbia meridional e da Alta Nbia, por exemplo,
possuam seus prprios vassalos  senhores hereditrios de status inferior. Criou-
-se, assim, urna hierarquia de poder, do rei dos reis de Axum aos chefes das
distintas comunidades.


7    Por exemplo, no texto grego das inscries bilngues de EZANA (DAE, n. 4, 6, 7), o monarca de Axum
     recebe o ttulo de "rei dos reis", bem como de "rei dos axumitas" e outros mais, enquanto os monarcas
     beja so chamados de "pequenos reis". No texto pseudo-sabeano, os termos usados para referncia ao rei
     de Axum so de origem sabeana  mlk, mlk, mlkn  enquanto para os monarcas beja  empregado um
     termo etope  ngst. Na inscrio grega que registra sua campanha na Nbia, Ezana autodenomina-
     -se rei simplesmente, e no rei dos reis, talvez por razes ligadas  poltica exterior (CAQUOT, A. &
     NAUTIN, P. 1970. p. 270-1). Mas o prprio ttulo denota uma posio muito alta conferida igualmente
     a imperadores romano-bizantinos: DAE, n. 9, 13  ngstat Sarawit.
8    DAE, n. 8: 7-12, 27, 29; DAE, n. 9: 9-12; DAE, n. 11: 36; DREWES, A. J. 1962. p. 30 et seq., 65-7;
     SCHNEIDER, R. 1974. p. 771, 775.
9    DREWES, A. J. 1962. p. 65; VASILYEV, A. A., ed. 1907. p. 63-4.
404                                                                                     frica Antiga



    Havia duas formas de coletar o tributo: ou os monarcas vassalos (como
Abraha, rei de Himiar) enviavam um tributo anual a Axum, ou o rei de Axum,
acompanhado de numeroso squito, percorria seus domnios, recolhendo o
tributo e vveres para sua comitiva. Os reis vassalos faziam o mesmo. Por fim,
adotou-se um meio-termo entre as duas formas de coleta: os vassalos passaram
a levar seu tributo a locais determinados do percurso real.
    As fontes no trazem informaes sobre o sistema administrativo de Axum,
aparentemente muito pouco desenvolvido. Os parentes prximos do rei tinham
papel importante na direo dos negcios pblicos, o que nos permite entender
que, numa carta, o imperador romano Constantino II tivesse se dirigido no
apenas a Ezana, mas tambm a Saizana, seu irmo10. As expedies militares
comumente eram conduzidas pelo rei, seu irmo11 ou outros parentes12. Os
exrcitos menores eram comandados pelos "reis de exrcito", sendo compostos
por guerreiros das comunidades ou tribos; a expresso "meu povo" pronunciada
por um rei de Axum  sinnimo de "meus exrcitos"13.
    Os monarcas axumitas pacificaram as tribos guerreiras estabelecidas nas
fronteiras do Estado: os abissnios, na Arbia do Sul14; quatro tribos beja na
regio de Matlia ou no pas de Byrn (possivelmente na provncia de Begemdir)
(DAE, n. 4, 6, 7). Alm disso,  evidente que o rei dos reis dispunha de uma
comitiva armada: sua corte, em tempos de paz, e seus guardas, em tempo de
guerra (como na Etipia do sculo XIV). Aparentemente, os funcionrios da
corte desempenhavam funes de agentes do governo, como, por exemplo, de
encarregado de misses. Os srios helenizados Edsio e Frumncio, escravos do
rei, foram promovidos, um a escano e o outro a secretrio e tesoureiro do rei
de Axum15.
    O que se sabe sobre a histria do reino de Axum  muito pouco para que
se possa reconstituir o desenvolvimento de seu sistema poltico. Contudo,
parece provvel que no apogeu da monarquia axumita sua estrutura tenha
se modificado por urna espcie de processo de centralizao. No sculo IV,
a ocupao de Ezana consistia basicamente em subjugar ou aprisionar os

10    MIGNE, J. P. 1884. p. 635.
11    DAE, n. 4 :9; DAE, n. 6 :3; DAE, n. 7 :5.
12    PROCPIO. ed. 1876. p. 275.
13    DAE, n. 9: 12-34; DAE, n. 10: 9-10, 23; DAE, n. 11: 18, 30-5, 37-8; CAQUOT, A. 1965. pp. 223-5;
      SCHNEIDER, R. 1974. pp. 771, 774, 778, 781, 783-4, 785; DAE, n. 4; DAE, n. 6; DAE, n. 7.
14    PROCPIO. ed. 1876. p. 274; MOBERG, A. 1924. p. CV; Martyrium sancti Arethae et sociorum in
      civitate Negran. Acta Sanctorum. Bruxelas, oct. 1861. t. X, p. 7; RYCKMANS, G. 1953.
15 MOMMSEN, T. 1908. pp. 972-3.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura         405



vassalos rebeldes, soberanos hereditrios dos diferentes principados de Axum.
Por volta do sculo VI, no entanto, encontramos um rei de Axum que passara
a nomear os reis da Arbia do Sul: Ma'dikarib e Sumayia Aswa para Himiar,
Ibn Harith (filho de S. Areta) para Nagran. Instalando tropas nos reinos de
seus vassalos, o rei dos reis assegurava a submisso direta de seus comandantes
militares a Axum.
   O sistema jurdico em vigor no reino pode ser estudado nos primeiros
registros jurdicos de Axum, que so as quatro leis da Safra (Drewes, 1973).


    Comrcio e poltica comercial
   A posio do reino de Axum no mundo comercial da poca era a de uma
potncia mercantil de primeiro plano, o que se evidencia pela cunhagem de
moeda prpria em ouro, prata ou cobre. Axum foi o primeiro Estado da
frica tropical a cunhar moeda, que naquele tempo no existia em nenhum
dos pases vassalos, nem mesmo em Himiar ou Alwa. A cunhagem, em
particular da moeda de ouro, constitua uma medida no apenas econmica
mas tambm poltica; atravs dela o Estado de Axum proclamava ao mundo
sua independncia e prosperidade, o nome de seus monarcas e as divisas do
reino. O primeiro rei axumita a colocar em circulao sua prpria moeda foi
Endybis, na segunda metade do sculo III. O sistema monetrio de Axum
era comparvel ao de Bizncio; no peso, no modelo e na forma, as moedas
axumitas apresentavam as mesmas caractersticas de suas contemporneas
bizantinas.
   Embora predominasse a produo domstica natural, existia uma certa relao
entre a capacidade produtiva de Axum e sua importncia comercial. Tratava-
-se mais de uma relao indireta, dependente  como se ver mais adiante
 da superestrutura poltica. Pode-se ter uma ideia dos itens exportados pela
Etipia axumita, tendo-se por base os relatos dos autores latinos e bizantinos.
Plnio refere os navios que deixavam os portos etopes do Mar Vermelho
carregados de obsidiana, mrmore, chifres de rinoceronte, couro de hipoptamo,
macacos (sphingia), levando tambm escravos. O Periplus enumera os produtos
exportados por Adulis, destacando a tartaruga, a obsidiana, o marfim e chifres
de rinoceronte. Nonnusius faz aluso ao ouro em p como um dos produtos
de exportao da Etipia axumita. Cosmas Indicopleustes fala de perfumes,
ouro, marfim e animais vivos exportados pela Etipia. Relata que os axumitas
adquiriam esmeraldas dos Blmios do deserto da Nbia e enviavam-nas  ndia
406                                                                               frica Antiga



setentrional, para serem vendidas. Afirma ainda ter comprado uma presa de
hipoptamo na Etipia16.
     exceo do ouro e das esmeraldas, os artigos relacionados s podiam ser
obtidos atravs da caa (incluindo a caa por armadilha) ou da coleta. No so
mencionados produtos agrcolas e laticnios nem artigos produzidos por artesos.
Se esses produtos eram exportados, devem ter sido em quantidades muito pequenas
e nos limites do Imprio Romano-Bizantino. Embora a informao mais antiga
sobre a exportao do famoso trigo da Etipia date do sculo X, no se pode de
todo negar que a essa poca ele j fosse comercializado com os pases vizinhos.
Por sua vez, a julgar pelos relatos do Periplus, Adulis importava certos gneros
alimentcios, como vinho e leo de oliva em pequenas quantidades da Laodiceia
(Sria) e da Itlia; os portos do Chifre da frica recebiam do Egito cereais,
vinho e suco de uvas frescas de Dispolis e, da ndia, trigo, arroz, cana-de-acar,
leo de ssamo e milhete (Eleusine). Ao que parece, alguns desses produtos, em
particular a cana-de-acar, eram embarcados tambm para Adulis17.
    Naquela poca, no se exportava gado para pases relativamente distantes.
Cosmas Indicopleustes informa que os axumitas abasteciam com bois, sal e ferro
o comrcio com Sassu, onde se encontravam campos aurferos (com certeza, no
sudoeste da Etipia). No entanto, Cosmas deve ter-se inspirado numa lenda
muito conhecida quando relata a troca de carne por pepitas de ouro18. Existem
referncias isoladas  descoberta de vestgios da metalurgia axumita na Arbia,
entre os quais, uma lmpada de alabastro19, moedas e uma lana saariana citada
pelo poeta rabe pr-islmico Labid, nos seus mu'allaqa20.
    Sobre as importaes axumitas de artigos fabricados por artesos estrangeiros
sabe-se um pouco mais. O Periplus, referindo-se aos domnios do rei Zoscales, diz:
      "Para esses locais so trazidos himation de tecido grosseiro, no-pisoado, fabricados
      no Egito para os brbaros, imitaes de abolla tingidas em diversas cores, lention
      tosado nos dois lados, numerosos artigos de vidro transparente, vasos de murrhine
      [moldados com uma pasta vitrificada] feitos em Dispolis, alm de lato [ ... ]
      folhas de cobre mole, [ ... ] ferro [ ... ]. Para c trouxeram, entre outras coisas,
      machadinhas, machados, facas, tigelas de cobre, redondas e grandes; alguns denrios


16    COSMAS. Periplus Maris Erythraei. 3-6; WINSTEDT, E. O. 1909. pp. 69, 320, 322, 324, 325;
      DINDORFF, L. A. 1870. p. 474.
17    COSMAS. Periplus ... 6, 7, 17.
18 WINSTEDT, E. O. 1909. pp. 71-2.
19    GROHMANN, A. 1915. pp. 410-22.
20    LABID IBN RABI'AH. 1891-2. p. 74.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura   407




figura 15.2 Moeda de ouro do rei Endybis
(sculo III da Era Crist).
Figura 15.3 Moeda de ouro do reino
de Ousanas. (Fotos Instituto Etope de
Arqueologia.)
408                                                                              frica Antiga



      para os estrangeiros residentes aqui; pequena quantidade de vinho e leo de oliva da
      Laodicia e da Itlia. Para o rei, trazem vasos de ouro e de prata feitos  moda local.
      Os artigos de vesturio que vm do exterior  abolla e kanakes [albornozes]  so de
      pouco valor. Do interior de Ariaca [ndia central], vm o ferro, o ao e tecidos de
      algodo indianos (particularmente os tipos mais largos e mais grosseiros conhecidos
      como molokhina e sygmatoghena); cintos, mantos, algumas peas de vesturio de
      molokhinese sindoni e material colorido com uma espcie de verniz".
     possvel que essa lista omita certos artigos importados pela Etipia axumita.
Por exemplo, o Periplus observa que eram desembarcados nos portos do Chifre
da frica "pequena quantidade de estanho", alguns artigos de vidro, tnicas,
"diversos himation de l ao gosto brbaro", mantas de l de Arsnoe e produtos
egpcios. Objetos de vidro e ferro produzidos em Muza (al-Muha), na Arbia
do Sul21, eram levados para Azania.
    Com o tempo, alterou-se o curso geral das importaes. O embargo decretado
pelos imperadores romanos sobre as exportaes de metais preciosos, ferro e
produtos alimentcios "para os omeritas [himiaritas] e axumitas"22 por volta do
final do sculo V e incio do VI deve ter modificado consideravelmente a lista das
exportaes romano-bizantinas para Adulis, embora sob o reinado de Justiniano
a aliana entre Bizncio e Axum tenha permitido um certo relaxamento dessa
medida. Mesmo assim, os axumitas tinham que buscar obter em outras fontes
as mercadorias impedidas de transpor as fronteiras do imprio.
    De modo geral, os dados arqueolgicos confirmam e completam as
informaes do Periplus. As escavaes efetuadas em Axum, Adulis e Matara
nos estratos datados do perodo em questo e as descobertas feitas em Hawila-
-Asseraw (no distrito de Asbi-Dera) e Debre-Damo revelaram numerosos
objetos de origem no-etope, alguns dos quais teriam chegado ao pas atravs
de intercmbio comercial, a maior parte proveniente do Imprio Romano-
-Bizantino, especialmente do Egito. Incluam nforas, que pelas evidncias
serviam como recipientes para vinho ou leo; fragmentos de objetos de vidro,
enfeites de ouro e colares de moedas de prata romanas (Matara), uma linda
gema (Adulis), lmpadas de bronze, e uma balana e pesos de bronze (Adulis
e Axum)23.



21    COSMAS, Periplus ... 6, 7, 17.
22 CODEX THEODOSIANUS. XII, 2, 12.
23    ANFRAY, F. 1972-b. p. 752; ANFRAY, F. & ANNEQUIN, G. 1965. p. 68; CONTENSON, H. de.
      1963-c. p. 12, pr. XX.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura                           409



    Tambm foram encontrados objetos originrios da ndia: um selo (Adulis)24,
estatuetas de terracota (Axum)25, 104 moedas de ouro datadas da dinastia
kuchana, anteriores ao ano 200 (Debre-Damo)26. So da Arbia pr-islmica
as moedas de prata e bronze encontradas acidentalmente na Eritreia e durante as
escavaes em Axum27, bem como a lmpada de bronze de Matara28. Numerosas
so as amostras do artesanato merota: fragmentos de vasos de cermica (vrias
localidades); estatuetas-amuletos de faiana, de Htor e Ptah (Axum), de
cornalina, de Hrus (Matara)29, estelas esculpidas representando Hrus sobre
crocodilos (vistas em Axum e descritas por James Bruce, no sculo XVIII30) e
tigelas de bronze (Hawila-Asseraw)31. Alguns desses objetos podem ter chegado
 Etipia atravs do comrcio com o Sudo, mas provavelmente a maioria deles
provm de esplios de guerra ou tributo.  possvel que os axumitas importassem
da regio de Mroe boa parte dos artigos de algodo e ferro de que necessitavam.
De outros pases da frica vinham o ouro (originrio de Sassu e talvez do pas
de Bega), o incenso e condimentos (Somlia setentrional).
    A unificao de parte considervel do nordeste da frica pelos axumitas
enriqueceu rapidamente a sua aristocracia, na qual os mercadores romanos,
rabes e hindus iriam encontrar a clientela para seus produtos de luxo, de todos,
os mais lucrativos.
    Algumas das mercadorias inventariadas no Periplus de Pseudo-Arriano eram
reservadas, como observa o autor, ao uso exclusivo do rei de Axum. No incio do
sculo III, os comerciantes estrangeiros, ao que parece, eram obrigados a enviar
oferendas proporcionais  sua riqueza ao rei de Axum e ao governador de Adulis;
enquanto viveu Pseudo-Arriano, esses presentes no passavam de vasos de ouro
e de prata "sem grande valor", e de "grosseiras imitaes" de abbola e kaunakes. 
interessante notar que, por volta do ano 524, o patriarca de Alexandria enviou de
presente ao rei de Axum um vaso de prata32. O aumento da riqueza e a difuso
dos hbitos de luxo na corte real de Axum (de acordo com as inscries deixadas

24   PARIBENI, R. 1908. fig. 49.
25   CONTENSON, H. de. 1963-c. pp, 45-6, pr. XLVII-XLVIII a.c.
26   MORDINI, A. 1960.
27   GAUDIO, A. 1953. pp. 4-5; CONTENSON, H. de. 1963-c. p. 8, pr. XIV; id. p. 12, pr. XIV.
28   ANFRAY, F. 1967. p. 46 et seq.
29   CONTENSON, H. de. 1963-c. p. 43; LECLANT, J. 1965-c. pp. 86-7, pr. LXVII, 1.
30   WALLE, B. van de. 1953. pp. 238-47.
31   DORESSE, J. 1960. pp. 229-48; CAQUOT, A. & LECLANT, J. 1956. pp. 226-34; CAQUOT, A. &
     DREWES, A. J. 1955. pp. 17-41.
32   Martyruim sancti Arethae... 1861. p. 743.
410                                                                    frica Antiga



por Cosmas, Joo Malalas e Nonnusius) levam a crer que os presentes passaram
a ser mais valiosos e de melhor qualidade.  possvel que nessa poca tenha se
estabelecido um sistema de taxas de importao.
    Os ganhos obtidos com a criao do poderoso reino de Axum enriqueceram
no apenas a aristocracia mas tambm o grupo tnico -social privilegiado
composto pelos cidados axumitas da capital. Grande parte das importaes
enumeradas no Periplus destinava -se a amplas camadas da populao.
Braceletes de cobre importado trabalhados pelos artesos do lugar, lanas
de ferro importado e outros objetos de metal de uso local, bem como roupas
de tecidos estrangeiros, vinham alimentar os mercados locais, tornando-se,
assim, acessveis tanto  populao urbana quanto  rural. Os estrangeiros
 comerciantes ou outros grupos  estabelecidos em Adulis, em Axum e em
diferentes cidades etopes acabavam importando grandes quantidades de
mercadorias.  entre esses grupos que o vinho e o leo de oliva vo encontrar
rpida sada. Os objetos descobertos durante as escavaes, como a balana
e os pesos, o selo e as moedas romanas e kuchanas, so obviamente vestgios
deixados pelos comerciantes romano-bizantinos e hindus que viveram em
Adulis e Axum. O Periplus afirma claramente que os denrios eram levados a
Adulis por estrangeiros que l viviam, isto , por pessoas que no eram sditos
africanos nem romanos. Como j se sabe, o fluxo da moeda romana para a
Arbia meridional, ndia, Ceilo e outros pases orientais atingia propores
catastrficas. Os estrangeiros que introduziam esses denrios talvez fossem
comerciantes da ndia, do Ceilo e da Arbia. Entre os que comerciavam
com o reino axumita, a tradio rabe menciona os Banu-Kuraish de Meca;
Cosmas Indicopleustes fala dos habitantes da ilha de Socotra, e Pseudo-
-Calstenes menciona os hindus. A importncia relativa das cidades e pases
de alm-mar para o comrcio etope no incio do sculo VI pode ser ilustrada
pelo nmero de navios que entraram no porto etope de Gabaza no vero de
525, cuja lista se encontra no Martrio de Santa Areta33. Essa lista foi analisada
em detalhe por N. V. Pigulevskaya34: nove navios so descritos como hindus 
termo que admite diferentes interpretaes; sete embarcaes eram da ilha de
Farasan al-Kabir, habitada pelos farasianos, uma tribo crist sul-arbica que
desempenhou importante papel no comrcio do mar Vermelho; quinze navios
chegaram de Elat, na Palestina, principal porto da regio srio-palestina; vinte
e duas embarcaes vieram de portos egpcios  vinte de Clysme e apenas duas

33    Martyrium sancti Arethae... 1861. p. 747.
34    PIGULEVSKAYA, N. V. 1951. pp. 30-1.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura                           411



de Berenice; outras sete vieram da ilha de Iotaba (Thiran). Todos os cidados
romanos que comprovadamente viajaram a Adulis ou Axum nasceram no
Egito ou na Sria.
    Os principais fornecedores dos negociantes estrangeiros eram os monarcas
axumitas e os vassalos que governavam os vrios domnios do reino de Axum,
particularmente Adulis e a Arbia do Sul. Somente eles dispunham de
estoques suficientes de mercadorias para exportao. A essa poca  possvel
que houvesse monoplios comerciais no reino de Axum, na vizinha Arbia
meridional e tambm em Bizncio.  muito provvel que a caa do elefante
e a venda do marfim e do ouro tenham sido em grande parte monoplio do
soberano. Apenas o rei e os arcontes de Axum tinham meios para comprar
produtos estrangeiros.
    Os soberanos possuam imensos rebanhos. Nas inscries de Ezana faz-
-se meno aos esplios obtidos em duas campanhas axumitas, no Afan e
na Nbia, que no total renderam cerca de 32500 cabeas de gado e mais de
51 mil carneiros, sem contar as centenas de animais de carga. As inscries
no especificam se o esplio pertencia a todo o exrcito ou se correspondia
apenas  parte do rei, o que parece mais provvel. Nas inscries relativas
 pacificao de quatro tribos beja, Ezana declara ter-lhes doado 25 mil
cabeas de gado35, cifra que nos permite avaliar a dimenso dos rebanhos
pertencentes ao rei.  interessante observar que todas as cifras registradas
nas inscries esto escritas primeiramente em palavras, depois em nmeros
 exatamente como nos tempos atuais. Possivelmente durante o perodo
axumita criou-se o cargo de "administrador dos rebanhos" (sahafeham), que
permaneceu at o sculo XIV como ttulo honorfico para os governadores
de determinadas provncias.
    Em Axum, como em outros reinos africanos da Antiguidade, os rebanhos
constituam uma riqueza extremamente difcil de comercializar. Era impossvel
export-los sistematicamente por mar, embora os axumitas conseguissem
transportar certos animais isoladamente, inclusive alguns elefantes do exrcito de
Abraha.  claro que o gado podia ser conduzido ao interior do continente para
l ser vendido  Cosmas Indicopleustes menciona que as caravanas dos axumitas
levavam gado a Sassu , mas inevitavelmente uma proporo considervel dos
animais devia servir para alimentar a prpria caravana.




35   DAE, n. 10: 17-22; DAE, n. 11: 43-4; DAE, n. 4: 13-5; DAE, n. 6: 7-8; DAE, n. 7: 9-10.
412                                                                   frica Antiga



    Um tipo de mercadoria cuja demanda, ao longo de sculos, jamais se retraiu
foram os escravos. Os prisioneiros de guerra, mencionados nas inscries
de Ezana e nas fontes relativas s guerras entre axumitas e himiaritas, eram
particularmente procurados pelos mercadores de escravos estrangeiros.
    O ouro e a prata obtidos dos esplios de guerra ou do tributo pago pela
Nbia, Beja, Agaw, Himiar e outros pases eram trazidos de Sassu por caravanas
e convertidos em moeda para pagamento das mercadorias estrangeiras destinadas
ao rei e aos nobres.
    Embora o volume da produo industrial de Axum no fosse significativo
para manter um mercado, a abundncia de produtos agrcolas e animais permitia
aos axumitas carregar navios mercantes e caravanas. Assim, alm de prover o
mercado interno atendendo s suas necessidades alimentares e de outros bens
de consumo, os axumitas podiam ainda comerciar com outros pases.
    Pode-se ter uma vaga ideia da organizao desse comrcio a partir do relato
de Cosmas Indicopleustes sobre o aprovisionamento de Axum com o ouro
proveniente dos numerosos campos aurferos de Sassu. "De ano em ano (ou
a cada dois anos?), o rei de Axum envia, sob a responsabilidade do arconte de
Agaw, pessoas encarregadas de trazer ouro. Muitos as acompanham pelo mesmo
motivo, de modo que, no total, podem ser mais de quinhentas." Mais adiante,
Cosmas sublinha que todos os membros da caravana andavam armados e que
faziam o possvel para chegar a seu destino antes das grandes chuvas. Indica
tambm o perodo exato em que as chuvas deviam ser esperadas. O ouro era
transportado de Sassu na forma de pepitas do tamanho de um gro de tremoo,
conhecidas como tankharas36.
    Ao que parece, os agentes do rei constituam o ncleo das caravanas e se
faziam acompanhar por outras pessoas, que podiam ser agentes dos nobres e
ricos axumitas, mas no estrangeiros. Na poca, os monarcas etopes no eram
indiferentes aos seus interesses comerciais. No Periplus o rei Zoscales  tido
como "avaro e mercenrio". O comrcio era considerado como um negcio de
Estado, e parece que o arconte de Agaw assumia sua inteira responsabilidade,
incumbindo-se de equipar e despachar para Sassu as caravanas axumitas. A
inscrio de Ezana relativa  campanha do Afan, onde so descritas a derrota
de quatro tribos do Afan e a priso de seu chefe, registra o destino que tiveram
os agressores das caravanas axumitas; de fato, as tribos do Afan massacraram os
membros de uma caravana comercial de Axum37.

36    WINSTEDT, E. O. 1909. pp. 70-1.
37    DAE, n. 10.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura          413



    A hegemonia poltica de Axum sobre as rotas do comrcio mundial
demonstrou ser to lucrativa quanto a participao mesma do reino no comrcio.
    Tendo subjugado a Alta Nbia, a Arbia meridional, a regio do lago Tana
e as tribos dos desertos que circundam a Etipia, o rei de Axum assumiu o
controle das rotas que ligavam o Egito e a Sria aos pases do oceano ndico
e tambm s regies interioranas do nordeste da frica. O estreito de Bab
el-Mandeb, que como os de Malaca e Gibraltar, constitua uma das trs principais
rotas martimas do mundo antigo, tambm ficou sob o controle axumita. Na
Antiguidade, era por Bab el-Mandeb que se fazia o importante trfico martimo
do mar Vermelho ao golfo Prsico,  ndia, ao Ceilo, ao estreito de Malaca e
aos pases do sudoeste e do leste da sia. Do golfo de Aden, uma outra rota
ramificava-se ao longo da costa da Somlia at a frica oriental (a Azania de
Cludio Ptolomeu e Pseudo-Arriano). Essa rota foi explorada e utilizada pelos
marinheiros da Arbia meridional e, no decorrer dos primeiros sculos da Era
Crist, pelos marinheiros da ndia e do Imprio Romano.
     poca que examinamos, florescia o comrcio no mar Vermelho no
obstante fossem comuns as histrias de pirataria, empresa a que se dedicavam
as tribos africanas e rabes das costas meridionais do mar Vermelho e do golfo
de Aden. Os autores romanos significativamente atribuam os ataques de piratas
nessa regio a mudanas na atitude poltica de Axum e de outros Estados do
mar Vermelho em relao aos romanos38.
    Os comerciantes romanos tinham interesse vital em garantir a segurana
ao longo das rotas comerciais situadas na rea de influncia de Axum, e,
consequentemente, em sua poltica de unificao. Por isso apoiaram a aliana
do Imprio Romano-Bizantino com o reino de Axum. Mas no seria correto
representar os reis axumitas como simples promotores da poltica romano-
-bizantina, compreendidos seus aspectos religiosos e comerciais. Sua poltica
mantinha-se independente e s correspondia  poltica bizantina quando
coincidiam os interesses, principalmente os interesses econmicos, das duas
potncias. No sculo VI, por exemplo, apesar das frequentes viagens que faziam
 ndia, os bizantinos consideravam as relaes comerciais dos etopes com esse
pas mais estveis que as suas39.
    Sendo o comrcio axumita com Sassu um segredo zelosamente ocultado
dos bizantinos, Cosmas Indicopleustes s poderia saber da existncia daquele
pas atravs de relatos orais dos etopes. Parece bastante evidente que, do

38   COSMAS. Periplus... 4; MOMMSEN, T. 1908. p. 972.
39   PROCPIO. ed. 1876. pp. 275-7.
414                                                                    frica Antiga



incio do sculo V ao incio do VI, os diconos etopes (axumitas) eram os
responsveis pela colnia mercantil etope instalada na Lbia40 e em Nagran41.
Quando Moiss, bispo de Adulis, embarcou para a ndia42 no incio do sculo
V, provavelmente fora visitar seus fiis, que, na poca, tinham criado colnias
de comrcio nos portos da ndia e do Ceilo. As viagens comerciais efetuadas
ao Ceilo e  ndia meridional e setentrional pelos cidados de Adulis em
particular e pelos etopes em geral so relatadas por Pseudo-Calstenes e
Cosmas Indicopleustes43. O crescimento da cidade de Adulis e o fortalecimento
de sua posio no comrcio mundial refletem o poder e a expanso do reino
axumita. Na opinio de Plnio (c. 60) e de Cludio Ptolomeu (c. 150)44, Adulis
era simplesmente um dos pequenos mercados da frica; Pseudo-Arriano
considerava-a uma aldeia.
    No sculo IV e incio do V, os portos de Adulis e do Chifre da frica
raramente atraam a ateno dos gegrafos romanos. No decorrer do sculo V,
contudo, Adulis tornou-se a cidade porturia mais importante entre Clysme e
os portos da ndia, e os nomes de outros portos africanos desapareceram das
fontes escritas45.
    O fato de Adulis ter alcanado na poca um nvel de prosperidade jamais
conhecido devia-se no  sua resistncia bem-sucedida a qualquer tipo de
competio, mas unicamente  proteo ativa do Estado protofeudal de Axum.
Desse modo, pode-se entender que no Priplo do Mar da Eritreia Adulis seja
referida como "mercado oficialmente estabelecido".


      Cultura
   Podemos perceber claramente o reflexo do desenvolvimento do imprio
protofeudal na ideologia e na cultura axumitas tomando o perodo que vai do
sculo II ao IV. As breves inscries consagradas aos deuses vo se transformando
aos poucos em relatos detalhados das vitrias alcanadas pelo "rei dos reis".
Desses, so exemplos particularmente interessantes as inscries de Ezana, em


40    CAQUOT, A. & LECLANT, J. 1959. p. 174.
41    MOBERG, A. 1924. p. 14, b; IRFANN, S. 1971. p. 64.
42    PRIAULX, B. 1863.
43    PRIAULX, B. 1863; WINSTEDT, E. O. 1909. p. 324.
44    PLNIO. ed. 1838-62. VI, 172; PTOLOMEU, Cludio. IV, 7, 10.
45    PRIAULX, B. 1863. p. 277; DESANGS, J. 1967. pp. 141-58.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura           415



etope e em grego. Numa delas, em que Ezana relata em detalhe sua campanha
na Nbia, atinge-se o pice do estilo epigrfico46. O texto revela eloquncia e
sentimentos religiosos autnticos e liberdade no uso de conceitos complexos. As
ideias bsicas subjacentes so a glorificao de um monarca poderoso, invencvel,
cuja ira seria loucura provocar, e a exaltao do deus, cuja proteo especial e
permanente o monarca desfruta. Evocam-se argumentos bastante pertinentes
para justificar as campanhas axumitas na Nbia e outras represlias. O rei Ezana
 representado como sendo de uma honestidade e de uma magnanimidade
irrepreensveis. Essa inscrio pode ser justificadamente considerada como uma
obra literria, apresentando semelhanas com a poesia popular e a literatura
etopes de poca mais recente.
    Evoluo anloga tiveram os motes na cunhagem axumita. As moedas, do
sculo III at a metade do IV, ostentam o epteto tnico particular de cada
monarca, formado pela palavra be'esi ("homem") e um etnnimo correspondente
ao nome de um dos "exrcitos" axumitas. De alguma forma, esse sobrenome se
associava  estrutura tribal e militar do Estado axumita e provavelmente tinha
origem na democracia militar da Etipia antiga. A moeda corrente na poca de
Ezana e de seus sucessores trazia o mote grego "Que o pas esteja satisfeito!".
 evidente que esse artifcio demaggico reflete uma doutrina oficial, cujos
primeiros indcios se podem discernir nas inscries de Ezana47. Sem dvida, o
rei desejava fazer-se popular ante a nao, propsito que condizia com a natureza
de um poder que se ia transformando em monarquia. Mais tarde, as verses
grega e etope desse mote foram substitudas por frmulas crists piedosas.
    A evoluo das legendas nas moedas e das inscries reais de Axum permitem
discernir duas tendncias opostas na ideologia da administrao axumita: a
ideia monrquica ligada  unidade crist e a noo demaggica originria das
tradies locais.
    Com a ideia de imprio, o colossal introduz-se na arquitetura e nas artes
figurativas. So exemplos: as gigantescas estelas monolticas de 33,5 m de
altura, erigidas sobre plataforma de 114 m de comprimento; a laje monoltica
de basalto medindo 17,3 m X 6,7 m X 1,12 m; as imensas esttuas de metal (a
base de apenas uma delas se preservou, mas as inscries nos do as dimenses
das outras); os enormes palcios dos reis de Axum, Enda-Michael e Enda-
-Simon; e, particularmente, o conjunto de edifcios reais, o Taakha Maryam,
cobrindo uma rea de 120 m por 80 m  no h nada comparvel na frica

46   DAE, n. 11.
47   DAE, n. 7: 24; DAE, n. 11: 48.
416                                                                                           frica Antiga




figura 15.4   Inscrio grega de Ezana (sculo IV). (Foto Instituto Etope de Arqueologia.)
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura                                       417



tropical. A obsesso pelo gigantesco refletia os gostos da monarquia axumita,
cujo propsito ideolgico se concretizava nos monumentos destinados a
inspirar admirao e temor pela grandeza e fora do potentado ao qual eles
eram dedicados. Paralelamente ao gosto pelo gigantesco, a arquitetura mostra
uma tendncia cada vez mais acentuada para a arte decorativa. A combinao
de pedra e madeira na construo, com o emprego alternado de blocos de
pedra mais e menos trabalhados em um ou outro ponto do edifcio e vigas de
madeira, bem como a cimentao com cascalho e material aglutinante, no s
contribuiu para simplificar o trabalho dos construtores como tambm permitiu
a obteno de efeitos altamente decorativos. A riqueza plstica natural e o
surpreendente arranjo das variadas texturas resultantes da combinao de pedras
brutas e trabalhadas nas superfcies murais com as pesadas vigas de madeira
terminando nas chamadas "cabeas de macaco", tm seu efeito decorativo
realado na alternncia de salincias e reentrncias, nos trios rebaixados, com
pesadas portas de madeira, terminando em escadas, e nas calhas ornamentadas
com grgulas em forma de cabea de leo. Passou-se a dar maior ateno aos
interiores. A tendncia inegvel para um estilo de construo mais decorativo
vinha responder s exigncias crescentes de luxo e conforto da classe dirigente
axumita, enriquecida com a formao do imprio. A arquitetura e a escultura
etopes desse perodo foram de uma originalidade notvel, o que no exclui a
assimilao das diferentes influncias culturais advindas do Imprio Romano,
da Arbia meridional, da ndia e de Mroe. Particularmente importante foi a
influncia sria, que teve incio com a expanso do cristianismo.
    Cosmas Indicopleustes menciona o palcio de quatro torres dos reis
axumitas48. De acordo com a reconstituio feita pelo dr. Krencker, tratava-se
de um castelo que a disposio dos edifcios vizinhos  palcios, templos e outros
santurios  tornava a parte mais inacessvel da cidade. A julgar pelos resultados
das escavaes de H. de Contenson, o local ainda era fortificado na Era Crist49.
    O paganismo dos axumitas lembrava muito a religio da antiga Arbia do
Sul. Era um politesmo complexo, com caractersticas dos cultos relacionados
 agricultura e  criao de animais. As divindades adoradas eram Astar, a
encarnao do planeta Vnus, e Beher e Meder, divindades que simbolizavam
a terra. A popularidade de que gozou o culto de Astar no perodo pr-axumita
permaneceu no Axum pago50, sendo encontrados vestgios desse culto em

48   WINSTEDT, E. O. 1909. p. 72.
49   KRENCKER, D. M. 1913. p. 107 et seq., 113 et seq.; CONTENSON, H. de. 1963-c. p. 9, pr. IX.
50   DAE, n. 6: 20; DAE, n. 7: 21; DAE, n. 10: 25; DAE, n. 27: 1; DREWES, A. J. 1962. p. 26-7, pr. VI, XXI.
418                                                                                              frica Antiga



perodos ainda posteriores. Beher e Meder, constituindo uma s divindade,
vinham logo depois de Astar nas inscries51. O termo etope cristo Egzi'abher
("Deus" ou, literalmente, "o deus Beher", ou "deus da terra")  um vestgio desse
culto52.
    A divindade lunar Hawbas era adorada na Arbia do Sul e na Etipia pr-
-axumita, e Conti-Rossini quis demonstrar que o deus Gad, cuja adorao
foi combatida pelos santos medievais, era esse mesmo deus lunar53. O autor
relacionou esse culto da lua ao carter sagrado do antlope taurino na moderna
Eritreia. Um estudo das crenas tribais desse pas no sculo XX mostrou que
os cultos da Antiguidade sobreviveram no norte da Etipia e que a lua ainda 
adorada como uma divindade54.  possvel que os axumitas associassem os traos
da divindade lunar  imagem do deus Mahrem.
    Os smbolos do sol e da lua so encontrados nas estelas de Axum, de
Matara e de Anza, bem como nas moedas dos reis axumitas da poca pr-crist.
Provavelmente se referem a Mahrem, divindade dinstica e tribal dos axumitas.
Na inscrio bilngue de Ezana, ao Mahrem do texto etope55 corresponde
o nome grego Ares56. Todas as inscries gregas pags dos reis de Axum57, 
exceo das inscries dos simbriti, nas quais no figura o nome de deus, utilizam
o nome Ares. Como se sabe, o Ares ateniense era adorado como deus da guerra.
Portanto, o mesmo devia acontecer com seu correspondente, Mahrem. Nas
inscries axumitas, Ares-Mahrem, na qualidade de deus da guerra,  referido
como "invencvel", "imbatvel por seus inimigos", aquele que garante a vitria58.
Na qualidade de ancestral tnico, Ares  denominado "deus dos axumitas"59 nas
inscries de Abba Pantalewon. Enquanto divindade dinstica, Mahrem-Ares
era chamado pelos reis "o maior dos deuses", ancestral dos reis60. A qualidade


51    DAE, n. 6: 21; DAE, n. 7: 21; DAE, n. 10: 25-6
52    VYCICHL, W. 1957. pp. 249, 250.
53    CONTI-ROSSINI, C. 1947. p. 53.
54    LITTMAN, E. 1910-5. p. 65 (n. 50), 69 (n. 52).
55    DAE, n. 6: 2, 18, 26; DAE, n. 7: 3, 19, 21, 25.
56    DAE, n. 4: 6, 29.
57    DAE, n. 2: 8; Monumentum Adulitanum; WINSTEDT, E. O. 1909. p. 77; SAYCE, A. H. 1909. pp.
      189, 190.
58    DAE, n. 2: 8; DAE, n. 4: 6, 29; DAE, n. 6: 2-3; DAE, n. 7: 3-4; DAE, n. 8: 4-5; DAE, n. 9: 4; DAE, n. 10:
      5-6.
59    DAE, n. 2: 8.
60    WINSTEDT, E. O. 1909. p. 77; DAE, n. 10: 5, 29-30; DAE, n. 8: 4; DAE, n. 9: 3-4; DAE, n. 6: 2; DAE,
      n. 7: 3.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura           419



primeira de Mahrem era a de deus progenitor e protetor dos axumitas; um
segundo atributo seria o de invencvel deus da guerra; em seguida ele apareceria
como antepassado e pai do rei; enfim, teria sido considerado como o rei dos
deuses. Era a ele que os reis de Axum consagravam seus tronos vitoriosos tanto
na prpria Axum como nas regies que conquistavam.
   Evidentemente, Mahrem, deus da guerra e da monarquia, reinava
soberanamente sobre as divindades astrais e terrestres da mesma forma que um
monarca consagrado dominava um povo. Ao mesmo tempo, a guerra, personificada
por Mahrem, prevalecia sobre o trabalho pacfico, sendo considerada como um
dever mais honroso e mais sagrado que o trabalho dos camponeses, embora este
fosse santificado pelos preceitos dos antepassados. Distinguiam-se claramente
na religio de Axum os primeiros traos caractersticos da ideologia de classe
de uma sociedade feudal em processo de formao.
   Nos sacrifcios que os axumitas ofereciam a seus deuses, os animais domsticos
eram as oferendas mais constantes. Uma das incries de Ezana61 registra ter-
-se oferecido uma dzia de bois a Mahrem em um nico ritual de consagrao.
Segundo as pesquisas de A. J. Drewes62 sobre a inscrio da Safra, imolavam-se
habitualmente vacas e ovelhas estreis, tipo de sacrifcio ainda comum entre
certas populaes etopes. A inscrio, observa A. J. Drewes, contm termos
especficos empregados durante o ritual, que era celebrado por um padre
imolador. Encontram-se, em outras inscries, referncias ao abate de animais
para serem queimados em oferenda a Astar. De acordo com o antigo costume
semita, na entrega de certas oferendas eram exigidas, pelo rito, vestimentas
imaculadamente brancas. J na poca pr-axumita, o animal vivo levado em
sacrifcio passa a ser substitudo por sua imagem consagrada. Reprodues, em
bronze e em pedra, de touros, carneiros e outros animais de sacrifcio, muitas
com inscries, conservam-se at hoje.
   O culto dos ancestrais, especialmente dos reis mortos, ocupava um lugar
importante na religio axumita. Mandava o costume que se lhes dedicassem
estelas: hwelt, palavra derivada da raiz h-w-l, significa "ficar em volta" ou
"adorar", tradio comparvel ao culto islmico diante da Caaba. As vtimas dos
sacrifcios eram levadas aos altares e ao pedestal das estelas, esculpido em forma
de altar, e o sangue escorria para cavidades talhadas em forma de bacias. As
sepulturas dos reis axumitas eram consideradas como os lugares santos da cidade.
Os vasos e outros objetos descobertos em locais fnebres indicam a crena numa

61   DAE, n. 10: 29-30.
62   DREWES, A. J. 1962. pp. 50-4.
420                                                                       frica Antiga



vida alm-tmulo. Referncias indiretas a essa questo sugerem a existncia de
um culto dos "senhores das montanhas", que lembra cultos anlogos da Arbia.
    Embora as informaes disponveis sejam ainda extremamente fragmentrias,
pode-se considerar a religio axumita como relativamente desenvolvida,
apresentando um ritual complexo e implicando o sacerdcio profissional.
    No incio do perodo axumita, penetravam na Etipia ideias religiosas tanto
de pases vizinhos como de pases afastados. No Monumentum Adulitanum
menciona-se Posidon, deus dos mares, que, parece claro, era adorado pelos
habitantes de Adulis e da costa meridional do mar Vermelho63. Os santurios
de Almaqah, deus "nacional" dos sabeus, adorado pelo rei Gadara, de Axum64,
foram situados em Melazo e, a depender de comprovao, em Hawila-Asseraw.
A estela recm-descoberta em Axum com o smbolo egpcio da vida (ankh)65
e os objetos pertencentes ao culto de Htor, Ptah e Hrus, bem como os
escaravelhos sugerem que os adeptos da religio egpcio-merota residiram, em
algum perodo, em Axum, Adulis e Matara. As estatuetas de Buda encontradas
em Axum 66 provavelmente foram trazidas por comerciantes budistas originrios
da ndia. Dos numerosos grupos da Arbia do Sul que professavam a religio
judaica, alguns devem ter vindo se instalar na Etipia antes do sculo VI, quando
o cristianismo se tornou predominante (ver captulos 14 e 16).
    Como resultado da influncia exercida pelo cristianismo e por outras religies
monotestas, a Etipia e a Arbia adquiriram uma viso monotesta peculiar,
atestada pelas inscries em ges  como, por exemplo, as de Ezana relativas 
campanha da Nbia (DAE, n. 11), ou a de Abreha Tkl Aksum (personagem
que no se deve confundir com o rei Abreha) em Uadi Menih67  e pelas ltimas
inscries sabeanas da Arbia meridional.
    No existem contradies fundamentais entre essa forma de monotesmo e
o cristianismo; Ezana, na inscrio acima mencionada, Wazeba, numa inscrio
recentemente descoberta, e Abreha, rei de Himiar, em suas inscries, usam
os termos e os conceitos de um "monotesmo indefinido" para propagar o
cristianismo.
    Sujeita a influncias culturais estrangeiras, a "subcultura" da monarquia axumita
apresentava um carter no apenas nacional mas tambm internacional. O grego


63    WINSTEDT, E. O. 1909. p. 77.
64    JAMME, A. 1957. p. 79.
65    ANFRAY, F. 1972-b. p. 71.
66    CONTENSON, H. de. 1963-b. pp. 45, 46, pr. XLVII-XLVIII, a, c.
67    LITTMAN, E. 1954. pp. 120, 121.
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura           421



era utilizado juntamente com o ges como lngua nacional e internacional.
Aparentemente, reis como Za-Hekale e Ezana sabiam o grego (de acordo com
o Periplus, o "rei Zoscales" sabia ler e escrever em grego, e o conselheiro de
Ezana, Frumncio, que viria a ser o primeiro bispo de Axum, era de origem
greco-fencia). As moedas cunhadas pela maioria dos reis axumitas dos sculos
III e IV continham legendas gregas, e se conhecem seis inscries em grego
feitas por monarcas de Axum.
    No h razo para se pensar que o sabeano tenha sido uma das lnguas
oficiais do incio do reino axumita. Um dos trs textos pseudotrilngues de
Ezana (na realidade, bilngues, ges-grego) est escrito em himiarita recente e
possui algumas peculiaridades exageradas da ortografia sabeano-himiarita. A
mesma escrita  usada em trs outras inscries reais axumitas, de Ezana, Kaleb
e Wazeba68. Somando-se ainda uma inscrio de Tsehuf Emni (Eritreia)69, so
cinco os textos "pseudo-himiaritas" provenientes da Etipia. Sua lngua  o ges
com raras palavras em sabeano.
    No se sabe muito bem por que os reis axumitas utilizavam igualmente textos
"pseudo-himiaritas" e textos escritos em etope clssico nas suas inscries de
carter estritamente oficial. Em todo caso, trata-se de um fato representativo
da influncia sul-arbica.
     possvel que o emprego da escrita himiarita bem como do etope vocalizado
e a introduo de algarismos sejam inovaes do reinado de Ezana e que essas
inovaes estejam inter-relacionadas.
    Os princpios bsicos da escrita etope vocalizada no tm equivalncia
no mundo camito-semtico, mas so tpicos dos alfabetos hindus. No sculo
XIX, B. Johns, R. Lepsius e E. Glaser mostraram as relaes entre o alfabeto
etope e o da ndia. Em 1915, A. Grohmann apontou as principais semelhanas
entre a concepo do alfabeto etope vocalizado e a do alfabeto do Brahmi ou
Karoshti, ressaltando certos detalhes comuns, como os signos usados para u e e
breve70. A hiptese da influncia hindu sobre os reformadores do antigo alfabeto
consonntico etope parece, portanto, bastante provvel. J a influncia da Grcia
na criao do alfabeto etope no foi provada, embora seja certa a origem grega
do sistema numrico e dos principais algarismos etopes, tal como apareceram,
pela primeira vez, nas inscries de Ezana.



68   DAE, n. 8 : 18-19; SCHNEIDER, R. 1974. pp. 767-70.
69   CONTI-ROSSINI, C. 1903.
70   GROHMANN, A. 1915. pp. 57-87.
422                                                                                     frica Antiga




figura 15.5 Inscrio em caracteres pseudo-sabeanos de Wa'Zaba (sculo VI). (Foto Instituto Etope de
Arqueologia.)
Axum do sculo I ao sculo IV: economia, sistema poltico e cultura            423



    Na verdade, o alfabeto etope vocalizado reproduz to rigorosamente o
sistema fonolgico do ges que s se pode pensar num etope como seu criador.
Acrescido de alguns signos, esse alfabeto tem sido usado na Etipia at hoje e 
considerado, de modo geral, como uma grande conquista da civilizao axumita.
    J no seu incio, a escrita etope vocalizada comea a exercer influncia sobre
as escritas da Transcaucsia. D. A. Olderogge sugere que Mesrop Mashtotz
utilizou a escrita etope vocalizada ao inventar o alfabeto armnio.  possvel
que a escrita etope tenha sido introduzida na Armnia pouco tempo antes (no
fim do sculo V) pelo bispo srio Daniel71.
     por intermdio da Sria setentrional que, nessa poca, se estabelecem
relaes culturais entre Axum e Armnia. Temos algumas evidncias da presena
de srios em Axum e da influncia sria na arquitetura axumita72 (notadamente
na grande estela monoltica de Axum, cuja forma evoca as construes de
vrios andares), que guarda tambm uma certa semelhana com a arquitetura
sul-arbica e hindu da poca. Bastante razovel  a hiptese do predomnio
da influncia merota no decorrer dos sculos II e III. Todos os objetos de
artesanato merota encontrados na Etipia pertencem a esse perodo. Um basto
de bronze com a inscrio de Gadara, um rei de Axum, lembra os cetros dos
reis merotas 73. Os elefantes mesmo podem ter sido introduzidos no ritual real
axumita sob a influncia tanto da ndia como de Mroe.
    O reino axumita foi mais do que uma grande potncia comercial nas rotas
que uniam o mundo romano  ndia e a Arbia ao nordeste da frica; foi
tambm um importante centro de difuso cultural, exercendo sua influncia ao
longo dessas rotas e tendo, ao mesmo tempo, numerosos traos de sua cultura
determinados pela influncia de muitos pases de antiga civilizao do nordeste
da frica e do sul da Arbia, sob seu domnio.




71   OLDEROGGE, D. A. 1972. pp. 195-203.
72   ANFRAY, F. 1974. pp. 761-5.
73   CAQUOT, A. & DREWES, A. J. 1955; DORESSE, J. 1960.
Axum cristo                                                             425



                             CAPTULO 16


                           Axum cristo
                            Tekle Tsadik Mekouria




    At o sculo XVIII, a religio ocupou lugar de relevo em todas as sociedades
humanas. O monotesmo foi geralmente precedido pelo politesmo, e os atuais
centros cristos foram outrora beros do paganismo. Nenhuma nao adotou o
cristianismo sem antes passar por um perodo de paganismo.
    A Etipia no constitui exceo a essa regra. Por conseguinte, no teve o
privilgio de entrar no mundo monotesta sem primeiro praticar as mais diversas
formas de culto. Num pas como esse, onde a dominao estrangeira nunca se fez
presente por muito tempo, nada mais natural que a coexistncia de numerosos
cultos e sua transmisso de pai para filho.
    Entre os antigos habitantes da Etipia, os grupos cuxitas (Beja e Aguew)
no assimilaram a cultura semita da classe governante, entregando-se  adorao
de diversos objetos da natureza: rvores gigantescas, rios, lagos, montanhas
elevadas, animais. Acreditavam que esses objetos abrigavam espritos bons ou
maus, aos quais se devia consagrar oferendas e sacrifcios anuais ou sazonais.
    As tribos de origem semita que no herdaram o culto cuxita, assim como
os cuxitas semitizados, donos de uma cultura razoavelmente desenvolvida
em relao  dos grupos anteriores, veneravam a natureza em suas formas
celestiais e terrestres (o Sol, a Lua e as estrelas, os campos e a terra), sob os
nomes da trade Mahrem, Beher e Meder, rivais dos deuses estrangeiros ou
seminacionais da Arbia do Sul ou da Assria-Babilnia, como Almaqah,
426                                                                                     frica Antiga



Awbas, Astar. Estes, por seu turno, foram assimilados aos deuses gregos Zeus,
Ares e Posidon1.
    Essa assimilao algo arbitrria era incentivada por viajantes influentes,
que faziam a propaganda de seus prprios deuses, e admitida por alguns reis
axumitas de cultura grega, mas isso no abalou a importncia de Mahrem,
considerado como deus nacional. Conforme a lngua materna de cada um, o
Mahrem dos axumitas tanto podia ser chamado Zeus por um grego como mon
por um nbio de cultura egpcia. Em sua entrada triunfal no Egito, em -332,
Alexandre, o Grande, que se dizia filho de Zeus, foi recebido pelos sacerdotes
como filho de mon.
    Os antigos textos etopes, redigidos com base na tradio oral, e as investigaes
levadas a cabo a partir da poca do rei Amde Tsion (+1313 a +1342), afirmam a
existncia de um culto da serpente arwe paralelamente  prtica da lei de Moiss2.
A serpente era considerada um drago divino ou o primeiro rei Arwe-Negus, pai
da rainha de Sab, coisa que nenhum leitor moderno levaria a srio.
    Essa crena popular pertence decerto  histria lendria da Etipia antiga,
anterior ao incio de Sua histria autntica. Como ali, a histria antiga de
todas as naes  invariavelmente precedida de uma histria lendria. A loba
amamentando os dois primeiros reis de Roma  apenas um dentre muitos
exemplos. Quase sempre as verdades histricas e os milagres encontram-se to
inextricavelmente entrelaados que no se pode distingui-los.
    Entre os semitas vindos da Arbia do Sul, ancestrais dos Tigre e dos Amara,
que viviam no altiplano, a presena de vrios cultos de inspirao sul-arbica,
citados confusamente pelos viajantes,  confirmada por documentos epigrficos
e numismticos.
    Aps os trabalhos de Bruce, Salt, A. Dillmann e outros, a obra monumental
da misso alem de 1906 (impressa em 1913) e as sucessivas descobertas dos
arquelogos do Instituto Etope de Arqueologia, fundado em Adis Abeba em
1952, lanaram as bases do conhecimento aprofundado dos cultos axumitas da
poca pr-crist. O templo de Yeha (que ainda se acha de p), estelas dispersas,
stios de castelos e objetos votivos atestam a prtica desses cultos na corte de
Axum antes de sua converso ao cristianismo.



1     LITTMANN, E., KRENCKER, D. & LUPKE, T. von. 1913. pp. 4-35; CONTI-ROSSINI, C. 1928.
      pp. 141-4; DROUIN, E. A. 1882. LONGPRIER, A. de. 1856-74. p. 28
2     Coleo do Degiazmetch Haylon, Tarike Neguest, guardada em Paris. n. 143, pp. 23-35; TAMRAT, T.
      1972. pp. 21-30.
Axum cristo                                                                      427



    No entanto, ainda falta esclarecer se esse tipo de culto relativamente
desenvolvido  de domnio exclusivamente real e aristocrtico ou tambm popular.
Sobre a existncia do judasmo na Etipia, inmeros fatores testemunham a
presena de um grupo que professava a religio hebraica; a histria dos reis,
Tarike Neguest, menciona-o brevemente. Esse grupo teria inclusive governado
durante algum tempo.
    Mesmo deixando de lado a narrativa do Kbre Neguest (Glria dos Reis),
considerado pelos clrigos etopes como um livro basilar de histria e literatura,
e no qual todos os reis de Axum so erroneamente ligados a Salomo e Moiss,
certas tradies, transmitidas atravs dos sculos, aludem  presena de fiis da
religio judaica. Os indcios so a circunciso e a exciso infantil, alm do relativo
respeito pelo sab. Os cantos sagrados e as danas litrgicas acompanhadas de
tambores, sistros e palmas evocam a dana dos judeus e do rei Davi diante da
arca da aliana.
    Mas, com a introduo do cristianismo, precedida ou seguida de uma
transferncia de poder para outros grupos (sabeus, habesan, etc.), os judeus, como
em todos os lugares, foram vtimas de preconceitos e violncias e por isso se
entrincheiraram em regies de difcil acesso. O massacre dos cristos de Najran,
no sculo VI, na Arbia do Sul, e a sublevao dos Falacha no sculo X parecem
relacionados com os maus-tratos infligidos aos judeus que habitavam o Imprio
de Axum, predominantemente cristo, ou com as reaes suscitadas por sua
hegemonia econmica e poltica na Arbia.


    A introduo do cristianismo em Axum
   A religio fundada por Cristo na Palestina e propagada por seus adeptos
em todos os imprios do Ocidente e do Oriente vai encontrar a corte de Axum
entregue a um culto politesta, seguido pelos cuxitas, e a uma religio sul-arbica,
praticada pelos semitas e cuxitas semitizados.
   Segundo os textos apcrifos dos Atos dos Apstolos, redigidos por um certo
Abdias, parte da populao acredita equivocadamente que So Mateus foi
o primeiro a levar o cristianismo  Etipia. Essa tese no  confirmada por
nenhum documento fidedigno.
   A histria dos reis, Tarike Neguest, atribui ao famoso Frumncio o privilgio
de ter introduzido o cristianismo no pas. Frumncio viria a ser chamado
Iluminador ("Kessate Brhan") ou "Abba Selama", que significa "Pai da Paz". A
chegada de Frumncio  Etipia, sua partida para Alexandria e seu retorno a
428                                                                         frica Antiga



Axum so descritos pormenorizadamente por Eusbio e Rufino. A obra deste
ltimo, que trata especialmente da introduo do cristianismo na Etipia, foi
posteriormente traduzida em ges e amrico.
    Segundo Rufino, um certo Merpio de Tiro desejava ir s ndias (a exemplo
do filsofo Metrodoro) com dois jovens parentes, Frumncio e Edsio. Na
volta, ao aproximar-se de um porto (no mar Vermelho?), seu barco foi atacado
pela populao. Merpio morreu e os dois jovens irmos foram conduzidos
at o rei de Axum. O mais jovem, Edsio, tornou -se escano, enquanto
Frumncio, graas  sua cultura grega, fez-se tesoureiro, conselheiro do rei
e tutor de seus filhos. Considerando-se a data de chegada dos dois jovens,
 de crer que esse rei tenha sido Elle Ameda, pai de Ezana. Aps a morte
de Elle Ameda, sua esposa tomou-se regente e pediu aos dois jovens para
permanecerem com ela a fim de administrar o pas at que seu filho estivesse
em idade de reinar.
    E assim Frumncio pde educar o jovem prncipe no amor  nova religio.
Tendo preparado o terreno ao cultivo do cristianismo, Frumncio retirou-se
com seu irmo Edsio, que retornou a Tiro para assistir seus parentes idosos.
Frumncio dirigiu-se a Alexandria, onde visitou o patriarca Atansio e lhe
participou a boa acolhida dispensada ao cristianismo pela famlia real de Axum,
instando-lhe para enviar um bispo quele pas. O patriarca no queria enviar
algum que desconhecesse a lngua e os costumes do lugar, e assim consagrou
Frumncio bispo de Axum. De volta  Etipia, coube a Frumncio a honra de
batizar o rei e toda a famlia real3.
    Foi, portanto, a partir dessa data que o cristianismo se propagou em Axum.
O primeiro rei cristo, educado e depois batizado pelo bispo Frumncio, parece
ter sido Ezana, filho de Elle Ameda. Tudo indica que o exemplo do rei e da
famlia real foi amplamente seguido. Todavia,  lcito perguntar como um
simples secretrio e tesoureiro do rei, e depois assistente da rainha-me (Sofia?),
poderia ensinar a nova religio crist  que no era a da corte, ou seja, do Estado
 s crianas reais, em detrimento do invencvel Mahrem, o maior dos deuses,
ancestral do rei. Pode ser que Frumncio se tivesse mostrado hbil secretrio
e administrador de talento e que, como afirma Rufino, tenha influenciado
indiretamente em favor da religio crist os jovens prncipes confiados  sua
tutela. Mas essa influncia no bastaria para pr fim a uma religio solidamente
estabelecida e substitu-la sem provocar tumultos.

3     COSMAS INDICOPLEUSTES. pp. 77-8; BUDGE, E. A. W. 1966, pp. 142-50; CONTI-ROSSINI,
      C. 1928. pp. 145-60.
Axum cristo                                                                    429



    Sem negar o mrito de Frumncio, parece-nos mais correto atribuir a mudana
de religio a outro fator. Graas aos documentos epigrficos e numismticos,
assim como s narrativas de viajantes, sabe-se que a corte de Axum mantinha
relaes amigveis com Constantinopla. As trocas comerciais e culturais entre os
dois pases eram considerveis; a presena de etopes em Constantinopla durante
o reinado de Constantino  mencionada no livro Vita Constantini, de Eusbio;
o emprego da escrita e da lngua gregas na corte de Axum tambm no deixa
de ser significativo: o rei Zoscales, do sculo I da Era Crist, falava e escrevia o
grego, a exemplo do prprio Ezana, o que mostra a preponderncia da cultura
grega no reino axumita4.
    O imperador de Constantinopla, Constantino, o Grande, que venceu
Maxncio em 312 e presidiu o Conclio de Niceia em 325, era contemporneo
de Elle Ameda e de Ezana. O esplendor de sua corte e sua inclinao pelo
cristianismo, relatados e engrandecidos por outros viajantes alm de Frumncio,
e no citados nos anais, devem ter exercido grande influncia na corte de Axum
e no prprio Frumncio  greco-fencio de nascimento, criado nessa cultura e
religio , que, finalmente, encontrou o rei e sua famlia dispostos a acolher a
nova f, j difundida na corte de Constantinopla.
    Provavelmente, no foi sem dificuldade que a corte axumita deu esse passo.
A partida de Frumncio para Alexandria e seu regresso a Axum como bispo
parecem ter ocorrido num clima de dvida e apreenso, de que o prelado no
deixou de tirar proveito.
    Seja como for, trado por seu prprio filho, Mahrem  descrito como
"invencvel para os inimigos"  foi vencido por Cristo. O triunfo do signo da
cruz sobre o crescente  atestado j pelas inscries, j pelas moedas.
    A mudana de uma religio para outra nunca  fcil, particularmente para
os reis axumitas, que amavam seu deus como ao prprio pai. A honra de um rei
estava sempre ligada a seu deus, e os interesses da corte e dos chefes religiosos
geralmente se identificavam. Quando um rei como Ezana qualificava seu deus de
"invencvel", estava na verdade pensando em si mesmo. Mediante esse atributo,
buscava ele sua prpria invencibilidade.
    Podemos, por conseguinte, imaginar as dificuldades que Ezana teve de
enfrentar, a exemplo de seu contemporneo Constantino, o Grande. Pois, na
verdade, o imperador de Constantinopla, embora presidisse conclios cristos e
arbitrasse disputas religiosas dos patriarcas, s veio a ser batizado em seu leito


4   SCHOFF, W. H., trad. 1912. pp. 60-7.
430                                                                                    frica Antiga



de morte, porquanto temia ser trado pelos adeptos dos antigos cultos de Zeus
e de Ares5.
    Do mesmo modo, como observaram Guidi e Conti-Rossini, o rei Ezana e
sua famlia, por temor ou amor-prprio, no abandonaram repentinamente o
culto de seu antigo deus em favor da religio crist. A famosa inscrio registrada
pela expedio alem em Axum (DAE, n. 2) que se inicia com as palavras "Com
a ajuda do Senhor do cu e da terra ...", considerada por todos os etopes como
o primeiro testemunho de Ezana sobre sua converso ao cristianismo, mostra
explicitamente seu desejo de assimilar a nova religio  velha crena nos deuses
Beher e Meder, evitando mencionar o nome de Cristo, sua unidade com Deus
e a trindade que ele forma com o Pai e o Esprito Santo6. A expresso "Senhor
do cu e da terra"  Igzia Semay Wem , pronunciada pela primeira vez no sculo
IV pelo primeiro rei cristo, continuou a ser usada at hoje.
    Nem as obras estrangeiras nem os escritos locais j publicados fornecem uma
indicao precisa quanto  data de introduo do cristianismo em Axum. Tanto
a histria dos reis, Tarike Neguest, como o Guedel Tekle Haymanot afirmam que
os irmos Frumncio e Edsio chegaram em 257 da Era Crist, ao passo que o
regresso do primeiro a Axum como bispo se teria dado em 3157. Outras fontes
do as datas de 333, 343, 350, etc. Todas essas datas afiguram-se arbitrrias.
Algumas obras estrangeiras assinalam que o rei Elle Ameda, pai de Ezana,
morreu por volta de 320-25. Fixando-se a maioridade em quinze anos e levando-
-se em conta a partida e o regresso de Frumncio, o batismo do rei Ezana teria
ocorrido entre 350 e 3608.
    Na falta de documentos autnticos, os autores contemporneos limitam-
-se, por prudncia, a afirmar que a introduo do cristianismo na Etipia se
deu no sculo IV. De fato, uma inscrio em caracteres gregos, descoberta em
Filas, menciona a visita feita em 360 por um vice-rei axumita  um cristo de
nome Abratoeis  ao imperador romano, que o recebeu com todas as honras
devidas  sua posio9. Trata-se por certo de Constantino II (341 a 368), filho
de Constantino, o Grande. Conquanto cristo, adotara ele a doutrina de rio,
que negava a unidade e a consubstancialidade das trs pessoas da Santssima
Trindade, e por consequncia a igualdade perfeita de Jesus Cristo com o Pai. O


5     EUSBIO DE PANFLIA. 1675. pp. 65, 366-8, 418-22.
6     CERULLI, E. 1956. pp. 16-21.
7     BUDGE, E. A. W. 1928. pp. 147-50; GUIDI, I. 1896. pp. 427-30; id. 1906. v. II.
8     CONTI-ROSSINI, C. 1928. pp. 148-9.
9     CONGRESSO INTERNAZIONALE DI STUDI ETIOPICI. Accademia dei Lincei, 1974. v. I, p. 174.
Axum cristo                                                                       431



Conclio de Niceia, reunido em 325 e presidido pelo prprio pai de Constantino
II, havia condenado essa doutrina.
    O implacvel adversrio de rio era justamente Atansio, que consagrara
Frumncio bispo de Axum. Em seguida o prprio patriarca foi demitido de suas
funes, por ordem do imperador semi-apstata, que nomeou em seu lugar um
certo Jorge, bastante favorvel ao arianismo.
    A notcia do regresso de Frumncio a Axum no deve ter agradado ao
imperador de Constantinopla, j que o novo bispo era adepto fervoroso do
patriarca Atansio. O imperador no demorou a enviar uma carta ao rei Ezana
e a seu irmo Saizana, tratando-os generosamente de "honorveis irmos".
Pedia-lhes amigavelmente para reenviar Frumncio ao novo patriarca Jorge,
em Alexandria, a fim de que este e seus colegas examinassem o seu caso, uma
vez que estavam investidos do poder de decidir se Frumncio era ou no digno
de dirigir o episcopado de Axum.
    Infelizmente no possumos o documento que poderia revelar qual foi a reao
dos dois irmos ao receber a carta. Embora o interesse nacional os impelisse
a manter relaes amigveis com o poderoso imperador de Constantinopla,
os dois irmos no parecem ter concordado com o pedido. As fontes locais
so unnimes em afirmar que Frumncio prosseguiu pacificamente sua obra
episcopal at o fim de sua vida. O Synaxarium (espcie de biografia dos santos),
que relata seu apostolado, termina assim:
     "[...] Ele [Frumncio] chegou ao pas de Ag'Azi [Etipia] durante o reinado de
     Abraha e Atsbaha [Ezana e seu irmo Atsbaha] e pregou a paz de Nosso Senhor
     Jesus Cristo em todo o pas. E por essa razo que ele  chamado Abba Selama [Pai
     da Paz]. Depois de haver conduzido o povo da Etipia  f [crist], ele morreu na
     paz de Deus [...]"10.


     A expanso do cristianismo
   A introduo e a propagao do cristianismo pelo bispo Frumncio, secundado
pelos dois reis-irmos (Abraha-Atsbaha), so amplamente reconhecidas. Todas
as fontes locais corroboram isso. Curioso que nos numerosos textos relativos
a essa poca, redigidos antes do fim do sculo XIX, no se encontra o nome
de Ezana, que parece ter sido o nome pago do rei. Do mesmo modo, ao que


10   MEKOURIA, T. T. 1966-7. v. II, pp. 203-17.
432                                                                   frica Antiga



sabemos, nenhuma inscrio epigrfica e numismtica faz aluso a Abraha, que
se supe ser seu nome de batismo. Em consequncia, temos nomes diferentes
para designar o mesmo homem que, por sorte ou azar, foi, como Constantino,
o Grande, meio pago e meio cristo durante o seu reinado. Os textos quase
sempre apresentam flagrante contradio. Os nomes de vrios reis gravados
claramente nas estelas e nas moedas axumitas no figuram nas listas compiladas
pelos autores do pas. Um homem que era pago para uns autores, para outro
era crente segundo a lei de Moiss.
    Posto alguns considerem Abraha como o nome de batismo de Ezana, a famosa
inscrio em ges vocalizado, com o registro de n 2 no DAE e considerada
por todos os especialistas etopes como a epgrafe do tempo de sua converso
ao cristianismo, cita apenas o nome Ezana. Nesse caso, Abraha no pode ter
sido seu nome de batismo. Evidentemente, no sabemos qual era o sistema
onomstico em vigor no reino de Axum no sculo IV. Tampouco sabemos se
os reis axumitas tinham tambm um nome prprio na infncia, alm do nome
de batismo e de outro, real, como acontecia com os imperadores das dinastias
amara de origem dita salomnica (sculos XIII e XX).
    A influncia dos dois irmos, especialmente a de Abraha, foi imensa no
pas. A ele se deve a construo da cidade de Axum e de sua primeira catedral.
Inmeras igrejas e conventos gabam-se de ter sido fundados por ele, sem esquecer
a importante participao de seu irmo Atsbaha e do bispo Frumncio nessa
obra, assim como de outros religiosos, no mencionados nas fontes.
    O reino cristo de Axum parece ter sido governado por uma sorte de
triunvirato do tipo teocrtico, "ABRAHA-ATSBAHA-SELAMA", sendo
Selama o nome atribudo pelos religiosos a Frumncio.
    A primeira ao de propaganda em favor da nova religio deve ter recebido
boa acolhida junto a uma parte da populao, ligada  corte por laos tnicos e
culturais. Trata-se dos sabeus, dos habesan e dos himiaritas de origem semtica,
ancestrais dos Tigre e dos Amara, que aceitaram de bom grado a religio de
seus senhores.
    Aps a introduo do cristianismo,  medida que se iam multiplicando as
adeses  nova f, amiudaram-se as viagens de religiosos aos lugares santos.
Em carta expedida de Jerusalm em 386, uma certa Paola escrevia  sua amiga
Marcella, que vivia em Roma: "Que dizer dos armnios [...] dos povos hindu
e etope, que acodem a este lugar [ Jerusalm], onde mostram virtude exemplar
Axum cristo                                                                                    433




figura 16.1 O bispo Frumncio, o rei Abraha (Ezana) e seu irmo Atsbaha, igreja de Abraba we Atsbaha
(sculo XVII).
434                                                                                         frica Antiga



[...]". So Jernimo, doutor da Igreja latina, tambm alude  contnua chegada
de etopes aos lugares santos11.
    Mas a expanso do cristianismo no reino de Axum durante os sculos V
e VI foi obra de religiosos que todos os textos tradicionais qualificam como
TSADKAN ( Justos) ou TESSEATOU KIDOUSSAN (Nove Santos). Sua
chegada ao reino de Axum, porm, est associada s disputas teolgicas que por
essa poca eclodiam nas grandes cidades do Imprio Bizantino.
    Nascida num pequeno povoado da Palestina, a f crist, que se apresentava
como a religio dos pobres e perseguidos, tornou-se a religio dos Estados
a partir do momento em que Constantino promulgou em Milo, em 313, o
dito a favor do cristianismo. Apoiadas pelos imperadores cristos, as igrejas
se organizaram. Os papas e os patriarcas partilharam entre si as regies do
imprio cristo do Oriente e do Ocidente. A poca das perseguies e da caa
s bruxas, sob o reinado de Diocleciano, estava encerrada para sempre. A paz
reinava em Roma, Alexandria, Damasco, Antioquia e em todos os lugares onde
a perseguio se mostrara mais violenta12.
    Os patriarcas e os doutores da Igreja levavam uma vida relativamente
agradvel, passando a maior parte do tempo a ler os livros sagrados e a examinar
certas passagens capazes de esclarecer a natureza do fundador da religio crist.
As leituras e meditaes inspiravam interpretaes suscetveis de semear a
diviso entre os cristos. Desse modo, a religio fundamentada no amor, na
paz e na fraternidade veio a transformar-se em terreno de luta, a ponto de os
sucessores dos apstolos e dos mrtires brigarem entre si de tempos em tempos.
    A reflexo aprofundada sobre a natureza de Cristo (Deus-Homem) e a
Santssima Trindade converteu-se numa fonte de discrdia, como veremos adiante.
    Aps a condenao de rio, em 325, foi a vez do patriarca de Constantinopla,
Nestrio, suscitar uma grande polmica, ao professar publicamente a humanidade
de Cristo, em oposio  doutrina, estabelecida em Niceia, que sustentava a
natureza divina de Cristo13. Segundo ele, as duas naturezas de Cristo (humana
e divina) eram perfeitamente distintas e separadas. A Virgem Maria era a me
de Cristo apenas enquanto homem, e no enquanto Deus; por isso no deveria
ser chamada "Theotokos", ou Me de Deus, seno apenas "Christotokos", Me
de Cristo.


11    CERULLI, E. 1943. pp. 1-2.
12    No se esquea que os sculos V, VI e VII foram marcados por controvrsias teolgicas extremamente
      violentas, acompanhadas de novas perseguies de grupos minoritrios anteriormente condenados.
13    Este  necessariamente um resumo bastante condensado da histria da Igreja durante aquele perodo.
Axum cristo                                                                  435



    A essa proposio opuseram-se energicamente o patriarca de Alexandria,
Cirilo, e o papa Celestino, de Roma. Em feso (431), Nestrio foi julgado
hertico e condenado  priso.
    Seu sucessor, Flaviano, patriarca de Constantinopla, sem negar que Cristo
fosse o verdadeiro Deus, props uma nova ideia sobre as duas naturezas de
Cristo (humana e divina). Segundo ele, cada uma das duas naturezas de Cristo
era perfeita e distinta, conquanto unidas na pessoa de Cristo. Discoro, patriarca
de Alexandria, ops-se imediatamente a semelhante proposio. Cristo, dizia
ele, possui uma natureza nica, ao mesmo tempo humana e divina: trata -se
do monofisismo, cujo principal representante foi o sbio Eutquio. A cerrada
discusso degenerou em tumulto durante o conclio reunido em feso no ano
de 442. Do violento debate que ento se travou saram vitoriosos Discoro e
Eutquio. O perdedor veio a falecer em consequncia das bastonadas de seus
adversrios, e Discoro regressou triunfante a Alexandria.
    Mas essa vitria de Pirro dos adeptos do monofisismo no duraria muito.
Morto seu aliado imperial, Teodsio II, o general Marcio tomou o poder, e a
candente questo da natureza de Cristo foi novamente levantada. Um conclio
composto de 636 prelados e doutores da Igreja reuniu-se em Calcednia em
451, sob a presidncia do imperador Marcio. To confusa se tornou a discusso,
que era impossvel discernir vencedor ou vencido. A questo teve de ser levada
ao papa de Roma, considerado o chefe supremo de todas as igrejas. O papa
Leo, o Grande, declarou-se numa carta favorvel  doutrina das duas naturezas
distintas de Cristo. Desse modo Discoros foi condenado pelo conclio. Seus
adversrios, escorados no testemunho do chefe supremo da Igreja universal e
apoiados pelo imperador Marcio, chegaram a trat-lo rudemente para vingar os
maus-tratos infligidos ao patriarca Flaviano. Em seguida, Discoros foi banido
para uma ilha da Galcia.
    Como se sabe, desde a poca de Frumncio o reino de Axum estava sob
a jurisdio do patriarcado de Alexandria, donde procediam os bispos e a lei
cannica. Por conseguinte, os reis e bispos de Axum eram naturalmente partidrios
do monofisismo, que na Etipia viria a receber o nome de TEWAHDO. A
notcia dos maus-tratos infligidos a seus patriarcas despertou um grande dio
contra os partidrios da doutrina das duas naturezas de Cristo. A vida dos
monofisitas tomou-se insuportvel em todo o Imprio de Constantinopla,
porquanto os vencedores de Calcednia no cessavam de dirigir-lhes ameaas
e injrias. Para escapar a essa existncia intolervel, os monofisitas viram-se
compelidos a fugir para o Egito e a Arbia. Foi por essa poca que os famosos
436                                                                        frica Antiga



Nove Santos chegaram ao reino de Axum, onde procuraram refgio junto aos
adeptos da mesma doutrina.
    A histria dos reis, Tarike Neguest, faz breve aluso  chegada dos Nove Santos:
"Sal'adoba deu  luz All'Ameda, e durante o seu reinado chegaram de Roma
[Constantinopla] os Nove Santos. Eles consolidaram [Asterat'ou] a religio e as
leis monsticas"14. De acordo com algumas fontes locais, All' Ameda reinou entre
460 e 470, e, segundo outras, entre 487 e 497. Pode-se, pois, situar entre essas datas
a chegada dos santos. Alguns autores acreditam que sua vinda se deu no sculo VI
(na poca de Caleb e de Guebre Meskel), o que parece menos provvel.
    A chegada e o apostolado de alguns desses santos  Aregawi, Penteleon,
Guerima e Aftse  foram posteriormente descritos por religiosos em
biografias pormenorizadas. Infelizmente esses textos contm tantos milagres e
manifestaes de austeridade e penitncia que o leitor moderno fica um pouco
ctico quanto  sua verossimilhana.
    Os santos levaram seu apostolado a vrios lugares: Abba Aregawi subiu
at Debre-Damo, onde o culto da Pton parecia fundamente arraigado entre a
populao nativa. Abba Guerima estabeleceu-se em Mettera (Madera), perto de
Senafe, e Abba Aftse em Yeha, onde ainda se pode ver o antigo templo dedicado
ao deus Almaqah (sculo V). Penteleon e Likanos permaneceram na cidade
de Axum, enquanto Alef e Tsihma se dirigiram a Bhzan e Tseden Tsedeniya;
Ym'ata e Gouba fixaram-s na regio de Guerealta.
    Nos lugares onde eles viveram ainda se podem contemplar os conventos e
igrejas que lhes foram consagrados. Alguns se encontram talhados em rochas
gigantescas, s acessveis por corda. No convento de Abba Ym'ata, tambm
construdo sobre um rochedo, em Goh (Guerealta), existe uma pintura circular
representando os Nove Santos.
    O cristianismo, introduzido por Frumncio no sculo IV, foi consolidado por
esses santos, obviamente com o apoio dos sucessores do rei Ezana, como Caleb
e Guebre Meskel, cristos fervorosos. Em seu ensinamento do Evangelho, os
Nove Santos defenderam a doutrina monofisita, por cuja causa tantos cristos
foram maltratados e exilados.
    No entanto, a difuso do cristianismo no se deveu apenas a esses nove
religiosos vindos do Imprio Bizantino. Guiados por bispos, como o famoso
Abba Metta'e, centenas de religiosos nativos e estrangeiros certamente ajudaram
a propagar a f crist, muito embora no lhes coubesse o privilgio, como aos


14    EMIN BEY. Manuscrito guardado na Bibliothque Nationale, Paris.
Axum cristo                        437




figura 16.2    Debre-Damo visto a
distncia.
Figura 16.3 O acesso ao convento
em Debre-Damo.
438                                                                    frica Antiga



Nove Santos, de terem seus nomes mencionados nos anais15. Partindo das
regies setentrionais, o cristianismo foi implantado em outras provncias, como
Begemdir, Gogiam, Choa, entre os Beja e os Amara. A religio beneficiou-se do
fiel apoio dos reis, rainhas, prncipes, governadores e dignitrios da Igreja, que
mandavam construir conventos e igrejas nos lugares onde outrora floresceram
os cultos tradicionais.
    Os templos dos deuses da poca pr-axumita ou axumita pr-crist eram
quase sempre construdos em lugares elevados, junto a grandes rvores e
regatos. Debre-Damo, Abba Penteleon, Abba Metta'e de Chimzana e Yeha so
testemunhos desse fato. Aps a converso dos reis axumitas, todos esses templos
foram transformados em igrejas.
    Resta saber em que lngua esses religiosos, vindos de todos os cantos do
Imprio Bizantino, ensinavam o Evangelho. As pessoas das classes superiores,
ligadas  corte, eram mais ou menos poliglotas e falavam o grego, o srio ou o
rabe; nesse caso no parece ter havido nenhum problema lingustico. Mas os
religiosos estrangeiros eram obrigados a estudar a lngua do pas para se fazer
entender pelo povo em geral. Pode ser que entre os peregrinos que iam aos
lugares santos, como Jerusalm, Constantinopla e Alexandria, alguns falassem
o grego ou o srio, podendo assim servir de intrpretes para o povo ou ento
ensin-lo diretamente.
    Isso explicaria o fato de encontrarmos em diversos textos religiosos etopes
nomes de estilo grego e palavras srias, como: Arami (Aramene), Arb, Haymanot,
Halti, Mehayn, Melak, Melekot, etc. (pago, sexta-feira, f, pecado, crente, anjo,
divindade).


      O reino de Axum e a Arbia meridional
    H muito se sabe que os povos de origem semita, atravessando o mar
Vermelho, instalaram-se na Etipia setentrional. provavelmente  procura
de terras mais frteis e mais ricas do que as de seu pas desrtico. Os recm-
-chegados possuam civilizao superior  dos povos indgenas (em sua maioria
Beja, Aguew, etc., de origem cuxita) e acabaram por assumir o poder, fundando
as cidades de Yeha, Matara, Axum, etc.
    Outros grupos da mesma origem (sabeus, himiaritas) permaneceram em sua
terra natal, enquanto os que atravessaram o mar Vermelho se tornaram cada

15    GUIDI, J. 1896. pp. 19-30.
Axum cristo                                                                  439



vez mais poderosos, a ponto de o governo central de Axum ser considerado por
alguns como o terceiro poder no mundo. Os castelos reais, os templos, os discos
e crescentes, smbolos dos deuses Mahrem e Almaqah, atestam a identidade dos
dois povos que viviam em ambas as margens do mar Vermelho16.
    Esse parentesco tnico e cultural explica, em larga medida, a conquista da
Arbia meridional pelos axumitas, que a consideravam seu lugar de origem, e por
que, em seus ttulos formais, o rei Ezana dava grande nfase ao ttulo de "rei de
Axum, de Himiar, de Sab [...]", distinguindo-se dos que se autodenominavam
"Kasu, Siyamo e Beja ... ", vindos das regies ocidentais ou simplesmente nativos
dos territrios cuxitas.
    At princpios do sculo IV o povo semita que habitava as duas margens do
mar Vermelho praticava as mesmas religies tradicionais, isto , o culto da lua,
que tinha por smbolo o crescente, at hoje venerado pelos Estados muulmanos.
O profeta Maom provavelmente no obrigou os convertidos a abandonarem
esse smbolo, enquanto os bispos de Axum pressionaram os reis cristos no
sentido de substitu-lo pelo smbolo da cruz.

     Conflito entre cristos e judeus na Arbia do sul
    Outros grupos que professavam a religio hebraica viveram nessa regio
da Arbia do sul durante muito tempo, talvez desde a destruio de Jerusalm
por Nabucodonosor, em -587, e sua ocupao pelos lgidas. Mas seu nmero
aumentou sobretudo aps a terceira destruio de Jerusalm, pelo imperador
Tito, no ano 70 da Era Crist. Perseguidos pelos romanos, os judeus foram
acolhidos por seus compatriotas estabelecidos na Arbia do sul.
    Alm disso, muitos monofisitas abandonaram o Imprio Bizantino e buscaram
refgio na Arbia aps os conclios de Niceia e principalmente de Calcednia,
quando os arianos foram condenados e perseguidos. Nesse pas, com a ajuda dos
reis e dos cristos de Axum, eles fundaram uma poderosa comunidade. Sob o
reinado de Justino I (518-27), numerosos srios monofisitas expulsos por ordem
do imperador dirigiram-se a Hira (al-Nadjaf, no atual Iraque) e dali atingiram
a Arbia do sul, instalando-se em Najran 17.
    Nessas duas comunidades de judeus e cristos inclua -se todo o grupo
rabe  iemenitas, catabnicos, hadramuticos, etc. , que conservara o culto
tradicional da lua e se mostrava naturalmente atrado pelo florescente recinto


16   CONTI-ROSSINI, C. 1928. cap. 4.
17   BUDGE, E. A. W. 1928-b. I, pp. 261-9.
440                                                                                     frica Antiga




figura 16.4    Pintura da igreja de Goh: os Apstolos (sculo XV).



da Caaba. Maom, fundador do islamismo e destruidor de dolos, ainda no
havia nascido. Os trs credos eram obrigados a viver lado a lado. Graas,
porm,  inestimvel ajuda dos axumitas, os cristos, alm de ver aumentado
seu nmero, puderam desenvolver e organizar sua comunidade. Muitas igrejas
foram construdas. Najran e Zafar (Tafar) converteram-se em grandes centros
culturais cristos18 e em importantes postos de comrcio19.


18    BUDGE, E. A. W. 1928-a. pp. 743-7.
19    Sobre esse ponto, ver o importante estudo feito por N. PIGULEVSKAYA, 1969, que foi traduzido do
      russo.
Axum cristo                                                                  441



    Por sua vez, os judeus, com o talento que manifestavam em todos os domnios,
formaram tambm uma comunidade em Sab e em Himiar e procuraram
controlar o comrcio. Acendeu-se assim uma acentuada rivalidade entre cristos
e judeus. Os primeiros consideravam os judeus como deicidas condenados s
chamas do inferno; os segundos insultavam os cristos, chamando-os de Goyim,
gentios e pagos adoradores do homem.
    Os sucessos obtidos pelos cristos, aliados de Axum e de Bizncio, e os
maus-tratos infligidos aos praticantes da religio judaica desenvolveram violenta
capacidade de rplica nas comunidades judaicas da Arbia do sul. Os rabes que
se conservavam fiis aos cultos tradicionais viram-se tambm ameaados pelo
monoplio das relaes comerciais pelos cristianizados20, acabaram se colocando
ao lado dos judeus. Ademais, o proselitismo dos cristos pode ter servido para
aproximar as duas religies, ameaadas pelo imperialismo cultural e religioso
do cristianismo.

     Massacre dos cristos de Najran pelos judeus
    Ao tempo em que Justino I reinava em Bizncio, Caleb era imperador de
Axum. Foi nessa poca que os judeus, ajudados pelos himiaritas, massacraram
os cristos de Zafar e Najran. O fato  narrado principalmente pelos autores
religiosos da poca, Procpio e Srgio21. Nesses textos, o rei, denominado Caleb
no original ges, recebe o nome grego de Hellesthaios. s vezes o nome muda
para Elle Atsbaha, talvez uma forma arabizada da mesma palavra. Encontra-se
tambm a variante Hellesbaios. Analogamente, o rei judeu de Himiar, conhecido
como Zurah ou Masruc, recebeu o nome judeu de Yussuf quando assumiu o
poder, sendo chamado pelos autores rabes de Dhu-Nuwas ou ainda Dunaas,
Dimnos, Dimion ou Damianos22. No texto etope que narra a histria do
massacre de Najran ele recebe o nome de FINHAS. Para no confundir o leitor,
neste captulo chamaremos Caleb ao rei de Axum, e Dhu-Nuwas ao rei judeu.
    Srgio  que afirma ter obtido suas informaes junto a testemunhas
oculares  d ao evento a seguinte verso, traduzida para o italiano por Conti-
-Rossini em sua Storia di Ethiopia. O rei dos himiaritas, Dhu-Nuwas ou
Masruc, apoiado pelos judeus e pelos pagos, comeou a perseguir os cristos.
O bispo Thomas foi ento  Abissnia em busca de socorro e o obteve. Os


20   PIGULEYSKAYA, N. 1969. p. 211 et seq.
21   N. PIGULEYSKAYA, baseia-se em outras fontes.
22   CONTI-ROSSINI, C. 1928. pp. 171-3.
442                                                                                          frica Antiga



abissnios, guiados por um certo Haywana, atravessaram o mar Vermelho e
prepararam-se para atacar Dhu-Nuwas. Este, incapaz de enfrentar semelhante
fora, assinou um tratado de paz com o chefe abissnio Haywana, o qual, aps
deixar no local parte de seu exrcito, regressou a seu pas. Como a maior parte
das tropas havia partido, Dhu-Nuwas massacrou traioeiramente os cristos
de Zafar e incendiou todas as igrejas, juntamente com os trezentos cristos
ali deixados como guarnio.
    Mas o massacre mais terrvel descrito pelos autores da poca ocorreu em 523
em Najran, o mais desenvolvido dos centros cristos. Entre os mrtires estava
um nobre venerado, o velho Harite (Aretas), que o texto ges chama de Hiruth23.

      A expedio martima do rei Caleb
    Caleb (Elle Atsbaha), filho de Tazena, foi o mais famoso imperador de sua
poca, podendo-se mesmo compar-lo a Ezana. Uma das razes de seu renome
foi a expedio martima que relataremos a seguir.
    Aps o massacre de 523, um nobre chamado Umayyah conseguiu voltar a
Axum, onde narrou ao rei Caleb e ao bispo o que acontecera aos cristos. Outros
cristos fugiram para Constantinopla e ali deram conta do que se passara ao
imperador Justino, que, por intermdio do patriarca Timteo, de Alexandria,
enviou uma carta a Caleb instando-lhe a vingar o derramamento de sangue
dos cristos.
    No  difcil imaginar o efeito que a notcia do massacre provocou nos
dois imperadores. Mas o pas de Sab e Himiar, como se sabe, era mais ligado,
tnica e culturalmente, ao Imprio de Axum do que ao de Bizncio. Portanto,
o rei Caleb tratou de reunir o quanto antes um exrcito capaz de assegurar-lhe
a vitria. Estima-se que ele obteve do imperador Justino24 120 mil homens e
sessenta navios de guerra25. Entretanto, outros autores afirmam que ele partiu
com seus prprios navios, que se achavam ancorados em Adulis, e que seu
exrcito no ultrapassava 30 mil soldados26.
    As fontes tradicionais contam que o rei, concludos os preparativos militares,
recolheu-se ao convento de Abba Penteleon  um dos Nove Santos, ento ainda
vivo  a fim de pedir a bno, para si prprio e pelo sucesso da batalha que logo


23    CONTI-ROSSINI, C. 1928. p. 172.
24    Esses nmeros so corretamente considerados imprecisos por PIGULEYSKAYA, N. 1969. p. 243.
25    Outras avaliaes referentes  origem desta frota so encontradas em PIGULEVSKAYA, N. 1969. p. 243.
26    CAQUOT, A. 1965. pp. 223-5.
Axum cristo                                                                   443



se travaria. O velho monge prometeu-lhe a vitria, e o rei dirigiu-se s praias
de Gabaza, no longe de Adulis, onde se executavam intensos preparativos
militares.
    Pelo fim do ms de maio (525), Caleb embarcou. Seus navios velejaram
para a Arbia do sul, onde os aguardava o rei himiarita. Mas, quando o rei e
seu exrcito se abeiravam do porto inimigo, encontraram-no bloqueado por
correntes e guardado por soldados prontos a defend-lo.
    Sem esperar pelo fim da batalha, o rei Caleb procurou outro local, mais
propcio ao desembarque de suas tropas. Por acaso, um dos parentes de Dhu-
-Nuwas, que havia sido capturado durante a batalha, informou-o da existncia
desse local. E assim o rei, acompanhado por uns vinte barcos, conseguiu
desembarcar, o que lhe permitiu afugentar o restante dos soldados do rei de
Himiar. Enquanto a maior parte do contingente prosseguia a luta, Dhu-Nuwas
caiu prisioneiro de Caleb, juntamente com sete companheiros. Caleb, ansioso
por vingar o massacre dos cristos, no hesitou em mat-lo imediatamente.
    Terminada a batalha, as tropas crists invadiram primeiro a cidade de Tafar
(Zafar) e depois Najran. Os soldados cristos devastaram o pas e massacraram
os inimigos de sua religio. Em meio  carnificina, os cristos que no sabiam
falar a lngua dos soldados desenhavam na mo o sinal da cruz, para mostrar
que tambm eram cristos e que suas vidas deviam ser poupadas27.
    Em Najran, Caleb assistiu a uma cerimnia em memria dos cristos
martirizados no massacre, e antes de regressar a Axum mandou construir em
Marib um monumento comemorativo de sua vitria28. Nessa cidade fez tambm
construir um monumento para que seu nome fosse sempre lembrado pelas
geraes futuras29.
    Ao retornar a Axum, o rei deixou em Zafar um certo Summyapha Awsa,
sob as ordens de Abreha, o mais renomado general cristo na corte de Axum e
na Arbia do sul.
    Um contingente de 10 mil homens foi deixado como guarnio. Aps a
vitoriosa campanha, Caleb recebeu acolhida triunfal em Axum, como se pode
imaginar. No entanto, em vez de saborear os frutos da vitria, esse rei religioso e
guerreiro retirou-se para o convento de Abba Penteleon a fim de levar uma vida
monstica, jurando nunca mais deix-la. Enviou sua coroa a Jerusalm, pedindo



27   IRFANN, S. 1971. pp. 242-76.
28   CONTI-ROSSINI, C. 1928. pp. 167-201.
29   BUDGE, E. A. W. 1966. pp. 261-4.
444                                                                               frica Antiga



ao bispo Yohannes para dependur-la diante da porta do Santo Sepulcro,
conforme o voto que fizera antes da campanha.
    As fontes antigas, umas de origem grega e outras rabes, e uma terceira
compilao, redigida no local a partir do sculo XVI, apresentam contradies
em relao ao que ocorreu durante essa expedio militar, assim como no tocante
aos nomes dos que participaram dessa vingativa empresa martima. Ademais,
conquanto certos textos afirmem ter havido apenas uma expedio, outros dizem
que Caleb regressou  Arbia, tendo obtido sua vitria final s depois de uma
segunda expedio. Mas isso no tem muita importncia para os leitores atuais.
    No deixa de ser admirvel a deciso do rei de abdicar depois de semelhante
vitria, a serem exatos os fatos relatados nos textos tradicionais. Todavia, um
outro texto afirma que Caleb permaneceu no poder at 542.  bem possvel,
caso a guerra contra Dhu-Nuwas tenha ocorrido na Arbia em 525, que ele
tenha reinado por mais dezessete anos aps sua volta a Axum, salvo erro
cronolgico30.


      Literatura
    Axum possua diversos alfabetos, usados pelos homens de letras e pela
administrao da corte. Algumas das estelas axumitas tinham inscries apenas
em sabeano ou em ges, outras em grego, mas raramente nessas trs lnguas ao
mesmo tempo. O sabeano constitua o alfabeto das tribos sabeanas, supostas
ancestrais dos axumitas, descritas no texto tradicional como Neguede Yoktan
(tribo de Yoktan)31, da qual descendem os atuais Amara, Tigre, Gurague, Argoba
e Harari (Aderes).
    A exemplo do ingls em nossos dias, o grego era a lngua mais difundida
naquela poca. Foi introduzido em Axum em consequncia das relaes culturais,
econmicas e polticas do reino com o Imprio Bizantino, principalmente
durante o governo dos reis que parecem ter tido nomes gregos: Zoscales,
Aphilas, Andibis, Sombrotus, etc. Finalmente, foi o ges, a princpio sem signos
voclicos e posteriormente vocalizado, que se tornou, a, partir dos sculos VI e
VII, a lngua nacional oficial dos axumitas, a lngua dos Aga'izyan  outro nome
adotado pelos nativos e que significa libertadores32.


30    MEKOURIA, T. T. 1966-b. pp. 2-7; CONTI-ROSSINI, C. 1928. pp. 108-9.
31    CERULLI, E. 1956. pp. 18-21.
32    BUDGE, E. A. W. 1966. pp. 136-7; CONTI-ROSSINI, C. 1928. Monete Aksumita Tabola LX.
Axum cristo                                                                   445



    Em geral, a lngua fornece teis indicadores ao investigador, mas por si s no
permite a identificao do grupo tnico. Com efeito, um nativo tanto poderia
ser de origem semita, de nacionalidade axumita e cultura grega, como de origem
beja ou blmia, de nascimento ou nacionalidade nbia e de cultura egpcia.
Assim, embora falando ou escrevendo o ges, no era necessariamente axumita.
    Aps a conquista rabe do Oriente Mdio e da frica do norte, no sculo VII,
o grego e o sabeano foram substitudos pelo ges, que passou a ser utilizado em
todos os crculos  civil, militar e religioso. A influncia do grego s se manteve
graas  traduo da Bblia para o ges, assim como de algumas obras dos Padres
da Igreja, como Cirilo de Alexandria e So Joo Crisstomo. Como ocorre
amide, os tradutores, no encontrando a palavra exata em ges, empregavam
por vezes palavras gregas. Foi assim que se desenvolveu a forma grega at hoje
usada na Etipia.
    Dada a total ausncia de pergaminhos manuscritos anteriores ao sculo
XIII, a literatura axumita autntica at aqui conhecida limita-se s inscries
epigrficas e numismticas. Por vezes certas epgrafes, parcialmente apagadas ou
mal gravadas; no fornecem sequer o sentido literrio que porventura permitiria
a reconstituio contnua de uma literatura autntica.
    A primeira inscrio a assinalar o incio da literatura axumita da poca crist
 a que o DAE registrou sob o n 2, na qual o rei Ezana, recm-convertido ao
cristianismo, narra sua vitria sobre o povo de Noba (os nbios), que lhe ousara
contestar o poder alm do rio Taqqase e a matana de seus emissrios. O senso
moral desse imperador pode ser entrevisto quando ele acusa "o povo de Noba de
haver maltratado e oprimido o povo de Mengourto, de Hasa, de Baria, os povos
de cor negra e vermelha (SEB'A TSELIME, SEB'A QUE'YH), de haver violado
por duas vezes o juramento feito ...". Isso se deve talvez  sua nova religio.
    No entanto, Ezana se vangloria de ter matado 602 homens, 415 mulheres e
vrias crianas, graas ao poder de seu novo Deus  que ele denomina "senhor
do cu e da terra, que foi o vencedor" , sem ter cometido nenhuma injustia.
Com isso ele parece querer dizer que o traioeiro povo de Noba merecera a
punio, por haver provocado a guerra33.
    A influncia do cristianismo assinala-se tambm nas numerosas moedas
mandadas cunhar pelo rei de Axum, nas quais o smbolo cristo da cruz
substitui o crescente, smbolo da antiga religio. Alguns reis axumitas, desejando
publicidade ou a simpatia de seu povo, gravavam em suas moedas as mais


33   CERULLI, E. 1956. pp. 222-3.
446                                                                    frica Antiga



inusitadas legendas. Assim, a moeda do rei Wazed ou Wazeba (filho do rei
Caleb, sculo VI) tinha sua efgie de um lado, e, do outro, a inscrio: "Que o
povo seja feliz". As moedas mais significativas so as do rei Lyouel, que, de
um lado, tm sua cabea coroada (com uma pequena cruz  direita da coroa)
e, do outro, uma cruz, a indicar que ele era um cristo fervoroso. Outra moeda
do mesmo rei apresenta a inscrio "Cristo est conosco"34, em ges, sem signo
voclico.  essa a primeira vez em que se menciona o nome de Cristo.
    O Velho Testamento foi gradualmente traduzido do grego para o ges no
decorrer dos sculos V e VI. A Bblia difundiu-se por toda a Etipia, e seu
ensinamento assumiu importncia vital na corte e nos crculos eclesisticos. Aos
poucos ela se tornou a nica base da cincia e da filosofia, sem, contudo, ofuscar
algumas obras dos Padres da Igreja.
    Aps o Conclio de Calcednia, reunido em 451, os Nove Santos e seus
discpulos chegaram  Etipia e consolidaram a influncia monofisita entre os
membros do clero etope.  por isso que a Igreja etope evitava sistematicamente
todas as outras obras, fosse qual fosse o seu valor, provenientes do Ocidente. A
propsito, vale lembrar o acordo entre Amr Ibn al'-As, companheiro do profeta
Maom, e os patriarcas Benjamim e Chenouda no cerco de Helipolis, em 640,
por ocasio da conquista do Egito. O dio contra o patriarca Mukaukis e os
que professavam a doutrina das duas naturezas de Cristo levou os monofisitas
egpcios a tomarem o partido dos muulmanos.
    Como ficou dito, a Bblia passou a ser a base de todo o conhecimento. Aps
a consolidao do cristianismo, at o incio do sculo XX, o erudito etope digno
desse nome devia ser no um bom conhecedor da cincia ou da filosofia greco-
-romana, mas da Bblia e das obras dos patriarcas Cirilo, So Joo Crisstomo
e de outros fundadores da Igreja, podendo coment-las em diferentes verses;
devia, alm disso, saber interpretar adequadamente os mistrios da encarnao
de Cristo e da Santssima Trindade de Deus.
    Durante a dinastia amara, que se supe descendente de Salomo e legtima
herdeira dos reis de Axum, os soberanos mais venerados foram Davi e seu filho
Salomo. Em seguida vm Alexandre, o Grande, Constantino, o Grande, e
Teodsio II, os dois ltimos em virtude do apoio que deram ao cristianismo.
Nada se sabia a respeito de Carlos Magno, Carlos Martel ou Carlos, o Gordo.
As personagens bblicas mais celebradas pelos religiosos eram Josu, Sanso e
Gedeo. O Cntico dos Cnticos, os Provrbios, o Livro da Sabedoria de Salomo,


34    COULBEAUX, J. B. 1929. pp. 59-60; MEKOURIA, T. T. 1967.
Axum cristo                                                                    447



o Livro do Filho de Siraque, etc. eram considerados obras de verdadeira filosofia,
superiores aos escritos de Plato e Aristteles. Virglio, Sneca, Ccero e os
sbios medievais do Ocidente eram totalmente desconhecidos.
    A sociedade crist da Etipia admira Davi mais que a qualquer outra
personagem bblica, considerando-o antepassado de Maria e da chamada
dinastia salomnica. Os etopes religiosos veneram os Salmos e acreditam que
ler o salmo do dia todas as manhs os proteger de todo mal. A leitura constante
dos salmos lhes asseguraria, como acreditava Davi, a aliana exclusiva com
Deus Todo-Poderoso. O Livro dos Salmos, recitado nas mais diversas ocasies,
desempenha um papel preeminente na sociedade crist etope. Assim, durante
os funerais, por exemplo, os Debterotches ou chantres dividem entre si os salmos
e os recitam ao lado do atade, enquanto outros padres se concentram na leitura
do Quenzete, o livro funerrio, muito parecido com o antigo Livro dos Mortos
egpcio.
    Enquanto alguns religiosos recorrem aos salmos para as preces, outros o
utilizam para propsitos mgico-religiosos. O sbio sabe de cor os salmos que
convm a cada circunstncia, tanto para ser feliz como para evitar o infortnio,
para desviar uma praga ameaadora ou para ser protegido de um tiro. Geralmente,
ele cita os salmos 6, 7, 10, 57, etc.
    Para ilustrar o importante papel dos salmos, citaremos apenas dois exemplos.
Um campons que perdeu sua vaca, sua ovelha ou seu jumento, no conseguindo
encontr-los, recitar ou far recitar por ele os salmos 1-16, 18 e 10-12.
    Em 1927, a chegada do primeiro avio em Adis Abeba foi considerada um
grande evento. No dia seguinte, foi organizada uma cerimnia na presena da
imperatriz Zauditu e do ras Tafari (o futuro Hail Selassi). Todos os sacerdotes
e chantres, em suas roupas de cerimnia, estavam l. Interrogado sobre o
que deveria ser cantado em semelhante ocasio, um chefe religioso sugeriu
imediatamente os seguintes versos: "Tu abres os cus como uma cortina [...]
faze das nuvens tua carruagem [...] e passeias nas asas do vento [...] tambm
inclinaste os cus e desceste [...] tu cavalgas [...] e voas, voas nas asas do vento
[...] e fazes da escurido teu lugar secreto" (salmos 104 e 18).
    Entre a herana que a Etipia recebeu do Axum cristo encontram-se os
cantos litrgicos agrupados num trabalho conhecido como Degoua. O autor, de
acordo com as fontes locais do sculo XIV, era um nativo de Axum chamado
Yared, contemporneo do rei Guebre Meskel e de Abba Aregawi, um dos Nove
Santos.
    Lendo-se esse livro de cantos religiosos em todos os seus detalhes, perce-
be-se que os textos so tirados da Bblia, das obras dos primeiros patriarcas, dos
448                                                                        frica Antiga



telogos renomados (sculos III a VIII) e dos livros apcrifos. Organizados de
forma potica e concisa, formam uma grande coleo, dividida em vrios livros,
captulos e versos. Todos os versos so separados (a primeira linha geralmente
 escrita em vermelho), e h um verso para cada festa anual e mensal. Todos
so escritos em louvor dos anjos, santos, mrtires, da Virgem Maria e de Deus,
e usados para as cerimnias religiosas da manh e da noite. O canto litrgico 
dividido em quatro sees, com cadncias que simbolizam as quatro bestas em
torno do trono de Deus (Apocalipse 4:6), de modo que o mesmo texto destinado
a uma determinada festa pode ser cantado e danado de muitas maneiras
diferentes. Tentaremos dar uma ideia dessas quatro sees:
      1.    Kum-Zema:  o canto bsico, em sua forma mais simples.
      2.    Zemane-oscilante:  o canto mais longo, e nele os chantres manipulam suas
           longas batutas com a mo direita; eles as agitam e balanam e corpo em
           todas as direes, conforme o ritmo do canto;
      3.    Meregde-salto (alto e baixo): este canto  um pouco mais acelerado que os
           dois primeiros. Aqui, o religioso-chantre segura a batuta na mo esquerda,
           que s vezes lhe serve de apoio, e na mo direita um sistro de ferro, prata
           ou ouro segundo sua posio hierrquica. Movimenta-o para cima e para
           baixo. Dois jovens sentados tocam tambores para fazer o acompanhamento,
           procurando seguir o ritmo regular do canto. Se algum toca uma nota errada
            imediatamente substitudo.
      4.    Tsfat (palmas):  o canto mais rpido e pode continuar durante algum
           tempo para o acompanhamento dos sistros. No final, o Tsfat  seguido
           de um Werebe; espcie de modulao variada e graciosa, cantada por um
           nico cantor, talentoso e dotado de uma voz agradvel; os outros escutam
           atentamente, antes de cantar em coro e em unssono com ele, passando
           gradualmente do moderato (Lezebe) ao allegro (Dimkete), e do presto ao
           prestissimo (Tchebtchedo). Nesse momento os dois jovens se levantam,
           passando o cordo de seus tambores em volta do pescoo e batendo forte
           para infundir vivacidade e alegria a esse canto sagrado.
   Os chantres  as cabeas cobertas com togas de musselina e trajando roupas
de festas  seguram as batutas no ombro esquerdo e o sistro na mo direita,
e comeam a cantar e a danar num ritmo acelerado. Essa  a passagem mais
movimentada do canto. O chantre principal executa movimentos espetaculares
e de vez em quando, de seus lugares na congregao, as mulheres emitem gritos
de alegria, "ILILILI".
Axum cristo                                449




figura 16.5 Igreja de Abba Aregawi em
Debre-Damo.
Figura 16.6       Chantres inclinando -se
religiosamente.
450                                                                     frica Antiga



    Tudo se passa no interior da igreja ou fora dela, durante as festas religiosas
ou para celebrar a tradicional exposio do famoso Tabot, ou tbua sagrada,
que, a exemplo da arca da aliana de Moiss, representa o santo a quem a igreja
 dedicada. A cerimnia  realizada na presena do imperador, do bispo e das
autoridades civis, militares e eclesisticas.
    Quando o chefe da igreja, de acordo com o grande mestre de cerimnia  que
 ao mesmo tempo o chefe eclesistico, LIKE KAHNAT , percebe que o povo
presente est satisfeito, faz sinal para que o canto se interrompa. Nesse momento,
um grande silncio substitui o tumulto religioso. Ento o bispo se levanta e d
sua bno final. A volta do Tabot para seu lugar  saudada pelos mesmos cantos
e "ILILTA", como quando foi trazido, e todos se ajoelham.
    A literatura bblica e os cantos litrgicos tm uma longa histria tradicional,
composta de fatos e lendas, de que no ousamos dar mais do que um resumo.
Fazem parte da herana generosamente legada pelo Axum cristo aos etopes
atravs dos sculos.
Os protoberberes                                                              451



                                   CAPTULO 17


                           Os protoberberes
                                     J. Desanges




    Antes da chegada dos fencios s costas da frica, no incio do I milnio antes da
Era Crist, as componentes tnicas das populaes lbias j se encontravam quase
fixadas, no devendo variar sensivelmente durante toda a Antiguidade: do ponto de
vista quantitativo,  inverossmil que os acrscimos demogrficos fencio e romano
tenham sido significativos. A participao fencia na demografia da frica Menor
no pode ser avaliada com preciso. Todavia,  provvel que Cartago no tivesse
recorrido com tanta frequncia aos exrcitos mercenrios nos campos de batalha se
os cartagineses de origem fencia fossem numerosos. A contribuio demogrfica
romana  de apreciao igualmente difcil. O nmero de italianos instalados na
frica  poca de Augusto  em que a colonizao foi mais intensa  foi estimado
em 15 mil1; acrescente-se a essa cifra alguns milhares de italianos que se fixaram na
frica por iniciativa prpria. Em nossa opinio, o nmero total de colonos romanos
instalados na regio  poca de Augusto ultrapassa de pouco os 20 mil. A frica
romana no foi, em nenhuma hiptese, uma colnia de povoamento. Quanto aos
acrscimos vndalo e bizantino, foram provavelmente ainda mais modestos.
    Treze milnios antes da Era Crist2, pelo menos, constata-se a presena
de uma civilizao denominada muito impropriamente Ibero-Maurusiense (a


1   ROMANELLI, P. 1959, p. 207.
2   CAMPS, G. 1974-b, pp. 262-8.
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navegao pelo estreito de Gibraltar s chegou a ser praticada 9 mil anos mais
tarde). Seus portadores, a raa de Mechta-el-Arbi, so de grande estatura (1,72 m
em mdia), dolicocfalos, com testa baixa e membros longos; seria a primeira raa
a representar o Homo sapiens no Magreb3. Praticavam com frequncia a evulso
dos incisivos. Reconheceu-se em alguns stios  notadamente no de Columnata
(Arglia ocidental)4  uma evoluo para a meso-braquicefalia, bem como sinais
de gracilizao, por volta de 6000 antes da Era Crist. O fim da civilizao ibero-
-maurusiense propriamente dita ocorre no final do IX milnio, de maneira mais
ou menos incisiva segundo a regio. Suplantado na Cirenaica pelo Capsiense,
o Ibero-Maurusiense extingue-se de maneira vaga diante das culturas locais da
Arglia e do Marrocos. Est ausente das costas norte-orientais da Tunsia assim
como das pequenas ilhas do litoral5, e  fracamente representado na regio de
Tnger.  pouco provvel que tenha chegado s Canrias, ao contrrio do que
em geral se acredita: embora os Guanchos se assemelhassem fisicamente aos
homens de Mechta-el-Arbi, suas indstrias e seus costumes no lembram em
nada a cultura destes ltimos. Essa civilizao no pode ter vindo da Europa, j
que  anterior aos incios da navegao nos estreitos de Gibraltar e da Siclia.
Somos tentados a crer numa origem oriental; talvez provenha, mais precisamente,
do norte do Sudo niltico, como sugere J. Tixier. Sob a presso das vagas
migratrias posteriores, os ibero-maurusienses provavelmente se refugiaram nas
montanhas, podendo-se supor que tenham constitudo uma das componentes
antropolgicas do povoamento dos djebel (cordilheiras).
    Por volta de 7000 antes da Era Crist6 aparecem homens de estatura bastante
alta, de raa mediterrnica mas no isentos de caracteres negroides7. So os chamados
capsienses, denominao derivada do stio epnimo de Capsa (Gafsa). Embora sua
rea de ocupao no esteja exatamente definida, sabe-se que viviam em territrios
do interior, e que no atingiram, ao que parece, a extremidade ocidental da frica do
Norte nem o Saara meridional. Estabeleciam-se no topo de colinas ou em vertentes
prximas a fontes de gua ou, mais raramente, espalhavam-se por plancies lacustres
ou pantanosas; alimentavam-se principalmente de caracis. Trata-se igualmente de
uma civilizao vinda do leste, que s pode ter-se propagado atravs da navegao


3     Cf. BALOUT, L. 1955, pp. 375-7; cf. tambm CAMPS, G. 1974-d, pp. 81-6.
4     CHAMLA, M. C. 1970, pp. 113-4.
5     BALOUT, L. 1967, p. 23.
6     CAMPS, G. 1974-d, op. cit., p. 265.
7     Note-se as reservas de CAMPS, G. 1974-d, op. cit., p. 159.
Os protoberberes                                                                                        453



se termo deve ser fixado em torno de -4500. Embora os crnios capsienses sejam
idnticos aos de vrias populaes atuais, acredita-se que os verdadeiros protoberberes
s tenham surgido no decorrer do Neoltico, uma vez que os costumes funerrios
capsienses no parecem ter sobrevivido no mundo lbico-berbere8. Deve-se, contudo,
notar que a utilizao e a decorao dos ovos de avestruz, caractersticas do Capsian
way of lije, na enrgica expresso de Camps-Fabrer9, mantiveram-se durante o
Neoltico at a poca histrica entre as populaes lbias.  o caso dos Garamantes,
que, segundo Luciano (Dips. 2 e 6), utilizavam esses ovos para fins diversos, fato
confirmado pelas escavaes de Bu Njem, na Tripolitnia interior10. As populaes
neolticas da frica Menor podem sem dvida ser consideradas "primas" dos
capsienses. De qualquer modo, o povoamento histrico do Magreb resultou com
certeza da fuso dos trs elementos acima descritos  ibero-maurusiense, capsiense
e neoltico  em propores ainda desconhecidas.
    O Neoltico inicia-se, por conveno, com o aparecimento da cermica.
Dataes recentes por radiocarbono indicam que o emprego da cermica
difundiu-se a partir do Saara central e oriental. Nessa rea, o Neoltico mais
antigo  o de tradio sudanesa. Os incios da produo cermica podem ser
fixados no VIII milnio, do Ennedi ao Hoggar11, sendo seus artesos povos
negros ou negroides aparentados aos sudaneses do Early Khartoum. O boi
foi domesticado provavelmente em torno de -4000, o mais tardar, mas no 
impossvel que o tenha sido anteriormente no Acacus12. O Neoltico de tradio
capsiense  um pouco mais tardio: tem incio no Saara por volta de -5350
(Fort Flatters)13, e pouco depois no vale do Saura, vindo a se afirmar na parte
setentrional da rea capsiense somente por volta de -4500. Na regio situada
entre essas duas correntes que afetam o "Magreb das terras altas e o Saara
setentrional", o Neoltico manifesta-se muito mais tardiamente. Uma influncia
europeia s  admissvel a partir do VI milnio da Era Crist, no contexto
de uma terceira civilizao neoltica evidenciada nas costas do Marrocos e da
Orania, embora se hesite em situar as origens da navegao do estreito de


8    BALOUT, L. 1955, op. cit., pp. 435-7.
9    CAMPS-FABRER, H. 1966, p. 7.
10   Cf. REBUFFAT, R. IV, 1969-70, p, 12.
11   Cf. HUGOT, H. J. 1963, p. 134, p. 138 e nota 3, p. 185. Sobre as dataes recentes pelo carbono 14, cf.
     CAMPS, G. 1974-b, op. cit., p. 269.
12   RESCH, W. 1967, p. 52; cf. tambm BECK, P. & HUARD, P. 1969, p. 193; MORI, F. 1964, pp, 233-41;
     MAITRE, J. P. 1971, pp. 57-8.
13   CAMPS, G., DELIBRIAS, G. & TOMMERET, J. 1968, p. 23.
454                                                                               frica Antiga



Gibraltar em poca to recuada (L. Balout14 concordaria em situar esse fato no
IV milnio da Era Crist).
    O perodo mido do Neoltico termina por volta de meados do III milnio,
conforme atesta a datao do guano de Taessa, no Atakora (Hoggar)15. Os
trabalhos de Arkell sobre a fauna e a flora fsseis dos stios mesolticos e neolticos
da regio de Cartum confirmam, de certa forma, esses dados para o alto vale do
Nilo. A partir dessa poca a frica do Norte, separada quase que totalmente
do resto do continente por um deserto, s dispunha de comunicao fcil com
a frica subsaariana atravs do estreito corredor tripolitano. No entanto, essa
severa ruptura da antiga unidade africana foi compensada por novas relaes
inauguradas precisamente a esta poca nas duas asas do Magreb com o sul da
pennsula Ibrica, bem como com a Siclia, a Sardenha, Malta e o sul da Itlia16.
    Os fragmentos de cermica pintada encontrados em Gar Cahal, na regio de
Ceuta, assemelham-se, a partir do III milnio da Era Crist,  cermica calcoltica
de Los Hillares; pode-se, pois, supor a presena de contatos por via martima17
remontando talvez ao IV milnio. A partir de -2000, a Espanha importa marfim e
ovos de avestruz, ao passo que vasos campaniformes de origem ibrica aparecem nas
regies de Ceuta e Tetun. Em torno de -1500, constata-se a presena de pontas
de flecha de cobre ou bronze no oeste da frica Menor, sem dvida introduzidas
pelos caadores da pennsula Ibrica; ao que parece, tais objetos no se difundiram
para alm da regio de Argel. A metalurgia do bronze desenvolveu-se pouco na
frica do Norte, devido  carncia de estanho na regio. Na outra extremidade da
frica Menor, na rea entre Korba e Bizerta, a presena de fragmentos de obsidiana
proveniente das ilhas Liparis e trabalhada na Siclia e em Pantelaria atesta os comeos
da navegao no estreito da Siclia. G. Camps18 assinalou os numerosos emprstimos
que a frica Menor passou a fazer a partir de ento de seus vizinhos europeus: os
chamados haouanet, tmulos retangulares com corredor curto e vo igualmente
retangular cavados nas falsias, j existiam na Siclia desde -1300; os dolmens da
Arglia e da Tunsia so de um tipo tambm encontrado na Sardenha e na Itlia; a
cermica de Castellucio  decorada com motivos geomtricos em marrom ou preto
sobre fundo mais claro , comum na Siclia por volta de -1500, anuncia a cermica


14    BALOUT, L. 1967, op. cit., p. 28; CAMPS, G. 1974-b, p. 272.
15    PONS, A. & QUEZEL, P. 1957, pp. 34-5; DELIBRIAS, G., HUGOT, H. J. & QUEZEL, P. 1957, pp.
      267-70.
16    CAMPS, G. 1960-a, pp. 31-55; 1961.
17    SOUVILLE, G. 1958-9, pp. 315-44.
18    CAMPS, G. 1974-d, op. cit., p. 206.
Os protoberberes                                                                                       455




figura 17.1 Crnio de Columnata. No alto: cranium norma lateralis; embaixo: calva norma lateralis dextra.
(Fonte: L. Balout. Les hommes prhistoriques du Maghreb e du Saara. 1955. pr. VI, p. 79. Fotos de M. Bovis,
Museu do Bardo, Argel, coleo Cadenat.)
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cabila, etc. Influncias de regies mais distantes  Chipre ou sia Menor  passaram
a transitar por Malta, Pantelaria e pela Siclia a partir do momento em que os
navegadores egeus, depois fencios, aportaram nessas ilhas. Assim, esse territrio da
frica do Norte inseriu-se como uma grande pennsula no complexo mediterrnico
muito antes da fundao de Cartago, recebendo, no entanto, influncias de outras
civilizaes atravs do corredor da Tripolitnia.  o caso dos monumentos funerrios
com nicho e capela  nos quais talvez se praticasse o ritual da incubao , frequentes
nas encostas meridionais do Atlas durante a Antiguidade remota; o tmulo de Tin
Hinan  uma variante desse tipo de monumento19.
     necessrio salientar a grande originalidade da frica Menor nas costas
do continente africano: resulta a um tempo do dessecamento do Saara e
do surgimento da navegao. No entanto, essa regio no perdeu de todo
o contato com a "frica profunda". Embora o clima da frica do Norte
durante a Antiguidade fosse anlogo ao atual, as elevaes da orla do deserto
permaneceram por muito tempo mais midas e arborizadas20, com um lenol
fretico menos profundo permitindo um aprovisionamento de gua mais fcil
e, portanto, a utilizao do cavalo para as viagens atravs do Saara. No Fezzan,
notadamente, subsistiram durante longo tempo afloramentos lacustres do lenol
fretico; Plnio, o Velho (H.N. XXXI, 22), menciona o lago salgado Apuscidamo
(= apud Cidamum) e al-Bakri (Description de l'Afrique Septentrionale, trad. de
Slane, p. 116) refere-se  presena de pntanos entre Nefzaoua e Gadames. A
presena de homens de pele escura  que os gregos chamaro "etopes", isto ,
"faces queimadas"  na maior parte dos osis do Saara, no Fezzan e ao longo
da vertente saariana do Atlas durante a Antiguidade, em contato com o mundo
lbico-berbere, pode ser considerada como uma lembrana viva da unidade
africana original21. Levavam uma existncia pacfica consagrada no s  coleta
e  caa, mas tambm  agricultura, fundada em mtodos de irrigao muito
antigos22.


19    CAMPS, G. 1974-d, op. cit., pp. 207 e 568; 1965, pp. 65-83.
20    BUTZER, K. W. 1961, p. 48, cr numa ligeira melhora climtica no I milnio da Era Crist; opinio
      contrria  de QUEZEL, P. & MARTINEZ, C. 1958; p. 224, que estimam que a aridificao foi
      constante a partir de -2700.
21    Sobre os etopes da frica do Norte, cf. GSELL, S. 1913-28, I, pp. 293-304. Sobre o conceito de "etope"
      (o termo j aparece nas tbulas de Pilos sob a forma ai-ti-jo-qo), cf. SNOWDEN, F. M. 1970, pp. 1-7
      e 15-6, bem como as observaes de DESANGES, J. 1970, pp. 88-9.
22    Sobre a irrigao e o cultivo nos osis do sul da Tunsia, cuja populao era em parte "etope", cf. PLNIO,
      o Velho H.N. XVIII, 188; e BAKRI, p. 116. Sobre a importncia dos canais subterrneos (foggaras) dos
      Garamantes, populao mista, cf. DANIELS, C. 1970, p. 17. H reservas, contudo, da parte de LHOTE, H.
      1967, pp. 67-78, que acredita que a coleta foi, durante muito tempo, a principal fonte de recursos desses "etopes".
Os protoberberes                                                                                           457




figura 17.2 Homem de Champlain: crnio ibero-maurusiense.  direita, norma lateralis sinistra;  esquerda,
norma facialis. (Fonte: L. Balout. Les hommes prhistoriques du Maghreb e du Saara. 1955, pr. VIII, p. 90. Fotos
de M. Bovis, Museu do Bardo, Argel.)
Figura 17.3 Crnio de homem capsiense. A direita, norma lateralis sinistra;  esquerda, norma facialis. (Fonte:
L. Balout. 1955, pr. X, p. 110. Fotos de Delorme, Museu do Bardo, Argel.)
458                                                                                      frica Antiga



   Seria um erro, certamente, imaginar um Saara completamente dominado
pelos etopes durante o Neoltico e  poca proto-histrica, mesmo tendo-se
o cuidado de restituir  palavra "etope" o sentido geral de "homem de cor",
sem, contudo, traduzi-la por "negro". Em publicao recente, M. C. Chamla23
acredita ter estabelecido que apenas a quarta parte dos esqueletos desse perodo
poderiam ser de negros, ao passo que mais de 40% no apresentam nenhum
trao negroide; no entanto, os restos do esqueleto de uma criana descobertos
no depsito de um abrigo sob rocha de Acacus24 e datado de 3446 180
pertencem a um negroide. Despojos de negros no so raros nas necrpoles
pnicas; havia auxiliares negros no exrcito de Cartago25 que certamente no
eram nilotas. Segundo Diodoro26, no final do sculo IV antes da Era Crist
um tenente de Agtocles (Tunsia do norte) submeteu uma populao cuja
pele era semelhante  dos etopes. Durante toda a poca clssica, numerosos
so os testemunhos a atestar a presena de "etopes" nos confins meridionais
da frica Menor. So mencionados igualmente povos de raas intermedirias
 melano-getulos ou leuco-etopes  notadamente na obra de Ptolomeu
(Geografia, IV, 6, 5)27.
   Os prprios Garamantes eram por vezes considerados "ligeiramente pretos"
ou mesmo negros. So "ligeiramente pretos" em Ptolomeu I, 9, 728, e "mais
parecidos com etopes" em Ptolomeu I, 8, 529. Um escravo garamante  descrito
como tendo um corpo "cor de breu" (Anthologia Latina, A. Riese)30. Uma
pesquisa antropolgica realizada nas necrpoles desse povo veio confirmar seu
carter racial compsito31; a afirmao de que os esqueletos negroides eram
de escravos revela preconceito e precipitao, sendo arbitrrio considerar que,
num total de quatro, apenas dois grupos de esqueletos (os de indivduos de raa
branca) representam os Garamantes da Antiguidade.
   Essas populaes de cor no parecem ter nenhum parentesco com a maior
parte dos atuais habitantes das margens do Senegal e do Nger. Trata-se de um


23    CHAMLA, M. C. 1968.
24    SATIN. F. 1964. p. 8.
25    Por ocasio da campanha da Siclia, em -480 (FRONTINO. ed. 1888, I, pp. 11. 18).
26    DIODORO. XX, 57-5.
27    PTOLOMEU. ed. 1901, pp. 743-5.
28    PTOLOMEU. ed. 1901, p. 25.
29    PTOLOMEU. ed. 1901, p. 21.
30    RIESE, A. 1894. pp. 155-6.
31    SERGI, S. 1951.
Os protoberberes                                                                        459



grupo tnico original hoje recoberto, em grande parte, pelo elevado nmero
de africanos ocidentais trazidos pelo trfico medieval de escravos. S. Gsell32,
seguindo Collignon, descreve o "etope" da Antiguidade  baseando-se na
descendncia que teriam deixado nos osis do sul da Tunsia  da seguinte
maneira:
     "Estatura acima da mdia, crnio longo e estreito com o topo projetado para trs,
     testa oblqua, arcadas superciliares salientes, pmulos pronunciados a partir dos quais
     a face se alonga em tringulo, nariz profundamente reentrante, curto e arrebitado,
     mas no chato; boca grande com lbios grossos, queixo fugidio; ombros largos e
     quadrados, trax em tronco de cone invertido, bastante estreito sob a bacia. A pele
      muito escura, de cor castanho-avermelhada; e os olhos, negros; os cabelos, poucos
     crespos, tm a cor do azeviche".
    Trata-se, como se v, de um tipo bastante prximo de certos nilotas; no
entanto, as caractersticas fsicas desses pastores de bovdeos, ancestrais dos
etopes do Saara, esto longe de ser uniformes. Alguns dentre eles, segundo H.
Lhote e G. Camps33, lembram os Peul atuais; outros se assemelham aos Tubu.
H. von Fleischhacher34 cr na presena de khoisanidas no interior deste grupo,
bem como de descendentes de um Homo sapiens indiferenciado (nem negro nem
branco) vindo da sia.
    Lbico-berberes (mouros e nmidas no litoral; getulos nos planaltos), saarianos
brancos ou mestios da orla do deserto (farsios, nigritas ou garamantes, "etopes"
espalhados por toda a regio entre o Sous e o Djerid), tais so os povos da frica
Menor  poca das primeiras navegaes fencias e durante toda a Antiguidade.


     Os protoberberes em suas relaes com os egpcios e os
     Povos do Mar
    No curso do II milnio, as fontes da histria da Lbia  inscries e
representaes  so essencialmente egpcias e dizem respeito s populaes
lbias em contato com o Egito35, as quais, antes da unificao do vale do Nilo,
povoavam a parte noroeste do Delta.


32   GSELL, S. 1913-28, v. I, p. 294.
33   LHOTE, H. 1967, p. 81; CAMPS, G. 1970, pp. 39-41.
34   FLEISCHHACHER, H. von, 1969, pp. 12-53.
35   Cf. GADALLAH, F. F. 1971, pp. 43-75.
460                                                                                           frica Antiga



    Na poca pr-dinstica, por volta de meados do IV milnio, os relevos
esculpidos no cabo de marfim da faca de Djebel-el-Arak j representariam,
talvez, lbios de longos cabelos tendo por nica vestimenta um cinto a sustentar
o estojo flico. Essa interpretao foi, contudo, contestada, s se podendo
estar certo da identidade dos lbios quando aparece a primeira denominao
egpcia desse povo, Tehenu. Segundo W. Hlscher36, esse nome aparece sobre
um fragmento de paleta de xisto pertencente ao rei Escorpio, depois em
um cilindro de marfim de Hieracmpolis, da poca de Narmer (incio do III
milnio), representando o butim e os prisioneiros do fara. Mas as informaes
mais valiosas sobre o aspecto fsico e as vestimentas dos Tehenu nos foram
legadas por um baixo-relevo do templo morturio de Sahrue (V dinastia, circa
-2500).
    So homens de grande estatura, perfil agudo e lbios grossos, com barbas
cerradas e um penteado caracterstico  espessa madeixa sobre a nuca, mechas
laterais prolongando-se at os ombros, pequeno topete erguido sobre a testa.
    Seu vesturio compreendia, alm do cinto e do estojo flico j mencionados,
largas faixas que passavam por sobre os ombros e se cruzavam no peito, bem
como colares ornados com pingentes. Durante o III milnio esse povo habitava
o deserto da Lbia e seus osis.
    Sob a VI dinastia, em torno de 2300 antes da Era Crist, faz-se meno
aos Temehu; no se trata de uma ramificao dos Tehenu, como imaginava
O. Bates37, mas de um novo grupo tnico, de pele mais clara e olhos azuis,
com um percentual de loiros no negligencivel38. Vestidos de mantos de
couro, tm frequentemente um ombro nu. De acordo com o relato da terceira
viagem de Herkhuf, habitavam, ao que parece, um territrio vizinho  Baixa
Nbia, que devia abranger o Grande Osis (Kharga)39. Sugeriu-se identific-
-los com a populao do Grupo C instalada na Nbia sob o Mdio Imprio e
incio do Novo Imprio40, hiptese reforada pela semelhana entre a cermica
desse grupo e a cermica encontrada em Uadi Howar, 400 km a sudoeste da
Terceira Catarata41.


36    HLSCHER, W. 1955, p. 12.
37    BATES, O. 1914, p. 46.
38    MOLLER, G. 1924, p. 38; HLSCHER, W. op. cit., p. 24.
39    BATES, O. op. cit., pp. 49-51.
40    BATES, O. op. cit., p. 249, nota 3 e p. 251; para o vocabulrio, cf. VYCICHL, W. 1961, pp. 289-90.
41    HLSCHER, W. op. cit., pp. 54-7; ARKELL, A. J. ed. 1961, pp. 49-50; reservas de TRIGGER, B. G.
      1965, pp. 88-90.
Os protoberberes                                                                                          461



    Os Temehu eram, ao que parece, muito belicosos; os faras do Mdio Imprio
foram por diversas vezes obrigados a combat-los. Sob o Novo Imprio so
frequentemente representados, distinguindo-se pela trana pendente diante da
orelha e recurvada sobre os ombros; muitas vezes trazem plumas nos cabelos e
ostentam tatuagens. Tm como armas o arco e a flecha e, por vezes, a espada e o
bumerangue. Herdoto assinala todas essas caractersticas ao descrever os lbios
das Sirtes;  possvel, pois, admitir que os Temehu tenham sido os ancestrais dos
lbios que os gregos conheceram na Cirenaica. No se pode, contudo, aceitar a
audaciosa hiptese de G. Mller42, que os identifica aos Adirmquidas, vizinhos
imediatos do Egito segundo Herdoto (IV, 168), ainda que estes ltimos tenham
ocasionalmente ocupado os osis meridionais, e que Slio Itlico (Punica IX,
223-225) os descreva como povos ribeirinhos do Nilo semelhantes aos nbios.
Segundo o mesmo autor (Punica III, 268269), o corpo dos Adirmquidas
seria enegrecido pelo sol como o dos nbios, indicao que os aproximaria dos
Adirmquidas da Baixa Nbia, vizinhos dos Temehu, mas que no se aplicaria
a estes ltimos, de pele clara. Levantou-se a hiptese de que teriam estado em
Kawa43.
    As empresas dos Temehu tornaram-se mais perigosas durante a XIX dinastia.
Em -1317 foram rechaados por Sti I, aps o que Ramss II organizou uma linha
de defesa ao longo do litoral mediterrnico at el-Alamein, tendo incorporado
contingentes lbios ao exrcito egpcio44. O primeiro documento a mencionar os
Libu  a estela de el-Alamein, em que  narrada a ocupao da regio por Ramss II.
O termo Libia, derivado de libu, foi usado pelos gregos inicialmente para designar
a rea de movimentao desse povo, aplicando-se em seguida, paulatinamente,
a toda frica. Em -1227, no reinado de Memeptah, so mencionados os
Mashwesh (ou Meshwesh), vizinhos ocidentais dos Libu45. Os Libu, com os
Mashwesh, parecem fazer parte do grupo mais geral dos Temehu46; entretanto, as


42   MLLER, G. op. cit., p. 48; refutao filolgica de HOLSCHER, W. op. cit., p. 50.
43   Cf. MACADAM, M. F. L. 1949, vol. 1, p. 100.
44   BRINTON, J. Y., 1942, vol. 35, pp. 78-81, 163-5 e pr. XX, fig. 4; ROWE, A. 1948, pp. 6 e 7, fig. 4; sobre
     as seis novas estelas  representando cenas da vitria de Ramss II sobre os lbios descobertas em Zawyet
     e Rackam por Labib Habachi, cf. LECLANT, J. 1954, p. 75 e pr. XVIII.
45   WAINWRIGHT, G. A. 1962, pp. 89-99. Quanto aos nomes dos chefes libu e mashwesh, cf. YOYOTTE,
     J. 1958, p. 23. Este autor considera os Libu mais prximos do Delta. CHAMOUX, F. 1953, p. 55, os situa,
     ao contrrio, a oeste dos Mashwesh, erroneamente em nossa opinio. A Lbia, stricto sensu, permanece a
     regio vizinha de Maretis, cf. PTOLOMEU, ed. 1901, op. cit., pp. 696-8; os Libu devem, pois, ter-se
     estabelecido nas proximidades do Egito. Sobre o destino posterior dessas populaes, cf. YOYOTTE,
     J. 1961, pp. 122-51.
46 HLSCHER, W. 1955, op. cit., pp. 47-8.
462                                                                                             frica Antiga



representaes figuradas mostram que os Mashwesh usavam o estojo flico (sem
dvida por serem circuncidados) e os Libu, a tanga. Aps terem ocupado os osis
de Baharieh e Farafra, as tribos coligadas foram vencidas pelos egpcios a noroeste
de Mnfis. Uma inscrio do templo de Carnac assinala a presena de diversos
povos do norte nas costas lbias: Akaiwesh, Toursha, Shardanes e Shakalesh.
Pertenciam ao grupo dos Povos do Mar, que ento devastavam a Palestina. Sua
apario no oeste do Egito  inesperada; por vezes se sups que a inscrio de
Carnac confundia as duas campanhas, quase contemporneas, empreendidas a
leste e a oeste do Delta47, ou que esses contingentes nrdicos no passavam de
mercenrios que haviam desertado do exrcito egpcio.
    As duas guerras egpcio-lbicas mais conhecidas datam do reino de Ramss
III, em -1194 e -1188. So narradas pelo grande Papiro Harris e pelas inscries
e baixos-relevos do templo funerrio de Ramss III em Medinat-Habou. Os
Libu e posteriormente os Mashwesh tentaram, em vo, romper a resistncia
egpcia no Nilo, sendo sucessivamente vencidos. Inmeros prisioneiros viram-
-se incorporados ao exrcito do fara, e suas qualidades: militares foram to
apreciadas que ao fim do Novo Imprio os oficiais lbios tinham adquirido uma
influncia preponderante. Entre os lbios combatidos por Ramss III esto os
Esbet e os Beken; sentimo-nos tentados a aproximar essas etnias dos Asbitas
(ou Asbistas) e dos Bakales (Barceus) mencionados por Herdoto (IV, 170, 171),
mas a leitura Esbet  discutvel48, o que torna a aproximao bastante frgil. Por
outro lado,  pouco racional a identificao dos Mashwesh com os Maxues de
Herdoto (IV, 191), sedentrios estabelecidos na Tunsia49.
    As vitrias de Ramss II tiveram, entre outras, uma consequncia importante:
permitiram-lhe controlar os osis ocidentais onde se difundiu o culto de mon de
Tebas. Esse culto implantou-se particularmente no osis de Siwa, conquistando
depois a Tripolitnia50 atravs das "rotas da sede" e indo influenciar,  poca
pnica, o culto do deus Baal-Hamon51, seu quase homnimo.


47    CHAMOUX, F. op. cit., p. 52.
48    GAUTHIER, H. 1927, vol. 1, pp. 104 e 217; LECLANT, J. 1950-b, p. 338; HLSCHER, W. 1955,
      op. cit., p. 65, nota 2. Essa leitura lembra os Isebeten dos contos tuaregues, cf. VYCICHL, W. 1956, pp.
      211-20.
49    Ver as reservas justificadas de GSELL, S. 1913-28, I, p. 354; idem, 1915, pp. 133.-4.
50    LECLANT, J. 1950-b, pp. 193-233; REBUFFAT, R. 1970, pp. 1-20; sobre o culto de mon nos arredores
      das Sirtes, cf. GSELL, S. op. cit., vol. IV, p. 286.
51 LEGLAY, M. 1966, pp. 428-431, no acredita que o mon de Siwa tenha servido de intermedirio
   entre o mon de Tebas e Baal-Hamon; segundo esse autor, os lbico-berberes da frica Menor teriam
   recebido influncias egpcias numa poca anterior  fundao do santurio de Siwa. O culto do Baal-
   -Hamon cartagins ter-se-ia, assim, superposto ao culto local do carneiro j assimilado ao mon egpcio.
Os protoberberes                                                                                        463



    Tais so os primeiros testemunhos a nos informar sobre os lbios na
extremidade oriental de sua rea de implantao. Convm notar que um contato
entre os Povos do Mar e os lbios s  mencionado uma vez sob o reinado de
Memeptah, em -1227, por uma inscrio de Carnac, que pode, alis, resultar
de um amlgama de vrias campanhas52. Mas, admitindo-se a presena de
destacamentos de Povos do Mar entre os lbios, uma questo se coloca: teriam
sido esses povos os responsveis pela transmisso do uso de carros aos lbios
(inicialmente nas proximidades do Egito, depois em todo o Saara)?
    Essa tese  sustentada por excelentes estudiosos do Saara 53; no entanto,
poucas so as semelhanas entre as representaes de carros do Egeu e as
do Saara, como muito bem demonstraram G. Charles -Picard54, arquelogo
da Antiguidade clssica, e J. Spruytte55, especialista em cavalos. Os carros do
Saara so vistos da perspectiva do cavaleiro e no de perfil. A plataforma no 
sobrelevada, assentando-se sobre o centro do eixo a uma boa distncia das rodas,
o que limita a capacidade de carga a praticamente um ocupante; este tem entre
as mos uma espcie de martelo, e no uma arma. Os cavalos, barbos as mais
das vezes, atrelados por jugos aplicados  nuca, e no  cernelha, so certamente
representados em extenso ("galope voador"), mas seus jarretes e joelhos no so
figurados. Alis, o "galope voador" dos documentos do Egeu no diz respeito 
atitude dos cavalos atrelados. Os carros saarianos revestem-se, assim, de grande
originalidade; trata-se de veculos "esportivos" bastante frgeis.
    Assim, seria talvez conveniente dissociar os carros saarianos dos carros
de guerra utilizados, na Antiguidade, pelos adversrios de Ramss III e
posteriormente pelos Garamantes (carros puxados por quatro cavalos), Asbitas,
Zocios, lbios vizinhos de Cartago a servio de Agtocles, Farsios e Nigritas.
A tese de W. Hlscher56, segundo a qual os lbios teriam emprestado o uso do


52   Fenmeno semelhante ocorre com as representaes de Mdinet-Habou, onde esto misturados os
     assaltos dos lbios (-1194 e -1188) e a invaso dos Povos do Mar (-1191). Cf. DRIOTON, E. &
     VANDIER, J. 1962, pp. 434-436.
53   PERRET, R. 1936, pp. 50-1.
54   CHARLES-PICARD, G. 1958-a, p. 46. Note-se, contudo, que embora as observaes desse autor sobre
     a originalidade da iconografia do carro no Saara sejam inteiramente judiciosas, a tese de sua autoria,
     segundo a qual essa iconografia teria sofrido a influncia da arte imperial romana,  inaceitvel, como
     salientaram CAMPS, G. 1960-b, p. 21, nota 46, e LHOTE, H. 1953, pp. 225-38. Os lbios utilizaram
     carros  de Sirtes ao sul do Marrocos  desde a poca de Ramss III at o perodo registrado por
     DIODORO, XX, 38, 2 e ESTRABO, XVII, 3, 7, que dependem de fontes anteriores ao Imprio
     Romano, cf. BATES, O. 1914, op. cit., p. 149.
55 SPRUYTTE, J. 1968, p. 32-42.
56   HLSCHER, W. 1955. op. cit., p. 40; CAMPS, G. 1961, p, 406, nota 3. Sob Ramss III,  impossvel
     distinguir a representao de um carro lbio da de um carro egpcio, cf. MLLER, W. M. 1910, p. 121.
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carro dos egpcios  que o vinham utilizando desde a invaso dos hicsos, isto ,
h quatro ou cinco sculos   mais verossmil que a hiptese de uma transmisso
pelos Povos do Mar. A origem dos carros saarianos permanece desconhecida;
inteiramente em madeira e de concepo bastante simples, poderiam ter sido
produzidos segundo tcnicas originais57. De resto, o cavalo barbo (mongol), de
pequena estatura, linha entre a testa e o focinho convexa, dorso proeminente,
espinha dorsal com cinco vrtebras lombares e garupa em declive no poderia
provir do cavalo rabe-oriental, de perfil retilneo, utilizado tanto pelos hicsos
quanto pelos egeus58. Talvez tenha-se difundido a partir da frica oriental e do
Sudo59.  de se notar a presena de representaes do cavalo rabe-asitico
nos rupestres saarianos e nas figuraes da poca romana no interior do limes,
muito embora sejam elas bastante raras60. Todavia, mesmo admitindo-se que no
se trata, nos casos acima, de imagens estilizadas alheias s realidades africanas,
permanece verdadeiro o fato de o cavalo barbo ter sido a espcie dominante na
frica Menor at a chegada dos rabes.
    Embora se possa admitir que o uso da espada longa foi transmitido pelos
Povos do Mar, parece que essa arma no gozou de grande difuso61. Como se v,
a influncia dos Povos do Mar sobre a civilizao lbia no foi, ao que parece, to
importante quanto proclamam muitos eruditos. A influncia egpcia, por outro
lado  favorecida por afinidades tnicas no Delta da poca pr-histrica , no
deve ser negligenciada, mesmo se sua difuso  ainda mal conhecida.


      A vida dos berberes antes da fundao de Cartago
   No foram os fencios os responsveis pela transmisso da agricultura
aos lbico-berberes, como muito, acertadamente salientaram H. Basset62 e G.
Camps63: estes a praticavam desde o fim do Neoltico. A hiptese de que os

57    SPRUYTTE, J. 1967, pp. 279-81. No entanto HUARD, P. & LECLANT, J. 1972, pp. 74-5, supem
      que os carros dos equidianos do Saara nasceram da imitao dos carros egpcios, mas teriam-se tornado
      rapidamente veculos de esporte e prestgio, segundo um processo ainda desconhecido.
58    SPRUYTTE, J. 1968, op. cit., pp. 32-3. As acertadas observaes do autor conduzem, no entanto, a
      uma hiptese pouco verossmil: o cavalo barbo teria provindo da Espanha ou at mesmo do sudoeste da
      Frana, em pocas remotas, atravs do estreito de Gibraltar.
59 BECK, P. & HUARD, P. 1969, p. 225.
60    ESPRANDIEU, G. 1957, p. 15.
61    CAMPS, G. 1960-b, op. cit., p. 112 e notas 371-3.
62    BASSET, H. 1921, p. 340 et seq.
63    CAMPS, G. 1960-b, op. cit., p. 69 et seq.
Os protoberberes                                                                                      465



cananeus teriam introduzido a agricultura na frica Menor parece bastante
arrojada. Gravuras e pinturas da Idade dos Metais representam, de maneira mais
ou menos esquemtica, arados em La Cheffia (leste de Constantina) e no alto
Atlas64; a oeste de Tebessa, na regio do Douar Tazbent, h vestgios de uma
instalao hidrulica primitiva  hoje um simples quadriculado  muito anterior
 poca dos reinos indgenas. Os utilizadores dessas instalaes dispunham de
um instrumental ainda parcialmente ltico.
    Antes da introduo na frica Menor do arado fencio com relha de ferro
triangular, os berberes j se utilizavam de um tipo de arado de inveno autctone,
menos eficaz, que consistia em uma simples lmina arrastada sobre o solo 65.
Esse instrumento deve ter posto termo ao uso exclusivo da enxada, dado que
os Guanchos, utilizadores desta ltima, no conheceram o arado. Parece que de
incio os agricultores lbios puxavam eles mesmos o arado por meio de cordas
passadas em torno dos ombros; no entanto, h muito conheciam a atrelagem de
bois, representada tanto nos afrescos egpcios como nas gravuras do alto Atlas.
Em contrapartida, no parecem ter empregado dispositivos mecnicos para a
debulha66, contentando-se em fazer com que o gado grado pisoteasse os campos.
    Os botnicos demonstraram que o trigo durzio (proveniente, talvez, da
Abissnia) e a cevada67 j existiam na frica do Norte muito antes da chegada
dos fencios;  o caso, igualmente, da fava e do gro-de-bico68, ainda que este
ltimo tenha seu nome berbere ikiker derivado do latim cicer.
    No campo da arboricultura observa-se, ao contrrio, uma influncia fencio-
-pnica decisiva. Os berberes possivelmente j sabiam enxertar o oleastro muito
antes que os cartagineses difundissem a cultura da oliveira; por outro lado, no
h indcios de que a vinha  presente desde o incio do Quaternrio na regio
de Argel  tenha sido cultivada antes da chegada dos fencios. Os berberes pr-
-saarianos  como os Nasamones mencionados por Herdoto (IV, 172, 182) e
os "etopes"  exploravam a tamareira, menos frequente nos limites da frica
Menor do que atualmente. Mas era o figo a fruta berbere por excelncia69, ainda
que Cato, o Antigo, tenha exibido um figo fresco em Roma para simbolizar a
destruio de Cartago.


64   BOBO, J. & MOREL, J. 1955, pp. 163-81; MALHOMME, J. 1953, pp. 373-85.
65   CAMPS, G. 1960-b, pp. 82-3, com uma bibliografia na p. 82, nota 287.
66   Sobre o plostellum poenicum, originrio da palestina e da Fencia, cf. KOLENDO, J. 1970, pp. 15-6.
67   ERROUX, J. 1957, pp. 239-53.
68   CAMPS, G. 1960-b, op. cit., p. 80.
69   CAMPS, G. 1960-b, op. cit., p. 90.
466                                                                    frica Antiga



    A arqueologia dos monumentos funerrios confirma a presena, na
Antiguidade remota, de grandes grupos de sedentrios que praticavam a
agricultura na frica Menor. A datao dos monumentos proto-histricos 
particularmente difcil nessa regio, pelo fato de a cermica berbere ser muito
conservadora; seja como for, considerar-se- como representativo da "vida pr-
-cartaginesa" dos berberes o material recolhido nas necrpoles do perodo pr-
-romano remoto, isentas de influncias cartaginesas,  falta de evidncias que
possam ser datadas com relativa preciso.
    Essa moblia funerria testemunha a grande Antiguidade da "civilizao
rural berbere", como salientou G. Camps70. Segundo o estudioso, um mapa da
distribuio das necrpoles proto-histricas portadoras de cermica d uma ideia
bastante clara da rea de extenso da agricultura. , notvel que os tumuli do sul
da frica Menor  assim como das pores do Saara entre Zahrez e Hodna,
ou ainda do Marrocos oriental, entre Muluya e a fronteira da Arglia  no
forneam cermica. Pelo estudo das formas da cermica, G. Camps pde chegar
a algumas concluses quanto ao modo de vida dos lbico-berberes da poca.
A tipologia est bastante prxima da que caracteriza a cermica atual: tigelas,
bacias e clices para lquidos e sopas, pratos mais ou menos fundos, travessas
semelhantes s usadas atualmente para o cozimento do po no-fermentado,
biscoitos ou panquecas; uma espcie de compoteira com p tambm  atestada,
da Proto-Histria  poca atual. A presena de perfuraes prova que, desde a
Antiguidade remota, os berberes penduravam seus utenslios nas paredes. Em
contrapartida, os vasos de filtrar em cermica no encontraram correspondentes
modernos; G. Camps imagina que talvez servissem para a filtragem do mel ou
para a decoco de tisanas.
    A arqueologia indicou, ainda, que os nmades dos stios meridionais se
enfeitavam, mais do que os sedentrios, com braceletes, pingentes de metal ou de
contas de cornalina, e carregavam armas ornamentais. Restos de tecido atestam
o uso de faixas de cores alternadas. As vestimentas de couro so representadas
com frequncia nas pinturas rupestres do Saara, confirmando as informaes
de Herdoto (IV, 189). Gravuras rupestres prximas a Sigus indicam o uso do
burnu, o que pode vir a explicar as lendas sobre homens acfalos ou com a cabea
embutida no peito; os Blmios do deserto arbico tambm o vestiam.
    Nmidas e mouros tinham como armas azagaias de ferro longas e estreitas
e facas de caador; os sedentrios, por outro lado, raramente eram enterrados


70    CAMPS, G. 1960-b, op. cit., pp. 96-7, 101-4 e 107-11.
Os protoberberes                                                                                      467



com suas armas, ao contrrio das populaes mais meridionais. As populaes
"etopes" ou mistas (Nigritas e Farsios principalmente) armavam-se de arco e
flecha, conforme relata Estrabo (XVII, 3, 7). Plnio, o Velho (H.N. VI, 194),
menciona uma populao do deserto "acima" de Sirtes Maior, os Longompori,
termo transcrito do grego que significa "portadores de azagaias".
    A principal riqueza dos nmades era a criao de ovinos, caprinos e bovinos.
Uma cena de ordenha est gravada em Djorf Torba, a oeste de Colomb Bechar71,
numa regio hoje totalmente deserta. Segundo Aelianus (NA. VII, 10, 1), os ces
desempenhavam, entre esses nmades, o papel de escravos, j que a escravido
humana no era conhecida; a mesma observao  feita para os trogloditas
do mar Vermelho e para os etopes dos pntanos do Nilo. Outros etopes, ao
contrrio, faziam de um co o seu rei, ainda segundo Aelianus (NA. VII, 40; a
fonte parece ser Aristocreonte). A caa era, naturalmente, uma atividade bastante
praticada; Ptolomeu menciona a presena de caadores Oreipaei  vizinhos dos
etopes Nibgenitas que erravam pelo sul de Djerid72  no sul da Tunsia, nos
confins da Etipia.
    A organizao social dos lbico-berberes em pocas anteriores aos testemunhos
das fontes clssicas  pouco conhecida, pelo menos no se levando em conta as
reconstituies recorrentes a partir de testemunhos posteriores. As imponentes
propores dos aterros do Rharb, no Marrocos, ou do mausolu do Medracen, na
regio de Constantina, so indcios da constituio de monarquias, tanto a leste
quando a oeste do Magreb independente de Cartago, a partir do sculo IV. Nada
mais se pode afirmar sobre o assunto; o brilhante quadro da organizao social
dos lbios elaborado por S. Gsell apia-se, em geral, em documentos romanos
da poca imperial (at mesmo no testemunho do poeta Coripo, contemporneo
de Justiniano).


     As ideias religiosas dos lbico-berberes
    bastante difcil apreender as ideias religiosas dos lbico -berberes em
pocas anteriores ao impacto fencio-pnico e, mais tarde, romano. De fato, a
arqueologia proto-histrica no nos permite ir alm da reconstituio de rituais,
sendo essa possibilidade limitada, no que concerne  frica Menor, ao domnio


71   CAMPS, G. 1960-b, op. cit., p. 115 e fig. 13, p. 116
72   DESANGES, J. 1962, pp, 89-90, 129, 228-9. Os oreipaei/eropaei so talvez os ancestrais dos rebya, de
     pele escura.
468                                                                                             frica Antiga




figura 17.4 Lees de Kbor Roumia. (Fonte: M. Christofle. Le tombeau de la chrtienne. 1951. fig. 102, p. 124.)




funerrio73. Assim,  preciso mais uma vez recorrer ao testemunho dos autores
clssicos e perscrutar as inscries do perodo romano, sem saber se os usos ali
atestados remontam  poca remota que  objeto deste captulo. A fortiori, 
sempre arriscado projetar no passado as sobrevivncias pr-islmicas que se cr
reconhecer nas sociedades berberes das pocas medieval e moderna.
   O sentimento do sagrado entre os lbios parece ter-se cristalizado em torno dos
mais variados objetos. As foras sobrenaturais eram frequentemente relacionadas
ao topos, donde a presena de numerosos gnios fluviais ou montanheses nas
inscries de poca romana74. Essas foras podiam igualmente residir em objetos
bastante comuns: pedras redondas (seixos de granito, por exemplo) ou pontudas,


73    CAMPS, G. 1961, op. cit., p. 461.
74    Cf. LEGLAY, M. 1966, op. cit., p. 420 e nota 7, p. 421 e nota 1; VYCICHL, W. 1972, pp. 623-4.
Os protoberberes                                                                          469



simbolizando o rosto ou o falo do homem, eram objeto de culto75; Pomponius
Mela (Chor. I, 39) e Plnio (H.N. II, 115) falam de uma rocha da Cirenaica
que, tocada, podia desencadear o vento sul. As guas doces, principalmente as
fontes e os poos, eram tambm cultuadas; no sculo IV da Era Crist, Sto.
Agostinho relata que no dia de So Joo, os Nmidas banhavam-se ritualmente
no mar. A dendrolatria era por vezes praticada: um conclio africano, no sculo
IV, requeria aos imperadores a destruio da idolatria "at mesmo nos bosques
e nas rvores". Banhos de mar durante o solstcio de vero e o culto s rvores
so manifestaes de uma exaltao da fecundidade que se exprime de maneira
mais direta entre os Dapsolibues, segundo Nicolas de Damasco, contemporneo
de Augusto (C. Mller, Fragmenta Hist. Graec. III, p. 462, frag. 135): logo aps
o ocaso das Pliades, na calada da noite, as mulheres se retiravam e apagavam as
luzes; os homens iam ao seu encontro e cada um possua aquela a quem o acaso o
unisse. Acreditamos que esses "Dapsolibues" eram na realidade os Dapsilolibues,
ou "lbios opulentos", o que torna compreensvel o apego desse povo aos rituais
de fecundidade, como a "noite do erro".
   Os animais que simbolizam de maneira mais evidente a fora fecundante  o
touro, o leo e o carneiro  foram reverenciados pelos lbios. Coripo (Iohannidos
IV, 666-673) relata que os Laguantan (ou Lewta) das Sirtes soltavam um
touro  que representava o deus Gurzil, filho de mon  no encalo de seus
inimigos. O tmulo real de Kbor Roumia, perto de Cherchel, assim como o
mausolu principesco de Dougga,  decorado com imagens de lees. Mas foi
o carneiro o animal mais cultuado76 (provavelmente em toda a frica antes do
dessecamento do Saara). Segundo Atansio (Contra Gentes, 24), esse animal
era tido pelos lbios como uma divindade, recebendo o nome de mon. 
preciso tambm mencionar o culto ao peixe, prprio da rea da atual Tunsia,
que explica em parte a abundncia das representaes desse animal nos mosaicos
tunisianos. Smbolo flico, o peixe eliminava o mau-olhado. Em Susa, um
mosaico representa um falo pisciforme ejaculando entre dois rgos sexuais
femininos. Ao peixe correspondia a concha, smbolo do sexo feminino; bastante
difundida na frica Menor, servia de amuleto aos vivos e reconfortava os mortos
no tmulo.




75   GOBERT, E. 1948, pp. 24-110; VYCICHL, W. 1972, op. cit., p. 679.
76   CHARLES-PICARD, G. 1958-a, op. cit., p. 11; LEGLAY, M. op. cit., pp. 11 e 421-3; GERMAIN,
     G. pp. 93-124; VYCICHL, W. op. cit., pp. 695-7.
470                                                                                     frica Antiga



    Outras partes do corpo humano foram consideradas como receptculo de
foras sobrenaturais, em especial o cabelo. G. Charles-Picard77 sublinhou o fato
de os lbios usarem frequentemente uma trana nica formando uma cimeira,
dos afrescos egpcios ao Hermes lbio das termas dos Antoninos, passando
pelos macae de Herdoto (IV, 175). De acordo com Estrabo (XVII, 3, 7),
os maurusienses evitavam aproximar-se demais uns dos outros durante suas
caminhadas, a fim de manter os cabelos em ordem. Mais do que vaidade, trata-se
provavelmente da crena religiosa de uma ameaa  vitalidade.  sem dvida por
esse motivo que entre as mulheres adirmquidas a captura de piolhos fazia-se
acompanhar de um ritual de vingana (Herdoto, IV, 168).
    No alm-tmulo o homem era rodeado de cuidados.  o domnio do espao
religioso melhor iluminado pela arqueologia; a tese monumental de G. Camps78
nos permite percorr-la brevemente.
    O corpo era geralmente enterrado em posio lateral fletida ou contrada, e
os ossos, frequentemente descarnados; mais frequente ainda era o revestimento
da carne e dos ossos com ocre vermelho que, segundo a crena, revivificava o
cadver. Alimentos colocados no tmulo continuavam a alimentar o defunto,
e sua vida no alm era protegida por amuletos. Recebia inmeras oferendas de
animais, como a de um cavalo, e por vezes um homicdio ritual era perpetrado
a fim de que o morto pudesse continuar contando com um fiel servidor. Depois
de mortos, os membros de sua famlia eram enterrados no mesmo tmulo, assim
como, frequentemente, sua esposa  principalmente na Orania e no Marrocos
, fato que prova ter sido a monogamia  ou a poligamia seletiva  bastante
difundida.
    Ofereciam-se sacrifcios aos mortos diante de seus tmulos ou em recintos
especiais orientados para leste, direo do sol nascente. A potncia vital do
defunto era por vezes simbolizada pela ereo de menires ou de estelas-menir.
Herdoto (IV, 172) narra que os nasamones consultavam os ancestrais sobre o
futuro indo dormir sobre seus tmulos; G. Camps acredita que esse ritual de
incubao  a razo de ser das bazinas e dos tumuli com plataforma. No entanto,
a arquitetura que parece melhor se adequar a esse costume  a dos monumentos
com capela e cmara existentes no Saara.  provvel que esse ritual fosse muito
frequente entre os saarianos, dado que, segundo Herdoto (IV, 184), o fato de
os atlantes no terem vises durante o sono provocava o espanto desses povos.


77    CHARLES-PICARD, G. 1958-a, op. cit., p. 14.
78    CAMPS, G. 1961. op. cit., pp. 461-566. S podemos esboar aqui um resumo bastante sucinto desse
      levantamento dos dados arqueolgicos.
Os protoberberes                                                                                           471




figura 17.5 Estela lbia de Abizar (sudeste de Tigzirt): representao em baixo-relevo de um cavaleiro
armado. Tem na mo esquerda um escudo circular e trs lanas; o brao direito est estendido e a mo,
elevada  altura da testa, segura um objeto redondo, no identificado, entre o polegar e o indicador; sua barba,
triangular e pontuda, lhe desce at o peito. Sobre a garupa do cavalo, uma personagem de pequena estatura
tem a mo esquerda em contato com o guerreiro; na direita empunha uma arma. O cavalo tem um amuleto
 possivelmente um falo  em torno do pescoo;  sua frente esto dois animais, um quadrpede e uma ave
(talvez um co e uma avestruz).
472                                                                                               frica Antiga



   Herdoto (IV, 172) assinala tambm que quando os nasamones prestavam
algum juramento, colocavam a mo sobre o tmulo daquele que consideravam
o melhor e o mais justo; talvez essa prtica represente a origem de um culto aos
mortos. A arqueologia proto-histrica mostra que em torno de certos tmulos
constituram-se cemitrios inteiros. Os defuntos particularmente estimados
podiam, ao que parece, arrebanhar multides funerrias (e tambm, sem dvida,
multides de vivos). G. Camps79 se interroga, com razo, sobre a possibilidade
de o culto aos mortos ter levado  constituio ou remodelagem dos grupos de
populaes atestados s pocas pnica e romana; um culto ao soberano defunto
surgiria logo aps a fundao de um reino.
   Os lbios no parecem ter concebido grandes figuras divinas, mais ou menos
humanizadas. S dirigiam sacrifcios ao Sol e  Lua, conforme relata Herdoto
(IV, 188); no entanto, os habitantes da regio de Djerid ofereciam sacrifcios
a Atenas, Trito e Posseidon, ao passo que os atarantes (IV, 184), vizinhos
ocidentais dos garamantes, amaldioavam o Sol. Segundo Ccero (Rep. VI, 4),
Massinissa rendia graas ao Sol e s demais divindades do cu. Em diversas
cidades da frica romana  Mactar, Althiburos, Thugga, Sufetula  o Sol
permanece deificado;  possvel que em alguns lugares tenha havido influncia
pnica80.
   Excetuando-se os dois astros, a epigrafia e as fontes literrias nos revelam
um sem-nmero de divindades, frequentemente mencionadas por uma s vez,
ou invocadas sob forma coletiva, como  o caso dos dii mauri81.  bem verdade
que um relevo descoberto nas proximidades de Beja parece figurar uma espcie
de panteo com sete divindades, mas nesse caso foi sem dvida um politesmo
organizado sob a influncia pnica que levou os lbios a personificar as foras
divinas. Livres de influncias, os lbios sempre estiveram mais prximos do
sagrado que dos deuses82.




79    CAMPS, G. 1961, op. cit., p. 564.
80    CHARLES-PICARD, G. 1957, pp. 33-9.
81    CAMPS, G. 1954, pp. 233-60.
82    Sobre a hiptese da existncia de um deus principal entre os lbico-berberes, cf. LEGLAY, M. op. cit., pp.
      425-31. Aps ter excludo Iolaos, Baliddir e Iusb, Leglay exprime a opinio de que mon de Tebas estaria
      em vias de se impor  frica saariana e  frica Menor quando os fencios chegaram ao continente.
      Teoria sem dvida interessante, mas que no nos parece inteiramente demonstrada.
O perodo cartagins                                                                                 473



                                        CAPTULO 18


                            O perodo cartagins
                                         B. H. Warmington




    A entrada do Magreb na histria escrita comea com o desembarque em suas
costas de marinheiros e colonos vindos da Fencia.  difcil reconstruir a histria
desse perodo, pois quase todas as informaes nos vm de gregos e romanos, povos
que tiveram como seus piores inimigos os fencios do oeste, particularmente aqueles
que estavam sob o comando de Cartago. Isso explica por que  to negativa a
imagem que as fontes nos fornecem. Nada sobreviveu da literatura cartaginesa1. E,
embora nas duas ltimas dcadas tenham ocorrido alguns progressos, a contribuio
da arqueologia tambm  limitada, pois na maior parte dos casos as colnias fencias
esto encobertas pelas cidades romanas, muito mais imponentes. Existe um grande
nmero de inscries em vrias verses da lngua fencia, mas so quase todas
inscries votivas ou epitfios de sepulcros, que oferecem pouca informao.
    Do mesmo modo, permanece at certo ponto obscuro o desenvolvimento das
culturas lbias autctones, antes do sculo III antes da Era Crist2. O Neoltico


1    "Os autores gregos e latinos concentraram sua ateno principalmente nas guerras, primeiramente entre
     Cartago e Siracusa e posteriormente entre Cartago e Roma. Nesse caso, os relatos so abrangentes,
     detalhados e escritos logo aps os eventos. Quanto ao restante da histria cartaginesa, as informaes so
     espordicas. As observaes de Aristteles sobre a constituio pnica, o relato de Polbio sobre a revolta
     dos mercenrios, a verso grega da inscrio de Hano e a lista dos domnios cartagineses na frica na
     metade do sculo IV, dada por Pseudo-Silas, so exemplos extrados de uma documentao esparsa e
     desorganizada, cheia de lacunas e frequentemente difcil de compilar". MOSCATI, S. 1968. p. 113.
2    Neste captulo, salvo indicao contrria, as datas referem-se a perodos anteriores  Era Crist.
474                                                                     frica Antiga



de tradio capsiense prolongou-se no Magreb at o I milnio antes da Era
Crist e poucos vestgios podem ser atribudos a uma Idade do Bronze distinta.
Portanto, o quadro arqueolgico do I milnio caracteriza-se por uma evoluo
lenta e contnua, mas com influncias fencias cada vez mais fortes por volta
do sculo IV. O fenmeno especfico dos tmulos fechados por grandes lajes
dispostas na superfcie do solo parece no ter relao com as culturas megalticas
bem mais antigas da Europa do norte, e  provvel que esses tmulos sejam
da Era Crist. Os monumentos mais notveis, como os tmulos de Mzora e
de Medracen, provavelmente esto ligados ao crescimento de unidades tribais
maiores, nos sculos IV ou III antes da Era Crist. Por todo o Magreb observa-
-se uma uniformidade caracterstica.
    Autores gregos e romanos citam, nomeando-as, um grande nmero de
tribos diferentes; para o perodo em questo, porm, geralmente dividem os
habitantes no-fencios do Magreb em trs grupos principais. A oeste, entre
o Atlntico e o Mulucca (Muluya), viviam os mouros, de onde provm o
nome Mauritnia (antiga Maurousia) dado a esse territrio; posteriormente,
tal denominao passou a abranger regies situadas bem mais a leste,
alm do Chelif. Entre o territrio mauritano e o limite ocidental da parte
continental do territrio dos cartagineses (ver mais adiante), estendia-se o
pas dos Nmidas ou Numdia. Embora os gregos e romanos tenham derivado
incorretamente o nome "Nmidas" de uma palavra grega que significa
"pastorear", considerando-o como uma evocao da vida nmade desse povo,
parece que no h diferena fundamental entre os habitantes dessas duas
regies; em ambas predominava uma cultura pastoril seminmade, embora j
existissem reas de vida sedentria e de agricultura regular, que continuaram
a se desenvolver. Alm do mais, havia um contato bastante estreito entre a
Mauritnia e o sul da Espanha, onde existiam culturas semelhantes. O terceiro
grupo era o dos Getulos, nome dado aos verdadeiros nmades dos limites
setentrionais do Saara. Em todo este captulo sero empregados os nomes
clssicos desses grupos e das diversas tribos autnomas.


      As primeiras povoaes fencias
   Segundo a tradio antiga, Tiro foi o ponto de partida das expedies dos
fencios para o Oeste, responsveis pela fundao de numerosas povoaes. A
Bblia, entre outras fontes, confirma a primazia de Tiro sobre as demais cidades da
Fencia no perodo posterior  destruio das civilizaes da Idade do Bronze no
O perodo cartagins                                                               475



Oriente Prximo, no sculo XIII antes da Era Crist. Por volta de -1000, Tiro e
outras cidades (Sdon e Biblos, por exemplo) eram os centros mercantis mais ativos
no Egeu oriental e no Oriente Prximo, pouco prejudicados pelo crescimento
do Imprio Assrio. O que atraiu os negociantes fencios para o Mediterrneo
ocidental foi a procura de metais; particularmente ouro, prata, cobre e estanho. Essa
busca acabou por conduzi-los  Espanha, que continuou sendo uma das principais
fontes de produo de prata no mundo mediterrnico, mesmo na poca romana.
O historiador Diodoro da Siclia (sculo I antes da Era Crist) provavelmente nos
fornece uma anlise correta da situao geral da poca, quando diz que:
    "Os nativos [isto , os habitantes da Espanha] ignoravam o uso da prata, at que os
    fencios em suas viagens comerciais a adquirissem em troca de pequenas quantidades
    de mercadorias. Eles fizeram fortuna com o transporte desse metal para a Grcia, a
    sia e outras regies. Com tal comrcio, que durou muito tempo, seu poder tambm
    aumentou, e eles puderam fundar numerosas colnias na Siclia, nas ilhas vizinhas,
    na frica, na Sardenha e mesmo na Espanha".
    Segundo a tradio, a mais antiga colnia fencia no Ocidente se localizava
onde atualmente se situa Cdiz, cujo nome provm do fencio Gadir, que significa
"forte", o que leva a crer que sua origem tenha sido um entreposto comercial.
    A longa rota martima que conduzia aos novos mercados da Espanha
necessitava de proteo, principalmente em virtude das condies de navegao
na Antiguidade, quando a prtica geral era navegar pela costa e ancorar ou
arrastar o navio para a praia  noite. Os fencios utilizavam duas rotas; uma
passava pelo norte, ao longo das costas meridionais da Siclia, da Sardenha e
das ilhas Baleares; a do sul margeava a costa da frica do Norte. Supe-se que
os fencios dispunham de um ancoradouro a cada 50 km aproximadamente,
ao longo desta ltima rota. No entanto, a transformao dos pontos de escala
em colnias permanentes dependia de vrios fatores: os stios clssicos eram
ilhas prximas da costa ou promontrios acessveis dos dois lados. A utilizao
das escalas no apresentava maiores dificuldades para os fencios, pois as
populaes do Magreb, e de resto as de quase todo o Mediterrneo ocidental,
tinham um nvel de desenvolvimento cultural, poltico e militar inferior ao seu.
Alm disso, fatores estratgicos gerais levaram ao desenvolvimento de alguns
stios em oposio a outros.  significativo que trs dos mais importantes
 Cartago e tica (Utique) na frica do Norte e Mcia (Mozia) na Siclia 
ocupem uma posio estratgica nos estreitos que conduzem do Mediterrneo
oriental ao Mediterrneo ocidental, e que controlem tanto as rotas martimas
do sul como as do norte.
476                                                                           frica Antiga



      Fundao de Cartago
    O nome Cartago equivale ao nome fencio Kart Hadasht, que significa "cidade
nova". Isso pode fazer supor que o lugar se destinasse, desde o incio, a ser a principal
colnia dos fencios no Ocidente; mas sabemos muito pouco sobre a arqueologia do
perodo inicial da cidade para que possamos estar seguros dessa afirmao. A data
tradicional da fundao  -814, bem depois de Cdiz (-1110) e tica (-1101). Estas
duas ltimas datas parecem lendrias. Quanto  data de fundao de Cartago, os
primeiros dados arqueolgicos incontestveis so da metade do sculo VIII antes
da Era Crist. Ou seja, existe um descompasso de duas geraes com relao  data
tradicional. No se pode extrair nenhum documento histrico vlido das diversas
lendas que os autores gregos e romanos nos transmitiram sobre a fundao da
cidade. Descobriram-se indcios mais ou menos da mesma data em tica e foram
efetuadas dataes do sculo VI ou VII antes da Era Crist em Leptis Magna
(Lebda), Hadrumeto (Susa), Tipasa, Siga (Rachgoun), Lixos (no Oued Loukkos)
e Mogador, a colnia fencia mais distante que se conhece. Vestgios datados da
mesma poca foram descobertos em Mcia, na Siclia; em Nora (Nuri), Sulcis
e Tharros (Torre de San Giovanni), na Sardenha; e em Cdiz e Almunecar, na
Espanha. A coerncia geral dos indcios arqueolgicos mostra que, embora possa
ter havido expedies isoladas anteriores, no existiu nenhuma colnia permanente
na costa do Magreb antes de -800. Deve-se enfatizar que, ao contrrio das colnias
que os gregos fundaram na Siclia, na Itlia e em outras regies nos sculos VIII
e VII antes da Era Crist, todas as colnias fencias, incluindo a prpria Cartago,
continuaram a ser pequenos centros que, durante geraes, talvez no chegassem
a ter mais que algumas centenas de colonos.
    No sculo VI antes da Era Crist, Cartago tornou-se autnoma e passou a
exercer supremacia sobre as outras povoaes fencias do Ocidente, assumindo
a liderana de um imprio na frica do Norte, cuja criao teria profundas
repercusses na histria de todos os povos do Mediterrneo ocidental. Tal
evoluo foi favorecida principalmente pelo enfraquecimento do poder de Tiro
e da Fencia  a metrpole  que caram sob o jugo do Imprio Babilnico. No
entanto, a presso crescente exercida pelas colnias gregas da Siclia parece ter
sido um fator ainda mais determinante. As mais importantes dessas colnias,
como Siracusa, haviam tido um desenvolvimento demogrfico e econmico muito
rpido. Basicamente, elas tinham sido fundadas para absorver o excedente de
populao da Grcia continental. Ao que parece, no sculo VII antes da Era Crist,
no houve nenhum grande conflito entre fencios e gregos e foram encontrados
vestgios de importaes gregas em numerosas colnias fencias do Magreb. Em
O perodo cartagins                                                              477



-580, porm, os habitantes da cidade de Selinus (Selinunte) e outras populaes
gregas da Siclia tentaram expulsar os fencios estabelecidos em Mcia e Palermo.
Cartago parece ter dirigido as operaes defensivas contra essa agresso, que, se
vitoriosa, teria permitido aos gregos ameaarem as cidades fencias da Sardenha
e lhes teria aberto a rota do comrcio para a Espanha, fechada at essa poca. O
xito obtido consolidou as colnias fencias da Sardenha. Nesse mesmo sculo,
Cartago firmou uma aliana com as cidades etruscas da costa oeste da Itlia Por
volta de -535, uma vitria comum impediu os gregos de se fixarem na Crsega.
O ltimo triunfo a marcar esse perodo ocorreu na prpria frica. Um espartano
chamado Dorieus tentou fundar uma feitoria na embocadura do rio Kinyps (Oued
Oukirri) na Lbia; Cartago considerou o empreendimento uma intruso e, com a
ajuda dos lbios, conseguiu expulsar os gregos ao final de trs anos.
    A supremacia exercida sobre os fencios do Ocidente envolvia encargos que
parecem ter sido muito pesados em relao aos efetivos de que dispunha Cartago:
at o sculo VI, como as cidades gregas, Cartago devia contar com seus prprios
cidados. Na metade do sculo, sob o governo de Magon, fundador de uma
poderosa famlia da cidade, inaugurou-se uma nova poltica, que consistia em
recrutar tropas de mercenrios em larga escala. Tal prtica continuou em vigor
durante o restante da histria cartaginesa. Os lbios, particularmente eficazes como
infantaria ligeira, constituam a maior parte dos efetivos estrangeiros. Tais efetivos
aumentavam  medida que Cartago estendia suas possesses pelo interior e a
instaurava o recrutamento obrigatrio (ver adiante). Inicialmente mercenrias e
depois aliadas em virtude de tratados, tambm as cavalarias nmida e mauritana
(originrias do norte da Arglia e do Marrocos atuais) forneceram importantes
contingentes aos grandes exrcitos cartagineses. Em diferentes pocas, serviram
em Cartago mercenrios vindos da Espanha, da Glia, da Itlia e finalmente
da Grcia. Essa poltica se revelou mais eficaz do que geralmente se pensa e 
improvvel que Cartago pudesse sustentar as longas guerras de sua histria se
tivesse contado apenas com os limitados efetivos de sua prpria populao.
    A gerao posterior  vitria contra Dorieus assistiu a profundas mudanas
nas cidades gregas da Siclia, que reagiram vigorosamente contra Cartago. Gelo,
rei de Gela  e de Siracusa a partir de -405  empreendeu uma guerra para
vingar Dorieus e planejou uma campanha para conquistar a rea de colonizao
fencia em torno do golfo de Gabes. Como resultado, Cartago procurou aliados
na Siclia, entre os que se opunham a Gelo, e em -480 desembarcou um grande
exrcito mercenrio na ilha, talvez aproveitando-se do fato de que no mesmo
ano ocorria a invaso da Grcia pelos persas. Avalia-se em duzentos navios a
frota de Cartago na poca, o que a colocava em igualdade de condies com
478                                                                    frica Antiga



Siracusa e quase no mesmo nvel da frota grega. Contudo, essa interveno
terminou em desastre completo, com a destruio do exrcito e da esquadra na
grande batalha de Hmera. Gelo no pde ou no soube tirar proveito dessa
vitria e contentou-se com uma modesta indenizao de guerra.


      A expanso na frica do norte
    A essa derrota sucederam-se setenta anos de paz, durante os quais Cartago
evitou entrar em conflito com os gregos, conseguindo, no entanto, manter seu
monoplio comercial. Um fato ainda mais importante foi a preocupao de
Cartago em ampliar seus territrios em solo africano. Tal poltica foi adotada
quando os cartagineses se viram cada vez mais isolados pelas vitrias dos gregos
no Mediterrneo, primeiramente durante as guerras mdicas contra os persas,
em que os fencios sofreram grandes perdas, e depois contra os etruscos na
Itlia.  possvel que os cartagineses tenham procurado reduzir suas trocas
comerciais com o mundo grego: o contedo das sepulturas do sculo V parece
pobre e austero, com pouco material importado. Contudo, isso no implica que
a comunidade como um todo estivesse mais empobrecida do que antes, uma vez
que o contedo das sepulturas no constitui, por si s, um ndice absoluto do
grau de riqueza ou pobreza. A nova poltica territorial est associada  dinastia
magnida, dirigida nessa poca por Hano, filho de Amlcar, que havia sido
derrotado em Hmera. Sobre ele, o historiador grego Don Crisstomo diria
mais tarde que "transformou os cartagineses de trios em africanos".
    Embora no se tenha certeza da superfcie dos territrios conquistados no
sculo V e do nmero de colnias que atingiram a dimenso de cidades, ainda
que modestas, as novas possesses estavam prximas do limite mximo que
Cartago chegou a controlar .  preciso assinalar a grande importncia que teve
a conquista da pennsula do cabo Bon e de um vasto territrio situado ao sul da
cidade, estendendo-se ao menos at Dougga e englobando algumas das terras
mais frteis da Tunsia. E nessa rea que a colonizao romana atingiu, tempos
depois, uma densidade particularmente significativa. Essas terras forneciam o
essencial do abastecimento de Cartago e permitiram que a populao da cidade
aumentasse de modo considervel. Mais tarde, muitos cartagineses possuram
domnios no cabo Bon. As terras do cabo Bon eram consideradas pblicas e
provavelmente seus habitantes estavam reduzidos a, uma condio de servido.
Nas outras regies conquistadas, as populaes deviam pagar tributo e fornecer
tropas.
O perodo cartagins                                                          479



    Da em diante, ao nmero de estabelecimentos costeiros fencios vieram
somar-se as prprias colnias de Cartago, cujos nomes, em sua maioria, no
chegaram at ns. Como as colnias originais, eram localidades pequenas, com
algumas centenas de habitantes, em que as populaes locais das regies vizinhas
vinham vender seus produtos, como indica o nome que lhes deram os gregos:
emporia (mercados).
    A fronteira entre o Imprio Cartagins e as colnias gregas da Cirenaica
situava-se no golfo de Sidra, mas eram poucas as colnias na costa da Lbia. A
mais importante situava-se em Leptis, onde provavelmente se estabeleceu uma
colnia permanente quando o ataque de Dorieus  regio vizinha mostrou o
risco de invaso grega. Em Sabrata, a presena cartaginesa remontava ao incio
do sculo IV. Leptis tomou-se o centro administrativo das diversas colnias do
golfo de Gabes e sabe-se que esta cidade prosperou ao final do perodo cartagins.
A, a cultura fencia continuou a ser dominante por mais de um sculo sob
ocupao romana. A origem da prosperidade de Leptis  geralmente atribuda
ao comrcio transaariano, pois a rea estava situada no fim do itinerrio mais
curto que, por Cidamus (Gadames), conduzia ao Nger. No entanto, ignoramos
a natureza desse comrcio, ainda que haja meno a pedras semipreciosas. Na
poca romana, a regio devia sua riqueza agrcola aos colonos cartagineses. No
golfo de Gabes existiam outros stios: Zouchis, que se tomou clebre por seu
peixe salgado e sua tintura prpura; Gigthis (Bou Ghirarah ) e Tcape (Gabes).
Mais ao norte, citamos Thaenae (ou Tina), situada no ponto em que a fronteira
sul do territrio de Cartago atingia o mar. Segundo a tradio, Leptis Minor e
Hadrumeto foram fundadas pela Fencia, no por Cartago, e a ltima tomou-se
a maior cidade da costa leste da Tunsia. A partir de Nepolis (Nabeul) uma rota
que atravessava a base do cabo Bon levava a Cartago.
    A oeste de Cartago estendia-se tica, que s perdia em importncia para
a metrpole. Como Cartago, era um porto, embora atualmente esteja situada
a 10 km da costa. Durante algum tempo, tica manteve uma independncia
ao menos nominal em relao a Cartago. Alm desse porto, at o estreito de
Gibraltar, a costa oferecia um certo nmero de ancoradouros, mas poucos
atingiram um desenvolvimento comparvel s escalas da costa tunisiana.
Com certeza isso se deveu principalmente ao fato de apresentarem maior
dificuldade de acesso ao interior. Os stios conhecidos ou provveis incluem
Hippo Acra (Bizerta), Hippo Regius (Bona), Rusicade (Skikda), Tipasa e
Icsio (Arglia). Na poca romana, diversas localidades costeiras (alm de
Rusicade) guardaram o prefixo fencio rus, que significa "cabo": Rusucurru
(Dellys) e Rusguniae (Natifou), por exemplo. Tingis (Tnger)  mencionada
480                                                                    frica Antiga



no sculo V, mas supe-se que j era conhecida dos fencios desde as primeiras
ligaes regulares destes com Cdiz.


      O Imprio de Cartago
   Cartago foi criticada por seus inimigos pelo duro tratamento e pela explorao
a que submeteu seus sditos, que com certeza estavam divididos em diferentes
categorias. Sem dvida, os mais privilegiados foram os velhos estabelecimentos
fencios e as colnias fundadas pela prpria Cartago, cujos habitantes eram
chamados pelos gregos de lbio-fencios, isto , fencios da frica. Ao que tudo
indica, tais colnias possuam funcionrios locais e instituies semelhantes
s da prpria Cartago (ver adiante); sabemos que esse foi o caso de Gades
(Cdiz), Tharros e dos fencios de Malta. Essas cidades estavam submetidas
ao pagamento de taxas sobre as importaes e exportaes e s vezes deviam
fornecer contingentes militares. Tambm  provvel que tenham contribudo
para equipar a frota cartaginesa. Aps -348, parece que foram proibidas de
comerciar com outras cidades alm de Cartago. A posio dos sditos de
Cartago na Siclia era influenciada pela proximidade das cidades gregas; eles
tinham direito a instituies autnomas e cunhavam moeda desde o sculo V,
num perodo em que a prpria Cartago ainda no as emitia. No h indcios de
que seu direito de comrcio tenha sofrido restrio; como ocorreu mais tarde,
quando a Siclia caiu sob domnio romano, eles pagavam um tributo equivalente
a 10% sobre os lucros.
   Os lbios do interior eram tratados com mais dureza, ainda que aparentemente
fossem autorizados a conservar sua organizao tribal. Parece que os funcionrios
de Cartago supervisionavam diretamente a coleta do tributo e o alistamento de
soldados. A taxa normal do tributo correspondia provavelmente a um quarto
das colheitas, sendo que, num perodo crtico de lutas contra Roma (Primeira
Guerra Pnica), o imposto exigido atingiu 50%. De acordo com o historiador
grego Polbio (sculo II), numerosos lbios tomaram parte na sangrenta revolta
de mercenrios que se seguiu  derrota de Cartago, para se vingarem dessa e de
outras cobranas, "os cartagineses estimavam e honravam no os governadores
que tratavam seus administrados com moderao e humanidade, mas os que
lhes extorquiam o mximo de recursos e que os tratavam com mais crueldade".
Essa crtica deve ter fundamento, pois ocorreram vrias revoltas lbias, alm da
mencionada. Ao que parece, os cartagineses no conseguiram adotar polticas
capazes de levar as populaes conquistadas a aceitarem sua sorte.
O perodo cartagins                                                          481



    O comrcio cartagins e a explorao martima
    A frica Ocidental
    Para os gregos e romanos, Cartago era mais dependente do comrcio do
que qualquer outra cidade, e a ideia que eles faziam do cartagins tpico era
a de um negociante. Alm disso, Cartago era tida na poca como a cidade
mais rica do mundo mediterrnico. Contudo,  preciso dizer que essas trocas
comerciais e essa suposta riqueza deixaram muito poucos vestgios para o
arquelogo  muito menos, por exemplo, do que importantes cidades gregas
e etruscas da mesma poca. Sem dvida, uma das principais razes disso  que
a parte mais significativa do comrcio de Cartago consistia em produtos que
no deixavam vestgio, especialmente os metais em estado bruto, que eram o
objetivo maior j dos primeiros navegadores fencios.  preciso acrescentar os
txteis, o trfico de escravos e,  medida que as terras frteis eram cultivadas,
os produtos agrcolas. Os lucros do comrcio com as tribos atrasadas, que
forneciam ouro, prata, estanho e provavelmente ferro (sabe-se que Cartago
fabricava suas prprias armas) em troca de artigos manufaturados sem valor, so
evidenciados pelos grandes exrcitos mercenrios que a cidade podia recrutar
nos sculos IV e III e pela cunhagem de moedas de ouro, que foi bem mais
intensa que em outras cidades igualmente desenvolvidas. O Estado dirigia
ativamente os grandes empreendimentos comerciais, como atestam diversas
fontes, em particular as que se referem  frica ocidental. Segundo Herdoto
(sculo V ), o rei egpcio Necau (c. -610 a -594) enviou uma expedio de
marinheiros fencios para navegar pelo mar Vermelho e da contornar a frica.
A viagem teria durado dois anos, com duas paradas para semear e colher uma
safra de trigo. Herdoto acreditava que a viagem havia sido coroada de xito,
o que no  impossvel, mas na poca no houve nenhuma repercusso. Se
tal priplo realmente se realizou, as dimenses do continente ento revelado
devem ter afastado qualquer ideia de uma rota que se estendesse do mar
Vermelho ao Mediterrneo. Ainda segundo Herdoto, os cartagineses que
acreditavam na possibilidade de circunavegar a frica deviam estar a par do
empreendimento, bem como de uma outra tentativa que remonta ao incio do
sculo V. Um prncipe persa conseguiu um navio no Egito com a condio de
tentar a circunavegao no sentido oposto. O navio teria seguido ao longo das
costas marroquinas bem alm do cabo Spartel, mas teve de retornar. Herdoto
tambm fornece um relato do comrcio cartagins nas costas marroquinas.
Num escrito que data aproximadamente de -430, ele diz:
482                                                                            frica Antiga



      "Os cartagineses tambm nos falam de uma regio da frica e de seus habitantes,
      alm do estreito de Gibraltar. Assim que eles chegam a este pas, descarregam suas
      mercadorias e as colocam na praia; depois retornam a seus navios e enviam um sinal
      de fumaa. Quando os nativos vem a fumaa, descem at a praia, depositam ali uma
      certa quantidade de ouro para ser trocado pelas mercadorias e depois se retiram. Os
      cartagineses desembarcam novamente e examinam o ouro que foi deixado. Se julgam
      que seu valor corresponde ao dos produtos ofertados, eles o recolhem e seguem
      viagem; se no, voltam aos navios e esperam at que os nativos tenham levado ouro
      suficiente para satisfaz-los. Nenhuma das partes engana a outra: os cartagineses
      nunca tocam o ouro at que seu valor corresponda ao que trouxeram para vender, e
      os nativos no tocam as mercadorias at que o ouro tenha sido levado".
    Esta  a descrio mais antiga que temos do mtodo clssico do "comrcio
mudo". Esse comrcio do ouro  normalmente associado a um texto grego
muito controvertido, considerado como traduo do relato de uma viagem ao
longo da costa marroquina feita por um certo Hano, identificado como o chefe
da famlia dos magnidas, em meados do sculo V, e tambm como estadista
responsvel pela expanso cartaginesa no continente africano. As dificuldades de
interpretao desse texto impedem que seja analisado pormenorizadamente. De
maneira geral, pode-se dizer que a divulgao de um documento que revela tantos
fatos  pouco plausvel, pelo que se sabe da poltica comercial praticada pelos
cartagineses, que impediam qualquer concorrente em suas zonas de atividade.
Alm disso, o documento no menciona nem mesmo o objetivo da viagem. A
parte mais precisa trata da implantao de feitorias na costa marroquina. Sabe-
-se que essas colnias existiram; Lixos, na embocadura do Oued Loukkos, era
com certeza uma delas. Hano no a menciona, e a histria ulterior das tribos
da regio (ver mais adiante) demonstra a influncia cultural de Cartago. A
feitoria mais meridional constante do documento chama-se Cerna, geralmente
associada  ilha Hern, na embocadura do Rio de Oro. Esse nome  citado em
outra fonte geogrfica grega conhecida como Pseudo-Silas, de cerca de -338.
      "Em Cerna, os fencios [isto , os cartagineses] ancoram seus gauloi (assim
      se chamavam seus navios mercantes) e armam suas tendas na ilha. Aps ter
      descarregado suas mercadorias, eles as transportam em pequenas canoas para
      o continente; a vivem os etopes [isto , os negros] com os quais negociam. Os
      fencios trocam suas mercadorias por peles de veado, de leo e de leopardo, couros
      e presas de elefantes [...] os fencios trazem perfume, pedras egpcias [cermica?],
      louas e nforas atenienses."
O perodo cartagins                                                          483



    Tambm aqui o ouro no  mencionado; Cerna aparece mais como um
ancoradouro do que como uma colnia. A lista das mercadorias trazidas de
Cartago parece correta, mas tem-se contestado a aquisio de peles de animais
selvagens, pois era possvel obt-las bem mais perto de Cartago. O relato de
Hano termina com uma narrativa de duas viagens feitas bem ao sul de Cerna,
com descries pitorescas de populaes ferozes, de "tambores na noite" e de "rios
de fogo", provavelmente com a inteno de assustar qualquer eventual concorrente.
    O limite sul dessas viagens foi fixado no monte Camares, o que parece
exagerado. Os indcios arqueolgicos que testemunham as expedies
cartaginesas no vo alm de Essaura (Mogador), mas se referem a viagens
ocasionais restritas ao sculo VI e no podem ser identificados com qualquer
um dos lugares mencionados no relatrio em questo.
    Se o objetivo era o ouro,  estranho que toda lembrana desse comrcio
haja desaparecido com a queda de Cartago, ainda que certas colnias na costa
marroquina tenham sobrevivido. O historiador grego Polbio navegou ao sul
de Cerna depois de -146, mas no descobriu nada de interessante. No sculo
I da Era Crist, o escritor romano Plnio refere-se nestes termos ao relato de
Hano: "Muitos gregos e romanos, com base nesse documento, evocam muitas
terras fabulosas e relatam a fundao de muitas cidades, das quais no subsiste
na realidade nenhuma lembrana ou vestgio". Fato singular, Mogador seria
visitada mais tarde por marinheiros vindos da Mauritnia (ver adiante), Estado
vassalo de Roma, mas parece que seu objetivo era mais a pesca do que o ouro.

    O Atlntico
    O mundo antigo conhecia o relato de outra expedio dirigida por Himlcon,
contemporneo de Hano, mas as referncias que possumos so fragmentrias.
Essa expedio explorou a costa atlntica da Espanha e da Frana e certamente
atingiu a Bretanha. Provavelmente seu objetivo era ampliar o controle sobre o
comrcio do estanho extrado em vrias regies prximas ao litoral atlntico.
Diversos escritores da Antiguidade se interessaram pelo comrcio de estanho,
com certeza porque eram muito poucas as informaes que os cartagineses
deixavam circular a esse respeito. Na verdade, o perodo cartagins constituiu a
ltima fase do comrcio de estanho ao longo dessa costa; tal comrcio remontaria
 Pr-Histria, sendo a regio sudoeste da Inglaterra uma das principais fontes de
produo. Contudo, no h provas de que os fencios tenham algum dia atingido
a Inglaterra; nenhum objeto fencio foi jamais descoberto nessa regio (nem na
Bretanha, alis). Se eles adquiriam estanho da Inglaterra, era provavelmente por
484                                                                     frica Antiga



intermdio de tribos da Bretanha.  possvel que a maior parte da produo
inglesa de estanho fosse transportada atravs da Glia at o vale do Rdano e o
Mediterrneo, e que os cartagineses adquirissem esse metal principalmente no
norte da Espanha. Seja como for, o mineral mais valioso explorado na Espanha
era a prata; sabemos que no sculo III a produo atingiu nveis considerveis
e que sem dvida ultrapassou em muito a de estanho. A partir do sculo V,
Cdiz rapidamente ganhou importncia e foi a nica possesso cartaginesa no
Ocidente,  exceo de Ibiza, a emitir sua prpria moeda. Segundo o gegrafo
grego Estrabo, seus construtores de navios superavam todos os outros na
fabricao de embarcaes tanto para o Mediterrneo quanto para o Atlntico.

      O comrcio mediterrnico
    Como vimos, Cartago possua o monoplio do comrcio em seu imprio,
afundando toda embarcao intrusa ou concluindo tratados comerciais com os
possveis concorrentes, como as cidades etruscas e Roma. Em princpio, nenhum
estrangeiro estava autorizado a comerciar a oeste de Cartago; isso significava
que as mercadorias levadas a essa cidade por navios estrangeiros deveriam sofrer
transbordo para navios cartagineses, para ento serem reexportadas. Foi assim
que os produtos da Etrria, Campnia, do Egito e de diversas cidades gregas
atingiram um grande nmero de colnias da frica do Norte. Os produtos
manufaturados de Cartago so difceis de identificar do ponto de vista
arqueolgico, pois no tm qualquer originalidade ou valor. Talvez isso tenha
sido economicamente vantajoso no sculo IV, principalmente aps as profundas
alteraes econmicas e polticas desencadeadas no Mediterrneo ocidental
pelas conquistas de Alexandre, o Grande. De fato, a partir da abriram-se grandes
mercados, de tipo mais cosmopolita, para os artigos baratos, mercados que os
cartagineses estavam bem preparados para explorar. Foi somente no sculo IV
que Cartago comeou a cunhar suas prprias moedas,  medida que aumentava
o seu comrcio com pases mais desenvolvidos e que a evoluo da situao
econmica tambm obrigava a pagar os mercenrios em dinheiro.

      O comrcio saariano
    A questo dos contatos dos cartagineses com os povos saarianos e outras
populaes que viviam mais ao sul ainda no foi elucidada. Se tais comunicaes
existiram, devem ter ocorrido a partir de Leptis Magna e Sabrata, uma vez que nessa
regio so muito poucos os obstculos naturais. A preocupao dos cartagineses
em manter os gregos longe dessa rea foi mencionada como prova de que eles
O perodo cartagins                                                              485



praticavam um comrcio muito importante com o interior, pois a as terras agrcolas
propcias  colonizao so raras. No sculo V, Herdoto citava dois grupos tribais,
os Garamantes e os Nasamones, que viviam nas regies interioranas ao sul do golfo
da Sirte; ele tambm afirmava que eram necessrios trinta dias para ir da costa at
o territrio da primeira tribo, provavelmente a populao de Garama (Germa).
    Foi por intermdio dos Garamantes que, sculos mais tarde, os romanos
obtiveram maiores informaes sobre o interior da frica. Segundo uma narrativa
mais recente, um cartagins chamado Magon atravessou trs vezes o deserto.
Infelizmente, no restou nenhum vestgio arqueolgico desse comrcio  se  que
existiu  e os autores mencionam apenas um artigo de comrcio do deserto: o
carbnculo. Talvez se praticasse o trfico de escravos  diz-se que os Garamantes
perseguiam os etopes (isto , os povos negros), em carros puxados por quatro
cavalos.  possvel tambm que houvesse comrcio de marfim e peles, embora
esses artigos fossem facilmente encontrados no Magreb. Sabe-se menos ainda
sobre o transporte do ouro proveniente do Sudo, mas no se pode descartar a
existncia dessa atividade. As investigaes arqueolgicas recentes indicam que
em Germa o crescimento demogrfico ocorreu a partir do sculo V ou IV e que,
nos sculos seguintes, se desenvolveu uma considervel populao de agricultores
sedentrios, provavelmente devido s influncias culturais que se exerceram a
partir dos estabelecimentos cartagineses do litoral. Aps a destruio de Cartago,
os romanos penetraram em Germa e em Gadames e ocasionalmente bem mais
ao sul; alguns vestgios arqueolgicos testemunham a existncia de modestas
importaes do Mediterrneo para o interior. A ausncia de camelos na frica do
Norte nessa poca explica a dificuldade e a irregularidade das viagens transaarianas.
    Mesmo que as condies naturais do Saara na Antiguidade fossem menos
precrias que hoje em dia, a falta de animais de carga dificultaria enormemente
qualquer comrcio de larga escala. Portanto, a integrao das regies saarianas
e transaarianas num conjunto cultural mais amplo deve ser datada do incio do
perodo rabe.


    A cidade de Cartago
    Embora Cartago tivesse a reputao de possuir uma fabulosa riqueza, no
encontramos nenhum trao arqueolgico dela, mesmo levando em conta a destruio
total da cidade pelos romanos. Isso no significa que no houvesse ali construes
importantes, como so encontradas em cidades semelhantes da poca. Cartago
possua um sofisticado porto artificial duplo: o porto externo destinava-se ao uso de
486                                                                      frica Antiga



navios mercantes  desconhece-se sua capacidade  e o porto interno tinha cais e
abrigos para 220 navios de guerra; foi erigida uma torre de controle suficientemente
alta para permitir a observao do mar por cima dos edifcios da cidade.
    As muralhas da cidade, de dimenses excepcionais, resistiram a todos os
ataques at o assalto final dos romanos. A extenso total (incluindo a parte que
se estendia ao longo do mar) era de 40 km aproximadamente. Na parte principal
que defendia o istmo de Cartago, com extenso de 4 km, os muros atingiam 12 m
de altura e 9 m de espessura. Uma fortaleza interna de mais de 3 km de permetro
circundava a colina conhecida como Birsa, que sem dvida constitua a parte
mais antiga da cidade. Entre o porto e a colina de Birsa havia uma praa pblica
equivalente a uma gora grega. Mas Cartago nunca teve o aspecto planificado ou
monumental que veio a caracterizar as cidades gregas. Parece ter-se desenvolvido
sem planejamento, com ruas estreitas e sinuosas; sabe-se de edifcios que teriam
at seis andares, como na prpria Tiro e em Mcia na Siclia.
    Quanto aos templos, embora se diga que foram numerosos,  pouco provvel
que tenham tido grandes dimenses antes do ltimo perodo da histria de
Cartago, quando a influncia cultural grega se fez sentir. De fato, a maior parte
dos indcios mostra que os cartagineses eram essencialmente conservadores em
assuntos religiosos e que durante muito tempo permaneceram fiis ao conceito
de simples recintos, desprovidos de monumentos imponentes.
    No apogeu de Cartago, a populao pode ser apenas estimada; o nmero
de 700 mil habitantes fornecido por Estrabo  uma concentrao impossvel,
mas pode-se referir  populao da cidade e de toda a regio do cabo Bon. O
nmero, mais razovel, de 400 mil pessoas, incluindo os escravos, poria Cartago
no mesmo nvel que a Atenas do sculo V.

      As instituies polticas de Cartago
    O nico aspecto de Cartago admirado pelos gregos e romanos foi seu regime
poltico, que parecia garantir a estabilidade to apreciada na Antiguidade. Os
detalhes do sistema ainda so pouco conhecidos e no se pode ter certeza de
que os fatos tenham sido interpretados corretamente.  provvel, contudo, que
em suas grandes linhas funcionasse da seguinte maneira: a realeza hereditria
prevaleceu nas cidades fencias at a poca helenstica; de acordo com todas
as fontes de que dispomos, ela tambm existiu em Cartago. Assim, Amlcar,
derrotado em Hmera, e Hano, o promotor da expanso de Cartago na frica,
so designados pelo ttulo de rei.  provvel que, ao empregarem o termo "rei",
os autores clssicos estivessem pensando tanto nos poderes sagrados e judicirios
O perodo cartagins                                                           487



dos titulares, quanto em seus poderes polticos e militares. O cargo era, em
princpio, eletivo e no hereditrio, mas vrias geraes da famlia magnida
ocuparam tal posio.
    Durante os sculos VI e V, os reis parecem ter sido, quando era preciso,
tambm chefes militares da nao. No decorrer do sculo V teve incio um
processo que enfraqueceu o poder dos reis. Essa mudana talvez esteja associada 
influncia crescente dos sufetes, o nico termo poltico cartagins que os autores
romanos nos transmitiram. Essa palavra alia as noes de juiz e governador e,
dado que no sculo III dois (ou talvez mais) sufetes eram eleitos anualmente, 
fcil compar-los aos cnsules romanos. O termo sufete continuou a ser usado
na frica do Norte, em regies colonizadas por Cartago, durante mais de um
sculo aps a conquista romana, para designar o principal magistrado de uma
cidade.
    O processo de enfraquecimento do poder dos reis assemelhou-se ao que se
verificou nas cidades gregas e em Roma. Paralelamente a esse declnio, aumentava
o poderio e a riqueza da aristocracia. Alm de exercer o direito exclusivo de fazer
parte de um conselho de estado, como o senado romano, a aristocracia fundou
uma corte de cem membros, aparentemente com a funo especfica de controlar
todos os rgos do governo. Embora os cidados participassem de uma certa
maneira da eleio dos reis, dos sufetes e de outros dirigentes, no h dvida
que a poltica cartaginesa sempre foi dominada pelos ricos. Aristteles julgava
nefasto o papel desempenhado pela riqueza em Cartago.
    O nascimento e a fortuna eram critrios determinantes nas eleies; todos
os assuntos eram decididos pelos reis ou sufetes de acordo com o conselho, e
somente em caso de desacordo as assembleias de cidados eram consultadas. No
sculo IV ou III, o comando das foras armadas era totalmente independente
dos outros cargos; os generais eram nomeados apenas de acordo com as
necessidades para campanhas especficas, pois o Estado no mantinha um
exrcito regular que exigisse um chefe permanente. Vrias famlias ou dinastias
 os magnidas no incio da Histria e posteriormente os brcidas (ver mais
adiante)  desenvolveram uma tradio militar.  interessante notar que Cartago
nunca sofreu um golpe de estado por parte de um general ambicioso, como era
comum nas cidades gregas, principalmente na Siclia.  muito provvel que os
rgos de superviso e controle fossem eficazes. O fato de, a partir do incio do
sculo V, os cidados cartagineses terem sido dispensados do servio militar 
exceto em raras ocasies  possivelmente os impediu de tomar conscincia de
sua prpria fora. Na Grcia e em Roma, tal conscincia teve importante papel
na formao do esprito democrtico.
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      A religio dos cartagineses
    Embora as instituies polticas de Cartago recebessem elogios, a vida
religiosa foi severamente criticada pelos autores clssicos, principalmente em
virtude da persistncia de sacrifcios humanos. Mencionava-se tambm a
intensidade das crenas religiosas.
    Como  natural, os cultos praticados em Cartago apresentam semelhanas
com as tradies da Fencia, das quais se originaram. A suprema divindade
masculina do mundo fencio era conhecida na frica sob a denominao de
Baal-Hamon; ao que parece, o epteto Hamon significava "ardente" e evocava
seu aspecto solar. Na poca romana, essa divindade era identificada com Saturno.
No sculo V, Baal foi sobrepujado, pelo menos no culto popular, por uma deusa
chamada Tanit. O nome parece ser de origem lbia, e o desenvolvimento de seu
culto est associado  aquisio de territrios na frica, pois a divindade possua
aspectos nitidamente ligados  fertilidade, lembrando muito as deusas gregas
Hera e Demter. Representaes grosseiras de uma figura feminina com braos
erguidos aparecem em centenas de estelas em Cartago e em outros lugares. Essas
duas divindades ofuscaram todas as demais, mas conhecemos tambm Astarte,
Eshmoun (identificado com Esculpio, deus da medicina) e Melqart, protetor
particular de Tiro, a cidade-me.
    A instituio de sacrifcios humanos  comprovada arqueologicamente
pelas descobertas feitas no apenas em Cartago e Hadrumeto, mas tambm
em Cirta  que se situa no territrio lbio, onde a influncia da cultura
cartaginesa foi muito marcante  e em diversas colnias situadas fora da
frica. A descoberta, nos recintos sagrados, de urnas com ossadas calcinadas
de crianas, que frequentemente eram enterradas aos ps das estelas, levam a
supor que se tratava de sacrifcios geralmente oferecidos a Baal-Hamon, mas
com frequncia tambm a Tanit. De acordo com as fontes de que dispomos
(que possuem aspectos duvidosos), as vtimas eram sempre do sexo masculino;
os sacrifcios realizavam-se a cada ano e atingiam obrigatoriamente as famlias
influentes. Tal prtica caiu em desuso, mas um incidente em -310 mostra que
ela podia renascer em momentos de crise, quando a clera divina era atribuda 
negligncia desse rito. No h dvida de que o fervor religioso dos cartagineses
repousava na necessidade de apaziguar o humor caprichoso dos deuses. A maior
parte dos nomes cartagineses possua uma etimologia sagrada, sem dvida com
a mesma inteno. Amlcar, por exemplo, significa "protegido de Melqart" e
Anbal, "protegido de Baal". Alm dos sacrifcios humanos, havia um ritual
complexo envolvendo a oferenda de outras vtimas, que era cumprido por um
O perodo cartagins                                                            489



corpo de sacerdotes nomeados a ttulo permanente e por outros oficiantes que
no pertenciam a uma casta especial. Apesar de seus contatos com o Egito, os
cartagineses parecem ter dado pouca importncia  ideia da vida aps a morte,
o que os aproxima dos primeiros hebreus. A inumao era regra geral e os
objetos funerrios eram modestos; vrios tmulos continham pequenas mscaras
grotescas em terracota, que, imagina-se, deviam conjurar as influncias malficas.
    Mesmo mais tarde, os cartagineses foram muito menos influenciados
pela civilizao grega do que os etruscos e os romanos, embora no fossem
totalmente fechados a essa cultura. O culto de Demter e Persfone foi
oficialmente instalado em Cartago, mas os cultos tradicionais nunca chegaram
a ser totalmente helenizados. Quanto ao panorama artstico, pode-se afirmar que
as artes menores revelam poucas influncias externas, mas os poucos vestgios do
sculo II indicam que nessa poca as influncias da arquitetura do mundo grego
fizeram-se sentir no apenas na regio de Cartago (Dar Essafi no cabo Bon),
mas tambm em territrio lbio (Dougga). O fencio era empregado como lngua
literria, mas nenhum de seus traos sobreviveu. Sabemos da existncia de um
tratado sobre agricultura escrito por um certo Magon e que foi traduzido para
o latim;  claro que Magon utilizou os livros gregos sobre o assunto. Tambm
sabemos de alguns cartagineses adeptos da filosofia grega.


    Os conflitos com os gregos da Siclia
    O perodo de expanso na frica e de paz geral que se havia iniciado com o
desastre de Hmera chegou ao fim em -410. Os Estados gregos da Siclia estavam
empenhados na spera luta entre Atenas e Esparta pela supremacia na Grcia.
Embora uma expedio ateniense mandada para a Siclia terminasse em desastre
total, as consequncias acabaram por envolver Cartago. A cidade de Segesta,
comunidade nativa da Siclia mas aliada de Cartago, que tinha sido em parte
responsvel pela chegada dos atenienses  ilha e que nessa poca foi vtima de um
forte ataque punitivo feito pela cidade grega de Selinunte, pediu auxlio a Cartago.
O apelo foi atendido, provavelmente porque a derrota de Segesta asseguraria o
domnio grego, que reduziria as colnias fencias a um mero ponto de apoio no
oeste da ilha. Alm disso, o chefe cartagins Anbal fez dessa expedio uma
guerra de vingana pela derrota em Hmera, onde perecera seu av.
    Em -409, um exrcito cartagins formado por cerca de 50 mil mercenrios
sitiou Selinunte, tomando-a de assalto no nono dia. Pouco tempo depois,
Hmera tambm foi conquistada e totalmente destruda; todos os habitantes
490                                                                    frica Antiga



que no conseguiram fugir foram massacrados. Em seguida, Anbal retornou
a Cartago e desfez o exrcito, o que indica que os cartagineses no tinham por
objetivo estender seu territrio.  evidente, porm, que a partir dessa data as
colnias fencias da Siclia, como ocorria com os demais territrios ocupados,
se tornaram de fato uma provncia cartaginesa. Contudo, em -406, Cartago foi
tentada, pela primeira e nica vez em sua histria, a conquistar toda a ilha em
resposta aos ataques feitos por alguns siracusanos a seu territrio. Um exrcito
ainda mais poderoso foi enviado, e Acragas (Agrigento), a segunda cidade grega
mais importante da Siclia, foi dominada, naquele ano, o mesmo acontecendo
com Gela, em -405.
    Mas Anbal no estava em condies de coroar suas vitrias com a tomada
da prpria Siracusa. Ao que parece, uma epidemia destruiu metade do exrcito
cartagins, e o novo tirano de Siracusa apressou-se em firmar a paz para
consolidar sua prpria posio. Os termos do tratado confirmavam a dominao
cartaginesa sobre o oeste da Siclia, incluindo diversas comunidades sicilianas
nativas e os sobreviventes de Selinunte, Acragas e Hmera. Com isso, Cartago
passou a dominar um territrio maior do que o anterior, e tambm a receber
maiores tributos. Alm disso, a cidade rompeu o isolamento em que tinha vivido
durante a maior parte do sculo V. A partir dessa data, as importaes e de
maneira geral o comrcio com o mundo grego foram retomados, apesar dos
frequentes perodos de guerra. O fato  que no havia unio entre os gregos,
divididos que estavam em numerosas cidades ciosas de sua independncia.
Embora tenham sido feitas vrias tentativas de coalizo na Siclia para expulsar
os cartagineses da ilha, essas iniciativas nunca tiveram sucesso, pois tratava-se
apenas de manobras oportunistas ditadas por interesses particulares de certos
Estados ou de seus dirigentes. Tal foi o caso de Dionsio de Siracusa, que em
trs ocasies  de -398 a -392, de -383 a -375 e em -368  tentou expulsar
os cartagineses. Cada uma foi marcada por um revs: em -398, por exemplo, a
cidade fencia de Mcia foi tomada e destruda, mas no ano seguinte Siracusa
foi ameaada e novamente salva por uma epidemia.
    Na maior parte do tempo os cartagineses conseguiram manter o rio Halycus
(Platani) como fronteira oriental de seu territrio. As tropas de mercenrios,
embora heterogneas e recrutadas s pressas, eram em geral suficientes para fazer
frente aos hoplitas gregos. Alm disso, sua frota era normalmente superior  dos
inimigos. Fato ainda mais significativo, Cartago nunca mais poderia ser isolada
do mundo grego. Havia gregos residindo em Cartago e sua interveno chegou
a ser solicitada pelos prprios polticos gregos. Desse modo, a cidade no tardou
a ser reconhecida como parte do mundo helnico.
O perodo cartagins                                                         491



    Durante a dcada de -350, Cartago estava prestes a dominar toda a Siclia
por meios pacficos, pois as dissenses polticas internas enfraqueciam ainda
mais as cidades gregas. A posio grega s foi salva pela expedio de um
idealista, Timoleonte de Corinto. Na batalha do rio Crimisos (-341), um corpo
de elite composto de 3 mil cidados cartagineses foi destrudo. Essa  tida como
a maior derrota sofrida por Cartago e mostra at que ponto a cidade contava
com os mercenrios.
    A prpria frica estava naturalmente imune  destruio, embora tenha
havido uma revolta em -361/7, que, diz-se, foi facilmente reprimida. Nos anos
-340, um certo Hano tentou um golpe de estado apelando  populao escrava
e s tribos africanas e mouras, mas ao que tudo indica essa tentativa no chegou
a ameaar seriamente a estabilidade de Cartago. Muito mais grave foi a situao
enfrentada de -310 a -307, poca em que Cartago estava engajada numa nova
guerra contra Siracusa, ento dirigida por Agtocles. A cidade estava sitiada
pelos cartagineses e os gregos fizeram uma tentativa desesperada para reverter a
situao: enganando a frota de Cartago, Agtocles desembarcou 14 mil homens
no cabo Bon, queimou os seus navios e marchou para Cartago.  exceo da
cidade propriamente dita, no havia nenhuma praa forte ou guarnio de defesa
e, durante trs anos, os gregos causaram estragos considerveis no territrio
cartagins, antes de serem forados a deixar a frica.


    A primeira guerra contra Roma
   No entanto, esses conflitos foram pequenos, se comparados s profundas
transformaes que abalaram o Oriente na poca em que Alexandre, o Grande,
fundou um imprio que se estendia at a ndia. Mas Cartago no tardou a se
envolver numa luta de importncia histrica e mundial ao menos to importante
quanto elas: as guerras contra Roma.
   Desde -508, quando Roma era apenas uma das numerosas comunidades de
tamanho mdio existentes na Itlia, existia um tratado entre as duas cidades.
Em -348, foi assinado um novo acordo que regulamentava o comrcio entre
as duas potncias. Embora Roma se tivesse tornado bem mais poderosa, o
tratado favorecia claramente Cartago, simplesmente porque o comrcio de
Roma era insignificante. Nas dcadas seguintes, Roma teve uma ascenso
fulminante, at se tornar a potncia dominante em toda a Itlia. Os interesses
prprios s duas potncias aproximaram-se ainda em -293, quando o velho
inimigo de Cartago, Agtocles, conduziu uma campanha no sul da Itlia.
492                                                                   frica Antiga



Alguns anos mais tarde, Pirro, rei do Epiro, foi chamado  Itlia para tentar
libertar da dominao romana as cidades gregas do sul da pennsula, lideradas
por Taranto. Embora tivesse fracassado, Pirro foi convidado pelos gregos da
Siclia para ser seu protetor contra Cartago. Na tentativa de impedir essa
aliana, Cartago enviou uma enorme frota a Roma para encorajar os romanos
a continuarem a luta contra Pirro. Embora os cartagineses tenham sido bem
sucedidos, Pirro desembarcou na Siclia e obteve algumas vitrias, porm no
decisivas, antes de retomar  Grcia em -276. At essa data, portanto, no
houve nenhum conflito importante entre Cartago e Roma. Contudo, uma
dcada depois, uma guerra entre elas traria a ambas as maiores perdas de que
se tinha notcia at ento.
    Embora esse conflito tivesse tido profundas consequncias geopolticas, 
quase certo que a sua causa foi relativamente insignificante e que nenhum dos
lados tinha objetivos precisos. Em -264 Roma aceitou a submisso de Messana,
que anteriormente tinha sido aliada de Cartago contra Siracusa. Os polticos
romanos na poca estavam bastante seguros: ao que parece, eles acreditavam que
Cartago nao reagina e que as cidades gregas da Siclia seriam uma presa fcil.
Alguns tambm estimulavam, os temores dos romanos de que os cartagineses,
caso defendessem Messana, poderiam dominar a Itlia, regio na qual, na
realidade, nunca estiveram interessados.
    Cartago decidiu resistir  interveno romana, pois isso significaria uma
mudana completa no equilbrio de foras existente na Siclia durante um
sculo e meio e, sem dvida, tambm porque a poltica romana lhes parecia
perigosamente ousada. A guerra que se seguiu (Primeira Guerra Pnica) durou
at -242 e causou enormes perdas a ambas as partes.
    Contrariamente s expectativas, a frota cartaginesa no se revelou superior,
ainda que os romanas s viessem a ter uma frota de igual porte em 261. As
vitrias navais dos romanos incluem Milas em -260, em que Cartago perdeu 10
mil remadores, e o cabo Ecnomo em -256. Em -255, porm, uma frota romana
naufragou durante uma tempestade ao largo do cabo Camarina, com 25 mil
soldados e 70 mil remadores. Posteriormente ocorreram outras derrotas em
ambos os lados e durante alguns anos a exausto dos contendores fez diminuir
bastante as operaes. Outro paradoxo marcou essa guerra: as legies romanas,
que j constituam a melhor infantaria conhecida, no conseguiram expulsar os
cartagineses da Siclia. Em -256 os romanos tentaram a ttica de Agtocles e
desembarcaram um exrcito na frica. Os cartagineses foram derrotados em
Adys (ou Oudna) e, para assegurar uma base de onde atacariam Cartago, as
legies apoderaram-se de Tnis.
O perodo cartagins                                                          493



    Contudo, Roma no conseguiu tirar proveito das revoltas que eclodiram entre
os Nmidas, sditos de Cartago. Em -255 os cartagineses contrataram os servios
de um experiente mercenrio grego, o general Xantipo, que destruiu o exrcito
romano. A guerra terminou em -242, quando a frota de Cartago foi derrotada ao
largo das ilhas Aegates (Egadi). Esse revs interrompeu as comunicaes entre
Cartago e a Siclia, e a paz foi assinada por exausto. Cartago teve de renunciar
 Siclia e concordar com uma substancial indenizao de guerra.


    Anbal e a segunda guerra com Roma
    Em razo das dificuldades econmicas causadas pela guerra, Cartago precisou
adiar o pagamento dos mercenrios, metade dos quais era de origem lbia. Eclodiu
ento uma revolta na frica, caracterizada por ferozes atrocidades cometidas por
ambos os lados. A sublevao envolveu cerca de 20 mil mercenrios, liderados
principalmente por um lbio chamado Mathon, um de seus chefes mais capazes.
Os rebeldes controlaram tica, Hippo Acra e Tnis, chegando a ameaar a
prpria Cartago. Estavam muito bem organizados, a ponto de cunhar suas
prprias moedas, as quais traziam a inscrio Libyon ("dos lbios", em grego). A
intensidade da luta, que terminou em -237, confirmou a crueldade com que os
cartagineses tratavam os lbios.
    Na mesma poca, quando Cartago estava sem condies de se defender, os
romanos apoderaram-se da Sardenha, sem encontrar resistncia. A indignao
diante dessa atitude sem dvida sufocou qualquer oposio aos projetos de
Amlcar Barca, general que se havia distinguido na Siclia: colocar toda a Espanha
sob domnio direto de Cartago, que at ento controlava apenas as cidades
costeiras. Seu objetivo era duplo: explorar diretamente as minas espanholas,
compensando assim a perda dos lucros da Siclia, e organizar na Espanha um
exrcito que poderia enfrentar os romanos. Em menos de vinte anos, Amlcar
e seu genro Asdrbal obtiveram o controle de mais da metade da pennsula
Ibrica e criaram um exrcito de cerca de 50 mil homens. Em -221 Asdrbal
foi substitudo no comando do novo Imprio da Espanha pelo filho de Amlcar,
Anbal. H poucos indcios que confirmem a tese sustentada posteriormente
pelos romanos de que todo o empreendimento teria sido um projeto pessoal
dos brcidas (como era chamada essa famlia) para se vingar de Roma, e de que
eles teriam agido sem o aval do governo de Cartago.
    Em -220, preocupados com a recuperao cartaginesa, os romanos realizaram
manobras para impedir que Cartago estendesse ou consolidasse seu poder na
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Espanha. Anbal e seu governo desprezaram as ameaas e julgaram que, tendo
em vista as polticas aventureiras seguidas por Roma em -264 e -237, a guerra era
inevitvel. Em -218 Anbal cruzou o Ebro, dirigiu-se para os Alpes e desceu at
a Itlia. Tal estratgia baseava-se na ideia de que Roma s poderia ser derrotada
em seu prprio solo e de que era necessrio levar a guerra para a Itlia a fim de
evitar uma invaso da frica pelos romanos, uma vez que agora eles controlavam
o mar. Essa guerra (a Segunda Guerra Pnica) durou at -202, novamente com
enormes perdas no campo romano. Graas a seu gnio militar, Anbal consolidou
a coeso de uma imponente fora de combate, composta principalmente de
espanhis, mas tambm de contingentes gauleses e africanos. Os cartagineses
conseguiram grandes vitrias no lago Trasimen (217) e em Canas (-216), a
maior derrota que Roma sofrera at ento. Contudo, Anbal no podia destruir a
determinao do senado e do povo romano, nem a solidez da aliana das cidades
italianas que, no conjunto, permaneceram fiis a Roma, apesar da devastao de
que foram vtimas durante anos. Tais cidades forneceram aos exrcitos romanos
reservas de efetivos aparentemente inesgotveis, que Anbal jamais pde igualar.
    Enquanto na Itlia Fbio Mximo aplicava uma poltica defensiva,
impedindo que Anbal exercesse novamente seu gnio numa batalha, a Espanha
era conquistada pelo jovem general romano Cipio, o Africano, em -206. Em
seguida, Roma preparou-se para atacar a frica.
    Os romanos foram ajudados nesse projeto pela situao que reinava na
Numdia. As tribos nativas estavam impregnadas da cultura cartaginesa h
muitos sculos. As maiores unidades polticas haviam-se desenvolvido com o
tempo, e as repetidas campanhas desses povos nas guerras de Cartago tinham
aumentado sua fora e favorecido tal desenvolvimento. Sfax, chefe da maior
tribo nmida, a dos Massesilos, cujo territrio se estendia de Ampsaga (Uadi
el-Kebir) a leste at Mulucca (Muluya) no oeste, afastou-se de Cartago em -213,
mas aliou-se novamente a ela em -208, quando se casou com a filha de um chefe
cartagins. Em compensao, Gaia, chefe dos Massilos, comprimido entre os
Massesilos e o territrio cartagins, ficou fiel a Cartago durante o perodo da
desero de Sfax e seu filho Massinissa prestou excelente servio na Espanha.
    Com a vitria de Roma, Massinissa decidiu aliar-se ao partido aparentemente
mais forte e fez a paz com Cipio. Ao retornar  frica, no pde assumir a
chefia de sua tribo, mas organizou um exrcito privado e, aps dois anos de
aventuras picas, estava pronto para combater ao lado de Cipio quando ele
desembarcou. Massinissa desempenhou um papel importante nas primeiras
vitrias dos romanos em -203, antes que Anbal fosse finalmente chamado de
volta da Itlia. A ltima batalha ocorreu em Zama (Sab Biar) em  202, quando
O perodo cartagins                                                           495



Anbal foi vencido. Massinissa, que nesse meio tempo havia expulsado Sfax de
seu territrio, forneceu aos romanos um corpo de cavalaria de 4 mil homens, que
contribuiu de maneira decisiva para a vitria de Cipio. Nos termos do tratado de
paz, Cartago teve de se desfazer de sua frota; seu territrio na frica ficou desde
ento limitado a uma linha que ia aproximadamente de Thabraca (Tabarca)
a Thaenae. Alm disso, teve de restituir a Massinissa todos os territrios que
anteriormente pertenciam a seus ancestrais, origem de numerosas disputas.
Finalmente, os cartagineses ficaram proibidos de fazer a guerra fora da frica,
e mesmo em seu prprio solo sem a autorizao de Roma.


    Massinissa e o reino da Numdia
    Cartago sobreviveu ainda durante meio sculo, mas esse perodo da histria
do Magreb caracterizou-se essencialmente por um rpido desenvolvimento
econmico e social da maior parte das tribos da costa do Mediterrneo. Existe
a um paradoxo histrico, uma vez que essa evoluo, que teve por consequncia
uma expanso sem precedente da cultura cartaginesa, deveu-se principalmente
ao pior inimigo de Cartago, Massinissa. Personagem lendrio de um vigor
fsico prodigioso e muito rico em talentos naturais, havia sido educado em
Cartago e sem dvida calculou corretamente o uso que podia fazer da civilizao
cartaginesa em seu prprio territrio. Sua personalidade era to forte que aps
-206, em vez de ser considerado como um simples desertor pelos romanos,
conseguiu estabelecer estreitos vnculos de amizade com vrios dos polticos
mais influentes de Roma. Como recompensa pelo papel que desempenhou em
Zama, recebeu a parte oriental  a mais frtil  do reino de Sfax e passou a
governar, a partir de Cirta (Constantina), um territrio que se estendia do oeste
dessa cidade at a nova fronteira de Cartago. A regio menos desenvolvida,
localizada entre o reino de Massinissa e o Muluya, foi deixada aos filhos de Sfax.
    Segundo vrios escritores da Antiguidade, foi graas a Massinissa que a
produo agrcola se desenvolveu substancialmente na Numdia. Estrabo afirma
ter sido ele o responsvel pela transformao dos nmades em agricultores.
Como toda generalizao, esta  exagerada. Mas  certo que, embora a criao
de gado ainda fosse a atividade dominante, a quantidade disponvel de cereais
aumentou de forma sensvel, deixando um excedente para exportao. Esses
progressos foram de grande importncia para o desenvolvimento ainda maior
que a regio alcanaria posteriormente sob o domnio de Roma. O comrcio dos
outros produtos continuava limitado e as nicas moedas cunhadas eram peas
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de bronze e de cobre. Cirta parece ter-se tomado uma verdadeira cidade, ainda
que parea exagerado atribuir-lhe 200 mil habitantes sob o reinado do filho de
Massinissa, como j se fez. Sua arqueologia  mal conhecida, mas o aspecto da
cidade deve ter sido quase inteiramente cartagins. Encontraram-se ali estelas
pnicas em nmero bem maior do que em qualquer outro stio africano, exceto
a prpria Cartago.  fora de dvida que a lngua cartaginesa passou a ser cada
vez mais utilizada na Numdia e na Mauritnia.


      A destruio de Cartago
    Nessa poca, todo aliado de Roma era de fato um vassalo, cuja primeira
obrigao era obedecer  vontade dos romanos e evitar toda ao que lhes
pudesse provocar suspeitas, com ou sem razo. A viso poltica de Massinissa 
demonstrada pela maneira como percebia tal situao. Durante cinquenta anos,
ele exerceu presso crescente sobre as possesses cartaginesas e provavelmente
esperava que no final a prpria Cartago casse em suas mos, com a aprovao
de Roma. No incio, os romanos no tinham interesse em enfraquecer ainda mais
Cartago, tambm sua vassala, e at -170 as conquistas territoriais do rei nmida
foram pequenas. A partir de -167, contudo, Roma empreendeu uma poltica
cada vez mais agressiva, no apenas na frica mas tambm em outros lugares.
Os romanos favoreciam Massinissa, que os levava a desconfiar de Cartago e que,
alm disso, jamais deixava de lhes fornecer os homens e as provises solicitadas.
    Graas a essa poltica, Massinissa incorporou a seu reino os emporia situados
no golfo de Gabes e uma boa parte do vale do Bgrada (Mejerda). Gradualmente,
os senadores romanos acabaram por considerar, como Cato, o Ancio, que
Cartago deveria ser destruda. Na verdade, embora Cartago demonstrasse
uma notvel recuperao aps a Segunda Guerra Pnica, qualquer temor de
v-la ameaar Roma novamente era irracional. Props-se aos cartagineses
abandonar sua cidade, retirando-se para o interior, ou enfrentar a guerra e suas
consequncias. Como eles preferissem a ltima alternativa, um exrcito romano
desembarcou na frica em -149. Apesar da esmagadora superioridade dos
adversrios, Cartago resistiu at -146. Alguns lbios ainda continuaram a apoi-
-la, e o prprio Massinissa ressentiu-se da ao romana, que o privou de sua mais
cara esperana; contudo, teve de aquiescer. A maior parte das cidades fencias
e cartaginesas mais antigas, como tica, Hadrumeto, Tapso, etc., aderiu aos
romanos, escapando assim de uma destruio inevitvel. A prpria Cartago foi
arrasada e seu stio declarado maldito, numa cerimnia solene que simbolizava
O perodo cartagins                                                         497



o temor e o dio que Roma havia acumulado durante um sculo em face do
poder que mais bravamente resistiu  sua dominao no mundo mediterrnico.


    Os Estados sucessores de Cartago
    Numdia
   Entretanto, foi necessrio esperar mais de um sculo at que Roma suplantasse
realmente Cartago enquanto potncia poltica e cultural dominante no Magreb.
Por diversas razes (ver Captulo 20), os romanos apropriaram-se apenas de
uma pequena parte do nordeste da Tunsia, aps a destruio de Cartago, e
mesmo assim no se ocuparam mais desse territrio. No restante da frica do
Norte, Roma reconheceu uma srie de reinos vassalos, que de maneira geral
conservaram sua prpria autonomia. A influncia cultural de Cartago persistiu
e at mesmo aumentou nesses reinos, em virtude da prosperidade de que
continuaram a gozar as antigas colnias costeiras e tambm como consequncia
da chegada de numerosos refugiados durante os ltimos anos da guerra entre
Cartago e Roma. A lngua fencia, em sua forma mais recente, conhecida como
neopnica, propagou-se como, jamais ocorrera antes. Conta-se mesmo que os
romanos enviaram aos reis nmidas os livros recuperados quando as bibliotecas
de Cartago foram destrudas.  provvel que alguns desses livros, como o tratado
de agricultura de Magon, tivessem valor prtico.
   Nenhum dos reis posteriores foi to poderoso como Massinissa, mas quase
no h dvida de que, no essencial, prosseguiu o desenvolvimento dos reinos
da Numdia e da Mauritnia. Deve-se ressaltar que, de uma certa forma, os
nomes desses dois reinos permaneceram como simples expresses geogrficas,
pois muitas tribos que habitavam a regio conservaram durante longo tempo
sua identidade prpria sob a dominao romana, e mesmo depois, continuando
precria a unidade poltica.
   Tal situao foi agravada pela poligamia que as famlias reais praticavam
(diz-se que Massinissa deixou dez filhos) e posteriormente pela interferncia
de Roma. Massinissa morreu na Numdia em -148 com a idade aproximada
de 90 anos e foi sucedido por Micipsa (-148 a -118). Durante este reinado,
o comrcio da Numdia com Roma e a Itlia tornou-se mais ativo, havendo
notcias de grande nmero de negociantes italianos em Cirta. Aps a morte de
Micipsa, o reino foi governado conjuntamente por dois de seus irmos e por
Jugurta, neto de Massinissa, que era protegido pelo poltico romano Cipio
Emiliano, tal como seu av havia sido apoiado por Cipio, o Africano. Jugurta
498                                                                      frica Antiga



era um homem de grande vigor e pensava em firmar-se como nico soberano.
De incio, os romanos tentaram dividir oficialmente o territrio, mas quando
Jugurta tomou Cirta de um de seus rivais e matou todos os residentes italianos,
Roma declarou-lhe guerra. Jugurta organizou uma vigorosa resistncia infligindo
humilhaes militares a Roma, at ser trado por Bocchus, rei da Mauritnia.
Nessa oportunidade, Roma colocou no trono um outro membro da dinastia
de Massinissa, Gauda. Este foi sucedido por seu filho Hiempsal, que, aps ser
exilado durante pouco tempo por um rival (entre -88 e -83), reinou at -60.
Hiempsal foi o autor de um livro sobre a frica, escrito em lngua pnica, e
provavelmente continuou a obra civilizadora de sua dinastia.
    Em seus ltimos anos como Estado independente, a Numdia envolveu-se
nas guerras civis que destruram a repblica romana. O filho de Hiempsal,
Juba (-60 a -46), que na juventude fora publicamente insultado por Jlio
Csar, uniu-se  causa de Pompeia em -49, prestando-lhe grandes servios na
frica; diz-se mesmo que, se os pompeanos vencessem, ele seria o responsvel
pela provncia romana da frica. Juba suicidou-se aps a vitria de Csar em
Tapso, e desde essa poca Roma passou a administrar diretamente a Numdia.

      Mauritnia
    Admite-se geralmente que o reino da Mauritnia se desenvolveu mais
lentamente que a Numdia; mas  possvel que essa opinio seja decorrncia de
falta de informaes.  certo que o macio montanhoso do Atlas continuou to
fechado  influncia fencia como mais tarde  cultura romana, mas a vida sedentria
expandiu-se um pouco nas reas frteis, como o vale do Muluya e a regio ao longo
da costa atlntica. Foi nas zonas montanhosas que diversas tribos conservaram sua
identidade prpria durante a dominao romana, e mesmo depois.
    O nome dos mouros  citado desde a expedio da Siclia em -406, na
revolta de Hano depois de -350 e na invaso romana da frica em -256. Um
rei mouro auxiliou Massinissa numa poca crtica de sua vida, mas as tropas
mouras tambm combateram sob as ordens de Anbal, em Zama. Mais tarde,
Bocchus I, aps ter ajudado Jugurta a lutar contra Roma, traiu o rei nmida,
recebendo em recompensa um territrio muito vasto, situado a leste do Muluya.
Ao que parece, na gerao seguinte a regio foi dividida. Bocchus I governava
os territrios do leste e, associado ao aventureiro italiano P. Sittius, combateu
contra Juba, a favor de Csar. Este tinha tambm o apoio de Bogud II, que
reinava a oeste do Muluya. Ambos os monarcas foram recompensados por
Csar e, nessa ocasio, Bocchus ampliou suas possesses  custa da Numdia.
O perodo cartagins                                                         499



Alguns anos depois Bogud II apoiou Marco Antnio contra Otvio na guerra
civil romana e foi expulso de seu territrio por Bocchus II, que apoiava Otvio.
Bocchus morreu em -33 e Bogud foi ferido em -31, ficando toda a Mauritnia
sem soberano. Contudo, o imperador Augusto decidiu que no havia chegado
o momento de Roma governar diretamente o pas, acreditando talvez que as
tribos montanhesas criassem srias dificuldades militares. Em -25, ele colocou
no trono Juba, filho do ltimo rei da Numdia, que vivia na Itlia desde a
idade de 4 anos, e para quem havia sido reconstitudo temporariamente o
reino da Numdia, de -30 a -25. Juba governou durante mais de quarenta
anos como leal "cliente" de Roma e em certa medida realizou na Mauritnia
o que Massinissa havia feito na Numdia. Tratava-se de um homem com
interesses fundamentalmente pacficos; fortemente impregnado da cultura
helnica, escreveu numerosos livros (atualmente desaparecidos) em grego.
Sua capital, Iol, rebatizada Cesareia (Cherchell), e provavelmente sua segunda
capital, Volubilis, tornaram-se durante seu reinado verdadeiras cidades. Depois
dele reinou seu filho Ptolomeu at +40, data em que o imperador Gaio, que
o havia chamado a Roma, mandou execut -lo, por um motivo que nos 
desconhecido. Essa medida, que prenunciava a transformao da Mauritnia
em provncia romana, desencadeou uma revolta que durou vrios anos. Em +44
a Mauritnia foi dividida em duas provncias e da em diante todo o Magreb
foi colocado sob a dominao direta de Roma.


    A herana fencia no Magreb
   De maneira geral, o perodo de independncia dos reinos da Numdia e da
Mauritnia caracterizou-se pela elaborao e consolidao de uma cultura de
origem lbia e fencia, em que o segundo elemento desempenhou um papel
preponderante, embora representasse, como  natural, apenas uma minoria da
populao. Os progressos da agricultura na Numdia, assinalados anteriormente,
produziram-se em regies relativamente distantes, onde as condies geogrficas
eram favorveis.  exceo de Cirta e mais tarde de Iol-Cesareia, o crescimento
das cidades continuou sendo pequeno, mas em certas regies foi suficiente para
lanar as bases da considervel urbanizao ocorrida na poca romana. O vigor
dessa cultura mista  ilustrada pelo fato de as inscries do sculo II da Era
Crist ainda serem redigidas em neopnico. Alm disso, no mesmo perodo, o
termo sufete era, pelo que sabemos, usado em pelo menos trinta cidades, to
distantes uma da outra como Volubilis, no oeste marroquino, e Leptis Magna, na
500                                                                                             frica Antiga



Lbia. A sobrevivncia da religio fencio-lbia sob a dominao romana tambm
 um fato de mltiplas significaes. A existncia de uma unidade cultural
superficial no Magreb da poca  confirmada pela misteriosa escrita lbia. Essa
escrita parece ter-se desenvolvido durante o sculo II antes da Era Crist (ela
 encontrada em duas inscries em Dougga); foi depois empregada em estelas
no tempo dos romanos (provavelmente imitando o costume pnico), das quais
se encontram vrias no Marrocos, na fronteira entre a Arglia e a Tunsia e
na Lbia. Aps a conquista romana, o lbio e o neopnico foram substitudos,
enquanto lnguas escritas, pelo latim; no fim do perodo romano continuou
comum uma forma oral do pnico, mas  impossvel determinar em que medida
e onde continuou a se falar o lbio. A semelhana observada entre a escrita lbia
e o alfabeto tuaregue dos tempos modernos continua inexplicada.
    No plano da histria geral, a fundao de colnias fencias no Magreb constitui
o nico exemplo de extenso, no Mediterrneo ocidental, das culturas mais antigas
originrias do Oriente Prximo e Mdio, s quais sobreviveria Cartago. Esse
fenmeno, juntamente com a expanso grega para o Ocidente, associa-se ao
movimento mais geral que levou todo o oeste do Mediterrneo e de certa forma
tambm o noroeste da Europa, at ento habitado por diferentes povos tribais,
para a esfera de influncia das civilizaes do mar Egeu e do Oriente. Quanto
 histria da frica propriamente dita, o perodo fencio marca a entrada do
Magreb na histria geral do mundo mediterrnico e o estreitamento de seus laos
com a costa norte e leste. Os fatores geogrficos, que, pelo menos at os tempos
modernos, j associavam o Magreb ao mundo mediterrnico, foram reforados.
Devido  escassez de fontes histricas disponveis, ser preciso esperar novas
descobertas arqueolgicas para conhecer de modo mais preciso a evoluo da
cultura lbia autctone e a maneira como reagiu  penetrao da civilizao fencia3.




33    Nota do Comit Cientfico Internacional:
      Na prxima edio, pretende-se fazer um relato mais preciso do legado e do papel da Lbia durante
      o perodo abordado neste volume. Est previsto um simpsio que tratar da contribuio da Lbia na
      Antiguidade clssica, com referncia especial ao papel da Cirenaica durante o perodo helenstico, da
      Lbia no perodo fencio e da civilizao dos Garamantes.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                         501



                                    CAPTULO 19


           O perodo romano e ps-romano
                 na frica do Norte
                      PARTE I
                  O perodo romano
                                          A. Mahjoubi




    Aps a destruio de Cartago em -146 e a reduo de seu territrio 
condio de provncia romana, o destino da frica do Norte ficou nas mos
de Roma e dos reinos locais. Seria til dedicar um captulo especial ao estudo
desses Estados autctones desde o advento dos reinos nmidas at o final do
reinado do ltimo soberano da Mauritnia em +40. A partir dessa data, toda a
frica do Norte se tornou romana, permanecendo assim at a invaso vndala.
    Contudo, nem a ocupao do pas e, principalmente, nem o que na
linguagem do colonialismo  chamado eufemisticamente de "pacificao" foram
conseguidos com facilidade. O avano romano em direo ao sul e ao oeste,
a partir do antigo territrio de Cartago e do antigo reino de Juba I, sofreu
uma resistncia obstinada. Infelizmente, possumos apenas os registros dos
episdios mais importantes da luta. Aps o estabelecimento e a consolidao
da dominao romana, a unidade econmica e cultural que Roma havia
laboriosamente construdo na frica do Norte acabou sendo minada por uma
resistncia constante, que assumiu aspectos no s militares mas tambm
polticos, tnicos, sociais e religiosos. Tudo que sabemos sobre tal resistncia
e tais revoltas  relatado pelas fontes literrias ou epigrficas segundo o ponto
de vista romano, sendo as dificuldades da anlise histrica agravadas ainda por
certas abordagens adotadas pela historiografia moderna: no incio do sculo,
principalmente, e at um perodo muito recente, os historiadores no puderam
502                                                                                       frica Antiga



ou no quiseram desembaraar-se de concepes influenciadas em maior ou
menor grau pela ideologia colonial dominante1.
    O carter especfico das guerras africanas configura-se principalmente na
fase da conquista: uma longa srie de triunfos celebrados pelos generais romanos
contra os mouros, Musulmios, Getulos e Garamantes no ltimo quartel do
sculo I antes da Era Crist mostra bem que as populaes indgenas nunca
foram totalmente subjugadas apesar das vitrias romanas2.
    A mais conhecida dessas guerras  a do nmida Tacfarinas, que se prolongou
durante oito anos, sob o reinado de Tibrio, e se estendeu a todas as fronteiras
meridionais da frica do Norte, desde a Tripolitnia at a Mauritnia.
Frequentemente essa guerra  apresentada pelos historiadores modernos como
uma luta entre a civilizao e o mundo brbaro, uma tentativa da populao
indgena nmade e serninmade de impedir o avano romano e o processo de
sedentarizao, rejeitando desse modo os benefcios de uma forma superior de
civilizao e de uma ordem social melhor3. No entanto, as reivindicaes que
Tcito atribuiu a Tacfarinas do uma ideia mais clara das causas profundas da
resistncia dos habitantes indgenas. O chefe nmida recorreu s armas para
forar o imperador todo-poderoso, a reconhecer o direito de seu povo  terra, pois
a conquista romana fora imediatamente seguida do confisco de todas as terras
frteis. Os campos dos Nmidas sedentrios tinham sido devastados; as reas
tradicionalmente percorridas pelos nmades eram constantemente reduzidas
e limitadas; os veteranos e outros colonos romanos e italianos instalavam-
-se por toda parte, a comear pelas regies mais ricas do pas; companhias
coletoras de impostos e membros da aristocracia romana, senadores e cavaleiros,
apropriavam-se de vastos domnios. Enquanto seu pas era assim explorado,
todos os autctones nmades e todos os habitantes sedentrios que no viviam
nas raras cidades poupadas pelas guerras sucessivas e pelas expropriaes foram
reduzidos a uma condio miservel ou expulsos para as estepes e para o deserto.
Portanto, sua nica esperana era a resistncia armada, e seu principal objetivo,
a recuperao das terras.
    As operaes militares continuaram durante os dois primeiros sculos da
Era Crist. As investidas dos romanos para o sudoeste, respondia o alvoroo
das tribos, que se reuniam e se dispersavam, do vale do Muluya a Djebel Amur
e Uarsenis. Estabelecendo-se facilmente nas faixas costeiras e a nordeste, os

1     Sobre isso, ver a introduo ao trabalho de M. BNABOU, 1976, principalmente pp. 9-15.
2     ROMANELLI, P. 1959. p. 175 et seq.
3     ROMANELLI, P. 1959. p. 227 et seq.
                                                                                                                        O perodo romano e ps-romano na frica do Norte
                                                                                                                        503
figura 19.1 As provncias romanas da frica do Norte no final do sculo II da Era Crist (segundo A. Mahjoubi, 1977).
504                                                                      frica Antiga



romanos avanaram por etapas na parte meridional da moderna Tunsia, bem
como nos Altos Planaltos e no Atlas saariano. Sob os imperadores Jlio-Cludios,
a fronteira do territrio conquistado estendeu-se de Cirta no oeste at Tcape
no sul, incluindo Ammaedara, que era o quartel-general da III Legio Augusta,
Thelepte e Capsa. Sob os Flvios, a legio estabeleceu-se em Theveste e a
fronteira prolongou-se at Sitifis; a regio dos Nemencha foi anexada durante
o governo de Trajano, e em +100 fundou-se a colnia de Timgad. Em 128,
finalmente, a legio estabeleceu uma guarnio permanente em Lambse e
foram abertas numerosas estradas nos montes Aures, defendidas contra as tribos
por um acampamento militar situado em Gemellae. Entre as provncias romanas
e as regies desrticas localizadas ao sul, para onde foram confinadas as tribos,
criou-se uma zona fronteiria  o limes  progressivamente deslocada para o
sudoeste e que era formada por uma rede de 50 a 100 km de largura constituda
de trincheiras e rotas defendidas por uma cadeia de postos militares e pequenos
fortes. As pesquisas arqueolgicas areas feitas por J. Baradez revelaram, entre
outras coisas, pedaos de um fossatum circundado por uma pequena encosta ou
muro e protegido, a intervalos irregulares, por torres quadradas ou retangulares.
A fim de controlar os movimentos das tribos nmades e impedir que pilhassem
as reas agrcolas e as caravanas que se dirigiam para o norte, em direo s
cidades comerciais dos golfos de Gabes e Sidra, os severos tinham estabelecido,
no final do sculo II, uma srie de fortins na frente do limes propriamente dito,
como Dimmidi (Messad), Cidamus (Gadames) e Golas (Bu Njem). Dessa
maneira, ficaram eficazmente protegidos durante os dois primeiros sculos da
Era Crist os limites meridionais das provncias africanas.
    Contudo, Roma no tinha poderes para eliminar radicalmente a resistncia
dos berberes e nunca conseguiu manter sob controle permanente os nmades do
sul e do oeste. Apesar dos esforos de Trajano e Adriano e da firme orientao
poltica seguida por Stimo Severo nas fronteiras da Tripolitnia, a crise do sculo
III interrompeu muito cedo esse empreendimento. O deserto, a mobilidade que
os camelos conferiam aos nmades, a facilidade das comunicaes de oeste a
leste ao longo da cadeia do Atlas saariano asseguravam aos irredutveis berberes
grande margem de manobra. A propsito, as tribos que afinal conseguiram
triunfar sobre a dominao de Roma obtiveram sua reserva de combatentes na
Mauritnia Tingitana e, mais tarde, nas vastas extenses desrticas do interior da
Tripolitnia. At o primeiro quartel do sculo III, o centro e o sul do pas eram
defendidos dos atacantes locais pela III Legio Augusta, cujo efetivo terico de
5 mil a 6 mil homens era reforado, quando necessrio, por grande quantidade
de auxiliares. Calcula-se que o nmero mximo de soldados tenha atingido cerca
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte   505




figura 19.2 Timgad (antiga
Thamugadi, Arglia): Avenida e
Arco de Trajano.
Figura 19.3 Mactar (antiga
Mactaris, Tunsia): Arco de
Trajano, entrada do frum.
506                                                                     frica Antiga



de 25 mil a 30 mil no sculo II; de qualquer modo, no se trata de um nmero
elevado, embora devam ser considerados os veteranos ainda mobilizveis para
o servio militar que se instalavam nas terras cultivveis ao longo do limes.
Em caso de necessidade, transferiam-se tropas das legies instaladas em outras
provncias do Imprio, principalmente na Espanha, para defender a Mauritnia
Tingitana. Para a manuteno da lei e da ordem, o procnsul da frica podia
recorrer ainda  XIII coorte urbana estacionada em Cartago, bem como a
um pequeno corpo de cavalaria. A represso  pirataria e o patrulhamento
das costas eram confiados  frota de Alexandria. De incio, a composio da
legio africana era muito variada, mas posteriormente quase todos os recrutas
provinham da populao local. Contudo, havia alguns corpos orientais  a cohors
Chalcidenorum, os arqueiros palmirenses  compostos de srios acostumados s
guerras do deserto.


      A organizao administrativa e os problemas militares
   No dia 13 de janeiro de -27, Otvio, que trs dias mais tarde recebeu o ttulo
de Augusto, dividiu com o Senado a administrao das provncias do Imprio,
de acordo com o princpio clssico. A frica, conquistada h muito tempo,
"pacificada" e ligada  classe senatorial por mltiplas tradies, tanto econmicas
quanto polticas, ficou entre as provncias que seriam administradas pelo Senado.
Sua fronteira ocidental passava por AmpsagaCuiculZaraiHodna, e no
sudeste seu territrio inclua uma plancie costeira na Tripolitnia, prolongando-
-se at os altares dos Filenos, que marcavam a fronteira com a Cirenaica. Essa
provincia Africa, que tambm foi designada pelo epteto Proconsularis, agrupava
as duas provncias que Roma tinha sucessivamente estabelecido na frica do
Norte: a que correspondia ao territrio pnico conquistado em -146, conhecida
como Africa Vetus, e a que Csar havia criado aps sua campanha africana contra
os pompeanos e seu aliado, o rei Juba I da Numdia, chamada de Africa Nova.
Somavam-se a esses territrios as quatro colnias de Cirta, que Csar havia
cedido ao aventureiro italiano P. Sittius.
   Como na Repblica, durante o perodo imperial o Senado romano continuou
a nomear um governador para a frica. Tratava-se de um funcionrio de
posio muito elevada, pois era escolhido entre os dois mais antigos ex-cnsules
presentes em Roma no momento do sorteio das provncias; ele usava, portanto,
o ttulo de procnsul e, a menos que houvesse uma prorrogao excepcional,
ocupava sua Juno em Cartago apenas por um ano. Alm de suas prerrogativas
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                              507



judicirias, que faziam do procnsul o juiz supremo da provncia, tanto nas
aes criminais quanto nas de natureza civil, ele era investido de poderes
administrativos e financeiros: supervisionava a administrao e as autoridades
municipais, em princpio autnomas, e comunicava-lhes as leis e os regulamentos
imperiais; dirigia a execuo dos principais trabalhos pblicos e sancionava as
despesas; exercia o controle supremo sobre o departamento responsvel pelo
abastecimento de Roma com trigo africano e sobre o sistema fiscal, cujos lucros
eram destinados ao aerarium Saturni, o tesouro do Senado. Era assessorado
por dois legados propretores, um residente na prpria Cartago e outro em
Hipona, e por um questor, responsvel pela administrao financeira. Alm
disso, como j foi mencionado, dispunha de um pequeno contingente de tropas,
de aproximadamente 1600 homens, para manter a lei e a ordem.
    O imperador podia intervir nos negcios da provncia senatorial, diretamente
ou, como geralmente ocorria, pela presena de um procurador equestre,
funcionrio imperial encarregado da gesto dos vastos domnios imperiais e da
coleta de determinados impostos indiretos, como a vicesima hereditatium, que
alimentava o tesouro militar controlado pelo imperador. O procurador tambm
tinha poder judicirio, limitado em princpio ao julgamento de litgios fiscais.
A partir de 135, ele passou a ser assessorado por um procurator Patrimonii para
a administrao dos domnios e por um procurator IIII Publicorum Africae para
a administrao das rendas fiscais. Esses funcionrios da administrao imperial
frequentemente entravam em conflito com o procnsul, embora no haja provas
de que tivessem instrues para fiscaliz-lo.
    No entanto, ao contrrio do que ocorria na maior parte das provncias
senatoriais, a frica Proconsular no podia ficar desguarnecida de tropas.
Embora a rea situada a nordeste, que correspondia  antiga provncia da
Africa Vetus, no apresentasse problemas, o mesmo no ocorria nas regies
meridionais, onde as autoridades romanas precisavam de uma guarnio militar
para assegurar a defesa e estender gradualmente a zona "pacificada". Essas
tropas, constitudas principalmente pela III Legio Augusta, eram comandadas
por um legado imperial subordinado ao procnsul e que, portanto, conservava
os poderes militares dos governadores republicanos responsveis perante o
Senado. Contudo, tal situao no podia durar indefinidamente sem suscitar a
desconfiana do imperador. E isso no tardou a acontecer. Calgula, no mbito
de uma poltica geral que visava limitar os poderes dos governadores e diminuir
a autoridade e a autonomia do Senado, efetuou uma importante mudana de
ordem poltico-militar na organizao da frica Proconsular: o comando militar
foi separado do governo civil, o que levou  criao  se no de jure, pelo menos
508                                                                                   frica Antiga



de facto  do territrio militar da Numdia, sob a autoridade do legado que
comandava a III Legio Augusta. Desde +39, o status do oficial encarregado desse
comando especial deve ter sido intermedirio entre o dos legados governadores
de provncias e o dos que representavam os generais das legies4.
    No entanto, a situao no estava muito definida e inevitavelmente suscitou
conflitos de competncia e autoridade entre o procnsul e o legado da legio.
Stimo Severo acabou por regulariz-la, elevando o territrio militar  dignidade
de provncia: a provncia da Numdia, provavelmente criada entre +198 e +1995.
Ela era administrada pelo legado da legio, tambm chamado praeses, que era
nomeado e transferido diretamente pelo imperador. Sua fronteira ocidental
seguia a margem esquerda do Ampsaga (Uadi el-Kebir), passava a oeste de
Cuicul e Zarai, cortava a plancie do Hodna e descia para o sul na direo de
Laghouat. A fronteira oriental ia do noroeste de Hipona ao oeste de Calama,
seguia a margem direita do Oued Cherf, passava a oeste de Magifa e avanava
atravs da margem noroeste do chott el-Djerid.
    Entre o Ampsaga e o Atlntico estendia-se o reino da Mauritnia, que o
rei Bocchus, o Jovem, havia legado, desde -33, ao Imprio Romano6. Otvio, o
futuro Augusto, aceitou a doao e aproveitou para instalar no pas onze colnias
de veteranos; em -25, porm, entregou o reino a Juba II, que foi sucedido por
seu filho Ptolomeu em +23.  provvel que Otvio  prudentemente  pensasse
que a ocupao romana era prematura e que se tornava necessrio preparar o
caminho atravs da interveno de chefes locais. Em +40, julgando que havia
chegado o momento para a administrao direta, Calgula mandou assassinar
Ptolomeu7. Finalmente, no final de +42, Cludio decidiu organizar as duas
provncias da Mauritnia: Cesariana a leste e Tingitana a oeste, separadas pelo
Mulucca (Muluya). Como a Numdia, as duas provncias mauritanas ficaram sob
a autoridade direta do imperador e eram governadas por simples procuradores
equestres, um residindo em Iol-Cesareia e o outro provavelmente em Volubilis,
onde comandavam as tropas auxiliares e exerciam poderes civis e militares.
    At o reinado de Diocleciano no houve mudanas importantes na organizao
militar e administrativa das provncias africanas. Embora sofresse menos do que
outras provncias, a frica no podia escapar das repercusses da crise geral


4     BNABOU, M. 1972. pp. 61-75.
5     PFLAUM, H. G. 1957. pp. 61-75.
6     ROMANELLI, P. 1959. p. 156 et seq.
7     CARCOPINO, J. 1958, p. 191 et seq.; id. 1948. pp. 288-301; ROSTOVTZEV, M. I. 1957. p. 321 et
      seq.; KOTULA, T. 1964. pp. 76-92.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                                     509



que afetava o mundo romano e que se revestia de mltiplos aspectos poltico,
econmico, religioso e moral. A crise j era uma ameaa potencial no fim do
perodo Antonino e a situao no apresentou melhoras com as transformaes
da poca dos Severos. De 238 em diante as condies se deterioraram at
irromper uma crise de violncia alarmante no final do sculo III. Na frica
do Norte, o declnio do poder romano j se anunciava nos ataques das tribos
mouras, retomados com renovado vigor entre 253 e 262, e novamente sob o
reinado de Diocleciano8. Gradualmente, a autoridade imperial foi minada pelo
crescente desequilbrio entre as classes sociais e pelas presses da prolongada
crise financeira e econmica em provncias at ento prsperas. No caso da
provncia proconsular e da Numdia, os efeitos dramticos e sub-reptcios da
crise se fizeram sentir durante o sculo II e o primeiro quartel do sculo III.
Devem-se acrescentar a esse quadro as consequncias das usurpaes e da
anarquia militar. Desse modo, o poder de Roma desagregou-se em numerosos
reinados sucessivos ou concomitantes.
    Contudo, o Imprio reagiu contra a crise, a tempo de se salvar. No reinado
de Galiano, uma ao multiforme, progressiva e emprica, englobou todos
os domnios, transformou o exrcito e o comando, reformou o governo e a
administrao das provncias e se estendeu  poltica social,  religio e  mstica
imperial. Essa foi a primeira etapa de uma obra de restaurao que se desenvolveu
com Aureliano e Probo e acabou por sistematizar-se nas profundas reformas de
Diocleciano. Finalmente, as inovaes de Constantino, que criaram um mundo
novo, de alguma forma constituram uma sntese coerente dos sucessos e das
falhas dessas reformas, assim como das tendncias religiosas da poca.
    A separao dos poderes civis e militares foi um dos traos dominantes da
administrao provincial no Baixo Imprio e realizou-se progressivamente entre
o reinado de Galiano e o de Constantino, que lhe deu sua forma definitiva e
sistemtica.
    A remodelao do sistema militar na frica do Norte tornou-se necessria
quando a legio africana, a III Augusta9, foi dissolvida sob Gordiano III.
Finalmente, o comando foi confiado ao conde da frica, cuja autoridade se
estendia s tropas de todas as provncias africanas. O exrcito do sculo IV era
muito diferente do que existia no Alto Imprio; os ataques das tribos mouras
foraram a organizao de um exrcito mvel, uma fora de ataque sempre pronta


8   Ver, por ltimo, BNABOU, M. 1976. p. 218 et seq. e p. 234 et seq.
9   BNABOU, M. 1976. p. 207 et seq., e, para a reconstituio da legio sob o reino de Valeriano, p. 214
    et seq.
510                                                                    frica Antiga



a intervir rapidamente nas zonas de insegurana. Tal exrcito era composto de
unidades de infantaria legionria e de destacamentos de cavalaria recrutados
principalmente entre os camponeses romanizados que viviam na vizinhana
dos campos. Contudo, o servio militar tornou-se gradualmente uma obrigao
hereditria e fiscal, o que inevitavelmente prejudicava o valor dos contingentes.
    Alm desse exrcito mvel, considerado tropa de elite, havia os limitanei,
soldados-camponeses aos quais eram distribudos os lotes de terra situados no
limes. Eles eram dispensados do pagamento de impostos, mas em contrapartida
deviam proteger a fronteira e repelir todas as incurses das tribos. Como os
do oriente, os limitanei da Mauritnia Tingitana organizavam-se em unidades
tradicionais  alas, coortes , mas todos os das outras provncias africanas se
dividiam por setores geogrficos, cada um colocado sob as ordens de um Praepositus
limitis. Diversos documentos arqueolgicos, encontrados principalmente no
setor oriental do limes, mostram que os camponeses-limitanei agrupavam-se
em torno de fazendas fortificadas e viviam da terra, tendo frequentemente
introduzido a irrigao por canais. Contriburam assim para o desenvolvimento
de colnias agrcolas e para o povoamento das regies limtrofes do Saara e
transformaram o limes mais numa rea caracterstica de contatos comerciais e
culturais do que numa linha de separao entre as provncias romanas e a parte
independente do pas, que continuava berbere. Isso explica por que a civilizao
romano-africana e o cristianismo puderam atingir regies fora do alcance da
administrao direta de Roma. Deve-se acrescentar que o governo romano
sempre manteve relaes com os chefes tribais, que  em troca de subsdios e
da concesso de uma investidura imperial reconhecendo seus poderes locais 
muitas vezes concordavam em fornecer contingentes destinados  guarda do
limes.
    Paralelamente s reformas militares, modificou-se radicalmente a organizao
territorial das provncias. Contudo, sabe-se agora que a reorganizao foi
gradual, realizando-se de acordo com as necessidades e condies de cada
provncia. A fim de reforar a autoridade imperial e ao mesmo tempo diminuir
a do procnsul, cujo poder em geral fazia o jogo dos usurpadores, e ainda
para aumentar os recursos fiscais destinados a enfrentar as ameaas exteriores,
a frica proconsular foi dividida em trs provncias autnomas: ao norte, a
Zeugitana, ou provncia Ptoconsular propriamente dita, que se estendia ao
sul at uma linha que ligava Ammaedara a Pupput, perto de Hammamat; a
oeste, englobava Calama, Thubursian Numidarum e Theveste. No entanto, o
procnsul de Cartago ainda era um funcionrio importante. Era um clarissimus,
que, aps sua sada do cargo, geralmente chegava ao pice da hierarquia consular
                                                                                                                   O perodo romano e ps-romano na frica do Norte
                                                                                                                   511
figura 19.4   As provncias romanas da frica do Norte no final do sculo IV da Era Crist ( A. Mahjoubi, 1977).
512                                                                                     frica Antiga



e se colocava entre os illustres; no raro, esses procnsules do sculo IV tinham
origem africana. Eram sempre assessorados por dois legados, frequentemente
unidos por laos familiares e que residiam um em Cartago e o outro em Hipona.
O procnsul mantinha suas prerrogativas judiciais e administrativas, mas a
superviso dos negcios municipais era exercida de forma cada vez mais tirnica
e o trabalho de administrao tendia a complicar-se devido  proliferao de
departamentos e funcionrios responsveis perante o procnsul e seu legado.
    Destacada da Proconsular, a provncia Bysacena estendia-se da linha
Ammaedara-Pupput at a entrada de Tcape. A oeste, inclua as regies de
Mactar, Sufetula, Thelepte e Capsa. Contudo, no sul, os postos de guarda do
limes no ficavam sob a autoridade do governador da provncia de Bysacena,
que, como a provncia Proconsular, era desprovida de tropas; portanto, os postos
situados perto do chott el-Djerid estavam sob a responsabilidade da Numdia
e os de sudoeste sob a autoridade da Tripolitnia. O governador de Bizncio,
que residia em Hadrumeto, era no incio de nvel equestre e usava o ttulo de
praeses, mas possivelmente no reinado de Constantino, e com certeza depois de
340, ascendeu ao status consular.
    No sudeste, a nova provncia da Tripolitnia inclua duas zonas diferentes:
uma faixa costeira de Tcape at os altares dos Filenos, que dependia do procnsul
e, muito provavelmente, da legao de Cartago; e no interior, a regio do limes
da Tripolitnia, que at o sculo III estava sob a autoridade do comandante da
III Legio Augusta, governador da provncia da Numdia. Essa regio inclua a
plancie de Jeffara, Matmata e chegava at o extremo norte do chott el-Djerid.
Contrariamente ao que se acreditava, as pesquisas recentes mostraram que,
embora os romanos tivessem desocupado certas posies avanadas como a de
Golas (Bu Njem), mantiveram suas posies ao sul da costa durante o sculo IV
e o incio do sculo V10. Essa  a razo pela qual os governadores da Tripolitnia
puderam desempenhar um importante papel militar em diversas ocasies: at
324-6, eles possuam o ttulo de praeses, com os respectivos poderes militares,
e residiam em Leptis Magna. Em seguida, o comando das tropas estacionadas
no limes foi atribudo ao conde da frica, que, no entanto, no chegou a mant-
-lo ininterruptamente: um pouco antes de 360 e em 365, o comando do limes
tripolitanus foi tirado provisoriamente do Comes Airicae e confiado ao praeses da
Tripolitnia, possivelmente devido s agitaes da tribo dos Asturianos.



10    O abandono do interior da Tripolitnia, afirmado por C. COURTOIS (1955. pp. 70-9),  desmentido
      pela arqueologia. Ver VITA, A. di. 1964. pp. 65-98; CLEMENTE, G. 1968. pp. 318-42.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                               513



    A provncia da Numdia possua uma pequena abertura para o mar, entre
os montes de Edough a leste e a embocadura do Ampsaga a oeste; para o sul,
contudo, seu territrio se alargava a partir da extremidade oriental do chott
el-Hodna at a entrada de Theveste. Inicialmente, a provncia estava dividida
em duas zonas: uma compreendia a pacfica regio das cidades da antiga
confederao que tinha como capital Cirta; a outra, a regio montanhosa e
agitada do sul, tendo como centro principal Lambse. Reunificada em 314,
continuou, porm, a ser dirigida por um governador de nvel equestre, que
acumulava os poderes civis e militares com o ttulo de praeses, at 316. Nesse ano,
o governo civil foi confiado a senadores que usavam o novo ttulo de consularis
provinciae, posteriormente promovidos ao nvel de clarissimi; a grande maioria
deles pertencia  aristocracia romana, que estava ligada a essa rica provncia
por interesses fundirios. Cirta tornou-se a nica capital e tomou o nome de
Constantina, em honra do imperador.
    O problema da reorganizao administrativa das provncias da Mauritnia,
no sculo IV,  dominado por uma questo primordial: teria Diocleciano,
como em geral se acredita, desocupado a Tingitana e toda a parte ocidental da
Cesariana um pouco antes de sua ascenso? Pesquisas recentes permitem dvidar
seriamente do abandono da regio situada a oeste da Mauritnia Cesariana11.
Por outro lado, admite-se que em 285 Diocleciano evacuou todos os territrios
ao sul do Oued Loukkos, na Mauritnia Tingitana; Roma teria continuado a
manter apenas relaes martimas com as cidades costeiras, o que explicaria que
centros como Sala pudessem permanecer, sob Constantino, na rbita romana12.
Alm disso, Diocleciano separou a parte oriental da Mauritnia Cesariana
para criar uma nova provncia, a Mauritnia Sitifiana, com capital em Sitifis,
atualmente Stif. Finalmente, a Mauritnia Tingitana foi administrativamente
separada do resto da frica e anexada  diocese constituda pelas provncias da
Espanha.
    Para assegurar a ligao entre o governo central e as provncias, que haviam
se tornado menores e mais numerosas, Diocleciano aumentou o nmero de
altos funcionrios que exerciam as funes  anteriormente extraordinrias, mas
agora permanentes  de vice-prefeitos pretorianos; em princpio, esses vicarii
eram equites perfectissimi, mas ascendiam ao nvel de clarissimi quando deviam
controlar governadores de classe senatorial. Cada vicarius era encarregado de
uma diocese especfica, composta de um certo nmero de provncias. A diocese

11   Ver SALAMA, P. 1954-a. pp. 224-9; id. 1954-b. pp. 1292-311.
12   BOUBBE, J. 1959-60. pp. 141-5; JODIN, A. 1966.
514                                                                                              frica Antiga



da frica englobava as provncias da frica do Norte,  exceo da Mauritnia
Tingitana; os governadores dessas provncias estavam colocados sob a autoridade
do vicarius, que residia em Cartago e dependia do prefeito pretoriano da Itlia-
-frica-Iria; excetuava-se o procnsul da frica, que respondia diretamente
ao imperador.


      A colonizao e a organizao municipal
   Como a civilizao grega, a civilizao romana era um fenmeno
essencialmente urbano. Portanto, o grau de romanizao de uma provncia
era determinado pela concentrao de cidades13. Nas provncias africanas, e
particularmente na frica Proconsular, a vida urbana era muito desenvolvida;
foram registradas ao menos quinhentas cidades no conjunto da frica do Norte,
duzentas das quais apenas na provncia Proconsular14; mas no se enfatizou
o suficiente que tal civilizao urbana foi herdada em grande parte da poca
pnico-nmida15.
   No perodo republicano ainda no existia nenhuma cidade de direito
romano; havia apenas sete cidades de origem fencia, que desfrutavam um grau
de autonomia dependente das vicissitudes polticas: tratava-se das cidades que
haviam se aliado a Roma durante a ltima Guerra Pnica. Suas instituies
tradicionais eram formalmente reconhecidas e elas estavam isentas do pagamento
do imposto fundirio, o stipendium. Contudo, a autoridade romana tolerou, mas
sem nenhuma garantia jurdica, as instituies das outras cidades africanas, que
continuaram a ser administradas  moda fencia e a ser dirigidas por sufetes e
conselhos de notveis, embora pagando o stipendium16.
   A primeira tentativa oficial de colonizao foi feita por C. Graco, por meio
da lex rubria, em 123 antes da Era Crist; 6 mil colonos, romanos e latinos,
deviam receber grandes lotes de terra, na base de 200 jugera per capita, isto , 50
ha. Isso implica a existncia de uma vasta extenso disponvel, pois a essas reas


13    Sobre o papel e a evoluo histrica das estruturas urbanas, ver CLAVEL, M. & LVQUE, P. 1971.
      pp. 7-94. Como escreveu COURTOIS, tudo se passa "como se o nico critrio para a participao vlida
      na civilizao fosse a proporo em que a vida cotidiana reflete mais ou menos fielmente a vida cotidiana
      de Roma". COURTOIS, C. 1955. p. 111.
14    CHARLES-PICARD, G. 1959. p. 45 et seq.
15    Ver, por exemplo, no artigo de G. CAMPS (1960-b. pp. 52-4) a lista de cidades anteriores  Segunda
      Guerra Pnica, e a das cidades do reino nmida entre a Fossa Regia e a Mulucha (ibid. pp. 275-7).
16    CHARLES.PICARD, G. 1959. p. 22 et seq.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                                 515



deve-se acrescentar ainda a terra comum. Em consequncia, acredita-se que os
loteamentos estendiam-se para o sul do Mejerda, at a Fossa Regia, fronteira
da primeira provncia romana da frica. Portanto, os colonos no podem ter
vivido apenas em Cartago; de qualquer modo, eles devem posteriormente ter-se
espalhado por numerosas cidades pequenas. Sem dvida, era necessrio tambm
expropriar e transferir para outros lugares os proprietrios anteriores.  bem
conhecido o destino dessa primeira tentativa romana de colonizao na frica:
ela malogrou por razes de ordem poltica, devido ao dio dos aristocratas
romanos por C. Graco  reformador e chefe do partido popular , e tambm
por motivos econmicos, pois os colonos eram pessoas humildes e sem recursos
e raramente de origem camponesa. Desse modo, o projeto de colonizao serviu,
em ltima instncia, apenas como pretexto para destruir o partido popular e
permitir que os poderosos, senadores e cavaleiros, assegurassem vastos domnios
nos territrios africanos conquistados pela Repblica.
    Aps a guerra de Jugurta em -103, Mrio cedeu a seus veteranos e aos
membros da tribo dos Getulos lotes de terras provavelmente situadas ao longo
da Fossa Regia, entre Acholla e Thaenae, e com certeza a oeste, no vale mdio
do Mejerda; como indica a epigrafia, seriam essas as terras a que se referem a
inscrio de Thuburnica, que designa Mrio como o conditor dessa colnia, e os
nomes de Mariana e Marianum dados posteriormente  colnia de Uchi-Maius
e ao municpio de Thibar. Ao que parece, ainda em -103, o pai de Jlio Csar
fez instalar colonos nas ilhas Kerbena. No entanto, o processo de colonizao s
se iniciou realmente com a criao da Colnia Jlia Cartago, por Otvio ou pelo
triunvirato em -42, ou mais provavelmente em -44, de acordo com a opinio
geralmente aceita. Portanto, o primeiro sculo de ocupao romana foi para a
frica um perodo de retrocesso, caracterizado principalmente pela explorao
ostensiva da terra frtil. O progresso lento da colonizao devia-se  ganncia
dos homens de negcios, cavaleiros principalmente, e senadores que dirigiam
seus empreendimentos atravs de intermedirios, quando no podiam obter
misses polticas que os levassem  frica17.
    Ao retomar os planos de seu pai adotivo, Jlio Csar, Otvio Augusto
inaugurou uma nova poca na histria da frica, dando incio a uma nova
orientao poltica e a um vasto programa administrativo, militar e religioso.
De acordo com a lista fornecida por Plnio, cujas fontes ainda suscitam muitas



17   Sobre a colonizao da provncia da frica na era republicana, ver GSELL, S. 1913-28; ROMANELLI,
     P. 1959. pp. 43-71.
516                                                                                         frica Antiga



controvrsias18, em pouco tempo havia seis colnias romanas, quinze oppida
civium romanorum, um oppidum latinum, um oppidum immune e trinta oppida
libera. Um texto epigrfico de Dougga19 confirma, ao menos parcialmente,
a teoria do alemo Kornemann20: o incio da colonizao e da organizao
municipal deu-se em -29, quando um novo afluxo de colonos para Cartago deu
 Colnia Jlia seus contornos definitivos, ou mesmo antes, quando os cidados
romanos  que, depois de chegarem com grupos de imigrantes de dimenses
variadas, se fixaram na vizinhana das cidades peregrinas agrupando-se em
pagi e adquirindo domnios rurais  acabaram por anexar o territrio (pertica)
da colnia de Cartago. Augusto fundou ainda pelo menos treze colnias na
Mauritnia, entre os anos -33 e -25.
    Os imperadores que sucederam Augusto deram prosseguimento a sua
poltica. Assim, durante o governo de Marco Aurlio havia mais de 35 colnias
distribudas pelas provncias africanas. Os imigrantes eram geralmente veteranos
que tinham servido nas legies dissolvidas devido  reorganizao do exrcito;
havia tambm italianos desapropriados ou arruinados pela crise da agricultura na
pennsula, mas no chegaram a constituir um nmero suficiente para transformar
as provncias africanas em reas de recolonizao. As consideraes defensivas
e econmicas, por sua vez, pesaram muito no projeto racional de implantao
dessas colnias.
    O reconhecimento de fato de uma ampla autonomia dos autctones na
administrao municipal, considerando suas caractersticas lingusticas, tnicas e
religiosas, no era absolutamente incompatvel com uma poltica de assimilao
futura, uma vez que as vantagens e os benefcios econmicos e polticos
desfrutados pelos cidados romanos nunca deixou de atrair as classes superiores
da sociedade africana. Ao lado das colnias de imigrantes, desenvolveu-se um
nmero crescente de colnias honorrias, que anteriormente eram comunidades
indgenas cuja romanizao constante foi oficialmente reconhecida pelos
benefcios da lei romana.
    A questo do estatuto municipal coloca problemas complexos, dos quais
podemos apresentar apenas um breve resumo21. Primeiramente, havia as cidades


18    Alm disso,  difcil interpretar as informaes fornecidas por PLNIO, o Velho (V, 22-30), sobre o
      status dessas cidades. O problema  revisto por BRUNT, P. A. 1971. pp. 581-3
19    POINSSOT, C. 1962. pp. 55-76.
20    KORNEMANN, E. 1901.
21    O problema da poltica municipal de Roma na frica  o tema de dois estudos recentes que atualizam
      estudos anteriores sobre a questo: TEUTSCH, L. 1962; GASCOU, J. 1972.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                              517



peregrinas, muito numerosas, cujos habitantes no eram cidados romanos. A
maioria delas estava sujeita ao stipendium, mas algumas desfrutavam da libertas,
o que significa que sua autonomia era legalmente reconhecida, enquanto outras
chegavam a ser immunes, ou seja, isentas do stipendium, o imposto arrecadado
pelos conquistadores. Em segundo lugar, havia as cidades latinas: elas haviam
recebido  por uma concesso geral ou porque tinham sido povoadas por colonos
latinos  seja o jus latii majoris, que estendia a cidadania tanto aos magistrados
municipais como aos membros da assembleia de decuries, seja o jus latii
minoris, que restringia a cidadania a indivduos que ocupavam um cargo civil
ou um honor; contudo, os outros habitantes tinham direitos civis quase idnticos
aos dos cidados romanos. Em terceiro lugar, nas coloniae juris Romani, cujo
estatuto foi definido por uma lei pstuma de Csar, todos os habitantes eram
cidados romanos, com exceo,  claro, dos escravos, dos incolae (estrangeiros
residentes) e dos adtributi, isto , das populaes autctones dos setores
ligados administrativamente a essas colnias. Estes ltimos, que pertenciam
s comunidades camponesas  custa das quais as colnias de imigrantes se
formaram e se desenvolveram, viam a cidade muito mais como um centro de
represso do que de romanizao.
    Alm disso, havia os vici e pagi, que geralmente faziam parte da pertica de
uma cidade: nos grandes domnios imperiais, os agricultores raramente tinham
algum contato com a cidade, e a administrao ficava nas mos dos procuradores
imperiais. Finalmente, no sul das provncias africanas e principalmente nas
provncias da Mauritnia, as regies desprovidas de vilas e sujeitas ao sistema
tribal eram supervisionadas por pequenos destacamentos militares comandados
pelos praefecti.
    Contudo, vrias questes referentes s instituies municipais permanecem
obscuras. Quanto  definio do municipium juris Romani, por exemplo,
acreditou-se durante muito tempo, com o aval da autoridade de Mommsen,
que as comunidades de cidados romanas eram chamadas de municipia ou
coloniae, e que a diferena entre elas principalmente de ordem hierrquica e
residia na honra outorgada pelo ttulo de colnia. Praticamente, no se revelou
nenhuma diferena entre os dois tipos de comunidade, o que seria explicado
pela uniformizao crescente dos estatutos coletivos. De acordo com uma teoria
proposta por C. Saumagne, que, no entanto, est longe de ser unanimemente
aceita, h razes para crer que os municipia juris Romani s existiram na Itlia;
da se concluiria que todos os municipia provinciais eram do grupo juris Latini e
que no haveria na frica outras comunidades do grupo juris Romani, alm das
colnias e das oppida civium romanorum. Essa anlise apresentaria a vantagem
518                                                                                frica Antiga



de esclarecer o problema do processo de naturalizao nas provncias; assim, o
jus Latii, que conferia a cidadania romana aos ricos, teria constitudo uma etapa
indispensvel para a integrao de todas as comunidades22.
    Levando em considerao essas nuanas, constata -se que as cidades
africanas tendiam a se aproximar cada vez mais dos municipia italianos; por
toda parte havia uma assembleia popular, um senado, magistrados nomeados
por um ano e sujeitos a um colegiado, duoviri, quattuorviri, aediles, quaestores.
Contudo, observou-se a longevidade excepcional do populus na frica, embora a
assembleia popular tivesse cado em desuso em outras localidades. Os cidados
que compunham o populus agrupavam-se em corpos intermedirios chamados
curiae, que so consideradas por alguns como sobrevivncia de uma antiga
instituio cartaginesa. Desse modo, as curiae africanas teriam apenas o nome
em comum com as das outras partes do Imprio. Entretanto, o poder efetivo
no ficava nas mos do populus, mas nas do senado municipal, composto de
aproximadamente cem membros, que formavam o ordo decurionum, uma ordem
senatorial em nvel local. Esses decuries eram escolhidos entre os antigos
magistrados com idade acima de 25 anos e tambm, ocasionalmente, entre os
cidados ricos. Eles controlavam as finanas da cidade, tomavam decises sobre
as novas despesas, administravam a propriedade municipal. Eram organizados
numa hierarquia baseada em seu nvel social. No topo estavam os membros
honorrios, aos quais era confiada a defesa dos interesses da cidade; geralmente
eram homens nascidos no pas que a ascenso social havia integrado por adlectio
s ordens superiores do Imprio; no caso mais favorvel, um cavaleiro ou um
senador fazia carreira em Roma, em crculos prximos ao imperador, e desse
modo encontrava-se em condies de representar diante dele os interesses de
sua cidade  reivindicando a melhoria de seu estatuto legal ou a reduo de
impostos, ou mesmo intercedendo a favor da carreira de um jovem cidado.
Em seguida, por ordem de precedncia, vinham os antigos duumviri, os antigos
aediles, os antigos quaestores, e por fim os simples decuries, que ainda no
tinham alcanado um alto posto. Todos deviam ter uma fortuna superior a uma
espcie de censo, que era modesto nas pequenas cidades, muito numerosas,
mas extremamente elevado nas grandes cidades, principalmente em Cartago,
onde se igualava ao censo equestre. Isso significa que apenas os homens ricos
podiam desempenhar algum papel na cidade onde os magistrados presidiam a
assembleia do povo e o senado, despachavam as questes rotineiras, mantinham


22    SAUMAGNE, C. 1965. Sua tese  refutada por J. DESANGES (1972. pp. 253-73).
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                519



relaes com as autoridades provinciais e exerciam o poder judicirio limitado
a pequenos delitos e a litgios de pouca importncia.
    O exerccio dos cargos pblicos supunha a posse de amplos recursos e tempo
disponvel: os magistrados no recebiam salrio e, ao assumir o posto, deviam
pagar ao tesouro municipal uma soma varivel segundo o nvel do cargo e o
tamanho da cidade; alm disso, era costume manifestar generosidade de diversos
modos, oferecendo banquetes, organizando jogos, financiando a construo de
monumentos. Portanto, a maioria dos edifcios pblicos (termas, mercados,
fontes, templos, teatros) das cidades africanas devia sua existncia a um
verdadeiro esprito de competio entre os notveis. O cargo civil mais alto na
cidade era o dos duoviri quinquennales, eleitos a cada cinco anos e encarregados
do recenseamento, o que significava que eles deviam determinar o nmero total
de habitantes e de cidados, avaliar as fortunas e determinar ao mesmo tempo o
lugar dos indivduos na hierarquia social e a repartio do imposto.
    Essa carga fiscal iria tornar-se cada vez mais determinante e ocasionar a
interveno do poder central nos assuntos municipais. A partir do sculo II,
as finanas das cidades, s vezes em dificuldade, foram pouco a pouco sendo
controladas por curatores civitatis, a fim de remediar uma situao que se tornara
difcil devido ao esbanjamento e a despesas de prestgio. Esse foi o primeiro sinal
de uma tendncia para a centralizao e a imposio de um sistema burocrtico
de controle estatal, que se reforou com a crise do sculo III e se estabeleceu
firmemente no sculo IV, sucedendo o liberalismo e a autonomia municipal.


    A vida econmica
    A populao
   No possumos nenhuma estimativa razoavelmente precisa da populao
no perodo romano. Havia certamente os recenseamentos necessrios 
caracterizao da situao fiscal, mas no chegaram at ns. Portanto, nesse
domnio ficamos em geral reduzidos a hipteses pouco satisfatrias: clculo do
povoamento pela aplicao de um coeficiente de densidade mdia e, sobretudo,
emprego do argumento topogrfico, obtido de diversas maneiras, para avaliar,
principalmente, a cifra da populao urbana. C. Courtois, por exemplo, toma
como ponto de partida as listas episcopais e, aps discutir a questo, chega  cifra
de quinhentas cidades africanas; depois de longas consideraes para a adoo
de uma cifra de densidade e rea mdia, ele se atm a um nmero mdio de 5 mil
520                               frica Antiga




figura 19.5 O aqueduto de
Chercell (Arglia).
Figura 19.6 Sabrata (Lbia):
Frons scaenae do teatro romano.
(Fotos Salama.)
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                             521



habitantes por cidade, o que corresponde a 2.500.000 habitantes urbanos num
total de 4 milhes de habitantes do conjunto das provncias africanas durante o
Alto Imprio, e 3 milhes apenas durante o Baixo Imprio. Essas ltimas cifras
fundamentam-se nas estimativas de J. Beloch, que calculou o total da populao
do Imprio Romano baseando-se em recenseamentos efetuados na Itlia por
Augusto. Mas C. Courtois considerou que a densidade de dezesseis habitantes
por quilmetro quadrado, tida como provvel pelo especialista alemo, era muito
elevada para a frica do Norte, que tinha, na metade do sculo XIX, apenas cerca
de 8 milhes de habitantes. Assim sendo, ele reduziu essa taxa a onze habitantes
por quilmetro quadrado, embora reconhecendo que as cidades tinham 250
habitantes por hectare, como as cidades francesas dos sculos XVIII e XIX23.
G. Charles-Picard fez vrias objees s cifras de C. Courtois, chegando a duas
concluses: a densidade da populao africana em certas regies atingia mais de
cem habitantes por quilmetro quadrado e, apesar do nmero considervel de
cidades, a maioria dos habitantes desse territrio essencialmente agrcola vivia
em pequenas cidades mercantis e em grandes villae dispersas nos campos. Desse
modo, a frica Proconsular teria um total de 3.500.000 habitantes; adicionando-
-se a populao da Numdia e das provncias mauritanas, o resultado seria um
total de 6.500.000 habitantes entre a metade do sculo II e o primeiro tero do
sculo III, poca da grande prosperidade africana24.
    Em anos mais recentes, A. Lzine apresentou, a propsito da populao
urbana, um ponto de vista oposto ao de G. Charles-Picard: afirmando, como este
ltimo, que as condies de vida e de povoamento do Sahel tunisiano durante
a Idade Mdia eram muito parecidas com as existentes em tempos antigos, ele
tentou calcular a magnitude da populao de Sousse por volta do fim do sculo
X e da populao de Cartago entre 150 e 238. Finalmente, chegou ao nmero
de 1.300.000 habitantes urbanos. Se aceitarmos essa concluso e mantivermos
a cifra proposta por C. Courtois para a populao total, o nmero de habitantes
rurais parecer mais razovel25. Contudo, as pesquisas recentes sugerem uma nova
abordagem para esses problemas demogrficos; em vez de considerar apenas os
dados fornecidos pelo antigo census, a densidade da populao, os nmeros
relativos de domus e insulae e o nmero dos beneficirios das distribuies de
cereais, agora tambm levamos em conta o nmero de tmulos por gerao e as



23   COURTOIS, C. 1955. p. 104 et seq.
24   CHARLES-PICARD, G. 1959. p. 45 et seq.
25   LZINE, A. 1960. pp. 69-82.
522                                                                                           frica Antiga



summae honorariae pagas pelos magistrados que acabavam de ingressar no cargo,
cuja taxa variava segundo o nvel e o tamanho da cidade26.

      Agricultura
    conhecida a preponderncia da agricultura na economia antiga; na frica,
durante o perodo romano, a terra era a principal fonte  e a mais valorizada
 de riqueza e prestgio social. Tambm  comum dizer que a frica era o
celeiro de Roma. Algumas vezes tal expresso foi usada para insinuar a existncia
em outras pocas de uma proverbial abundncia, em contraste com a pobreza
atual, e da extrair um veredicto apressado sobre a "decadncia da populao",
desconsiderando totalmente os problemas complexos que criaram as condies
de subdesenvolvimento. Neste caso, somos forados a repetir uma verdade que
no escapou aos historiadores: a frica era o celeiro de Roma porque, vencida,
era obrigada a fornecer ao vencedor o seu trigo, a ttulo de tributo. Durante o
governo de Augusto, por exemplo, 200 mil romanos recebiam gratuitamente uma
rao de 44 litros de trigo por ms, totalizando cerca de 1 milho de alqueires.
De qualquer modo, a teoria de uma prosperidade extraordinria da frica no
perodo romano e de um rendimento excepcional em trigo foi demolida pelo
gegrafo J. Despois27.
   Inicialmente, a conquista romana desencadeou uma regresso na agricultura
e na economia africana, como um todo, levando  devastao e ao abandono da
arboricultura da Chora cartaginesa, pois nessa poca a Itlia dominava o mercado
de vinho e azeite, e estava atenta para evitar a concorrncia nesses lucrativos
ramos da agricultura. S a produo de trigo se manteve, ampliando-se a partir
do reinado de Augusto por uma razo poltica que prevaleceu at o fim da
dominao romana: a necessidade de assegurar o abastecimento da plebe romana.
Aps a extenso da conquista romana para oeste e para o sul e a efetivao da
poltica de confinamento das tribos, associada a uma ativa poltica de valorizao
das terras, principalmente pelo desenvolvimento de grandes projetos hidrulicos,
as cifras da produo de cereais aumentaram consideravelmente. J durante o
reinado de Nero, sabemos que a frica era responsvel pelo abastecimento de


26    Ver em particular a crtica aos mtodos de avaliao demogrfica de R. P. DUNCAN-JONES (s. d. p. 85
      et seq.). Em funo de uma inscrio em Siagu, que menciona uma herana a ser distribuda aos cidados
      dessa cidade, o autor conclui que o nmero de cidados era de 4 mil, embora o do conjunto da populao
      urbana ficasse entre 14 mil e 17 mil. Sobre o tratamento dos problemas demogrficos, ver BNABOU,
      M. 1976. p. 385 et seq.
27    DESPOIS, J. [s. d.] p. 187 et seq.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                             523



vveres da capital do Imprio por oito meses do ano: desse modo, calculou-se
a participao africana em 18 milhes de alqueires, ou seja, 1.260.000 quintais.
    Tendo em vista que tal cifra representava o montante da annona  isto , a
produo anual dos domnios imperiais, que Nero aumentou substancialmente,
confiscando as grandes propriedades fundirias dos senadores romanos 
acrescida da arrecadao em espcie cobrada sobre as outras terras, G. Charles-
-Picard considerou que a annona cobria um pouco mais de um stimo do
produto mdio da cultura africana de cereais. Portanto, atingia o total de 126
milhes de alqueires, ou 9 milhes de quintais. Assim, o trigo que ficava na
frica, sem considerar as sementes, no era suficiente para o consumo local:
"Uma boa parte dos camponeses era obrigada a viver de milhete ou cevada, e a
falta de chuvas necessariamente trazia a fome"28. Durante o perodo da grande
prosperidade da frica, de meados do sculo II at 238, a situao melhorou
devido principalmente ao cultivo das terras virgens da Numdia e das provncias
mauritanas. Mas a frica tinha de cumprir as novas exigncias fiscais, como
ocorreu quando a annona militar foi convertida, sob o governo de Stimo Severo,
num imposto pecunirio regular. No entanto, a partir do sculo II, investimentos
considerveis em monumentos pblicos constituem um sinal de prosperidade
da classe dominante e, principalmente, da classe mdia das cidades. Isso porque
nessa poca o governo imperial deixou que se desenvolvesse mais livremente a
iniciativa econmica das provncias, embora a Itlia estivesse passando por uma
crise que vinha desde o reinado dos imperadores Cludios e ainda no havia
sido resolvida.
    No entanto, o cultivo de oliveiras e vinhas s foi encorajado, de incio,
como uma forma de utilizar as subsiciva ou terras imprprias para a cultura
de cereais. A rentabilidade do comrcio de vinho e azeite, porm, levou a uma
mudana de rumo, o que explica a excepcional extenso dessas culturas, em
particular dos olivais, que apresentaram timo desenvolvimento mesmo nas
regies estpicas.
    Domnios e paisagens rurais esto representados em mosaicos feitos entre o
fim do sculo I e a metade do sculo IV. A vila do proprietrio rural geralmente
ergue-se no meio de um vasto pomar ou parque, s vezes cercada de construes
utilitrias, onde os escravos trabalham ativamente. s vezes as cenas reproduzem
figurativamente a propriedade, mas em geral ela  simbolizada por atividades
tpicas ou por um cenrio que sugere a paisagem regional: colinas, cenas


28   CHARLES-PICARD, G. 1959. p. 91.
524                                                                     frica Antiga



ilustrando o trabalho de arar, a semeadura, a colheita, a debulha, a vindima e
ainda rebanhos de ovelhas, aves domsticas, enxames de abelhas, etc.
    Desde o incio da ocupao, a caracterstica da colonizao romana foi
uma diviso agrria quadricular  a centuriao: o solo africano foi dividido
em quadrados de 710 m de lado, por meio a uma rede de linhas retas que se
cruzavam em ngulos de 90 graus29. Transformadas em propriedade do povo
romano (ager publicus populi romani) por direito de conquista, as terras foram
classificadas em vrias categorias, segundo leis complexas de propriedade que
eram constantemente modificadas.  exceo da Mauritnia, onde o direito de
passagem permanecia irrestrito, a propriedade tribal foi constantemente limitada
em favor da ampliao crescente das terras de colonizao. Durante o Alto
Imprio, empreendeu-se uma vasta e ininterrupta operao de confinamento das
tribos. Tal operao acentuou-se no perodo dos Severos, com o avano do limes
na Tripolitnia, na Numdia e na Mauritnia, avano esse que foi acompanhado
por um processo violento de expropriao e pela expulso das tribos para o
deserto. No entanto, os proprietrios indgenas que habitavam as cidades e que
no foram expropriados em favor dos colonos romanos ou latinos, de maneira
geral conservaram suas terras, com a condio de pagarem o stipendium, de que
pouqussimas cidades peregrinas estavam isentas. Outra categoria fundiria era
constituda pelas terras distribudas aos cidados romanos veteranos, pequenos
colonos romanos ou italianos que se instalaram nas colnias, os oppida civium
romanorum, os pagi. Com o tempo, porm, em virtude da evoluo do estatuto
municipal no sentido de uma integrao das comunidades autctones, acabaram
por se uniformizar o estatuto das terras das cidades indgenas e o das propriedades
das cidades romanas. Finalmente, uma ltima categoria inclua os imensos
domnios que os membros da aristocracia romana haviam conseguido adquirir,
principalmente no final da Repblica e nos perodos em que a frica oferecia
um vasto campo de oportunidades para investimentos fundirios. No sculo I da
Era Crist, por exemplo, seis senadores romanos possuam a metade do solo das
provncias africanas; mas Nero mandou execut-los e incorporou seus fundi ao
patrimonium imperial. Todavia, durante o Baixo Imprio, a aristocracia romana
possua ainda um bom nmero de grandes domnios privados, principalmente na
Numdia. De maneira geral, a grande propriedade tendia a absorver a pequena,
sobretudo durante o Baixo Imprio.




29    Ver CHEVALLIER, R. & CAILLEMER, A. 1957. pp. 275-86.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                                525



    Sabemos do estatuto e da organizao dos grandes domnios imperiais graas
a quatro inscries importantes e a algumas outras indicaes fornecidas pela
rica epigrafia africana30. Elas nos legaram textos de primeira ordem, como o da
Lex Manciana e da Lex Hadriana, que no so leis, no sentido do direito pblico
romano, mas regulamentos de explorao. Para muitos autores eles se aplicavam
ao conjunto do ager publicus  em todo o Imprio, segundo J. Carcopino, e
apenas na frica, segundo M. Rostovtzeff. Outros acreditam que se tratava de
regulamentos especficos para a regio dos saltus imperiais do vale mdio do
Mejerda, embora essa interpretao seja contestada por descobertas mais recentes.
De qualquer maneira, s so bem conhecidas as modalidades de explorao dos
domnios imperiais. Eles eram arrendados a empreiteiros chamados conductores,
que empregavam villici para dirigi-los. O villicus explorava diretamente uma
parte do domnio; provavelmente utilizava escravos e trabalhadores agrcolas,
bem como os servios compulsrios, as corveias devidas pelos colonos. Esses
coloni eram agricultores livres a quem os conductores sublocavam a maior parte
do domnio. O objetivo principal da Lex Manciana e da Lex Hadriana era
determinar os direitos e deveres dos conductores e de seus chefes de explorao
(villici), de um lado, e dos colonos (coloni), de outro. O princpio era o seguinte:
mediante a remessa de um tero de sua colheita e a prestao de um nmero
determinado de dias de corveia na terra controlada diretamente pelo villicus,
os colonos teriam sobre suas respectivas parcelas um direito de uso que poderia
ser transmitido por herana e mesmo vendido, com a condio de que o novo
detentor no interrompesse o cultivo durante dois anos consecutivos.
    Uma administrao imperial hierarquizada supervisionava a explorao
dos domnios: no nvel mais elevado estava o procurator do departamento
patrimonial, um membro graduado da ordem equestre, que residia em Roma
com seus funcionrios. Estava a seu cargo preparar os regulamentos gerais
e as circulares de implementao. Em cada provncia residia um procurador,
tambm eques de alta posio, encarregado de supervisionar os procuradores dos
distritos (tractus), que agrupavam um certo nmero de domnios (saltus); no nvel
inferior, os procuradores dos domnios eram em geral simples libertos. As tarefas
desses procuradores de saltus consistiam em fazer contrato com os conductores,
assegurar a execuo dos regulamentos, arbitrar em disputas entre conductores
e coloni e auxiliar os primeiros na coleta de rendas. Observamos na inscrio
de Souk el Khemis, que data do reinado de Cmodo, que os conductores e os

30   Existe uma ampla bibliografia disponvel sobre esta questo. Ver CHARLES-PICARD, G. 1959. p. 61
     et seq. e nota 31, pp. 371-2.
526                                                                      frica Antiga



procuradores encarregados de supervisionar sua gesto mancomunavam-se para
privar os colonos dos direitos garantidos pelos regulamentos e para aumentar
arbitrariamente suas obrigaes. Na realidade, os conductores eram poderosos
capitalistas, a cuja influncia no estavam imunes os procuradores. Muitos
escritores acreditam, como A. Piganiel, que a condio dos colonos descrita na
inscrio de Souk el Khemis j prenunciava a dos colonos do Imprio Bizantino.
A partir do sculo IV, o termo coloni passou a designar todos os camponeses que
cultivavam os domnios imperiais ou privados em todo o Imprio. Em princpio,
eles eram homens livres, mas sua liberdade foi cada vez mais sendo restringida
pelas leis que os proibiam de deixar a terra que cultivavam. Sendo responsvel
pelos impostos que os colonos deviam pagar sobre sua produo, o proprietrio s
poderia quitar sua dvida se o cultivo no fosse interrompido: isso o levava a fixar
o campons  terra, de modo que a condio jurdica deste tendia a se aproximar
da escravido. No Ocidente medieval essa tendncia resultou na servido, na qual
se confundiam descendentes de colonos e descendentes de escravos rurais.
    A evoluo da agricultura africana durante o Baixa Imprio continua a suscitar
controvrsias: de maneira geral, os historiadores modernos impressionaram-se
com a quantidade de propriedades isentas de arrecadaes, e, portanto, incultas.
A partir desse dado, inferiram que se verificou uma extenso muito rpida das
terras no-cultivadas. Recentemente, C. Lepelley demonstrou que o problema
 mais complexo e que a situao no era to alarmante como se pensava, pelo
menos na frica Proconsular e na provncia Bysacena. No se pode dizer que
houve um xodo rural macio ou uma decadncia agrcola catastrfica. At a
invaso dos vndalos, a frica continuou a ser a fonte de abastecimento de Roma,
que, aps a fundao de Constantinopla, foi privada da cota de trigo egpcio.
Alm disso, a prosperidade da Ifriqiya nos sculos VIII, IX e X, confirmada
pelas fontes rabes, no pode ser explicada se aceitarmos a tese de que so
perceptveis os sintomas tpicos de uma recesso31. No entanto, verificavam-se
de fato perodos de carestia, devidos sobretudo a causas naturais, e  preciso
dizer que, exceto na Numdia, que continuou ligada  cultura de cereais, esses
produtos parecem ter perdido importncia econmica em favor das oliveiras.

      A indstria e o comrcio
  De modo geral, a epigrafia e os monumentos figurados da frica fornecem
muito menos indicaes sobre a vida dos artesos e operrios do que os das


31    LEPELLEY, C. 1967. pp. 135-44.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                              527



outras provncias ocidentais. Todavia, embora a metalurgia parea menos
difundida nas provncias africanas,  preciso desconfiar das generalizaes.
Poder-se-ia observar, por exemplo, que o material epigrfico raras vezes se
refere aos que trabalhavam nas construes e aos arquitetos, embora suas obras
estejam presentes em numerosos stios arqueolgicos da frica. De qualquer
modo, a estagnao tecnolgica do perodo romano no permitia que a indstria
antiga se desenvolvesse consideravelmente. Nessas circunstncias, as principais
atividades manufatureiras relacionavam-se com o processamento dos produtos
agrcolas, destacando-se particularmente a fabricao de azeite de oliva. As
runas de prensas de azeitonas, encontradas em grande profuso na rea que
se estende de Sufetula a Thelepte e Tebessa, testemunham a importncia do
azeite na economia antiga: ele era no apenas o principal alimento gorduroso,
mas tambm o nico combustvel para iluminao e um produto essencial de
toalete32.
    A indstria de cermica, em maior ou menor grau associada  de azeite,
supria a demanda de lmpadas e recipientes, alm de produzir utenslios
domsticos. Na poca pnica, a indstria local concentrou-se na produo
de artigos de uso dirio; em sua maioria, os artigos finos de cermica eram
importados  inicialmente da Grcia e da Etrria e posteriormente da Itlia
meridional. Com a conquista romana, a frica tornou-se mais dependente dos
centros de produo estrangeiros: a Campnia foi substituda pela Toscana e
depois pelas oficinas gaulesas, que exportavam suas mercadorias principalmente
para a Mauritnia. Contudo, no incio do sculo II da Era Crist, comeou a se
desenvolver na provncia Proconsular uma nova indstria de cermica, associada
a uma recuperao econmica geral.
    Os trabalhos de J. P. Morel, que denunciou as imitaes africanas da cermica
de verniz negro de Campnia33, e de P. A. Fvrier e J. W. Salomonson sobre a
terra sigillata, juntamente com as ltimas escavaes feitas pelos pesquisadores
do Instituto Arqueolgico de Tnis, mostraram que as oficinas africanas
aumentaram continuamente em nmero e importncia 34. Alm dos artigos
comuns, elas produziam a fina cermica laranja-avermelhada e posteriormente
laranja-clara, que se tornou popular em todos os pases do Mediterrneo
ocidental. Desde a primeira metade do sculo III, decoravam-se belas nforas
cilndricas e vasos bicnicos com ornamentao aplicada na forma de figuras

32   Ver CAMPS-FABRER, H. 1953.
33   MOREL, J. P. 1968; id. 1962-5.
34   Ver, por exemplo, MAHJOUBI, A., ENNABLI, A. & SALOMONSON, J. W. 1970.
528                                                                   frica Antiga



em relevo inspiradas principalmente pelos jogos do anfiteatro; fabricavam-se
tambm lmpadas de alta qualidade e estatuetas, que eram colocadas nos tmulos
ou nas capelas domsticas. No sculo IV difundiu-se outro tipo de cermica que
os especialistas chamam de sigilata clara D. As importaes estrangeiras, nesse
setor econmico primordial que era a cermica, logo desapareceram, mesmo nas
provncias da Mauritnia. As vendas dos produtos manufaturados e extrativos
africanos (azeite, cermica, tecido tingido de prpura, artigos de vidro e de
madeira, mrmore da Numdia)  aos quais seguramente devem-se acrescentar
o trigo, os escravos e os animais selvagens destinados aos jogos do anfiteatro 
deviam exceder muito os produtos importados, que provavelmente consistiam
de objetos manufaturados, sobretudo de metal.
    Desse modo, a frica conseguiu liberar-se de sua dependncia econmica,
e o comrcio exterior recuperou, de certo modo, a importncia que teve na
poca pnica. O equipamento porturio desenvolveu-se em funo dos recursos
exportveis do interior e do processamento dos cereais e do azeite a serem
embarcados para a Itlia; as relaes comerciais eram feitas principalmente com
Ostia, o porto que era a sada de Roma para o mar; no stio de Ostia foram
encontrados, entre os scholae (escritrios) das corporaes de navegao, pelo
menos nove construes que pertenciam s corporaes africanas da Mauritnia
Cesariana, de Musluvium, Hippo Diarrhytus, Cartago, Curubis, Missus,
Gummi, Sullectum e Sabrata. Esses domini navium ou navicularii, agrupados em
corporaes, tinham a responsabilidade coletiva de transportar as mercadorias
para a Itlia35. Desde o reinado de Cludio, tais corporaes gozavam de
privilgios especiais, e se organizaram, at a poca de Stimo Severo, de acordo
com o princpio da livre associao. Contudo, logo o Estado passou a exercer
controle nesse campo, como em outros setores da economia, principalmente
porque o abastecimento de Roma era uma questo muito importante para ser
entregue apenas  iniciativa particular. Os navicularii foram ento considerados
prestadores de um servio pblico. No entanto, o comrcio com a Itlia continuou
a ser feito pelos africanos. O comrcio com o Oriente, prspero no perodo
cartagins, estava nas mos dos negociantes orientais durante o Imprio; no
sculo IV, eles ainda vinham traficar nos portos africanos. Embora se ignore a
natureza exata dos produtos desembarcados por esses comerciantes, conhecidos
como "srios", no  difcil imaginar a diversidade e a abundncia de produtos
africanos que levavam ao retornar a seus portos de origem, a julgar pelo grande


35    CALZA, G. 1916. p. 178 et seq.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                               529




figura 19.7   Mosaico de Susa: Virglio escrevendo a "Eneida". (Foto Museu do Bardo, Tnis.)



nmero de moedas de ouro com a efgie dos imperadores orientais descobertas
nas escavaes, e que eles deviam deixar na frica para equilibrar suas contas.
Finalmente, deve-se considerar o comrcio transaariano, que ser tratado  parte,
no contexto das relaes entre as provncias africanas e os povos do Saara.
   Os textos antigos e os achados arquelgicos e epigrficos contm muitas
informaes acerca do comrcio interno da frica. Com base nessas fontes,
sabemos que as nundinae, espcie de feiras, funcionavam, nos centros rurais
em diferentes dias da semana, como os atuais souks. Nas aldeias, edificavam-
-se os macella (mercados), com um ptio cercado de prticos, nos quais se
530                                                                     frica Antiga



abriam as barracas dos vrios negociantes. Foram escavados vrios desses stios,
principalmente em Leptis, onde as barracas do tipo quiosque eram equipadas
com estales para medidas de extenso e capacidade, inspecionados pelos aediles
municipais. Outros negcios e transaes eram realizados no forum ou nas lojas
e nos mercados cobertos das cidades (ocupados por banqueiros e cambistas,
taberneiros, vendedores de tecidos, etc.). As estradas, que originalmente se
destinavam s necessidades da conquista e da colonizao, no tardaram a
favorecer o comrcio, pois,  claro, facilitavam o transporte de mercadorias.
Durante o reinado de Augusto e de seus sucessores, duas rotas de interesse
estratgico ligavam Cartago ao sudoeste, pelo vale de Miliana, e ao sudeste pelo
litoral. O terceiro lado do tringulo era constitudo pela estrada estratgica de
Ammaedara-Tcape, que foi a primeira rota atestada por marcos milirios. Na
poca dos Flvios e dos primeiros Antoninos, o sistema de estradas teve uma
grande expanso, caracterizada principalmente pela construo da via Cartago-
-Theveste; em torno dos antigos centros militares de Theveste e Lambse, uma
rede de estradas circundava as montanhas Aures e Nemencha e prolongava-
-se para o norte em direo a Hippo Regius. Da em diante, construiu-se um
nmero cada vez maior de estradas na frica Proconsular e na Mauritnia,
onde o setor fortificado de Rapidum foi ligado a Gemellae e Lambse, por um
lado, e s cidades costeiras de Cesareia e Saldae, por outro. Contudo, aps 235,
a manuteno e o reparo da obsoleta rede de estradas criou vrios problemas36.
    Realizaram-se muitas pesquisas sobre as diversas questes tcnicas relativas
s estradas romanas  traado, estrutura, pontes e viadutos, construes auxiliares
para uso dos viajantes. Esses estudos deixaram bem claro que os romanos estavam
muito conscientes da importncia estratgica e colonizadora das estradas, de seu
papel administrativo  ilustrado pelos postos de revezamento do servio de correio
do cursus publicus, e tambm de seu papel econmico; a propsito, tem-se dado
ateno especial, por exemplo,  rota do comrcio de marfim entre Simitthu e
Thabraca, e foi realizado um estudo dos stios dos horrea e das mansiones (celeiros
e armazns) dispostos nas encruzilhadas e em vrios pontos das estradas para
armazenamento dos cereais e do leo entregues aos coletores de impostos.

      As relaes entre as provncias africanas e os povos do Saara
   Sabe-se h muito tempo que os romanos possuam trs grandes fortalezas
saarianas nos confins do deserto, ao sul da Tripolitnia: as de Bu Njem, Gheria-


36    SALAMA, P. 1951.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                          531



-el-Gherbia e Gadames, cujo nome antigo era Cidamus. Durante muitos anos
foram consideradas apenas como postos avanados do limes; mais recentemente,
porm, observou-se que tais fortalezas situavam-se na fronteira do deserto e de
uma zona controlada pelos romanos, habitada por camponeses sedentrios que
residiam em fazendas fortificadas e cultivavam principalmente a oliveira nas
bacias dos uedes. Nessa regio desenvolveu-se um tipo original de civilizao,
caracterizada por fortes tradies locais, em que so visveis as influncias pnicas.
Contudo, as tradies indgenas e a marca pnica  ilustradas principalmente
pelas numerosas inscries em alfabetos locais e pela sobrevivncia da lngua
pnica at as vsperas da invaso rabe  adaptaram-se ao novo modo de vida
introduzido pelos romanos. As fortalezas controlavam as principais rotas que
ligavam a costa ao Fezzan, o territrio dos Garamantes. Desde 19 antes da Era
Crist, Cornlio Balbo havia atacado os Garamantes e submetido, segundo
Plnio, vrias de suas cidades e fortalezas, incluindo Garama e Cidamus. Mais
tarde, talvez sob o reinado de Domiciano, uma expedio dirigida por Jlio
Materno partiu de Leptis Magna e atingiu Garama; acompanhada pelo rei dos
Garamantes e seu exrcito, a expedio posteriormente chegou at o pas dos
etopes e  regio de Agisymba, onde, segundo se disse, foram vistos rinocerontes.
Isso mostra que os romanos estavam interessados no Fezzan, na medida em
que essa base permanente de caravanas lhes permitia chegar  beira da frica
transaariana. Mostra ainda por que as crises e as reconciliaes, registradas por
textos lacnicos, fizeram do reino dos Garamantes uma fonte de preocupao
constante para os romanos. Acrescentando-se s indicaes fragmentrias dos
textos as prospeces e pesquisas arqueolgicas dos ltimos anos, foi possvel
precisar pouco a pouco o conhecimento dos itinerrios das caravanas que
levavam aos limites da frica negra e ter uma ideia mais clara do progresso feito
pelos romanos nessa direo. Tais fontes forneceram inmeros detalhes sobre os
aspectos militar, civil e comercial da vida nessa zona limtrofe, particularmente
em Bu Njem37. Em primeiro lugar, os pases transaarianos forneciam ouro:
desde os tempos pnicos at a poca rabe-muulmana, vrias rotas de ouro
ligavam os depsitos da Guin s praias do Mediterrneo, mas de certa forma
cada uma delas deixou um trao caracterstico na histria da frica do Norte.
O comrcio de caravanas tambm trazia escravos negros, plumas de avestruz,
animais selvagens, esmeraldas e carbnculos do Saara. Em troca, as provncias



37   Ver, em particular, nos COMPTES RENDUS DE L'ACADEMIE DES INSCRIPTIONS para 1969,
     1972, 1975, as comunicaes de R. REBUFFAT a respeito das escavaes de Bu Njem (Goleas).
532                                                                    frica Antiga



romanas forneciam vinhos, objetos em metal, cermica, txteis e objetos de
vidro, como mostraram principalmente as pesquisas das necrpoles do Fezzan.
   O uso cada vez mais generalizado do dromedrio, a partir dos sculos II e III,
nos confins saarianos onde passavam as rotas do sul e do leste, provavelmente fez
reviver o nomadismo, facilitando os deslocamentos, a criao de gado nmade e
a pilhagem das caravanas e dos centros sedentrios influenciados em maior ou
menor grau pela civilizao romana.  provvel que, no incio, a mesma tribo
se dividisse em grupos sedentrios, estabelecidos ao longo das rotas regulares
e no limes, e em nmades condutores de camelos, ao sul; posteriormente, em
meados do sculo IV, o governo imperial tornou-se cada vez menos capaz de
policiar o deserto e, embora no houvesse uma poltica deliberada de retirada,
as pequenas colnias na margem do deserto, que haviam se desenvolvido no
sculo III, puderam apenas sobreviver, correndo srio risco de extino por volta
do sculo V. Portanto, no foram o surgimento repentino e a difuso macia do
dromedrio no sculo III que permitiram aos nmades, como sempre pensou
E. F. Gautier, ameaar a segurana das fronteiras meridionais. E mais provvel
que a introduo desses animais tenha sido gradual. Inicialmente, a tendncia
cada vez maior de utiliz-los como meio de transporte serviu aos propsitos da
poltica romana, que tinha sabido adaptar-se s condies do meio ambiente
para criar verdadeiros centros de penetrao; em ltima instncia, porm, teve
o efeito oposto de permitir que as tribos nmades adquirissem a mobilidade
necessria para renovar os ataques s regies de onde haviam sido expulsas 38.
Pode-se perguntar tambm se a inteligente poltica saariana dos imperadores
severos no pode ser explicada pelo fato de o fundador da dinastia ser originrio
de Leptis Magna, o que lhe teria permitido dispor de informaes de primeira
mo sobre as condies, os recursos e os itinerrios do interior rido.


      A ascenso dos romano-berberes e os problemas da
      sociedade africana
    Sob o reinado de Augusto e de seus sucessores, a populao das provncias
africanas era composta de trs grupos distintos, tanto pelas leis que os regiam,
quanto pela lngua e pelos costumes: romanos ou italianos imigrantes,
cartagineses e sobretudo lbios sedentrios que haviam incorporado s suas


38    DEMOUGEOT, E. 1960. pp. 209-47.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                 533



tradies as instituies e os costumes pnicos, e os lbios nmades que estavam
rigorosamente confinados a certas reas ou totalmente banidos das regies de
terras frteis que haviam sido obrigados a abandonar.
    Diz-se frequentemente, e com justia, que as provncias africanas no eram
consideradas reas de recolonizao: no reinado de Adriano, deixaram de ser
fundadas colnias de veteranos na frica Proconsular, e as da Numdia, a partir
dessa data, foram estabelecidas para os soldados recrutados nas cidades africanas.
Como vimos anteriormente, a situao desses soldados no cessou de evoluir para
uma total romanizao: a integrao dos cidados autctones, principalmente
dos mais ricos  que procuravam escapar de uma condio socioeconmica e
jurdica inferior , foi efetivada com a promulgao da constitutio Antonina,
em 212, que concedia a cidadania romana a todos os habitantes livres do
Imprio que ainda no a tinham adquirido,  exceo dos dediticii. Seguindo
o exemplo dos antoninos, Stimo Severo promovera um grande nmero de
comunidades a municipium ou mesmo colonia; os no-cidados tornaram-se
minoria, de modo que a existncia de situaes juridicamente inferiores ficou
cada vez mais injustificvel, considerando-se as exigncias de simplificao dos
sistemas administrativo e fiscal e as tendncias a favor do universalismo poltico,
legal, tico e religioso. Contudo, todos os que no vivessem num centro de tipo
municipal, grande ou pequeno, em especial os membros das tribos confinadas
em regies estpicas ou montanhosas, deviam ser classificados entre os dediticii,
cujas instituies e autonomia no tinham sido reconhecidas, nem mesmo
implicitamente, no momento da capitulao. Tais populaes, portanto, ficaram
marginalizadas da romanidade.
    Assim, as distines tnicas tendiam a desaparecer somente nas grandes
cidades, que, no entanto, eram muito numerosas, principalmente na frica
Proconsular. Todavia, foram substitudas pelas distines sociais. As duas ordens
sociais superiores, a senatorial e a equestre, tinham um status definido pelo
censo e evidenciado por insgnias e ttulos. Embora a classificao com base na
propriedade fosse necessria, no era suficiente, pois o princpio de hereditariedade
j era aplicado: a no ser que o imperador conferisse o grau de senador ou
cavaleiro como favor especial, o ttulo era adquirido unicamente por direito
hereditrio. Apesar disso, o estudo das carreiras individuais, possibilitado pelos
textos e sobretudo pela epigrafia, mostra a rpida renovao dessa aristocracia.
As famlias da velha nobilitas romana, que levavam uma vida principesca e pouco
a pouco se arruinavam, foram cada vez mais dando lugar a novos membros 
de incio originrios das provncias ocidentais do Imprio e posteriormente
greco-orientais. O primeiro senador de origem africana veio de Cirta e viveu
534                                                                      frica Antiga



no tempo de Vespasiano. Um sculo mais tarde, por volta de 170, os senadores
africanos perfaziam j uma centena, constituindo o segundo maior grupo, depois
dos de origem italiana. Do mesmo modo, enquanto o primeiro cavaleiro africano
conhecido, originrio de Musti, recebeu o anel de ouro de Tibrio, j na poca
de Adriano havia milhares de cavaleiros na frica Proconsular e na Numdia.
Durante o Alto Imprio a grande maioria de funcionrios era recrutada da
ordem equestre seminobre para desempenhar uma dupla funo, que aos poucos
se dividiu em dois ramos: um ligado a assuntos civis e o outro a questes
militares. Desde o sculo III, tornou-se difcil distinguir esse segundo ramo de
uma carreira exclusivamente militar. Observa-se, portanto, que a ascenso dos
romano-berberes foi uma das principais caractersticas do perodo Antonino-
-Severo, no qual os africanos desempenharam um papel importante em Roma
e no Imprio.
    A principal fora social  que durante o Alto Imprio, no interesse dos
prprios imperadores, permitiu a renovao das ordens aristocrticas e garantiu
principalmente  ordem equestre a manuteno de um alto nvel de competncia
profissional e de qualidades pessoais necessrios ao desempenho de sua dupla
funo  foi, incontestavelmente, a classe mdia urbana, que poderia ser chamada
de burguesia municipal. Os indivduos dessa classe de decuries eram assimilados
pela aristocracia imperial, de onde os imperadores recrutavam os funcionrios
para ocupar os postos importantes. Um dos fatores determinantes nessas
nomeaes era o esprito de solidariedade que unia em Roma os originrios da
mesma provncia: assim se explica a predominncia dos espanhis no incio do
sculo II seguida pela dos africanos, que foram substitudos pelos srios e depois
pelos Pannios.
    Como em geral se afirma, a classe mdia dos decuries constitua na frica a
base de sustentao das comunidades romanizadas. Durante o Alto Imprio essa
classe estava ligada principalmente a uma estrutura fundiria: o decurio vivia na
cidade com as rendas de sua propriedade, mas no era latifundirio nem campons,
e mesmo que possusse vnculos com sua terra, preferia um estilo burgus de
vida. Ele podia ser muito rico: para adquirir um nome na cidade e obter a
gratido de seus concidados, devia ser prdigo em donativos, distribudos tanto
por vaidade como por generosidade. Organizava jogos municipais, doava vveres
e dinheiro aos pobres ou construa e mantinha edifcios pblicos.  por isso que
mesmo as cidades mais modestas manifestavam um pendor desmesurado pelos
monumentos arquitetnicos, em completa desproporo com seu tamanho e
importncia. Todas deviam ter seu frum, com esttuas erguidas sobre pedestais,
sua cria, sua baslica judiciria, suas termas, suas bibliotecas e ainda magnficas
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                            535




figura 19.8   Djemila (antiga Cuicul, Arglia): centro da cidade.
Figura 19.9   Lebda (antiga Leptis Magna, Lbia): trabalhos em curso no anfiteatro romano
536                                                                     frica Antiga



e custosas edificaes para os jogos municipais, bem como grande nmero de
templos em honra aos deuses oficiais ou tradicionais. Embora apresentasse certas
vantagens, como a proteo jurdica fornecida pelas instituies municipais
e um nvel mais alto de vida, a proliferao de cidades grandes e pequenas
repousava inevitavelmente, como a riqueza das elites urbanas, sobre a explorao
dos camponeses.
    Apesar de ter sido questionada a teoria sobre o declnio das cidades no
sculo IV, j que a epigrafia demonstrou a existncia de atividade construtora
relativamente intensa, e que a arqueologia revelou, mesmo durante o sculo
III, habitaes suntuosamente decoradas, havia grandes diferenas na situao
social das populaes urbanas durante o Alto e o Baixo Imprio. A agricultura
permanecia a principal fonte de renda das elites citadinas. Mas o lugar dos
decuries, representantes da classe mdia que at ento governavam coletivamente
as cidades, foi tomado por uma oligarquia de grandes proprietrios de terras, os
primates ou principales municipais, enriquecidos graas  exportao dos cereais
e do azeite de seus domnios, o que permitiu sua integrao  nobreza imperial.
Esses notveis, apoiados pelo governo imperial, ascenderam s mais altas posies
no governo municipal e provincial; eles restauraram os monumentos destrudos
no sculo III, ou que ameaavam ruir por velhice e embelezaram suas cidades,
abrindo caminho, atravs dessa atividade litrgica, para sua ascenso poltica.
Os imperadores adaptaram sua poltica urbana a essas transformaes sociais; o
essencial era encorajar o desenvolvimento das cidades, pois elas constituam no
apenas uma das bases principais do sistema fiscal do Imprio, mas, sobretudo,
uma slida proteo contra o perigo "brbaro".
    O conjunto dos curiales, termo que durante o Baixo Imprio designava o ordo
decurionum, empobreceu cada vez mais, pois teve de suportar, coletivamente,
impostos cada vez mais elevados. Obrigados a assegurar os numera municipais
(abastecimento, servios pblicos, despesas necessrias  manuteno dos
edifcios e cultos, etc.), os curiales tornaram-se de fato os coletores locais dos
impostos devidos pela cidade, e suas propriedades eram tidas como garantia
das obrigaes fiscais coletivas. Os mais ricos procuraram passar para o nvel
de primates, refugiando-se desse modo nas ordens privilegiadas, a nobreza
senatorial ou equestre. Outros fugiam dos encargos municipais ingressando no
exrcito ou nas militiae administrativas, ou ainda infiltrando-se nas fileiras do
clero. O governo imperial teve de recorrer a medidas draconianas para combater
a desero das curiae, que causava prejuzos  vida municipal, isto , aos prprios
fundamentos da ordem romana. Os curiales tambm foram obrigados a impor o
ingresso em seu corpo a todos que possussem fortuna adequada, praticamente
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                               537



todos os possessores, que constituam uma verdadeira classe hereditria, cujo
declnio progressivo se refletia no da romanidade. Portanto, atribuindo privilgios
a um pequeno grupo de principales, que, alm disso, acabaram por deixar as
cidades, o Imprio aniquilou a massa dos curiales, o que exacerbou ainda mais a
crise social e agravou suas repercusses no desenvolvimento das prprias cidades.
    Embora na poca do principado os citadinos enriquecidos atravs do
comrcio pudessem ascender s magistraturas tornando-se membros do ordo
decurionum, e os homens das profisses liberais, mdicos ou arquitetos, fossem
muito considerados, isso no mais ocorreu durante o Baixo Imprio. Abaixo
dos curiales, todas as categorias da populao urbana foram reduzidas ao nvel
da plebe. As profisses indispensveis, como as ligadas  alimentao e ao
transporte, tornaram-se hereditrias e delas no se podia mais escapar atravs
dos canais legais.
    No campo, ainda era raro no sculo IV que os grandes proprietrios africanos
se isolassem totalmente em seus domnios; como vimos, eles continuavam a ter
algum interesse pelo embelezamento das cidades e pela vida municipal. Mas
no fim do sculo apareceram os primeiros sinais de uma tendncia progressiva
para uma agricultura de tipo senhorial; o dominus, cada vez mais independente
em suas terras, apropriou-se paulatinamente das prerrogativas de um Estado
enfraquecido, organizando a polcia de seu domnio e at mesmo exercendo o
poder de baixa justia em seus limites. Com a introduo do sistema fiscal da
jugatio capitatio, era de interesse do tesouro imperial e dos grandes proprietrios
rurais que no houvesse mudanas numa dada propriedade, nos elementos
humanos e fundirios que caracterizavam a explorao. Portanto, os senhores
leigos e eclesisticos, com a ajuda da administrao imperial, puderam impedir
os coloni de tentar aproveitar melhor seus lotes e conseguiram prend-los  terra.
Quanto aos pequenos e mdios proprietrios que habitavam as cidades, vimos
que eles procuravam escapar de sua condio de curiales; sua escolha reduzia-se
ao retorno  plebe urbana ou  aceitao de uma espcie de relao feudal com
o grande domnio vizinho. Em realidade, h longo tempo se manifestava uma
tendncia geral para a concentrao das terras nas mos de alguns proprietrios;
Cipriano j havia registrado, na metade do sculo III, que "os ricos adquirem
um domnio aps outro, expulsando seus vizinhos pobres, e  interminvel a
extenso desordenada de suas terras"39.




39   Sobre essas questes sociais, ver GAG, J. 1964.
538                                                                    frica Antiga



   No h espao neste breve resumo para discutir o movimento dos donatistas,
que sempre foram objeto de controvrsia entre os estudiosos. Lembremos apenas
que existem registros desses bandos rebeldes na Numdia, no sculo IV, e que esse
movimento se desenvolveu nas reas rurais, embora violentamente anticatlico,
apresentava um carter social evidente.


      A vida religiosa e o advento do cristianismo
    A dominao romana no chegou a impedir os autctones de manifestarem
uma devoo fiel a suas divindades tradicionais. Comumente, nos humildes
santurios rurais os velhos cultos berberes dos gnios conservaram suas
formas ancestrais. Em alguns casos, porm, foram absorvidos pelos cultos das
divindades greco-romanas: por exemplo, os cultos dos gnios da fecundao
ou da cura eram s vezes mascarados pelos de Netuno, Esculpio ou Serpis.
Nas regies que pertenceram aos reinos nmidas, onde a influncia pnica
tinha sido profunda e durvel, chegou-se a esboar um verdadeiro panteo de
deuses nativos. Mas a maioria da populao das provncias africanas praticava
os cultos de Saturno40 e dos equivalentes greco-romanos dos velhos deuses de
Cartago. A religio desse Saturno africano era simplesmente uma continuao
da de Baal-Hamon, do mesmo modo que Juno-Caelestis, a principal divindade
da Cartago romana, era apenas Tanit, a grande deusa da Cartago pnica. O
culto das divindades agrrias  as Cereres  tambm foi introduzido nos tempos
nmida-pnicos. Naturalmente, a romanizao transformou at certo ponto a
religio africana: a lngua pnica desapareceu dos ex-votos, os smbolos abstratos
gravados nas estelas frequentemente foram substitudos por figuras de deuses
em geral derivadas da arte greco-romana, a influncia da arquitetura romana se
estendeu s construes religiosas. Mas o sentido profundo da religio africana
conservou viva a sua especificidade, que se manifestava principalmente no ritual,
nas representaes figuradas das estelas e at mesmo no texto das dedicaes
latinas, que mantinham com notvel constncia a lembrana das frmulas
tradicionais.
    Quanto aos cultos oficiais do Imprio, no tardaram a ser reverenciados nas
cidades. A fidelidade a Roma devia exprimir-se principalmente pela observncia
das prticas religiosas, que faziam parte integrante da civilizao romana. Os
membros do ordo decurionum que atingiam o apogeu de sua carreira municipal

40    LEGLAY, M. 1966; id. 1967.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                     539




figura 19.10   Mosaico de Chebba: Triunfo de Netuno. (Foto Museu do Bardo. Tnis.)
540                                                                    frica Antiga



desejavam ser investidos da dignidade de flmines perptuos, sacerdotes que
desfrutavam o privilgio de oferecer ao casal imperial deificado as preces e os
votos dos habitantes da cidade. Alm disso, a assembleia provincial, composta
de deputados de todas as assembleias municipais, reunia-se anualmente em
Cartago para escolher o flmine provincial o grande sacerdote cuja funo era
celebrar o culto oficial em nome de toda a provncia. Finalmente, em cada
cidade, o culto da trade capitolina, Jpiter, Juno e Minerva, o de Marte, pai e
protetor do povo romano, e os de Vnus, Ceres, Apolo, Mercrio, Hrcules e
Baco constituam tambm outras formas oficiais da religio do Imprio e da vida
espiritual greco-romana. Por toda parte, templos e esttuas, altares e sacrifcios
celebravam essas divindades e muitas outras ainda, como a Paz, a Concrdia, a
Fortuna, o gnio do Imprio, o gnio do Senado romano, etc.
    As divindades das regies orientais do Imprio, prontamente aceitas em
Roma, tambm foram reverenciadas na frica. Funcionrios, soldados e
comerciantes difundiram o culto de sis, Mitra ou Cibele, identificadas algumas
vezes com as divindades locais como, por exemplo, sis a Demter ou Cibele
a Caelestis. Desse modo, a grande corrente mstica que invadia todo o mundo
romano atingiu a frica, embora as religies orientais de busca da salvao no
atrassem tanto as elites africanas como o thiasus do culto de Baco ou de Demter.
Do mesmo modo, as doutrinas espiritualistas, especialmente o neoplatonismo,
propagaram-se em alguns crculos e chegaram a conciliar-se com as tradies
pnicas: as estelas de Chorfa, por exemplo, ilustram as tendncias influenciadas
pelo neoplatonismo. Alguns autores chegam a acreditar que a ideia expressa por
esses monumentos, ou seja, de que h uma divindade suprema que age sobre o
mundo terrestre atravs de hipstases, provavelmente preparou o caminho para
o monotesmo cristo.
    Isso explicaria por que o cristianismo se desenvolveu mais cedo na frica do
que em outras provncias ocidentais do Imprio?  claro que as estreitas relaes
com Roma favoreceram a rapidez com que a nova religio foi introduzida no
continente. O mesmo se pode dizer, provavelmente, da existncia de pequenas
comunidades judaicas nos portos, principalmente em Cartago. Contudo, 
notvel que desde o incio o latim fosse reconhecido como lngua do cristianismo
africano, enquanto a Igreja romana ainda utilizava o grego. De acordo com
Tertuliano, que viveu no final do sculo II e incio do III, naquela poca havia
na frica um nmero muito grande de cristos, em todas as classes e profisses.
Por volta de 220, foi possvel reunir em Cartago um snodo de 71 bispos;
outro, realizado em cerca de 240, reuniu noventa bispos. Isso mostra que as
pequenas comunidades crists estavam espalhadas por muitas cidades africanas,
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                               541



constituindo o que o Imprio com certeza considerava um grave perigo. De fato,
por se recusarem a aceitar a ideologia imperial e principalmente por se negarem
a participar do culto ao imperador, os cristos se colocavam decididamente na
oposio. Apesar de seu liberalismo e da tolerncia habitual pelos novos cultos,
Roma tinha de manifestar sua intransigncia com uma seita que objetivava
criar, fora do mbito do regime, agrupamentos cada vez mais numerosos que
cultivavam um ideal diferente. Portanto, abateu-se sobre os cristos a represso
mais rigorosa: em 180, doze cristos da cidade de Scilli foram decapitados
por ordem do procnsul, e o ano de 203 foi marcado pelo martrio das santas
Perptua e Felicidade e de seus companheiros, que foram atirados aos animais na
arena do anfiteatro de Cartago. Mas as medidas repressivas, de resto espordicas,
no conseguiram sufocar o zelo e o fervor dos fiis, muitos dos quais procuravam
ardentemente o martrio.
    No  possvel, no mbito deste breve relato, fazer o histrico do cristianismo
africano, que se propagou sobretudo durante o perodo que vai da paz da Igreja
no sculo IV at o estabelecimento dos rabes na frica do Norte. Dever-se-ia
dedicar um estudo especial a essa complexa questo, que envolve principalmente
a pesquisa do cisma donatista e,  claro, da literatura crist desde Tertuliano at
Santo Agostinho, de quem a personalidade e a obra constituram o derradeiro
claro da romanidade africana. Ele soube recolher e transmitir ao Ocidente
a herana da cultura latina, e legou  cristandade de todos os tempos a sua
doutrina, de uma riqueza raramente igualada.


    A cultura africana
    Aps ter sido negligenciada durante longo tempo pelos historiadores de
Roma, as artes provinciais e as culturas "perifricas" esto atualmente no centro
das preocupaes. Isso se deve a uma compreenso mais clara dos limites da
romanizao e das diferentes formas que ela assumiu em seus contatos com
as sociedades indgenas. Alm disso,  preciso considerar que a arte de uma
determinada provncia no pode ser dissociada de sua vida econmica, social e
religiosa. A propsito, para estudar e apreciar a arte desenvolvida nas provncias
africanas durante a dominao romana, tornou-se necessrio considerar o
persistente substrato lbio-pnico que continuou a existir e a evoluir durante
sculos.
    No  o caso de tratar aqui dos problemas complexos abordados principalmente
pelos arquelogos; basta fazer uma referncia  obra La Civilisation de l'Afrique
542                                                                                         frica Antiga



Romaine, de G. Charles-Picard, que tem um captulo importante sobre a literatura
e a arte africanas; devemos nos contentar em fazer apenas algumas observaes. De
incio,  necessrio indicar que os primeiros elementos dessa cultura africana no
se devem unicamente  como em geral se pretendeu  aos fencios e cartagineses.
Quando os navegadores orientais comearam a frequentar as costas da frica,
no incio do I milnio antes da Era Crist, aportaram num territrio no qual,
antes deles, graas  abertura para as ilhas mediterrnicas, j haviam penetrado
diferentes tcnicas, como a que deu origem  cermica pintada, conhecida como
Kabyle ou berbere. A existncia, nessa poca, de populaes sedentrias prontas
a aceitar os elementos de uma civilizao urbana  agora demonstrada pelos
dolmens argelino-tunisianos, pelos haounets do norte da Tunsia e pelos objetos
encontrados nos monumentos funerrios escavados no noroeste de Marrocos41.
Mais tarde  no perodo anterior e principalmente na fase posterior  destruio
de Cartago  a populao nativa adotou e adaptou a cultura fencia e pnica,
mesclada com elementos egpcios e orientais, impregnados, depois do sculo IV
antes da Era Crist, de influncias helensticas. Finalmente, as contribuies talo-
-romanas mais importantes e impostas de maneira mais direta inevitavelmente
geraram combinaes hbridas, frequentemente difceis de definir. Contudo, 
costume distinguir duas culturas na frica: uma oficial, de carter romano, e
outra popular, indgena e provincial. Mas existem,  claro, monumentos em que
as duas correntes se encontram, se misturam e se confundem.
    As obras arquitetnicas africanas reproduziam em geral tipos de monumentos
pblicos que predominavam em todo o mundo romano, e, portanto, inspiravam-
-se numa tcnica e num ideal essencialmente romanos. Do mesmo modo, as
esculturas decorativas e as grandes esttuas dos deuses, dos imperadores e dos
personagens importantes diferenciavam-se muito pouco de suas congneres da
Itlia ou de outras provncias. Contudo, as obras arquitetnicas ou de escultura
ligadas s tradies religiosas ou funerrias da populao bem como certas
tcnicas especiais de construo ou decorao traziam a marca das caractersticas
locais. Isso  evidente nos templos em honra a divindades que mantiveram sua
individualidade nativa apesar da aparente identificao com os deuses romanos;
em certas sepulturas monumentais; numa tcnica especial de construo de
paredes conhecida como opus africum; na arquitetura domstica e, por ltimo,
em estelas votivas ainda impregnadas das influncias pr-rornanas. No perodo


41    Os trabalhos recentes modificaram completamente as concepes tradicionais. Ver,por exemplo, CAMPS,
      G. 1960-b; id. 1961; GOBERT, E. G. 1948. pp. 1-44; TIXERONT, J.1960. pp. 1-50; FVRIER, P. A.
      1967. pp. 107-23.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                       543




figura 19.11 Trpoli (antiga Oea, Lbia): Arco do Triunfo de Marco Aurlio. Detalhe.



dos severos, as esculturas de Leptis Magna e outras cidades da Tripolitnia e
da frica Proconsular foram muito influenciadas por uma poderosa corrente
artstica, vinda do Oriente asitico e prontamente assimilada, pois correspondia
a tendncias antigas, mas ainda vigorosas, da arte africana.
    Os inumerveis mosaicos descobertos desde o incio do sculo tambm
apresentam tendncias e caractersticas locais. Nesse caso, novamente, podemos
apenas remeter aos peridicos especializados e  obra j citada de G. Charles-
544                                                                frica Antiga



-Picard, que assim concluiu o captulo sobre o "barroco africano": "Portanto,
a frica deu a Roma muito mais do que recebeu e mostrou-se capaz de fazer
frutificar suas influncias com um esprito que no  nem o da Grcia nem o
do levante helenizado"42




42    CHARLES-PICARD, G. 1959, p. 353.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                               547



                                     CAPTULO 19


                                 PARTE II
                               De Roma ao Isl
                                             P. Salama




   Quando terminou a dominao romana na frica do Norte, que durou em
algumas regies quatro ou cinco sculos, a situao interna apresentava um
quadro complexo. Revoltas regionais, conflitos religiosos, descontentamentos
sociais criaram um clima deteriorado, mas a solidez da experincia administrativa
e o prestgio da cultura latina legaram a esta civilizao importada muitas
possibilidades de sobrevivncia.
   Divididas em zonas dominadas ou independentes, segundo as vicissitudes das
conquistas estrangeiras ou das resistncias locais, a frica do Norte ps-romana
e pr-islmica viveu ento um dos perodos mais originais de sua histria1.


    As regies sob ocupao estrangeira
   Durante um perodo de aproximadamente trs sculos, duas invases
estrangeiras alternadas assumiram a tutela de Roma, sem jamais poder
reconstituir integralmente suas fronteiras.




1    Nosso ttulo "De Roma ao Isl"  tomado de um estudo, de carter principalmente bibliogrfico, de C.
     COURTOIS, na Revue Africaine, 1942, pp. 24-55.
548                                                                    frica Antiga



      O Episdio Vndalo
    Nada era mais inesperado na frica do Norte do que estes conquistadores
de origem germnica. Nenhuma dominao se adaptou menos s realidades do
territrio. Distanciando-se dos outros povos germnicos que, como eles, haviam
emigrado em massa para a Europa ocidental em +406, os vndalos inicialmente
se instalaram no sul da pennsula Ibrica, que, ao que parece, conservou seu nome
(Vandalusia = Andalusia). Chamados ou no a intervir nas disputas internas
do poder romano na frica do Norte, eles cruzaram o estreito de Gibraltar,
com uma fora de 80 mil homens, sob o comando de seu rei Genserico (ou
Geiserich) no ano de +429. O avano foi fulminante. Em +430, j sitiavam a
cidade de Hipona e, em +435, viram reconhecida por parte dos romanos a posse
de Constantina. Trs anos mais tarde apoderaram-se de Cartago e, aps uma
breve retirada em +442, iniciaram, a partir de +455, trs operaes de grande
envergadura: a anexao definitiva de toda a zona oriental da frica romana,
a conquista da maior parte das principais ilhas no Mediterrneo ocidental 
Baleares, Sardenha e Siclia  e uma audaciosa expedio para saquear a prpria
Roma. O Imprio oriental, esperando desalojar os invasores, sofreu um desastre
naval em +468 e, a partir dessa data, admitiu o fato consumado: um tratado de
+474 consagrou definitivamente as boas relaes entre Bizncio e os vndalos,
que representavam uma grande potncia martima no Mediterrneo ocidental.
    Foi benfico o sculo de ocupao germnica de uma parte da frica do
Norte? Ao ler as fontes literrias da poca, francamente hostis aos usurpadores,
ficamos horrorizados com sua brutalidade. Mas a crtica moderna conseguiu
desvincular o tema de seu contexto passional. O termo "vandalismo", sinnimo de
esprito de destruio, foi forjado apenas no final do sculo XVIII, e atualmente,
graas a numerosos documentos arqueolgicos, parece claro que, em sua m
administrao do territrio, os vndalos erraram muito mais por omisso do
que por inteno.
    Estamos nos aproximando de uma ideia cada vez mais clara da estrutura legal
do Estado vndalo: realeza originria de uma aristocracia militar, detentoras
ambas dos grandes domnios pblicos e privados da antiga frica romana;
manuteno da administrao romana, regional e local, incluindo at mesmo a
utilizao, em benefcio do novo culto real, das antigas assembleias provinciais
de tradio imperial. Portanto, Cartago tornou-se a rica metrpole do novo
Estado. Esse mesmo interesse pelo tradicionalismo latino afetou ainda a
estrutura agrria, sendo engenhosamente preservadas as antigas leis romanas
que regiam a organizao camponesa, principalmente a Lex Manciana. O
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                                        549



fenmeno do xodo urbano para as reas rurais, iniciado em toda parte durante
o Baixo Imprio, intensificou-se, trazendo consigo a decadncia e a diminuio
da rea de diversas cidades. Outras, ao contrrio, como Ammaedara, Theveste
ou Hipona, prosseguiram suas obras monumentais. Parece mesmo que durante
esse perodo  e a manuteno da economia monetria o comprova  nem a
agricultura nem o comrcio sofreram qualquer declnio evidente. Tudo indica
que as relaes externas foram prsperas, e o conjunto das possesses vndalas
pde ser qualificado de "imprio do trigo". So testemunho da riqueza das
classes dominantes as finas joias de estilo germnico, por vezes encontradas em
Hipona, Cartago, Thuburbo Maios e Mactar.
    O balano poltico e religioso mostra-se mais negativo. Nas partes sul e
oeste de seu domnio norte-africano, os vndalos sofreram tantos ataques
dos "mouros", denominao geral dos rebeldes norte-africanos, que  quase
impossvel fixar uma fronteira estvel na zona sob seu controle. Tais limites eram
certamente flutuantes, e  provvel que jamais tenham ultrapassado, a oeste, a
regio de Djemila (Cuicul).
    No campo religioso, o clima de crise foi permanente. Os vndalos eram
cristos, mas professavam o arianismo, heresia intolervel para o clero catlico
tradicional. Seguiu-se uma represso quase sistemtica do clero por um poder
central pouco inclinado a tolerar resistncias dogmticas. O furor anticatlico
atingiu seu clmax aps um pseudoconclio reunido em Cartago no ano de +484.
    Desse modo, a situao de crise moral e social levou a um processo de
derrocada, acelerado na realidade pelos abusos ou pela incompetncia dos
sucessores de Genserico. Em +530, a usurpao de Gelimero, destronando o rei
Hilderico, aliado do imperador do oriente Justiniano, incentivou a conquista
bizantina2.


2    Os textos literrios antigos a respeito do perodo vndalo na frica do Norte devem-se principalmente a
     trs autores "comprometidos", de manifesta hostilidade: o bispo catlico VICTOR DE VITA (Histoire de
     la Perscution dans les Provinces Africaines), FULGNCIO DE RUSPE (Opera) e o historiador bizantino
     PROCPIO (A Guerra dos Vndalos). ltimas edies: FRAIPONT, J., trad. 1968; VEH, O., ed. 1971.
     O estudo moderno bsico  o de C. COURTOIS (1955), uma obra importante, corrigida e suplementada
     em certos pontos por vrias contribuies arqueolgicas. A questo como um todo  retomada por H. J.
     DIESNER (1965. pp. 957-992; 1966). O problema fundirio foi ilustrado pela descoberta de atos jurdicos
     escritos em placas de madeira ou fragmentos de cermica: COURTOIS, C., LESCHI, L., MINICONI,
     J., FERRAT, C. & SAUMAGNE, C. 1952; FVRIER, P. A. & BONNAL, J. 1966-7. pp. 239-59.
     Sobre a expanso territorial do reino vndalo para o sul e oeste da Numdia: FVRIER, P. A. 1962-7;
     id. 1965. pp. 88-91; DIESNER, H. J. 1969. pp. 481-90.
     Sobre as instituies: CHASTAGNOL, A. 1967. pp. 130-4; CHASTAGNOL, A. & DUVAL, 1974.
     pp. 87-118. Sobre o estado do reino e o declnio urbano em particular: MAURIN, L. 1968. pp. 225-54.
     Para a questo religiosa: COURTOIS, C. 1954; LEPELLEY, C. 1968. pp. 189-204; vrios trabalhos
     de DIESNER citados na bibliografia analtica de DESANGES, J. & LANCEL, S. 1970. pp. 486-7;
     MAIER, J.-L. 1973.
550                                                                      frica Antiga



      O Episdio Bizantino
    Considerando-se sucessora legtima do Imprio Romano, a corte de
Constantinopla resolveu expulsar dos territrios usurpados os novos Estados
germnicos do Ocidente. E foi na frica do Norte que tal iniciativa se mostrou
menos ineficaz.
    No ano de +533, seguindo a ordem de Justiniano, um corpo de expedicionrios
comandado por Belisrio destruiu, em trs meses, o poder dos vndalos,
fazendo desaparecer esse povo da Histria. A primeira medida bizantina, um
clebre dito do ano +534 reorganizando as estruturas administrativas do pas,
estabeleceu o padro a ser seguido: uma poltica ao mesmo tempo militar e
jurdica, inspirada muito fielmente na dos romanos. Foi um erro imaginar que
aps mais de cem anos de negligncia as massas rurais voltariam a aceitar a
rigidez do conservadorismo administrativo; e, de fato, o que o sculo e meio
de ocupao bizantina produziu na frica do Norte foram algumas realizaes
inegveis no campo da construo, obtidas num clima de insegurana crnica.
    A prpria reconquista do pas foi difcil e, em certa medida, o processo parecia
uma antecipao das intervenes rabes do sculo VII e francesa do sculo XIX;
uma vez excludo o ilusrio poder vndalo, comparvel  futura administrao
turca, o conquistador esbarrou com a resistncia dos chefes indgenas e teve
de triunfar lentamente, pela fora ou pela astcia. De +534 a +539, o patrcio
Salomo, general talentoso mas violento, foi detido pelos montanheses de Iavdas,
nos Aures, e depois morto pelos nmades de Coutzina e Antalas nas estepes
tunsio-tripolitanas. Seu sucessor, Joo Troglita, adotando uma atitude mais
flexvel com os prncipes berberes, dividiu-os pela intriga ou desembaraou-se
deles atravs de assassnio, mas a pacificao que obteve foi ilusria (+544-8).
Desse modo, a agitao persistiu at o fim do sculo VII. Basta observar um
mapa das fortificaes bizantinas na frica do Norte para compreender que
a "estratgia de fortalezas", barrando as rotas de invaso, ocupando todas as
encruzilhadas e defendendo o territrio at sua parte central, evidenciava um
perptuo estado de alerta, pois o inimigo surgia de todos os lados. Portanto, o
antigo esprito ofensivo foi substitudo por uma ttica defensiva, sinnimo de
inquietude.
    No final do sculo VI e no incio do sculo VII, os imperadores Maurcio
Tibrio e depois Herclio tentaram em vo diminuir as frentes de batalha,
restringindo a ocupao do territrio. Para oeste, a expanso bizantina nunca foi
capaz de estender-se alm da regio de Stif. Apenas algumas cidades costeiras
mais afastadas receberam guarnies; mas, bloqueadas de perto pelos "mouros",
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                              551



tambm elas prefiguraram uma situao militar famosa, a dos presidios espanhis
do sculo XVI.
    Nesse contexto, a autoridade bizantina teve o grande mrito de se exercer nos
domnios administrativo e econmico. As antigas cidades romanas continuaram
a declinar e a se despovoar, ao abrigo das poderosas fortalezas que lhes serviam
de proteo, como em Tebessa, Haidra ou Timgad. As antigas provncias, s
vezes restauradas artificialmente, receberam governadores, submetidos a um
prefeito do pretrio instalado em Cartago, embora o poder militar no estivesse
associado ao cargo. No final do sculo VI, um chefe supremo, o exarca ou patrcio,
concentrou em suas mos praticamente todos os poderes.
    A poltica interna, produto dos mtodos romanos, tendeu naturalmente a
recuperar os antigos rendimentos fiscais. Assim, foi restabelecida a annona,
imposto anual pagvel em trigo. Uma vez confiscados os domnios reais dos
vndalos, as propriedades foram devolvidas a seus antigos donos, averiguados,
quando necessrio, at a terceira gerao. Pode-se imaginar o nmero de disputas
legais e materiais que essa operao criou. Em todos os domnios, a taxao era
sentida como um peso esmagador. A vida econmica, no entanto, conheceu
uma relativa prosperidade. A manuteno da economia monetria em todas as
transaes e a entrega do comrcio exterior a agentes oficiais deram a Cartago
e  regio do interior sob sua influncia uma reputao de grande riqueza no
mundo mediterrnico, ainda mais que as duas margens do estreito da Siclia
estavam sob influncia bizantina. Pode-se duvidar que as massas rurais norte-
-africanas tenham extrado algum benefcio de tal situao.
    No plano religioso, os novos senhores restabeleceram o culto tradicional,
isto , o catolicismo ortodoxo, e proibiram o arianismo. Uma reapario do
donatismo, que j se havia manifestado anteriormente na frica romana, foi
duramente reprimida; considerou-se tal heresia, alis corretamente, como um
fenmeno de contestao social. Bizncio chegou a se dar ao luxo de uma crise
dogmtica, a do monotelismo, uma discusso ftil sobre as naturezas divina e
humana de Cristo; s vsperas da conquista muulmana, o clero da frica do
Norte dividiu-se em torno dessa questo.
    Da em diante, os numerosos casos de insubmisso administrativa ou militar,
o excesso de poder, a corrupo nos altos cargos em face do constante perigo
berbere anunciavam a chegada, mais ou menos longnqua mas inevitvel, da
queda final. Foram precisos cerca de cinquenta anos, de +647 a +698, para que
um novo e inesperado visitante, o conquistador rabe, acabasse para sempre com
o domnio bizantino.
552   frica Antiga
Principais construes militares e fortalezas do territrio bizantino




                                                                                                                                     O perodo romano e ps-romano na frica do Norte
 1   Lebda = antiga Leptis Magna   19 Ain Tpunga = Tignica       39     Sbiba = Sufes              62   Ksar el Kelb = Vegesela?
 2   Trpoli = Oea                 20 Henchir Dermoulia          40     Haidra = Ammaedara         63   Henchir Cheragreg
 3   Sabratha = Sabrata               = Coreva                   41     Gastel                     64   Taoura = Thagora
 4   Bou Garara = Gigthis          21 Henchir Tembra             42     Tebessa = Theveste         65   Mdaourouch = Madauros
 5   Gabes = Tcape                   = Thaborra                 43     Henchir Bou Dris          66   Tifech = Tipasa
 6   Bordj Junca =                 22 Tboursouk =               44     Sbeitla = Sufetula         67   Khamissa = Thubursicu
     Macomades Minores                Thubursicu Bure            45     Friana = Thelepte              Numidarum
 7   Ras Kaboudia =                23 Dougga = Thugga            46     Gafsa = Capsa              68   Guelma = Calama
     Justinianpolis               24 Ain Hedja = Agbia          47     Negrine = Ad Maiores       69   Announa = Thibilis
 8   Ras Salakta = Sullectum       25 El Krib = Mustis           48     Bades = Badias             70   Ksar Adjeledj
 9   Ras Dimass = Thapsus          26 Kern el Kebch = Aunobari   49     Thouda = Thabudeos         71   Ksar Sbahi = Gadiaufala
10   Lemma = Leptiminus            27 Henchir Douamis            50     Biskra Vescera             72   Ain el Bordj = Tigisis
11   Sousse = Hadrumetum              = Uchi Maius               51     Tolga                      73   Djebel Ferroukh
     Justiniana                    28 Sidi Bellagui              52     Tobna = Thubunae           74   Constantina = Constantina
12   Hergla = Horrea Caelia        29 El Kef = Sicca Veneria     53     Ksar Bellezma              75   Fedj Sila = Sila
13   Henchir Fratis =              30 Henchir Djezza = Aubuzza   54     Ain Zana = Diana           76   Mila = Milev
     Aphrodisium                   31 Ebba = Obba                       Veteranorum                77   Stif = Sitifis
14   Ain Tbornok = Tubernuc       32 Lorbeus = Laribus          55     Ain el Ksar                78   Zraia = Zarai
15   Cartago = Carthago            33 Sidi Amara                 56     Lambse = Lambaese         79   Kherbet Zembia = Cellas
     Justiniana                    34 Ksar Lemsa = Limisa        57     Tmgad = Thamugadi         80   Ain Toumella = Thamallula
16   Beja = Vaga                   35 Henchir Sguidam            58     Henchir Guesses            81   Oued Ksob
17   Hamman Darradji               36 El Kessra = Chusira        59     Bagha = Bagai             82   Bchilga = Zabi Justiniana
     = Bulia Regia                 37 Djelloula                  60     Khenchela = Mascula
18   Bordj Hellal                  38 Henchir = Ogab             61     Henchir Oum Kif = Cedias




                                                                                                                                     553
554                                                                                              frica Antiga



   Alm dos ensinamentos histricos que esse perodo nos proporciona,
preservaram-se esplndidos vestgios arqueolgicos. A edificao de grandes
fortalezas, a construo ou decorao de igrejas, algumas vezes em estilo
suntuoso, como em Sabrata ou Kelibia, mostram um esprito notvel de
perseverana e f3.


      As regies independentes
    Levando em conta que a frica romana do Baixo Imprio j passara por
numerosas transformaes polticas e sociais, podemos compreender at que
ponto a chegada dos vndalos serviu como um canal liberador para essas antigas
tendncias. A "eterna frica" recuperou seus direitos, e a presena estrangeira,
prxima ou distante, foi considerada apenas como um fardo. Portanto, seria
ilusrio diferenciar, no plano psicolgico, as regies governadas por prncipes
berberes e nominalmente ligadas  soberania vndala ou bizantina, das regies
completamente independentes. As primeiras, situadas na periferia das zonas sob
ocupao estrangeira, eram a tal ponto descentralizadas que constantemente
entravam em conflito com o poder central. Os governantes bizantinos conferiam
uma investidura oficial a Iavdas, nos Aures, a Guenfan, Antalas e Coutzina, nas
altas estepes tunisianas, e a Carcazan, na Tripolitnia. Todos esses "vassalos"


3     A literatura antiga a respeito da frica bizantina  representada essencialmente pelo historiador grego
      PROCPIO, verdadeiro "correspondente de guerra" da reconquista: A Guerra dos Vndalos (ver nota
      2 acima) e Os Edifcios (DEWING, B. H., ed. London, Loeb, 1954); e pelo poeta latino CORIPO,
      que narrou a epopeia militar de Joo TROGLITA contra os mouros: a Iohannis (PARTSCH, Leipzig,
      Teubner, 1879; DIGGLE-GOODYEAR, ed. Cambridge Univ. Press, 1970). O trabalho crtico
      fundamental sobre o perodo ainda  o de C. DIEHL (1896. pp. 533-709). Desde ento multiplicaram-
      -se as descobertas arqueolgicas e as publicaes sobre assuntos especficos. Citamos apenas os mais
      recentes.
      Sobre histria propriamente dita: BELKHODJA, K. 1970. pp. 55-65. Sobre os limites geogrficos da
      ocupao: DESANGES, J. 1963. pp. 41-69.
      As fortificaes esto sendo estudadas pormenorizadamente: GOODCHILD, R. G. 1966. pp. 225-50;
      JONES, A. H. M. 1968. pp. 289-97; LANCEL, S. & POUTHIER, L. 1957. pp. 247-53; LASSUS, J.
      1956. pp. 232-9; ROMANELLI, P. 1970. pp. 398-407; LASSUS, J. 1975. pp. 463-74.
      Sobre questes religiosas: CHAMPETIER, P. 1951. pp. 103-20; BERTHIER, A. 1968. pp. 283-92; e
      mais particularmente DUVAL, Y. & FVRIER, P.-A. 1969. pp. 257-320.
      A arquitetura religiosa, os mosaicos e a epigrafia durante o mesmo perodo so tratados fundamentalmente,
      no que se refere a Haidra e Sbeitla, por DUVAL, N. 1971; cf. DUVAL, N. & BARATTE, F. 1973; id.
      1974, que remetem  bibliografia completa; cf. CINTAS, P. & DUVAL, N. 1958. pp. 155-265; FENDRI,
      M. 1961; DUVAL, N. 1974. pp. 157-73; ANGELIS D'OSSAT, G. de. & FARIOLI, R. 1975. pp. 29-56.
      Os tesouros monetrios e o numerrio bizantino emitido pela casa da moeda de Cartago foram
      catalogados por C. MORRISSON (1970). Recentemente descobriu-se um tesouro de moedas de ouro
      em escavaes feitas em Rougga, perto de El Djem na Tunsia, certamente enterrado na poca da
      primeira incurso rabe no pas, em 647: GURY, R. 1972. pp. 318-9.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte   555




figura 19.12 Timgad (Arglia): Fortaleza
bizantina, sculo VI:
a. Muralha sul, alojamentos e capela dos
oficiais.
b. Muralha norte, piscina, alojamentos e capela
dos oficiais. (Fotos P. Salama.)
556                                                                       frica Antiga



administravam livremente os territrios a eles concedidos; o problema de uma
eventual devoluo no se colocava.
    Quanto s zonas livres de toda interferncia externa, algumas situadas bem
longe das fortalezas vndalas ou bizantinas, nas antigas Mauritnia Cesariana
e Mauritnia Tingitana, desde o ano +429 desfrutavam de uma independncia
absoluta e seus governantes no intervinham nos assuntos vizinhos a no ser
para obter alguma vantagem pessoal.
    Reencontramos aqui um dado essencial da histria do Magreb nos tempos
clssicos: a tendncia  diviso e s rivalidades territoriais no momento em que
desaparecia uma fora centralizadora. Nesse caso, a diviso poltica obedecia aos
imperativos geogrficos.
    Infelizmente, conhecemos muito pouco sobre a estrutura da frica do Norte
independente no perodo ps-romano. Grandes confederaes sociopolticas
constituram alguns reinos, que nos so revelados apenas por raras aluses literrias
ou pelo acaso dos achados arqueolgicos. No incio do sculo VI, na regio de
Altaya e Tlemcen, havia, por exemplo, o reino de Masuna, "rei dos mouros e
dos romanos"; um pouco mais tarde, nos Aures, sabemos do reino de um certo
Masties, "dux durante sessenta e sete anos, imperator durante quarenta anos",
que nunca renegou sua f "nem diante dos romanos nem diante dos mouros".
Vartaia, outro chefe local, rendia-lhe homenagem e provavelmente reinava na
zona de Hodna. Com certeza, a cidade de Tiaret, antiga cidadela do limes romano,
admiravelmente situada na juno dos mundos nmade e sedentrio, tambm
foi, desde o sculo V, a capital de uma dinastia cujo poder  simbolizado ainda
por tmulos majestosos, os Djedars de Frenda. Talvez deva constar desta relao
tambm o poderoso Garmul, rei da Mauritnia, que destruiu um exrcito bizantino
em 571. Finalmente, durante os sculos VI e VII, existia na longnqua Tingitana,
ao norte do atual Marrocos, um principado indgena cuja vitalidade  atestada
pelas inscries de Volubilis e do mausolu de Souk-el-Gour.
    Na maioria dos casos, a organizao sociopoltica revela uma estrutura que
no  rudimentar nem anrquica. Instituies originais conjugavam as tradies
berberes e o modelo administrativo romano. "Mouros" e "romanos" estavam
associados, frmula que certamente implicava uma colaborao entre elementos
camponeses, no-romanizados, e citadinos, provenientes de muitos sculos
de influncia latina. Portanto, no se contestava uma herana administrativa
e cultural de origem estrangeira, que eventualmente constitua motivo de
orgulho. O mapa histrico que traamos dessas regies mostra a sobrevivncia
de pequenos centros urbanos, como Tiaret, Altaya, Tlemcen e Volubilis, ainda
cristianizados, onde o uso do latim persistiu at o sculo VII.
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte                                                      557




figura 19.13 e 19.14    Haidra (Tunsia): Fortaleza bizantina, sculo VI. Detalhe e vista geral. (Fotos P.
Salama.)
558                                                                    frica Antiga



    Mas no devemos nos iludir com tais sobrevivncias. O futuro no pertenceria
 ligao nostlgica de reis de importncia menor a um prestgio extinto,
mas  fora irresistvel de independncia e ruptura que inspirava as massas
rurais. A rea como um todo estava irrevogavelmente envolvida no processo
de desromanizao e mesmo de descristianizao que iria assumir diferentes
formas e durar mais ou menos tempo, de acordo com o lugar. A manifestao
mais imediata e elementar desse fenmeno foi o ataque geral dos montanheses
e nmades aos smbolos tradicionais de riqueza, isto , cidades e domnios.
    Sabemos que Djemila, Timgad, Thelepte e muitas outras cidades famosas
foram devastadas antes da chegada dos exrcitos bizantinos. A verificao de
fontes arqueolgicas e literrias e, principalmente, a descoberta de numerosos
tesouros monetrios permitiram-nos entrever, entre outros conflitos, uma rebelio
geral que ocorreu nos ltimos anos do sculo V. Ao mesmo tempo, a interveno
das principais tribos nmades no sul da Tunsia e na Tripolitnia, como a dos
Levathe ou Louata, mostra o papel considervel do camelo na economia geral e
nas tticas de guerra dos sculos V e VI. Para vencer esses nmades em campo
aberto, o exrcito bizantino teve de enfrentar uma trplice fila concntrica de
animais amarrados um ao outro, uma verdadeira fortaleza viva a ser derrubada
a golpes de espada. Ainda se tratava, nesse caso, de operaes hostis contra os
estrangeiros, vndalos ou bizantinos. Mas as prprias regies independentes
viviam tumultos comparveis, guerras inter-regionais ou razias locais.
    Por trs desses eventos  que insuflaram durante muito tempo a violncia,
at que se atingisse finalmente um ponto de equilbrio  podemos entrever
um cenrio econmico e social caracterizado pela tendncia  pauperizao
progressiva das massas populares. Para o ano de +484, por exemplo, possumos
uma estatstica do nmero de bispados da Mauritnia Cesariana, em que ainda
se encontram os nomes da maioria das cidades da frica romana clssica.
Mesmo supondo que muitas dessas cidades j estivessem reduzidas  condio
de aldeias, o fato  que existiam. As construes de igrejas, em geral ornadas
com finos mosaicos como em El-Asnam, testemunham uma atividade criadora
necessariamente financiada por fontes restantes de riqueza. Sem dvida ainda se
colhiam os frutos do impulso que se verificara no perodo anterior. No entanto,
a arqueologia no revela praticamente nada comparvel nos sculos VI e VII.
O abandono das cidades persistiu, consolidando-se ao mesmo tempo a nova
sociedade, de tipo essencialmente rural, que se tornaria predominante durante
a Alta Idade Mdia.
    Que vestgios monumentais nos legou esse ltimo perodo? As zonas prximas
do litoral mauritano, onde se abrigavam os bizantinos, abriram-se facilmente a
O perodo romano e ps-romano na frica do Norte   559




figura 19.15 Sbeitla (Tunsia):
Prensa de azeite instalada numa
antiga rua da cidade romana (scu-
los VI a VII).
Figura 19.16 Djedar de Ter-
naten, perto de Frenda (Arglia):
Cmara funerria, sculo VI. (Fotos
P. Salama.)
560                                                                                               frica Antiga



influncias. Encontraram-se, por exemplo, candelabros de fino bronze, do sculo
VI, nas runas de Mouzaiaville, ao sul de Tipasa. O prprio stio de Tns tornou-
-se famoso pela descoberta de um dos mais notveis tesouros de ourivesaria do
mundo antigo, contendo principalmente as insgnias dos dignitrios imperiais.
Ainda  um mistrio sua existncia nesse lugar remoto. O autor acredita que
todas essas joias foram roubadas ou que talvez se relacionem ao saque de Roma,
perpetrado, de acordo com os textos, em +455 pelas tropas vndalas auxiliadas
por contingentes mouros.
    Porm,  medida que nos afastamos das reas costeiras e das zonas sob
ocupao estrangeira, a atividade construtora cessa no final do sculo V. Contudo,
existem duas excees importantes  regra, representadas pelos famosos tmulos
de tipo colossal nos quais a arte de construir, e de bem construir, recuperou suas
antigas tradies sem sofrer necessariamente qualquer influncia estrangeira. No
Marrocos, o mausolu de Souk-el-Gour, que pode ser datado do sculo VII, e na
Arglia, os Djedars de Frenda, dispostos cronologicamente do sculo V ao VII
(?), testemunham um vigor arquitetnico inexplicvel se o contexto local fosse de
total penria. No  muito surpreendente que os primeiros reinos muulmanos
do Magreb central e ocidental, o de Rustmida de Tiaret, e depois os idrsidas
de Walili (Volubilis), se tivessem fixado exatamente nesses lugares.
    Assim se encerrou nessas regies o perodo antigo, episdio hbrido em que
a ao das transformaes polticas e sociais apagou pouco a pouco a influncia
latina, revelando o inextinguvel esprito de independncia e a imensa firmeza
de objetivos que  a marca imutvel da histria da frica do Norte4.

4     Nas fontes literrias antigas existem apenas referncias espordicas  situao das regies independentes:
      aluses em PROCPIO e CORIPO, por exemplo, quando a interveno poltica dos vndalos e dos
      bizantinos envolve os mouros. O Iohannis, por exemplo, contm centenas de detalhes sobre a sociologia
      dos povos indgenas. Mas nossa documentao principal provm das descobertas arqueolgicas. H
      uma anlise eminentemente intuitiva do problema feita por COURTOIS, C. 1955. pp. 325-52. Vrios
      escritores comentaram a inscrio em honra de MASTIES, encontrada em 1941 em Arris no Aures; cf.
      finalmente CARCOPINO, J. 1956. pp. 339-48, contestando as concluses de COURTOIS. Os roumis
      de Volubilis foram estudados por CARCOPINO, J. 1948. pp. 288-301. Para as provas epigrficas mais
      recentes, MARCILLET-JAUBERT, J. 1968.
      Sobre a grande rebelio do fim do sculo V, SALAMA, P. 1959. pp. 238-9.
      A situao econmica e monetria das regies independentes  descrita por TURCAN, R. 1961. pp.
      201-57; J. HEURGON (1958) faz um estudo notvel das joias e prope a teoria de que pertenciam a
      uma poderosa famlia estabelecida em Tns. Mas a natureza ecltica da coleo parece estar mais de
      acordo com a psicologia de um ladro. Quanto  continuidade da atividade construtora aps 429, ver,
      por exemplo, FVRIER, P.-A. 1965.
      Os grandes tmulos dinsticos ps-romanos foram tema de um estudo analtico recente: CAMPS, G.
      1974-a. pp. 191-208, e mais especificamente KADRA, F. 1978.
      Quanto  sobrevivncia durante uma grande parte da Idade Mdia muulmana  mais particularmente
      em Tlemcen, Bejaia, Kairwan e Trpoli  de comunidades crists que em geral continuaram a falar o
      latim: COURTOIS, C. 1945. pp. 97-122 e 193-266; MAHJOUBI, A. 1966. pp. 85-104.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                   561



                                         CAPTULO 20


                             O Saara durante a
                            Antiguidade clssica
                                           P. Salama




    A noo tradicional de "Antiguidade clssica" pode parecer, a priori,
incompatvel com o estudo dos problemas saarianos, que possuem uma
classificao muito especfica. Para citar apenas um exemplo: a Antiguidade
clssica, que na arqueologia mediterrnica cobre um perodo de aproximadamente
mil anos (do sculo V antes da Era Crist ao sculo V da Era Crist), abrangeria,
na Proto-Histria do Saara, o fim da poca "equidiana" e parte da poca "lbico-
-berbere", as quais, alis, no so rigorosamente datveis; fica, pois, excluda
qualquer possibilidade de se estabelecer uma cronologia absoluta.
    Todavia, durante esse mesmo milnio, o universo saariano foi palco de eventos
muito importantes, em grande parte ligados  histria do mundo greco-romano.
Desse modo, no hesitamos em usar os critrios cronolgicos clssicos, vlidos
para todo o mundo conhecido da poca.
    Como se coloca para o historiador a questo do Saara na Antiguidade?
Primeiramente, devem-se examinar as fontes textuais greco-latinas: embora
a informao coletada nem sempre seja confivel, podendo induzir a erro, em
princpio  til. Num segundo momento, a interveno de mtodos cientficos
modernos deve corrigir pouco a pouco os primeiros dados e esclarecer o conjunto
do problema. Depois disso, o Saara "antigo" no ser mais julgado apenas a partir
de uma viso exterior, mas revelar sua prpria personalidade.
562                                                                                      frica Antiga



      As fontes textuais da antiguidade e suas interpretaes
      extremas
   Conhecemos os mtodos analticos dos gegrafos e historiadores antigos.
Sem poder visitar as regies inacessveis, recolhiam informaes de segunda mo,
permeadas de erros e fabulaes. Terra incognita, o grande deserto nem chegou a
receber nome. S aps a chegada dos rabes  que o termo Saara foi aplicado a
essa vasta regio que parecia uma enorme bacia. Os gregos, e posteriormente os
romanos, falavam apenas de uma "Lbia Interior", expresso geogrfica bastante
vaga que servia para designar as terras alm dos territrios norte-africanos, ou
"Etipia Interior", zona ainda mais meridional, que derivava seu nome da pele
escura de seus habitantes. As descries dessas regies que, por seu prprio
mistrio, assustavam os contemporneos, esto cheias de detalhes fabulosos em
que homens e animais frequentemente tomam o aspecto de monstros burlescos
ou terrificantes.
   Contudo, se os autores srios nem sempre puderam evitar as lendas,
registraram informaes valiosas; com o tempo, pode-se perceber uma melhora
na qualidade de seus trabalhos  medida que o progresso da colonizao greco-
-romana na frica propiciava um maior conhecimento das realidades locais.
   Desde a metade do sculo V antes da Era Crist, Herdoto obtinha no Egito
informaes de primeira ordem sobre a existncia e os costumes das populaes
saarianas que habitavam os limites meridionais da Tripolitnia e da Cirenaica.
Em seus escritos, encontramos os Garamantes perseguindo os Trogloditas
em carros puxados por quatro cavalos (IV, 183) e os Nasamones (IV, 172-5)
abrindo caminho para alm dos desertos de areia e descobrindo, num pas de
homens com pele escura, um grande rio repleto de crocodilos semelhante ao
Nilo1. Ficamos cientes ainda da extraordinria faanha dos marinheiros fencios
que lograram circunavegar todo o continente africano, de leste a oeste, sob o
patrocnio do fara, por volta de -600 (IV, 43), e do insucesso dos persas na
mesma tentativa (porm em sentido inverso), aps se aventurarem no Atlntico
(IV, 43). Finalmente, podemos ver os cartagineses trocando suas mercadorias
por ouro em p nas costas da frica ocidental (IV, 196).
    aqui que intervm em nossas fontes um documento clebre, datado
provavelmente da primeira metade do sculo IV antes da Era Crist, o Periplus de


1     Sobre essa expedio cf. R. LONIS, confirmando a hiptese de S. GSELL acerca das rotas nasamones
      em direo ao vale do Saura.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                        563



Hano, que narra a viagem de um cartagins incumbido de explorar e colonizar
essa mesma costa (Geographici Graeci Minores, I). Essa breve narrativa, embora
cheia de paisagens pitorescas, homens selvagens, crocodilos e hipoptamos,
fornece dois importantes referenciais: a ilha de Cerna  conhecida por outra
fonte como um entreposto de marfim e peles de animais selvagens (Priplo
de Silas, sculo IV antes da Era Crist, pargrafo 112)  e um grande vulco,
denominado "Carro dos Deuses", ltima etapa da viagem de Hano ao longo da
costa africana. A existncia desses dois lugares foi confirmada, no sculo II antes
da Era Crist, pela viagem do historiador grego Polbio, embora sua narrativa
seja conhecida apenas indiretamente, atravs de um outro texto (Plnio, o Velho.
Histria Natural, V, 9-10).
    Essas so nossas principais fontes de informao anteriores  colonizao
romana na frica. Paradoxalmente,  a fonte mais antiga a que menos se presta
 crtica. A documentao de Herdoto  slida e geralmente moderada  exceto
no caso da circunavegao da frica, empreendimento de veracidade duvidosa 
e escapa s interpretaes extremas2. O Periplus de Hano, ao contrrio, prdigo
em detalhes topogrficos, deu margem a comentrios eufricos; os historiadores
tradicionais no hesitam em atribuir aos cartagineses o conhecimento de toda a
costa da frica ocidental at Camares3.
    A presena dos romanos alterou essa situao. Solidamente instalados na
frica mediterrnica e no Egito, os conquistadores no tardaram em tomar
contato com as regies limtrofes, fato que envolveu  sem nenhum esprito
de colonizao  campanhas militares de intimidao ou reconhecimentos
comerciais e at mesmo cientficos.
    Um texto muito valioso de Plnio, o Velho (Histria Natural, V, 5), relata uma
invaso em -19 conduzida pelo procnsul da frica, Cornlio Balbo, contra o
reino rebelde dos Garamantes do Fezzan. Embora alguns topnimos constantes
da relao das vitrias romanas sejam perfeitamente identificveis, como Rhapsa
(Gafsa), Cidamus (Gadames) ou Garama (Germa), muitos outros so ambguos
e lembram os nomes das modernas localidades saarianas; isso foi considerado
prova suficiente de que os romanos atingiram o Nger4.
    Ainda mais eloquentes so as narrativas que, na literatura do perodo latino,
deixam entrever importantes incurses romanas no interior do continente
africano. O escritor Marino de Tiro (fim do sculo I da Era Crist) e seu

2    LECLANT, J. 1950-b. pp. 193-253; CARPENTER, R. 1965. pp. 231-42.
3    GSELL, S. 1918. pp. 272-519; CARCOPINO, J. 1948. pp. 73-163; DESCHAMPS, H. 1970. pp. 203-10.
4    LHOTE, H. 1954. pp. 41-83; id. 1958.
564   frica Antiga
 1      Resseremt, perto de Akjujit, Mauritnia: 2 denrios AR Repblica Romana (Mauny. 1956-a. p. 255).




                                                                                                                                                             O Saara durante a Antiguidade clssica
1A      Tamkartkart, Mauritnia: denrio romano, sculo II da Era Crist (Notes Africaines, n. 115. 1967. p. 101).
1B      Akjujit, Mauritnia: fbula romana de bronze (Antiquits Africaines, 1970. pp. 51-4).
 2      Essaura-Mogador, Marrocos: material pnico e romano, sculo VII antes da Era Crist ao sculo V da Era Crist ( Jodin. 1966).
2A      Cabo Rhir, Marrocos: cermica pnica, sculo III antes da Era Crist (Rebuffat. Antiquits Africaines. 1974. pp. 39-40).
 3      Safi, Marrocos: tesouro monetrio romano, sculo IV (PSAM. 1934. p. 127). Djorf el Youdi (15 km ao sul de Safi): p de esttua pnica (Antiquits
         Africaines. 1974. pp. 38-9).
 4      Azemur, Marrocos: cermica pnica; moedas romanas, sculo II da Era Crist (Mauny. 1956-a. p. 250; Antiquits Africaines. 1974. p. 35). El-Jadida
         (Mazagan) (15km ao sul de Azemur) e Meharza (30km ao sul de Azemur): moedas romanas, sculos I e II da Era Crist (Antiquits Africaines.
         1974. p. 36).
 5      Casablanca, Roches Noires: tesouro de denrios AR Repblica Romana proveniente de uma galera naufragada (Mauny. 1956-a. p. 250). Fedala,
         Sidi Slimane des Zaers, Bouznika, Skhirat, Dchira, Temara, Dar el Soltane (todos a 80 km da costa leste de Casablanca): cermica romana; moedas
         romanas e bizantinas (Antiquits Africaines. 1974. pp. 29-32).
 6      Oued Itel, Arglia: cermica romana em tmulos indgenas (CRAI. 1896. p, 10).
 7      Ghourd el Oucif: tesouro de denrios AR Repblica Romana, sculo II da Era Crist (Mauny. 1956-a. p. 252).
 8      Hassi el Hadjar, Arglia: cermica e moedas romanas (indito, Favergeat).
 9      Fort Miribel, Arglia: fragmento de lmpada com bico alongado (bizantina?) (indito, H.-J. Hugot).
10      El Menzeha, Arglia: sino de bronze; cermica romana ( J. P. Morel. Bull. Soc. Prhist. Franaise. 1946. p. 228).
11      Erg el Ouar, perto de Temassinine (antigo Fort Flatters), Arglia: Roscea de bronze romana (indito, Spruytte).
12      Issaouane Tifernine, perto de Tabelbalet, Arglia: dois braceletes de bronze (indito, J. Spruytte).
13      Ilezi (antigo Fort Polignac), Arglia: moedas romanas (Lhote. Bull. Liaison Saharienne. Abr. 1953. p. 57).
14      Abalessa, Arglia: conjunto de monumentos de Tin Hinan: joias e objetos romanos, sculos III e IV (Camps, 1965).
15      Timmissao, Arglia: moedas romanas (Mauny, 1956. p. 252).
16      Chaaba-Arkouya, Djanet, Arglia: cermica romana e bracelete de bronze em tmulos (Lhote. Libyca A. 1971. p. 187).
17      Dider e Tadrart, Tassili n'Ajjer, Arglia: moedas romanas, sculo IV (Mauny. 1956. p. 251); cermica romana (indito, J. Spruytte).
18      Tin Alkoum, Arglia: cermica e vidro romanos em tmulos, sculo IV da Era Crist (Leschi. 1945).
19      Ghat, Lbia: cermica e vidro romanos em tmulos, sculo IV (Caputo & Sergi Pace. 1951).
20      Grupo garamante: Djerma, Zinchera, Tin Abunda, Taghit, El Charag, El Abiod, Lbia: cermica pnica tardia; cermica e vidro romanos, sculos
         I a V da Era Crist (M. Reygasse, H. Lhote: 1955; G. Camps. 1956; M. Gast. 1972).
21      Materes, Lbia: stio romanizado, sculo II da Era Crist (Rebuffat. 1972. pp. 322-6).
22      Sinaouen, Lbia: fbula de la Tne II (Camps. Libyca A. 1963. pp. 169-74); stio romanizado, sculo II da Era Crist (Rebuffat.1972).
23      Oued Neina, Lbia: stio romanizado (Brogan. Libya Antiqua. 1965. pp. 57-64).
24      Ouaddan, Lbia: stio romanizado (Rebuffat. 1970).
25      Tagrift, Lbia: stio romanizado (Rebuffat. 1970).
26      Siwa, Osis de mon, Egito: stio helenizado, posteriormente romanizado.
27      Ouadi Rayan, Egito: stio romanizado (Caton Thompson. 1929-30).
28      Dakhla-Mehatta-kharga, Egito, Osis Magna dos Antigos: stios helenizados, posteriormente romanizados.
29      Abu Ballas, Egito: cermica romana tardia (Mitwally. Amer. Journal of Arch. 1952. pp. 114-26).
30      Kordofan, Sudo: stio romanizado (Arkell, 1951. p. 353).




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31      El Obeid, Sudo: moedas romanas (Mauny. 1956-a. p. 254).
566                                                                                    frica Antiga



comentador, o clebre gegrafo Cludio Ptolomeu, cuja documentao relativa
 frica remonta aos anos +110 a +120, relatam que o governador Stimo Flaco,
      "Tendo realizado campanha a partir da Lbia, percorreu o trajeto entre o pas dos
      Garamantes e o dos etopes em trs meses de viagem rumo ao sul; que Jlio Materno,
      por sua vez, vindo de Leptis Magna e viajando a partir de Garama em companhia
      do rei dos Garamantes, que marchava contra os etopes, atingiu Agisymba, uma terra
      etope onde abundavam os rinocerontes, aps quatro meses de viagem ininterrupta
      em direo ao sul" (Ptolomeu. Geografia, I, 8, 4).
   Esse relato adquire importncia ainda maior pelo fato de Ptolomeu ter
fundamentado seus conhecimentos geogrficos sobre o continente africano,
aparentemente vastos, num sistema matemtico em que longitudes e latitudes
vm autenticar os lugares mencionados. A grande quantidade de nomes de
montanhas, rios, tribos e cidades  algumas centenas  que ilustram seu mapa do
interior da frica, ao lado de certas semelhanas fonticas, levou a se acreditar,
mais uma vez, ser esse documento a prova de que os romanos conheciam
perfeitamente as regies tropicais da frica, principalmente o Nger e o Chade5.
   Hoje em dia no mais se sustenta essa viso por demais liberal e exagerada.
Os mtodos modernos de anlise obrigam-nos a repensar a histria do Saara.


      A abordagem cientfica atual
      A nova crtica textual
    Os historiadores modernos perceberam claramente que estavam em causa
trs obras principais: o Periplus de Hano, o episdio de Cornlio Balbo e a
Geografia de Ptolomeu.
    Durante muitos anos, a veracidade do Periplus foi alvo de crticas contundentes.
De incio, constatou-se que os navios antigos que se arriscavam alm do cabo
Juby, expostos, na viagem de retorno,  presso dos fortes ventos alsios, jamais
poderiam retornar  sua base6. Tal fato limitou, portanto, o percurso geogrfico
da viagem de Hano  costa atlntica do Marrocos, onde trabalhos arqueolgicos
recentes associaram a antiga ilha de Cerna  ilha de Essaura -Mogador7.
Ademais, um mtodo sutil de comparaes filolgicas tende a mostrar que


5     BERTHELOT, A. 1931.
6     MAUNY, R. 1954. pp. 503-8; tese retomada nas Mmoires IFAN (1961, pp. 95-101).
7     JODIN, A. 1966.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                   567



a narrativa do Periplus  simplesmente um plgio inbil de uma passagem de
Herdoto, portanto, uma falsificao integral8.
    Segunda vtima: o texto de Plnio que relata o raid de Cornlio Balbo.
A anlise dos manuscritos possibilita refutar sistematicamente qualquer
identificao toponmica com as regies do Saara central e meridional. Portanto,
a vitria romana atingiu apenas o sul do Magreb e do Fezzan9. Alm disso, um
procnsul, cuja funo durava apenas um ano, dificilmente teria ido mais longe.
    Finalmente, a Geografia de Ptolomeu, obra de peso, mostra-se particularmente
limitada em relao s fronteiras territoriais. Suas longitudes e latitudes, calculadas
de acordo com os critrios da Antiguidade, bem como as montanhas, rios,
cidades e tribos mencionadas remetem-nos aos confins meridionais do Magreb,
sendo o Nger, por exemplo, apenas um curso de gua do sul da Arglia. Assim,
o Fezzan seria a regio mais meridional conhecida pelos romanos; o problema
de Agisymba, nas fronteiras das terrae incognitae, continua em suspenso10.
    Os resultados dessas experincias modernas de crtica textual so muito
interessantes, mas se interrompem, na cronologia geral, no incio do sculo II
da Era Crist. Nenhuma obra geogrfica posterior a essa data chegou at ns.
Atualmente existem indcios arqueolgicos de que nos sculos III e IV objetos
de origem romana atingiram regies bem mais longnquas no interior do deserto.
Os conhecimentos geogrficos da Antiguidade devem ter-se aperfeioado, e
podemos estar certos de que a documentao romana no ignorava mais,  essa
poca, a existncia de zonas midas para alm do grande deserto.
    Livre, assim, de condicionamentos textuais por vezes incmodos, o Saara da
Antiguidade pode agora exprimir-se por si prprio.
    Quais foram seus quadros ecolgico, antropolgico e sociolgico? Que
vestgios arqueolgicos nos revelou?

     O problema ecolgico
   A nvel paleoclimtico, sabe-se que o Saara atingiu, na poca considerada, a
fase final de seu dessecamento11.  preciso, contudo, nuanar essa situao: ilhas
de resistncia, principalmente as regies montanhosas e os grandes vales, ainda


8    GERMAIN, G. 1957. pp. 207-48. A autenticidade da obra  sustentada ainda por G. CHARLES-
     -PICARD (1968. pp. 27-31).
9    DESANGES, J. 1957. pp. 5-43.
10   MAUNY, R. 1947. pp. 241-93, com um excelente mapa; DESANGES, J. 1962.
11   DUBIEF, J. 1963; FURON, R. 1972.
568                                                                                            frica Antiga



conservavam umidade suficiente para permitir uma vida bem mais intensa do
que em nossos dias. O Hoggar, o Fezzan, o Tibesti e o Saara setentrional tambm
ofereciam boas condies de habitao, o que pode explicar a sobrevivncia de
uma fauna selvagem, extinta atualmente: crocodilos nos uedes e gueltas (fontes
permanentes) e felinos nas zonas montanhosas;  duvidoso, contudo, que os
grandes herbvoros, como o elefante ou o rinoceronte, pudessem ter vivido
aqum do Tibesti ou mesmo da regio de Kuar, isto , a margem setentrional
das grandes savanas tropicais do Chade, onde, naturalmente, eram numerosos12.
   Os animais domsticos   exceo do camelo, de que falaremos mais adiante
 sobreviviam com os homens nas zonas-refgio de habitao;  o caso de certas
raas de bovinos, de caprinos e ovinos.  curioso constatar que o burro, animal
usado em todos os servios nos osis saarianos, praticamente no ocupa lugar
nas representaes rupestres.

      O problema antropolgico
   Por falta de critrios cientficos, a literatura da Antiguidade quase sempre
qualificava de "etopes" o conjunto dos povos do interior da frica. No se
pode responsabilizar os escritores antigos por isso: nem sempre os prprios
antroplogos e historiadores modernos analisaram devidamente o problema
(os critrios de negritude eram mal definidos)13; durante muito tempo sups-se
que a presena de uma populao branca no Saara no passava de fenmeno
recente, uma conquista regular, resultado da expulso dos berberes das estepes
magrebianas pelos romanos14.
   Nesse domnio a situao tambm est se esclarecendo, graas aos trabalhos
recentes realizados no Fezzan e na Arglia saariana. Atualmente se considera
que durante o perodo proto-histrico  do qual a Antiguidade foi o estgio final
 o Saara central e meridional era povoado predominantemente por: "elementos
brancos altos, de aspecto mediterrnico [...] de grande volume craniano [...]
rosto mais ou menos longo e estreito [...] membros delgados", caractersticas
morfolgicas idnticas s dos Tuaregues modernos. Supe-se hoje em dia que
a origem desse tipo fsico deva ser procurada antes na direo nordeste do


12    MAUNY, R. 1956-b. pp. 246-79; cf. pp. 124-45.
13    Geralmente se traduz o grego aethiops por "homem de rosto bronzeado"; a questo foi abertamente
      discutida no simpsio "A frica Negra e o Mundo Mediterrnico na Antiguidade", realizado em Dacar,
      de 19 a 24 de janeiro de 1976; contudo as posies dos participantes no se alteraram substancialmente.
14    GSELL, S. 1926. pp. 149-66; uma anlise erudita de toda a literatura e iconografia da Antiguidade por
      SNOWDEN, F. M. 1970. 364 pp.; cf. DESANGES, 1. 1970. pp. 87-95; CRACCO-RUGGINI, L.
      1974. pp. 141-93.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                                569



continente africano15 que no Magreb. Quanto aos modernos Haratin dos osis
saarianos, seriam antes de tudo  apesar de alguma mestiagem  os descendentes
locais dos "etopes" sedentrios de Herdoto, que eram escravizados pelos ricos
Garamantes16. Poderemos saber mais sobre o assunto quando a tcnica de estudo
dos grupos sanguneos puder fornecer concluses definitivas17. Mas  provvel
que o Saara meridional, qualquer que fosse a magnitude de sua populao,
abrigasse apenas elementos negros originrios das savanas tropicais.

     A civilizao
   Na ausncia de uma cronologia absolutamente confivel, parece difcil avaliar
a priori o progresso da civilizao saariana na Antiguidade, principalmente
porque no se sabe ao certo se as diferentes zonas deste vasto territrio se
desevolveram uniformemente. A situao cultural do Saara no final do perodo
Neoltico18 constitui um bom ponto de partida para o estudo dessa questo; a
partir da, pode-se seguir a linha de evoluo em vrios campos.

     A lngua e a escrita
    Indiscutivelmente,  durante a Antiguidade que pela primeira vez encontramos
evidncia de um importante evento na histria da civilizao saariana: a presena
de uma lngua. Ela ainda  falada em nossos dias, profundamente modificada
em relao s suas origens longnquas. A lngua-me, pluridialetal, e que, por
convenincia,  denominada berbere, pertence ao tronco comum camito-semita,
do qual se destacou h muito tempo. Sua forma antiga, "lbia",  atestada por
inscries encontradas em todos os territrios da frica mediterrnica e nas
ilhas Canrias19. No h dvida de que a introduo dessa lngua no Saara
ocorreu no norte ou nordeste com a imigrao das populaes brancas. No
seria possvel datar o evento, mas a escrita saariana  denominada tifinagh ,


15   PACE, C. & S. 1951. pp. 443-504; ZOHRER, L. G. 1952-3. pp. 3-133; BRIGGS, L. C. 1957. pp. 195-9;
     CHAMLA, M. C. 1968. pp. 181-201, com uma anlise do esqueleto da "Rainha Tin Hinan", p. 114;
     DESANGES, J. 1975; id. 1976; id. 1977. Ver a utilizao da literatura rabe medieval para interpretar
     as origens tuaregue in HAMA, B. 1967.
16   CAMPS, G. 1969-a. pp. 11-17.
17 CABANNES, R. 1964.
18   A situao foi bem definida por G. CAMPS (1974-d. pp. 221-61, 320-41, 345-7).
19   GALAND, L. 1969. pp. 171-3 bibliografia geral; crnicas anuais do mesmo autor: 1965 -70;
     APPLEGATE, J. R. 1970. pp. 586-661; BYNON, J. 1970. pp. 64-77; CHAKER, S. 1973; GALAND,
     L. 1974. pp. 131-53; CAMPS, G. 1975.
570                                                                              frica Antiga



derivada do alfabeto lbio do Magreb,  um fenmeno bastante recente. Ao que
parece, no existem provas da existncia da escrita lbia anteriores ao sculo III
ou II antes da Era Crist nos territrios setentrionais; admite-se que os berberes
chegaram a escrever sua lngua sob a influncia cartaginesa. A prpria palavra
"Tifinagh"  "Tifinar" na transliterao francesa  baseia-se na raiz FNR, que,
em todas as lnguas semitas, designa o povo fencio.
   No Saara, a escrita tifinagh distanciou-se gradualmente de sua forma
ancestral lbia, da qual o "tifinagh antigo" ainda se encontra razoavelmente
prximo. Assim,  preciso ter um cuidado especial na datao das representaes
rupestres denominadas "lbico-berberes" acompanhadas de caracteres escritos;
podem-se cometer erros muito graves. Alm disso, a lngua e o alfabeto berberes
tambm podem ter sido utilizados pelas populaes negras.

      A organizao sociopoltica
   Os condicionamentos climticos certamente restringiram o modo de
vida da maior parte das populaes saarianas ao nomadismo, com centros
de sedentarizao, como ocorreu com os primeiros conquistadores rabes.
A organizao tribal, inerente a seu estgio de evoluo, constitua a regra
poltica bsica20, mas ocasionava incessantes guerras, relatadas com preciso por
Herdoto e ptolomeu.
   Contudo, possumos dados mais precisos para duas regies: o Hoggar e o
Fezzan.
   No Hoggar, na segunda metade do sculo IV da Era Crist, a pirmide
sociopoltica tinha em seu topo uma mulher. A descoberta do tmulo dessa
soberana, intacto, em Abalessa, evocou imediatamente a associao com a
lenda local de uma rainha, Tin Hinan, vinda do Tafilet marroquino em tempos
remotos, que foi a ancestral do povo tuaregue. Tin Hinan ser, pois, seu nome
para a eternidade21. No mundo berbere houve numerosos exemplos de atribuio
do poder supremo a uma mulher santificada; seja como for, a sociedade tuaregue
denota uma atitude liberal em relao s mulheres. A moblia funerria dessa
"princesa"  sete braceletes de ouro, oito de prata e muitas outras joias  pode ser
datada de maneira aproximada atravs da impresso de uma moeda romana do
imperador Constantino, que remonta aos anos +313 a +324. A cama de madeira


20    CAPOT-REY, R. 1953. pp. 204-367.
21    REYGASSE, M. 1950. pp. 88-108; LHOTE, H. 1955; CAMPS, G. 1965. pp. 65-83; 1974-c; GAST,
      M. 1972. pp. 395-400.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                        571



em que repousava o corpo foi submetida ao teste de radiocarbono, revelando
a data de +470 (130). Como veremos, no se pode explicar a riqueza dessa
dignitria apenas por sua situao privilegiada tanto na hierarquia social como
no comrcio transaariano.
    O vale estreito e frtil situado entre os ergs Ubari e Murzuq abrigava uma
srie de osis de El Abiod a Tin Abunda. Garama, atualmente Germa, era a
cidade principal. A partir de sua guarida, os Garamantes no tardaram a exercer
supremacia sobre todo o Fezzan (antiga Phazania) e a arrecadar tributos de
numerosas tribos nmades e sedentrias dos arredores. Essa grande entidade
regional, o "reino dos Garamantes" da literatura greco-latina, aparece como o
nico Estado organizado do interior da frica ao sul das possesses cartaginesas
(posteriormente romanas). O prestgio e a riqueza dessa civilizao, confirmados
pela arqueologia, conferiram-lhe grande renome em nossos dias; fala-se da
"civilizao garamante" nos mais diversos domnios. Tratava-se, provavelmente,
de uma organizao hierrquica de tribos que, segundo os critrios sociopolticos
berberes, culminava na autoridade de um agueklid supremo. Os Garamantes,
mencionados por Herdoto desde o sculo V antes da Era Crist, opuseram-se
ao avano romano nos limites meridionais do Magreb. Derrotados por Cornlio
Balbo em -19 e depois, definitivamente, pelo legado Valrio Festo em +69,
vieram a se tornar, ao que parece, um tipo de Estado-cliente do Imprio. As
pesquisas arqueolgicas efetuadas em Garama e arredores revelaram quase dez
sculos de uma civilizao em parte fundada nas relaes exteriores  desde a
ltima poca pnica (sculo II antes da Era Crist) at a chegada dos rabes
(sculo VII da Era Crist)22.
     portanto, incontestvel que durante a Antiguidade, no Hoggar e no Fezzan,
bem como em todo o Saara setentrional, no Tassili n'Ajjer durante seu ltimo
perodo, e talvez mesmo no Adrar des Iforas, o poder poltico supremo estivesse
nas mos de uma aristocracia de raa branca (ou ligeiramente mestiada) armada
de lanas, punhais e espadas, vestida com trajes guerreiros, montada em carros
de parada, caando e guerreando, em detrimento de grupos negros ou negroides
mantidos em estado de sujeio. Na falta de documentos,  impossvel dizer se
um fenmeno idntico se processava no Saara limtrofe das savanas ngero-
-chadianas; de qualquer modo,  pouco provvel que a influncia branca tenha
atingido essas regies.



22   PACE. C. & S. 1951; AYOUB. S. 1962; id. 1967-a: id. 1967-b. pp. 213-9: DANIELS. C. M. 1968-b.
     pp. 113-94; FLEISCHHACKER, H. von. 1969. pp. 12-53; DANIELS, C. M. 1972-3. pp. 35-40.
572                             frica Antiga




figura 20.1 Esqueleto da
"rainha Tin Hinan".
Figura 20.2 Bracelete de ouro
da "rainha Tin Hinan". (Fotos
P. Salama, Museu do Bardo,
Tunsia.)
O Saara durante a Antiguidade clssica                                        573



   Quanto  religio, no h dvida de que todo o Saara central e meridional
continuou animista. J os povos do Saara setentrional, em contato direto com
o mundo mediterrnico, teriam se convertido ao cristianismo no final da
Antiguidade. Um autor clssico afirma categoricamente que os Garamantes
e os Makuritas foram evangelizados no fim do sculo VI23, fato ainda no
confirmado pela arqueologia.

     A arte saariana na Antiguidade
    Os mais belos monumentos de Germa, em grande parte funerrios, carecem,
at certo ponto, de originalidade, denotando forte influncia romana. A
personalidade saariana pode ser melhor apreciada em outras reas.
    Vrios monumentos funerrios conhecidos como "pr-islmicos" datam
da Era Crist. No grande edifcio de Abalessa, preservado no Hoggar, h um
deambulatrio de arquitetura caracteristicamente africana a rodear o tmulo
de Tin Hinan24. Em Tin Alkoum, na extremidade sudeste do Tassili n'Ajjer,
uma srie de tmulos circulares de manufatura saariana tradicional podem ser
datados atravs de um mobilirio funerrio romano do sculo IV, particularidade
presente tambm na necrpole vizinha de Ghat25.
    Embora no possam ser datados com preciso, os monumentos funerrios
ou de culto, em pedra insossa encontrados no Tassili e no Hoggar  pavimentos
lajeados, recintos circulares, bazinas, "buracos de fechaduras"  escalonam-se no
tempo at o momento em que o Isl os substituiu por tmulos planos e simples
estelas. As origens estilsticas dos mais originais, os de Fadroun, devem ser
procuradas no Fezzan e na rea ao longo das fronteiras do Egito.
    Na necrpole de Djorf Torba, perto de Bchar (Saara do noroeste) 
infelizmente devastada pelos turistas  podiam-se encontrar no interior dos
edifcios curiosos ex-votos figurativos, lajes planas, gravadas ou pintadas,
algumas com inscries lbias, desenhos de cavalos ou figuras humanas, de
estilo semelhante ao da Antiguidade Tardia do Magreb, ainda desprovidos de
elementos islmicos.
     mais difcil datar os grandes crculos de monlitos eretos (cromlechs)
encontrados no Hoggar (talvez j fossem muulmanos) e, principalmente, os
de Gona Orka e Enneri-Mokto, a oeste do Tibesti. A meu ver,  intil procurar


23   DESANGES, J. 1962. pp. 96 e 257.
24   CAMPS, G. 1961; id. 1965, passim.
25   LESCHI, L. 1945. pp. 183-6; PACE, C. & S. 1951. pp. 120-440.
574                                                                                        frica Antiga



influncias estrangeiras; uma vez que a construo de menires, funerrios ou de
culto,  comum a todas as civilizaes arcaicas. Nesse aspecto, no h nada no
Saara que se iguale ao stio de Tondidarou, perto de Niafunk, 150 km a sudeste
de Tombuctu26.
    Mas a arte saariana mais importante deve ser procurada sobretudo nas
figuraes rupestres. De acordo com a classificao tradicional dos especialistas
em pr-histria, a Antiguidade corresponde ao penltimo estgio da arte rupestre,
o lbico-berbere, perodo que se segue  era "equidiana" e precede o "rabe-
-berbere"27. Embora essa sequncia esteja correta, faltam-lhe bases cronolgicas,
e a datao do perodo lbico-berbere entre -200 e +700 ainda  precria. A
presena de caracteres tifinagh antigos talvez seja o critrio menos incerto,
embora esse tipo de escrita tenha sido utilizado at a poca muulmana. Dado
que o cavalo e o veculo com rodas ainda coexistiam,  muito difcil diferenci-
-los cronologicamente. Os carros de guerra a pleno galope representados no
Fezzan e no Tassili enquadram-se numa tradio egipcianizante que remontaria
ao sculo XIV antes da Era Crist, ou numa tradio greco-cirenaica assimilada
inicialmente por volta do sculo VI? Desenhos de camelos aparecem em quase
todas as regies saarianas, mas  igualmente difcil avaliar-lhes a idade. 
provvel que apenas alguns deles se adaptem ao nosso quadro histrico de
referncia. As representaes lbico-berberes  resduo das admirveis obras
neolticas, de que assimilaram as tradies  provam o vigor da arte figurativa
do Saara no momento em que ela estava se extinguindo nos territrios do norte.

      Vida econmica, comunicaes internas e relaes exteriores
   Desde tempos imemoriais a vida econmica do Saara esteve ligada ao
problema das comunicaes. Assim, no que diz respeito  Antiguidade clssica,
o enriquecimento de certas regies como o Fezzan est relacionado  sua esfera
de influncia, o que pressupe a existncia de um trfico de certa importncia.
Como sabemos que o comrcio interno j era limitado, devemos procurar a causa
da prosperidade dessas reas nas suas relaes com o mundo exterior.



26    SAVARY, J. P. 1966. Quase nada se tem escrito sobre as estelas figuradas de Djorf Torba; REYGASSE,
      M. 1950. p. 104 e 107-8; informaes complementares gentilmente fornecidas por L. BALOUT. Sobre
      os meglitos erigidos no Tibesti: HUARD, P. & MASSIP, J. M. 1967. pp. 1-27; sobre Tondidarou:
      MAUNY, R. 1970. pp. 133-7.
27    Classificao geralmente adotada (BREUIL, GRAZIOSI, HUARD, LHOTE, etc.); cf. MAUNY, R.
      1954. Contra: MATRE, J. P. 1976. pp. 759-83.
O Saara durante a Antiguidade clssica                    575




figura 20.3 O tmulo da "rainha Tin Hinan" em Abalessa:
a. Entrada principal;
b. Lajes usadas para cobrir o fosso. (Fotos P. Salama.)
576                                                                                           frica Antiga



    Essa nova situao divergia radicalmente daquela que caracterizava o Saara
mido das pocas pr-histricas.
    Mas como estudar o problema em seu conjunto? Para avaliar o papel
econmico de um territrio e sua influncia, possumos um critrio bastante
seguro: basta examinar o material arqueolgico exumado nas regies limtrofes.
Assim, moedas romanas em quantidades considerveis foram descobertas
na Escandinvia e na Europa norte-oriental  ou seja, por toda a periferia
setentrional do mundo clssico  e, ainda mais longe, nas margens do Indo e
do Vietn, o que atesta a vasta rea abrangida pelo comrcio exterior de Roma.
Mas o que se pode aprender com a regio com que estamos lidando? Na medida
em que nos afastamos da frica do Norte propriamente dita, a quantidade de
material arqueolgico romano diminui at desaparecer totalmente no Saara
meridional. At agora, nenhum vestgio dessa natureza foi encontrado nas
savanas ngero-chadianas28, o que sugere uma virtual ausncia de contatos entre
os mundos romano e negro-africano durante a Antiguidade clssica.
    Um tal ponto de vista certamente no  inflexvel: a pesquisa arqueolgica
futura poder fornecer novas informaes; no entanto, a incerteza estar sempre
presente.
    Os autores da Antiguidade fazem escassas referncias a produes
saarianas, e a arqueologia confirma esse vazio. Alguns textos gregos ou latinos
mencionam os carbnculos e as calcednias, pedras preciosas provenientes
dos territrios dos Garamantes, dos Trogloditas ou dos Nasamones, situados
ao sul da Lbia atual. E possvel que a se encontrassem tambm amazonitas,
de que se descobriu um depsito em Egusi Zumma no macio de Dohone, a
nordeste do Tibesti29.
    A captura de animais selvagens foi, em minha opinio, a principal fonte de
renda do territrio. E claro que quela poca a frica do Norte ainda abrigava
muitos lees e tigres, antlopes e avestruzes; no entanto, a demanda de Roma
era tal que a caa teve de se estender para o interior da frica. Dispe-se de
estatsticas significativas sobre a questo: na inaugurao do anfiteatro flaviano
em Roma no final do sculo I foram combatidos 9 mil animais; o imperador
Trajano, no ano de seu triunfo (106), exps 11 mil. A maior parte desses animais
era "libycae" ou "africanae", isto , exportada da frica do Norte30. Nesse inventrio,


28    LEBEUF, J.-P. 1970, com um importante comentrio cientfico e bibliogrfico. Certas regies da frica
      tropical j possuam h muito tempo sua prpria cultura (civilizao de Nok na Nigria setentrional):
      MAUNY, R. 1970. pp. 131-3; KI-ZERBO, J. 1972. pp. 89-90.
29    MONOD, T. 1948. pp. 151-4; id. 1974. pp. 51-66. Pedras idnticas existiam tambm no vale do Nilo.
30    JENNISON, G. 1937; AYMARD, J. 1951; TOYNBEE, J. M. C. 1973.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                              577



elefantes e rinocerontes vinham das zonas saarianas mais meridionais ou mesmo
do Chade e do Bahr el-Ghazal31. O marfim devia ter alguma importncia no
comrcio transaariano, visto que o elefante desapareceu quase totalmente da
frica do Norte desde o sculo II da Era Crist. No se deve esquecer, contudo,
que a Nbia tambm forneceu a Roma um contingente de animais selvagens.
      pouco provvel que tenha existido um trfico de escravos negros com a
Europa; o mundo romano ocidental no os procurava.
     Com frequncia se enfatizou que os comboios de ouro em p originrios
do Mali e do golfo da Guin abasteciam o mercado europeu, prefigurando a
situao comercial da Idade Mdia32. Tal opinio  apenas hipottica: possumos
os inventrios de todas as regies produtoras de ouro s pocas romana e
bizantina, e a frica nunca foi citada. No entanto, pode-se perfeitamente supor
a existncia de um trfico aurfero mais ou menos secreto entre o Senegal e o sul
do Marrocos, regio produtora de ouro bastante isolada das fronteiras romanas,
uma vez que os rabes estabeleceram um contato extremamente rpido com esse
mercado a partir de 734.
     Essas poucas relaes comerciais, ainda mal conhecidas, questionam a
utilizao das rotas saarianas. Aqui, novamente,  necessrio agir com prudncia.
Os nicos elementos de que dispomos para uma tentativa de reconstituio
dessa rede de caminhos so certos locais onde desembocam vias naturais (como
Gadames ou a Phazania), a disperso territorial dos objetos romanos no Saara
e, finalmente, a comparao com as rotas de caravanas anteriores ou posteriores
ao perodo considerado. Apenas as duas ltimas questes apresentam alguma
dificuldade.
      claro que a descoberta de um objeto romano isolado, principalmente uma
moeda, , em si, pouco convincente; as populaes saarianas setentrionais ainda
usavam moedas romanas no sculo XIX33. Mas no momento em que os pontos
de descoberta desses mesmos objetos se ordenam no espao e indicam, com
boa probabilidade, uma rota de caravana conhecida atravs de outras fontes  a
cermica encontrada nos tmulos, por exemplo ,  vlido consider-los. A rea

31   MAUNY, R. 1956-b. Em Leptis Magna, capital porturia da Tripolitnia, o totem da cidade era de fato
     um elefante: MAUNY, R. 1940. pp. 67-86. DESANGES, J. 1964. pp. 713-15: moedas do imperador
     Domiciano, contemporneas do anfiteatro flaviano e representando rinocerontes bicornes africanos.
     Sugeriu-se que a palavra Agisymba pode estar relacionada a Azbin, denominao local do macio do
     Air, mas no  certo que  poca os rinocerontes ainda podiam sobreviver nessa parte do Saara. Alm
     disso,  possvel que os nomes Agisymba e Azbin possam ter correspondentes fonticos espalhados por
     uma grande rea geogrfica.
32 CARCONNO J. 1948.
33   MAUNY, R. 1956-a. pp. 249-61.
578                                                                                    frica Antiga



de disperso dessas provas mostra que a civilizao garamante, dependente das
relaes com Roma, estendeu sua influncia a centenas de quilmetros. Convm
salientar que tal influncia era inteiramente garamante e no romana, embora
constitusse um foco secundrio de disperso de objetos romanos.  aqui que
a personalidade saariana antiga se afirma com maior veemncia: as populaes
locais mantinham relaes bastante estreitas, qualquer que tenha sido a causa
inicial de sua aproximao  muito provavelmente, a busca de mercadorias
destinadas ao comrcio com Roma: Nesse contexto, a moblia funerria de Tin
Hinan  sintomtica: pode ser vista como um conjunto de objetos exticos
colecionados por um chefe local, que, com certeza, cobrava uma taxa dos povos
que atravessavam seu territrio. Os Tuaregues de pocas posteriores adotaram
o mesmo costume.
    Ao que parece, as rotas saarianas de longo curso orientavam-se principalmente
na direo norte e nordeste. Desse modo, os Garamantes e seus satlites teriam
drenado o comrcio para a zona do Fezzan. A partir da, itinerrios bem atestados
conduziam aos grandes portos srticos (Sabrata, Oea e Leptis Magna), cidades
muito ricas a partir da poca pnica. De Garama tambm se podia chegar ao
vale do Nilo por uma rota setentrional que atravessava os osis de Zuila, Zela,
Aujila e Siwa  j conhecidos pelos autores antigos , ou ento por um trajeto
mais meridional, onde Kifra desempenhava o papel de encruzilhada 34. Nessas
regies orientais do Saara deparamo-nos inevitavelmente com o velho problema
das comunicaes neolticas e proto-histricas, em que o Tibesti constitua um
ponto de parada regular35. Mas parece que as relaes com o Egito helenstico,
depois romano, declinaram e que o comrcio se deslocou cada vez mais para a
costa mediterrnica36.
     tambm no Saara oriental, provavelmente, que devemos procurar o
caminho da introduo do ferro no mundo negro, j que este fenmeno no
ocorreu de maneira autnoma. O problema da passagem da Idade da Pedra para
a Idade dos Metais nas regies saarianas e nigerianas  transio que certamente
ocorreu no perodo considerado   de enorme importncia. Tambm nesse
caso no h uniformidade geogrfica. Numa mesma regio  a Mauritnia, por
exemplo  constata-se a existncia simultnea de implementos de pedra e metal
durante os ltimos sculos que precedem a Era Crist: em Zemeilet Barka,
Hassi Bernous e Uadi Zegag foram encontrados utenslios lticos, (datao de

34    LECLANT, J. 1950-b; LAW, R. C. 1967. pp. 181-200; REBUFFAT, R. 1970. pp. 1-20.
35    BECK, P. & HUARD, P. 1969. GOSTYNSKI, T. 1975. pp. 473-588.
36    UNESCO. 1963-7; CAMPS, G. 1978.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                                            579




figura 20.4 Tipos "garamantes" num mosaico romano de Zliten, Tripolitnia. Em geral se interpreta esta
cena  em que prisioneiros so lanados s feras  como um eplogo do esmagamento dos Garamantes pelos
romanos em +69. (Foto P. Salama, Museu de Trpoli.)
580                                                                                       frica Antiga



artigos acessrios com carbono 14) enquanto na rea de Akjujit h indcios da
metalurgia do cobre37. Nesse ltimo stio  possvel que tenha havido influncia
da indstria do Sous (sul marroquino), que lhe era, talvez, anterior; contudo,
no se deve recusar a hiptese da emergncia puramente local da metalurgia,
pelo menos do ouro e do cobre.
    A questo da indstria do ferro, que exige o uso de temperaturas mais
elevadas e de tcnicas mais complexas, apresenta-se sob um aspecto diferente.
 preciso lembrar que a metalurgia do ferro levou vrios sculos para se
difundir do Cucaso at a Europa ocidental. O problema de sua apario no
mundo negro , pois, bastante controvertido: alguns acreditam tratar-se de uma
inveno autctone; outros, de uma interveno estrangeira. Os defensores
da segunda teoria acham-se ainda divididos: alguns supem uma influncia
mediterrnica, atravs do Saara central; outros remetem a origem dessa tcnica
ao pas de Kush, apontando como via de difuso a rota natural que liga o Nger
ao vale do Nilo atravs do Kordofan e do Darfur. Seja como for, dataes
obtidas por carbono 14 indicam que a metalurgia do ferro existia na rea do
Chade e na Nigria setentrional nos sculos II e I antes da Era Crist. No
se pode rejeitar a priori a hiptese de um desenvolvimento local da metalurgia
do ferro; se tal no ocorreu, contudo, foi provavelmente a civilizao merota a
responsvel pela transmisso dessa tcnica38, o que exclui uma difuso atravs
das rotas saarianas centrais.

      Uma revoluo do camelo?
    O estudo dos meios de transporte tambm pode ajudar-nos a localizar melhor
as rotas saarianas e atestar certas hipteses. Sabemos que o grande deserto foi
conquistado pelo cavalo, antes do camelo. Aqui, como em outros lugares, o perodo
"equidiano'' manifesta-se inicialmente pelo uso de carros. No sabemos quando
desapareceram, mas de acordo com Herdoto, os Garamantes ainda os utilizavam;
a arqueologia confirma esse testemunho. No Saara, as representaes de carros 
bastante diversificadas  so muito frequentes. Inventrios metdicos permitiram
propor a reconstituio cartogrfica das rotas transaarianas seguidas por esses



37    LAMBERT, N. 1970. pp. 43-62; CAMPS, G. 1974-d. pp. 322-3 e 343.
38    Avaliao geral com bibliografia em MAUNY, R. 1970. pp. 66-76; cf. LECLANT, J. 1956-b. pp. 83-91;
      DAVIDSON, B. 1959. pp. 62-7; HUARD, P. 1966. pp. 377-404; CORNEVIN, R. 1967. pp. 453-4.
O Saara durante a Antiguidade clssica                     581




figuras 20.5 e 20.6 A avaliao da idade das
pinturas rupestres baseia-se em critrios de estilo e de
ptina. Para os perodos tardios, contudo, a datao 
difcil. Esses dois exemplos, provenientes da regio
de Sefar (Tassili n'Ajjer), parecem pertencer ao
perodo "lbico-berbere". Na realidade, as inscries
em "tifinar antigo" mostram os nomes islmicos de
Hakim e Maom. (Fotos M. Gast.)
582                                                                                               frica Antiga



veculos39. Sem exagerar a importncia desses indcios, devemos reconhecer que, 
exceo do itinerrio ocidental, paralelo ao litoral atlntico, que no desempenha
um papel ativo em nossas fontes clssicas, vrios itinerrios antigos, confirmados
por textos ou material arqueolgico, coincidem com essas famosas rotas proto-
-histricas. Deve-se acrescentar que qualquer trajeto saariano utilizado por cavalos,
atrelados ou no, requeria ou um sistema de bebedouros  que os Garamantes
haviam desenvolvido  ou o transporte de um grande suprimento de provises.
    Quanto ao camelo  trata-se mais exatamente do dromedrio, originrio do
Oriente Prximo , s aparece mais tarde na frica saariana. Esse evento foi
discutido ad infinitum40. Em realidade, a introduo desse animal no prprio
continente africano s ocorreu num perodo posterior. O camelo no  encontrado
no Egito at os perodos persa e helenstico (sculos V e IV antes da Era Crist),
sendo hiptese aceitvel que sua difuso no Saara tenha ocorrido a partir do baixo
vale do Nilo. O fato , ao que parece, de difcil datao; s dispomos, para tanto, de
desenhos rupestres lbico-berberes saarianos, de pouca utilidade para uma cronologia
rigorosa, e de um grande nmero de inscries e esculturas da frica do Norte
romana, todas aparentemente posteriores ao sculo II da Era Crist. Por outro lado,
um monumento grfico de Ostia (porto de Roma) que data dos ltimos trinta anos
do sculo I da Era Crist associa o elefante e o camelo aos espetculos de arena. Em
-46 Csar capturou 22 camelos do rei nmida Juba I, cujos domnios estendiam-se
at as fronteiras saarianas. Talvez ainda fossem animais raros. Mas se os camelos
importados por Roma 150 anos depois eram realmente africanos, j deviam, ento,
existir em nmero considervel no Saara (onde eram procurados para os jogos), visto
ainda no serem muito comuns no territrio do Magreb.
    Vale a pena lembrar a presena simblica de camelos nas famosas moedas romanas
ditas "spintrianas"  provavelmente cunhadas para o uso das cortess, j que os antigos
acreditavam que esses ruminantes possuam instintos lbricos excepcionais!


39    Bibliografia geral em MAUNY, R. 1970. pp. 61-5; LHOTE, H. 1970. pp. 83-5. Esses esboos no
      so suficientemente claros e detalhados  ou mesmo homogneos  para que se possa tirar concluses
      seguras. S  explcito o estilo garamante dos carros puxados por cavalos, encontrados apenas no Fezzan
      e no Tassili n'Ajjer. Alm do mais, parece tratar-se unicamente de veculos de parada, feitos de madeira
      e couro; de acordo com a reconstituio de SPRUYTTE, no pesavam mais de 30 kg, sendo, portanto,
      imprprios para o transporte de mercadorias (CAMPS, G. 1974-d. pp. 260-1; SPRUYTTE, J. 1977).
      No estou convencido de que o estilo desses carros garamantes se deva  influncia dos invasores
      cretenses que se perderam no deserto lbio por volta do fim do II milnio antes da Era Crist. As prprias
      rotas so problemticas: provavelmente eram simples orientaes de itinerrios; alguns escritores, que
      absolutamente no aceitam as teorias extravagantes segundo as quais os romanos eram capazes de atingir
      o Nger em seus carros (LHOTE, H. 1970), chegam a questionar sua existncia: CORNEVIN, R. 1967.
      p. 453, segundo P. HUARD; CAMPS, G. 1974-d. pp. 346-7.
40    COURTOIS, C. 1955. pp. 98-101; SCHAUENBURG, K. 1955-6. pp. 59-94; DEMOUGEOT, E.
      1960. pp. 209-47; LHOTE, H. 1967, pp. 57-89; KOLENOO, K. 1970-a. pp. 287-98.
O Saara durante a Antiguidade clssica                                          583



    Tendo a concordar com os historiadores que atribuem grande importncia 
difuso do uso de camelos no Saara. O animal, com patas flexveis adaptveis a
todos os terrenos, de uma frugalidade surpreendente graas ao lquido metablico
secretado por seu organismo, foi providencial para os nmades, numa poca em
que o processo de dessecamento do clima tornava inconveniente o uso do cavalo.
O emprego do camelo representava uma mobilidade maior para os indivduos e
para os grupos, vantagem h muito tempo reconhecida na Arbia. Acredita-se,
inclusive, que uma transformao do mtodo de arreamento, alterando a posio
da sela, permitiu adestrar os meharis, camelos de corrida e combate41.
    Durante muitos sculos, a difuso desses animais foi lenta, porm sistemtica, a
julgar pelo grande nmero de representaes rupestres "camelinas"  infelizmente
mal datadas  presentes em todas as regies do grande deserto, de tcnica
evidentemente muito posterior s belas representaes "equidianas". Embora
nenhum texto clssico mencione o fato, os Garamantes e seus vassalos sem
dvida terminaram por adotar a utilizao do camelo. A regularidade das relaes
comerciais desse povo com as zonas mais distantes foi provavelmente resultado
desse uso. Talvez no seja um mero acaso o fato de todo o material romano
encontrado na regio de Ghat e Abalessa pertencer ao sculo IV: nessa poca, a
Tripolitnia setentrional tambm abrigava um grande rebanho de camelos, do qual
as autoridades romanas normalmente podiam requisitar mil animais a expensas da
cidade de Leptis. O fornecimento de camelos tambm reforou consideravelmente
o potencial ofensivo dos nmades nos territrios romanos.

     A "poltica saariana" de Roma
    Devido  falta de documentos, no sabemos se a Cartago pnica se
alarmava com a presena de poderosas tribos em suas fronteiras meridionais.
As escavaes em Garama provam pelo menos que durante os sculos II e I
antes da Era Crist os portos da costa srtica, ento pertencentes ao reino da
Numdia, mantinham relaes comerciais com o Fezzan, de que em grande
parte dependia sua riqueza.
    A histria romana  mais conhecida. Em suas linhas principais, a poltica
latina pode ser resumida do seguinte modo: a ocupao das terras agrcolas do
Magreb necessitava de uma cobertura estratgica meridional. Nessas regies os
nmades saarianos eram um obstculo. Suas migraes sazonais no interior do
territrio colonizado, inevitveis porque essenciais  sua sobrevivncia, tinham


41   MONOD, T. 1967.
584                                                                                        frica Antiga



um lado til, na medida em que tornavam acessveis aos colonos os produtos
da estepe e do deserto; contudo, havia sempre o risco de conflito com as tribos
sedentrias. Mesmo os longnquos Garamantes pareciam perigosos, uma vez que
poderiam, a qualquer momento, reforar o potencial agressivo dos nmades. O
poderio desses povos constitua, por si s, um desafio.
    Durante quatro sculos  e principalmente no ltimo perodo  a histria
romana vem pontilhada de passagens em que os saarianos dos limites meridionais
da Tripolitnia e da Cirenaica, nmades condutores de camelos, como os
Asturianos, os Marmridas e sobretudo os Mzaces, chegam a inquietar a costa
lbia e os osis egpcios42. Pode-se, assim, julgar sua mobilidade e raio de ao.
    Para evitar esse duplo perigo, o primeiro passo da estratgia romana foi
interromper as comunicaes dos nmades com suas retaguardas, destruindo
rapidamente os Estados saarianos mais fortes. Os Nasamones e os Garamantes
foram completamente submetidos desde o incio do Alto Imprio. Da em diante o
fundamental era proteger o territrio colonizado atravs da organizao cuidadosa
de uma poderosa rede de fortalezas, rampas e linhas de comunicao (sculos II e
III), implantadas geograficamente em funo das vantagens do terreno. Isso explica
a configurao irregular do limes romano, que protegia, com um surpreendente
virtuosismo estratgico, todas as provncias da frica mediterrnica43. Desse modo,
o controle do nomadismo saariano setentrional parecia estar assegurado.
    No entanto, a pacificao foi apenas temporria. A partir do sculo IV,
intensifica-se o assdio dos nmades cameleiros s fronteiras, enfraquecendo,
dia aps dia, a resistncia das guarnies do limes.
    Sabemos o que ocorreu depois. No processo de evico de Roma, devido a
mltiplas causas, a "questo saariana" influiu de algum modo.
    Ainda que sejam incompletos, nossos conhecimentos sobre o Saara da
Antiguidade continuam positivos; vrios pontos so inquestionveis. O
dessecamento do clima no "matou" o deserto: a atividade humana se manteve.
As lnguas e a escrita se consolidaram. Com a difuso do camelo, diminuram
os problemas de transporte e comunicao. A regio participou  sua maneira
na histria dos grandes Estados mediterrnicos, assim como, talvez, a frica
tropical. Foi sem dvida nesse contexto evolutivo que o renascimento medieval
encontrou suas razes.


42    Literatura e epigrafia reunidas por: DESANGES, J. 1962; CRACCO-RUGGINI, L. 1974.
43    Sobre a questo dos contatos romano-saarianos em funo do limes: para a Mauritnia, ver SALAMA,
      P. 1953. pp. 231-51; id. 1955. pp. 329-67; id. 1976, pp. 579-95; para a Numdia: BARADES, J. 1949;
      para a Tripolitnia: VITA, A. di. 1964. pp. 65-98; REBUFFAT, R. 1972. pp. 319-39.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                585



                                        CAPTULO 21


       Introduo ao fim da Pr-Histria na
                frica subsaariana
                                             M. Posnansky




   Uma das principais concluses a que conduziram as recentes pesquisas
arqueolgicas realizadas na frica subsaariana  a de que povos em diferentes
estgios de desenvolvimento tecnolgico, vivendo em diversas partes da
frica, foram contemporneos entre si. A Idade da Pedra no teve ali um fim
uniforme, as tcnicas agrcolas foram adotadas em momentos diversos e muitas
das comunidades de que tratam os prximos captulos ainda viviam da caa
e da coleta em fins do I milnio da Era Crist, utilizando uma tecnologia
caracterstica da Idade da Pedra. Contudo, nenhuma sociedade se manteve
esttica, e, na maioria dos casos, estabeleceram-se contatos culturais muito
intensos, apesar das distncias por vezes considerveis. Paradoxalmente, esses
contatos ocorreram com maior intensidade atravs da barreira supostamente
impenetrvel do Saara, desempenhando um papel unificador na histria da
frica.  impossvel atribuir uma data precisa para o trmino do perodo
estudado, por se tratar de uma rea para a qual no dispomos de uma cronologia
acurada. Em geral as datas conhecidas, relativamente seguras, so fornecidas
pelo carbono 14, mas a margem de erro para o perodo em questo pode atingir
vrios sculos. Ao invs de procurar estabelecer uma data fixa para o fim do
perodo, os captulos sobre a frica subsaariana tratam essencialmente do que
em geral se denomina "Neoltico'" e o incio da Idade do Ferro. O perodo assim
definido termina por volta do ano -1000 na maior parte das regies. No passado,
586                                                                    frica Antiga



o termo "Neoltico" aplicado  frica subsaariana foi utilizado de maneira vaga
para designar um certo tipo de economia agrcola e/ou para distinguir conjuntos
de instrumentos que incluem utenslios cortantes em pedra polida ou lascada,
cermica e, frequentemente, ms ou moletas.
    As primeiras comunidades de agricultores no se caracterizavam
necessariamente pela utilizao de um mesmo conjunto de utenslios. Pesquisas
recentes efetuadas em vrias partes da frica demonstraram a grande resistncia ao
tempo dos utenslios em slex talhado; tais instrumentos surgiram primeiramente
entre os caadores-coletores de diversas regies da frica h mais de 7 mil ou 8
mil anos e peas anlogas provavelmente ainda eram utilizadas em certas partes
da bacia do Zaire (Ueliam) h menos de mil anos. Parece que os caadores-
-coletores, que viviam em contato com os seus vizinhos agricultores, tambm
utilizaram a cermica bem antes de se dedicarem, por sua vez,  agricultura.
As ms encontradas pela primeira vez nos stios do final da Idade da Pedra,
em diversas regies da frica, indicam o uso mais intensivo dos vegetais. Por
incio da Idade do Ferro entende-se o perodo durante o qual se utilizou de
maneira ininterrupta uma tecnologia baseada no ferro, em oposio ao emprego
ocasional de instrumentos do ferro. De maneira geral, o incio da Idade do Ferro
na frica subsaariana caracterizou-se pela emergncia de pequenos povoados,
relativamente dispersos, e no pelo desenvolvimento de Estados, que surgiriam
apenas no final desse perodo1.
    Infelizmente, sabemos muito pouco sobre o tipo fsico dos habitantes da
frica subsaariana.  certo que desde o X milnio antes da Era Crist existiam
na frica ocidental povos que apresentavam alguns traos fsicos semelhantes
aos dos atuais habitantes dessa rea (Iwo-Eleru na Nigria); so os chamados
"protonegros"2. Vestgios de esqueletos de negros tambm foram registrados
tanto no Saara como nos confins do Sahel e atribudos a perodos to remotos
como o V milnio antes da Era Crist3. Na frica meridional, os antepassados
dos atuais caadores-coletores Khoisan e dos pastores-criadores da Nambia e
do Botsuana (San e Khoi-khoi) eram maiores em estatura que seus descendentes
e certamente ocupavam regies to setentrionais quanto a Zmbia;  possvel
mesmo que tenham vivido nas margens do rio Semliki, no leste do Zaire.
Evidncias para esse fato so fornecidas pelos stios de Gwisho, na Zmbia,
onde o conjunto de utenslios e o regime alimentar que se pde inferir indicam

1     POSNANSKY, M. 1972-b. pp. 577-9.
2     BROTHWELL, E. W. & SHAW, T. 1971. pp. 221-7.
3     CHAMLA, M.-C. 1968.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                               587




figura 21.1 Hipteses da origem dos Bantu e do incio da metalurgia do ferro. (Mapa fornecido pelo autor.)




claramente que os povos em questo eram antepassados dos San, embora a
estatura mdia desse grupo de 4 mil anos fosse mais elevada do que a dos San
atuais que vivem nas cercanias ocidentais do Botsuana4. As escavaes efetuadas
principalmente no Rift Valley (Qunia) forneceram vestgios de esqueletos do VI

4    GABEL, C. 1965.
588                                                                                            frica Antiga



milnio antes da Era Crist. Na interpretao de Leakey (1936) estes esto mais
prximos de alguns dos tipos fsicos da zona etope do que das atuais populaes
de lngua bantu ou niltica. No entanto, esses estudos foram realizados h quase
meio sculo e uma nova avaliao j deveria ter sido empreendida. Os trabalhos
de biogentica de Singer e Weiner5 indicaram que os San e os negros esto mais
prximos entre si do que em relao a qualquer outro grupo exterior, o que
talvez indique serem eles os descendentes diretos dos habitantes originais da
frica na Idade da Pedra. Tambm ficou evidente a homogeneidade biolgica de
todas as populaes africanas desde a frica ocidental at a frica meridional.
Hiernaux6, em profunda e exaustiva anlise dos dados genticos existentes,
obtidos principalmente graas  expanso das pesquisas mdicas na frica,
enfatizou a natureza heterognea da maior parte das populaes africanas, o que
atesta a grande amplitude e durao dos contatos fsicos e culturais ocorridos
na rea subsaariana. Somente as regies remotas, como o habitat florestal dos
Pigmeus no Zaire ou o territrio dos San no Calaari, abrigavam populaes de
um tipo sensivelmente diferente; as razes dessas particularidades devem ser
buscadas no seu isolamento gentico. Em regies como os confins do Sahel,
os limites do nordeste da frica e Madagscar observam-se cruzamentos entre
populaes negras e etnias que se desenvolveram independentemente dos
povos do sul, como os malaio-polinsios, no caso de Madagscar, e os povos
aparentados aos da periferia do Mediterrneo ou do sudoeste da sia, instalados
no nordeste da frica e no Saara.


      A contribuio da lingustica
   Para se entender o incio da Idade do Ferro na frica subsaariana  essencial
o conhecimento da sua formao lingustica. A maioria dos arquelogos teve
que recorrer  lingustica para poder interpretar seus prprios dados. Duas
sries de eventos interessam-nos particularmente no perodo que estudamos.
Primeiramente, `a fragmentao da famlia das lnguas congo-kordofanianas,
para usar a terminologia de Greenberg7; e, em segundo lugar, a disperso das
etnias de lngua bantu, que constituem atualmente mais de 90% da populao
ao sul de uma linha que vai da baa de Biafra  costa da frica oriental na altura


5     SINGER, R. & WEINER, J. S. 1963. pp. 168-76
6     HIERNAUX, J. 1968-a.
7     Cf. KI-ZERBO, J., coord. Histria Geral da frica. So Paulo, Unesco/tica, 1982. v. I, Cap. 12.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                            589



de Malindi. Sabemos muito pouco acerca da primeira srie de eventos. Tudo
o que se pode dizer  que as lnguas kordofanianas so antigas, relativamente
numerosas, com frequncia faladas por grupos de efetivo reduzido ou mesmo
insignificante, sendo que cada grupo possui sua prpria lngua, diferente
da dos vizinhos. Todas so faladas na moderna provncia do Kordofan, na
Repblica do Sudo, concentrando-se principalmente em torno dos montes
Nuba. As lnguas kordofanianas divergiram grandemente das lnguas ngero-
-congolesas, ficando isoladas dos grupos lingusticos circunvizinhos. No
possumos nenhuma indicao til sobre o momento em que ocorreu a ciso
entre as lnguas kordofanianas e os dialetos ngero -congoleses da famlia
protocongo-kordofaniana; supe-se apenas que seja anterior ao X ou VIII
milnio antes da Era Crist.
    A fragmentao das lnguas ngero-congolesas pode estar relacionada 
expanso gradual dos povos que o lento dessecamento do Saara expulsou para
o sul do Sahel. Painter8 situou essa fragmentao entre -6000 e -3000, mas as
opinies divergem. Armstrong9 sugeriu que as lnguas da Nigria meridional j
estariam formadas h 10 mil anos, o que implicaria uma migrao para o sul em
data bem mais remota. Esses dois pontos de vista estariam corretos se alguns
grupos de lngua ngero-congolesa tivessem se separado do tronco principal e
posteriormente se isolado na floresta. Eles poderiam corresponder, no plano
lingustico, aos habitantes protonegros do Iwo-Eleru. Outras populaes de
lngua ngero-congolesa teriam abandonado o Sahel posteriormente, aps terem
adotado um modo de vida agrcola. Contudo, essa interpretao apresenta um
problema: ao que parece, os primeiros produtores de vveres do Saara foram
pastores e no agricultores. A sugesto de Sutton, no Captulo 2310, permitiria
contornar essa dificuldade, uma vez que existem provas de que os pastores
do Sahel possuam arpes e outros objetos associados s culturas aquticas.
Contudo, a divergncia lingustica no interior da famlia ngero-congolesa
parece estar relacionada ao isolamento geogrfico de diferentes grupos que
viviam principalmente da agricultura; esse isolamento teria ocorrido numa poca
suficientemente remota para que cada componente da famlia ngero-congolesa
pudesse ter adquirido uma grande especificidade lingustica.


8    PAINTER, C. 1966. pp. 58-66.
9    ARMSTRONG, R. G. 1964.
10   Cf. tambm SUITON, J. E. G. 1974. pp. 527-46. Sutton cr na possibilidade de um modo de vida
     aqutico ter-se generalizado numa poca de condies higromtricas e hidrogrficas timas, modo de
     vida de que teriam sido os agentes os povos nilo-saarianos primitivos.
590                                                                     frica Antiga



    Ao abordarmos as lnguas bantu, deparamos com uma situao diferente. As
lnguas bantu faladas na frica oriental, meridional e central  mais de 2 mil
 apresentam certos elementos de vocabulrio e um quadro estrutural comuns,
sendo, portanto, aparentadas. Tais semelhanas foram identificadas em 1862 por
Bleek, que as designou genericamente "bantu" (o termo bantu, cujo singular 
muntu, significa "homem", "pessoa"). J em 1889 Meinhof havia reconhecido
que as lnguas bantu eram aparentadas s da frica ocidental, conhecidas na
poca como lnguas sudanesas ocidentais. As diferenas entre as vrias lnguas
bantu nunca chegam a ser to grandes como as que existem entre as diversas
lnguas africanas ocidentais; a maior parte das estimativas situa tais variaes
h aproximadamente 2 mil ou 3 mil anos. Contudo, existem vrias teorias
lingusticas sobre a separao das lnguas bantu das outras lnguas africanas
ocidentais e em geral duas delas so mais aceitas. Joseph Greenberg11 abordou
o problema sob um ngulo macroscpico, estudando o conjunto das lnguas
africanas a partir de dados gramaticais e lexicais tirados de aproximadamente
oitocentas lnguas. Em cada uma delas, distinguiu uma mdia de duzentos
morfemas ou ncleos, que considerou como elementos bsicos do vocabulrio,
a saber, as palavras que uma me ensina a seu filho: os primeiros numerais, as
partes do corpo, as funes fisiolgicas (como dormir, comer, urinar, etc.) e os
componentes bsicos do universo fsico que cerca a criana (como a terra, a gua
e o fogo). A partir desses ncleos ele descobriu que as lnguas bantu esto mais
prximas das outras lnguas africanas ocidentais do que, por exemplo, o ingls
do protogermnico. Ele calculou que 42 % do vocabulrio das lnguas bantu 
encontrado nas lnguas africanas ocidentais mais prximas, em contraste com
apenas 34% dos vocbulos ingleses presentes no protogermnico  parentesco
que os linguistas sempre consideraram estreito. Concluiu ento que "o bantu
nem mesmo constitui uma subfamlia gentica nica [...] mas pertence a uma
das subfamlias [...] Benue-Cross ou semibantu"12. Desse modo, pde situar
com segurana a rea de origem do bantu na regio fronteiria entre a Nigria
e Camares.
    O professor Guthrie13 j falecido, trabalhou a nvel microlingustico, tendo-se
dedicado durante anos aos estudos comparativos do bantu, analisando cerca de
350 lnguas e dialetos. Ele isolou os radicais de palavras cognatas que tinham
o mesmo significado em, pelo menos, trs lnguas distintas. A partir das 2400

11    GREENBERG, J. H. 1963; id. 1972. pp. 189-216.
12    GREENBERG, J. H. 1963. p. 7.
13    GUTHRIE, M. 1967-71. pp. 20-49.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                        591



sries de radicais assim identificados, constatou que 23% eram "gerais", isto
, caracterizavam-se por uma grande difuso em toda a rea bantu, enquanto
61% eram "especficas" de uma rea mais restrita. Com base nas sries gerais,
ele estabeleceu um "ndice do bantu comum", que indicava a percentagem das
palavras "gerais" presentes em qualquer lngua bantu. As isoglossas (ou linhas que
unem os pontos correspondentes s percentagens idnticas ao bantu comum)
assim obtidas delimitavam uma zona nuclear  onde a taxa de presena era
superior a 50%  situada nas terras ervosas do sul da floresta do Zaire, regio
banhada pelos rios Zambeze e Zaire. Foi nessa rea nuclear que Guthrie sups
ter-se desenvolvido o protobantu, que a partir da se expandiu ou se fragmentou.
Ele tambm presumiu a existncia de dois dialetos protobantu, o bantu oriental e
o bantu ocidental, com um vocabulrio contendo mais de 60% de seus cognatos
especficos. Recorrendo a determinados vocbulos, procurou descobrir qual o
meio ambiente em que o protobantu era falado; constatou, ento, que as palavras
que significam "pescar com linha", "canoa", "remo" e "forjar" eram todas muito
comuns e que o termo correspondente a "floresta" em protobantu referia-se mais
a "bosque" que a "floresta densa".
    Assim, concluiu que os povos protobantu teriam conhecido a metalurgia
do ferro antes de se dispersarem, vivendo ao sul da floresta propriamente dita
e utilizando com frequncia as vias fluviais. Segundo o esquema de Guthrie, as
lnguas bantu do noroeste (rea original para Greenberg) no ultrapassavam 11%
- 18% em seu ndice do bantu comum; seriam, pois, descendentes longnquas do
protobantu e no antecessoras das lnguas bantu. Contudo, ele admite que, num
passado mais remoto, uma populao pr-bantu vivia na rea do Chari-Chade.
Oliver14 representou em diagrama a teoria de Guthrie e sups a existncia de
um pequeno grupo pr-bantu que utilizava barcos, que teria se deslocado atravs
da floresta para as terras ervosas do sul. Ali o grupo teria se multiplicado e
eventualmente se dispersado em todas as direes.
    Existe, assim, um consenso quanto  origem das lnguas bantu na frica
ocidental, mas no quanto ao centro de disperso imediato. Ehret15 e outros
linguistas so favorveis s teses de Greenberg, em seu conjunto, considerando que,
por razes especificamente lingusticas, a zona de maior diversidade lingustica
(neste caso, a rea situada a noroeste da regio bantu principal) deveria ser a de
povoao mais antiga. Ehret sugeriu tambm que as porcentagens dos radicais de
Guthrie fossem reavaliadas, na medida em que algumas delas deveriam ser mais

14   OLIVER, R. 1966. pp. 361-76.
15   EHRET, C. 1972. pp. 1-12.
592                                                                    frica Antiga



significativas que outras na determinao da rea originria do bantu. Apoiando-
-se parcialmente no vocabulrio de base atribudo aos primeiros falantes do
bantu, Ehret acredita que os Bantu primitivos teriam vivido na floresta antes de
-1000, dedicando-se  agricultura e  pesca. Dalby16, que diverge grandemente
de Greenberg quanto a certos detalhes, desenvolveu a teoria de um Cinturo
de Fragmentao (Fragmentation Belt) na frica ocidental, na regio onde se
encontram os Bantus. Fora dessa faixa verificar-se-ia uma certa uniformidade,
a contrastar com uma grande diversidade no interior. Tal fato seria indcio de
migraes que levaram  disperso dos falantes do ngero-congols e do bantu.
Os autores que se dispuseram a propor uma cronologia situaram a expanso
bantu entre 2 mil a 3 mil anos atrs, aceitando o fato de que  poca essa etnia
j conhecia o uso do ferro. Todos concordam que a expanso foi rpida, se no
mesmo explosiva.


      O papel da agricultura
    Antes de discutir a importncia do ferro no processo de disperso dos povos,
deve-se levar em conta um outro elemento, a agricultura. O assunto ser tratado
detalhadamente, em bases regionais, em captulos posteriores; aqui s sero
discutidos alguns traos gerais. Num captulo introdutrio como este, vale
mais proceder a generalizaes; para maiores detalhes, o leitor deve recorrer s
concluses do simpsio de 1972 sobre o incio da agricultura na frica17.
    A agricultura implica um certo controle de suprimento de vveres e um modo
de vida relativamente sedentrio em contraste com os deslocamentos constantes
dos caadores-coletores. Isso favorece o aumento do efetivo dos grupos e o
desenvolvimento de estruturas  sociais e depois polticas  mais complexas.
A agricultura  principalmente a cultura praticada em terras preparadas e a
horticultura  implica igualmente uma populao mais densa e um aumento
na cifra total de populao. Para a identificao das sociedades agrcolas, os
arquelogos recorrem a provas diretas e indiretas. As provas diretas podem
ser as sementes ou os gros, encontrados em estado carbonizado nos terrenos
escavados, ou provir da aplicao de tcnicas avanadas de pesquisa arqueolgica,
tais como a anlise de flutuao, a palinologia, que permite identificar os polens
fossilizados de plantas cultivadas, e a identificao das impresses dos gros


16    DALBY, D. 1970. pp. 147-71.
17    HARLAN, J. R. et al. 1976.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                                  593



na cermica. Entre as provas indiretas ou circunstanciais pode ser citada a
descoberta de instrumentos destinados ao cultivo,  colheita e  preparao de
alimentos vegetais. Infelizmente as condies climticas em quase toda a frica
subsaariana no favorecem a descoberta de grande parte das provas diretas.
Normalmente, as matrias orgnicas abandonadas se decompem num intervalo
de poucos dias. Os solos da maioria dos stios tropicais contm elementos
aerbios que impedem a conservao dos polens. Os stios onde se encontram
polens, como os pntanos e lagos de altitude elevada, esto muito distantes das
terras cultivveis para atestar a existncia da agricultura no passado18. Alm
disso, muitos dos alimentos vegetais consumidos na frica  como bananas,
inhames e outros tubrculos  no produzem polem.
    Um outro problema  que vrios utenslios e instrumentos agrcolas so de uso
incerto. Uma faca para descascar alimentos pode servir a outros propsitos; as ms
podem ser utilizadas para pulverizar o ocre das pinturas ou para socar e triturar os
alimentos no-cultivados, e geralmente so encontradas em muitos jazigos do fim
da Idade da Pedra. Muitos vegetais so cultivados com o auxlio de um basto, que
serve para revolver a terra sem danificar as razes. O alimento propriamente dito,
preparado a partir dessas plantas,  em geral socado em almofarizes de madeira,
que duram muito pouco tempo e tm reduzidas chances de sobrevivncia nos
solos das reas em que so utilizados. Desse modo, os arquelogos so obrigados
a buscar um apoio maior em provas circunstanciais para inferir a existncia
da agricultura: a presena de grandes povoaes, de habitaes aparentemente
durveis, a utilizao da cermica ou o uso regular de cemitrios. Como ficar
evidente no Captulo 26, os caadores-coletores da frica viviam por vezes em
grandes comunidades e frequentemente usavam a cermica; quando a pesca e
outras atividades especializadas de caa ou de coleta de alimentos eram bem-
-sucedidas, construam habitaes relativamente permanentes, como as do Cartum
antigo ou de Ishango, que remontam ao fim da Idade da Pedra. Assim, pode-se
constatar que, lamentavelmente, os elementos disponveis para desvendar a histria
das origens da agricultura na frica subsaariana so relativamente escassos e as
concluses, apenas conjeturais. Mas, com o tempo, e graas ao emprego de tcnicas
mais avanadas de reconstituio e  intensificao dos estudos de botnica e de



18   Contudo, h ocasies em que os estudos palinolgicos fornecem informaes valiosas.  o caso do caroo
     coletado na baa de Pilkinton (lago Vitria), que indicou uma mudana na vegetao entre 2 mil e 3
     mil anos atrs, quando as espcies silvestres foram substitudas por ervas; tal fato sugere uma derrubada
     extensiva posterior  chegada de populaes agrcolas (KENDALL, R. L. & LIVINGSTONE, D. A.
     1972. p. 380).
594                                                                     frica Antiga



palinologia sobre a filiao gentica e a distribuio das plantas cultivadas na
frica, ser possvel obter informaes mais substanciais.
    At o final dos anos 1950, era muito comum supor que o surgimento da
agricultura na maior parte da frica subsaariana foi um evento tardio, em
realidade contemporneo da introduo da tecnologia do ferro em quase todo
o continente,  exceo de algumas regies da frica ocidental. Essa inovao
proveniente do sudoeste da sia teria se generalizado, atingindo o vale do Nilo
e finalmente o restante da frica. Contudo, recentes descobertas no Saara e em
outros lugares indicam que a histria no  to linear. As prirneiras colocaes
contrrias ao ponto de vista tradicional sobre as origens da agricultura africana
foram as de Murdock19: esse autor afirmou que a rea de origem de grande parte
da agricultura africana situava-se na regio da frica ocidental que corresponde
 bacia superior do Nger e do Senegal no Futa Djalon. Embora no momento a
hiptese de Murdock no possa ser corroborada minuciosamente, fica evidente
que os inhames, uma certa variedade de arroz (Oryza glaberrima), o sorgo,
o dendezeiro e outros gneros menos importantes so originrios da frica
ocidental.
    Contudo, a principal questo  saber se o consumo desses vegetais na frica
ocidental indica o desenvolvimento precoce de uma agricultura independente
da praticada fora da frica. Alguns arquelogos20 defendem convictamente a
existncia de uma cultura de vegetais centrada no cultivo de inhames, mas h
fortes razes para se refutar as provas at agora apresentadas21.  evidente que
aldeias como Amekni existiam no Saara desde o VI milnio antes da Era Crist,
que as comunidades neolticas da floresta utilizavam o dend, a ervilha-de-vaca
e outros vveres locais desse tipo, e que o sorgo e certas variedades de pennisetum
(milhete), em estado selvagem, so muito difundidos nesse extenso cinturo de
zonas de vegetao da savana e do Sahel que se estende do Atlntico  Etipia.
Tambm  patente que a Etipia possua vrios gneros de primeira necessidade,
como o tef e outros cereais, assim como a bananeira selvagem no-frutfera (Musa
ensete), e que a agricultura se desenvolveu numa poca muito remota  pelo menos
desde o III milnio antes da Era Crist. Embora existam razes para se pensar que
a agricultura era conhecida no Sudo desde o IV milnio, a evidncia direta mais
antiga remonta ao II milnio em stios como Tichitt na Mauritnia e Kintampo



19    MURDOCK, G. P. 1959.
20    DAVIES, O. 1962. pp. 291-302.
21    POSNANSKY, M. 1969. pp. 101-7.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                       595



no norte de Gana22. A julgar pelo testemunho da arte rupestre23 o pastoreio pode
ter suas origens no VI milnio; encontraram-se vestgios de gado em vrios stios
sahelianos, com certeza pertencentes ao incio do IV milnio.
    Embora as origens, a poca e o modo de desenvolvimento da agricultura
africana sejam relativamente controversos, em geral se admite que,  exceo
de certas comunidades rigorosamente localizadas no Rift Valley do Qunia,
que teriam cultivado o milhete, o incio da agricultura, pelo menos na maioria
das regies da frica onde se fala o bantu,  contemporneo do surgimento da
metalurgia do ferro. Geralmente tambm se acredita que vrios dos primeiros
gneros alimentcios bsicos na frica bantu, como a banana frutfera, a
colocasia (inhame), a eleusine cultivada e o sorgo, foram introduzidos, em
ltima instncia, atravs da frica ocidental, ou ainda, no caso da banana,
indiretamente, pela sia do sudeste. O gado mais antigo  cronologicamente
anterior  Idade do Ferro, estando presente na frica oriental desde o incio
do I milnio antes da Era Crist; segundo a demonstrao de Parkington
no Captulo 26, parece que o carneiro j tinha se propagado para o sul, at
o Cabo (frica do Sul), por volta do incio do I milnio da Era Crist. 
possvel que a difuso do pastoreio esteja relacionada  disperso das culturas
aquticas descritas por Sutton no Captulo 23; cabe lembrar tambm que
Ehret24 fornece provas convincentes das interaes sociais atravs das quais se
processou a influncia das lnguas do Sudo central sobre as lnguas bantu. Ele
descreveu, por exemplo, como as palavras para "vaca" e os termos relacionados
s atividades de ordenha foram emprestados pelos Bantu de seus vizinhos do
Sudo central, ao mesmo tempo que provavelmente imitavam seus mtodos
de criao e ordenha. Com base nas diferenas lingusticas entre os falantes
do suposto proto-sudans central, Ehret25 infere que os criadores de gado
precederam os agricultores. Alm disso, o autor considera que essas interaes
podem ter ocorrido pela primeira vez por volta da metade do I milnio antes
da Era Crist. Ele sugere ainda26 que a rea em torno do lago Tanganica foi
estratgica para a disperso posterior do grupo oriental dos Protobantu, na
medida em que se trata de uma regio apropriada para a cultura do sorgo e



22   MUNSON, P. J. & FLIGHT, G. In: HARLAN, J. R. 1976.
23   MORI, F. 1972.
24   EHRET, C. 1967. pp. 1-17; id. 1973. pp. 1-71.
25   EHRET, C. 1973. p. 19.
26   EHRET, C. 1972. p. 14.
596                                                                    frica Antiga



da eleusine, bem como para a criao de gado. Ehret27 tambm indica que as
palavras protobantu para "enxada" e "sorgo" so derivadas das lnguas do Sudo
central, o que nos leva a considerar uma dupla eventualidade: a interao social
entre os povos nilo-saarianos e os ancestrais dos Bantu, e a difuso, para o
sul, da agricultura caracterizada pelo uso da enxada e da cultura do sorgo,
esta ltima ocorrendo principalmente na direo dos territrios ocupados
pelos Bantu. Embora possa ter havido uma certa expanso demogrfica, como
resultado desse desenvolvimento, em torno do I milnio antes da Era Crist, as
descobertas dos arquelogos, descritas nos captulos posteriores, mostram bem
que a expanso principal dos povos agricultores foi um fenmeno do I milnio
da Era Crist na maior parte da frica bantu.


      O Ferro
    Uma questo importante em qualquer discusso sobre a expanso inicial dos
povos agrcolas na frica austral  a da origem da difuso da metalurgia do ferro.
Quando se trata de limpar um terreno de moitas e arbustos ou de desbastar a
orla de florestas e bosques, a ferramenta de corte  o instrumento mais cmodo.
O homem da Idade da Pedra no possua tais utenslios e, embora o machado de
pedra afiado e polido das indstrias "neolticas" pudesse ser usado para derrubar
rvores ou, mais provavelmente, para trabalhar a madeira, no se tratava de uma
ferramenta verstil como, por exemplo, o atual alfanje de ferro ou panga. Na
frica subsaariana no houve Idade do Bronze. O uso do cobre foi atestado pela
primeira vez na Mauritnia; parece estar ligado  explorao de uma pequena
jazida do metal em torno de Akjujit por magrebianos ou por povos em contato
com as populaes da Idade do Bronze da frica do noroeste. O trabalho do
cobre data de um perodo entre os sculos IX e V antes da Era Crist 28 e,
portanto, precede de muito pouco os primeiros vestgios da metalurgia do ferro
atestados na frica ocidental  em Taruga, no planalto de Jos (Nigria) , que
remontam aos sculos V ou IV antes da Era Crist.
    Configurou-se uma especulao considervel (e neste caso  preciso insistir
no carter conjetural dos argumentos evocados, j que no existem, por assim
dizer, dados indiscutveis sobre os fornos e foles antigos) em torno da questo
das origens da metalurgia do ferro na frica. Diversas escolas de pensamento


27    EHRET, C. 1973. p. 5
28    LAMBERT, N. 1970.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                             597



propem esquemas, todos aceitveis, mas at agora nenhuma pde provar que
est correta. A mais antiga delas afirmava que a metalurgia do ferro teria se
difundido a partir do vale do Nilo, particularmente de Mroe, que Sayce29
batizou de "Birmingham da frica". Mais recentemente, Trigger30 indicou que
os objetos de ferro so relativamente raros na Nbia at -400 e que, mesmo
depois, s peas pequenas, como enfeites leves, caracterizam o perodo merota.
Tylecote31 afirmou categoricamente no haver o menor trao de fundio de
ferro em Mroe at 200 antes da Era Crist. Embora ocasionalmente tenham-se
encontrado objetos de ferro no Egito em jazigos mais antigos, possivelmente
obtidos pelo comrcio ou produzidos a partir do ferro meterico, esses no
tinham nenhuma importncia at o sculo VII antes da Era Crist32. Os objetos
de ferro meterico eram obtidos pelos mesmos mtodos em geral utilizados para
o trabalho da pedra33. Contudo, no existem provas irrefutveis de uma difuso
da metalurgia do ferro a partir do vale do Nilo para o oeste ou para o sul.
    Datando do sculo V, esse metal  encontrado na Etipia em vrios centros
axumitas, como Yeha, originrio, provavelmente, da Arbia do sul  fato
confirmado pela ornamentao dos ferros de marcar o gado , poderia tambm
provir de um dos portos do mar Vermelho da poca ptolomaica, como Adulis,
com os quais esses centros mantinham contato. Com base num forno encontrado
em Mroe, Williams34 lanou a hiptese de que o forno tpico consistiria em
uma cuba bastante estreita, onde circulava o ar emitido pelos foles. Ele deduziu
que a distribuio atualmente ampla desses fornos revela a importncia do vale
do Nilo como foco de disperso inicial. Por outro lado, encontram-se nas terras
altas do Borku-Ennedi-Tibesti, no Saara, gravuras e pinturas de guerreiros
armados de escudos e lanas, que foram chamadas "lbico-berberes", enquanto
outras seguramente apresentam afinidades com os estilos do vale do Nilo35.
No entanto, so muito poucas as pinturas desse tipo cuja datao seja segura,
e, quando  possvel dat-las, parecem posteriores aos materiais metalrgicos
mais antigos da Nigria.



29   SAYCE, E. A. 1912. pp. 53-65.
30   TRIGGER, B. G. 1969. pp. 23-50.
31   TYLECOTE, R. F. 1970. pp. 67-72.
32   Um ponto de vista diametralmente oposto pode ser encontrado em DIOP, C. A. 1973. pp. 532-47.
33   FORBES, R. J. 1950; id. 1954. pp. 572-99.
34   WILLIAMS, D. 1969. pp. 62-80.
35   HUARD, P. 1966. pp. 377-404.
598                                                                    frica Antiga



    A descoberta de stios que atestam a presena antiga da metalurgia do ferro
na Nigria concentrou a ateno dos especialistas na possibilidade de uma
origem norte-africana. Os fencios difundiram a tecnologia do ferro desde o
Levante at partes da costa da frica do Norte no incio do I milnio antes
da Era Crist. A distribuio geogrfica de pinturas e gravuras em que esto
representados carros com rodas puxados por cavalos  da costa da Tripolitnia
at o Mdio Nilo, passando pelo Tassili e o Hoggar, e das costas do Marrocos
at a Mauritnia   a indicao de que com certeza existiram contatos entre a
frica do Norte e o Saara, por volta da metade do I milnio antes da Era Crist.
Os carros e os cavalos so, indiscutivelmente, inovaes exteriores ao Saara;
Lhote36 chegou a sugerir que a postura dos cavalos a pleno galope evocava a rea
do Egeu. Connah37 deduziu que o ferro teria vindo do norte, na medida em que
sua metalurgia  tardia  por volta de +500 em Daima  nos arredores do lago
Chade, situado precisamente no corredor por onde chegariam as influncias do
vale do Nilo. Em caso contrrio, dever-se-iam encontrar os vestgios que atestam
a presena desse metal na regio do Chade numa data anterior  do planalto de
Jos. Outras datas relativamente antigas esto associadas  metalurgia do ferro em
Gana, Hani (130 80), e no Senegal. Naturalmente, pode-se tambm admitir
que a metalurgia do ferro tenha vindo da frica do Norte via Mauritnia na
esteira dos trabalhadores do cobre, espalhando-se em seguida pelo cinturo
sudans em direo ao oeste e ao sul (embora nesse caso as datas dos stios
do Senegal e da Mauritnia devessem ser anteriores s dos stios da Nigria).
Pode-se supor igualmente que a metalurgia do ferro tenha chegado  frica
tropical por uma multiplicidade de caminhos: um a partir do Magreb rumo 
Mauritnia, outro atravs do Saara rumo  Nigria, um terceiro atravs do mar
Vermelho em direo  Etipia, e outros, ainda, atravs da costa leste a partir da
rea do mar Vermelho, da ndia ou sia sudeste rumo  frica oriental.
    Recentemente sugeriu-se que a metalurgia do ferro pode ter-se originado
na prpria frica. C. A. Diop38  um adepto convicto dessa tese, retomada pelo
dr. Wai Andah no Captulo 24 do presente volume. O argumento principal
em favor de um desenvolvimento autctone  o fato de os arquelogos terem
recorrido durante muito tempo, em suas prospeces pela frica, ao modelo
mediterrnico de metalurgia do ferro, desconsiderando a possibilidade de esta
apresentar feies inteiramente diferentes no continente africano. A fundio

36    LHOTE, H. 1953. pp. 1138-228.
37    CONNAH, G. 1969-a. pp. 30-62.
38    DIOP, C. A. 1968. pp. 10-38.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                              599
figura 21.2    Jazidas de cobre e rotas de caravana atravs do Saara (segundo M. Posnansky, 1971).
600                                                                  frica Antiga



do ferro requer temperaturas elevadas  at 1150 C para transformar o minrio
em lingote, temperatura superior ao ponto de fuso do cobre (1100 C)  alm
de certos conhecimentos de qumica, j que o ferro  obtido adicionando-
-se carbono e oxignio ao minrio durante o processo de fuso. Aqueles que
argumentam a favor de uma origem nica da metalurgia do ferro afirmam
que tais conhecimentos especializados foram adquiridos por experimentao,
a partir da prtica da metalurgia do cobre e do cozimento da cermica em
fornos. Sustentam, ainda, que a cronologia vem corroborar essa hiptese, na
medida em que as provas da existncia da metalurgia do ferro so abundantes
na Anatlia desde o incio do II milnio antes da Era Crist, ao passo que
continuam raras fora da sia ocidental at a passagem do I milnio antes da
Era Crist. Os defensores de uma origem africana argumentam, por sua vez,
que o conhecimento da fundio do ferro pode ter decorrido da experincia
com o cozimento de cermica em covas e que os minrios dos lateritos africanos
so de tratamento mais simples que os minrios de rocha dura do Oriente
Mdio. Sugeriu-se ainda que, dado que vrios stios da frica ocidental onde,
em pocas remotas, se trabalhava o ferro  como os da cultura de Nok ou
os situados no Alto Volta  fornecem igualmente utenslios de pedra, deve-
-se considerar a possibilidade de a metalurgia do ferro ter sido praticada em
contextos do final da Idade da Pedra.
    Os fornos, aparentemente recentes, que esto sendo estudados pelo
arquelogo no Congo lamentavelmente no acrescentam nada de novo ao
assunto, e  provvel que jamais forneam vestgios do primeiro perodo de sua
utilizao. Contudo, descobertos e datados, poderiam eventualmente indicar
a rota do ferro entre o Shaba e o mar e algumas datas desse desenvolvimento
tardio.
    Infelizmente no  possvel provar de maneira cabal a validade de qualquer
uma das teorias relativas s origens da metalurgia do ferro. Nenhum dos stios
onde se encontraram fornos de fundio antigos d informaes suficientes
sobre a natureza destes e menos ainda sobre os tipos de foles empregados.
Pouqussimos stios com fornos foram escavados e  evidente que o quadro
de nossos conhecimentos continuar aproximativo at que a pesquisa tenha
progredido e que se descubram outros stios dessa natureza. Vastas regies
continuam inexploradas e, na medida em que os locais onde se fundia o ferro
frequentemente esto muito distantes dos stios habitados, s so detectados
por um feliz acaso. O advento do magnetmetro de prtons para prospeces
pode acelerar o ritmo das descobertas; contudo, uma das caractersticas dos
fornos do incio da Idade do Ferro  que dificilmente eles so reconstituveis.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                         601



No conjunto, o nmero de stios conhecidos no incio da Idade do Ferro 
ainda muito pequeno para se poder estabelecer, com alguma certeza, a poca
em que a metalurgia foi introduzida nas diversas regies da frica tropical.
No incio dos anos 1960, por exemplo, pensava-se que a explorao do ferro
havia comeado na frica oriental, por volta de +1000; atualmente, sabe-se
que tal datao precisa ser recuada em pelo menos 750 anos. Tem -se em
Gana um exemplo semelhante: antes da descoberta do forno de Hani, do
sculo II da Era Crist, geralmente era citada a data aproximada de +900. No
entanto,  possvel tirar certas concluses. Primeiramente, so muito poucas
as provas de contatos diretos entre o vale do Nilo e a frica ocidental; assim,
a tese segundo a qual Mroe teria sido um centro de disperso  de todas a
mais frgil. Em segundo lugar, no se dispe de nenhum dado seguro que
justifique a prtica do cozimento da cermica em forno ou fossa antes do
incio da Era Crist na frica ocidental, e os dados etnogrficos evocados em
apoio de um desenvolvimento endgeno da metalurgia do ferro no continente
nem sempre foram apresentados de maneira sistemtica, referindo-se apenas,
na melhor das hipteses, a situaes do II milnio da Era Crist, o que nos
condena a agir com precauo quando se trata de determinar as origens dessa
tcnica. As escassas provas de que dispomos atestam que os stios conhecidos
na frica ocidental so mais antigos que os da frica oriental ou central,
o que ainda viria confirmar a hiptese de que as tcnicas da metalurgia do
ferro difundiram-se para o sul e para o leste a partir da frica ocidental. A
metalurgia do ferro generalizou-se com notvel rapidez, como testemunham
as datas mais antigas em que  comprovada na frica do Sul39  em torno do
ano 400 da Era Crist , posteriores de apenas alguns sculos  maior parte
das datas da frica ocidental.
    A rpida difuso da metalurgia do ferro, que alguns qualificariam de
explosiva, condiz bastante com o que nos ensina a lingustica. Os dados
arqueolgicos provenientes da frica oriental e central no contradizem esta
abordagem: a cermica do incio da Idade do Ferro encontrada na frica
tropical apresenta semelhanas de forma e decorao que s se explicam
admitindo-se uma origem comum para os diferentes artigos40. As semelhanas
iniciais adicionaram-se as marcas de fortes particularismos regionais, tendncia
identificvel particularmente na Zmbia41, onde talvez se tenha realizado um

39   MASON, R. J. 1974. p. 211-6.
40   SOPER, R. C. 1971 (para a frica oriental); HUFFMAN, T. N. 1970 (para a frica austral).
41   PHILLIPSON, D. W. 1968-a.
602                                                                                    frica Antiga



estudo mais aprofundado da cermica da Idade do Ferro do que em outras
partes da frica tropical. Partindo de dados lingusticos, Ehret42 concluiu ter
havido uma disperso de "comunidades independentes mas em condies de
se influenciarem mutuamente", coexistindo com os caadores-coletores no-
-assimilados. Essa hiptese  compatvel com o que dizem os arquelogos.
A medida que as comunidades bantu se adaptavam a seus meios ambientes
especficos, deixaram de ter relaes to frequentes com os grupos mais
longnquos, e as suas respectivas lnguas e culturas comearam a divergir.


      Trocas entre diferentes regies do continente
     conveniente tambm insistir sobre um outro aspecto da histria da frica
tropical durante esse perodo: a influncia durvel e crescente que a frica do
Norte exerceu sobre o cinturo sudans. Em realidade, influncia talvez seja um
termo enganoso, pois as mercadorias e ideias circulavam em ambas as direes.
Como se afirmou nos captulos precedentes, o Saara no foi obstculo nem
espao morto, mas uma regio com uma histria particular, rica, de que ainda
 preciso desembaraar os fios. Sua populao era pouco densa, nmade e com
certeza consistia principalmente em pastores que se deslocavam entre o deserto e
as terras altas, como o Hoggar, o Tassili e o Tibesti, dirigindo-se para o norte ou
para o sul do cinturo saheliano de acordo com as exigncias da estao.  muito
difcil dar uma ideia quantitativa dos contatos que efetivamente ocorreram, ou
descrever sua amplitude e efeitos, ainda que as pesquisas arqueolgicas realizadas
nos ltimos anos na zona do Sudo indiquem claramente a realidade de tais
contatos, tanto indiretos os ligados ao nomadismo  como diretos  os nascidos
das trocas comerciais e da explorao dos minerais43. As informaes de que
dispomos provm de textos da Antiguidade, de pinturas e gravuras rupestres do
Saara e de indcios arqueolgicos. Algumas das provas j foram mencionadas no
volume I e em captulos anteriores deste volume; no entanto, faz-se necessria
uma recapitulao.
    Antes de nos referirmos aos textos antigos que evidenciam contatos atravs
do Saara,  necessrio recordar os dois contatos martimos que teriam se
estabelecido entre o Mediterrneo e a frica ocidental. O primeiro foi a viagem
de circunavegao que marinheiros fencios teriam efetuado a servio do fara


42    EHRET, C. 1973. p. 24.
43    Certamente no se deve exagerar a importncia dos escassos resultados obtidos.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                                                       603



Necau. O registro dessa viagem de aproximadamente trs anos, examinado no
captulo IV, nos vem de Herdoto. Este no d muito crdito  narrativa dos
marinheiros, que diziam ter navegado com o sol  sua direita; no entanto, esta
 atualmente uma das razes para que a histria seja aceita como verdica. Os
raros detalhes contidos nas fontes escritas tornam toda verificao impossvel. 
significativo que o gegrafo Estrabo e outros autores antigos tenham-se recusado
a levar em conta esse relato. Ao que parece, a viagem realmente ocorreu, mas no
se sabe ao certo se foi um priplo em torno da frica. Mauny (1960)44 achou
muito improvvel que as lentas embarcaes a remo de que dispunha o Egito
pudessem resistir s correntes do Cabo ou das costas ocidentais da frica. Nesse
local, tambm teriam enfrentado grandes dificuldades para obter gua ou alimento
suficiente, por se tratar de um litoral praticamente desrtico; seriam necessrios
meses e no semanas  de navegao para se atingir a sua parte setentrional. No
faltam detalhes secundrios para invalidar a realidade desse priplo.
    A segunda viagem  atribuda ao cartagins Hano. O relato contido no
Periplus  muito exagerado45 e cheio de fantasia; suas precises topogrficas so
ambguas e frequentemente contraditrias. Contudo, vrios autores aceitaram a
veracidade da histria, sugerindo que a descrio de uma montanha flamejante
se refere ou ao monte Camares em erupo ou a queimadas na Serra Leoa.
A meno de homens peludos chamados "gorilas" no Periplus foi tomada ao
p da letra como a primeira descrio do gorila46. Por outro lado, as pesquisas
que Germain (1957) consagrou ao contexto e aos detalhes textuais do Periplus
nos levaram a rejeitar a autenticidade desse documento e a consider-lo, no
essencial, uma falsificao que data do fim da Antiguidade. Mas Ferguson47,
que no ignorava as objees de Germain e que conhecia a geografia da frica
ocidental, considera que a viagem ocorreu e que o esturio do Gabo foi o
ponto mais distante dessa navegao. Mauny (1960) indicou que as mesmas

44   Num simpsio realizado em Dacar em janeiro de 1976 ("A frica Negra e o Mundo Mediterrnico
     na Antiguidade"), Raoul LONIS apresentou um importante trabalho nesse campo sobre as condies
     de navegao da costa atlntica da frica na Antiguidade: o problema do "retorno". Com base em
     grande quantidade de provas escritas ou iconogrficas, Lonis procurou demonstrar que a tese de R.
     MAUNY foi provavelmente formulada de maneira muito categrica e que os navios da Antiguidade
     eram perfeitamente capazes, do ponto de vista tcnico, de fazer a viagem do sul para o norte ao longo
     das costas africanas.
45   Por exemplo, diz-se que sua esquadra contava sessenta navios e 30 mil pessoas entre passageiros e tripulao.
46   V. REYNOLDS argumenta que os escritores clssicos conheciam os babunos e que as criaturas em
     questo eram smios com que no estavam familiarizados; segundo esse autor,  bem possvel que os
     gorilas, to altos quanto o homem (o que no se pode dizer dos chimpanzs), podem ter habitado, no
     passado, regies to ocidentais quanto a Serra Leoa.
47   FERGUSON, J. 1969. pp. 1-25.
604                                                                    frica Antiga



evidncias circunstanciais evocadas contra o priplo da poca de Necau tambm
so perfeitamente vlidas para a viagem de Hano. De qualquer modo, se as duas
viagens realmente ocorreram, com certeza no causaram nenhum impacto na
frica ocidental. As escavaes no revelaram objetos cartagineses, fencios ou
egpcios, de origem e data seguras e de autenticidade comprovada em nenhum
lugar ao longo da costa ocidental da frica.
     certo que os cartagineses obtiveram ouro na costa atlntica do Marrocos,
segundo o relato de Herdoto do "comrcio mudo", mas  duvidoso que os
marinheiros da Antiguidade tivessem ido alm da embocadura do rio Senegal,
que Warmington48 sugeriu ser o "Bambotum" referido por Polbio, escritor grego
do fim do sculo II, que estava a servio dos romanos. Essa atribuio tambm
poderia, por sua vez, ser discutida. Em geral, os documentos da poca dizem
que os cartagineses tinham na mais alta conta o segredo comercial; assim, 
provvel que, se tivessem xito em viagens de explorao ou de comrcio, no
se vangloriariam a fim de evitar benefcios para seus concorrentes. Nada prova
que, por via terrestre, eles tenham-se aventurado mais ao sul do que os romanos,
cujos contatos ativos parecem,  exceo das expedies de Stimo Flaco e de
Jlio Materno, no ano 70 da Era Crist, no ter ultrapassado o Hoggar. Nos
textos clssicos encontram-se referncias aos deslocamentos dos Garamantes,
embora nada indique que tenham afetado a rea ao sul do Fezzan.
    A arte rupestre e o produto das escavaes arqueolgicas so as fontes de
uma documentao bem mais rica sobre as trocas da poca pr-islmica. A
arte rupestre indica a presena de vias de comunicao com o cinturo sudans
desde -500. A "lenda dos Nasamones", que se encontra em Herdoto, talvez seja
a referncia literria de uma viagem verdica por uma regio que parece ser o
Nger. De interesse particular nesse relato  a meno de uma "cidade negra", que
Ferguson49 acredita situar-se na regio de Tombuctu. Os desenhos representam
frequentemente coches ou carros, por vezes precedidos por uma parelha de
cavalos ou bois50. Lhote (1953) observou que esses carros esto ausentes no Air e
no Tibesti, exceto nas proximidades do Fezzan. As figuras de bois encontram-se,
na maior parte, no itinerrio ocidental.  prefervel, contudo, no tirar muitas
concluses dessas representaes. Segundo Daniels51 elas indicam antes "o uso
amplamente difundido de um veculo de tipo banal que a presena de qualquer


48    WARMINGTON, B. H. 1969. p. 79.
49    FERGUSON, J. 1969, p. 10.
50    MUNSON, P. 1. 1969. pp. 62-3.
51    DANIELS, C. M. 1970. p. 13.
Introduo ao fim da Pr-Histria na frica subsaariana                         605



sistema complexo de vias atravs do Saara". Quando a datao  possvel  o
que ocorre no caso dos povoados neolticos52 da fase final , observa-se que
essas figuras remontam ao perodo de -1100 a -400. A arte rupestre fora-nos a
admitir que as vias saarianas devem ter sido praticveis para cavalos, bois e, quase
certamente, para jumentos. Na rota oriental, as representaes concentram-se
principalmente no Tassili; Lhote indicou a existncia de possveis terminais na
costa da Tripolitnia em centros como Leptis, Oea e Sabrata. Bovill53 argumenta
que essas trs cidades de origem cartaginesa estavam mais prximas umas
das outras do que seria de se esperar  considerando-se os recursos naturais
da costa ou do interior prximo  e sugere serem elas o ponto de partida do
itinerrio dos Garamantes rumo ao Fezzan. Considera-se que a obteno de
"carbnculos" (talvez uma variedade de calcednia de que se faziam prolas) bem
como de esmeraldas e outras pedras semipreciosas54 era um dos objetivos dessas
expedies. Os escravos, embora no muito importantes nesse perodo, podem
ter sido outro elemento de intercmbio, pois foram encontrados esqueletos de
africanos nas necrpoles pnicas; os exrcitos de Cartago seguramente incluam
soldados africanos. Entre as demais mercadorias que participavam desse trfico
tambm se encontravam produtos tropicais, como almscar, ovos e plumas de
avestruz.
    Foram examinados em pginas anteriores os dados relativos ao trabalho
do cobre na Mauritnia; as evidncias arqueolgicas levariam a conceder uma
importncia direta maior ao itinerrio ocidental do que ao oriental, que atravessa
o Tassili. A explorao do cobre pde estimular, na mesma poca, o trabalho
do ouro mais ao sul. O estudo dos meglitos da Senegmbia, mencionado no
Captulo 24, mostrou que o ouro e o ferro j eram bem conhecidos antes do
surgimento do antigo reino de Gana e que podem ter constitudo um importante
fator do desenvolvimento desse pas. Mauny55 observou que os termos que
designam ouro (urus) em wolof, em serere e em diula, no Sudo ocidental, esto
prximos do pnico haras:  possvel que prospectores encorajados pelo comrcio
do ouro na costa atlntica do Marrocos tenham-se aprofundado para o sul
visando explorar as jazidas conhecidas na Mauritnia, propagando, desse modo,
sua prpria terminologia. As descobertas feitas no tumuli do Senegal provam
fartamente a existncia de uma influncia magrebiana, podendo-se deduzir que


52   MUNSON, P. J. 1969. p. 62.
53   BOVILL, E. W. 1968. p. 21.
54   WARMINGTON, B. H. 1969. p. 66.
55   MAUNY, R. 1952. pp. 545-95.
606                                                                   frica Antiga



os intercmbios comerciais conheceram um desenvolvimento crescente aps sua
instituio inicial no I ou II milnio antes da Era Crist.  possvel mesmo que
os camelos tenham servido como animais de carga na rota ocidental desse trfico
antes da chegada dos rabes, no fim do sculo VIII, pois j eram conhecidos
na frica do Norte desde o sculo I antes da Era Crist pelo menos (Csar
menciona a captura desses animais em -46; eram muito comuns por volta do
sculo IV). A riqueza exibida pelos construtores de tmulos e meglitos das
reas da Senegmbia e do Alto Nger56 por volta do ano +1000 talvez seja um
dos melhores indicadores da existncia  e da amplitude  do comrcio pr-
-islmico. At que se empreendam mais pesquisas arqueolgicas  difcil saber
com preciso a antiguidade desse trfico ou a importncia real dos contatos
exteriores.
    Em resumo: particularmente no domnio dos contatos entre regies, o
essencial da informao de que dispomos ainda no permite ultrapassar o estgio
das hipteses prudentes. A presena de meglitos antigos na regio de Buar
(Repblica Centro-Africana) e de outras pedras eretas em vrias regies da
frica necessita, por exemplo, de uma paciente pesquisa sobre o megalitismo.




56    POSNANSKY, M. 1973-a.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo               607



                                       CAPTULO 22


               A costa da frica oriental e
             seu papel no comrcio martimo
                                        Abdul M. H. Sheriff




    Uma das caractersticas notveis da costa oriental da frica ao longo da
histria  a relativa facilidade de acesso a essa rea, tanto atravs do interior
como do mar. A acessibilidade pelo interior foi um fator vital das migraes
em direo  franja costeira e ajuda a elucidar a complexidade tnica e cultural
dessa regio. Por outro lado, o mar foi uma via de contatos e de interao
com o mundo exterior. Portanto, num dos aspectos principais da histria da
costa oriental da frica durante os ltimos 2000 anos no foi o isolamento,
mas a interpenetrao de duas correntes culturais que constituram um novo
amlgama, a civilizao costeira swahili. O veculo deste processo foi o comrcio,
que facilitou a integrao da costa africana oriental no sistema econmico
internacional, com as consequncias decorrentes.
    Contudo, a escassez de fontes dificulta a reconstituio da histria da costa
africana oriental antes do sculo VII da Era Crist. Todas as fontes disponveis,
documentais e numismticas, so o produto do comrcio internacional, e
possumos pouco material sobre a histria da costa antes do estabelecimento dos
contatos internacionais. As antigas fontes documentais greco-romanas contm
apenas referncias indiretas (embora sempre valiosas) a essa rea. Estrabo (-29
a  +9), que assistiu ao perodo de expanso romana sob Augusto, no s nos
oferece um testemunho contemporneo e s vezes ocular sobre o comrcio da regio
do mar Vermelho e do oceano ndico, como tambm incorpora fragmentos de
608                                                                                        frica Antiga



obras geogrficas anteriores, atualmente perdidas1. Plnio (+23 a +79) descreve
o Imprio Romano em seu apogeu e  extremamente valioso por suas descries
do comrcio e da navegao no oceano ndico e do estilo luxuoso e decadente
da Roma imperial2.
    A fonte mais importante sobre o oceano ndico durante esse perodo e o
primeiro relato direto, embora sumrio, acerca da costa africana oriental  o
Periplus Maris Erythraei  Priplo do Mar da Eritreia3. Aparentemente escrito
por um agente comercial grego desconhecido, estabelecido no Egito, o Priplo
 basicamente um testemunho ocular. Durante longo tempo sua datao foi
controversa; muitos estudiosos, incluindo Schoff e Miller, afirmaram que o
Priplo parece ser a descrio de um perodo ainda prspero do comrcio romano
no oceano ndico, durante o apogeu do Imprio Romano, isto , relativamente
contemporneo da descrio de Plnio na segunda metade do sculo I da Era
Crist4. Por outro lado, J. Pirenne  o nico a sugerir a data do incio do sculo III5.
Mathew, que apresenta um ponto de vista intermedirio, prope uma data do
incio do sculo II da Era Crist e afirma que, embora o Priplo seja anterior 
Geografia de Ptolomeu, as passagens deste ltimo livro relativas  frica oriental
no foram escritas na metade do sculo II da Era Crist, como o resto da obra,
mas acrescentadas posteriormente6. Como se ver adiante, no h razo para
aceitar a afirmao de Mathew, e, portanto, somos obrigados a concluir que o
Pripio no pode ser posterior ao fim do sculo I da Era Crist.
    A Geografia de Ptolomeu, escrita por volta de +156, denota um aumento
considervel do conhecimento do oceano ndico em geral, e da frica oriental
em particular. Mathew sugeriu que a Geografia foi reformulada posteriormente
e que "parece mais seguro tratar a parte relativa  frica oriental como sendo
a soma dos conhecimentos adquiridos no mundo mediterrneo por volta do

1     ESTRABO. v. II, pp. 209-13.
2     PLNIO. v. II, pp. 371-2.
3     Tradues inglesas de VINCENT, W.; MCCRINDLE, J. W. 1879; SCHOFF, W. H. 1912, que tem sido
      mais utilizada; MILLER, J. I. 1969; mais recentemente, PIRENNE, J. 1970-b; e tambm o Captulo
      16 deste volume. Mar da Eritreia era o termo empregado pelos gegrafos greco-romanos para designar
      o oceano ndico, pelo menos desde a poca de Herdoto no sculo V antes da Era Crist. Ver tambm
      PIRENNE, J. 1970.
4     W. H. SCHOFF (1912. pp. 8-15) sugeriu c. +60, mas depois props +70 a +89. Para a data do Priplo,
      ver SCHOFF, W. H. 1917. pp. 827-30; WARMINGTON, E. H. 1928. p. 52 (+60); WHEELER, R. E.
      M. 1954. p. 127 (terceiro quartel do sculo I da Era Crist); CHARLESWORTH, M. P. 1966. p. 148
      (+50 a +65); MILLER, J. I. pp. 16-18 (+79 a +84).
5     Apud MATHEW, G., ROTBERG, R. I. & CHITTICK, N.; cf. tambm PIRENNE, J. 1970.
6     MATHEW, G. In OLIVER, R., & MATHEW, G. 1963. pp. 94-6; MATHEW, G. 1974, passim. Contra
      essa opinio, PIRENNE, J. 1970.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                         609



fim do sculo IV da Era Crist"7. Contudo, Ptolomeu reconhece explicitamente
que deve suas informaes sobre a frica oriental a Marinus de Tiro, que
indiscutivelmente foi seu contemporneo8.
    A ltima fonte documental para o perodo  a Topografia crist de Cosmas
Indicopleustes, escrita durante a primeira metade do sculo VI da Era Crist.
Ao que tudo indica, essa obra pertence a uma poca em que o imprio e o
comrcio romano no oceano ndico j haviam entrado em rpido declnio. Trata-
-se de um trabalho particularmente til por suas informaes sobre a Etipia e
a supremacia dos persas no oceano ndico, apesar da ignorncia que demonstra
acerca da regio localizada ao sul do cabo Guardafui9.
    Infelizmente, ainda no possumos testemunhos arqueolgicos seguros
referentes a esse perodo, para confirmar e completar as fontes documentais de
que dispomos. Temos algumas colees de moedas descobertas na costa durante
os ltimos setenta e cinco anos. Contudo, convm enfatizar que nenhuma destas
colees foi encontrada nos stios arqueolgicos conhecidos ou escavados, e as
circunstncias de sua descoberta, lamentavelmente, foram mal registradas. O
melhor que podemos dizer  que o testemunho numismtico no contradiz as
fontes documentais disponveis e  valioso como ndice do ritmo de comrcio
internacional ao longo da costa da frica oriental.
    O achado mais antigo consiste em seis moedas encontradas em Kimoni, ao
norte de Tanga, "num montculo `sob' as rvores, de aproximadamente 200 anos",
e que aparentemente foram enterradas h muito tempo. A descoberta cobre
um longo perodo entre o sculo III e o sculo XII da Era Crist. Portanto,
este tesouro no pode ter sido escondido antes desta ltima data, mas no
temos certeza de que as moedas mais antigas tenham sido trazidas para a frica
oriental durante os tempos pr-islmicos10. A segunda descoberta, uma nica
moeda de ouro de Ptolomeu Ster (-116 a -108), foi oferecida em 1901 a um
comerciante alemo por um vendedor ambulante africano em Dar-es-Salam, e
pode ser proveniente de um ponto qualquer da costa11.
    Diversas colees de origem desconhecida foram descobertas em 1955 no
museu de Zanzibar. A primeira, colocada num envelope marcado Otesiphon

7    MATHEW, G. 1963. p. 96.
8    STEVENSON, E. L. ss. I. 9, I. 17. Passagens interessantes so reproduzidas em ALLEN, J. W. T. 1949.
     pp. 53-5. BUNBURY, E. H. 1959. pp. 519-20, 537, 610-11.
9    MCCRINDLE, J. W. 1879.
10   CHITTICK, N. 1966. pp. 156-7.  possvel mesmo que estas moedas tenham sido enterradas apenas
     no sculo XVI.
11   FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-a. p. 22.
610                                                                             frica Antiga



(capital dos imprios parta e sassnida, nas proximidades de Bagd)  composta
por cinco moedas persas cujas datas vo do sculo I ao III da Era Crist.
Segundo Freeman-Grenville, "o tipo especial de p" tpico de Zanzibar ainda
estava colado s moedas quando ele as examinou, dando-lhe a certeza de que
haviam sido descobertas em algum lugar de Zanzibar. Os dois outros grupos
de moedas tambm estavam cobertos do mesmo tipo de p e provavelmente
foram descobertos em Zanzibar ou Pemba. Cobriam um perodo mais longo,
do sculo II antes da Era Crist ao sculo XIV da Era Crist, o que sugere que
no constituam tesouros, mas colees de achados feitos ao acaso12.
    As duas descobertas restantes suscitam problemas semelhantes de
interpretao. Haywood afirmou ter encontrado em 1913 em Bur Gao (Port
Dunford) uma importante coleo de moedas e um recipiente em forma de
nfora grega. O recipiente se quebrou numa tempestade e, infelizmente, ele
jogou fora os pedaos. Durante vinte anos, as moedas no foram dadas a
pblico e nem mesmo mencionadas no relatrio de sua visita, publicado em
1927. A coleo parece dividir-se em duas partes distintas. A primeira, que
provavelmente constitui o ncleo, consiste em setenta e cinco peas do Egito
ptolomaico, da Roma imperial e de Bizncio, cobrindo o perodo entre o sculo
III antes da Era Crist e a primeira metade do sculo IV da Era Crist. A
segunda parte compe-se de treze moedas do Egito mameluco e otomano, do
sculo XIII e dos sculos seguintes. Quando o stio foi rapidamente visitado
por Wheeler e Mathew, em 1955, e por Chittick em 1968, no se encontrou
nada na superfcie a que pudesse ser atribuda uma data anterior ao sculo XV,
mas nenhuma escavao arqueolgica se efetuou ainda. Chittick afirma que, se
tais moedas constituam um tesouro, no podem ter sido depositadas antes do
sculo XVI. Por outro lado, Wheeler sugere que "o significado da descoberta
no se anula necessariamente" pela adio das moedas egpcias posteriores13.
Essas moedas podem ter sido acrescentadas  coleo durante o longo tempo
que passou antes que chegassem s mos do numismata. Desse modo,  possvel
que o ncleo da coleo tenha sido depositado num certo momento posterior 
primeira metade do sculo IV.
    Considera-se que a ltima coleo foi desenterrada em Dimbani, no sul
de Zanzibar, por um velho fazendeiro, Edi Usi, j falecido, e que as moedas
passaram para um colecionador amador. As peas s foram identificadas


12    FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-a. p. 23.
13    FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-a. pp. 21-2; CHITTICK, N. 1969. pp. 115-30; WHEELER,
      R. E. M. 1954. p. 114.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                                611



provisoriamente. O ncleo parece ser formado por 29 peas romanas e
uma pea parta pertencente ao perodo entre o sculo I e o sculo IV da
Era Crist. A coleo inclui ainda uma pea chinesa do fim do sculo XII
e algumas peas islmicas, europeias e mesmo da frica colonial, mais
recentes e que vo at o fim do sculo XIX14. Como no caso da coleo
Haywood,  possvel sugerir que as moedas mais recentes tenham sido
acrescentadas posteriormente.
   Portanto, so estas as escassas fontes de que dispomos para reconstruir
a histria da costa da frica oriental antes do sculo VII. A reconstruo
tentada a seguir no ser excessivamente cautelosa, mas, em muitos aspectos,
poder ser apenas conjectural, at que os trabalhos arqueolgicos registrem
alguns progressos em relao a este perodo antigo.


     O fator continental
   A regio costeira da frica oriental constitui uma rea geogrfica bem
distinta, margeada a oeste por uma faixa de vegetao arbustiva relativamente
seca, chamada nyika, que se estende muito prxima da costa no Qunia e se
alonga para o interior na Tanznia, onde  quebrada pelas bacias dos rios
Ruaha, Rufigi e Pangani e pela borda oriental das montanhas. Portanto, os
movimentos de populao provavelmente seguiram corredores onde o meio
ambiente era mais favorvel, em torno ou atravs da nyika, como ocorre ao
longo da Tana no Qunia, da Pangani e da cadeia de montanhas contgua a
nordeste da Tanznia.
   O testemunho mais antigo sobre a populao da costa da frica oriental
nos vem do Priplo, que descreve os habitantes da costa como uma populao
"de estatura muito alta"15. Oliver sugere que eles eram cuxitas, comparveis
aos agricultores da Idade da Pedra Tardia, que habitavam as terras altas do
Qunia desde cerca do ano -1000 e que, segundo os testemunhos arqueolgicos
disponveis, eram homens de "elevada estatura". A presena de objetos de ferro
entre as importaes sugere que as populaes costeiras ainda no conheciam
a metalurgia desse metal. Perto da costa e nos corredores anteriormente
mencionados existem vrios bolses de lngua cuxita, como os povos sanye,


14   O atual proprietrio da coleo deseja permanecer annimo, mas sou-lhe grato por me ter permitido examinar
     as moedas. Identificao conjetural pela Sra. S. Urwin, numa carta datada de 23 de agosto de 1972.
15   PRIPLO, 16.
612                                                                                        frica Antiga



perto de Tana, e os Mbugu, em Usambara, que podem ser remanescentes dessa
antiga populao costeira16.
    O testemunho da arqueologia indica uma infiltrao rpida no interior da
regio da costa de populaes que utilizavam o ferro, provavelmente de lngua
bantu, durante os primeiros sculos da Era Crist.  bem possvel que, vindos
do sul, tenham ocupado as regies de South Pare e Kwale, atravs de Mombaa.
Em seguida, por volta da metade do primeiro milnio,  provvel que tenham
seguido at Barawa e o corredor de Pangani at o North Pare e a regio de
Kilimandjaro. Durante sua expanso, possivelmente assimilaram as populaes
litorneas que os haviam precedido17.
    Das evidncias de que dispomos,  difcil extrair um quadro satisfatrio da
economia e da sociedade da costa oriental antes do estabelecimento das ligaes
comerciais internacionais.  possvel que se tratasse de populaes agrcolas,
como eram talvez os cuxitas da Late Stone Age do interior. O Priplo indica
claramente que a pesca desempenhava um papel importante na economia e d
uma descrio muito precisa dos cestos de vime utilizados para tal fim, e que
ainda so comuns na costa; a populao parece ter sido essencialmente costeira.
Eles utilizavam canoas cavadas em troncos e pequenos "barcos de madeira
costurada", mas aparentemente no havia embarcaes de alto-mar. Ainda no
sculo XII da Era Crist, al-Idrisi indica que "os Zanj no possuam navios para
viajar, mas utilizavam os de Oman e de outros territrios"18.
    Infelizmente, no dispomos de nenhuma prova sobre a organizao
sociopoltica deste perodo, pois, embora o Priplo mencione a existncia de
chefes em cada uma das cidades-mercado, o comrcio internacional pode ter
sido um fator crucial para o surgimento dos chefes e tambm das cidades-
-mercado19. Ao que tudo indica, portanto, antes do estabelecimento dos laos
comerciais internacionais, a populao da costa da frica oriental apresentava
um nvel muito baixo de desenvolvimento tecnolgico e provavelmente tambm
sociopoltico. Desse modo, quando se estabilizaram as relaes do comrcio
internacional, a iniciativa ficou com os marinheiros vindos das margens
setentrionais do oceano ndico, com todas as consequncias da decorrentes.

16    OLIVER. R. A. 1966. p. 368; SUTTON. J. E. G. 1966. p. 42. O Priplo no fornece nenhuma evidncia
      de imigrantes indonsios na costa, e o testemunho musicolgico de Jones no foi totalmente aceito:
      JONES, A. H. M. 1969. pp. 131-90.
17    SOPER. R. C. 1967-a. pp. 3, 16, 24, 33-4; CHIITICK, N. 1969. p. 122; ODNER, K. 1971-a. pp. 107;
      id. 1971-b. p. 145.
18    PRIPLO, 15, 16; HOURANI, G. F. 1963. pp. 91-3; FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-b. p. 19.
19    PRIPLO, 16.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                      613



     O fator ocenico
    Historicamente, o acesso por terra fez da costa oriental da frica uma
parte integrante do continente africano e o acesso pelo mar transformou-a no
centro de uma longa histria de contatos comerciais, de influncias cuturais e
de movimentos de populaes originrias das costas do oceano ndico. Para
estudar essa histria  necessrio examinar as potencialidades e oportunidades
de comunicao inter-regional. Kirk definiu, em termos muito gerais, trs
ambientes geogrficos em torno do oceano ndico: a "floresta" de sudoeste que
cobre as costas do Qunia, da Tanznia, de Moambique e de Madagscar; a
regio intermediria desrtica que se estende do Chifre somali at a bacia do
Indo; e a "floresta" de sudeste que vai da ndia  Indonsia20. O potencial de trocas
entre as duas regies de "floresta"  muito pequeno, embora possa aumentar se
considerarmos as mercadorias de luxo ou os produtos manufaturados cuja origem
 mais localizada, devido a circunstncias naturais ou histricas. O potencial de
trocas entre o "deserto" e as duas "florestas"  muito mais importante, pois, alm
das trocas de mercadorias de luxo e de produtos manufaturados, o "deserto" em
geral se caracterizava por uma escassez alarmante de produtos alimentares e de
madeira, que podiam ser obtidos na regio da "floresta". Alm disso, a regio
do "deserto" ocupa uma posio intermediria entre as regies de "floresta" e
entre estas e o mundo mediterrneo. Portanto, a histria do oceano ndico
ocidental at o sculo VII , em grande medida, a da interao, ao longo de
duas linhas diferentes, entre a frica oriental e o Oriente Mdio e entre este e
a ndia, bem como a histria do papel desempenhado pelo Oriente Mdio como
intermedirio entre o oceano ndico e o Mediterrneo.
    Tal interao se tornou possvel graas ao desenvolvimento de uma tecnologia
martima apropriada e ao domnio dos ventos e das correntes do oceano ndico.
A caracterstica geogrfica mais importante deste oceano  a inverso sazonal
dos ventos de mono. Durante o inverno boreal, a mono do nordeste sopra de
maneira contnua e chega a atingir Zanzibar, mas sua intensidade decresce para
o sul e raramente  regular alm do cabo Delgado. Tal sistema de circulao 
reforado pela corrente equatorial que, aps atingir a costa da Somlia, dirige-se
para o sul, facilitando a viagem das embarcaes a partir da costa da Arbia. Os
barcos rabes podiam deixar seus portos de origem no fim de novembro, mas
a maioria partia no comeo de janeiro, quando a mono estava plenamente


20   KIRK, W. 1962. pp. 265-6.
614                                                                                frica Antiga



configurada. A viagem demorava de vinte a vinte e cinco dias. Em maro, a
mono de nordeste comea a declinar e, como a frica oriental se encontra
nas bordas do sistema de mones, o declnio ocorre mais cedo no sul. Em abril,
o vento reverte, transformando-se na mono de sudoeste. Agora, a corrente
equatorial atinge a costa prxima do cabo Delgado e se divide numa forte
corrente que se dirige para o norte, facilitando a viagem nessa direo, e uma que
flui para o sul, dificultando a sada do canal de Moambique. Era essa a estao
de partida das embarcaes da frica oriental. Havia porm, uma interrupo
de meados de maio a meados de agosto, perodo em que o tempo  muito
tempestuoso para a navegao no oceano ndico. Desse modo, os barcos partiam
quando se formava a mono, em abril  se as transaes comerciais pudessem
ser concludas em tempo til  ou com o final da mono em agosto, o que se
tornava cada vez mais necessrio em virtude do prolongamento da viagem para
o sul de Zanzibar.  claro que no incio da Era Crist os marinheiros do oceano
ndico j estavam familiarizados com a utilizao desses ventos 21. Eles tambm
haviam superado o problema tcnico da construo de navios de grande porte
numa regio que no possui ferro, recorrendo  "costura" de pranchas com fibras
vegetais22.
    Portanto, a extenso espacial do sistema regular de mones e o nvel de
organizao do comrcio na frica oriental ajudam a definir a zona normal
de atividade das embarcaes que utilizavam as mones. Com uma estrutura
comercial relativamente simples, que comportava trocas diretas entre as
embarcaes estrangeiras e as cidades-mercado  como parece ter ocorrido
antes do sculo VII ,os barcos vindos do norte provavelmente no desciam
muito alm de Zanzibar, ao sul. S no perodo medieval se estabeleceu em Kilwa
um entreposto organizado com vistas a uma explorao mais efetiva das costas
meridionais.


      Desenvolvimento do comrcio no Oceano ndico
      Ocidental
   Os testemunhos histricos mais antigos sobre o oceano ndico ocidental
sugerem que, ao contrrio do que habitualmente indicam os manuais, no


21    KIRK, W. pp. 263-5; DATOO, B. A. 1970-a. pp. 1-10; McMASTER, D. N. pp. 13-24; DATOO, B. &
      SHERIFF, A. M. H. 1971. p. 102.
22    HOURANI, G. F. 1963. pp. 4-6.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                       615



existia nenhuma relao comercial, direta ou no, entre a frica oriental e a
ndia antes do sculo VII da Era Crist. Mesmo o comrcio entre a ndia e o
Oriente Mdio na poca do Priplo parece ter-se limitado a alguns produtos
de luxo23. Tem-se a impresso de que, com exceo do ouro e de algumas
outras mercadorias preciosas, a ndia era em grande parte auto ssuficiente,
particularmente em matrias-primas da "floresta", que a frica oriental
poderia ter fornecido. Ao contrrio, nessa poca a ndia parece ter sido um
ativo exportador de marfim, o que provavelmente retardou a explorao desse
produto na frica.
    Tal explorao foi estimulada possivelmente pela intensa rivalidade entre
os Estados gregos sucessores de Alexandre. O controle rigoroso exercido pelos
selucidas sobre as rotas terrestres para a ndia levou os ptolomeus do Egito
a procurarem marfim proveniente de outros lugares. Sua necessidade imediata
era obter elefantes de guerra, mas os ptolomeus tambm desejavam quebrar
o monoplio dos selucidas sobre o fornecimento do marfim indiano para o
Mediterrneo. Desse modo, eles se voltaram para a explorao da costa africana
do mar Vermelho, estabelecendo uma srie de postos de caa ao elefante at a
entrada desse mar. Em consequncia, a poltica dos ptolomeus resultou numa
enorme expanso do comrcio de marfim24.
    A perda da Sria durante o governo de Ptolomeu V (-204 a -181) e o
crescimento da demanda de produtos rabes e indianos na Itlia, numa poca
em que aparentemente j no havia marfim nas cercanias do mar Vermelho,
foraram o Egito a se voltar para a rota martima do sul, a fim de manter um
certo contato comercial com a ndia. Por volta do fim do sculo II antes da Era
Crist, Socotra era habitada por comerciantes estrangeiros, incluindo cretenses,
e Eudxio utilizou os servios de um piloto indiano que havia naufragado para
efetuar a primeira viagem direta  ndia. O comrcio indiano continuou a se
desenvolver o suficiente para que fossem nomeados funcionrios "responsveis
pelos mares Vermelho e ndico" entre -110 e -5125. Contudo, a iniciativa de
Eudxio parece no se ter repetido regularmente. Estrabo d a entender que


23   WHEELER, R. E. M. 1966. p. 67; HOURANI, G. F. 1963. pp. 8-9; BASHAM, A. L. 1959. p. 230;
     PRIPLO, 49, 56, 62.
24 TOZER, H. F. 1964. pp. 146-7; ESTRABO. v. VII, pp. 319, 331; PLNIO. v. II, pp. 465-569;
   HOURANI, G. F. 1963. pp. 19-20; TARN, W. & GRIFFITH, G. T. 1966. pp. 245-6; RAWLINSON,
   H. G. 1916. pp. 90-2.
25   ESTRABO. v. I, pp. 377-9; DIODORO DA SICLIA. pp. 213-15; PRIPLO, 30; TARN, W. &
     GRIFFITH, G. T. 1966. pp. 247-8; RAWLINSON, H. G. 1916. pp. 94, 96; BUNBURY, E. H. 1959. v. I,
     p. 649; id., ibid. v. 11, pp. 74-8; WARMINGTON, E. H. 1963. pp. 61-2; HOURANI, G. F. 1963. p. 94.
616                                                                                               frica Antiga



isso ocorreu devido  fraqueza e  anarquia imperantes no governo dos ltimos
ptolomeus, quando "menos de vinte navios ousaram atravessar o golfo arbico
[mar Vermelho] atingindo uma distncia suficiente para espreitar para fora dos
estreitos"26.
    Naquela poca, o comrcio egpcio com a ndia era em grande parte indireto,
passando pelos entrepostos do sudoeste da Arbia. O Priplo assim se refere a
Aden: "Nos primeiros tempos da cidade, quando ainda no se fazia a viagem da
ndia ao Egito, e quando no ousavam viajar do Egito para os portos do outro
lado do oceano e vinham todos se reunir neste lugar, ela recebia as mercadorias
dos dois territrios"27. Portanto, a Arbia do sudoeste ocupava uma posio-
-chave de intermediria e se apropriava de uma parte do lucro do comrcio,
que se tornou proverbial28. Por volta de -115, os sabeus foram substitudos pelos
himiaritas, que foram progressivamente centralizando o comrcio de entreposto
no porto de Musa, governado pelo Estado vassalo de Maafir29.
    Os habitantes da Arbia do sudoeste devem ter controlado tambm o outro
ramo do comrcio, que se estendia em direo  costa da frica oriental. J se
sugeriu que uma das causas da expanso comercial ptolomaica ao longo do mar
Vermelho foi o crescimento da demanda de mercadorias de luxo provenientes
do Oriente, como o marfim. Portanto,  possvel que nesta poca os rabes
tenham estendido suas atividades comerciais para a costa da frica oriental para
responder a tal demanda.  significativo que Eudxio  por volta do fim do
sculo II antes da Era Crist, quando aparentemente foi jogado pela mono de
nordeste na costa africana, em alguma parte ao sul do cabo Guardafui  tenha
conseguido um piloto, provavelmente um rabe, que o levou ao mar Vermelho30.
Sem dvida esses vnculos comerciais precederam o estabelecimento de qualquer
suserania* formal dos rabes sobre a costa da frica oriental, que o Priplo, na
segunda metade do sculo I antes da Era Crist, descreveu como "antiga"31. Na


*     Sugeriu-se que "vassalo" seja substitudo por "dependente" e "suserania" por "dominao".
26    ESTRABO. v. VIII, p. 53.
27    PRIPLO, 26.
28    ESTRABO. v. VII, p. 349; id. v. I, pp. 143-5. Ver tambm DIODORO DA SICLIA. v. II, p. 231;
      PLNIO. v. II, p. 459. A riqueza dos rabes do sul no provinha inteiramente do comrcio, pois eles
      tambm haviam desenvolvido um sofisticado sistema de irrigao: BEEK, G. W. van. 1969. p. 43.
29 PRIPLO, 21-6; SCHOFF, W. H. 1912. pp. 30-2, 106-9; ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. ed.
   1911. v. II, p. 264, v. III, pp. 955-7; WARMINGTON, E. H. 1928. p. 11.
30    ESTRABO. v. I, p. 377-9.
31    PRIPLO, p. 16; B. A. DATOO (1970-b. p. 73) adota uma data mais recente baseada numa cronologia
      posterior ao Priplo; G. MATHEW (1963. p. 98) sugere o sculo III antes da Era Crist, mas fundamenta-
      -se na coleo Haywood, cuja significao histrica  duvidosa. Ver p. 610, neste.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                       617



ausncia de testemunho arqueolgico,  difcil determinar exatamente a data
de fixao desses vnculos comerciais e de sua extenso para o sul. At agora,
foi encontrada uma nica moeda de ouro dos ptolomeus do fim do sculo II
antes da Era Crist, supostamente descoberta na vizinhana de Dar-es-Salam;
as vinte e duas moedas ptolomaicas da coleo Haywood no podem ter sido
depositadas antes do sculo IV da Era Crist32.
    No estado atual de nossos conhecimentos, talvez possamos fazer remontar ao
sculo II antes da Era Crist a expanso comercial rabe para a frica oriental.
No entanto, Miller argumenta que a frica oriental constituia uma ligao vital
do comrcio de canela entre a sia oriental, habitat natural da canela, e a costa
setentrional da Somlia, onde os greco-romanos e tambm os egpcios obtinham
tal especiaria desde o segundo milnio antes da Era Crist. Baseando-se na
referncia de Plnio ao transporte de canela "em vastos mares atravs de bolsas",
Miller admite a possibilidade de viagens transocenicas feitas por indonsios
para Madagscar e a costa da frica oriental, seguidas por transportes costeiros
ou terrestres at os portos somalis33.  possvel que a migrao de indonsios
para Madagscar tenha ocorrido dessa forma, mas atualmente se aceita que se
trata de um acontecimento do primeiro milnio da Era Crist. Alm disso, no
h nada que indique uma relao entre essa migrao e a rota comercial descrita
por Plnio, que parece seguir claramente a costa setentrional do oceano ndico e
terminar no porto de Ocilia, no sul da Arbia34. Em consequncia, no h base
de apoio para o complicado circuito da canela proposto por Miller, nem para
a existncia, em tempos to remotos, de vnculos comerciais da frica oriental
com as terras alm do oceano ndico.


     A expanso do comrcio durante o perodo romano
   O estabelecimento do Imprio Romano, com Augusto, teve por consequncia
um enorme aumento da demanda de mercadorias orientais no mundo mediterrneo.
Vrias economias autnomas, tanto no interior como fora do imprio, integraram-
-se gradualmente num vasto sistema de comrcio internacional, no qual os
produtores de matrias-primas e mercadorias de luxo estavam envolvidos. Tal


32   Ver pp. 610-611.
33   MILLER, J. I. pp. 42-3, 53-7, 153-72. O professor N. CHITTICK, consultado pelo Comit, demonstrou
     reservas sobre a existncia deste comrcio de canela.
34 DATOO, B. A. 1970-b. p. 71; PLNIO. v. XII, pp. 87-8.
618                                                                   frica Antiga



sistema alargou o mercado e permitiu a transferncia de riquezas para o centro
do Imprio35. A concentrao de riqueza nas mos da classe guerreira dominante,
que havia deixado o comrcio e a indstria para as populaes submetidas, teve
como consequncia uma intensa competio de extravagncias. Plnio lamenta:
"A estimativa mais modesta indica que a ndia, a China e a pennsula da Arbia
tiram de nosso Imprio 100 milhes de sestrcios por ano  o que nos custam
nosso luxo e nossas mulheres"36.
    A expanso do mercado durante o reinado de Augusto levou a uma poltica
mais agressiva no mar Vermelho, destinada a quebrar o monoplio rabe
sobre o comrcio oriental. Com uma expedio dirigida por Galo em -24,
os romanos procuraram estabelecer uma rota martima direta para a ndia e
controlar a extremidade sul da rota do incenso. Embora a expedio tenha sido
um fracasso, o comrcio romano pde desenvolver-se rapidamente, em parte
talvez porque a rota martima direta podia competir bastante bem com a rota
rabe. Estrabo, por volta de -26 a -24, informava que "pelo menos cento e vinte
navios partiam de Myos Hormos para a ndia, enquanto no perodo precedente,
sob os ptolomeus, eram muito raros os que ousavam empreender a viagem para
comerciar as mercadorias indianas"37.  razovel supor que um trfico anual to
intenso implicava a utilizao regular da mono para realizar uma viagem mais
direta da entrada do mar Vermelho para o norte da ndia. Durante os setenta e
cinco anos que se seguiram, o conhecimento mais apurado do traado da costa
ocidental da ndia permitiu que os navegadores romanos cruzassem o mar da
Arbia em direo  costa de Malabar, centro abastecedor de pimenta, principal
riqueza da ndia38.
    Apesar da entrada dos romanos no comrcio do oceano ndico, o prprio
Priplo traa o quadro de um trfico muito intenso que ainda se encontrava
nas mos de hindus e rabes. Os hindus realizavam um comrcio ativo no
golfo Prsico e no mar Vermelho, mas aparentemente no iam ao sul do cabo
Guardafui. Exportavam pimenta das costas de Malabar, marfim do noroeste,
do sul e do leste da ndia e grandes quantidades de tecidos de algodo para
o mercado romano alm de ferro, ao, roupas e alimentos para os portos do
norte da Somlia e da Etipia. Em troca, recebiam diversos metais, tecidos "de



35    ORTEIL, F. 1952. pp. 382-91.
36    PLNIO. v. IV, p. 63.
37    ESTRABO. v. I, pp. 453-5; id. v. VII, pp. 353-63.
38    PLNIO. v. II, pp. 415-9.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                   619



qualidade inferior'', vinho e "uma grande quantidade de moedas"39. Os rabes,
por outro lado, alm da exportao de incenso e de mirra, eram os intermedirios
mais importantes no comrcio entre o oceano ndico e o Mediterrneo. Embora
dividissem o comrcio da ndia com os hindus e cada vez mais com os romanos,
eles provavelmente se beneficiaram de um virtual monoplio do comrcio com
a costa oriental da frica, fato corroborado pela ignorncia dos romanos sobre a
costa africana ao sul do cabo Guardafui antes do Priplo. Alm disso, embora este
ltimo documento indiscutivelmente represente um testemunho ocular sobre a
costa africana oriental, o fato de apenas quatro pargrafos serem consagrados a
essa regio parece indicar que ainda se encontrava fora dos limites das atividades
normais dos greco-romanos40.


     A integrao da costa da frica Oriental no sistema
     econmico romano
   Qualquer que tenha sido o nvel das atividades comerciais rabes ao longo
da costa da frica oriental durante o perodo pr-romano,  quase certo que
a unificao econmica e a opulncia do Imprio Romano lhes deram novo
impulso. A demanda de marfim aumentou enormemente, no apenas para a
fabricao de esttuas e pentes, mas tambm para mesas, cadeiras, gaiolas de
passarinho, carros e at mesmo um estbulo de marfim para o cavalo imperial41.
No primeiro sculo da Era Crist, s se obtinha o marfim em reas muito
distantes, no interior da regio do alto Nilo, de onde era levado a Adulis. Em
consequncia, a importao de marfim da costa oriental da frica ganhou maior
importncia, embora ele fosse considerado de qualidade inferior ao de Adulis42.
Desse modo, a regio ficou ainda mais integrada no sistema de comrcio
internacional centrado no Mediterrneo, atravs do Estado de Himiar, no
sudoeste da Arbia. O Priplo indica que cada uma das cidades-mercado da costa
da frica oriental possua seu prprio chefe, mas que Himiar exercia a suserania
por intermdio do chefe subordinado de Maafir, que, por sua vez, tambm a
arrendava ao povo de Muza. Este ltimo "envia para l grandes embarcaes
e utiliza capites e agentes rabes, que esto familiarizados com os indgenas


39   PRIPLO, 6, 14, 36, 49, 56, 62; MILLER, J. I. 1969. pp. 136-7.
40   ESTRABO. v. VII, p. 333; PRIPLO, 15-18.
41   WARMINGTON, E. H. 1928. p. 163.
42   PRIPLO, 4, 1-7.
620                                                                                               frica Antiga



e se casam entre eles, conhecem toda a costa e compreendem a sua lngua"43.
Portanto, a assimilao da costa oriental da frica no sistema internacional no
se dava apenas no nvel do comrcio, mas implicava uma dominao poltica e
uma penetrao social que pode ter estimulado o processo de criao de um tipo
de populao costeira mestia, voltada para a navegao e o comrcio, servindo
de agente local do sistema de comrcio internacional.
    A Azania44, nome dado pelos romanos  costa oriental da frica ao sul de
Ras Hafun, provavelmente no era unificada no plano econmico, consistindo,
em realidade, numa srie de cidades-mercado, cada uma com seu prprio chefe;
todas dependiam de sua exgua regio interior para obter as mercadorias que
exportavam; e eram visitadas diretamente pelas embarcaes que navegavam com
a mono. O Priplo menciona alguns lugares como Sarapion, provavelmente
algumas milhas ao norte de Merca, Nikon, possivelmente Bur Gao (Port Dunford)
e as ilhas Pylaream, identificadas com o arquiplago Lamu. Os navios podiam
ficar ancorados nesses lugares, mas no existe nenhuma meno a atividades
comerciais. Ao sul do arquiplago de Lamu realmente ocorrem modificaes
nas caractersticas da linha costeira, como descreve de maneira muito precisa
o Priplo. A dois dias de viagem por mar encontrava-se a ilha de Menuthias "a
cerca de 300 stadia do continente (aproximadamente 55 quilmetros), baixa e
arborizada"45. Pemba  a primeira ilha importante que os navegadores vindos
do norte encontrariam e provavelmente a nica que podia ser atingida em dois
dias de viagem a partir de Lamu. Alm disso, Pemba encontra-se de fato a 50
quilmetros do continente, em contraste com os 36 quilmetros no caso de
Zanzibar. Contudo, Menuthias no era um porto comercialmente importante;
fornecia cascos de tartaruga, os mais procurados depois dos indianos, mas a
nica atividade econmica importante da ilha descrita no Priplo  a pesca46.




43    PRIPLO, 16.
44    O termo apareceu pela primeira vez em PLNIO, v. VI, p. 172, onde parece referir-se vagamente ao mar
      que se localiza no exterior do mar Vermelho. No Priplo, 15, 16 e 18, e em PTOLOMEU, v. I, pp. 17, 121,
      o termo refere-se especificamente  costa oriental da frica. Sugeriu-se que se trata de uma deturpao de
      Zanj, que mais tarde foi utilizada pelos gegrafos rabes e que aparece em PTOLOMEU e COSMAS
      sob a forma Zingisa e Zingion, respectivamente; FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1968. Ver tambm
      SCHOFF, W. H. 1912. p. 92. No levei em considerao os portos do golfo de Aden que constituam
      uma regio econmica separada, cujas principais atividades incluam a exportao de incenso e mirra e
      a reexportao da canela do sudeste asitico, o que no constitui uma caracterstica do comrcio costeiro
      ao sul de Ras Hafun: ver DATOO, B. A. 1970. pp. 71-2.
45    PRIPLO, 15; DATOO, B. A. 1970-b. p. 68; MATHEW, G. 1963. p. 95.
46    PRIPLO, 15.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                      621



    A nica cidade-mercado costeira ao sul de Ras Hafun mencionada no
Priplo  Rhapta. Segundo o documento, esse emprio encontrava-se a dois
dias de viagem martima de Menuthias, e Ptolomeu indica que se localizava
s margens de um rio do mesmo nome, "no muito distante do mar"47. Baxter
e Allen argumentam que se a viagem de dois dias comeava na extremidade
norte de Pemba e terminava num rio um pouco distante do mar, a localizao
mais provvel de Rhapta deveria ser algum ponto nas margens do rio Pangani,
que antigamente possua uma embocadura ao norte. Datoo afirma que em
razo das condies de navegao, Rhapta provavelmente encontrava-se entre
Pangani e Dar-es-Salam48. Aparentemente, Rhapta era a governada por um
chefe local submetido  suserania geral do Estado do sudoeste da Arbia. No
entanto, o Priplo d a impresso de que esta suserania consistia apenas num
monoplio comercial externo exercido por capites rabes e agentes de Muza.
A funo econmica mais importante do porto era a exportao de "uma
grande quantidade de marfim", presas de rinoceronte, cascos de tartaruga de
alta qualidade e um pouco de leo de coco. Estas mercadorias eram trocadas
por artigos de ferro, em particular "lanas fabricadas em Muza especialmente
para esse comrcio", machadinhas, punhais e furadores, diversos artigos de vidro
e "um pouco de vinho e trigo, no para comrcio, mas para conseguir as boas
graas dos selvagens"49. O rpido crescimento desse comrcio nos primeiros
sculos da Era Crist  indicado por Ptolomeu na primeira metade do sculo II.
    Ao longo da costa da Somlia estabeleceu-se um novo emprio chamado
Es Sina; Sarapion e Nikon (Tonik) so descritos respectivamente como um
porto e um emprio. Mas o desenvolvimento mais espetacular ocorreu em
Rhapta, descrita como "uma metrpole", o que, segundo o costume ptolomaico,
designa a capital de um Estado; no h mais nenhuma referncia  suserania
rabe. Ainda que se trate de uma prova negativa,  muito provvel que o
crescimento do comrcio tenha permitido a Rhapta adquirir riqueza e poder
suficientes para abolir a suserania rabe e estabelecer um Estado politicamente
independente. Provavelmente, o crescimento do comrcio se tornou possvel
devido  expanso do interior de Rhapta na poca de Ptolomeu. Ele localizava
a oeste de Rhapta no apenas as famosas montanhas da Lua, cobertas de neve,
mas tambm o monte Maste, situado prximo s fontes do rio em cujas margens



47   PRIPLO, 16; PTOLOMEU. v. I, p.17, apud ALLEN, J. W. T. 1949. p. 55.
48   BAXTER, H. C. 1944. p. 17; ALLEN, J. W. T. 1949. pp. 55-9; DATOO, B. A. 1970-b. pp. 68-9.
49   PRIPLO, 16, 17.
622                                                                                       frica Antiga



se encontrava Rhapta, e os montes Pylae, em algum lugar a noroeste50. As
informaes a respeito dessas montanhas devem ter chegado aos navegadores
greco-romanos por intermdio dos africanos ou rabes locais e parecem indicar
certas formas de contato comercial com o interior a partir de Rhapta. O corredor
mais evidente atravs das extenses selvagens da nyika  a partir da metade norte
da costa da Tanznia  e o interior mais propcio para qualquer porto importante
nesta regio correspondem ao vale do Pangani e  cadeia de montanhas que se
estende de Usambara e Upare aos cumes gelados de Kilimandjaro, onde de fato
comea o Pangani. As escavaes recentes nas Pare Hills revelaram conchas
marinhas em Gonja e contas de concha que sugerem laos comerciais com a
costa, embora os testemunhos de que dispomos atualmente no possam ser
datados antes de +50051. Todas essas consideraes favoreceriam a hiptese da
localizao de Rhapta no Pangani52.  possvel que o comrcio tambm se tenha
estendido ao longo da costa em direo ao sul, at o cabo Delgado. Embora para
o autor do Priplo Rhapta ficasse nos limites do mundo conhecido, Ptolomeu
cita um navegador grego a propsito da rea que se estende at o cabo Prason
ao sul, na extremidade de uma vasta baa pouco profunda, provavelmente a costa
cncava da Tanznia meridional, em volta da qual viviam "selvagens comedores
de homens"53.
    Desse modo, em meados do sculo II, grande parte da costa da frica oriental
e pelo menos uma poro do corredor do Pangani tinham sido incorporadas
ao sistema do comrcio internacional. O impulso que expandiu as fronteiras
comerciais at as guas da frica oriental comeou a enfraquecer com o incio
de um longo perodo de declnio do Imprio Romano no sculo III. A riqueza
da classe dominante foi dissipada pela descentralizao econmica do Imprio
e pelos confiscos dos imperadores; os consumidores urbanos arruinaram-
-se e a classe mdia burguesa empobreceu, o que levou a uma considervel
retrao do mercado, principalmente do de artigos de luxo, e ao retorno a uma
economia rural de subsistncia. O eixo do comrcio internacional deslocou-se
das especiarias, das pedras preciosas e do marfim, para o algodo e os produtos
industriais.  possvel que o comrcio direto tenha cessado inteiramente, como


50    PTOLOMEU. v. I, pp. 17, 121; id. V. IV, pp. 7, 31; WARMINGTON, E. H. 1963. pp. 66-8.
51    SOPER, R. C. 1967-b. pp. 24, 21; comunicao pessoal datada de 13 de outubro de 1972.
52    Mas de modo algum todos os autores concordam com esta localizao. At hoje, no se encontrou
      nenhuma runa antiga perto de Pangani. Houve tentativas ocasionais de identificao de Rhapta num
      stio desaparecido do esturio do rio Rufiji.
53    PRIPLO, 16, 18; PTOLOMEU. v. I, pp. 9; 1-3; id. v. II, pp. 17, 121.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                623



sugere a visvel lacuna do testemunho numismtico. Contudo, houve um breve
renascimento no final do sculo III e incio do IV, com a reconsolidao poltica
do Imprio. Embora no seja satisfatrio, o testemunho numismtico de que
dispomos para a frica oriental sugere uma flutuao semelhante. A coleo
Haywood, j mencionada, inclua seis moedas da Roma imperial datadas at a
metade do sculo II da Era Crist. Depois de uma lacuna que se estende at o
final do sculo III, a coleo volta a cobrir o perodo que vai at o sculo IV, com
setenta e nove moedas. A coleo de Dimbani parece ter apenas uma moeda do
sculo I, sendo que o restante das peas romanas identificadas provavelmente
pertence aos sculos III e IV da Era Crist54.
    Quais foram as consequncias do envolvimento da frica oriental neste
sistema comercial? Em seu apogeu, tal comrcio pode ter estimulado o
crescimento econmico atravs do fornecimento de objetos de ferro (embora,
ao que tudo indica, a maior parte tenha consistido em armas de guerra), e,
talvez, do conhecimento da metalurgia, que teria uma importncia fundamental
para a histria da frica oriental55. Alm disso, a demanda de marfim, chifres
de rinoceronte e cascos de tartaruga valorizou tais recursos, que provavelmente
tinham pouco valor local, aumentando assim as fontes de riqueza dessa parte
do continente. A referncia  exportao de leo de coco, por sua vez, sugere
a introduo dessa valiosa planta proveniente do leste e a implantao de uma
certa atividade industrial para extrao do leo. O comrcio internacional pode
ter provocado ainda a urbanizao incipiente das cidades-mercado, que recebiam
a visita dos comerciantes estrangeiros mas eram habitadas principalmente pelos
africanos e pela emergente classe dos mestios da costa, cada vez mais voltados
para o exterior e dependentes do comrcio externo, de que constituam o vnculo
local. A riqueza resultante do comrcio beneficiou essa classe e pode ter levado
a uma concentrao de fortunas e de poder suficientes para permitir que Rhapta
proclamasse sua autonomia. Mas esta cidade no procurava de modo nenhum
desligar-se do comrcio internacional, de que dependia sua prosperidade. Na
medida em que se havia tornado dependente dessa atividade, sua economia
pode ter-se destorcido e desequilibrado, devido  enorme importncia dada
 exportao de alguns produtos de luxo para o opulento Imprio Romano,
tornando-a portanto vulnervel s flutuaes comerciais. Quando os godos
comearam a cercar Roma (que foi derrotada em +410), aniquilaram tambm o


54   ORTEIL, F. 1956. pp. 250, 266-7, 273-5, 279; CHARLESWORTH, M. P. 1926. pp. 61, 71. Para os
     testemunhos numismticos na frica oriental ver pp. 610-11.
55   POSNANSKY, M. 1966-a. pp. 87,. 90.
624                                                                                         frica Antiga



sistema econmico centralizado nesta cidade, com amplas consequncias para
todas as regies dele dependentes. Desse modo, a distante Rhapta pode ter-se
arruinado. At agora no se descobriu nenhum trao dessa "metrpole" na costa
da frica oriental.


      O Reajustamento das relaes exteriores da frica
      Oriental
   A desintegrao do sistema de comrcio internacional provavelmente teve
um efeito catastrfico semelhante em outro estado: o Himiar, no sudoeste da
Arbia. O declnio da demanda romana do incenso a produzido e de outros
produtos de luxo para os quais servia de intermedirio sem dvida afetou seu
equilbrio, deixando-o  merc das invases etopes e, posteriormente, persas.
No mar, esse estado deve ter perdido muito de sua posio de intermedirio,
em parte para os etopes  cujo porto de Adulis surgia agora como centro de
exportao de marfim do alto Nilo para o Mediterrneo e tambm para o leste,
em direo  Prsia e at mesmo  ndia (at ento auto-suficiente), o que marca
um importante deslocamento das correntes do comrcio do marfim56.
   Contudo, no  provvel que os etopes tenham sido capazes de suplantar
inteiramente os rabes como agentes de comrcio no oeste do oceano ndico.
Mais a leste, a Prsia surgia como uma importante potncia martima. Os
sassnidas comearam a encorajar a navegao persa no sculo III da Era Crist,
a monopolizar o comrcio com a ndia no sculo VI e a estend-lo at a China,
o mais tardar por volta do sculo VII. Expandiram-se tambm para oeste, a
fim de obter o controle sobre a outra rota de comrcio para o mar Vermelho,
conquistando no incio do sculo VII o sudoeste da Arbia e do Egito. Embora
o Imprio Persa tenha sucumbido sob o ataque muulmano em cerca de +635,
existem muitas provas de que seus navegadores continuaram a dominar durante
muito tempo o comrcio do ndico, legando ao conjunto do mundo costeiro
desse oceano um importante vocabulrio nutico e comercial57.
   O domnio persa sobre o oeste do oceano ndico nos sculos VI e VII,
particularmente tendo em vista o declnio dos rabes e a incapacidade dos

56    BEEK. G. W. van. 1969. p. 46; PANKHURST. R. K. P. 1961. no. 26-7; COSMAS. p. 372; HOURANI,
      G. F. 1969. pp. 42-4.
57    HASAN, H. 1928; HOURANI, G. F., 1969. pp. 38-41, 44-65; PROCPIO DE CESAREIA. V. I, pp.
      193-5; RICKS, .T. M. 1970. pp. 342-3. Uma fonte chinesa do sculo IX menciona atividades comerciais
      persas na costa da Somlia: DUYVENDAK, J. L. 1949. p. 13.
A costa da frica oriental e seu papel no comrcio martimo                                     625



etopes para substitu-los, sugere que os persas tinham uma influncia comercial
dominante na costa da frica oriental. Embora a costa possa no ter ficado
sob sua hegemonia poltica, como se acreditava, no  impossvel que a forte
tradio da imigrao shirazi (persa) para a costa da frica oriental se tenha
originado nesse perodo. Infelizmente, h um hiato nas fontes documentais
entre os autores greco-romanos e os escritores rabes do sculo IX, e no se
descobriu nenhum testemunho arqueolgico sobre o perodo pr-islmico na
costa,  exceo de cinco moedas partas e sassnidas dos trs primeiros sculos da
Era Crist, que podem ter sido desenterradas em alguma parte de Zanzibar. No
entanto, h provas de contatos comerciais entre a frica oriental e o golfo Prsico
pelo menos desde o sculo VII, que j pertencem ao perodo islmico, embora
possam se estender tambm ao perodo pr-islmico. J existem referncias
a importaes de escravos da frica oriental (Zanj) e de outros lugares, para
servirem de soldados, domsticos e trabalhadores agrcolas nas terras pantanosas
do sul do Iraque. Aparentemente, no fim do sculo, eles j eram suficientemente
numerosos para se revoltarem pela primeira vez, embora o mais espetacular
desses levantes tenha ocorrido cerca de dois sculos mais tarde. Tambm h
indicaes de que escravos zanj teriam chegado  China desde o sculo VII58.
    Os persas e o golfo Prsico tambm podem ter comeado a desempenhar um
papel importante como intermedirios entre a frica oriental e a ndia. A queda
do Imprio Romano tinha privado a frica oriental de seu principal mercado
de marfim, num momento em que a ndia era ainda muito auto-suficiente. Mas
j no incio do sculo VI a demanda indiana de marfim para a fabricao de
enfeites nupciais parece ter excedido as disponibilidades locais. Essa demanda
era garantida pela destruio ritual regular desses ornamentos aps a dissoluo
do casamento hindu pela morte de um dos cnjuges. No sculo X, a ndia e a
China eram os mercados mais importantes de marfim da frica oriental59.
    Por volta do fim do sculo VII, portanto, tinham se restabelecido slidos
laos comerciais entre a costa da frica oriental e as margens setentrionais do
oceano ndico. A crescente demanda de marfim na ndia permitiu ao menos
a criao de laos comerciais entre as duas regies de "floresta", e o mercado
indiano serviu a frica oriental at o sculo XIX. Em troca, os africanos
orientais provavelmente recebiam uma variedade de artigos manufaturados,


58   RICKS, T. M. 1970. pp. 339, 343; RIAVI, S. A. 1967. pp. 200-1; MATHEW, G. 1963. pp. 101, 107-8.
     Para os trabalhos numismticos ver pp. 610-11.
59 COSMAS. p. 372; FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-a. p. 25; AL-MAS'UDI. in FREEMAN-
   -GRENVILLE, G. S. P. 1962-b. pp. 15-16.
626                                                                  frica Antiga



incluindo tecidos e prolas. Tais trocas sustentavam as cidades-estado fundadas
ao longo da costa. Durante esta segunda fase de sua histria, porm, o comrcio
da costa da frica oriental passou por apenas uma reorientao, sem que se
alterassem seus aspectos fundamentais: diversificou-se o mercado do marfim,
mas a economia no se libertou da dependncia da troca de algumas matrias-
-primas por produtos manufaturados de luxo. Embora a exportao de escravos
no constitusse um fluxo excessivamente violento e ininterrupto, reduzia os
recursos humanos, e pode ter sido um fator bsico em certos lugares e pocas na
histria da frica oriental, antes mesmo do sculo XIX. Contudo, o comrcio era
controlado por uma populao costeira, produto do comrcio internacional e que
dependia de sua continuidade para prosperar. Dificilmente se poderia esperar
dela alguma iniciativa no sentido de se desligar das relaes de dependncia e
de subdesenvolvimento.
A frica oriental antes do sculo VII                                         627



                                        CAPTULO 23


       A frica oriental antes do sculo VII
                                         J. E. G. Sutton




     mais fcil conhecer a situao dos povos e das sociedades da frica oriental
depois do ano 100 da Era Crist do que durante os perodos mais antigos. Esto
em andamento vrias pesquisas sobre esses tempos mais remotos e os resultados
levam a uma reviso constante, parcial ou total, das concluses anteriores.
    O estudo dos dois milnios que vo de -1000 a +1000  difcil, pois exige
mtodos mais refinados e uma grande quantidade de informaes que a
arqueologia ainda no pde fornecer em sua totalidade. Portanto, a pesquisa
que se segue , em vrios aspectos, conjetural, hipottica e mesmo provocadora
e tem por objetivo estimular a reflexo e a pesquisa.
    O mtodo utilizado para a abordagem da histria antiga da frica oriental 
essencialmente cultural; trata-se de uma tentativa de reconstruir o modo ou os
modos de vida, nos limites dados pelo conjunto dos testemunhos arqueolgicos,
antropolgicos e lingusticos. Faremos referncias frequentes aos `grupos lingusticos,
que, enquanto tais, podem ser menos importantes do que as consideraes culturais
e econmicas mais abrangentes. Entretanto, a linguagem  um elemento da cultura
e da histria, algo transmitido (apesar de contnuas modificaes) de gerao para
gerao numa comunidade;  um meio graas ao qual as populaes se identificam
claramente enquanto grupos e se distinguem umas das outras. (De um certo modo,
os "outros" podem ser considerados aparentados, se as lnguas forem parcialmente
inteligveis ou apresentarem traos comuns. Inversamente, se no houver nenhuma
628                                                                                               frica Antiga



afinidade evidente, podem ser considerados totalmente estrangeiros). Por essas razes
 que, em geral, as definies lingusticas e as classificaes dos povos oferecem um
mximo de clareza e utilidade para os antroplogos e historiadores. As lnguas
tratadas neste captulo so especificadas no grfico e no mapa seguintes e em geral
seguem o esquema reproduzido em Zamani (editado por Ogot e Keiran, 1968), que
se baseia na classificao das lnguas africanas de Greenberg.


      A tradio da caa na savana meridional
    Durante vrios milnios antes da Idade do Ferro, em toda a regio de savanas
e florestas abertas que recobrem a maior parte da frica a leste e ao sul do
grande cinturo florestal equatorial, a populao era constituda essencialmente
de caadores-coletores que utilizavam o arco, a flecha e as tcnicas avanadas
do trabalho da pedra (principalmente as da grande cultura de Wilton dos
arquelogos  ver Volume I). Em geral, essas populaes pertenciam a um tipo
fsico cujos descendentes so, hoje em dia, os chamados San e Khoi-Khoi, que
habitam o Calaari e seus arredores.  provvel que sua lngua se classifique
entre as da famlia khoisan, que se distingue por seus "cliques". Atualmente
essas lnguas se limitam aos Khoi e aos San da frica do sul e do sudoeste, bem
como a dois pequenos grupos independentes da frica oriental, os Sandawe e
os Hadza, que vivem no norte da Tanznia central1.
    Os Hadza permanecem caadores e coletores. Pouco numerosos, dotados
de uma razovel mobilidade, so geis na procura e no aproveitamento dos
recursos alimentares silvestres existentes em seu territrio2. Os Sandawe, por sua
vez, foram durante algum tempo agricultores e criadores de cabras e gado; mas
conservam uma forte ligao cultural com a selva e um conhecimento instintivo
de seu potencial. Em seu tipo fsico geral, essas duas tribos so negroides;
contudo, alguns observadores perceberam traos de uma outra ascendncia entre
os Sandawe e, possivelmente, tambm entre os Hadza. A mestiagem com as
populaes negroides vizinhas explicaria essa tendncia.
     interessante notar ainda que, contrariamente ao resto da frica oriental, o
territrio dos Hadza e dos Sandawe e a rea que os separa oferecem numerosos


1     Em geral, os Hadza so designados pelo nome menos preciso de "Tindiga". A classificao de sua lngua
      como khoisan foi contestada, mas provavelmente est correta. No existem grandes dvidas acerca da
      classificao dos Sandawe na famlia khoisan.
2     Atualmente, o governo tanzaniano procura fixar os Hadza nas aldeias, fornecendo-lhes instrues agrcolas.
                                                                                                                                  A frica oriental antes do sculo VII
                                                                                                                                  629




figura 23.1   frica oriental: mapa poltico e mapa indicativo da distribuio de lnguas e povos. (Mapa fornecido pelo autor.)
630                                                                       frica Antiga



exemplos de pinturas rupestres, encontradas nas paredes internas dos abrigos
naturais que esporadicamente serviam de acampamento e de bases familiares
durante a Idade da Pedra Recente. Essas pinturas3 tm um significado social e
frequentemente religioso ainda mal compreendido; tambm do indicaes
valiosas sobre os mtodos de caa, a alimentao e a vida cotidiana. Em vrias
partes da frica do Sul encontraram-se manifestaes artsticas dessa mesma
poca, tambm pintadas nas paredes dos abrigos sob rocha; e embora existam
algumas diferenas nitidamente regionais, podem-se estabelecer diversos paralelos
entre os estilos, temas e tcnicas utilizados na frica do Sul e na Tanznia. Os
paralelos artsticos so complementados pelo parentesco geral existente entre as
tcnicas wiltonienses de talhar a pedra empregadas pelos ocupantes dos abrigos
sob rochas nas duas regies. Apesar de hoje em dia nem os Hadza nem os
Sandawe praticarem seriamente a pintura  do mesmo modo que abandonaram
a fabricao de utenslios de pedra , parece que num dado momento da Idade
da Pedra Recente esta regio partilhou uma mesma tradio tnica e cultural
com as reas meridionais.
    Esse modo de vida amplamente difundido dos caadores-coletores da savana
tinha possibilidades econmicas e desenvolvimento cultural prprios. Embora
viesse da coleta a parte principal dos alimentos consumidos (como indicam os
estudos recentes sobre os San e outros grupos), a busca da carne, que constitua
a tarefa mais difcil e respeitada, era essencial para o estabelecimento de uma
dieta equilibrada e a satisfao do apetite. Tudo isso dependia de um certo
grau de mobilidade, com acampamentos sazonais mas no estabelecimentos
permanentes, com homens seguindo os deslocamentos da caa e explorando os
recursos vegetais do territrio. Tais prticas teriam restringido o crescimento
da populao e, talvez, inibido mudanas. Isso ajuda a explicar por que, durante
os milnios recentes, essa antiga populao da savana foi assimilada pelas
comunidades de pescadores, pastores e agricultores que, empregando mtodos
mais intensivos e produtivos para a obteno de alimentos, puderam manter
bases mais estveis, crescer em nmero e ampliar seu territrio.
    Portanto, a maior parte da vasta regio outrora ocupada pelos caadores-coletores
tornou-se posteriormente domnio dos agricultores bantu. Em algumas dessas regies
bantu, a tradio oral menciona encontros casuais com estranhos homens pequenos
que antigamente teriam vivido e caado na selva e na floresta. Tais relatos no so
historicamente precisos, mas  bem provvel que reflitam vagas lembranas


3     Ver Volume I, Captulo 26.
A frica oriental antes do sculo VII                                          631



transmitidas h um milnio ou mais, desde quando os Bantu colonizaram
este setor do sul da frica central, confinando e assimilando gradualmente as
populaes san, mais esparsas e cujo modo de vida era muito diferente do seu.
Em contraste, essa antiga tradio de caa se reflete no perodo agrcola mais
recente na importncia dada s faanhas e habilidades da caa nas lendas bantu.
O fundador de uma linhagem real  frequentemente um arqueiro errante ou o
chefe de um grupo. Isso parece derivar de uma antiga ideologia que exaltava a
fora e a coragem, o bom senso e a perseverana do caador vitorioso, capaz de
levar para casa a carne to apreciada.
    Contudo, nem toda a frica oriental se tornou parte integrante do mundo
bantu. Como se ver mais adiante, Uganda do norte, grande parte do Qunia
e setores do norte da Tanznia central foram durante muito tempo ocupados
por populaes distintas, que falavam lnguas cuxitas, nilticas, etc. Algumas
dessas populaes se estabeleceram durante a Idade do Ferro e outras ainda
mais cedo. Nesses lugares e mais ao sul h traos etnogrficos e arqueolgicos
indiscutveis da existncia em pocas recentes e longnquas de numerosas
comunidades de caadores-coletores. Em sua maioria, elas provavelmente
no eram representativas da tradio das savanas meridionais. Embora seja
difcil definir o limite setentrional dessa tradio, no existe um bom motivo
para situ-lo alm do lago Vitria e do Equador. A documentao sugere s
vezes que as populaes do tipo san antigamente se estendiam at o Chifre da
frica e o Mdio Nilo; mas essa tese baseia-se em provas e argumentos muito
precrios  alguns fragmentos de esqueletos pouco convincentes ou originrios
de pocas muito anteriores  diferenciao completa dos tipos fsicos africanos
mais recentes; conjuntos de utenslios da Idade da Pedra Recente de Uganda
setentrional, do Qunia, da Etipia e da Somlia, que apresentam algumas
semelhanas vagas ou gerais com as indstrias wiltonienses das regies do sul;
enfim, a existncia, em vrios lugares, dessas pequenas comunidades de caadores
recentes e de habitantes, das regies de matas. A caracterstica desses diferentes
grupos  que s alguns deles so social ou economicamente independentes.
Geralmente vivem nos limites ou ento no interior do territrio dos agricultores
e pastores cuxitas e nilticos; falam sua lngua e lhes fornecem os produtos da
savana e da floresta  mel, peles, carne, etc. Alguns desses grupos  certos bandos
dorobo nas terras altas do Qunia, por exemplo  no so necessariamente
nativos caadores-coletores, mas o resultado de oportunidades mais recentes
de especializao ou de retorno  floresta de indivduos que no se adaptaram
 vida em sociedade. Em certas regies de lngua ou de forte influncia cuxita,
no Qunia e na Etipia, tais grupos tendem mais a constituir castas distintas
632                                                                     frica Antiga



do grupo principal do que populaes de marcada identidade. De modo geral,
dedicam-se a atividades "impuras", principalmente as de oleiro e ferreiro, em
benefcio da comunidade como um todo.  claro que tais ocupaes eram
totalmente estranhas  velha tradio da caa e da coleta nas savanas.
   Contudo,  muito provvel que essas regies setentrionais da frica oriental
tenham constitudo, durante uma grande parte da Idade da Pedra Recente uma
zona fronteiria instvel  determinada em parte pelas mudanas climticas 
entre as culturas das populaes de tipo san das savanas meridionais e outras
estabelecidas na frica do nordeste ou central. Ainda h muito que aprender
sobre essas regies.  possvel, no entanto, identificar no interior ou nos limites
da frica oriental pelo menos duas outras grandes tradies culturais e entidades
tnicas que tambm ignoravam a agricultura e a criao de animais durante os
milnios recentes e que sero o tema dos dois captulos seguintes.


      A tradio da coleta e da caa com armadilha na floresta
      equatorial
    Na floresta pluvial da bacia do Congo e principalmente nas suas margens
orientais que se prolongam at Ruanda e o sudoeste de Uganda, vivem os
Pigmeus. Sua importncia e seu nmero diminuram com o correr do tempo,
devido  expanso gradual dos agricultores sedentrios, principalmente bantu,
que desbastaram uma boa parte da floresta e reduziram os recursos alimentares
naturais de que os Pigmeus extraam sua subsistncia. Muitos deles foram
assimilados, mas outros sobrevivem em grupos independentes, embora mantendo
relaes com seus vizinhos bantu e falando a lngua destes.
    Embora fosse, como a dos San, baseada na caa de animais selvagens e
na coleta de vegetais, a economia dos Pigmeus que viviam na floresta exigia
um ajustamento ecolgico e uma especializao tecnolgica muito especficos.
Classificar os Pigmeus e os San na mesma categoria de "caadores-coletores"
seria ignorar a diferena entre seus modos de vida e de pensar, to diversos um do
outro como o so do dos agricultores bantu. O modo de vida dos Pigmeus, como
o dos San, deve representar uma antiga tradio cultural e econmica ligada a
um certo meio, neste caso  floresta densa, cuja natureza permite explicar as
particularidades fsicas e a pequena estatura desses povos.
    Todavia, existem pouqussimos dados histricos sobre os Pigmeus e sua
distribuio geogrfica anterior, ainda que se tenha tentado, na bacia do Congo,
estabelecer uma correlao entre certos vestgios da Idade Mdia e Recente
A frica oriental antes do sculo VII                                         633



da Pedra (complexo lupembo-tshitoliense). A distribuio e a datao desse
complexo indicam ao menos uma importante tradio florestal de origem
antiga e que sobreviveu at uma poca recente. A leste de Ruanda encontram-
-se poucos traos de suas ltimas fases; ainda que se tratasse de trabalhos dos
Pigmeus, seria difcil sustentar a tese de sua expanso na frica oriental durante
a Idade da Pedra Recente, mesmo nas pocas em que as precipitaes eram mais
abundantes e a floresta mais extensa.
    Realmente encontram-se aluses, em obras histricas e antropolgicas,
 presena anterior de Pigmeus disseminados em diversas regies da frica
equatorial. Algumas delas parecem se basear em concepes etnogrficas errneas,
outras em dados folclricos ou vagas tradies orais que mencionam populaes
pouco numerosas vivendo da caa e da coleta em tempos antigos. Tanto quanto
estes relatos se refiram a populaes precisas e a perodos determinados,
provavelmente se relacionam, na maior parte dos casos, aos caadores de tipo
san, ligados  tradio da savana ou, na regio setentrional da frica do leste, a
grupos distintos, os Dorobo e outros povos silvestres j mencionados.
    Entre esses povos lendrios da floresta, merecem meno especial os Gumba,
de que falam os Kikuyu do Alto Qunia oriental.  grande a confuso sobre os
Gumba e seu modo de vida. Tal se deve, em primeiro lugar,  falta de preciso
dos testemunhos e  tendncia dos informantes de racionalizar suas lendas;
em segundo lugar, deve-se aos erros de registro e anlise dos historiadores.
Contudo, no territrio kikuyu existem vestgios arqueolgicos indiscutveis de
populaes que, durante os ltimos dois milnios, viveram numa determinada
poca na floresta densa, onde construram e, aparentemente, habitaram grupos
de curiosas cavidades circulares nos cumes das montanhas. Embora talhassem
a pedra, provavelmente no era um vestgio local e isolado da Idade da Pedra
Recente. Sua cermica e a possvel utilizao do ferro sugerem que mantinham
algumas relaes culturais com os antigos Bantu das terras altas, para quem
provavelmente desempenhavam funes econmicas especiais.
    Trata-se realmente dos Gumba das lendas? A questo continua em aberto. 
certo, porm, que, quando essas populaes forem mais bem estudadas, oferecero
o exemplo de uma etnia localizada que produziu uma cultura florestal especfica,
ainda que em poca muito recente, numa relativa simbiose com as culturas das
populaes agrcolas vizinhas. Nesse nvel bastante geral de adaptao ao meio
ambiente,  possvel fazer uma comparao com os Pigmeus da bacia do Congo;
no entanto, a despeito das especulaes de certos autores, nada permite supor
que estes primeiros habitantes das florestas das terras kikuyu, Gumba ou no,
tenham realmente pertencido  etnia dos Pigmeus.
634                                                                     frica Antiga



      A tradio aqutica da frica Central
    Essa questo, h tanto tempo negligenciada, foi examinada no volume
precedente desta Histria4. Portanto,  suficiente estudar aqui a evoluo final
desse modo de vida peculiar.
    Por volta de -5000, o clima se tornou sensivelmente mais seco. Alimentadas
por rios menos numerosos e de menor volume, as guas dos lagos desceram
muito abaixo dos nveis mximos anteriores. Assim, a continuidade geogrfica
e, em alguns lugares, os fundamentos econmicos do modo de vida aqutico
estavam ameaados, e encerrados os dias de sua hegemonia cultural. No entanto,
aproximadamente em -3000, o clima voltou a ser mido durante um certo tempo
e, em consequncia, a gua dos lagos recomeou a subir (sem atingir, contudo,
os nveis do stimo milnio). No Qunia, no Rift Valley oriental ocorreu nesta
poca a ressurreio de uma cultura aqutica, modificada sem dvida em razo
de novas migraes e de novos contatos com o Mdio e o Alto Nilo. s margens
dos lagos Rodolfo e Nakuru, descobriram-se vestgios desta fase aqutica recente,
que incluem cermicas de estilo original e vasos de pedra pouco profundos que,
em geral, parecem datar de -3000. Apesar da ausncia aparente de arpes nos
stios desse perodo, parece certo que as populaes se dedicavam  pesca. Mas 
muito provvel que a dieta no fosse predominantemente constituda de produtos
aquticos, como na fase principal, trs a cinco mil anos antes. Por volta de -2000,
paralelamente ao retorno da tendncia  aridez, as possibilidades de uma cultura
aqutica foram definitivamente destrudas na maior parte do Rift Valley oriental.
    Ao que tudo indica, a populao desta ltima fase aqutica tambm era
fundamentalmente negra. Apesar de no dispormos de dados indiscutveis
sobre sua lngua,  razovel supor que pertenciam a algum dos ramos da famlia
Chari-Nilo (ramo oriental do nilo-saariano).
    Supe-se que a grande civilizao aqutica, tanto a fase principal (entre -8000
e -5000) quanto seu ressurgimento posterior (por volta de -3000), se localizava
ao longo dos rios e pntanos da bacia do Alto Nilo, principalmente s margens
do maior lago da frica oriental, o Vitria. Curiosamente, parecem no existir
vestgios dos milnios em questo. No entanto, durante o primeiro milnio antes
da Era Crist, havia populaes que acampavam nas ilhas e em abrigos sob rochas
ou em campo aberto  beira do lago e dos rios da regio. Alimentavam-se de peixes
e moluscos, mas tambm de caa e talvez de bovinos e carneiros. No se sabe se


4     Ver Volume I, Captulo 20.
A frica oriental antes do sculo VII                                            635



algumas delas cultivavam a terra; mas h traos interessantes de cortes efetuados
nessa poca na floresta em torno do lago Vitria, o que indica ao menos uma forma
nova e relativamente intensiva de utilizao das terras. Conhecida pelo nome de
kansyore, a cermica dessas populaes apresenta algumas afinidades marcantes com
as cermicas "de linha sinuosa pontilhada", bem mais antigas, da primeira civilizao
aqutica. At onde se sabe, h muito tempo estas cermicas foram substitudas
no vale do Nilo e, portanto,  pouco provvel que os tipos kansyore tenham sido
introduzidos na regio do lago Vitria apenas no primeiro ou segundo milnio antes
da Era Crist. Aqui, como em outros lugares, a tradio aqutica remonta a vrios
milnios, mas  mais provvel que tudo que lhe  atribudo pertena apenas  sua
fase mais recente, que se encerrou exatamente antes do incio da Idade do Ferro.
Neste caso, pode-se perguntar se ainda no esto por descobrir os vestgios do antigo
modo de vida aqutico, nas margens dos lagos mais meridionais da frica oriental
 principalmente em toda a extenso do lago Tanganica.
    Nenhum ndice preciso permite determinar o grupo lingustico a que
pertenciam essas populaes do lago Vitria no primeiro milnio antes da Era
Crist, mas  possvel que se trate do grupo sudans central (ramo do Chari-
-Nilo). Essa regio e a que se situa mais ao sul foram povoadas por Bantu
desde o incio da Idade do Ferro. Segundo certos linguistas, esses Bantu teriam
assimilado, em seu processo de fixao, uma populao mais antiga e menor, que
falava uma lngua do grupo sudans central e que lhes teria ensinado as tcnicas
de criao de ovinos e bovinos. Na falta de palavras prprias para designar tais
"novidades", os Bantu tomaram-nas de emprstimo aos habitantes anteriores
dessas regies, cuja lngua se extinguiu. Ainda no se descobriu nada, ao sul do
lago Vitria, que possa levar a uma confirmao arqueolgica desta hiptese.
Em torno do lago, porm, podem-se relacionar os stios que contm cermica
kansyore ao grupo lingustico sudans central, principalmente se estiver correta
a associao, verificada em certos locais, com vestgios de carneiros e de gado de
grande porte remontando ao primeiro milnio antes da Era Crist.  possvel
que, nessa poca, uma civilizao aqutica isolada e em franco declnio se tenha
revigorado em funo de contatos estabelecidos a leste com uma nova civilizao
pastoril, que se teria implantado nas terras altas do Qunia.


    A tradio pastoril dos cuxitas
   De fato,  medida que se estabeleceu um regime climtico mais seco, por
volta do segundo milnio antes da Era Crist, as guas dos lagos comearam a
636                                                                    frica Antiga



baixar, at atingir aproximadamente seu nvel atual; em certos casos os peixes
desapareceram. As florestas tambm cederam terreno, dando lugar, sobretudo no
Rift Valley oriental e nos planaltos vizinhos, a excelentes pastagens de montanha.
Embora sempre se pudesse pescar nas margens do lago Vitria e de vrios outros
lagos e rios, e assim preservar certos elementos do antigo modo de vida aqutico,
essa tradio j havia perdido sua grande continuidade geogrfica e a segurana
cultural que a isso estava ligada nos tempos anteriores. Na maior parte da frica
central e particularmente em sua extremidade oriental, o pretgio passou a se
vincular  criao de gado; continuar a viver prximo das guas e graas a elas
era considerado retrgrado e um sinal de estagnao intelectual. No se tratava
apenas de um modo de vida arcaico: aos olhos dos agrupamentos pastoris mais
favorecidos era algo brbaro e impuro. Os primeiros pastores da frica oriental
reconheciam-se no apenas por sua lngua cuxita e pela importncia que davam
 circunciso, mas tambm devido ao tabu em relao ao peixe.
    H longo tempo, nesta zona da frica do leste em que o pasto  de boa
qualidade e cresce em quantidade suficiente, e que, alm disso, est livre da
mosca ts-ts e das doenas endmicas, o rebanho  objeto de prestgio e sinal
de riqueza. Mas  importante entender que esta ideologia do rebanho est
fundada numa rigorosa percepo das realidades econmicas. O gado fornece
a carne e, principalmente, o leite. Mesmo entre as populaes que extraem dos
campos a maior parte do alimento, o gado  uma importante fonte de protenas
e uma segurana contra as fomes periodicamente causadas por secas ou outros
flagelos. Alm disso, no se deve subestimar o importante papel das cabras e dos
carneiros, que geralmente so os principais fornecedores de carne das populaes
que vivem da agricultura e da criao de gado.
    Os primeiros bovinos africanos orientais foram introduzidos nas terras altas e
na regio do Rift Valley do Qunia h aproximadamente trs mil anos; pertenciam
provavelmente a uma espcie de chifres longos e sem corcova. Em diversos stios
arqueolgicos anteriores  Idade do Ferro foram encontrados esqueletos de vacas
e de cabras (ou de ovelhas) datados do primeiro milnio. Embora alguns desses
stios fossem habitados, trata-se mais frequentemente de sepulturas, descobertas
em grutas ou, mais comumente, sob cairns (montculos de pedras).  evidente
que um estudo mais completo da economia dessas populaes do primeiro
milnio tem necessariamente de aguardar a descoberta e o exame meticuloso
de um nmero maior de stios ocupados pelo homem; no entanto, os objetos
depositados nos tmulos, ainda que evidentemente tenham sido especialmente
escolhidos e se ligassem a um significado religioso, frequentemente esto mais
bem conservados e devem, de uma forma ou de outra, refletir o modo de vida
A frica oriental antes do sculo VII                                                                     637



da populao ou sua atitude diante da vida. Entre as descobertas feitas at agora,
figuram rebolos e piles, tigelas e potes fundos de pedra; cabaas e recipientes
de madeira que provavelmente deviam conter leite; cestas, cordas, machados de
pedra polida, e peas de marfim talhado; colares de contas de diferentes pedras,
de ossos, de conchas e de matrias vegetais. Enquanto complexo cultural, trata-
-se, aproximadamente, do equivalente ao que anteriormente era descrito como
stone bowl culture (cultura das tigelas de pedra) em sua principal e ltima fase;
mas provavelmente se descobrir que este complexo engloba, em realidade, uma
srie de comunidades e de variantes culturais.
    A economia no era exclusivamente pastoril. Costumavam -se caar
antlopes e outras espcies, e  possvel que isso ocorresse principalmente
entre as comunidades mais pobres. Ainda no se sabe ao certo se esses povos
cultivavam certas variedades de sorgo ou milhete ou ainda outras plantas, mas
 muito provvel. Primeiramente, a quantidade das cermicas descobertas
em alguns desses stios sugere que pelo menos uma parte da populao era
mais sedentria do que seria de esperar de uma comunidade exclusivamente
pastoril; e as ms tambm supem o cultivo, a preparao e o consumo de
cereais. Contudo, essas grandes ms planas e os piles que as acompanham
podem ter servido para moer vegetais selvagens ou mesmo produtos no
alimentcios. Algumas das que foram achadas nos tmulos, por exemplo,
esto tingidas do ocre vermelho utilizado para enfeitar os corpos. Mas isso
no elimina necessariamente a possibilidade de seu emprego utilitrio na
vida cotidiana. Existe outro argumento mais persuasivo em prol da existncia
de algum tipo de agricultura: se essas populaes no tivessem recorrido a
outras fontes de alimentao,  pouco provvel que pudessem sobreviver longo
tempo em caso de uma crise grave consecutiva a longos perodos de seca ou a
epidemias do gado. Isso porque s para grupos muito pequenos e disseminados
 que a caa e a coleta serviriam de substitutos temporrios do pastoreio
e de principal recurso alimentar5. Contudo, a predominncia da criao de


5     verdade que em sculos recentes algumas sociedades pastoris conseguiram abandonar completamente a
     agricultura (e mesmo menosprezar a caa). Mas isto s foi possvel graas a um sistema de troca com os
     vizinhos agricultores, que lhes forneciam os cereais e outros vegetais necessrios  sobrevivncia durante
     a estao da seca, ou s incurses em territrios de outros povos de economia mista agropastoril. Esta
     ltima prtica era essencial para as tribos centrais dos Massai, que, apesar do controle que exerciam
     sobre as grandes extenses de ricas pastagens montanhesas, sempre consideravam insuficientes seus
     recursos em carne, e que  mais importante  se viam na obrigao de, aps as perdas de gado ou os
     maus anos, adquirir novos touros reprodutores e reconstituir sem demora seus rebanhos de vacas leiteiras,
     para assegurar a sobrevivncia de seu modo de vida e de sua comunidade. Nenhuma dessas solues era
     acessvel aos criadores de gado da frica oriental do primeiro milnio antes da Era Crist.
638                                                                         frica Antiga



animais e de uma economia fundada no gado  ilustrada pela distribuio
geogrfica dessas populaes, virtualmente confinadas nas regies ricas em
pastagens extensivas. No norte da Tanznia as terras altas, onde se encontra a
bacia verdejante da cratera de Ngorongoro com seus cemitrios dessa poca,
formavam o limite meridional dessa vasta zona pastoril. Uma populao mais
habituada a combinar as atividades de criao com a agricultura poderia ter -se
estendido mais alm, pelas reas frteis que margeavam essas terras a leste e
a oeste, e sem dvida teria seguido mais para o sul.
    Os diferentes estilos de cermica e outras caractersticas da cultura material
desses primeiros pastores das terras altas e do Rift Valley do Qunia e da Tanznia
setentrional parecem revelar influncias da regio do Mdio Nilo. No entanto,
trata-se provavelmente de influncias indiretas, que do apenas um plido reflexo
do modelo original. Tais influncias no significam necessariamente que o gado
e seus pastores fossem originrios daquela regio;  mais provvel que sejam
o resultado de uma assimilao devida aos contatos com a antiga populao
aqutica e com as populaes nilticas; estes dois ltimos grupos relacionavam-
-se h muito tempo atravs dos lagos do Rift Valley. Pode-se encontrar um
exemplo disso na persistncia das estranhas tigelas de pedra nesta regio durante
aproximadamente dois mil anos, do fim do perodo aqutico at o incio do
perodo pastoril.
    Os contrastes regionais tambm so significativos. De fato, a partir do
segundo milnio antes da Era Crist estabeleceu-se uma linha divisria cultural
na direo norte-sul, tendo a leste as terras altas da Etipia e do Qunia (com
suas plancies ridas), onde se entrincheirava a tradio pastoril, e a oeste a bacia
do Alto Nilo, com o lago Vitria, onde uma economia aqutica permanecia
praticvel por populaes pouco numerosas. Em nenhum momento essa linha
divisria constituiu uma barreira intransponvel entre os povos e as ideias que,
na realidade, continuaram a circular em ambas as direes, antes e durante a
Idade do Ferro. Todavia, ela representa o encontro de duas tradies culturais
importantes e em geral distintas. Isso se reflete nas comparaes e anlises
lingusticas e, com menos preciso, nas observaes da antropologia fsica.
    Embora seja difcil generalizar a partir de tipos fsicos, tem-se a clara impresso
de que as populaes situadas a oeste dessa linha so tipicamente negras, o
que parece ocorrer bem menos com os habitantes das terras altas e plancies
orientais. Os estudos lingusticos ressaltam as influncias vindas da Etipia
para as terras altas da frica oriental, mantendo-se constantemente um pouco
a leste da linha de separao cultural. A Etipia  o antigo centro de origem da
famlia das lnguas cuxitas, e a maior parte das lnguas bantu e niltica atuais, no
A frica oriental antes do sculo VII                                                                639



Qunia e no nordeste centro-norte da Tanznia, revelam traos dos emprstimos
tomados s lnguas cuxitas. Em alguns lugares, principalmente na extremidade
meridional dessa regio, as lnguas cuxitas persistem at hoje, embora estejam
consideravelmente distantes das formas cuxitas primitivas. Entre as importantes
informaes histrico-culturais obtidas atravs da anlise dos emprstimos de
palavras de uma lngua para outra encontra-se a contribuio dada  criao de
animais pelas populaes cuxitas primitivas da frica oriental.
   O elemento cultural cuxita na histria da frica oriental tambm se
manifesta sob outras formas e reflete-se at certo ponto em instituies que
no so fundamentalmente sociais e polticas e se baseiam numa organizao por
grupos etrios, dos povos das plancies e das terras altas do Qunia e de partes da
Tanznia setentrional. Contudo, essa observao  muito geral, sendo que nem
todos os aspectos desses sistemas remontam necessariamente ao povoamento
cuxita original6. O que parece ser de origem mais especificamente cuxita  o
costume da circunciso no momento da iniciao. A distribuio desse costume
coincide bastante com a de numerosos emprstimos lexicais do cuxita, ocorrendo
o mesmo com a averso ao peixe, registrada tambm nessa rea. Seu significado
na experincia histrica da frica oriental foi discutido anteriormente.
   Assim formamos a imagem de uma populao pastoril de lngua cuxita,
de estatura elevada e de cor relativamente clara, que se expandiu para o sul,
assenhoreando-se de ricos prados, plancies e principalmente planaltos do
Qunia e da Tanznia setentrional h aproximadamente trs mil anos. Todas
estas consideraes podem soar como uma reafirmao do "mito camita",
atualmente rejeitado. De fato, embora os aspectos mais ilgicos e romnticos
das hipteses camitas, diversas e vagas, sejam fruto de preconceitos universitrios
europeus e de ideias grotescas sobre a frica e as populaes negras, os fatos em
que se baseiam no so inteiramente fictcios. Certas observaes so perspicazes
e determinadas interpretaes histricas muito sensatas. O erro da escola camita
encontra-se em seus pressupostos e na obsesso pelas origens dos povos e das
ideias. Dada a incompreenso das condies locais, ela enfatizou um conjunto
particular de influncias externas, como o elemento cuxita e o prestgio pastoril,
em vez de consider-lo um dos muitos componentes da experincia histrica e
cultural da frica oriental  experincia para a qual contriburam sucessivamente

6    Alguns desses aspectos podem resultar de contatos posteriores com as populaes cuxitas orientais da
     Etipia meridional e da fronteira do Qunia, principalmente na regio do lago Rodolfo. Durante o
     presente milnio algumas populaes cuxitas orientais, principalmente grupos de Gala e Somali, se
     expandiram numa longa extenso no norte e no leste do Qunia. Devem-se distinguir essas migraes
     da expanso cuxita meridional, muito mais antiga, aqui discutida.
640                                                                    frica Antiga



com complementos de igual importncia a antiga civilizao de caa da savana,
a civilizao aqutica dos milnios midos e, mais recentemente, os Bantu com
o domnio do ferro e da agricultura.


      A tradio bantu: a agricultura e a utilizao do ferro
    Ao passo que, durante o primeiro milnio antes da Era Crist, a atividade
pastoril e o tabu do peixe que a acompanhava caracterizavam cultural e etnicamente
os cuxitas numa das reas da frica oriental, o trabalho e a utilizao do ferro
distinguiam os primeiros Bantu durante o milnio seguinte. Ainda no se sabe
muito bem como ou de onde foi obtido tal conhecimento; o problema  examinado
no Captulo 21. Muito mais importante do que a questo da origem  o fato
evidente de que os primeiros Bantu dependiam do ferro e eram considerados como
o povo que detinha o segredo de sua metalurgia. Provavelmente as populaes
mais antigas da frica oriental no o conheciam e fabricavam seus utenslios e
armas com o auxlio de pedras apropriadas, que trabalhavam segundo tcnicas
antigas. No Rift Valley oriental, por exemplo, na zona cuxita, so abundantes os
depsitos de uma pedra excepcional, a obsidiana (rocha vulcnica opaca), da qual
se podiam facilmente tirar excelentes lminas de diferentes tamanhos para todos
os tipos de uso, incluindo pontas de lana e provavelmente facas de circunciso.
No que diz respeito a pedras utilizveis, as comunidades contemporneas, mas
distintas, que viviam nas imediaes do lago Vitria, entre as quais em parte se
conservou a tradio aqutica, eram menos favorecidas do que as do Rift Valley. No
entanto, tiveram xito na fabricao de utenslios complexos a partir do quartzo,
do slex crneo e de outras pedras fceis de talhar; o mesmo ocorria nas regies
mais ao sul, entre os caadores da savana. Para todas essas populaes, o primeiro
contato com os estrangeiros que praticavam a tecnologia do ferro deve ter sido
uma experincia cultural perturbadora.
    A expanso principal dos Bantu foi ampla e rpida, no tendo ocorrido
atravs de fases progressivas, como afirmaram alguns autores. Mas tambm no
se tratou de uma perambulao de nmades errantes nem de uma conquista
militar organizada. Foi um processo notvel de colonizao  no verdadeiro
sentido da palavra  a explorao de terras totalmente desocupadas. A expanso
bantu no abarcou a totalidade da rea aqui considerada. Cerca de um tero
da frica oriental permaneceu no bantu devido  resistncia e adaptabilidade
de algumas das populaes primitivas, principalmente na extensa zona do Rift
oriental com seus antigos povos cuxitas, acrescidos durante a Idade do Ferro
A frica oriental antes do sculo VII                                         641



pela chegada de contingentes nilticos (ver o mapa lingustico e os captulos
precedentes e seguintes).
    Isto no significa que durante esses dois mil anos no tenha existido nenhuma
interao entre os Bantu e vrios cuxitas ou nilticos na frica oriental. De
tempos em tempos devem ter ocorrido miscigenao e assimilao, em ambos
os lados, bem como emprstimos culturais e diversos tipos de enriquecimento
econmico. Desde cedo, nestas regies ricas de bons pastos e livres de moscas
ts-ts, os Bantu comearam a completar sua dieta agrcola com o leite e a carne
de vaca. Durante muito tempo o gado foi particularmente importante entre os
Bantu que viviam em torno do lago Vitria e nas ricas pastagens montanhosas
do oeste. Inversamente, o papel do cultivo de cereais entre as populaes
cuxitas e nilticas das terras altas do Qunia e da Tanznia setentrional cresceu
consideravelmente com o tempo, em razo da necessidade urgente de alimentar
uma populao mais numerosa e ainda pela influncia ou pelo exemplo dos
Bantu vizinhos e de suas tcnicas. Linguisticamente, alguns setores das terras
altas tornaram-se bantu, embora refletindo em vrios aspectos culturais e sociais
a assimilao de um importante substrato cuxita. O fato  mais surpreendente
entre os Kikuyu, cuja populao  muito numerosa e densa. Eles falam uma
lngua bantu e praticam em suas colinas e clareiras frteis uma agricultura
intensiva que pode ser considerada uma adaptao local dos modos de vida
bantu tradicionais. Mas o sistema poltico kikuyu, baseado em grupos etrios e
na circunciso, sem esquecer a averso ao peixe, tem vnculos maiores com os
antigos costumes cuxitas das terras altas.
    Portanto, a zona cuxita das terras altas e do Rift Valley, apesar de ter
conservado sua configurao bsica (tornando-se, durante a Idade do Ferro,
mais niltica do que cuxita em termos da distribuio lingustica atual), sofreu
algumas usurpaes por parte dos Bantu, sobretudo nas reas da floresta mida,
dotadas de um potencial agrcola excepcionalmente rico (o que eventualmente
explicaria a maior densidade de populao nesta regio). Por outro lado, existem
lugares em que, no segundo milnio antes da Era Crist, o alcance da fala bantu
sofreu um recuo, principalmente em certos pontos da costa e do interior da
Somlia meridional e do nordeste do Qunia; o mesmo ocorreu nas regies
atingidas pela expanso luo no centro e no leste de Uganda e, no Qunia, nas
margens do lago Vitria. Os movimentos e processos de assimilao tm grande
importncia para a histria posterior dessas regies e sero discutidos com
maior profundidade nos volumes seguintes. Contudo, trata-se de consideraes
relativamente secundrias.  mais importante observar que os elementos
principais do mapa lingustico e das tradies tnicas e culturais da frica
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figura 23.2   Agrupamentos de lnguas africanas ocidentais e suas relaes de parentesco. (Documento fornecido pelo autor.)
A frica oriental antes do sculo VII                                                            643



oriental j estavam fixados. A expanso bantu estava praticamente concluda
e seu limite setentrional na frica do leste se estabilizou h aproximadamente
1500 anos. Nessa linha irregular e flexvel, a colonizao bantu foi contida por
culturas e economias vigorosas e suficientemente adaptveis, que se haviam
fixado anteriormente. Contudo, a situao era diferente em torno do lago Vitria
e em toda a regio que se estende ao sul.
    Como vimos, antes da expanso bantu, as populaes instaladas nas margens
do lago Vitria e dos rios vizinhos eram descendentes da antiga populao de
tradio aqutica. Embora continuassem a se distinguir dos pastores cuxitas das
terras altas a leste, possuam alguma prtica de caa, talvez de criao de gado
e at mesmo de agricultura. Contudo, por mais adaptveis que possam ter sido
essas populaes, parece que foram rapidamente absorvidas pelas sociedades dos
colonos bantu. No entanto,  provvel que seu legado tenha sido substancial;
em particular,  bem possvel que vrios aspectos das tcnicas de pesca e das
crenas dos Bantu fixados nas margens e nas ilhas do lago Vitria tenham por
origem esses habitantes que os precederam. O culto de Mugase, deus do lago
e senhor das tempestades, cuja benevolncia assegura pescas miraculosas e cuja
ira provoca desgraas, indiscutivelmente remonta  Antiguidade.
    Tambm so interessantes os testemunhos fornecidos pelas descobertas
arqueolgicas e pelas dataes cada vez mais numerosas, que indicam ter sido
em torno do lago Vitria e nas terras altas acima do Rift Valley ocidental que os
Bantu orientais se consolidaram e desenvolveram seu modo de vida na savana.
Foi provavelmente nesse local, numa zona de precipitaes favorveis nas bordas
da floresta, que se fizeram as experincias pioneiras com o cultivo do sorgo e do
milhete (prprios para a expanso em larga escala na savana); que se adquiriram
as primeiras noes de criao; que a cermica caracterstica dos Bantu chegou
a seus traos e a sua decorao particulares (bases onduladas, etc.) e que se
descobriu ou aperfeioou a metalurgia.  significativo que os leves fornos de
tijolos, sinais de uma indstria de ferro altamente evoluda e produtiva, tenham
sido descobertos no noroeste da Tanznia, de Ruanda e da provncia kivu do
Zaire, compreendendo as regies frteis situadas ao longo do limite oriental da
grande floresta pluvial. Se fosse possvel distinguir duas fases na expanso dos
Bantu alm de sua floresta de origem, esta seria a primeira, a fase de formao,
que remonta a cerca de dois mil anos  talvez um pouco mais7.


7    Para saber se se trata de um fenmeno caracterstico apenas do setor oriental da floresta, ou se
     tambm se aplica ao seu prolongamento meridional, entre o lago Tanganica e a embocadura do
     Congo, convm aguardar investigaes mais completas sobre a regio (ver Captulo 25).
644                                                                                            frica Antiga



    Durante a primeira metade do primeiro milnio da Era Crist, mais ao sul,
na Tanznia e em regies mais distintas, a expanso bantu deparou-se com um
territrio ainda em estado selvagem, mas talvez com uma configurao mais
simples. Irradiando-se a partir de uma regio muito populosa na parte ocidental
da frica oriental, equipados de utenslios, tcnicas e sementes indispensveis, os
Bantu penetraram nas florestas abertas e savanas relativamente pouco povoadas e
exploradas pelos caadores-coletores. Embora no sem consequncias, a influncia
desses caadores sobre os Bantu parece ter sido menor do que a das populaes
que j se encontravam em Uganda e no Qunia. Contudo, eram necessrias
flexibilidade e adaptao em cada um dos novos setores colonizados, conforme
a altitude e os solos, as chuvas e sua distribuio anual8. Por mais distantes
que fossem as terras atingidas, conservava-se o sentimento de "bantuidade":
ser bantu significava emigrar sempre, levando consigo um saco de sementes e
algumas ferramentas para preparar o terreno e cultivar; fixar-se temporariamente
em vez de se estabelecer definitivamente em povoados estveis. Tal processo no
se interrompeu quando os Bantu atingiram as margens opostas do subcontinente
e as bordas do deserto de Calaari; nas regies percorridas continuavam a existir
numerosas terras virgens, de tal modo que durante algum tempo ainda era
possvel enfrentar o crescimento da populao sem ter de recorrer a mtodos
mais intensivos de cultura. Frequentemente, o eixo da histria bantu local  o
cl mais antigo, cujo fundador teria descoberto e derrubado uma certa parte da
floresta.
    Da no se conclui que os caadores tenham sido expulsos pela fora ou
perseguidos;  mais provvel que fossem respeitados por seu conhecimento da
terra e pela habilidade em manejar o arco. No entanto,  medida que o povoamento
ficava mais denso, tornava-se mais difcil manter uma vida comunitria fundada
na caa e na coleta. Mais cedo ou mais tarde uma grande parte dos caadores
foi absorvida pela sociedade bantu  mas enquanto indivduos, pelo mecanismo
do casamento ou talvez da clientela: no era possvel para um grupo caador ou
uma tribo transpor a barreira cultural e "bantuizar-se".
    Com a nova tecnologia  o controle mgico do solo que comeava a
produzir cereais9, a cermica que permitia cozinh-los de maneira saborosa,
os instrumentos de ferro e as pontas de flecha que eventualmente podiam ser
vendidas aos caadores  ficaram assegurados o xito e a superioridade dos


8     Nas regies setentrionais e costeiras da frica oriental, o plantio poderia em geral ser efetuado duas
      vezes por ano. Mas o clima dominante mais ao sul permitia apenas uma colheita.
9     O papel do fazedor de chuvas era essencial em toda parte.
A frica oriental antes do sculo VII                                                                    645



Bantu. Eles podiam permitir-se assimilar os caadores sem medo de perder
sua identidade ou diluir sua cultura. No parece ter havido necessidade de
conservar traos distintivos e artificiais ou interdies: aparentemente no
existem mutilaes corporais ou tabus comuns aos Bantu. Sua nova lngua, que
codificava seu modo de vida, era o suficiente. A economia, at onde se pode
julgar, era flexvel; dependendo das condies locais, podia incluir a caa, a pesca
ou a criao de bovinos. Quando no se dispunha de nenhum desses recursos ou
eles no eram suficientes para assegurar as necessidades de protenas,  provvel
que a criao de cabras ou a cultura de certas leguminosas as suprisse. E possvel
que o elemento bsico normal fosse o sorgo: esta hiptese funda-se no fato
observado de que a cultura deste cereal e de suas numerosas variedades adaptadas
aos diferentes terrenos  tradicional na frica oriental e no territrio bantu;
na Zmbia, foram identificadas sementes de sorgo calcinadas em escavaes
arqueolgicas de povoamentos da Idade do Ferro Antiga10.
    Esta interpretao da expanso e do estabelecimento dos Bantu na frica
oriental (e nos territrios situados ao sul e a oeste), no incio da Idade do Ferro,
baseia-se num conjunto de dados lingusticos e arqueolgicos e em consideraes
etnogrficas gerais. A caracterstica mais evidente das numerosas lnguas bantu,
particularmente das que so faladas fora dos limites da floresta do Congo, 
seu parentesco prximo, que indica uma separao e uma diferenciao muito
recentes, remontando a aproximadamente mil ou dois mil anos. Outro fator que
emerge do estudo comparativo das lnguas bantu  uma relao com o ferro e
suas tcnicas, desde a Antiguidade. Esta  uma das razes que permitem associar,
em numerosos setores da frica oriental e do sul da frica central, os stios
arqueolgicos da Idade do Ferro Antiga datados da primeira metade do primeiro
milnio da Era Crist, com a colonizao bantu. Mas existe uma razo mais
forte para identificar com segurana estes stios como os dos primeiros Bantu:
sua distribuio coincide perfeitamente com a das populaes bantu atuais.
Nenhum argumento importante permite supor que uma populao totalmente


10   Certos autores debateram muito o papel das bananas na expanso bantu. Esta cultura, originria do
     sudeste da sia no parece ter sido introduzida na costa oriental da frica antes do primeiro milnio
     da Era Crist. Portanto, os Bantu s a teriam conhecido aps o trmino da grande expanso. Trata-se,
      claro, de uma cultura praticada mais por populaes sedentrias do que por colonizadores. Durante
     a histria bantu mais recente, os bananais permanentes adquiriram uma importncia cada vez maior
     nas regies midas com populaes sedentrias densas, principalmente nas margens setentrionais e
     ocidentais do lago Vitria e em vrios macios das terras altas. De fato, durante os ltimos mil anos, a
     cultura da banana teve um desenvolvimento mais acentuado na frica oriental do que no resto do mundo.
     At uma poca muito recente, os alimentos americanos  base de amido  principalmente o milho e a
     mandioca  eram desconhecidos na frica oriental.
646                                                                   frica Antiga



diferente teria vivido nesta mesma vasta regio, desaparecendo por completo h
aproximadamente mil anos.
    Os objetos caractersticos encontrados com mais frequncia nestes primeiros
stios bantu no foram instrumentos nem armas de ferro (pois em geral eram muito
preciosos para serem descartados e, mesmo nesse caso, provavelmente teriam
sido completamente corrodos), mas fragmentos de cermica, anteriormente
referidos. Desde os primrdios, tal cermica no era absolutamente idntica
nas vrias regies do imenso territrio habitado pelos Bantu, e os arquelogos
esto sempre identificando novos tipos. Talvez as mais conhecidas sejam as
de base ondulada (ou Urew) encontradas ao redor e a oeste do lago Vitria
e ainda at a extremidade do lago Tanganica e as savanas arborizadas situadas
no Zaire, ao sul da floresta. Alm das ondulaes, alguns destes vasos possuem
bordas de contornos elaborados e uma notvel decorao de arabescos e outros
desenhos. A sul e a leste da zona caracterizada pelos vasos de base ondulada, a
cermica da Idade do Ferro Antiga classifica-se em dois grupos principais. No
nordeste da Tanznia e no sudeste do Qunia, isto , alm do grande bolso
cuxita, encontra-se a cermica chamada kwale, desde as vertentes das terras
altas at a plancie costeira. Na extremidade meridional do lago Tanganica
e nos pases situados mais ao sul, identificou-se uma enorme quantidade de
cermicas regionais (incluindo a que anteriormente era conhecida na Zmbia
como cermica canelada).
     indiscutvel que todas essas cermicas possuem um parentesco geral, mas
o significado desse fato em funo das linhas de expanso bantu foi motivo de
numerosos debates. Provavelmente, no so os potes pertencentes  "mdia",
nem os mais "tpicos", os que podem oferecer mais revelaes, e sim os de
caractersticas diferenciadas e singulares. Ao observar superficialmente uma
coleo de cermicas da Idade do Ferro Antiga proveniente de stios espalhados
entre o Equador e as fronteiras da frica do Sul, tem-se imediatamente a
impresso de que as cermicas do norte, particularmente as de base ondulada
originrias das cercanias e do oeste do lago Vitria, tm um estilo original,
que tende a desaparecer  medida que se avana para o sul.  como se os
oleiros do norte tivessem assinado conscientemente suas cermicas "Bantu",
enquanto os do sul, separados da grande corrente da tradio, se considerassem
to senhores dessa tcnica que deram origem a uma simplificao progressiva
das formas, das bordas e dos motivos decorativos. E era muito natural: em toda
parte, da Tanznia central at o sul, onde a cermica era encarada como uma
arte nova introduzida pelos primeiros colonos bantu, qualquer cermica era
automaticamente considerada bantu; no entanto, nas terras altas do Qunia e
A frica oriental antes do sculo VII                                          647



em torno do lago Vitria, outras populaes fabricavam h longo tempo sua
prpria cermica. Portanto, a cermica kwale do leste, embora menos original do
que o tipo de base ondulada, precisava manter e fazer sobressair determinadas
caractersticas bantu. De fato, a nordeste da Tanznia, onde as colinas arborizadas
se unem s plancies, encontra-se tanto a cermica kwale como um outro tipo da
mesma poca. Trata-se do ponto de encontro dos Bantu e dos cuxitas?
     impossvel estabelecer um mapa detalhado da expanso bantu a partir
destes vestgios de cermica, particularmente porque faltam dados arqueolgicos
em certas regies, incluindo a Tanznia meridional e Moambique. No entanto,
um mapa desse tipo indicaria uma irradiao pelas savanas a partir de um ncleo
comum, situado em algum local a oeste do lago Vitria, prximo  orla da
floresta. Os estudos mais recentes sobre as relaes lingusticas dos Bantu atuais
que no habitam as florestas revelam um esquema absolutamente idntico da
evoluo histrica dos Bantu e de sua disperso ao sair da floresta. Em todos os
lugares onde o abandono da floresta foi bem-sucedido, a sul ou a leste, verifica-se
claramente que o primeiro movimento se fez ao longo de suas bordas, em uma
ou ambas as direes, at as regies tambm midas em torno do lago Vitria. A
expanso mais audaciosa nas direes sul e sudeste, at as savanas praticamente
ilimitadas,  posterior.
    A regio que circunda a extremidade sul do lago Tanganica, ou o "corredor"
que o separa do lago Niassa podem ter sido um segundo centro de disperso,
comum aos Bantu do sul e do nordeste, isto , aos povos da cermica kwale. Mas
para reconstituir com segurana a histria desta regio  preciso esperar a coleta
de informaes mais precisas sobre o que se passou na Tanznia meridional no
primeiro milnio da Era Crist. H uma teoria segundo a qual povos de lngua
cuxita se teriam estendido das terras altas do norte s do sul, passando pela
Tanznia central.
    Entre os Bantu atuais da frica oriental, a cermica  geralmente uma
ocupao feminina. Segundo indicaes etnogrficas obtidas nos pases
situados a oeste e ao sul, porm, a tradio original da cermica bantu teria
se difundido por intermdio dos artesos masculinos que acompanhavam
os grupos colonizadores. Essa tese  puramente conjetural, mas pode ser
deduzida de testemunhos arqueolgicos recolhidos por D. W. Phillipson na
Zmbia11. Nesse caso,  bem provvel que a cermica estivesse associada s
outras importantes atividades bantu  a metalurgia do ferro e a forjadura de


11   Ver o Journal of African History, XV (1974), pp. 1-25, esp. 11-12.
648                                                                      frica Antiga



instrumentos. Nenhuma colnia nova podia ser bem-sucedida sem especialistas
detentores dos segredos da cermica e da forjadura. Todavia, parece que, por
mais limitadas que tenham sido, havia trocas comerciais desde esse estgio
inicial. Ainda que no fosse raro, o minrio de ferro no era universalmente
disponvel e as jazidas verdadeiramente ricas eram pouco numerosas. Pode ser
que sua distribuio tenha influenciado o padro inicial da colonizao bantu.
A explorao muito antiga de minerais ricos e os elaborados fornos de fundio
de Ruanda e da parte vizinha da Tanznia j foram mencionados. No nordeste
da Tanznia, os stios antigos dos montes Pare e seus arredores talvez reflitam
o interesse manifestado pelos ricos minerais deste setor. No muito longe, nos
contrafortes do Kilimandjaro, onde  desconhecido o minrio de ferro, os stios
desse perodo so mais numerosos. O tipo de comrcio caracterstico de uma
poca recente, que consistia em transportar barras de ferro fundido (e cermica)
da regio dos Pare at o Kilimandjaro, para troc-las por produtos alimentares e
gado, pode remontar a 1500 anos. De qualquer modo, no se pode imaginar as
primeiras sociedades de colonos bantu dedicando-se, num vasto territrio, a um
comrcio de grande envergadura. Para eles, o principal era fixar-se e subsistir. Tal
comrcio s se desenvolveu verdadeiramente a partir do perodo intermedirio
da histria dos Bantu, h cerca de 1000 anos atrs. Quanto ao perodo anterior,
os stios onde foram descobertas as cermicas kwale, alguns muito prximos do
oceano ndico, no revelaram nenhum objeto de origem costeira ou estrangeira.
    Estas sociedades agrcolas tambm tinham necessidade de sal. Em tempos
mais recentes foram utilizados diferentes meios para obter esse produto
indispensvel em numerosas regies da frica oriental. Um deles consiste em
queimar certos tipos de canio e ervas que absorvem o sal contido no solo. As
cinzas so dissolvidas na gua e a salmoura resultante  filtrada e evaporada.
Processos semelhantes de extrao so utilizados em diversos lugares, em solos
salgados. Pode-se obter soda para o cozimento de legumes duros recorrendo-
-se a tcnicas anlogas. A produtividade  em geral fraca e a qualidade do sal
frequentemente deixa a desejar. Alm disso, em certas reas tais operaes nem
mesmo eram possveis, sendo preciso recorrer ao comrcio.  nesse caso que
as fontes mais ricas de sal, existentes em alguns lugares no interior da frica
oriental na forma de solos salinos concentrados, fontes salgadas e lagos de
gua mineral do Rift Valley, assumem toda sua importncia. Dentre essas, at
agora, parece que apenas as fontes salgadas de Uvinza, na Tanznia ocidental,
foram exploradas durante a Idade do Ferro Antiga. As pesquisas efetuadas
em outras salinas  Kibiro, perto do lago Alberto, em Uganda, e Ivuno, no
sudoeste da Tanznia  no revelaram nenhum trao de atividade anterior ao
A frica oriental antes do sculo VII                                                                    649



presente milnio. Mas  possvel que trabalhos futuros nestes mesmos stios,
principalmente nas margens dos lagos salgados de Kasenyi e Katwe, no sudoeste
de Uganda, forneam informaes mais amplas sobre o perodo antigo. Alm
disso, os Bantu situados mais a leste podiam sem dvida abastecer-se nos
pequenos cursos de gua costeiros.


     Os nilotas: adaptao e mudana
    Alm dos Bantu, um outro grupo lingustico ou, mais exatamente, vrias sries
de grupos lingusticos com parentesco distante ocuparam uma grande parte da
frica oriental durante a Idade do Ferro: os nilotas. Embora suas caractersticas
fsicas diferissem em muitos aspectos das apresentadas pelos Bantu, os nilotas
so acentuadamente negros. Contudo,  certo que as populaes de lngua
niltica, que entraram mais profundamente a leste e ao sul na antiga zona cuxita
do Qunia e da Tanznia setentrional, assimilaram uma parte da populao
"etiopoide" anterior  o que ajuda a explicar os traos originais negros dos
atuais agrupamentos itunga, massai, kalenjin e tatoga, populaes classificadas
no passado como "nilo-camitas". A ascendncia parcialmente cuxita tambm
se manifesta em sua herana cultural  mas diferentemente, segundo os grupos
 e envolve numerosos emprstimos tomados s lnguas cuxitas. Basicamente,
contudo, suas lnguas continuam a ser nilticas12.
    No se sabe nada de concreto sobre a Proto-Histria dos nilotas. No entanto,
a repartio e as relaes internas de seus trs ramos atuais indicam que sua
ptria de origem se localizaria nas baixas pradarias da bacia do Alto Nilo e nas
margens de seus lagos e cursos de gua. Pode-se imaginar que sua apario
enquanto grupo dominante no ramo sudans oriental da famlia lingustica
Chari-Nilo e suas expanses peridicas, rpidas e talvez explosivas, em diversas
direes, sejam o resultado da adoo de prticas de criao de gado nesta parte
da antiga zona aqutica, h trs mil anos.  provvel que o gado proviesse dos
cuxitas das terras altas etopes do leste, ou mais provavelmente das populaes
estabelecidas mais ao sul, no Nilo. Aqui, na bacia do Nilo Branco, a pesca era
praticada paralelamente  criao de gado e  cultura de cereais. Essa trplice



12    claro que em sua origem a palavra "niltico" tinha uma acepo geogrfica  "do rio Nilo". Neste
     trabalho, porm, como nas obras histricas contemporneas, o termo "niltico" designa um grupo de
     lnguas definido exclusivamente atravs de critrios lingusticos, no considerando a localizao. Ver o
     mapa correspondente.
650                                                                                                 frica Antiga



explorao econmica do meio ambiente continua a ser praticada pelas atuais
populaes ribeirinhas do Nilo Branco e de seus afluentes.
    As divises entre as lnguas nilticas  entre os nilotas das terras altas, dos lagos
e rios e das plancies13  so antigas e profundas (muito mais, por exemplo, do que
as que separam as lnguas bantu). E, embora seja difcil propor uma data precisa
para a ciso da lngua niltica me, ela no poderia ser inferior a dois mil anos.
 provvel que tal ciso tenha ocorrido em algum ponto no Sudo meridional,
possivelmente prximo  fronteira etope. Dessa regio, representantes de cada
uma das trs divises emigraram para os setores setentrionais ou mesmo centrais
da frica do leste, durante os dois ltimos milnios. No entanto, os ramos oriundos
dos nilotas das plancies (principalmente o grupo itunga em Uganda oriental e no
nordeste do Qunia e os Massai do Qunia e da Tanznia setentrional) e daqueles
dos rios e lagos (os Luo de Uganda e das margens lacustres do Qunia) pertencem
ao milnio atual e, portanto, so tratados em volumes posteriores dessa Histria.
No presente volume, nosso tema se limita aos nilotas das terras altas, representados
em nossos dias pelos Kalenjin das montanhas ocidentais do Qunia e os Tatoga
disseminados nas pradarias da Tanznia setentrional.
    Os primeiros nilotas das terras altas ainda no so conhecidos no plano
arqueolgico; contudo, sua repartio atual e as comparaes lingusticas
internas mostram que devem ter se instalado no Qunia h alguns milhares
de anos.  possvel que sua apario enquanto grupo com identidade, cultura e
lngua prprias tenha coincidido com a chegada do ferro  bacia do Alto Nilo
e aos limites da Etipia. Nessas regies e na zona cuxita, o conhecimento do
ferro e as tcnicas de trabalh-lo so provavelmente provenientes do norte14.
Este processo teria sido independente da adoo do ferro pelos antigos Bantu,
a quem possivelmente se deve, como vimos, a difuso do trabalho com esse
material no sul e no oeste da frica oriental.
    Quaisquer que tenham sido as razes do sucesso dos nilotas das terras
altas durante o primeiro milnio da Era Crist, eles chegaram a controlar
progressivamente uma grande parte, mas no a totalidade, do Rift Valley, das
regies montanhosas vizinhas e das plancies que anteriormente haviam sido


13    Esses so os termos utilizados em OGOT, B. A & KEIRAN, J. A. e correspondem  nomenclatura de
      Greenberg: niltico "meridional", "ocidental" e "oriental", respectivamente. Ver bibliografia.
14    O ferro comeou a ser conhecido na Etipia setentrional e no Mdio Nilo em meados do primeiro
      milnio antes da Era Crist, Os registros indicam que, na costa da frica oriental, os artigos de ferro eram
      importados, nos primeiros sculos da Era Crist (ver Captulo 22). Mas no existe nenhuma indicao
      de que o conhecimento da metalurgia do ferro seja originrio de fontes exteriores ou que tenha sido
      levado para o interior.
A frica oriental antes do sculo VII                                          651



cuxitas. A assimilao desempenhou um papel to importante quanto a invaso
e a expulso e deve ter prosseguido durante boa parte do segundo milnio. Estes
nilotas j conheciam a criao do gado de grande porte e a cultura dos cereais;
no entanto, com certeza tinham muito a aprender dos cuxitas no que se refere
 adaptao destas formas de atividade a seu novo meio ambiente montanhoso.
Alm disso, sua organizao social e seus grupos etrios sucessivos parecem ser
um amlgama de elementos nilticos e cuxitas, embora o costume da circunciso,
que marca a entrada do iniciado num dado grupo etrio, seja especificamente
cuxita. O mesmo ocorre com a interdio do peixe. Aquele que transpunha as
escarpas com seus rebanhos abandonava deliberadamente os lagos, os pntanos
e os rios do oeste.
    A maioria dos nilotas permaneceu na bacia do Nilo, principalmente no
Sudo meridional. Eles no sofreram diretamente a influncia dos modos de
vida cuxita e combinaram adequadamente a criao de gado, a cultura de cereais
e a pesca. No entanto, os nilotas das plancies acabaram por se dividir em trs
ramos principais, e  interessante observar como sua cultura se modificou do
noroeste para o sudeste e de que modo se adaptaram ao meio ambiente. O
grupo bari-lotuko, no Sudo meridional e nas fronteiras de Uganda setentrional,
manteve um modo de vida tipicamente niltico. Nas colinas e plancies mais
secas, que se estendem do norte de Uganda ao Qunia, dominadas pelo grupo
itunga (Karamojong, Turkana, Teso, etc.), a pesca  pouco praticada  mas isso
pode-se dever mais aos condicionamentos naturais do que a uma interdio
cultural. Os Massai, terceiro ramo dos nilotas das plancies, estabeleceram-se
para alm dos Itunga, numa vasta rea das regies montanhosas e dos planaltos
cobertos de erva do Qunia e da Tanznia setentrional. Durante os ltimos
sculos, eles assimilaram os nilotas que os haviam precedido e dos quais sofreram
forte influncia. Foram influenciados tambm, direta ou indiretamente, pelos
cuxitas do sul, tendo adotado no s o tabu do peixe mas tambm o costume
da circunciso. Nessas ricas pastagens, so de fato os Massai do centro que
recentemente conseguiram levar a tica pastoril a seu mais alto nvel.
    A assimilao de outros ramos e subdivises de povos nilticos ou no-nilticos
e o processo de expanso exigindo frequentemente uma adaptao ecolgica e
cultural so apenas alguns dos numerosos exemplos de expanso e assimilao
dos nilotas, frequentemente casuais. No Sudo meridional e no norte e leste de
Uganda, as interaes que se produziram durante o atual milnio (e provavelmente
tambm o precedente) entre certos ramos dos nilotas das plancies e dos grupos
dos rios e lagos foram to complexas quanto as que se deram entre os nilotas e
os cuxitas e entre os nilotas antigos e recentes, tanto no Qunia quanto nas terras
652                                                                                          frica Antiga



altas da Tanznia setentrional. Os historiadores deram maior importncia s
presses exercidas pelos Luo, ramo dos nilotas do grupo dos rios e lagos, sobre
os Bantu de Uganda e das margens lacustres do Qunia, durante os seis ou
sete ltimos sculos. De menos interesse para os historiadores so dois outros
grupos no-nilticos, estabelecidos um no nordeste de Uganda e o outro no
noroeste desse pas e nos pases vizinhos. Tais grupos ocupam atualmente um
territrio limitado, mas h mil anos atrs estendiam-se por uma rea muito
mais ampla e possuam uma importncia bem maior.
    O primeiro compe-se de grupos tnicos de lngua nyangiya, que incluem
os Tepeth, os Teuso e os Ik atuais. Alguns deles praticam a caa e outros
uma cultura intensiva nas zonas montanhosas isoladas, prximas da fronteira
nordeste de Uganda. Essa regio certamente apresentava uma grande diversidade
cultural, e acredita-se que algumas das tcnicas de fabricao de utenslios da
Idade da Pedra Recente sobreviveram entre as comunidades montanhosas
at o atual milnio. As terras vizinhas, em sua maior parte muito secas, so
ocupadas pelos Itunga, populao niltica das plancies que, juntamente talvez
com outros grupos nilticos anteriores, foi responsvel pelo confinamento e
pela assimilao dos Nyangiya. Pode ser que a lngua destes ltimos possua
um parentesco distante com o niltico (no ramo sudans oriental da famlia
Chari-Nilo)15.  possvel que antes dos movimentos nilticos, os Nyangiya
constitussem uma importante populao agropastoril que ocupava uma
parte do territrio includo entre a zona cuxita oriental e a dos ltimos povos
aquticos do Alto Nilo.
    Estes ltimos representantes da antiga tradio aqutica, j em franca
decadncia, podem ter pertencido, como se sugeriu anteriormente, ao grupo
lingustico sudans central (que constitui um ramo distinto da famlia Chari-
-Nilo ). Trata-se, atualmente, de uma subfamlia fragmentada, que consiste em
grupos separados, disseminados em torno da orla nordeste da floresta equatorial.
Um desses grupos (os Moru-Madi) estabeleceu-se nos dois lados da fronteira, a
noroeste de Uganda. Antes da expanso dos Bantu na regio central de Uganda,
aproximadamente h dois mil anos, e dos movimentos dos nilotas provenientes
do norte e do nordeste,  provvel que o uso das lnguas do grupo sudans central
estivesse muito difundido na bacia do Alto Nilo e do lago Vitria. Algumas das
bases culturais desta populosa rea da frica oriental so mais antigas que as
lnguas bantu e luo, que a so atualmente faladas.

15    Esta classificao foi contestada; segundo certos autores, o nyangiya estaria mais prximo da grande
      famlia afro-asitica ( qual pertence, principalmente, o cuxita).
A frica oriental antes do sculo VII                                       653



    O problema do "Megaltico" da frica Oriental
    As obras mais antigas sobre a frica oriental e sua histria davam muita
ateno s civilizaes que se teriam desenvolvido na Antiguidade. Tais
civilizaes eram localizadas na regio interlacustre, principalmente nas
terras altas do Qunia e da Tanznia setentrional (a antiga zona cuxita, 
interessante notar). Essas concepes histricas baseavam-se numa mistura
de aspectos etnogrficos, em "tradies orais" coletadas sem nenhum mtodo
cientfico e em observaes arqueolgicas, que consistiam nos vestgios de
supostos trabalhos de "engenharia" e nas runas de construes e terraos de
pedra seca (o "megaltico"). Infelizmente, os dados foram em grande parte
registrados de forma imprecisa ou, mesmo quando corretos, interpretados de
maneira ilgica ou relacionados a fatos irrelevantes, para que se adequassem
a teses histricas fantasiosas ento em moda, como a famosa tese "camita".
Essa tendncia foi facilmente adotada pelos autores de obras de segunda
mo que aceitaram sem discernimento os dados apresentados como originais
e, em certos casos, exageraram sua importncia. Igualmente ilgica era a
hiptese frequentemente levantada de que os diversos tipos de caractersticas
arqueolgicas, autnticas ou falsas; acompanhadas ou no de artefatos,
espalhadas por uma vasta regio, poderiam ser atribudas a um povo ou a
uma cultura nica num dado perodo do passado. Tal hiptese sustenta a
teoria de Huntingford sobre a "civilizao azaniana" do Qunia e da Tanznia
setentrional, que ele atribua aos "camitas", e tambm a tese de Murdock
sobre os "cuxitas megalticos" que antigamente teriam habitado essa mesma
regio. (A propsito, Murdock era expressamente contrrio aos preconceitos
camitas dos autores que o haviam precedido).
    Portanto, a palavra "megaltico"  enganosa, sem significado cultural nem
cientfico na frica oriental. Contudo,  interessante mencionar e comentar
brevemente os dados que eram utilizados como prova da existncia de culturas
megalticas antigas. Na realidade, nem sempre se trata de construes de
pedra. J mencionamos neste captulo os cairns (ou montculos de pedras) que
representam sepulturas, frequentemente encontrados nos pastos do Qunia e
do norte da Tanznia. Muitos deles, se no a maioria, datam do fim da Idade
da Pedra Recente (dois ou trs mil anos atrs) e provavelmente so obras de
populaes de lngua cuxita; algumas delas podem ser mais recentes.  possvel,
mas no certo, que alguns dos poos cavados nas rochas dos prados ridos do
sul de Masailand, na Tanznia, e do leste e norte do Qunia remontem ao
mesmo perodo,  poca da introduo do gado. Talvez se possa dizer o mesmo
654                                                                                       frica Antiga



de algumas das chamadas rotas antigas das terras altas, que na realidade so
trilhas de gado acidentalmente desgastadas pela passagem contnua, durante
certos perodos, dos rebanhos que cruzavam os cumes e desciam as escarpas das
montanhas em busca de gua. Muitas dessas rotas ainda esto sendo ampliadas,
ao passo que outras se iniciam. De um perodo provavelmente mais recente,
so os traos da prtica de agricultura irrigada em vrias escarpas do Rift e
nos macios montanhosos da Tanznia setentrional e do Qunia. Mas pode-se
demonstrar que, em certos lugares, tais vestgios datam pelo menos de alguns
sculos. Apesar de tudo que se escreveu sobre a questo, os terraos de agricultura
nas encostas so muito mais raros e historicamente menos importantes; eram
construdos apenas em situaes muito particulares ou secundrias. Alguns
relatos chegam a mencionar monlitos e pedras flicas no interior da frica
oriental, mas sua presena nesta regio  extremamente duvidosa.
    Contudo, o problema do megaltico da frica oriental no se limita apenas
a essas consideraes; inclui tambm a questo das casas de pedra, cercas e
habitaes escavadas no solo. Neste caso, embora nos defrontemos novamente com
descries inexatas e interpretaes errneas, existem alguns fatos arqueolgicos
a considerar. Tais vestgios so constitudos por muros e revestimentos de
pedras insossas encontrados em duas reas distintas. Culturalmente, esses dois
conjuntos tambm eram totalmente diferentes, embora, grosso modo, fossem
contemporneos, remontando basicamente a meados do presente milnio (diga-
-se a um perodo bem distante do estudado neste volume).
    O primeiro desses complexos inclui os chamados Sirikwa Holes, muito
numerosos em toda a extenso das terras altas ocidentais do Qunia, e que
representam as runas dos kraals (currais) fortificados das populaes kalenjin
primitivas. No se trata de habitaes escavadas no solo, como se acreditava; as
casas, ligadas aos currais, eram construdas de madeira e palha, e no de pedra. Em
realidade, mesmo os currais eram em geral construdos sem a utilizao de pedras
e rodeados de aterros e paliadas. Somente em lugares pedregosos se empregavam
lajes e blocos como revestimentos dos aterros e dos sistemas de acesso. Esta
observao mostra bem como a presena ou a ausncia de construes de pedra
deve ser explicada mais em funo do ambiente do que de consideraes culturais.
    O segundo complexo tambm se situa no lado ocidental do grande Rift
Valley, mas um pouco mais ao sul, alm da fronteira da Tanznia. Compreende
vrios stios  dos quais o maior e o mais famoso  Engaruka16  situados

16    Para uma reavaliao de Engaruka e dos stios relacionados, ver os artigos de CHITTICK, N. & SUT-
      TON, J. E. G. 1976.
A frica oriental antes do sculo VII                                          655



prximos aos rios utilizveis para irrigao no sop das escarpas das Crater
Highlands. Nessa regio as construes de pedra foram utilizadas para diferentes
fins, incluindo vrios tipos de obras defensivas, principalmente cercados para
gado e muros de aldeias. No interior dessas aldeias compactas, construdas nas
encostas, cada casa era edificada sobre um recinto em plataforma, sustentado
por um magnfico revestimento de pedras. O acesso era dado por um caminho
em terraos revestido do mesmo modo. Contudo, tambm neste caso as casas
no eram construdas de pedra, mas sim de madeira e palha. O que h de mais
notvel em Engaruka  a utilizao da pedra para alinhar e revestir as laterais
de centenas de canais de irrigao e para dividir e nivelar os milhares de campos
que se estendem por mais de 20 km2.
    At agora, a identidade e o parentesco lingustico dos habitantes de Engaruka
no foram definitivamente estabelecidos, pois trata-se de um grupo que foi
desmembrado e paulatinamente assimilado h aproximadamente duzentos anos.
Apesar da notvel qualidade e da extenso das construes de pedra insossa,
parece que a populao de agricultores desta regio se estagnou, num isolamento
relativo, forada a superexplorar os recursos do solo e suas reservas de gua em
reas muito restritas. Seu modo de vida, excessivamente especializado, impedia
a adaptao.
    Esta  a resposta aos historiadores com tendncias romnticas, que
procurariam em Engaruka mais dados do que poderiam revelar. Ela no pode
ser usada em apoio s teorias sobre as grandes civilizaes megalticas; tambm
no era uma cidade de 30 mil habitantes ou mais, como j se pensou e se
repetiu em vrios livros. Tratava-se de uma comunidade camponesa concentrada,
que dependia de um sistema agrcola excepcionalmente intensivo para a sua
subsistncia. Engaruka  notvel, mas em seu contexto local e como um
exemplo de desenvolvimento e runa de uma cultura rural numa situao muito
especfica. Alm disso, aps as investigaes recentes e os testes de radiocarbono,
a datao principal, que a faz remontar ao segundo milnio da Era Crist, parece
suficientemente precisa. Considera-se um erro, pelo menos levando em conta
o conjunto do stio, datar alguns desses vestgios do primeiro milnio, como
se sugeriu na dcada de 1960, com base em alguns resultados inesperados do
emprego do radiocarbono.
A frica ocidental antes do sculo VII                                 657



                                         CAPTULO 24


     A frica ocidental antes do sculo VII
                                          B. Wai-Andah




    O exame crtico dos dados arqueolgicos (e outros) de que dispomos no
corrobora a ideia bastante difundida de que as origens, o desenvolvimento e o
carter geral das sociedades neolticas e da Idade do Ferro da frica ocidental
decorrem sobretudo de fatores culturais externos. Em especial,  um erro
afirmar que na maior parte dos casos as ideias e populaes vindas do exterior
 geralmente do norte, atravs do Saara  estimularam ou provocaram todos os
grandes eventos dos primeiros tempos da produo alimentar ou do trabalho
do ferro e do cobre. Os dados sugerem, antes, que fatores complexos de ordem
regional, sub-regional ou local desempenharam um papel de importncia varivel;
que os stios do Neoltico e da Idade do Ferro na frica ocidental podem ser
compreendidos, em diferentes escalas, como partes constituintes de sistemas
de stios integrados, tanto quanto possvel, com as principais condicionantes
ecolgicas em jogo.


    Origens da agricultura e da criao de animais
   Para se ter uma ideia exata da histria e da evoluo da aclimatao das
plantas e da domesticao dos animais nos trpicos, nunca  demais insistir
na necessidade de uma reviso drstica e, em certos casos, de abandonar
completamente os conceitos e os contextos de referncia tradicionais, isto ,
658                                                                     frica Antiga



europeus. Cumpre realizar experincias que nos levem a descobrir quanto tempo
foi necessrio  obteno dos cultgenos africanos atuais a partir de seus diversos
ancestrais selvagens e nos diferentes nichos ecolgicos. Alm disso,  preciso
ampliar o alcance dos trabalhos arqueolgicos. Os estudos sobre a sucesso das
plantas e sobre os solos dos stios pr-histricos (at agora muito negligenciados)
so essenciais para se compreender como e quando ocorreu a substituio da
caa e da coleta por outras atividades na frica ocidental, principalmente devido
 falta de indicaes "diretas".
    No presente contexto, entende-se por domesticao a tcnica que consiste
em afastar os animais dos processos de seleo natural, dirigir sua reproduo
e coloc-las a servio do homem (por meio de seus trabalhos ou produtos),
fazendo com que adquiram, mediante criao seletiva, novas caractersticas,
em detrimento de outras, que possuam anteriormente. Por cultura de plantas
entende-se aqui a plantao de tubrculos ou sementes, a proteo de rvores
frutferas, plantas trepadeiras, etc., a fim de se obter, para o uso do homem, uma
quantidade aprecivel desses tubrculos, sementes e frutos.
    Evitar-se-o neste estudo termos como vegecultura e arboricultura, de uso
corrente nos textos especializados, mas que implicam a ideia de uma evoluo
gradual de realizaes culturais. De igual modo, no se levar em conta a
definio da agricultura (por exemplo, Spencer, 1968)1 no sentido tecnolgico do
termo: "sistemas de produo alimentar que envolvem a utilizao de utenslios
aperfeioados, de animais de trao ou de meios mecnicos, de mtodos agrcolas
evoludos e de tcnicas de produo plenamente desenvolvidas". As palavras
grifadas visam enfatizar o carter subjetivo da definio.
    Estudos ecolgicos indicam que a domesticao de animais pode ser realizada
nas zonas tropical e subtropical semi-ridas da savana (Bonsma, 1970)2, uma
vez que o pH dos solos  a bastante elevado (7,0). Em consequncia, os
macroelementos (nitrognio e fsforo) so assimilados com razovel facilidade
e as pastagens oferecem uma quantidade relativamente grande de protenas.
Por outro lado, os mesmos estudos mostram que os animais domsticos no
constituem um elemento importante na produo alimentar das regies tropicais
midas, em parte porque o pH dos solos dessas regies e, portanto, a capacidade
de assimilao do nitrognio, do fsforo e do clcio so geralmente baixos.
Assim, as pastagens contm excesso de fibras de celulose indigestas e apresentam
elevado poder calorfico; a produo e a perda de calor pelos animais suscitam

1     SPENCER, J. E. 1968, pp. 501-2.
2     BONSMA, J. C. 1970, pp. 169-72.
A frica ocidental antes do sculo VII                                                    659



srios problemas para a criao de gado nas regies tropicais midas. Para manter
um certo equilbrio trmico, o gado dessas regies  geralmente de pequeno
porte, da decorrendo a vantagem de uma extensa superfcie por peso unitrio a
facilitar a perda de calor. Nos lugares onde efetivamente houve criao de gado,
o problema das temperaturas elevadas parece ter sido resolvido pela seleo de
animais de pequeno porte capazes de adaptar-se s condies tropicais.
    Os estudos ecolgicos revelam ainda que, ao contrrio das culturas do
Oriente Mdio, as espcies anuais cultivadas na maior parte da frica ocidental
eram  e ainda so  adaptadas ao crescimento na estao de temperaturas
elevadas e forte umidade. A falta de resistncia dos cereais do Oriente Mdio
aos micrbios patognicos que se desenvolvem em temperaturas elevadas faz
com que sua cultura redunde em completo fracasso (salvo nas terras altas, de
clima fresco e relativamente seco). As pesquisas botnicas (Portres, 1950, 1951,
1962; Dogget, 1965; Havinden, 1970)3 indicam que certas plantas  como
o paino (Pennisetum typhoideum), o fnio (Digitaria exilisy), o arroz (Oryza
glaberrima), leguminosas como a ervilha-de-vaca (Vigna sinensis) e a ervilha-da-
-terra (Voandzeia subterranea), tubrculos como o inhame-da-Guin (Dioscorea
cayenensis e D. rotundata), o dendezeiro (Elaeis guineensis) e o amendoim
(Kerstingiella geocarpa)  so nativas e tm provavelmente uma longa histria
de cultivo em vrias partes da frica ocidental4.
    O conjunto dos dados paleontolgicos, botnicos, ecolgicos, etnogrficos
e arqueolgicos indicam que, no plano geral, os primeiros complexos de
produo alimentar adotados foram a explorao do solo (plantio), o pastoreio
e a explorao mista (isto , a combinao do cultivo e das atividades pastoris).
A um nvel especfico, tais complexos diferiam segundo as espcies de plantas
cultivadas, as raas de animais criadas, a maneira como se praticava a cultura e
a criao, assim como os tipos de povoamento e os sistemas sociais adotados.
    Os dados arqueolgicos e etnogrficos sugerem a presena dos seguintes
elementos na frica ocidental: 1) uma criao de gado muito antiga no Saara
setentrional e oriental; 2) complexos primrios de culturas de gramneas,
talvez permanentes, nas encostas e escarpas das terras altas do Saara central; 3)
complexos de culturas de gramneas em certas regies do Sahel e das savanas
setentrionais, sujeitas a influncias provenientes do norte e do sul. A propsito,
parece que o delta interior do Nger, a orla do macio de Futa Djalon nas bacias


3    PORTRES, A., 1950, pp. 489-507; 1951-a, pp. 16-21; 1951-b, pp. 38-42; 1962, pp. 195-210;
     DOGGET, H. 1965, pp. 50-69; HAVINDEN, M. A. 1970, pp. 532-55.
4    Ver Volume I, Captulo 25.
660                                                                     frica Antiga



superiores do Senegal, do Nger e do Gmbia, e ainda os arredores sudaneses
em geral teriam sido o ncleo a partir do qual se difundiram as culturas do arroz
(Oryza glaberrima), do milhete (Digitaria), do sorgo e do paino-de-cana; 4) a
explorao mista e a criao de gado nas regies central e oriental do Sahel e
em certas partes setentrionais da savana, onde o dessecamento do Saara teria
desempenhado papel de relevo; 5) complexos de culturas de razes e de rvores
na orla das florestas do extremo sul (Alexander e Coursey, 1969)5.
    Esses complexos "neolticos" primitivos caracterizavam-se pela grande
variedade de categorias de artefatos, assim como pela diversidade de tipos de
povoamento, de sistemas sociais (em grande parte inferidos) e de mtodos
de utilizao do solo. Em certas reas, contudo (por exemplo, Tiemassas, no
Senegal, e Paratoumbia, na Mauritnia), observa-se o encontro e o cruzamento
de duas ou mais tradies.
    Via de regra, os complexos de caa e pastoreio do norte dispem de indstrias
lticas  base de lminas, caracterizando-se por micrlitos geomtricos, pontas
projteis, um nmero reduzido ou a ausncia de utenslios pesados, gravuras em
pedra ou casca de ovo de avestruz e um grupo limitado de cermicas bastante
rudimentares. Por outro lado, os complexos de cultura de gramneas do Saara
central e das pradarias setentrionais abundam em instrumentos de pedra lascada
e polida; apresentam uma grande variedade de utenslios talhados, uma extensa
gama de cermicas morfologicamente diversificadas, mas poucos ou nenhum
micrlito ou ponta projtil. Os complexos de cultivo de vegetais (razes) do
sul tambm ostentam utenslios polidos e amolados, porm se distinguem
sobretudo por indstrias baseadas no talhe de pedras, cujos produtos consistem
principalmente em pesados bifaces e choppers. Essa originalidade do equipamento
tcnico ainda hoje se manifesta no uso da enxada ou do basto de cavar e na
maneira de lavrar a terra (sulcos profundos ou rasos) e prepar-la, levando
rigorosamente em conta o tipo de plantas cultivadas, a natureza do solo e a
disponibilidade de gua.

      Primeiros complexos de criao de gado no norte durante o Neoltico
   Em Uan Muhuggiag (sudoeste da Lbia) e em Adrar Bous (Air)6, encontraram-
-se vestgios de animais domsticos de chifres curtos, cuja domesticao, a julgar
pelas datas obtidas, ter-se-ia iniciado a partir de -5590 (200) no primeiro


5     ALEXANDER, J. & COURSEY, D. G. 1969, pp. 123-9.
6     MORI, F. 1965; CLARK, J. D. 1972.
A frica ocidental antes do sculo VII                                       661



stio e entre -830 e -3790 no segundo. Descobriram-se igualmente despojos de
ovelhas em Uan Muhuggiag. No entanto, parece que o gado de chifres curtos
esteve ausente do vale do Nilo at a XI dinastia (-2600), embora haja indcios
da presena de gado de chifres longos em Kom Ombo, no Egito, durante o
Pleistoceno.
    O fato de o gado de chifres curtos ter existido no Saara central pelo menos
1200 anos antes de seu aparecimento no vale do Nilo exclui a possibilidade de
situar sua origem no Egito ou no Oriente Prximo. No se sabe, at o momento,
se o primeiro gado saariano de chifres curtos proveio do Saara, do Magreb ou
de ambos os lugares. No entanto a mensurao dos metpodes dos animais
dessas regies 7 indica uma reduo de tamanho com o passar do tempo, tendo
os animais do Pleistoceno apresentado metpodes maiores.
    Todavia, as evidncias culturais sugerem que na Lbia pode ter ocorrido
um primeiro exemplo de transio da caa e da coleta para o pastoreio a se
estender para sudeste at Adrar Bous (Tenere, -4000 a -2500), e para sudoeste
at Tichitt (fase Khimiya, posterior a -1500). Nessas zonas, os pastores parecem
descender diretamente dos primeiros habitantes, e  provvel que esse novo
modo de vida (principalmente em Tichitt) tenha vindo em substituio  ou
se amalgamado  ao do Neoltico, que praticava a plantao de gramneas. Isso
significaria que o conceito de domesticao de gado foi transferido para essas
reas ou que elas se encontravam nos limites de uma extensa zona que constitua
o ncleo de tal atividade. As dataes por radiocarbono de stios que apresentam
o bos domesticado indicam que a criao de gado poderia ter-se expandido do
centro do Saara para sua parte meridional e para as zonas do Sahel, na frica
ocidental, expanso essa que de certa forma estaria ligada ao dessecamento da
regio desrtica.

    Primeiros complexos da cultura de gramneas no Neoltico
    As terras altas do Saara central
   As evidncias de que dispomos sugerem que a cultura de gramneas 
excluindo-se todas as outras formas de cultivo  ocorreu provavelmente muito
mais cedo nas terras altas do Saara central do que em qualquer outro lugar
ao sul. Os primeiros sinais dessas manifestaes primitivas do Neoltico
provm sobretudo dos abrigos sob rocha de Amekni e Meniet, no Hoggar.


7    SMITH, A. B. 1973.
662                                                                   frica Antiga



Em Amekni, Camps8 encontrou dois gros de plen que por seu tamanho
e forma poderiam pertencer a uma variedade domstica de Pennisetum, cuja
datao remonta a -6100 e -4850. Tambm foram identificados em Meniet,
por Pons e Quzel9, dois gros de plen pertencentes a um nvel datado de
-3600 aproximadamente e que podem provir de um cereal cultivado; Hugot10
acredita que sejam de trigo.
    Outros indcios menos conclusivos ligados ao cultivo de gramneas nessa
regio provm dos abrigos sob rocha de Sefar (Tassili); o radiocarbono os
situa por volta de -3100. Nesse abrigo, as pinturas rupestres11 tm por tema,
ao que parece, o trabalho da terra, embora os testemunhos lingusticos sugiram
que o cultivo do sorgo no Saara central seja muito antigo12. Independente
da utilizao de abrigos sob rocha, as populaes pr-histricas dessa regio
habitavam povoados relativamente extensos e permanentes, ou colnias situadas
nas encostas ou nas bordas de escarpas que dominavam lagos ou uedes13. Sua
indstria era particularmente rica em machados polidos e lascados, trituradores
e ms, seixos com cavidades, raspadores, cermicas e toda sorte de utenslios
de lascas.
    Sugeriu-se frequentemente, com pouca ou nenhuma base14, que esse complexo
de culturas representa uma difuso-estmulo proveniente do Oriente Prximo,
via Egito. Antes de tudo, o complexo cultural, associado s sementes encontradas
nos stios do Saara central  provavelmente advindas de uma colheita , 
muito diferente daqueles do Egito e do Oriente Prximo. Em segundo lugar,
as dataes das colheitas arqueologicamente mais antigas encontradas no Egito
parecem ser posteriores s de Amekni. Finalmente, as semelhanas culturais
(por exemplo, o grande nmero de ms) entre o complexo do Saara central e o
complexo pr-cermico descoberto por Hobler e Hester15 nas vizinhanas dos
osis de Dungal e Dineigi, no sudoeste da Lbia, so insuficientes para se supor
qualquer parentesco prximo. Ao contrrio do complexo do Hoggar, o da Lbia
 uma indstria de lminas, e no de lascas, compreendendo uma variedade


8     CAMPS, G. 1969-a, pp. 186-8.
9     PONS, A. & QUZEL, P. 1957, pp. 27-35.
10    HUGOT, H. I. 1968, p. 485.
11    LHOTE, H. 1959, p. 118.
12    CAMPS, G. 1960-b, p. 79.
13    MAITRE, I. P. 1966, pp. 95-104.
14    MUNSON, P. I. 1972.
15    HOBLER, P. M. & HESTER, J. J. 1969, pp. 120-30.
                                                                                                  A frica ocidental antes do sculo VII
                                                                                                  663
figura 24.1   frica ocidental: stios pr-histricos importantes. (Mapa fornecido pelo autor.)
                                                                    664
                                                                    frica Antiga
figura 24.2   Saara: mapa do relevo. (Mapa fornecido pelo autor.)
A frica ocidental antes do sculo VII                                               665



de lminas arqueadas, projteis, utenslios perfuradores em forma de broca e
facas bifaces. Esse complexo, que remonta pelo menos a -6000 e talvez a -8300,
apresenta mais semelhanas com as indstrias mesolticas do nordeste da frica
e da regio nbia do Nilo.
   Assim, embora o complexo lbio se situe na extremidade nordeste do vasto
planalto semicircular que se estende pelo Saara central, no  possvel consider-
-lo como precursor direto do "neoltico" do Hoggar, que ocorre na extremidade
sudoeste do mesmo planalto.  provvel que os arquelogos que trabalham na
regio tivessem mais xito se procurassem esse precursor primeiramente na rea
do Hoggar.

    O Saara meridional, o Sahel e partes das regies de savana da frica
    Ocidental
    O perodo neoltico nas diversas partes da frica ocidental costuma ser
considerado, no sem razo, como o resultado de influncias setentrionais, uma
vez que nessa regio certas indstrias da Idade da Pedra Recente apresentam
afinidades com os complexos ps-paleolticos do Hoggar ou do Saara oriental
e do Magreb. No entanto, as principais tradies arqueolgicas caractersticas
do incio do Neoltico (Idade da Pedra Recente) nessa rea apresentam traos
que as tornam bem distintas, principalmente no que diz respeito  cermica,
ao instrumental e s dimenses e organizao dos habitats. Nessa poca, os
povoados se localizavam, em sua maior parte, nas escarpas ou nas plancies
prximas de antigos lagos ou uedes. Distinguem-se trs tradies principais, que
provavelmente refletem diferenas nos quadros econmico e social:
              Nos limites setentrionais dessa regio encontram-se indstrias, como as de
               Tenere e Bel-air (Senegal), baseadas em lminas e incluindo uma variedade
               de micrlitos geomtricos e/ou projteis, com poucos ou nenhum elemento
               de pedra polida ou amolada; as instalaes so agrupadas e relativamente
               pequenas.
              Nas reas centrais, como as de Borku, Ennedi, Tilemsi, Ntereso e Daima,
               encontram-se indstrias que no possuem micrlitos geomtricos, mas
               que oferecem uma variedade de projteis, anzis e arpes, assim como
               alguns elementos de pedra polida e amolada, ocupando reas relativamente
               extensas.
              O terceiro grupo de indstrias, ao sul, representado sobretudo pelos
               complexos de Nok e Kintampo, embora praticamente desprovido de
666                                                                           frica Antiga



              lminas, micrlitos geomtricos e projteis,  rico em utenslios de pedra
              polida e amolada. Esse grupo se caracteriza pelas instalaes relativamente
              mais amplas e, ao que parece, permanentes.


      Os complexos do Vale de Tilemsi
   As provas recolhidas nos stios de Karkarichinkat16 mostram que pelo menos
durante os ltimos tempos da fase mida mais recente do Saara (-2000 a -1300)
essa zona foi habitada por pastores cujo modo de vida pouco diferia do dos
pastores seminmades atuais, como os Nuer do Sudo17 e os Fulani da frica
ocidental18. Os stios da poro meridional de Karkarichinkat assemelham-se
aos campos de pescadores e pastores, como o testemunha a grande abundncia
de conchas bivalves, espinhas de peixes e restos de bos; no entanto,  exceo
dos anzis, existem poucos ou nenhum objeto de pedra falhada. J na parte
norte de Karkarichinkat, a presena de grande nmero de objetos de cermica,
de estatuetas de animais em argila, de objetos de pedra (em especial uma
grande variedade de projteis) sugere um abandono da passividade e um maior
envolvimento com a criao, a caa e, talvez, em certa medida, a agricultura.
   Os grupos culturais que viviam no norte do Tilemsi, nos arredores de Asselar,
possuam uma indstria semelhante  de Tenere, na regio saariana (Tixier,
1962), datada pelo menos da mesma poca (os restos de esqueletos remontam a
-4440). Os dois grupos tm ms, machados polidos e raspadeiras; os micrlitos
geomtricos so mais raros no Baixo Tilemsi; elementos como pontas projteis
e cermica parecem apresentar diferenas. Alm de dedicar-se  criao de
gado, as populaes de Asselar e Karkarichinkat ao que parece tambm caavam
animais selvagens (gazelas, javalis, girafas, etc.) e praticavam a pesca e a coleta
de moluscos e plantas (Grewia sp., Celtis integrifolia, Vitex sp. e Acacia nilotica).
A ecologia atual dessas plantas sugere precipitaes de aproximadamente 200
mm, o que representa o dobro daquelas observadas atualmente no vale do Baixo
Tilemsi. Os estudos de Camps19 no erg de Admer, ao sul do Tassili n'Ajjer, fazem
supor que pastores com indstrias semelhantes s de Tenere viviam nos limites
setentrionais, ocupando igualmente o Tassili n'Ajjer e as plancies vizinhas pelo
menos desde o quarto milnio antes da Era Crist.


16    SMITH, A. B. 1974, pp. 33-35.
17    EVANS-PRITCHARD, E. E. 1940.
18    DUPIRE, M. 1962.
19    CAMPS, G. 1969-a.
A frica ocidental antes do sculo VII                                    667
figura 24.3    Complexo do vale de Tilemsi (segundo A. B. Smith, 1974).
668                                                                                      frica Antiga



      A regio do Dhar Tichitt
    As pesquisas realizadas nessa parte da Mauritnia meridional revelaram uma
sequncia de oito fases bem datadas da Idade da Pedra Recente20, contendo
dados de subsistncia que esclarecem um pouco o problema das primeiras
produes alimentares nessa regio em particular e na zona dos cursos superiores
do Senegal e do Nger em geral.
    Uma explicao plausvel para a tendncia ao desenvolvimento de uma
agricultura em Tichitt, na medida em que corresponde melhor aos dados
arqueolgicos, seria a de que uma cultura e uma propagao especiais de Cenchrus
biflorus teria ocorrido na fase Khimiya (-1500), sendo que posteriormente,
durante a fase seca de Naghez (-1100), a intensificao e a expanso dessa prtica
incipiente de produo e propagao de plantas incluram vrias outras espcies.
Munson e vrios outros arquelogos parecem se esquecer que a forma cultivada
de uma planta representa o fim, e no o incio do processo de melhoria. O tempo
requerido pelo processo de seleo das variedades cultivadas difere de acordo
com a planta e os fatores culturais e ecolgicos prprios da regio. O fato de
o Pennisetum e o Brachiaria deflexa representarem os ltimos testemunhos dos
esforos de aclimatao desenvolvidos pelo homem indica simplesmente que foi
com essas plantas que se obtiveram os melhores resultados, e no que elas foram
as nicas plantas cultivadas. Assim se explica facilmente a acentuada expanso
do Pennisetum e a presena contnua do Brachiaria deflexa nas fases subsequentes.

      A regio ao sul do Lago Chade
    Essa regio, geralmente conhecida como Firki, compreende as plancies de
argila negra que se estendem a partir das margens meridionais do lago Chade;
sua formao poderia dever-se ao acmulo de sedimentos lacustres nas beiras de
um antigo lago de maiores dimenses21.  nessa rea que Portres imagina que o
Sorghum arundinaceum e o Pennisetum (paino juncceo ou granulado) se tenha
aclimatado pela primeira vez. A regio  relativamente frtil e bem-irrigada.
Embora a mdia das precipitaes anuais seja baixa (655 mm em Maiduguri)
e a estao seca suficientemente longa e quente (at 43C) para provocar o
dessecamento da maioria dos rios, a regio permanece inundada e intransitvel
durante o perodo das chuvas, principalmente devido  impermeabilidade
das plancies, perfeitamente horizontais. Por outro lado, o solo retm bem

20    MUNSON, P. J. 1967, p. 91; 1968, pp. 6-13; 1970, pp. 47-8; 1972; MAUNY, R. 1950, pp. 35-43.
21    PULLAN, R. A. 1965.
A frica ocidental antes do sculo VII                                       669



a umidade, depois de absorv-la; atualmente, essa reteno  artificialmente
ampliada pela construo de aterros baixos ao redor dos campos. As inundaes
sazonais fizeram dessa rea um habitat favorvel tanto para agricultores como
para pastores, mas os rigores sazonais reduziram consideravelmente o nmero
de stios habitveis, e a utilizao constante dessas zonas no passado ocasionou
o acmulo de resduos na forma de montculos ou tells.
    As escavaes de alguns desses montculos na Nigria setentrional, em
Camares e no Chade revelaram at agora vestgios de ocupaes sucessivas
em lapsos de tempo que em certos casos se aproximam e at mesmo ultrapassam
2 mil anos. Lebeuf22, que trabalhou principalmente no Chade, est convencido
de que esses montculos esto ligados aos Sao das tradies orais. Embora este
termo se revista de grande valor cultural ou tnico, o autor do presente estudo
compartilha da relutncia de Connah23 em usar a tradio oral para identificar
povos que, em alguns casos, viveram h 2500 anos.
    Connah24 empreendeu um estudo sistemtico de um dos mais notveis desses
montculos, o de Daima (1430'L e 1212,5'N). Os vestgios de Daima sugerem
que no incio do sculo VI antes da Era Crist essa regio era habitada por
pastores da Idade da Pedra Recente que criavam gado corngero, ovelhas e cabras,
utilizavam machados de pedra polida  cujo material devia ser transportado
por longas distncias at essa regio, completamente desprovida de pedras
 e fabricavam utenslios e armas de osso polido. Entre as descobertas mais
surpreendentes feitas neste nvel figuram grandes quantidades de esqueletos de
animais, que testemunham a importncia do elemento pastoril, e numerosas
estatuetas de argila, que aparentemente representam animais domsticos. Os
primeiros habitantes desse stio provavelmente utilizavam apenas madeira e
vegetais nas suas construes e no conheciam os metais.
    As descobertas feitas em stios como Rop25 e Dutsen Kongba26 levam a
crer que uma fase neoltica perfeitamente familiarizada com o uso da pedra
precedeu imediatamente a famosa civilizao de Nok, da Idade do Ferro (isto ,
antes de 2500), no mosaico de savanas do planalto de Jos. Neste caso, o nvel
correspondente inclua provavelmente produtos de uma indstria microltica,
alm de utenslios de pedra talhada e polida, tambm encontrados nos nveis da


22   LEBEUF, J.-P. 1962.
23   CONNAH, G. 1969-b, p. 55.
24   CONNAH, G. 1967-a, pp. 146-7.
25   EYO, E., 1964-5, pp. 5-13; 1972, pp. 13-16.
26   YORK. R. et al. 1974.
670                                                                 frica Antiga




figura 24.4   Regio de Tichitt. (Mapa fornecido pelo autor.)



Idade do Ferro Recente.  bem possvel que o povo de Nok tenha comercializado
esses utenslios com as populaes que ocupavam as regies carentes de pedras,
ao norte, o mesmo ocorrendo talvez com a cermica, que, em Daima,  melhor
representada por finos utenslios de superfcies vermelhas polidas, frequentem
ente decoradas com pente fino ou roleta.

      Os complexos Kintampo-Ntereso na regio central de Gana
   Vestgios arqueolgicos que indicam a presena de um grupo de negros
produtor de gneros alimentcios pelo menos desde -1400 a -1300 (talvez antes)
A frica ocidental antes do sculo VII                                          671



foram descobertos em quatro regies principais de Gana: no leste dos montes
Banda, nas terras altas ao redor de Kintampo, nos stios fluviais espalhados pelas
vastas matas da bacia interior do Volta e nas plancies de Acra, no extremo sul.
    Atualmente, esses grupos de stios podem ser diferenciados antes pelo meio
ambiente que pelas evidncias de cultura material. O barro cozido  bastante
comum no stio de Kintampo e indica a presena de moradias mais ou menos
fixas. Os machados polidos e os raladores (tambm denominados "charutos de
terracota"), bastante difundidos nas reas em que no existem pedras prprias
para talhar, revelam a prtica de um comrcio inter-regional. Em trs desses
stios, os vestgios mostram tambm que o complexo de Kintampo foi precedido
por um outro, com uma tradio cermica muito diferente e um conjunto de
utenslios de pedra e de origem animal que refletem a prtica intensiva da caa,
da coleta e/ou de uma cultura alimentar incipiente.
    Na regio de Kintampo, Ntereso representa um stio muito particular, cujo
valor  difcil de determinar. Localiza-se numa pequena elevao de terreno
que domina um stio fluvial onde os recursos aquticos (por exemplo, conchas e
peixes) tinham grande importncia. Assim  provvel que a presena de arpes e
anzis nessa indstria indique uma adaptao especial a uma situao ribeirinha.
H tambm uma grande variedade de pontas de flecha muito bem trabalhadas,
nicas na rea, a testemunhar afinidades saarianas. As dataes por radiocarbono
(em mdia -1300) situam este stio aproximadamente na mesma poca de
Kintampo (isto , aps -1450). Os esqueletos de animais descobertos pertencem,
em sua maioria, a espcies selvagens, especialmente antlopes; contudo, tambm
foram identificadas cabras ans27. Segundo Davies28, as espigas de Pennisetum
eram usadas como roletas para decorar certas peas de cermica; no entanto, esta
observao ainda no  conclusiva, pois, como j se salientou29, pequenas oscilaes
rpidas de um pente com dentes finos podem produzir os mesmos efeitos.

     As orlas da floresta
   Um complexo industrial nitidamente local, cujo carter difere daquele
apresentado pelas indstrias anteriores da Idade da Pedra Recente, sucedeu
diretamente a estas ltimas nas zonas limtrofes da floresta na frica ocidental,
bem como nas grandes pradarias do norte do Alto Volta central. Essa indstria


27   CARTER, P. L. & FLIGHT, C. 1972, pp. 277-82.
28   DAVIES, O. 1964.
29   FLIGHT, C. 1972.
672                                                                      frica Antiga



se sobrepe a um complexo neoltico mais setentrional em certas partes do
Senegal, do Mali e da Mauritnia (o Paratoumbiense de Vaufrey).
    Os primeiros produtores de alimentos da regio da floresta (denominados
neolticos da Guin) habitavam abrigos sob rocha e cavernas, assim como
instalaes ao ar livre. Exemplos de abrigos so Yengema30, Kamabai e Yagala,
todos em Serra Leoa31; Kakimbon, Blande e as Monkey Caves, na Guin;
Bosumpra, em Gana; e Iwo Eleru e Ukpa, na Nigria. Indcios provenientes
de Iwo Eleru sugerem que os predecessores dessas populaes, como os povos
nilticos, eram negros. Os stios de habitao ao ar livre mais conhecidos incluem
os do vale e os dos contrafortes do Rim, ao norte do Alto Volta central, e os stios
de Rarenno, de Tiemassas e do cabo Manuel, no litoral senegals.
    Em vrias dessas zonas, os "neolticos da Guin" ocupavam ou exploravam
solos rochosos contendo afloramentos de quartzo, dolerito e slex metavulcnicos.
Por outro lado, parece que em stios como os do Rim as vertentes das colinas
eram utilizadas para culturas em terraos. As caractersticas mais comuns
desse complexo so os pesados bifaces talhados em forma de pico, os bifaces
semicirculares (as enxadas de Davies) e outros igualmente primitivos, e um
grande nmero e variedade de machados polidos, ms, alguns piles e pequenos
fragmentos de quartzo  principalmente outils esquilles  e cermica decorada
a roleta. Os bifaces semicirculares e em forma de pico parecem derivar dos
bifaces e pices nucleiformes sangoenses; sugeriu-se32 que provavelmente eram
utilizados para a plantao e colheita de tubrculos, assim como para escavar
armadilhas destinadas  caa. Os piles e almofarizes (que sem dvida tinham
sua rplica em madeira) deviam ser utilizados para triturar os tubrculos tropicais
fibrosos, como se faz atualmente33.
    Nos lugares onde este complexo depara com uma tradio mais setentrional,
como no Paratoumbiense do Mali e da Mauritnia e no Senegal (entre
Pointe-Sarenne e Tiemassas), encontram-se geralmente os tipos de objetos
mencionados acima associados a pontas foliceas, lminas entalhadas e lminas
com bordas retocadas. Em Tiemassas, o complexo local (Neoltico meridional),
situado pela estratigrafia natural entre -6 000 e -2 00034,  nitidamente anterior



30    COON, C. S. 1968.
31    ATHERTON, J. H. 1972, pp. 39-74.
32    DAVIES, O. 1968, pp. 479-82.
33    SHAW, T. 1972.
34    DESCHAMPS, C., DEMOULIN, D. & ABDALLAH, A. 1967, pp. 130-2.
A frica ocidental antes do sculo VII                                        673



ao Neoltico setentrional (Belairiense) e segue diretamente as tradies locais
da Idade da Pedra Recente.
    De modo significativo, os ndices arqueolgicos da juno Mali-Mauritnia-
-Senegal parecem confirmar a tese de Portres segundo a qual o arroz africano
de casca vermelha (Oryza glaberrima e Oryza stapfili) podetia ter-se aclimatado
inicialmente graas a um mtodo indgena de cultivo em terrenos alagados,
empregado h pelo menos 3500 anos nas vastas plancies inundadas do Alto
Nger, entre Segu e Tombuctu, regio do Mali onde o Nger se ramifica em
numerosos cursos de gua e lagos (delta interior do Nger). Dali a cultura
pode ter-se propagado ao longo dos rios Gmbia e Casamance at a regio
das populaes costeiras da Senegmbia. Vale notar, ainda, que a hiptese de
a cultura do arroz ter sido consequncia da importao dos conhecimentos do
cultivo de cereais no resiste ao exame dos ndices botnicos. Portres35 observou
que, embora a forma ancestral do trigo (emmer) produzisse gros comestveis que
podiam ser colhidos quando maduros (o que permitia cultiv-los em seguida), o
mesmo no ocorria com o arroz africano, cujas formas ancestrais no produziam
gros suscetveis de ser colhidos.
    Mais a leste  particularmente nos stios de Serra Leoa, Iwo Eleru e
Bosumpra , as dataes e a natureza das estratificaes arqueolgicas nas zonas
limtrofes da floresta levam a crer que mudanas importantes na tecnologia
(cermica, utenslios de pedra polida, etc.) provavelmente estavam associadas
aos primrdios da cultura indgena de plantas locais, como o inhame, inhame
de coco e o dendezeiro. Tais mudanas podem ter-se propagado dessa rea para
o norte.
    Desse modo, o conjunto das informaes tende a mostrar que o Saara central
e as terras altas vizinhas do Sahel formaram o ncleo das primeiras culturas
espontneas de determinadas gramneas, em particular do Pennisetum e do sorgo,
enquanto nas reas nigerianas da orla florestal surgiram as primeiras culturas
autctones de razes (inhames, inhames de coco) e rvores (dendezeiro). Por
outro lado, os confins da floresta no extremo oeste constituram o ponto de
partida da cultura do arroz. Portres36 observou que, das trs regies dotadas
de reservas substanciais de sorgo no-cultivado (frica ocidental, Etipia e
frica oriental), a frica ocidental apresenta um interesse especial porque,
diferentemente da frica oriental (e da sia), seus espcimes atuais so nicos,
ao invs de resultarem de cruzamentos entre as trs formas primitivas. Mais

35   PORTRES, A., 1962, pp. 195-210.
36   PORTRES, A., 1962.
674                                                                       frica Antiga



recentemente, porm, Stemler e seus colaboradores37 propuseram considerar
o Candatum como uma variedade relativamente nova de sorgo, obtida pela
primeira vez por populaes da atual Repblica do Sudo (que falam uma lngua
da famlia Chari-Nilo) pouco depois de 350 da Era Crist.
    As dataes por radiocarbono indicam que o homem do Neoltico do
Saara central (cerca de -7000)  o primeiro de todos os agricultores primitivos,
mas revelam igualmente que nas reas limtrofes da floresta a transio para a
produo alimentar ocorreu muito mais cedo do que nas reas do Sudo e do
Sahel, ao norte. Em Iwo Eleru, tal transio prolongou-se por um perodo que
vai de pouco depois de -4000 (-3620) at -1500. No abrigo sob rocha de Ukpa,
perto de Afikpo (554'N; 756'L)38, a datao da camada que contm cermica
e machados neolticos indica um perodo situado entre -2935 (140) e -95.
     um pouco mais tarde que o Neoltico da Guin ocorre em Serra Leoa,
a leste, e no Alto Volta, ao norte. Na gruta de Yengema, uma datao por
termoluminescncia da cermica que representa "o comeo e o fim aproximados
do NeoItico da cermica" indica uma poca que se estende de -2500 a -1500.
Em Kamabai, os nveis neolticos tambm cobrem um perodo que vai de
-2500 a +340 (100). No centro-norte do Alto Volta (Rim), esse mesmo tipo
de indstria se situa entre -1650 e +1000.
    O carter especfico do Neoltico guineense da orla florestal e sua datao em
relao aos primeiros complexos culturais de produo alimentar na savana e no
Sahel sugerem no apenas que a transio para a produo alimentar sobreveio
mais cedo nas reas florestais, mas tambm que foi independente das influncias
setentrionais. Essas provas confirmam, pois, a tese de que as culturas indgenas
da regio florestal  como o arroz (a oeste), os inhames e o dendezeiro (a leste) 
resultaram de iniciativas antigas, tomadas independentemente pelas populaes
locais. A propsito, convm assinalar que o desgaste dos dentes do esqueleto de
Iwo Eleru39 pode ser explicado pela mastigao de tubrculos cobertos de areia,
como os inhames. Tambm  significativo que os stios neolticos guineenses
predominem claramente na orla da floresta, nas florestas-galerias ao longo dos
cursos de gua ou nas clareiras, lugares que constituem o habitat natural do inhame.
    O fato de os neolticos da Guin terem avanado para o norte at o Alto
Volta e de serem encontrados em pocas posteriores (embora misturados a
elementos do norte em certas partes do Mali, da Mauritnia e do Senegal) 

37    STEMLER, A. B. L., HARLAN, J. R. & DEWET, J. M. 1975, pp. 161-83.
38    SHAW, T. 1969-b.
39    SHAW, T. 1971.
A frica ocidental antes do sculo VII                                          675



indcio de uma penetrao de influncias meridionais ao norte. A exemplo de
numerosos agricultores atuais da floresta tropical,  possvel que os neolticos
que cultivavam rvores e tubrculos tenham praticado, ao menos de incio, a
agricultura seminmade e, por consequncia, vivido em grupos relativamente
pequenos.
    Assim, afirmar que os complexos dos primeiros neolticos do oeste
africano apresentavam caractersticas locais bem determinadas  muitas delas
testemunhando um esforo de adaptao econmica e social, desenvolvido de
forma independente em resposta a condies ecolgicas particulares  no
significa que cada um desses complexos constitusse um enclave isolado. Os
vestgios de esqueletos descobertos levam a crer que as populaes da maior
parte dessas reas eram negras.
    No Saara, o homem neoltico aparece como uma mistura de mediterrnicos
e negros;  ele que povoa o Tassili neoltico. Deslocando-se para o sul,
provavelmente deu origem aos vrios grupos de pele escura que habitam a
atual savana.
    O fato de as primeiras populaes neolticas negras da frica ocidental
no terem vivido em enclaves culturais isolados  igualmente ilustrado pelas
semelhanas na tipologia da cermica (por exemplo, a tcnica "oscilante" e
a decorao por impresses de pente). A ser exata a datao,  provvel que
essas particularidades se tenham propagado a partir do Saara central (onde
era conhecida a cultura de gramneas) at as regies do Sahel e da savana. Por
outro lado, a roleta era mais especificamente um objeto do sul, enquanto as
linhas onduladas  pontilhadas ou contnuas , tpicas das regies nilticas,
esto totalmente ausentes no sul e s aparecem em alguns complexos do Saara
oriental e central (Hoggar, Bornu-Chade e Sul-Ennedi).
     igualmente importante insistir no fato de que as mudanas sobrevindas na
produo alimentar no envolveram obrigatoriamente a utilizao de utenslios
visivelmente novos. Exemplos etnogrficos levam o autor do presente estudo
a pensar que essa transio estaria associada sobretudo a modificaes nos
mtodos de trabalho e de utilizao dos solos (sem implicar, necessariamente,
uma mudana de utenslios): construo de terraos, mtodos de sulcagem mais
aperfeioados, utilizao do estrume, duplo amanho da terra e capina, transplante,
policultura, utilizao racional dos recursos de gua, conservao dos solos, etc. 
possvel que tais modificaes tenham despontado em diversos lugares e pocas,
quando, por alguma razo, as terras cultivadas se tornavam verdadeiramente
raras. A evoluo dos mtodos agrcolas no deixou de influenciar a organizao
social e as caractersticas do povoamento; no se pode, contudo, generalizar,
676                                                                       frica Antiga



uma vez que este fator agiu associado a outros, que por certo variavam em tipo
e carter de uma regio para outra.
    Segundo os dados de que se dispe atualmente, existiram pelo menos quatro
zonas principais de desenvolvimento no Neoltico, duas das quais se situavam
no extremo norte da frica ocidental.  sobretudo nas vastas plancies da regio
setentrional que bem cedo se estabeleceu a forma pastoril da transumncia. Nas
regies lacustres, nos vales e nas encostas das colinas vizinhas predominavam a
cultura de gramneas e, em certos casos, a criao associada ao cultivo. Ao sul,
por outro lado, as terras baixas e as orlas das florestas foram os principais centros
de cultura de razes e rvores.
    Duas reas nucleares principais foram identificadas na frica ocidental: uma
ao norte, na zona intermediria Sahel-Sudo, outra ao sul, na orla da regio
florestal. Os dois ncleos localizavam-se, pois, em regies de estaes opostas,
uma das quais desfavorvel ao crescimento vegetal (calor, aridez, frio). Num
quadro ecolgico desse tipo, as plantas acumulam reservas que lhes permitem
resistir e retomar com vigor seu desenvolvimento quando volta a estao
"favorvel". Essas reservas tomavam a forma de razes e tubrculos ao sul e de
sementes ao norte da zona sudanesa.
    Na floresta e na savana, com pouca ou nenhuma variao climtica sazonal,
as plantas cresciam num ritmo lento e regular; no precisavam lutar para
sobreviver nem acumular reservas  o que provavelmente encorajou os ensaios
de aclimatao nas duas reas nucleares. Encerrada entre essas duas reas, a
zona de savana central parece ter sido o ponto de encontro das influncias do
norte e do sul.
    Um fator importante  constitudo pelo fato de que a estao de
desenvolvimento das plantas era mais longa na regio das terras baixas de
floresta, enquanto os solos das zonas lacustres e fluviais do norte eram mais
frteis e tambm mais fceis de trabalhar. Por estas razes, o modo de vida do
homem nessas regies diferia em alguns aspectos, o mesmo ocorrendo com o
produto de suas atividades. Se, nas regies do norte, bastava limpar pequenas
reas para em seguida trabalhar o solo com a enxada, a atividade agrcola em
expanso nas zonas de floresta implicava quase sempre um desflorestamento
mais intenso (ou mais extenso), que nem sempre era acompanhado do aumento
das dimenses e do tempo de permanncia das instalaes. No primeiro sistema,
uma superfcie limitada de terreno podia ser explorada de forma contnua;
no segundo, fazia-se necessrio adotar, muitas vezes, uma agricultura de tipo
seminmade. Essas diferenas gerais de modo de explorao tiveram, durante
os perodos pr-histrico e histrico, repercusses importantes nas dimenses
A frica ocidental antes do sculo VII                                           677



e no carter dos grupos sociais da frica ocidental, bem como na natureza de
suas instalaes. Mas o desenvolvimento das primeiras produes alimentares
e suas consequncias variavam, at certo ponto, segundo o quadro ecolgico.
    A transio da coleta (de alimentos) para a cultura alimentar nas trs principais
regies culturais modificou de diversas maneiras a atitude do homem em relao
ao seu meio ambiente natural e ao seu grupo. De coletor ele passou a produtor e
"armazenador", vindo, depois, a trocar (graas ao comrcio de longa distncia) os
produtos que faltavam a seus vizinhos por mercadorias de que seu prprio grupo
necessitava. Ademais, a evoluo econmica incentivou o desenvolvimento de
atividades artesanais e de novas tecnologias (cermica, metalurgia, etc.), assim
como de redes comerciais ativas e complexas, alm de ocasionar profundas
transformaes sociais. Mas essas mudanas sociais variavam, por sua natureza
e amplitude, de acordo com o tipo de base agrcola estabelecido.

     A Idade do Ferro Antiga
    As etapas do desenvolvimento da Idade do Ferro no parecem diferir muito das
do Neoltico, salvo pelo fato de os primeiros exemplos de transio para a Idade
dos Metais e do Ferro na frica ocidental terem ocorrido nas duas extremidades
da zona Sahel/savana, e no nas regies florestais do sul. A propsito, os indcios
culturais e cronolgicos nos autorizam a pensar que o processo que conduziu ao
trabalho dos metais  assim como as origens da produo alimentar  contou
com uma participao indgena considervel. Como foi exposto anteriormente40,
os traos da Idade do Ferro Antiga na frica ocidental podem ser divididos, no
plano tipolgico e, em certa medida, cronolgico e estratigrfico, em conjuntos
caracterizados pela presena de: 1. cermica e utenslios de ferro e de pedra
polida; 2. cermica, ferro e/ou outros metais, por vezes relacionados a prticas
funerrias especiais (jarros); 3. cermica unicamente.
    Os stios nos quais os traos da metalurgia do ferro se misturam aos de uma
indstria ltica razoavelmente desenvolvida constituem, em geral, os conjuntos
mais antigos da Idade do Ferro, refletindo provavelmente a passagem da Idade
da Pedra para a Idade do Ferro. Os stios caracterizados por essas indstrias de
transio foram identificados em vrias partes da frica ocidental e tambm em
outros lugares (por exemplo, na regio dos Grandes Lagos, na frica oriental).
Via de regra, essas indstrias continham escrias de ferro, lminas de faca,
fragmentos de flechas e de pontas de lana, anzis e braceletes, pedras-martelo,


40   ANDAH, B. W. (WAI-OGOSU, B.). 1973.
678                                                                    frica Antiga



uma variedade de utenslios em forma de machado ou de enx, discos ou anis
de pedra, ms e pedras de polir. Observam-se tambm diferentes tendncias
regionais. Por exemplo, as estatuetas de terracota parecem ser caractersticas da
Nigria setentrional, mas ocorrem igualmente em alguns stios de Gana. Tubos
de forja e fragmentos de uma suposta parede de forno foram descobertos na
Nigria setentrional. Por outro lado, os bifaces grosseiramente talhados so mais
caractersticos dos stios de Kamabai e Yagala, em Serra Leoa. No Rim (Alto
Volta) pesados bifaces, juntamente com machados e enxs, ocorrem associados
a jarros funerrios e indicam um parentesco com o Neoltico guineense, de
pocas anteriores.
    A variao regional tambm  evidente na cermica da Idade do Ferro
Antiga. Por exemplo, a sequncia de Bailloud41 relativa ao Ennedi  incluindo
dois estilos aparentados, Telimorou e Chigeou, que se estendem pelo perodo
de transio entre o Neoltico recente e a Idade do Ferro Antiga  liga-se
aparentemente  cramique cannele de Coppens42, proveniente do Chade, e ao
estilo Taimanga de Courtin43, procedente de Borku. Telimorou est associado
aos mais antigos stios de aldeias ao ar livre, e supe-se que sua datao remonte
ao primeiro milnio antes da Era Crist. Tanto Bailloud como Courtin destacam
as semelhanas entre esses estilos de cermica e as do Grupo C da Nbia,
embora estas ltimas paream ter uma datao bem anterior (comeando por
volta de -2000). A maior parte das caractersticas da decorao desses estilos
 faixas de impresses oblquas estampadas a pente, gravaes entrecruzadas e
entrelaadas, tringulos hachurados gravados, falsos relevos, ranhuras paralelas,
etc.  tambm so tpicas dos complexos da Idade do Ferro Antiga descobertos
em Taruga, nos stios reconhecidos por Lebeuf no lago Chade, em Sindou e nos
nveis 2 e 3 de Ntereso, assim como nas grutas de Serra Leoa. Alguns traos do
estilo Taruga primitivo parecem prenunciar o "complexo de Ife" no tocante s
tradies tanto de cermica como de estatuetas.
    Contrastando com o que precede, os estilos das cermicas mais recentes de
Taruga guardam maior semelhana com os dos nveis do Neoltico e da Idade
do Ferro no Rim. Em ambos predomina uma grande variedade de decoraes,
obtidas por meio de roletes gravados e em espiral, e existem exemplos isolados
do uso do rolete de espiga de milho. At agora, a mais conhecida das sociedades
da Idade do Ferro Antiga  talvez a de Nok, que parece ter sido uma das mais

41    BAILLOUD, G. 1969, pp. 31-45.
42    COPPENS, Y. S. 1969, pp. 129-46.
43    COURTIN, J. 1966, pp. 147-59; 1969.
A frica ocidental antes do sculo VII                                        679



antigas e influentes. Tudo indica que as populaes de Nok trabalhavam o ferro
desde -500 e provavelmente at mesmo um pouco antes. O que mais se conhece
dessa cultura  sua notvel tradio artstica, com destaque para as estatuetas
de terracota. Apesar de conhecerem a metalurgia do ferro, as populaes de
Nok ainda continuavam a usar utenslios de pedra nas atividades em que os
consideravam mais eficientes. Entre esses artefatos incluem -se ms, seixos
trabalhados e machados talhados ou polidos. Mesmo quando coexistiam na
mesma poca e no quadro da mesma tradio artstica, alguns stios de Nok
apresentavam caractersticas originais, que sugerem variaes regionais. Assim,
por exemplo, os machados polidos esto totalmente ausentes em Taruga, e
existem diferenas na cermica domstica de Samun Dukiya, Taruga e Katsina
Ala44.
    No s a cultura Nok estava firmemente estabelecida h bem mais de 2500
anos como sua influncia parece ter sido profunda. Assim  que se encontram
alguns dos traos estilsticos da cultura Nok em estatuetas de argila de Daima,
onde a metalurgia do ferro teve incio em torno do sculo V ou VI da Era Crist.
    Connah acredita que por volta do sculo VIII os primeiros habitantes de
Daima foram substitudos por outros povos que utilizavam amplamente o ferro,
cultivavam sobretudo os cereais e mantinham com seus vizinhos contatos mais
estreitos do que seus predecessores; permaneceu, no entanto, o hbito de sepultar
os mortos em posio fletida, a exemplo da fabricao de estatuetas de argila.
Em nenhum momento essas populaes enterraram seus mortos nos enormes
jarros geralmente denominados "vasos sao", conquanto esse tipo de cermica
esteja presente na parte superior dos montculos funerrios.
    Num raio de 100 km ao redor de Fort Lamy, na Repblica do Chade,
numerosos e importantes montculos  vestgios de antigos povoados, alguns
atingindo at 500 m de comprimento  foram descobertos nas colinas naturais
ou artificiais s margens dos rios do vale do Baixo Chari; continham quase
os mesmos objetos de Nok e Daima. Entre esses objetos encontravam-se
belas estatuetas em terracota representando personagens humanas ou animais,
ornamentos de pedra, armas de cobre e bronze e milhares de cacos de cermica.
Nesses povoados utilizavam-se tambm enormes vasos funerrios, que eram
cercados por muros defensivos.
    Para esses stios sao, Lebeuf (1969) obteve dataes de radiocarbono que
variam entre -425 e +1700, o que parece cobrir todo o perodo de Sao I, II e III.


44   FAGG, A. 1972, pp. 75-9.
680                                                                               frica Antiga



No entanto, Shaw45 acredita que essas delimitaes no esto satisfatoriamente
definidas em termos de estratigrafia e de cultura material. Se a datao -425
correspondesse a um nvel portador de ferro, sua importncia seria bvia.

      Nigria meridional
      Para a Nigria meridional, Willett46 observa que:
      "Encontram-se tantos traos da cultura Nok, principalmente de sua arte, nas culturas
      posteriores de outros lugares da frica ocidental que  difcil deixar de acreditar que,
      tal como a conhecemos, essa cultura representa o tronco ancestral do qual deriva o
      essencial das tradies esculturais dessa parte da frica".
    Quer esta observao seja verdadeira ou no,  certo que as numerosas
semelhanas observadas nas artes de Nok e de Ife no se devem ao acaso47.
Como em Nok, encontram-se em Ife, em Benin e, num grau menor, em outras
antigas cidades do pas Iorub, uma tradio escultural naturalista que remonta
pelo menos a +960 (130), assim como pingentes e colares elaborados.
    A cermica domstica encontrada em Ife representa um progresso em relao
aos espcimes de Nok, sobretudo na decorao  mais variada, incluindo a gravura
(linhas retas, ziguezagues, pontilhismo, motivos curvilneos), o polimento, a pintura,
a impresso com roletes de madeira entalhada ou cordo tranado e a aplicao
de faixas de argila. Fragmentos de cermica pavimentavam o solo das habitaes.
    As escavaes de Igbo Ukwu48 mostraram claramente que o ferro era
trabalhado na Nigria do sudeste desde o sculo IX da Era Crist, mas nada
sugere que no possa ser anterior. Como a arte do ferreiro era uma ocupao
altamente especializada, sua prtica permaneceu como apangio de certas
comunidades e linhagens. Os mais renomados ferreiros Igbo so os de Awka
(a leste de Onitsha); ao que tudo indica, obtinham inicialmente o ferro (ou o
minrio) dos fundidores Igbo de Udi, a leste de Awka, e s muito mais tarde
passaram a receber suprimentos da Europa. Outros centros de metalurgia
entre os Igbo eram as aldeias dos Abiriba  fundidores Igbo do Cross River
(a leste) , dos forjadores de ferro e bronze estabelecidos prximos das colinas
Okigwe-Arochuku e dos forjadores Nkwerre, da parte meridional dessa regio.


45    SHAW, T. 1969-a, pp. 226-9.
46    WILLETT, F. 1967, p. 117.
47    Ibid., p. 120.
48    SHAW, T. 1970-a.
A frica ocidental antes do sculo VII                                          681



    Em razo do nmero por demais restrito de trabalhos arqueolgicos
empreendidos nessa rea,  difcil comentar em detalhe as modalidades da
evoluo do trabalho do ferro. A proximidade dos stios de Awka e de Igbo
Ukwu e, de um modo geral, a semelhana de muitos espcimes sugerem a
possibilidade de contatos, mas os dois complexos esto cronologicamente muito
distanciados, e os forjadores de Awka no demonstraram, pelo menos em pocas
mais recentes, certas caractersticas artsticas e tcnicas  incluindo a fundio
do bronze  tpicas do trabalho de Igbo Ukwu.
    Uma escavao na rea de Awka49 trouxe  luz quinze gongos de ferro, uma
espada de ferro semelhante s fabricadas ainda hoje pelos ferreiros de Awka, um
grande nmero de sinos de bronze fundido e outros objetos, datados de at +1495
(95) e que no podem ser to facilmente atribudos aos ferreiros de Awka.
    Tambm no est esclarecida a poca em que se teriam estabelecido relaes
culturais entre Ife e Igbo Ukwu, embora Willett acredite que Ife talvez remonte
a uma poca mais recuada do que se imagina hoje e que possa inclusive estar
muito mais prxima do Nok do que sugerem as informaes de que dispomos
atualmente (por volta do sculo XIII ou XIV da Era Crist). Se os colares de Ife so
realmente os mesmos que os akori da costa da Guin  como sugerem os indcios
etnogrficos descobertos na Nigria meridional, e como pensa Frobenius , 
concebvel que os colares de vidrilhos de Igbo Ukwu tenham sido confeccionados
em Ife. Nesse caso, a cultura de Ife remontaria pelo menos  mesma poca que as
descobertas de Igbo Ukwu (sculo IX da Era Crist). A propsito, no  menos
significativo que a descontinuidade da tradio na escultura em pedra, na indstria
de vidro e nas estatuetas de barro observada em Ife seja em grande parte paralela
 de Daima50, e que a descontinuidade cultural verificada em Daima se situe entre
os sculos VI e IX da Era Crist. E, na medida em que certos objetos funerrios
descobertos em Daima tendem a indicar a presena de relaes comerciais entre
Ife e Daima,  bem possvel que haja paralelo cultural e coincidncia cronolgica.
Portanto, existe uma real possibilidade de que Ife remonte pelo menos ao sculo
VI da Era Crist.

     A Idade do Ferro no extremo ocidente
   A Idade do Ferro no extremo ocidente africano  ainda menos conhecida que
a de Nok e das reas vizinhas. Assim, as poucas informaes de que dispomos


49   HARTLE, D., 1966, p. 26; idem, 1968, p. 73.
50 CONNAH, G., 1967-a, pp. 146-7.
682                                                                    frica Antiga



sobre a Mauritnia no se referem a uma Idade do Ferro, mas a uma "Idade do
Cobre". Para a regio do Mdio Nger, e particularmente para a Senegmbia,
dispomos apenas de uma sequncia cronolgica parcial51.
    As escavaes efetuadas por N. Lambert em Akjujit (Mauritnia)52 indicam
que a fundio do cobre no Saara ocidental data pelo menos de -570 a -400. Esse
perodo tambm pode ter sido o do comrcio transaariano do cobre. Estima-se
em 40 toneladas a quantidade de cobre extrada de um dos stios, e  possvel
que uma parte dessa produo fosse exportada do Saara ocidental para o Sudo.
Embora a importncia de Akjujit tenha declinado no incio dos tempos histricos,
talvez devido ao esgotamento do estoque de madeira utilizvel para a fundio
(como ocorreu em Mroe) , o comrcio transaariano aparentemente continuou a
assegurar o fornecimento de cobre e de objetos de cobre atravs do Sudo central.
    Os inumerveis objetos de cobre que provm dos stios arqueolgicos ou
integram colees de museus, alm daqueles mencionados nas fontes escritas,
sugerem que a utilizao desse metal, por mais raro que fosse, desfrutou,
durante muito tempo, de razovel difuso na frica ocidental  embora no
fosse esse material to importante quanto a madeira, o ferro e a argila. As
importaes do cobre e de suas ligas se davam sob vrias formas, que pouco
se alteraram no decorrer dos sculos: lingotes, manilhas, anis, fios, sinos e
recipientes, provavelmente utilizados, sem alteraes, seja como matria-prima
para a indstria local, seja para a fundio mediante o processo da cera perdida
e para martelagem, trefilao, toro, etc.
    As populaes africanas faziam distino entre o cobre vermelho  isto , o
cobre em sua forma pura , o bronze e o cobre amarelo ou lato. Infelizmente,
essa preciso no aparece na maioria dos escritos.  necessrio proceder 
anlise espectrogrfica para determinar o teor real do metal de um objeto e as
preferncias dos primeiros utilizadores do cobre e sua liga (bronze).

      A regio do Mdio Nger
   Encontraram-se montculos de terra artificiais  stios de povoamentos ou
sepulturas (tumuli)  nas trs reas principais dessa regio:
             na confluncia Nger-Bani no vale de Bani;
             no norte e no nordeste de Macina e de Segu;
             no extremo leste da curva do Nger, no Alto Volta.

51    LINARES DE SAPIR, O. 1971, pp. 23-54.
52    HERBERT, E. W., 1973 pp. 170-94.
A frica ocidental antes do sculo VII                                        683



    Nestas trs reas foram descobertas cermicas volumosas e espessas, decoradas
principalmente com roletes de corda tranada, e frequentemente usadas como
jarros funerrios. Em alguns lugares, esses jarros se encontram em conjuntos
de dois e trs, com os respectivos apetrechos domsticos. No Alto Volta (Rim),
os principais utenslios descobertos eram de ferro e pedra polida, misturados a
cermica domstica. Objetos de bronze e de cobre tambm estavam presentes
na zona da curva do Nger. Em Macina e na regio de Segu (mas no em
Bani ou no Rim, no extremo leste, no Alto Volta) descobriu-se uma cermica
moldada caracterstica, polimorfa, belos pratos e tigelas de fina espessura 
alguns com nervuras, suportes ou com base chata , copos com ps, cntaros e
jarros troncnicos53.
    Em Segu e Tombuctu, algumas dessas populaes da Idade do Ferro
compunham-se principalmente de agricultores que cultivavam o milhete e o
arroz; outras se dedicavam sobretudo  pesca, utilizando redes com pesos de
terracota ao invs de arpes de osso. Nessa regio existiam notveis monumentos
pr-islmicos, de pedras artisticamente trabalhadas a martelo, e algumas das
descobertas se estendem por dezenas de hectares, testemunhando importantes
concentraes de populao. Mas pouqussimos stios foram inventariados, ou
o foram apenas superficialmente; no entanto, muitos deles sofreram grandes
saques dos franceses54.
    Somente escavaes extensas permitiro determinar as dimenses exatas e
a natureza dessas instalaes, bem como o tipo de economia das populaes
que viveram na regio. A sequncia cronolgica desses stios ainda no foi
estabelecida. Monod acredita que essas culturas de jarros funerrios faziam parte
de um "complexo lehim" mais amplo, concentrado na costa mediterrnea e que
confinava com a regio da curva do Nger, o que implica serem essas culturas
da Idade do Ferro oeste-africana posteriores ao advento do mundo rabe (isto
, +1000 e +1400). Contudo, os resultados de pesquisas recentes no confirmam
essa opinio.
    Em Kouga, por exemplo, as escavaes realizadas num tmulo permitiram
atribuir uma datao de +950 (120) a um nvel relativamente recente, contendo
cermica pintada em branco sobre fundo vermelho. Cacos de cermica
encontrados na superfcie traziam impresses de paino, trigo e talvez de milho.
As indicaes coletadas nesse e em outros stios desta parte da frica ocidental
evocam um nvel mais antigo da Idade do Ferro, caracterizado principalmente

53   SZUMOWSKI, G. 1957, pp. 225-57.
54   DAVIES,O. 1967-a, p. 260.
684                                                                    frica Antiga



por cacos de cermica com impresses ou desprovidos de qualquer decorao,
assim como por utenslios de osso e pedra e braceletes. No Alto Volta, uma
tradio cultural aparentada remonta a um perodo ainda mais antigo: sculos V
e VI da Era Crist55.

      A regio da Senegmbia
    Tumuli funerrios foram descobertos igualmente em certos setores dessa
regio, particularmente em Rao, situado na embocadura do rio Senegal56, e no
norte do Senegal, ao longo do rio. Ainda aqui, a maior parte dos stios no foi
inventariada em detalhe; todavia um estudo superficial indicou que os defuntos
eram sepultados em habitculos de madeira recobertos por montculos de pelo
menos 4 m de altura, contendo utenslios de ferro, braceletes de cobre, colares,
joias de ouro e vrios tipos de cermica de formas simples: potes, tigelas, copos
e jarros, no pintados mas abundantemente decorados com motivos elaborados,
executados principalmente por entalhe e puno, sem utilizao de pente.
    Segundo escavaes recentes, esses meglitos datariam de +75057, isto , de
um perodo posterior ao que nos interessa, sobretudo neste captulo.
    Os principais stios do litoral dessa regio referem -se mais diretamente
ao nosso perodo e incluem notadamente grandes quantidades de moluscos.
Perto de Saint-Louis e em Casamance, enormes baobs cresciam, por vezes,
sobre esses montes de conchas. Os concheiros de Saint-Louis estudados por
Joire58 revelaram, a exemplo de vrios outros, uma indstria da qual subsistem
ocasionais fragmentos de cermica impressos a pente, um anel tranado de
cobre e ferro, um machado de osso e alguns outros artefatos do mesmo material.
Entre outras coisas, as populaes que nos legaram esses concheiros pescavam
ostras e as comerciavam com as populaes do interior. Entre Saint-Louis e
Joal, o litoral de dunas e rochas, considerado imprprio para a ostreicultura59,
foi habitado por densa populao desde o Neoltico at a Idade do Ferro. Em
Dacar (em Bel-Air, por exemplo) encontram-se vestgios da Idade do Ferro
nitidamente estratificados acima do Neoltico. As formas e a ornamentao das



55    ANDAH, B. W. 1973.
56    JOIRE, J. 1955, pp. 249-333.
57    DESCHAMPS, C. & THILMANS, G.
58    JORGE, J. 1947, pp. 170-340.
59    DAVIES, O. 1967-a; 1967-b, pp. 115-18.
A frica ocidental antes do sculo VII                                        685




figura 24.5    Montculos de detritos do Firki (segundo G. Connah. 1969-b).
686                                                                    frica Antiga



cermicas parecem ter variado pouco no curso dos sculos, de modo que os stios
no-estratificados no podem ser classificados de maneira satisfatria.
    Um estudo de vrios concheiros do Baixo Casamance, efetuado numa rea
de 22 km por 6 km, revelou uma sequncia cultural que se estende de 200
a +1600, imbricada com elementos do incio da cultura material moderna
diula. Sapir acredita que a fase mais antiga conhecida at agora (perodo de
1200 a +200), descoberta nos stios de Loudia e de Quolof, pertence antes
ao Neoltico recente que a uma fase mais antiga. Os contatos e as influncias
culturais so indicados pela cermica dessa poca, que partilha tcnicas
decorativas, como a gravura em linhas onduladas, com a cermica neoltica
amplamente difundida do cabo Verde60 at a Arglia meridional61 e mesmo
at a frica central. No se descobriram utenslios de pedra nesses stios, mas
encontram-se frequentemente ndulos de ferro dos pntanos, o que leva a
supor a utilizao do ferro. No entanto observa-se nas cercanias de Bignona
a presena de machados de pedra pr-histricos, supostamente encontrados
nos concheiros.
    Os dados arqueolgicos desse perodo evocam instalaes esparsas,
constitudas por pequenos acampamentos situados em orlas arenosas pouco
elevadas, provavelmente recobertas por ervas e arbustos e cercadas por florestas.
No se praticava a pesca de crustceos, e  difcil imaginar como essas populaes
asseguravam a sua subsistncia. As raras ossadas de animais descobertas
pertencem a alguns mamferos no-identificveis.
    A total ausncia de vestgios de moluscos e espinhas de peixe (nos quatro
stios que representam cerca de 400 anos de ocupao de terreno) e a presena
de fragmentos de cermica, cujo material no inclui conchas modas, foram
consideradas pelos primeiros pesquisadores como reveladoras da inadaptao
dos "primeiros habitantes" da costa  vida em meio litorneo. Segundo
Aubreville62, densas florestas recobriam toda a regio em torno do planalto
de Cussouye, antes que fossem destrudas pelo fogo e a rea convertida num
arrozal. Se essa opinio for correta,  possvel que os habitantes do Perodo I
j praticassem a agricultura, cultivando talvez o arroz de sequeiro (em terrenos
secos).
    Durante as ocupaes que se seguiram (Perodos II a IV, ou seja, posteriores
a +300), a fauna abundante dos mangues e marigots foi explorada, e  possvel

60    MAUNY, R. 1951, pp. 165-80.
61    HUGOT, H.-J. , 1963.
62    AUBREVILLE, A. 1948, p. 131.
A frica ocidental antes do sculo VII                                         687



que tambm se haja praticado a agricultura, embora no se tenha realizado uma
pesquisa sistemtica de vestgios de arroz ou outras plantas. Nesses nveis, os
arquelogos consideram que suas descobertas "correspondem bem s prticas
diula antigas e modernas", embora a sequncia dos tipos de cermica relacione
os antigos acmulos de detritos alimentares aos acmulos modernos vizinhos.
    Atualmente se percebe que esta sequncia parece demasiado recente para
esclarecer as origens da cultura do arroz irrigado nessa regio. Contudo, 
til observar que Portres63 considera a Senegmbia um centro secundrio de
propagao do Oryza glaberrima, situando-se o centro principal numa rea
vizinha ao Mdio Nger.
    Os stios do Baixo Casamance representam, ao que parece, uma etapa
avanada da cultura do arroz irrigado. Nessa poca, a utilizao de instrumentos
de ferro permitiu explorar os mangues e sulcar os terrenos argilosos de aluvio
para preparar campos de arroz. Na realidade, seria conveniente procurar os
primeiros centros da cultura do Oryza glaberrima nos solos movedios dos
vales interiores ressecados, onde teria sido possvel cultivar o arroz de sequeiro,
semeado  mo ou plantado em pequenas covas, aps a limpeza do terreno com
instrumentos de pedra.
    A atividade agrcola da regio s poder ser conhecida com maior preciso
aps o empreendimento de pesquisas arqueolgicas nas reas-chave. De
qualquer modo, sabe-se atualmente que aspectos identificveis da cultura diula
estavam presentes desde o Perodo II. Como ocorre ainda hoje, grupos humanos
viviam nas orlas arenosas dos vales de aluvio ou no muito distante delas,
depositando seus dejetos em lugares determinados. A se formavam volumosos
amontoados de resduos contendo fragmentos de cermica e outros detritos que
lembram a cultura material diula. Durante todo o perodo, a cermica tradicional
do Baixo Casamance deu maior nfase s decoraes gravadas, pontilhadas e
impressas do que s pintadas, bem como s formas utilitrias  em detrimento
das ornamentais  ou prprias para as cerimnias. Ainda no se sabe se essas
populaes do Casamance enterravam a cermica com os mortos, uma vez que
no se encontrou nenhuma sepultura nos stios em questo ou em suas cercanias.
    Arkell, entre outros, sugeriu que as tradies do trabalho do ferro, descritas
acima, foram introduzidas na frica ocidental a partir da esfera egpcio-nbia,
enquanto outros, como Mauny, as fazem derivar de Cartago. No entanto, os autores
que sustentam essas teses no do o justo valor, entre outras coisas, s diferenas


63   PORTRES, A., 1950.
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fundamentais que aparecem na forma como a metalurgia do ferro se desenvolveu
nas duas regies. Na esfera egpcio-nbia, a transio para a Idade do Ferro se deu
atravs das etapas do trabalho do cobre, do ouro e da prata, do ferro meterico (no
perodo dinstico) e, em seguida, do ferro terrestre. Por outro lado, os centros do
trabalho primitivo do ferro na frica subsaariana passaram diretamente da pedra ao
ferro, sem (ou quase) o intermedirio do cobre ou do bronze,  exceo, talvez, da
Mauritnia. De fato, o cobre e o bronze receberam, posteriormente, um tratamento
muito semelhante ao do ferro, ao passo que na esfera egpcio-nbia o cobre e, mais
tarde, o ferro foram trabalhados segundo mtodos bastante diferentes. As dataes
que puderam ser efetuadas no fornecem maiores confirmaes s duas variantes
da teoria da difuso do que os ndices culturais recolhidos diretamente. Assim, os
Garamantes da Lbia e as populaes merotas comearam, ao que parece, a se servir
de carros e provavelmente de artefatos de ferro por volta de -500, poca que marca
o incio da metalurgia do ferro na regio de Nok, no norte da Nigria. De resto, a
datao de alguns stios sugere que o trabalho do ferro pode mesmo ter ocorrido na
regio de Nok desde -1000.
    Na verdade, a tese segundo a qual a metalurgia do ferro se teria propagado
do exterior para a frica ocidental no d a devida importncia aos numerosos
problemas ligados ao processo  maneira, poca e lugares (no houve
necessariamente um nico lugar) onde se deram os primeiros passos da transio
do material rochoso ou da terra para os metais, que, resistentes e durveis, se
mostravam mais eficazes que a pedra como armas e se prestavam a inmeros
outros usos. A este respeito, Diop64 e Trigger65 observaram com razo que
      "as primeiras dataes relativas aos stios da Idade do Ferro na frica ocidental
      e meridional deveriam lembrar-nos que no se trata de rejeitar a possibilidade
      de o trabalho do ferro ter-se desenvolvido independentemente em uma ou vrias
      localidades ao sul do Saara".
   Com demasiada frequncia se tem confundido a questo do incio com
a do grau de refinamento das tcnicas. E, o que  pior, os defensores da tese
segundo a qual o trabalho do ferro se teria propagado do Oriente Prximo
para a frica quase sempre supuseram (erroneamente, ao que parece) que as
etapas da metalurgia reveladas no Oriente Prximo e na Europa deviam estar
obrigatoriamente presentes em toda a frica.



64    DIOP, C. A. 1968, pp. 10-38
65    TRIGGER, B. G. 1969, p. 50.
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     O comrcio pr-histrico e os primeiros Estados da
     frica ocidental
    Os objetos descobertos em tmulos do Fezzan indicam que, entre os sculos
I e IV da Era Crist, mercadorias romanas eram importadas para a regio.
Aps tomarem o lugar dos cartagineses na costa tripolitana durante a segunda
metade do sculo II antes da Era Crist, os romanos ao que parece passaram a
importar, por sua vez, marfim e escravos do Sudo, tendo os Garamantes como
intermedirios. As fontes literrias tambm se referem a expedies de caa e a
invases no sul, e descobriram-se objetos de origem romana ao longo da "rota
dos carros" no sudoeste do Fezzan. Aps o declnio de Roma, o comrcio decaiu,
mas posteriormente se reativou com a reconquista bizantina, aps +533 e antes
da invaso do Fezzan pelos rabes66. Pesquisas arqueolgicas recentes mostram
claramente a importncia, nos tempos pr-histricos, das relaes comerciais de
longa distncia com as populaes do Saara e da frica setentrional. O que de
modo algum justifica afirmaes como a de Posnansky67, segundo a qual, "para
descobrir as origens do comrcio de longa distncia na frica ocidental, nossas
pesquisas devem comear nas areias do Saara". Por mais bem intencionada que
fosse tal assero, a nfase est errada e pode ter consequncias nefastas. Ela
tende a ignorar o fato de que um sistema interno de comrcio de longa distncia
existiu na frica ocidental muito tempo antes do comrcio transaariano e
favoreceu o desenvolvimento deste ltimo.
    Segundo o autor, as provas recolhidas testemunham a existncia, a partir do
incio da Idade do Ferro, de uma complexa e ampla rede de comrcio de longa
distncia, alimentada pelos produtos de indstrias locais (principalmente peixe
e sal), entre as populaes do litoral e os agricultores do interior de um lado e
entre essas populaes meridionais e as sociedades do norte, mais voltadas para
a criao, do outro. Esse comrcio assentava em importantes produtos locais,
como o ferro e a pedra (para utenslios e armas), couro, sal, cereais, peixe seco,
tecidos, cermica, madeira trabalhada, nozes de kola e ornamentos pessoais de
pedra e de ferro.
    Como o prprio Posnansky admite, em numerosas comunidades agrcolas da
frica ocidental os machados de pedra polida (conhecidos em Gana sob o nome
de nyame akume) e as cermicas eram transportados por distncias de centenas

66   Nota do editor do Volume: um ponto de vista oposto  apresentado nos Captulos 17, 18 e 20 do presente
     volume.
67   POSNANSKY, M. 1971, p. 111.
690                                                                   frica Antiga



de quilmetros desde o Neoltico e a Idade do Ferro. Os raladores de pedra da
"cultura" de Kintampo, datados em torno de -1500, eram feitos de uma marga
dolomtica manifestamente transportada por grandes distncias, uma vez que foi
encontrada tanto na plancie de Acra como no norte de Gana. No Rim, perto de
Ouahigouya, os nveis da Idade do Ferro/Neoltco so associados  existncia de
manufaturas de machados, e o stio parece ter sido um centro importante para
o fornecimento de machados a reas desprovidas da matria-prima necessria.
   Outra prova de um comrcio local de matrias-primas datando da Idade
do Ferro  fornecida pela presena de argilas estranhas  regio onde foram
encontradas no material utilizado para a fabricao de vasos. E, sem dvida,
esse comrcio local revela certos aspectos do mecanismo dos principais fatos
econmicos, sociais e polticos inerentes  fundao do antigo Imprio de Gana.
 certo que sua importncia no se limita a indicar contatos culturais em escala
regional e a demonstrar que pouqussimas sociedades agrcolas foram totalmente
independentes.
   As modalidades de desenvolvimento do comrcio e do artesanato (indstrias)
na frica ocidental determinaram e mantiveram rotas comerciais entre essa parte
da frica e o Saara. Esse comrcio interior favoreceu igualmente a formao de
povoados e cidades de maiores dimenses durante o Neoltico Recente e a Idade
do Ferro. Informaes arqueolgicas cada vez mais numerosas, inclusive para as
regies florestais da frica ocidental, continuam a indicar que o aparecimento
posterior dos reinos Ashanti, Iorub e do Benin, assim como a cultura de Igbo
Ukwu, dependeram essencialmente de uma explorao muito bem-sucedida
do meio ambiente por povos primitivos que conheciam  ou, em certos casos,
ignoravam  o uso do ferro.
A frica central                                                                691



                                    CAPTULO 25


                               A frica central
                                   F. Van Noten
                       colaborao de D. Cohen e P. de Maret




    Dois problemas fundamentais se colocam para a histria da frica: a difuso
da metalurgia e a prodigiosa expanso das lnguas bantu.
    H muito tempo vem se observando uma clara tendncia a relacionar as duas
questes explicando-as uma pela outra. A difuso da metalurgia  vista como
consequncia da expanso dos povos de lngua bantu, a qual, por sua vez, teria
sido facilitada pela posse de instrumentos de ferro, que tornou possvel afrontar
a floresta equatorial.
    Os linguistas foram os primeiros a formular a teoria segundo a qual as
lnguas bantu ter-se-iam originado nos planaltos da Nigria e da Repblica dos
Camares. A partir da, arquelogos, historiadores e antroplogos procuraram
adequar suas descobertas a essa hiptese; no entanto, as reas cobertas por essas
cincias no coincidem exatamente, e  pena que a palavra "bantu", um termo
lingustico, viesse a ser usada para o conceito etnolgico dos povos bantu e suas
sociedades e, da em diante, para o conceito arqueolgico da Idade do Ferro
bantu1.




1    Neste captulo o termo "bantu" ser usado apenas no sentido lingustico.
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      O meio geogrfico
    A regio de que trata este captulo  a frica central, ou seja, a Repblica
do Zaire e alguns pases vizinhos: Gabo, Congo, Repblica Centro-Africana,
Ruanda, Burundi e o norte da Zmbia. Constitui ela uma enorme bacia com
altitude mdia de 500 m. Em torno dessa vasta plancie interior, o solo se alteia
em patamares sucessivos para formar montanhas e elevados planaltos.
    As regies prximas ao Equador contam com abundante precipitao o ano
todo. Tanto ao norte como ao sul existem zonas com duas estaes chuvosas,
que se fundem em uma mais ou menos a partir dos 5 ou 6 de latitude. As
temperaturas mdias anuais so bastante elevadas e as variaes mximas
aumentam  medida que nos distanciamos do Equador.
    A bacia central  coberta por densa floresta equatorial margeada por zonas
de savana. Nas reas com estao seca definida predomina a relva, mas ao longo
dos rios so frequentes as matas-galeria.




figura 25.1    Mapa da frica central com a indicao dos lugares mencionados no texto. ( Mapa fornecido
pelo autor.)
A frica central                                                              693



    Idade da Pedra Recente
    Na Idade da Pedra Recente, as sociedades de caadores-coletores passam a
usar instrumentos cada vez mais especializados. Costuma-se distinguir entre
duas tradies distintas: a do complexo industrial tshitoliense e a do complexo
de indstrias microlticas, das quais o Nachikufuense e o Wiltoniense so os
exemplos mais conhecidos.
    A Idade da Pedra Recente  frequentemente colocada em oposio ao
Neoltico, quer em termos tecnolgicos (instrumentos polidos, associados ou no
a cermica), quer em termos socioeconmicos (criao de animais e agricultura,
fixao dos povos nmades e possvel crescimento de cidades). Atualmente, dada
a escassez de dados socioeconmicos, somos obrigados a inferir essa distino
com base apenas em fatores tecnolgicos, os quais tm-se revelado inconclusivos.
Machados polidos e cermica j se encontram nos contextos arqueolgicos da
Idade da Pedra Recente.
    O Tshitoliense distingue-se claramente dos outros complexos industriais da
Idade da Pedra Recente da frica central.
    Quanto  sua localizao geogrfica,  encontrado no sul e, acima de tudo,
nas reas a sudeste da bacia do Zaire.
    O Tshitoliense parece continuar a tradio do complexo lupembiense, do qual
se diferencia sobretudo por uma tendncia a reduzir o tamanho dos instrumentos
e pelo aparecimento de novas formas: pontas de flecha foliceas e pedunculadas
retocadas por presso, micrlitos geomtricos (segmentos, trapzios). No final do
Tshitoliense tambm so encontrados alguns instrumentos polidos.
    Quanto  sua cronologia, o Tshitoliense parece ter -se estendido
aproximadamente de -12000 a -4000, talvez at -2000 ou mesmo, localmente,
at o incio da Era Crist.
    O Nachikufuense  essencialmente microltico, tendo-se estabelecido no
norte da Zmbia, ao que tudo indica, h mais de 16 mil anos. Teve trs estgios
sucessivos. O mais antigo produziu instrumentos microlticos em combinao
com um grande nmero de pedras perfuradas e instrumentos de moagem. O
segundo estgio, cujo incio se situa em torno de -8000, caracteriza-se pela
presena de utenslios polidos. O ltimo estgio dessa indstria, iniciado em
torno de -2000,  caracterizado pela grande abundncia de pequenos segmentos,
cermica e alguns objetos de ferro  estes ltimos sem dvida provenientes de
trocas comerciais. A tradio nachikufuense parece ter durado at o sculo XIX.
    H evidncias do Wiltoniense na Zmbia meridional e numa grande
extenso da frica do Sul. Trata-se de uma indstria puramente microltica.
694                                                                   frica Antiga



No estgio final de seu desenvolvimento, tambm aparecem utenslios polidos.
Essa indstria em geral  atribuda aos grupos protosan. Em Gwisho, na Zmbia
central, as condies excepcionalmente favorveis  conservao de restos
fsseis tornaram possvel reconstruir o modo de vida dessa populao durante
o II milnio antes da Era Crist.
   A indstria, extremamente abundante e completa, inclua utenslios de pedra,
madeira e osso. O instrumental microltico destinava-se principalmente aos
trabalhos em madeira e  confeco de pontas de flecha, arpes e facas. O
instrumental macroltico inclui, entre outros, machados polidos, trituradores
e ms fixas. Dentre os utenslios de madeira, observam-se bastes de cavar
e pontas de flecha semelhantes s atualmente encontradas entre os San. O
instrumental sseo inclui agulhas, furadores e pontas de flecha.
   Ao que parece, as casas consistiam em choas de ramagens e gramneas
semelhantes s dos San do deserto do Calaari. Os mortos eram enterrados in loco,
sem nenhum objeto em seus tmulos. Os corpos jaziam em vrias posies. No
se praticava nem a agricultura nem a criao de animais. Escavaes revelaram
que a alimentao era comparvel  dos povos atuais, consistindo basicamente
numa grande variedade de produtos vegetais colhidos de plantas selvagens,
sendo suplementada pela caa e pela pesca.
   Os habitantes de Gwisho exploravam uma grande rea e caavam tanto as
espcies animais da plancie como as da floresta.
   Existe na frica central um grande nmero de indstrias microlticas
inadequadamente descritas, que por isso no podem ser classificadas na mesma
categoria das acima relacionadas. Algumas delas provavelmente no passam de
variantes locais, adaptadas a materiais ou atividades especficas.
   Como j observamos, poucas evidncias justificam a distino entre a Idade
da Pedra Recente e o Neoltico. No entanto, as caractersticas tecnolgicas
tradicionalmente atribudas ao Neoltico predominam em certas regies, como,
por exemplo, no Uele, no Ubangui e, em menor proporo, no Baixo Zaire.
Isso levou os primeiros arquelogos da frica central a distinguirem um
Neoltico Uelense, um Ubanguiense e outro Leopoldiense. Mas essas indstrias
 assim chamadas  so praticamente desconhecidas, salvo por seus utenslios
polidos coletados  superfcie da terra ou adquiridos por compra. A cada vez
que se ampliava a extenso das pesquisas, as ideias anteriores modificavam
-se sensivelmente. Desse modo, o Uelense, conhecido por seus requintados
machados de hematita polida (fig. 25.3), pertenceria pelo menos parcialmente
 Idade do Ferro. Uma oficina de lascamento foi descoberta recentemente em
Buru (Uele). Duas dataes por radiocarbono calibradas indicam que essa
A frica central                                                                                 695




figura 25.2 Mapa da frica Central com a indicao das regies de ocupao "neoltica" e da "Idade do
Ferro Antiga". (Mapa fornecido pelo autor.)
696                                                                    frica Antiga



oficina  onde foram encontrados esboos de machados ao lado de fragmentos
de tubos de forja (para tiragem de ar quente), escria de ferro fundido e cermica
 pertence  primeira metade do sculo XVII.
    Em relao ao Ubanguiense, existe hoje um stio escavado em Batalimo, ao
sul de Bangui, Repblica Centro-Africana. Esse stio produziu machadinhas
ou enxs lascadas, um machado de gume cortante parcialmente polido,
abundante indstria no-microltica e uma cermica ricamente decorada: jarros
altos, de boca larga e potes e tigelas de fundo chato (fig. 25.4). Dataes por
termoluminescncia situam as cermicas em tomo de +380 220. Essa data
pode afigurar-se demasiado recente para alguns, mas,  falta de outros dados,
no deve ser rejeitada.
    No Baixo Zaire, de Matadi a Kinshasa, encontraram-se machados de gume
mais ou menos polido, por vezes em associao com cermica de fundo chato.
Durante recente sondagem efetuada numa caverna dessa regio, encontrou-
-se um machado polido juntamente com essa cermica e carvo vegetal. Uma
amostra desse material, datada por radiocarbono, deu uma idade calibrada de
-390 a -160. Sondagem feita em outra caverna, a cerca de 10 km da primeira,
tambm revelou um machado polido em associao com essa mesma cermica.
    No Gabo, a estratigrafia de vrios stios, como o de Ndjole, cerca de 200 km
a leste de Libreville, revelou um nvel neoltico contendo machados de gume
polido, cermica e lascas de quartzo.


      Idade do Ferro Antiga
   A existncia de contatos entre os povos da Idade da Pedra, que ia chegando ao
fim, e os primeiros artesos de peas em metal  um fato, de modo geral, assente.
Contudo no sabemos se essa mudana tecnolgica acarretou transformaes
profundas nas sociedades em questo.
   No dispomos, para a frica central, nem de fontes histricas (como
o Priplo do Mar da Eritreia) nem de fontes antropolgicas para elucidar o
perodo correspondente  Idade do Ferro Antiga. Nossas nicas evidncias so
de natureza arqueolgica.
   A Idade do Ferro Antiga frequentemente  associada  cermica com
concavidade na base (dimple-based pottery). Essa cermica (fig. 25.4a), descrita
pela primeira vez em 1948,  hoje conhecida como Urew.  encontrada em parte
do Qunia, em Uganda e na regio dos lagos. Alguns exemplares descobertos
no Kasai parecem tambm pertencer a essa vasta rea de distribuio. A maioria
A frica central                                                               697



das datas para esses tipos de cermica se situa entre 250 e 400. Entretanto,
pelo menos um stio, Katuruka, em Buhaya, na Tanznia, foram obtidas
dataes consideravelmente mais antigas. Infelizmente, ainda  difcil avaliar as
implicaes dessa descoberta.
    A cermica de Urew parece bastante homognea e por diversas vezes se
avanou a ideia de uma origem comum para as diferentes fcies reconhecidas,
diferena que se atribuiria antes a variantes locais que a estgios cronolgicos
distintos. Com efeito, essas fcies nunca foram encontradas estratigraficamente
superpostas.
    Desde o incio, a metalurgia do ferro parece ter-se associado a determinados
traos culturais, como a manufatura de cermica e a constituio de aldeias com
construes revestidas de barro amassado e palha. Alm disso,  de consenso
geral que j se praticavam a agricultura e a criao de animais.
    A presena da cermica Urew  comprovada na zona interlacustre (Qunia,
Uganda, Ruanda, Burundi, Tanznia) e tambm no Zaire, na regio do Kivu. Por
muito tempo, a cermica zambiana da Idade do Ferro Antiga (channel decorated
ware) esteve associada  cermica com concavidade na base. Na verdade, porm,
parece que se podem distinguir diversos tipos regionais.
    J. Hiernaux e E. Maquet foram praticamente os nicos a estudar a Idade do
Ferro Antiga nessas regies. Inicialmente publicaram (1957) uma descrio de
dois stios no Kivu. Em Tshamfu, uma cermica Urew tpica vinha associada a
restos de ferro fundido e a tijolos feitos a mo. Em Bishanga, foi escavado um
forno destinado  fundio do ferro. Era construdo com tijolos feitos a mo
que apresentavam com frequncia um lado ligeiramente cncavo e decorado
com impresses digitais. A cermica de Bishanga  tambm do tipo Urew.
Posteriormente (1960), esses autores descreveram vrios stios da Idade do Ferro
Antiga, descobertos em Ruanda e Burundi. A cermica foi classificada em trs
grupos: A, B e C. S o primeiro grupo, A, idntico  cermica Urew, parece
pertencer  Idade do Ferro Antiga. Os demais seriam mais recentes.
    A cermica do tipo A est associada a escrias de ferro fundido, tubos de forja
e tijolos feitos a mo, s vezes decorados, como os de Kivu. Pelo menos em dois
stios esses tijolos parecem ter pertencido a um forno destinado  fundio de
ferro. Publicaram-se duas dataes: a do stio de Ndora, +250 100, e a do stio
de Cyamakusa, localidade da comuna de Ndora, prefeitura de Butare, +380 80.
    Em Mukinanira, a cermica do tipo A encontrava-se logo acima e parcialmente
misturada a uma indstria ltica da Idade da Pedra Recente. Em Masangano, os
dois grupos de vestgios tambm se apresentavam misturados. Pode-se deduzir
da que os fabricantes da cermica do tipo A trouxeram a metalurgia para essa
698                                                frica Antiga




figura 25.3   Machado polido uelense (hematita).
A frica central                                                              699



parte da frica numa poca em que a regio ainda era habitada por caadores-
-coletores da Idade da Pedra Recente. A coexistncia de grupos de povos to
diferentes do ponto de vista tecnolgico  amplamente atestada. Atualmente, os
Twa ainda levam uma vida de caadores na floresta equatorial dessa regio.
    Escavaes recentes realizadas em locais que a tradio oral refere como
stios dos tmulos reais tutsi revelaram ocasionalmente estruturas da Idade
do Ferro Antiga. Por exemplo, em Rurembo, um buraco cavado em laterita
continha carvo vegetal datado de -230 50. Acima do buraco havia um vaso
do tipo A. Um buraco similar em Rambura proporcionou escrias de ferro
fundido, fragmentos de tubos de forja e cacos de cermica semelhante  Urew,
algumas pedras lascadas da Idade da Pedra Recente e carvo vegetal datado de
+295 60. Esse ltimo resultado corresponde exatamente aos anteriormente
obtidos por J. Hiernaux.
    Os artesos dessa indstria teriam chegado ao vale do Kalambo por volta
de +300 e a permanecido durante seiscentos ou mesmo mil anos. A populao,
aparentemente muito densa, levava uma vida pacfica, em aldeias destitudas de
paliadas ou trincheiras. A rea de ocupao, cujo plano no se conhece, cobria
cerca de 4 a 17 ha.
    Alguns vestgios de estruturas de habitao ou armazenagem foram
preservados. Uma srie de oito fossas de paredes retas e paralelas, com cerca de
1 m de dimetro e 2 m de profundidade, continha potes e cacos de cermica e
fragmentos de moldes, objetos de ferro e escrias de ferro fundido. Quatro dessas
fossas apresentavam-se rodeadas por uma trincheira circular, possivelmente
restos de uma superestrutura.
    As evidncias de atividades agrcolas so apenas indiretas e no h vestgios
seguros da criao de animais.
    Inmeras peas de escrias de ferro, especialmente um grande bloco de restos
de ferro fundido na base de um forno, e diversos fragmentos de tubos de forja,
mostram que a fundio do ferro era praticada, se no nos stios de habitao,
pelo menos em seus arredores.
    Entre os objetos de ferro encontrados nas fossas, podem-se mencionar
diversas pontas de lana e de flecha, pontas de faca, braceletes, adornos de
tornozelo, anis para os dedos das mos ou dos ps. Tambm havia braceletes,
adornos de tornozelo e outros adereos feitos de cobre.
    O uso da pedra continuou, como evidenciam numerosas ms e maletas,
piles, martelos (inclusive um martelo de ferreiro), uma bigorna e diversos
artefatos rudimentares empregados para raspar, cortar ou polir.
    O barro branco e o ocre vermelho eram usados como pigmentos.
700                                                                    frica Antiga



    Os lbios da cermica, na maioria dos casos, so arredondados e abertos,
mais espessos na extremidade. Todas as bases so arredondadas, exceto em
dois potes que tm uma concavidade feita por presso dos dedos. A decorao,
aplicada antes do cozimento,  vista quase sempre no ombro ou acima dele. Os
motivos consistem em faixas de caneluras horizontais e paralelas interrompidas
por motivos em espinha de peixe e espirais. Uma rede de incises oblquas e
cruzadas, de faixas de impresses e de pontuaes triangulares forma s vezes
um padro de falso relevo, que recobre o pescoo e o ombro.
    Exemplos de cermica semelhante  de Kalambo Falls foram encontrados
em onze stios da provncia setentrional da Zmbia, distribudos por uma rea
de aproximadamente 97000 km2.
    Com exceo das necrpoles de Sanga e Katoto (cuja importncia justifica
consider-las em separado, mais adiante), ainda no se descobriu nenhum
stio da Idade do Ferro Antiga no Shaba. No entanto o conjunto dos vestgios
desenterrados nesses dois cemitrios parece to desenvolvido que seria de
admirar se no tivesse sido precedido por uma idade do ferro ainda mais antiga.
Alm disso, na rea cuprfera do nordeste da Zmbia, ao longo da fronteira com
o Zaire, exploraram-se diversos stios de habitao ao ar livre, alguns dos quais
parecem remontar ao sculo IV da Era Crist.
    Por falta de escavaes extensas e de dataes absolutas, os poucos dados de
que dispomos so em grande parte conjeturais. Quatro potes, dois deles com
concavidade na base, encontrados perto de Tshikapa, parecem pertencer ao tipo
Urew; por outro lado, muitos vasos e fragmentos de cermica encontrados
numa caverna perto de Mbuji-Mayi lembram muito a cermica da indstria
de Kalambo Falls.
    Alm da Zmbia e da regio interlacustre, o Baixo Zaire  a nica rea onde
se descobriram vestgios que, ao que tudo indica, podem ser atribudos  Idade
do Ferro Antiga. Com base nas evidncias coletadas nas cavernas, foi possvel
distinguir provisoriamente seis tipos de cermica e uns poucos objetos de ferro.
Um estudo posterior revelou a existncia de vrios grupos de cermica, alguns
dos quais amplamente difundidos, e nenhum aparentado com a cermica Urew.
    Como as escavaes no foram extensas,  impossvel tentar estabelecer uma
cronologia dessas cermicas ou dos objetos de metal.
    Em Kinshasa, junto s nascentes do Funa, um carvo vegetal acompanhado
de um pequeno fragmento de cermica atpica foi datado de -270 90. Embora
essa data pertena inegavelmente  Idade do Ferro Antiga, convm consider-la
com muita reserva, j que a associao do carvo datado com o fragmento de
cermica no est mais assentada, do ponto de vista formal, do que a associao
A frica central                                                                                          701



de outra data relativa a Kinshasa  a das ilhas Mimosas. Nessas ilhas fluviais,
amostras de carvo vegetal associado a cermica foram datadas de +410 100.
Infelizmente, os fragmentos assim datados nunca foram publicados.
    Das ilhas Mimosas, no entanto, provm uma cermica idntica  encontrada
nas camadas superiores da ponta de Gombe (antiga ponta de Kalina), o stio
epnimo do Kaliniense, escavado por J. Colette em 1925 e 1927. Reescavado em
1973 e 1974, esse stio revelou importante nvel de ocupao da Idade do Ferro,
cujos vestgios foram encontrados em todo o promontrio. No topo da maioria
dos cortes encontraram-se alinhamentos de carvo vegetal, cermica, pedras e
terra queimada, alguns fragmentos de escria de ferro fundido e pedaos de ms
num solo de habitao com vrias estruturas arqueolgicas, grandes fogueiras
e sobretudo fossas com profundidade de at 2 m. Nessas fossas, encontraram-
-se alguns potes mais ou menos inteiros; dois deles encerravam minsculos
fragmentos de um objeto de ferro.  possvel, portanto, tratar-se de um stio
de habitao pertencente a um perodo antigo da Idade do Ferro. Em breve
teremos mais informaes a respeito, graas s dataes por radiocarbono que
hoje vm se processando.
    Na regio de Buar, na Repblica Centro-Africana, existem numerosos
tmulos de variado tamanho, encimados por pilhas de pedras de at 3 m de
altura. As sries de compartimentos subterrneos podem estar a eles associadas.
Ao que parece, esses cairns eram monumentos prprios de locais de sepultamento.
Contudo, no se encontraram ossos2. Por outro lado, descobriu-se uma srie de
objetos de ferro. Dispomos atualmente de seis dataes por radiocarbono. Duas
delas remontam ao VI e ao V milnio antes da Era Crist, enquanto as outras
quatro variam entre o sculo VII antes da Era Crist e o sculo I depois da Era
Crist. A primeira data parece corresponder  construo dos monumentos, e a
segunda,  sua reutilizao na Idade do Ferro.
    Os cemitrios de Sanga e Katoto esto localizados no alto vale do Zaire,
onde se acham os tmulos de Upemba, e so os stios da Idade do Ferro Antiga
mais bem conhecidos em toda a Repblica do Zaire.
    Situado s margens do lago Kisale, perto de Kinkondja, o cemitrio de Sanga,
descoberto h muito tempo, foi escavado sistematicamente em 1957 e 1958.
Novas escavaes foram empreendidas em 1974, e, embora se tenha exumado
um total de 175 tmulos, grande parte do cemitrio ainda est por ser explorada.



2    Salvo em condies muito raras, a acidez do solo da frica central destri os ossos em stios ao ar livre
     com grande rapidez.
702                                                                                    frica Antiga



    Com base nas escavaes de 1958, puderam-se reconhecer trs grupos de
cermica, entre os quais parecia possvel estabelecer uma cronologia. O grupo
kisaliense (o mais abundante) afigurava-se como o mais antigo, seguido pelo
grupo Mulongo (nome de uma localidade a nordeste de Sanga) e finalmente
por uma cermica de engobe vermelho (red slip ware). As escavaes de 1958
revelaram que esses trs grupos foram contemporneos, pelo menos em parte.
     falta de uma cronologia interna, duas dataes por radiocarbono permitem-
-nos estimar a idade do cemitrio: +710 120 e +880 200.
    A data mais antiga foi obtida de um tmulo onde o corpo se achava em
posio bastante incomum e onde havia um pote atpico, embora kisaliense.
    A outra data provm de um tmulo onde no se encontrou nenhum,
objeto caracterstico de qualquer das trs culturas3. Assim, no sabemos
exatamente o que est datado. Alm disso, a impreciso dessas datas prejudica
consideravelmente o seu valor. Tudo o que podemos afirmar com segurana, no
mbito de aproximadamente duzentos anos,  que alguns dos tmulos de Sanga
remontam a um perodo situado entre os sculos VII e IX da Era Crist.
    As escavaes do-nos uma ideia do cemitrio em si, por meio da qual
podemos vislumbrar o que seria a antiga sociedade de Sanga. Embora os trs
grupos de cermica sejam contemporneos, no pertenceram, ao que parece,
 mesma populao. Os tmulos que encerram a cermica Mulongo ou a de
engobe vermelho so praticamente os nicos a apresentar pequenas cruzes de
cobre (espcie de moeda), as quais, quase se pode dizer, inexistem nas sepulturas
kisalienses. Por outro lado, todos os tmulos so igualmente ricos em objetos
de ferro e de cobre muito bem trabalhados. Pode-se supor que a minoria de
pessoas enterradas com cruzetas diferia do resto da populao kisaliense, e era
responsvel pelo provimento de cobre, cujos depsitos mais prximos se situam
a cerca de 300 km mais ao sul.
    Os ritos fnebres parecem ter sido bastante complexos. A maior parte dos
tmulos aponta para o norte ou nordeste  caso dos Mulongo , j os red
slip apontam para o sul. O morto jazia geralmente em decbito dorsal e era
acompanhado de objetos destinados, como se acreditava, a facilitar-lhe a vida no
outro mundo. A cermica no ostenta sinais de uso, e a forte semelhana entre
certos vasos num dado tmulo parece indicar que foram confeccionados com
finalidade exclusivamente funerria, e provavelmente deviam conter alimentos
e bebidas. O cadver era adornado com joias de cobre, ferro e marfim. Ao que

3     Alm disso, parece que no laboratrio os ossos de um tmulo do grupo Mulongo foram reunidos 
      amostra.
A frica central                                                                                    703




figura 25.4 Objetos encontrados no stio de Batalimo, no sul de Bangui (Repblica Centro-Africana):
2.a. Pote do tipo Urew (Fonte: M. D. Leakey, W. E. Owen, L. S. B. Leakey. 1948. pr. IV); 2.b. pote de
Kalambo; 2.c, 2.d. Fragmentos de cermica de Kangonga, stio Chondwe (Fonte: D. W. Phillipson. 1968-a.
fig. 4); 2.e, 2.f. Fragmentos encontrados em Kapwirimbwe; 2.g. Fragmentos de cermica de Kalundu (Fonte:
B. M. Fagan, 1967. fig. 122); 2.h, 2.i. Fragmentos de cermica de Dambwa.
704                                                                      frica Antiga



parece, crianas prematuras tambm eram enterradas. Observa -se uma clara
tendncia a fazer corresponder o tamanho dos vasos  idade do morto. Em certos
casos, o morto trazia na mo um feixe de cruzetas.
    A imagem que se tem de Sanga  a de uma civilizao que dava mais
importncia  caa e  pesca do que  agricultura. Entretanto, encontraram-se
nos tmulos enxadas e ms fixas, bem como restos de cabras e aves.
    Nenhum tmulo  particularmente rico de modo a indicar que tivesse
pertencido a um chefe importante, mas o grau de refinamento do mobilirio
funerrio mostra a grande habilidade dos artesos de Sanga, que trabalhavam o
osso, a pedra e a madeira, trefilavam o ferro e o cobre e praticavam a fundio
em molde aberto. Sua cermica afigura-se bastante original.
    Como os ossos ainda no foram analisados, o nico dado antropolgico
disponvel decorre de um estudo odontolgico de uma parte dos restos humanos.
Tal estudo revela notadamente a grande frequncia de dentes mutilados. Se
soubssemos ao certo a extenso total do cemitrio, poderamos ter ideia do
tamanho da populao.
    A civilizao de Sanga parece ter constitudo um fenmeno admirvel, porm
isolado, considerados os limites atuais de nossos conhecimentos.  provvel que
a totalidade das descobertas abranja um perodo mais longo do que o sugerido
pelas duas dataes por radiocarbono. Novas escavaes foram empreendidas em
1974, tendo como principal objetivo saber o tempo de utilizao do cemitrio e
estabelecer sua cronologia interna, delimitar sua rea e tentar encontrar o stio de
habitao. Trinta novos tmulos foram explorados, sendo provavel que com eles
possamos completar a cronologia e ter uma ideia do tamanho do cemitrio. Em
contrapartida, devido  expanso das aldeias modernas, no pde ser encontrado
o stio de habitao.
    No entanto, em Katongo, a cerca de 10 krn de Sanga, as escavaes parecem
indicar um nvel de habitao no sop de uma colina a menos de 1 km de um
cemitrio; alm disso, revelaram a existncia de grupos de cermica reconhecidos
em Sanga.
    Situado  margem direita do Lualaba, perto de Bukama, a cerca de 130 km a
montante do Sanga, o cemitrio de Katoto foi parcialmente escavado em 1959,
ocasio em que se encontraram 47 novos tmulos.
    Obtiveram-se trs diferentes conjuntos arqueolgicos. Primeiro os tmulos;
depois as fossas contendo material distinto do encontrado nos tmulos;
finalmente, numa camada superior, uma cermica distinta da dos tmulos e
fossas. Em relao ao cemitrio de Sanga, o de Katoto distingue-se, antes de
mais nada, por apresentar tmulos para sepultamentos mltiplos  at sete
A frica central                                                                                            705




figura 25.5 Objetos encontrados em Sanga: 3.a. Vaso com decorao antropomrfica (vista de cima e de
lado); 3.b. Bracelete de marfim; 3.c. Colar de cobre; 3.d. Apito de ferro; 3.e. Abaco de terracota; 3.f. Pingente
de pedra; 3.g. Pingente de marfim; 3.h. Fragmento de meio colar de marfim; 3.i., 3.j., 3.k. Tipos de vasos.
(Fonte: J. Hiernaux, E. de Longre e J. de Buyst. 1971. Museu de Ternuren.)
706                                                                    frica Antiga



pessoas. Em alguns deles foram encontrados objetos tais como um martelo de
ferreiro, bigornas, amontoados de pontas de ferro e um machado de guerra.
Trata-se provavelmente de tmulos de personagens importantes, com certeza
de ferreiros, em cuja honra foram sacrificadas duas mulheres e quatro crianas,
num caso, e duas mulheres e uma criana, em outro.
    O mobilirio funerrio dos tmulos  to rico quanto o de Sanga, sugerindo
uma sociedade prspera, com alto nvel de desenvolvimento tcnico. A presena
de numerosas enxadas e ms ressalta a importncia da agricultura, embora a caa
e a pesca tambm devessem ser praticadas.
    Em Katoto, esto completamente ausentes as cruzetas de cobre, a cermica
Mulongo e a de engobe vermelho. No entanto, encontraram-se trs tigelas
kisalienses, nico testemunho de algum contato entre Sanga e Katoto.
    A presena de contas de vidro e ornamentos de conchas vindos tanto do
oceano Atlntico como do ndico revela a existncia de relaes comerciais em
distncias bastante ampliadas.
    A cermica de Katoto  to original quanto a de Sanga e parece menos
estereotipada. Alguns motivos decorativos lembram a cermica Urew. Mas,
como esta no foi encontrada na regio do Shaba, no se pode afirmar que a
cermica de Katoto seja um desenvolvimento do tipo Urew. Talvez se trate
de um simples caso de convergncia. De fato, a maioria dos motivos comuns
a ambas, como a espiral, os ornamentos entrelaados, as faixas em espinha de
peixe e os crculos concntricos, faz parte do repertrio mundial.
    As fossas so mais recentes do que os tmulos e por vezes lhes causam abalos.
Uma delas foi datada por radiocarbono: +1190 60. Entre os raros fragmentos
de cermica encontrados nessas fossas, alguns apresentam uma pequena
concavidade na base, caracterstica que tambm sugere a cermica Urew.
    O cemitrio de Katoto completa o quadro que se delineia a partir das
escavaes de Sanga. No deixa, porm, de causar espanto o fato de dois grandes
aldeamentos to prximos um do outro e aparentemente contemporneos terem
mantido to poucas relaes entre si.
    A despeito da abundncia de objetos tumulares, no sabemos grande coisa
sobre o povo sepultado nessas necrpoles. Ignoramos quem era, de onde veio ou
como morreu e mal podemos imaginar como vivia. O tamanho dos cemitrios
sugere que, prximo ao fim do I milnio da Era Crist, as margens do Alto
Lualaba foram palco de grandes concentraes humanas, que deram origem a
brilhantes civilizaes. As escavaes em andamento em diversos novos stios
arqueolgicos devero proporcionar informaes mais detalhadas sobre essas
civilizaes.
A frica central                                                              707



    Origem dos Bantu
    Como dissemos, a palavra "bantu" originalmente designava um grupo de
lnguas. Aos poucos, porm, veio a adquirir uma conotao etnogrfica e mesmo
antropolgica. De fato, foi a classificao lingustica que serviu de base para os
pesquisadores de outras disciplinas.
    No dispomos de testemunhos escritos, e a arqueologia, por si s, no nos
permite estabelecer correlaes diretas entre os vestgios existentes da Idade do
Ferro e a noo lingustica da palavra "bantu".
    As escavaes revelam cermicas, objetos de ferro e cobre, restos de cozinha
e uns poucos esqueletos. Mas, assim como no podemos afirmar que um pote
 mais especificamente indo-europeu do que outro,  igualmente impossvel
identificar um vaso como sendo "bantu".
    At agora, coube  lingustica fornecer a maior parte dos pormenores acerca
da origem e expanso dos "Bantu". Segundo alguns linguistas  dando sequncia
principalmente aos trabalhos de Greenberg e de Guthrie , as lnguas bantu,
ora difundidas por quase metade da frica, originaram-se na regio do Mdio
Benue, na fronteira entre a Nigria e a Repblica dos Camares.
    Vrias vezes se tentou relacionar o sucesso dos grupos "bantu" ao seu
conhecimento do trabalho do ferro. No entanto, comparando-se os termos
relativos a metalurgia nas lnguas bantu, observa-se uma grande diferena no
vocabulrio bsico referente aos trabalhos de forja. Algumas reconstrues,
porm, sugerem o uso do ferro no estgio protobantu  por exemplo, as expresses
denotativas de "forjar", "martelo" e "fole". Existiriam elas na lngua bantu antes
de sua diviso, ou teriam entrado de emprstimo em algum estgio desconhecido
do processo de ramificao? No  impossvel que tais palavras, to amplamente
atestadas, resultem de uma mudana de sentido na passagem do protobantu
para as lnguas atuais. Assim, a palavra designativa de "forjar" seria apenas uma
especializao a partir de "malhar". Finalmente, outros termos de metalurgia
parecem ter a mesma origem tanto nas lnguas bantu como nas no-bantu,
indicando tratar-se, em ambos os casos, de termos tomados de emprstimo.
    Quando se pensa quo importante era a habilidade de trabalhar os metais nas
sociedades tradicionais da frica, torna-se difcil explicar por que se os "Bantu"
trabalharam o ferro antes de sua expanso, no encontramos nenhum vestgio
lingustico que evidencie isso.
    O estudo de trabalhos de diferentes etnlogos demonstra que, embora se
possam distinguir algumas reas culturais no mundo "bantu", no  possvel
708                                                                    frica Antiga



estabelecer um conjunto de caractersticas comuns aos "Bantu" que ao mesmo
tempo os diferenciem de outros povos africanos.
    Enfim, poucas pesquisas foram realizadas em antropologia fsica referentes
aos "Bantu". Um artigo de J. Hiernaux (1968)  o nico a apresentar alguns
fatos. O autor destaca a proximidade biolgica das populaes de fala bantu,
mas suas concluses so tiradas com base nas evidncias dos povos atuais. To
nfimo  o nmero de trabalhos realizados nessa rea da paleontologia humana
que fica difcil distinguir um esqueleto "bantu" atual, que esteja completo, de
um de outro grupo africano ou mesmo europeu. Que dizer ento dos esqueletos
danificados ou fragmentrios que, frequentemente,  tudo o que a arqueologia
coloca  nossa disposio!
    Os nicos remanescentes de fsseis humanos devidamente estudados provm
de Ishango, no Parque dos Virunga, no Zaire. Infelizmente, no se pde determinar
com preciso a idade desses restos nem tampouco definir seu tipo fsico.


      Natureza das sociedades na Idade do Ferro Antiga
    Pouco se sabe sobre o modo de vida das populaes do incio da Idade do
Ferro. Os indcios existentes variam segundo a extenso das pesquisas realizadas:
os stios da Zmbia e os cemitrios de Sanga e Katoto, no Shaba, forneceram
os dados mais concretos.
    So raros os stios de habitao na frica central. Os nicos conhecidos so
os de Gombe, Kalambo Falls e, talvez, Katongo.
    O nico indcio de atividade agrcola no incio da Idade do Ferro so as
enxadas de ferro, praticamente idnticas s modernas. Os buracos cavados no
solo foram considerados como silos subterrneos, e as pequenas construes de
barro amassado e palha, como celeiros. O fato de haver numerosos restos de ms
 menos convincente, visto que as sociedades que viviam da caa e da coleta de
alimentos tambm possuam implementos de moagem.
    Como no caso dos vegetais, os restos de animais domsticos da Idade do
Ferro Antiga so muito raros e difceis de identificar. No temos nenhuma
prova concreta para a frica central, salvo os restos de ossos-canho de cabras
em alguns tmulos de Sanga.
    A presena da mosca ts-ts em certas regies constitui srio obstculo 
criao de animais. Considerando que as reas infestadas pelo inseto devem ter
variado no decorrer do tempo, torna-se difcil delimitar, para pocas to remotas,
as regies onde a criao de animais era praticvel.
A frica central                                                                   709



    A caa e a pesca ainda eram as principais fontes de alimento.
    As escavaes revelaram pontas de flecha e de lana e restos do que devem
ter sido ces de caa. Usavam-se tambm, provavelmente, armadilhas e redes.
    A importncia da pesca  atestada pelos anzis encontrados nos tmulos
de Sanga e Katoto. Os braseiros triflios de Sanga so muito semelhantes aos
usados pelos barqueiros da regio equatorial do Zaire em suas canoas.
    Um certo nmero de objetos encontrados durante as escavaes denota a
existncia de amplas redes de comrcio na Idade do Ferro Antiga. O comrcio
parece ter-se limitado sobretudo s reas prximas aos grandes rios, ou seja, o
Zaire e o Zambeze. Os stios localizados longe dos rios ou da regio dos lagos
forneceram muito poucos objetos importados.
    Cabe distinguir aqui dois tipos de circuitos comerciais: o comrcio regional,
que lidava sobretudo com metais, cermicas, cestos, peixes secos e sal, e o comrcio
a longa distncia, que operava com conchas (cauri e conuses), contas de vidro e
metais  como o cobre. No Zaire, em Sanga e em Katoto, todas as conchas e contas
procediam da costa leste, com exceo de um tipo de concha de Katoto vinda do
Atlntico, distante cerca de 1400 km em linha reta. Cruzetas de cobre, usadas como
espcie de moeda, foram encontradas em regies bem afastadas das reas cuprferas.
    Apesar das lacunas em nossos conhecimentos, parece provvel que a economia
dos povos da Idade do Ferro Antiga pouco se diferenciava da economia das
sociedades tradicionais de hoje. Baseava-se na agricultura e na criao de animais, mas
provavelmente ainda dependesse, em grande parte, da caa, da pesca e dos alimentos
silvestres. Do ponto de vista econmico, eram sociedades quase auto-suficientes.
    Mesmo os mais antigos restos de metalurgia descobertos em escavaes
no diferem fundamentalmente dos das sociedades descritas pelos etngrafos.
Mas existem, numa mesma regio, variaes contemporneas nas tcnicas
e no tipo de objetos produzidos. Portanto, as diferenas quanto aos objetos
metlicos e utenslios de forja no so necessariamente cronolgicas, mas podem
perfeitamente ser culturais.
    Fornos de tijolos para a fundio de ferro foram encontrados em associao
com a cermica com concavidade em Kivu, Ruanda, Burundi e Buhaya, no
nordeste da Tanznia. Note-se que na nica descrio da fundio do ferro em
Ruanda, feita por Bourgeois (1957), um crculo de tijolos cozidos  empregado
na construo de um forno muito semelhante aos restos encontrados por
Hiernaux e Maquet.
    At aqui o uso do cobre sempre apareceu em associao com o do ferro. O
cobre era extrado no Shaba, no norte da Zmbia, e provavelmente no Baixo
Zaire. Como mostram os objetos encontrados em Sanga e Katoto, o trabalho
710                                                                  frica Antiga



do cobre j atingira um alto grau de requinte. Tambm o chumbo parece ter
sido usado nesse perodo. Os Kongo continuavam a dedicar-se  extrao do
chumbo no comeo deste sculo.
   Os restos de cermica no constituem um fssil-guia da Idade do Ferro
porque, como vimos, a cermica tambm  encontrada no contexto da Idade
da Pedra Recente e do Neoltico. De modo geral,  impossvel distinguir a
cermica da Idade do Ferro da cermica dos perodos anteriores. Na regio
interlacustre e na Zmbia, porm, existem certos tipos de cermica tpicos
da Idade do Ferro, como os de Urew, Kalambo, Chondwe, Kapwirimbwe,
Kalundu e Dambwa.
   Os vasos eram modelados amassando-se e estirando-se a argila em faixas
ou roletes frequentemente arranjados em espiral. To grande  a variedade de
formas e decoraes, que aqui nos limitamos apenas s mais caractersticas.
   At onde a arqueologia nos permite julgar, as sociedades da Idade do Ferro
Antiga no eram essencialmente diferentes das de hoje, devendo inclusive
apresentar o mesmo tipo de diversidade.
   As tcnicas agrcolas ento praticadas no favoreciam os grandes aldeamentos
e acarretavam certa mobilidade das populaes.
   Os cemitrios de Sanga e Katoto constituem exceo, pois devem ter
resultado ou de uma ocupao muito longa ou de uma grande concentrao
humana s margens do Lualaba. A riqueza do mobilirio funerrio de algumas
sepulturas, especialmente em Katoto, pode ser indcio de desigualdades sociais.
   A abundncia e o acabamento dos objetos de ferro, cobre, pedra, madeira,
osso e cermica refletem no apenas a habilidade dos artesos, mas tambm,
provavelmente, certo grau de especializao.
   Todos os tmulos descobertos evidenciam elaboradas prticas funerrias. Os
mortos usavam numerosos ornamentos corporais, como braceletes, anis, colares,
brincos, adornos de contas e conchas. Os cauris, os conus e as contas de vidro
ou de pedra podem ter servido, entre outras coisas, como moeda, a exemplo das
cruzetas. Por fim, a mais antiga escultura em madeira da frica central vem de
Angola e foi datada de +750.


      Concluso
   No poucas vezes sublinhei o perigo de se utilizar descobertas provisrias
de uma cincia para apoiar as concluses de outra. Correlaes precipitadas
no raro acabam resultando em teorias gerais difceis de sustentar na rigorosa
A frica central                                                                                   711



estrutura das respectivas disciplinas. No obstante, qualquer tentativa de
descrever a natureza das sociedades da Idade do Ferro Antiga ou de determinar
a origem dos povos de lngua bantu envolve o cotejo de dados arqueolgicos e
no-arqueolgicos.
    Algumas teorias, como a de Guthrie, apresentam uma interpretao geral
extremamente elaborada. A teoria histrica e geogrfica formulada por Guthrie
influenciou claramente, talvez de modo consciente, inmeros arquelogos e
antroplogos.
    A interpretao antropolgico-arqueolgico-lingustica, que associava
a expanso das lnguas bantu  difuso da metalurgia do ferro, condizia
perfeitamente com a ideia da evoluo a partir do Crescente Frtil, negando 
frica a possibilidade de invenes autnomas.
    Os progressos cientficos mais recentes permitem reconsiderar essas teorias.
Os linguistas questionam os mtodos e os resultados da glotocronologia. Novas
dataes trazem novos esclarecimentos sobre a origem da metalurgia na frica
central. De fato, vestgios da metalurgia do ferro no stio de Katuruka foram
datados de aproximadamente -500/-4004.
    No grau de ignorncia em que nos encontramos, levando em conta esses
novos dados, torna-se claro que os problemas relacionados com a difuso do
ferro e a origem das lnguas bantu so mais complexos do que se pensava e no
podem ser reduzidos a um esquema simplista, cheio de contradies.
    Por conseguinte, parece intil continuar a construir novas hipteses sobre as
migraes e sobre as origens da metalurgia sempre que uma escavao resulte em
novas dataes. Podemos, no entanto, tentar relacionar alguns fatos relevantes.
No tocante  origem do trabalho do ferro, as novas datas propostas para
Katuruka parecem implicar uma conexo com as datas, quase contemporneas,
estabelecidas para Mroe.  possvel, pois, conceber uma expanso da metalurgia
em direo ao sul a partir de Mroe, mas nesse caso tal expanso teria ocorrido
com demasiada rapidez. No momento, no se pode, portanto, excluir a
possibilidade de uma outra origem, que poderia ser at mesmo local.
     difcil entender a persistncia da ideia de uma ligao indissolvel entre
a difuso da metalurgia e a expanso dos "Bantu", embora ainda no esteja
provado que os dois fenmenos sejam totalmente independentes. Seria lcito



4    As datas aqui mencionadas foram calculadas em anos radiocarbono, o que no corresponde exatamente
     aos anos do calendrio. As datas anteriores  Era Crist devem ser proporcionalmente aumentadas, o
     que varia segundo o perodo considerado.
712                                                                 frica Antiga



supor que os "Bantu" ignoravam o uso do ferro no comeo de suas peregrinaes,
s vindo a descobri-lo no curso de sua expanso?
   Como o leitor ter notado, nossas informaes sobre a Idade do Ferro Antiga
na frica central revestem valor desigual e so por demais fragmentrias; as
primeiras pesquisas foram conduzidas no intuito de construir teorias, que
vergam agora sob o peso de novos dados. Um imenso trabalho  mais extenso,
mais sistemtico e mais bem coordenado  se faz necessrio antes que possamos
chegar a uma explicao convincente sobre os eventos desse perodo crucial da
histria da frica central.
A frica meridional: caadores e coletores                                                       713



                                        CAPTULO 26


                            A frica meridional:
                            caadores e coletores
                                             J. E. Parkington




   De acordo com pesquisas recentemente realizadas, os povos que conheciam
o uso do ferro deslocaram-se para o sul do Limpopo o mais tardar no sculo
IV ou V da Era Crist1. Embora no se tenham publicado ainda dados mais
detalhados, parece claro que na Idade do Ferro os habitantes do Transvaal e da
Suazilndia eram agricultores e pastores e fabricavam uma cermica semelhante
 do Zimbbue, Zmbia e Malavi da mesma poca aproximadamente2. No se
sabe se a expanso aparentemente rpida dos povos da Idade do Ferro continuou
no mesmo ritmo em direo ao sul, porm as datas mais antigas referentes 
metalurgia em Natal so um tanto posteriores, girando em torno de -10503.


    Nota do Comit Cientfico Internacional

     O Comit Cientfico Internacional teria preferido que este captulo, a exemplo dos demais, fosse desen-
volvido segundo o critrio cronolgico estritamente fixado para o volume II. Por isso solicitou ao editor
do volume para esclarecer esse ponto ao autor. Este, porm, considerou impossvel fazer qualquer alterao
radical em seu texto. Assim sendo, o Comit o est publicando na forma definida aps discusso com o autor.
No obstante, mantm srias reservas quanto ao mtodo empregado, particularmente no primeiro pargrafo,
devido  confuso que dele resulta para o leitor, a quem so apresentadas a um s tempo informaes sobre
os perodos paleoltico e contemporneo.

1 BEAUMONT, P. B. & VOGEL, J. C. 1972. pp. 66-89; MASON, R. J. 1973. p. 324; KLAPWIJK, M.
1974. pp. 19-23.
2    Ver captulo 27 deste volume.
3    DAVIES, O. 1971. pp. 165-78.
714                                                                    frica Antiga



Tambm no  possvel afirmar ainda em que poca os grupos conhecedores do
uso do ferro atingiram os limites mais meridionais de sua rea de distribuio,
nas proximidades do rio Fish, no distrito oriental do Cabo. A despeito dessas
incertezas, que seguramente devero ser objeto de novos estudos, sabe-se que as
populaes da Idade do Ferro desbarataram e deslocaram grupos indgenas de
caadores-coletores que praticamente ignoravam a metalurgia, a criao de gado
e a domesticao das plantas. Somente nas reas inadequadas  cultura mista,
como as escarpas acidentadas da cadeia do Drakensberg,  que os caadores
conseguiram sobreviver  expanso da Idade do Ferro Antiga. No entanto,
mesmo esses refgios se revelaro ineficazes para defend-los contra as privaes
do seu dia-a-dia, na segunda metade do ltimo milnio.
    Uma segunda  e, sob muitos aspectos, mais devastadora  expanso
populacional comeou no Cabo em meados do sculo XVI. Os primeiros
contatos haviam sido feitos pelos viajantes portugueses no final do sculo XV e
se intensificaram com a deciso da Companhia Holandesa das ndias Orientais
de estabelecer um posto de reabastecimento em Table Bay em 1652. Decorridos
sessenta anos, a maioria dos habitantes do Cabo, num raio de 100 km desse
posto, havia abandonado seu modo de vida tradicional e emigrado, vagando
como servos pela prspera colnia, ou sucumbido s doenas introduzidas pelos
colonizadores4. Antes do final do sculo XVII, o posto de reabastecimento tornara-
-se uma colnia, e os colonizadores estiveram envolvidos em pelo menos duas
guerras prolongadas contra grupos indgenas por questes ligadas  propriedade
da terra. A princpio as populaes autctones eram designadas sob um nico
termo, ottentoo, ou "hotentotes", mas gradualmente a distino entre pastores
(hotentotes  de muitos dos quais se conheciam os nomes das tribos) e caadores
(bosqumanos, ou bushmen, do holands bosjesman, tambm conhecidos como
hotentotes snqua) passou a ser reconhecida e usada. Obviamente, esses grupos
guardavam estreitos laos de parentesco, porquanto falavam lnguas semelhantes,
partilhavam grande parte da tecnologia de subsistncia e da cultura material, e
pouco diferiam fisicamente uns dos outros. Como, nesses aspectos, se destacassem
claramente dos demais grupos da populao indgena  agricultores do norte
e do leste que conheciam o uso do ferro , foram, de modo geral, identificados
como constituindo elementos tnicos distintos, a que hoje se chamaria Khoi-
-Khoi, no caso dos pastores, e San, em se tratando dos caadores, nomes cuja
frequente justaposio deu origem ao termo Khoisan5.

4     ELPICK, R. H. 1972; MARKS, S. 1972. pp. 55-80.
5     SCHAPERA, I. 1930.
A frica meridional: caadores e coletores                                   715



   Parece impossvel, no presente caso, permanecer dentro dos limites
cronolgicos estabelecidos para este volume. O autor procurou descrever os
aspectos duradouros e relativamente estveis de um determinado modo de vida,
deixando aos autores dos outros volumes referentes s mesmas regies a tarefa
de descrever as mudanas ocorridas ao longo dos sculos na vida desses grupos
em decorrncia do contato com o mundo exterior e ainda de chamar a ateno
para o papel desempenhado por esses grupos na histria geral da frica austral.
Desse modo os riscos de sobreposies sero minimizados.


    Os Khoisan
    Este captulo far uma exposio do que se conhece sobre o modo de vida
dos caadores e pastores prensados entre os agricultores da Idade do Ferro e
os colonizadores europeus das regies meridionais da frica austral. Como os
colonizadores conheciam a escrita, e os agricultores da Idade do Ferro no, a
documentao sobre a vida dos San e dos Khoi-Khoi tradicionais e sobre as
relaes dos Khoisan com outros grupos est muito mais voltada para as regies
ocidentais do Cabo. Em certos aspectos esse vis  acentuado pela riqueza
arqueolgica da zona montanhosa do Cabo em comparao com muitas outras
partes da frica austral. Mas as descries apresentadas, embora quase sempre
concernentes ao sul e ao oeste, poderiam trazer esclarecimentos sobre o modo
de vida dos Khoi-Khoi e dos San na regio como um todo, ainda que ficassem
faltando muitas particularidades locais.
    Por vrias razes, so numerosos os testemunhos sobre o modo de vida dos
grupos khoisan. Pelo fato de terem sobrevivido at data bem recente, existem
inmeras evidncias arqueolgicas sob a forma de restos de objetos e resduos
de origem animal e vegetal; por terem estabelecido contato com sociedades que
conheciam a escrita, existe um conjunto de documentos histricos sobre seu
modo de vida; ademais, pelo menos alguns dos grupos indgenas deixaram seus
prprios documentos na forma de pinturas e gravuras rupestres, que constituem
valiosa fonte de informaes sobre a sua sociedade, economia, tecnologia e
provavelmente religio. Outra fonte importante  o meio ambiente, j que no
sofreu transformaes radicais em muitas regies da frica austral desde o tempo
em que foi ocupado pela primeira vez pelos caadores e coletores. Assim, depois
de 250 anos de atividade agrcola, ainda  possvel documentar e interpretar os
fatores espaciais e sazonais que at certo ponto teriam determinado o carter do
povoamento pr-histrico. A disponibilidade de recursos alimentares bsicos, os
716                                                                    frica Antiga



locais de afloramento de matria-prima e as mudanas cclicas na pastagem e no
abastecimento de gua, tudo isso vem sugerir os tipos de povoamento a que os
caadores e os pastores podem ter recorrido. Finalmente, embora no mais existam
caadores ou pastores no Cabo, encontram-se grupos aparentados na Nambia
e no Botsuana, o que permitiu aos antroplogos estud-los sistematicamente.
Seus estudos relativos  tecnologia,  economia e  organizao social fornecem
aos arquelogos valiosos modelos gerais para a interpretao dos vestgios dos
povos extintos de outras regies.
   Como no usassem metais para fabricar seus instrumentos de cortar, raspar
ou lascar, os pastores khoi-khoi e os caadores san se inserem no campo de
estudos da Idade da Pedra, tendo sido amplamente analisados em termos
do instrumental ltico que produziram. Dessa forma, os historiadores ou
antroplogos que desejassem fazer uso dos registros arqueolgicos tinham
que recorrer s listas de instrumentos e encaixar as indstrias wiltoniense e
smithfieldiense no quadro que esboavam das condies de vida anteriores 
chegada dos europeus. Para os fins da discusso que se segue, as diferenas
secundrias entre conjuntos de objetos de um stio para outro no sero realadas
nem empregadas como critrio para dividir os caadores e os pastores em
agrupamentos culturais. Pelo contrrio, admitir-se- que todos os ocupantes da
frica austral na Idade da Pedra Recente fizeram uso de objetos microlticos,
como raspadores, pontas de armas de arremesso, enxs e furadores. As variaes
nas propores desse instrumental de uma jazida para outra e o aparecimento
ocasional de outras formas de instrumentos sero interpretados como reflexo das
diferentes necessidades que tinham as populaes de determinados utenslios na
medida em que suas tarefas dirias se diversificavam. Povos que ocupavam reas
muito distantes umas das outras devem ter tido  sua disposio matrias-primas
diferentes, ou ento devem ter se empenhado em atividades de subsistncia
significativamente diversas e, portanto, ter produzido instrumentais lticos
distintos. No entanto, tratava-se de comunidades similares, ligadas por uma
tecnologia semelhante em seu aspecto mais geral e por um grande nmero de
caractersticas no-tecnolgicas, como lngua, tipo fsico e economia.


      Os caadores-coletores san
   Estudos etnogrficos recentes sobre os caadores-coletores demonstram
a importncia considervel, na dieta dos grupos pertencentes a essa categoria
A frica meridional: caadores e coletores                                         717



econmica, do componente colhido ou coletado6. Torna-se claro, pelos relatos
referentes aos Kung e aos G/wi do Calaari7, que os alimentos coletados pelas
mulheres constituam a parte maior da dieta diria do grupo, embora os homens
e as crianas tambm se dedicassem  coleta desses veldkos. A caracterstica mais
importante da coleta de alimentos  os quais eram, no totalmente, mas na maior
parte, de origem vegetal   que se sabia de antemo onde encontr-los e se podia
contar com eles como base para a alimentao de todo dia. As carnes ricas em
protenas, produto da caa de animais, eram tambm importantes, mas, sendo sua
obteno imprevisvel, no faziam parte integrante da alimentao diria. Isso no
significa que se deva considerar os caadores como coletores, mas, antes, que 
preciso reconhecer o equilbrio entre os recursos alimentares disponveis para os
grupos de caa e de coleta. Tais grupos garantiam sua subsistncia com a coleta
de alimentos e ocasionalmente se beneficiavam dos sucessos na caa.
    Esse modo particular de alimentao difundia -se por toda a frica
meridional, conforme pode ser atestado pelas descries em primeira mo dos
viajantes europeus dos sculos XVII e XVIII, assim como pelos fragmentrios
registros arqueolgicos. O relato de Paterson de agosto de 1778, por exemplo,
em Namaqualndia, diz sobre "certos hotentotes bosqumanos" que "no tm
nenhum gado [...] vivem de razes e resinas; por vezes se regalam com um
antlope que caam com flechas envenenadas"8; e Thompson, percorrendo o
distrito de Cradock, prximo ao curso superior do Orange, em junho de 1823,
visitou um "kraal de bosqumanos", sobre cujos ocupantes escreveu:
    "Essas pobres criaturas alimentam-se principalmente de certos bulbos selvagens que
    crescem nas plancies, e tambm de gafanhotos, formigas brancas e outros insetos...
    Isso  tudo com o que contam para a sua subsistncia, salvo quando os homens
    conseguem atingir alguma caa com suas flechas envenenadas"9.
   Relatos semelhantes, abrangendo uma rea geogrfica que se estende da
Cidade do Cabo s fronteiras da antiga Colnia do Cabo numa cronologia
que vai dos primeiros anos de 1650 at a dcada de 1820, so unnimes em
reconhecer esse padro mdio da dieta de subsistncia dos San. Pouqussimas
descries deixam de acentuar que "a caa  ocasional" e todas mencionam
razes e bulbos como alimentos principais. De fato, os autores fazem referncia


6    LEE, R. B. 1968.
7    LEE, R. B. 1972.
8    PATERSON, W. 1789.
9    THOMPSON, G. 1827.
718                                                                              frica Antiga



a vrios alimentos vegetais, notadamente ervas, bagas e resinas, mas so os
uyntjes  literalmente, cebolas , ou "razes bulbosas", que aparecem com
maior frequncia nos registros histricos. No se trata, a rigor, de cebolas, mas
de cormos, caules subterrneos, de vrias plantas da famlia da ris, como a Iris
propriamente dita, o Gladiolus, a Ixia e a Moraea, todas citadas nominalmente.
Alm dos alimentos vegetais, existem numerosas referncias ao alimento
coletado de origem animal, como lagartas, formigas, gafanhotos e tartarugas,
bem como o mel, nenhum deles desprezado na luta diria pela subsistncia.
    Naturalmente, os registros arqueolgicos esto voltados de preferncia para
aqueles alimentos que, depois de consumidos, deixam resduos duradouros.
 por essa razo que a arqueologia ressalta o papel da caa entre os San na
frica austral. Mas onde as condies favorveis  preservao possibilitaram a
descoberta e a anlise de vestgios de materiais orgnicos, pde-se reconhecer
a importncia dos vegetais na alimentao. Abrigos sob rocha e cavernas na
Nambia10, na regio sudoeste do Cabo11, no Cabo oriental12, em Natal13 e no
Lesoto14 contm inmeros restos vegetais, dentre os quais se destacam caules,
tegumentos e bases de bulbos de um grande nmero de plantas iridceas.
Naturalmente, os tipos de alimentos vegetais disponveis variam de um stio
para outro, em funo da riqueza da paisagem vegetal de cada localidade, mas h
um claro predomnio de razes e rizomas, cormos, bulbos e tubrculos, seguidos
pelas sementes de espcies frutferas15, no conjunto dos dados coletados.
    A maioria dos relatos histricos referentes  parte animal da dieta pr-histrica
fala genericamente da "caa" dando a impresso de que era ampla a variedade de
espcies caadas. Isso  confirmado pelos inventrios faunsticos levantados por
ocasio das grandes escavaes, como as de Die Kelders16 e Nelson Bay Cave17,
os quais incluem desde musaranhos at elefantes, e mesmo baleias. Contudo, os
vestgios da fauna desses stios mostram a acentuada preponderncia de animais
de pequeno porte, como tartarugas, coelhos (dassies), toupeiras-das-dunas e
pequenos herbvoros locais, como o steenbock, o grysbock e o duiker, variedades


10    WENDT, W. E. 1972. pp. 1-45.
11    PARKINGTON, J. E. & POOGENPOEL, C. 1971.
12    DEACON, H. J. 1969. pp. 141-69; DEACON, H. J. & J. 1963. pp. 96-121.
13    DAVIES, O. Comunicao pessoal.
14    CARTER, P. L. Comunicao pessoal.
15    DEACON, H. J. 1969; PARKINGTON. J. E. 1972. pp. 223-43.
16    SCHWEITZER, F. R. 1970. pp. 136-8; SCHWEITZER, F. R. & SCOTT, K. 1973. p. 547.
17    KLEIN, R. G. 1972. pp. 177-208.
A frica meridional: caadores e coletores                                          719



austrais de antlopes. As ossadas de carnvoros so raras, refletindo talvez caadas
ocasionais visando unicamente a obteno de peles. Os herbvoros de grande
porte, como o veado-do-cabo (hartebeest), o el e o bfalo, acham-se muito
pouco representados em relao aos animais menores, e so raros os restos de
elefantes, hipoptamos e rinocerontes. Embora essas propores reflitam em
parte uma tendncia dos grupos pr-histricos no sentido de levar para seus
acampamentos os animais menores e desossar os maiores no local da caa, no
se pode contestar que a caa de plo e os herbvoros de pequeno porte eram os
principais alvos ou as vtimas mais frequentes dos caadores.
    Os recursos marinhos foram amplamente explorados pelos grupos san,
como atestam os inmeros concheiros no litoral, tanto dentro como fora das
cavernas. As relaes entre os "batedores de praia" strandlopers e os grupos san
e khoi-khoi sero discutidas mais adiante, mas h evidncias convincentes de
que muitas das cavernas costeiras e dos campos de concheiros a cu aberto
foram ocupados pelos grupos san. Embora os concheiros sejam a caracterstica
mais notvel desses stios, a composio dos restos faunsticos evidencia o uso
de ampla variedade de animais marinhos como alimento, notadamente focas,
lagostas, peixes e pssaros. Os resduos dos alimentos vegetais so raros nos
stios costeiros. Mais para o interior, tanto na regio oriental como na regio
ocidental do Cabo, h evidncias da coleta de moluscos de gua doce18, tendo-se
reconhecido a presena de peixes de gua doce no Cabo ocidental e no Lesoto19.
De fato, a pesca est retratada num grande nmero de pinturas rupestres no
Lesoto e no Griqualand East20.
    Portanto a dieta alimentar dos grupos san acha-se bem documentada tanto
histrica como arqueologicamente, embora a distribuio das escavaes seja
muito desigual e algumas reas no tenham sido, por assim dizer, exploradas ou
no apresentem depsitos muito bem conservados. Em termos gerais, a base da
alimentao diria consistia em produtos coletveis, incluindo rizomas e outros
alimentos vegetais, mel e insetos, como gafanhotos, cigarras, trmitas e lagartas.
Esses alimentos eram complementados com pequenos animais, como tartarugas,
coelhos e toupeiras-das-dunas, com herbvoros de pequeno porte e, menos
frequentemente, com animais de maior porte. Os grupos que viviam ao longo
da costa apanhavam peixes, lagostas, focas e pssaros marinhos e coletavam
grandes quantidades de moluscos, principalmente lapas e mexilhes. Os recursos

18   DEACON, H. J. & J. 1972; RUDNER, J. 1968. pp. 441-663.
19   PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971. p. 6; CARTER, P. L. 1969. pp. 1-11.
20   SMITS, L. 1967. pp. 60-7; VINNICOMBE, P. 1965. pp. 578-81.
720                                                                                frica Antiga



fluviais, incluindo moluscos de gua, doce e peixes, tambm eram utilizados,
havendo uma referncia histrica a peixes secos21. Thunberg no registro de suas
observaes quando esteve no Cabo ocidental, na dcada de 1770, descreve uma
bebida preparada pelos caadores ou pelos pastores, se no por ambos:
      "A palavra gli, na lngua hotentote, designa uma planta umbelfera cuja raiz, depois
      de seca e reduzida a p,  misturada com gua fria e mel num cocho; aps fermentar
      durante uma noite, proporciona uma espcie de hidromel, que os nativos bebem para
      entrar no estado de embriaguez"22.
   A tecnologia usada para explorar esses recursos  ilustrada pelos conjuntos
de objetos de pedra, osso, madeira e fibra encontrados nas cavernas e abrigos
de toda a frica austral, e tambm nas descries dos primeiros viajantes que
percorreram a regio. Os bulbos e os tubrculos eram arrancados com um basto
de cavar, de madeira, aparado e queimado numa das extremidades de modo
a ter a forma de uma esptula, o qual tinha por lastro uma pedra perfurada,
ajustada a meia altura de seu eixo. Esses instrumentos foram descritos por
diversos viajantes23, e deles foram encontrados fragmentos em De Hangen
e Diepkloof, no Cabo ocidental24, e em Scotts Cave, no Cabo meridional25.
Existem numerosas pinturas rupestres retratando mulheres usando bastes
de cavar lastreados (ver fig. 26.1); frequentemente elas do a impresso de
estar carregando bolsas de couro, provavelmente destinadas ao transporte dos
alimentos para o acampamento. Pedaos de couro trabalhado so comum ente
encontrados nas reas secas dos abrigos sob rocha e cavernas do Cabo, mas
de modo geral  impossvel determinar se se trata de fragmentos de bolsas ou
de armaduras de couro. Conhecem-se dois tipos de bolsas ou redes feitas de
barbante: o primeiro, encontrado em Melkhoutboom e em Windhoek Farm
Cave26, tem malhas pequenas (cada malha mede cerca de 10 mm) e parece ter
sido usado para transportar razes e tubrculos; do segundo, em malha maior,
conhece-se apenas um fragmento encontrado na caverna de Diepkloof, no Cabo



21    THOM, H. B. 1952-8.
22    THUNBERG, C. P. 1795. p. 31.
23    SPARRMAN, A. 1789. p. 219; THOMPSON, G. 1827. v. I, p. 57; cf. J. de GREVENBOEK, que d o
      comprimento de 3 ps, ou aproximadamente 1 m, in: SCHAPERA, I. 1933.
24    PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971; PARKINGTON, J. E. Tese de doutoramento no
      publicada.
25    DEACON, H. J. & J. 1963.
26    DEACON, H. J. 1969; GROBBELAAR, C. S. & GOODWIN, A. J. H. 1952. pp. 95-101.
A frica meridional: caadores e coletores                                            721



ocidental27, alm de uma ilustrao incorporada  Narrativa de Paterson28. A
julgar por essa excelente representao, este tipo de bolsa deve ter sido empregado
para transportar cascas de ovos de avestruz, que serviam como recipientes para
gua. Todos os espcimes coletados pelos arquelogos foram feitos com fios
torcidos, confeccionados com as fibras do caule do junco Cyperus textilis, assim
batizado por Thunberg no sculo XVIII em razo de seu uso. Pedras perfuradas
ou trespassadas esto entre os achados de superfcie mais comuns em toda a
frica austral.
    Quase todos os narradores da caa entre os San referem-se ao arco e s
flechas envenenadas como a principal arma. Visitando algumas regies do atual
Cabo oriental, em 1797, Barrow escreveu:
     "O arco era uma pea rudimentar de madeira do guerrie bosch, aparentemente uma
     espcie de Rhus [...]; a corda, de 3 ps de comprimento, era feita com as fibras dos
     msculos dorsais do springbok, torcidas. O tronco do alo fornecia a aljava. A flecha
     consistia num canio, no qual, numa das extremidades, se inseria uma lasca finamente
     polida do osso duro da perna do avestruz, redonda e com cerca de 5 polegadas de
     comprimento [...]. O comprimento total da flecha era de aproximadamente 2 ps
     [...]. O veneno tirado de cabeas de cobras e misturado ao sumo de certas plantas
     de razes bulbosas era o principal elemento de que eles precisavam"29.
   Embora raramente se tenham escavado instrumentos inteiros, foram
encontrados exemplares de todas as suas partes componentes nas cavernas
do Cabo oriental e ocidental. Possveis fragmentos de arco, hastes de flechas
em junco, pedaos de canios chanfrados, pontas de osso polidas e hastes de
conexo, tendes em n e fragmentos de alos pintados constituem os restos
abandonados ou perdidos do equipamento de caa dos San. Pequenos objetos
de pedra em forma de lua crescente ou segmento de crculo parecem indicar um
segundo tipo de ponta de arma de arremesso, que fixada com mstique vegetal,
formava a aresta cortante das flechas, conforme demonstraram na Cidade do
Cabo os bosqumanos capturados na dcada de 192030. Arcos, flexas e aljavas
so retratados com muita frequncia nas pinturas parietais da frica austral (ver
figura 26.2).



27   PARKINGTON, J. E. Tese de doutoramento no publicada.
28   PATERSON, W. 1789.
29   BARROW, J. 1801-4.
30   GOODWIN, A. J. H. 1946. p. 195.
722                                                                    frica Antiga



    Contudo, muitos animais no eram caados com arco e flecha, mas apanhados
em armadilhas feitas com cordes vegetais espalhadas pelo veld. Paterson viu
"vrias armadilhas preparadas para a captura de animais selvagens"31 quando
viajava pelas proximidades do rio Orange, em 1779, e  quase certo que muitos
dos fios torcidos dois a dois descobertos em stios como os de De Hagen32, Scotts
Cave33 e Melkhoutboom34 sejam restos abandonados de antigas armadilhas
feitas com cordes vegetais. Essa tcnica devia ser mais eficaz na captura dos
pequenos herbvoros que, como o steenbok, tendem a seguir sempre as mesmas
trilhas dentro dos limites de seu territrio, podendo ser facilmente conduzidos
s armadilhas por meio de sebes convenientemente orientadas. Dois curiosos
objetos de madeira em forma de forquilha encontrados em Windhoek Farm
Cave35 e Scotts Cave36 podem ter servido como disparadores dessas armadilhas.
    Outras tcnicas de caa, embora mencionadas em relatos histricos, ainda
no foram confirmadas por testemunhos arqueolgicos. Muitos viajantes do
sculo XVIII, por exemplo, descreveram grandes fossas cavadas junto s margens
dos rios, em cujo interior havia estacas pontudas fincadas em posio vertical.
Segundo as interpretaes mais correntes, deve tratar-se de armadilhas para a
caa de animais de grande porte, como o elefante, o rinoceronte, o hipoptamo
e o bfalo; sua distribuio geogrfica era muito ampla, estendendo-se do rio
Orange para o sul, e para leste at o Gamtoos. Barrow, visitando as fronteiras
da colnia, nas proximidades de Graaff-Reinet, descreveu outra tcnica de caa
utilizada pelos caadores san que consistia em preparar reas para a caa "com
pilhas de pedras colocadas a intervalos ou com alinharnentos de estacas em cujo
topo eram amarradas penas de avestruz", para onde atraam as espcies mais
gregrias do planalto interior37.
     fato que os caadores-coletores empregavam grande nmero de tcnicas
de pesca; a maioria delas est documentada por testemunhos arqueolgicos. As
mais espetaculares talvez sejam as armadilhas feitas com cestos de junco tranado
em forma de funil, do Baixo Orange, descritas por Lichtenstein e tambm



31    PATERSON, W. 1789. p. 114.
32    PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971.
33    DEACON, H. J. & J. 1963.
34    DEACON, H. J. 1969.
35    GROBBELAAR, C. S. & GOODWIN, A. J. H. 1952.
36    DEACON, H. J. & J. 1963.
37    BARROW, J. 1801-4. Vv I, p. 284.
A frica meridional: caadores e coletores                                                               723




figura 26.1 Pintura rupestre: mulheres com bastes de cavar lastreados por pedras perfuradas. Era tarefa
das mulheres colher razes e bulbos, bem como outros alimentos confiveis, em suas excurses dirias ao "veld"
(pinturas em vermelho esmaecido).
Figura 26.2 Grupo de homens com arcos, flechas e aljavas. Cabia aos homens caar e preparar armadilhas
para animais a fim de complementar o aprovisionamento, em grande parte vegetal, obtido pelas mulheres.
Figura 26.3 Cena de pesca de Tsoelike, Lesoto. Os caadores-coletores da frica austral eram tambm
pescadores; apanhavam tanto espcies marinhas como fluviais, usando tcnicas variadas; a tcnica aqui
representada parece envolver pequenos barcos ou jangadas.
724                                                                           frica Antiga



por Barrow e atribudas por ambos a bosjesmans, provavelmente os San38. Tais
armadilhas eram colocadas na corrente dos rios; conforme foram descritas, eram
feitas de "vime, ramos de rvores e junco", tinham a forma cnica, de funil, sem
dvida semelhante  das ainda hoje usadas nos rios Kafue e Limpopo39. Embora
durante as escavaes no se tenha encontrado nenhum vestgio delas, inmeras
pinturas rupestres do Lesoto e do Griqualand East retratam, incontestavelmente,
conjuntos de nassas ligadas umas s outras por cercas de canio ou madeira,
apanhando grandes quantidades de peixe de gua doce, notadamente o barbo40.
Espinhas de peixe de gua doce foram encontradas em stios muito distantes
um do outro, como o Lesoto e o Cabo ocidental, mas os mtodos empregados
para a pesca nem sempre so evidentes. Um certo nmero de ganchos de osso
em forma de "V" foram descritos por Carter como sendo presumivelmente
anzis, mas ele admite a possibilidade de outras interpretaes41. Nas cenas de
pescaria das pinturas rupestres de Tsoelike, no Lesoto, os pescadores parecem
estar de p em embarcaes e usando lanas compridas, possivelmente farpadas
(ver fig. 26.3). Talvez isso tenha levado Vinnicombe a considerar tais cenas como
sendo de poca mais recente; a datao delas, contudo, ainda  um enigma. As
escavaes jamais revelaram vestgios de qualquer tipo de embarcao, o que, de
todo modo, parece improvvel que venha a acontecer.
    Lichtenstein relata que no Baixo Orange, no mesmo local de onde provm
as armadilhas de pesca em forma de nassa:
      "Quando [os bosjesmans] esperam uma cheia do rio, enquanto a gua ainda est baixa,
      constroem uma espcie de grande cisterna na margem, cercando-a com uma parede
      de pedras, que serve de reservatrio; se a sorte  favorvel, uma grande quantidade
      de peixes fica retida quando a gua reflui"42.
    Esse tipo de armadilha de pedra para pesca baseada no aproveitamento das
cheias e vazantes do rio encontra paralelo nas armadilhas que utilizam o fluxo
e refluxo da mar, assinaladas na costa da frica austral, desde a baa de Santa
Helena at a baa de Algoa43. Como diversos exemplares dessas ltimas se acham
ainda em condies de funcionamento (alguns estando mesmo em uso), parece


38    LICHTENSTEIN, H. 1812. v. II, p. 44; BARROW, J. 1801-4.
39    SMITS, L. 1967.
40    SMITS, L. 1967; VINNICOMBE, P. 1960. pp. 15-9; id. 1965.
41    CARTER, P. L. 1969; CARTER, P. L. Comunicao pessoal.
42    LICHTENSTEIN, H. 1812.
43    GOODWIN, A. J. H. 1946.
A frica meridional: caadores e coletores                                    725



razovel supor que as populaes litorneas da Idade da Pedra usavam-nas at
poca bem recente. O grande nmero de peixes pertencentes a espcies costeiras
encontrado em locais prximos das armadilhas sugere que elas eram altamente
eficazes quando a mar subia o bastante para submergir os diques.
    Goodwin relatou a descoberta de uma pequena isca de osso para peixes,
atada a uma linha presa  parede de uma armadilha de pedra, o que sugere a
existncia de outras tcnicas de pesca no passado pr-histrico imediato. Com
efeito, pequenas lascas de osso de 2 cm a 6 cm de comprimento, afiadas em ponta
em ambas as extremidades, foram encontradas em grande nmero tanto em
Elands Bay Cave44 como em Nelson Bay Cave45. Mas, nos dois casos, os artefatos
estavam localizados em camadas de 7 mil a 10 mil anos de idade, tornando-se
extremamente raros, embora no ausentes, nos estratos superiores. Talvez fossem
usados para enganchar iscas, mas vale a pena observar que, no sculo passado,
os Ona da Terra do Fogo faziam objetos semelhantes em madeira, para apanhar
cormores, palmpedes muito comuns nos dois stios acima referidos.
    Nos stios costeiros da frica austral no foram encontrados objetos que
se pudesse identificar sem sombra de dvida como anzis ou pontas de arpo,
embora Barrow tenha assinalado exemplares em madeira destas ltimas no Baixo
Orange46. Diz ele textualmente: "Encontramos vrios arpes de madeira, alguns
deles com ponta de osso, e presos a cordas aparentemente feitas de algum tipo
de fibra vegetal". Ao que parece, portanto, esses arpes seriam de madeira, com
ponta de osso mas no necessariamente farpada. Duas pontas de osso farpadas
foram encontradas nas dunas do cabo das Agulhas, mas os estudos sobre essa
rea ainda no foram publicados. O que se sabe  que uma delas estava fincada
na vrtebra lombar de um esqueleto de mulher adulta com caracteres "khoisan"47.
Objetos perfurados, de cermica ou de pedra localizados em stios ao longo da
costa sul do Cabo foram descritos como pesos de rede, o que, a ser exata essa
interpretao, viria documentar a prtica da pesca com rede entre os San do
litoral. Em vista da abundncia de fios de fibras e da existncia incontestvel de
redes em stios do interior, isso talvez no devesse causar surpresa.
    As tcnicas praticadas para apanhar ou coletar outros recursos costeiros no
esto bem documentadas. Objetos espatulados de osso encontrados em algumas
localidades podem ter servido para desprender lapas de seus habitats rochosos,

44   PARKINGTON, J. E. Tese de doutoramento no publicada.
45   KLEIN, R. G. No publicado.
46   BARROW, J. 1801-4. p. 300.
47   PARKINGTON, J. E. Tese de doutoramento no publicada.
726                                                                    frica Antiga



mas no existem provas irrefutveis a respeito. Tampouco se pode demonstrar
como as lagostas, os pssaros marinhos ou as focas eram capturados, apesar de
existirem um registro histrico sobre a caa de focas com o arco48 e uma pintura
mostrando os Khoi-Khoi golpeando focas com paus num promontrio rochoso
isolado, perto de Saldanha Bay49. O estado de esfacelamento dos fragmentos
de crnio encontrados em Elands Bay Cave e em outros stios talvez seja
consequncia dessa prtica de golpeamento.
    Embora os San no fossem dados  domesticao de animais e  agricultura,
parece haver evidncias de que pelo menos no sculo XVII eles criavam cachorros,
aparentemente para a caa. Dapper, que nunca visitou o Cabo mas que fora
muito bem informado por aqueles que ali haviam estado, relatou, em 1668, que
os Snqua "criam muitos ces de caa treinando-os para desentocar os coelhos
das rochas, o principal alimento"50 desse povo. H de fato grandes quantidades
de ossos de dassies ou coelhos das rochas nos abrigos sob rochas escavados no
Cabo ocidental, e h indcios51 da existncia de ossos de ces domsticos nos
principais depsitos de ossadas animais.
    Alm dos alimentos caados ativamente, parece haver pouca dvida quanto
ao papel representado pela necrofagia na subsistncia dos San. Em particular,
relatou-se que os peixes encontrados mortos ou as baleias encalhadas na
praia eram comidos pelos habitantes do litoral. Um outro aspecto, no menos
importante, da tecnologia san  a grande variedade de recipientes utilizados para
transportar gua. Um exemplo so as cascas de ovos de avestruz, algumas com
incises decorativas, que foram descritas em relatos histricos e encontradas em
numerosos stios, embora quase sempre fragmentadas. Conhecem-se,  certo,
exemplares completos, e mesmo jogos de vrios recipientes enterrados  parece
claro  em pontos estratgicos mas que, via de regra, foram encontrados por
amadores, o que no lhes d suficiente garantia cientfica. Bexigas de animais
tambm eram utilizadas para transportar gua, enquanto os vasos de cermica,
ao contrrio, nunca so descritos como tendo essa funo. Falamos mais
pormenorizadamente da cermica na seo dedicada aos pastores khoi.
    Em suma, a tecnologia san parece ter includo ampla variedade de tcnicas
de caa e coleta, com o emprego de instrumentos feitos com um nico material,
como osso, pedra, madeira, fibras, junco, couro, conchas, marfim, tendes e

48    PATERSON, W. 1789.
49    THOM, H. B. 1952-8.
50    Apud SCHAPERA, I. 1933.
51    SCOTT, K. Comunicao pessoal.
A frica meridional: caadores e coletores                                       727



folhas52, ou instrumentos compsitos, que combinavam matrias-primas diversas.
A pedra parece ter fornecido apenas a ponta ou o gume, para cortar ou raspar,
de utenslios mais elaborados; observou-se que os objetos de pedra foram os
mais frequentemente utilizados na combinao com cabos de osso ou madeira, a
que eram fixados com mstique53. Dava-se preferncia a rochas homogneas, de
gros finos, como a calcednia, a gata, as crostas silicosas ou a argila endurecida;
mas tambm eram utilizados os tipos de quartzo mais quebradios, cujos seixos
pequenos e grandes forneciam os elementos superior e inferior das ms para
triturar pigmentos ou alimentos.  interessante notar que poucos viajantes dos
sculos XVII e XVIII mencionam ou descrevem especificamente a manufatura
de objetos de pedra; isso talvez indique a substituio gradual, pelo menos em
parte, da pedra pelo osso, a madeira ou o metal. Esse quadro de uso de uma
grande variedade de matrias-primas tem implicaes bvias para aqueles que
se baseiam somente nas comparaes de instrumentais lticos para classificar e
diferenciar grupos tnicos.
    As pesquisas arqueolgicas esto se voltando cada vez mais para os fatores
que condicionaram o estabelecimento dos grupos san. Em consequncia, est
se tornando possvel descrever os modos de explorao dos recursos ambientais
pelos caadores-coletores em termos que, por sua orientao ecolgica, teriam
passado despercebidos aos primeiros viajantes. As informaes fornecidas pelos
registros histricos e pelas pinturas rupestres devem, sem dvida, ser acrescidas
s evidncias que vo emergindo das escavaes em larga escala e das anlises
pormenorizadas de vestgios animais e vegetais.
    Por analogia com os caadores-coletores do Calaari e de regies ainda
mais distantes  provvel que os San se distribussem em grupos pequenos
e de intensa mobilidade. Nessa perspectiva, no admira tenham as primeiras
expedies empreendidas por Van Riebeeck deparado com tantos abrigos contra
o vento desocupados, fenmeno registrado tambm por Paterson cem anos mais
tarde, perto da foz do rio Orange54. Essas "choas", telas de mato destinadas a
proteger seus ocupantes contra as intempries, eram logo abandonadas, talvez
passados poucos dias. Tampouco surpreende que, no conjunto, os grupos san
raramente contassem mais de vinte indivduos, constituindo, na maioria dos
casos, pequenos grupos de trabalho de menos de dez homens ou mulheres, ou
acampamentos maiores, com pessoas de ambos os sexos, inclusive crianas. As

52   PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971.
53   DEACON, H. J. 1966. pp. 87-90; DEACON, H. J. 1969.
54   THOM, H. B. 1952-8; PATERSON, W. 1789. p. 117.
728                                                                     frica Antiga



nicas excees so, por exemplo, os grupos de 150 a 500 pessoas descritos por
Barrow e um acampamento de cinquenta cabanas referido por Thunberg, ambos
no fim do sculo XVIII, poca em que os caadores passaram a se reunir em
grupos anormalmente grandes para se defender das incurses dos comandos
europeus 55. O tamanho dos grupos representados nas pinturas rupestres tende
a confirmar que a unidade social mais comum no ultrapassava vinte pessoas,
embora se encontrem agrupamentos maiores (ver fig. 26.4).
    Muitos especialistas relataram que os bosqumanos ocupavam cavernas e
abrigos sob rochas onde quer que os encontrassem, e esses stios tm lugar
proeminente na literatura arqueolgica. No Great Elephant Shelter, nos montes
Erongo, na Nambia, trs ou talvez quatro abrigos contra o vento anlogos
aos descritos pelos antigos viajantes do veld foram devidamente mapeados e
descritos56. Em diversas localidades do Cabo h evidncias de que os grupos
san introduziram o costume de usar feixes de mato como leito, os quais eram
colocados junto s paredes traseiras e laterais das cavernas, formando colches
macios. Em pelo menos dois casos observou-se uma ligeira escavao na rocha
ou depsitos acumulados para receber o leito de mato57. Nos stios costeiros, as
camas eram feitas com vegetais aquticos, especialmente o Zostera, e evidenciou-
-se que os locais de dormir, cozinhar, fazer fogo e depositar lixo eram nitidamente
separados.
    A regularidade da correlao entre mulheres e bastes de cavar e entre homens
e arcos na arte rupestre evidencia muito bem a existncia de uma rigorosa diviso
de trabalho no interior dos grupos san. Isto  repetidamente confirmado na
literatura histrica  Paterson, por exemplo, na dcada de 1820, "viu inmeras
mulheres bosqumanas arrancando razes nas plancies", e Dapper descreveu
uma espcie de bulbo que "constitui sua proviso diria e que as mulheres vo
arrancar todos os dias do fundo dos rios"58. Sem dvida os homens tambm
coletavam alimentos vegetais em suas expedies de caa, mas nunca  demais
sublinhar o papel primordial das mulheres no abastecimento alimentar dirio.
    H boas razes para supor que o abastecimento da maior parte dos alimentos
coletados ou caados pelos San, bem como a gua, estariam sujeitos a flutuaes
sazonais. Por exemplo, a precipitao de inverno no sudoeste do Cabo  um
fenmeno altamente sazonal, porquanto 70% a 80% das chuvas anuais caem


55    BARROW, J. 1801-4. pp. 275, 307; THUNBERG, C. P. 1795. p. 174.
56    CLARCK, J. D. & WALTON, J. 1962. pp. 1-16.
57    PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971.
58    THOMPSON, G. 1827. v. I, p. 58; Apud SCHAPERA, I. 1933. p. 55.
A frica meridional: caadores e coletores   729




 figura 26.4 Grupo de caadores
 em sua caverna, cercados por uma
 srie de bastes de cavar, bolsas,
 aljavas e arcos. As pedras perfuradas,
 que servem como lastro aos bastes,
 so perfeitamente visveis.
 Figura 26.5 Grande grupo de
 figuras, a maioria delas visivelmente
 masculinas, provavelmente numa
 cena de dana. Cenas que envolvem
 um grande nmero de figuras,
 possivelmente retratando atividades
 no -econmicas, sugerem que
 pequenos grupos se reuniam
 ocasionalmente, sazonalmente talvez,
 para promover a troca e participar de
 outras atividades cerimoniais.
 Figura 26.6 Os encontros
 ocasionais de grupos so assinalados
 muito mais pelo conflito do que pela
 cooperao. Cena de um confronto
 entre dois grupos em equilbrio de
 foras. As figuras so visivelmente
 masculinas.
730                                                                     frica Antiga



de maio a outubro, perodo que coincide com as temperaturas mdias mensais
mais baixas e com geadas localizadas. As consequncias dessa situao so
importantes; uma delas  o ciclo vegetativo rgido de crescimento no inverno,
florao na primavera, frutificao no vero e hibernao ou dormncia dos
rgos vegetais subterrneos de reteno de substncias nutritivas durante os
veres quentes e secos. Uma outra, talvez mais evidente,  a acentuada variao
na quantidade de gua de superfcie e na de pastagem entre o vero seco e o
inverno mido. Alm da flutuao sazonal dos recursos, h o fato de nem todos
eles poderem ser encontrados em toda parte. Ainda tomando como exemplo o
Cabo ocidental, observa-se uma distribuio muito desigual das diversas plantas
e animais pelas microzonas geogrficas, como a orla martima, os promontrios
costeiros, a cadeia de montanhas, os vales ribeirinhos e a rida bacia interior. Os
San que ocuparam essa ou outras regies da frica austral devem ter adotado
estratgias de povoamento que levavam em conta a abundncia local ou
temporria de recursos, a fim de assegurar um abastecimento alimentar variado
e suficiente durante todo o ano. Algumas dessas estratgias se evidenciam
nos relatos histricos, nos resultados das escavaes e no conjunto de dados
fornecidos pela arte rupestre.
    Dada a importncia dos bulbos na dieta dos San, sua disponibilidade desigual
deve ter tido considervel influncia no sentido de determinar modelos de
povoamento. A desigualdade, aludida em alguns relatos histricos, decorre
do ciclo vegetativo acima descrito. Como o bulbo constitui um depsito de
substncias nutritivas acumuladas pelas plantas durante o vero de modo a
garantir o crescimento na nova estao e a florao no inverno e primavera
seguintes, suas dimenses, visibilidade e sabor variam no decorrer do ciclo. Mas
especificamente, quando a reserva nutritiva  utilizada para o crescimento das
partes verdes e das flores da planta, os bulbos murcham, tornando-se mais escassos
na dieta dos coletores. A escassez no aprovisionamento de bulbos  sugerida por
Lichtenstein, que, falando dos bosjesmans, relata em certa passagem: "Ele viver
meses a fio com uns poucos bulbos, encontrados em determinadas pocas do
ano nas terras baixas da regio"59. A propsito de um desses "bulbos" ele precisa:
"Deve-se com-la de preferncia assim que a flor cair"60. Essa interpretao 
confirmada pelo sistema nico de contagem do tempo entre as populaes do
Cabo (atribudo aos hotentotes, porm usado, ao que tudo indica, tanto pelos
Khoi-Khoi como pelos San) registrado por Sparrman, Barrow e Thunberg no

59    LICHTENSTEIN, H. 1812. p. 193.
60    LICHTENSTEIN, H. 1812. p. 45.
A frica meridional: caadores e coletores                                                 731



fim do sculo XVIII61. Nas palavras de Barrow, "a estao do ano  indicada
pelo nmero de luas decorridas antes ou aps o uyntjes tyd (literalmente, tempo
das cebolas), ou pela poca das razes de Iris edulis, momento particularmente
importante para eles, j que esse tipo de bulbo constitua parte considervel da
sua alimentao vegetal". Lidos em conjuno com os resultados das modernas
observaes sobre o crescimento e o desenvolvimento do bulbo, esses comentrios
sugerem que pelo menos na cadeia montanhosa do Cabo o aprovisionamento
de gneros alimentcios bsicos sofria grandes flutuaes.
    Em outras regies da frica austral, onde as chuvas so menos intensas
e mais uniformemente distribudas durante o ano, ou onde as precipitaes
mximas coincidem com as altas temperaturas do vero, parece ter havido
diferentes, porm igualmente importantes variaes no aprovisionamento
alimentar. O deslocamento de herbvoros gregrios, como o el, o veado-do-
-cabo e o springbok, entrando e saindo das regies do Karroo ou entre uma e
outra pastagem em funo das precipitaes de inverno ou vero, certamente
influenciou a distribuio espacial das populaes san. Existem evidncias de
vrias medidas tomadas pelos San para fazer frente a esses fatores de flutuao
no aprovisionamento alimentar, entre elas, a mobilidade sazonal, a restrio do
uso de certos alimentos a determinadas pocas, a alterao no tamanho das
unidades sociais, o armazenamento de gneros alimentcios e o estabelecimento
de uma ampla rede de relaes de parentesco como precauo contra um possvel
malogro no abastecimento local.
    A hiptese da ocupao sazonal dos stios do Lesoto62 e do sudoeste do
Cabo63 apia-se num estudo do potencial de recursos dos stios para suprir
as necessidades alimentares bsicas, e ainda na anlise dos restos vegetais e
das ossadas animais. Parece provvel que os grupos san do Cabo ocidental
recorriam a alimentos costeiros coletveis, como os moluscos, nas pocas em que
a disponibilidade de cormos e frutas era mnima, ou seja, durante o inverno e no
incio da primavera. Embora os testemunhos a esse respeito estejam longe de
ser completos, a anlise das idades dos restos de focas e de dassies no momento
em que foram abatidos  sugestiva. Os estudos de Shackleton sobre as conchas
de Nelson Bay Cave, no extremo sul do Cabo64 fornecem outras indicaes
relativas a esse movimento sazonal. A medio da quantidade de istopos de


61   SPARRMAN, A. 1789. p. 104; BARROW, A. 1801-4. p. 159; THUNBERG, C. P. 1795. p. 197.
62   CARTER, P. L. 1970. pp. 55-8.
63   PARKINGTON, J. E. 1972. pp. 223-43.
64   SHACKLETON, N. J. 1973. pp. 133-41.
732                                                                    frica Antiga



oxignio nos concheiros e a comparao com as atuais variaes de temperatura
na superfcie do oceano persuadiram o dr. Shackleton de que os concheiros
analisados se acumularam apenas durante o inverno. Muitas pesquisas ainda
devero ser realizadas para documentar com maior preciso o comportamento
de ajustamento dos San na tentativa de assegurar um equilbrio na obteno de
recursos durante o ano todo, mas podemos nos valer, para ilustrar essa questo,
do comentrio de Lichtenstein, que reconhece a importncia do fator ecolgico.
Segundo ele, "mesmo as figuras mais esqulidas e miserveis" podiam tornar-se
seres totalmente diferentes apenas "mudando de um local para outro"65.
    Tanto os Kung como os G/wi do Calaari restringiam o uso de certos recursos
s pocas do ano em que no podiam contar com alternativas regularmente
disponveis. Como se pode concluir, o valor de um recurso est intimamente
ligado ao nmero de alternativas disponveis e tambm a seu sabor, valor
nutritivo e facilidade de coleta. Parece provvel que os San instalados mais
ao sul tenham utilizado seus recursos de maneira anloga, economizando os
alimentos coletados de modo a manter um abastecimento regular. Nessa rea
os testemunhos documentados nos registros arqueolgicos ainda so poucos,
mas um deles pode ser encontrado na diferena de frequncia de ossadas de
caa de pequeno porte, como dassies e tartarugas, entre os stios do litoral e do
interior, no Cabo ocidental. Enquanto nos stios interioranos, como em De
Hangen, tartarugas e dassies so os animais mais comumente representados, em
Elands Bay Cave, na costa, ambos so comparativamente muito raros66. Em
parte, isso pode ser decorrncia de uma variao sazonal na disponibilidade de
caa, especialmente no caso dos animais hibernantes, como a tartaruga, mas com
certeza resulta tambm da presena, na costa, de uma srie de pequenos animais,
como peixes, lagostas, pssaros marinhos, representando uma fonte alternativa
de alimento. Ainda no foram detectados exemplos correspondentes entre os
alimentos vegetais, embora o mesmo raciocnio possa explicar as diferenas
na composio dos restos vegetais em stios do interior, como De Hangen e
Diepkloof, no Cabo ocidental67.
    J se apontou repetidas vezes68 a tendncia dos caadores-coletores a se
deslocarem em grupos de tamanho varivel a fim de poder maximizar o
aproveitamento dos recursos: dividiam-se em pequenas unidades familiares


65    LICHTENSTEIN, H. 1812. p. 45.
66    PARKINGTON, J. E. 1972.
67    PARKINGTON; J. E. Tese de doutoramento no publicada.
68    LEE, R. B. & DE VORE, I. 1968.
A frica meridional: caadores e coletores                                                733



quando os recursos escasseavam, e fundiam-se em agrupamentos maiores quando
a forma de subsistncia requeria o uso de mo de obra numerosa ou quando
os recursos estivessem to concentrados que possibilitassem o sustento de uma
populao mais densa. Essas tticas serviam, alm do mais, para reforar os laos
de parentesco entre grupos vizinhos, que tinham, nesses reencontros ocasionais,
a oportunidade de trocar gneros alimentcios, inovaes tecnolgicas ou mesmo
mulheres, por meio das quais a teia de obrigaes de parentesco se tecia. Em
pocas de catstrofes locais, essas obrigaes constituam o cordo umbilical que
permitia a um grupo sobreviver usando temporariamente os recursos de outro.
Ademais, to logo surgissem conflitos interpessoais, uma das partes envolvidas
podia abandonar o grupo e juntar-se provisria ou definitivamente a um outro
onde tivesse parentes. Embora o reconhecimento dessas caractersticas seja ainda
um objetivo das pesquisas arqueolgicas, no momento as informaes mais
explcitas sobre elas vm dos relatos histricos ou, como querem alguns, da arte
rupestre.
   Lichtenstein, provavelmente o mais perspicaz observador da organizao
social san entre os primeiros viajantes, observou que:
     "Famlias isoladas formam associaes fechadas em pequenas hordas [...] as
     dificuldades encontradas para satisfazer at mesmo as necessidades mais elementares
     da vida excluem a possibilidade de formar sociedades maiores; s vezes essas famlias
     so obrigadas a se separar porque o mesmo local no comporta o sustento de todos"69.
     Referindo-se ainda ao grupo caador-coletor, diz ele:
     "Normalmente uma horda  formada pelos diferentes membros de uma nica famlia;
     ningum exerce qualquer poder sobre os demais ou deles se distingue [...] cada qual
     deixa sua horda e se liga a outra a seu bel-prazer [...] existem poucas relaes entre as
     distintas hordas; raramente elas se unem, salvo para alguma empresa extraordinria,
     para a qual se tornam necessrias as foras combinadas de um grande nmero de
     indivduos. Em sua maioria as hordas mantm-se distantes umas das outras, pois
     quanto menor seu nmero mais fcil  a proviso de alimentos"70.
   Note-se que esses comentrios sobre o tamanho, a composio, a diviso e
a fuso de grupos, bem como sobre os arranjos territoriais e o sistema social
igualitrio so virtualmente idnticos aos que antroplogos profissionais fizeram



69   LICHTENSTEIN, H. 1812. p. 193
70   LICHTENSTEIN, H. 1812. pp. 48-9.
734                                                                    frica Antiga



duzentos anos mais tarde acerca de grupos manifestamente aparentados do
Calaari71.
   Um estudo das dimenses de grupos representados nas pinturas rupestres
do Cabo ocidental revelou a mdia de aproximadamente catorze pessoas para
cada um, cifra muito semelhante  registrada nos dirios dos comandos do
final do sculo XVIII72. Essa mdia provavelmente corresponde  da "horda" de
Lichtenstein, que teria variado entre dez e trinta pessoas, enquanto os nmeros
mais baixos ocasionalmente encontrados seriam relativos ao que tudo indica, a
grupos de trabalho de homens ou mulheres ocupados em suas tarefas dirias. No
entanto, encontram-se s vezes pinturas rupestres que apresentam trinta e at
mesmo quarenta homens numa nica cena, por certo retratando uma reunio de
cem ou mais pessoas (ver fig. 5), o que nos deixa tentados a interpret-las como
traduzindo a fuso peridica de grupos acima referida. Seria particularmente
interessante poder verificar se os grandes grupos representados se ocupavam
preponderantemente com atividades no-econmicas, como a dana, e se
estavam instalados em reas tidas como de alto potencial de alimentao sazonal.
Infelizmente, como no dispomos ainda dessas informaes, permanecemos
no terreno da pura hiptese. A cadeia de montanhas do Cabo ocidental  uma
dessas reas cuja abundncia de recursos coletveis, como mel, lagartas, frutas,
bulbos e tartarugas, teria permitido aos grupos acamparem prximos uns dos
outros durante os meses de vero, e restabelecer, assim, antigos laos, bem como
trocar presentes. Um pequeno lote de conchas de mexilho embrulhadas numa
folha encontrado na caverna de De Hangen parece ter sido um valioso artigo de
troca, a ser transportado para o interior73. Certamente o potencial de inverno da
bacia do Karroo e do strandveld (litoral) complementaria o potencial de vero da
cadeia montanhosa que os separa. O reconhecimento de tais sistemas depender
do resultado dos estudos sobre plantas e animais ora em andamento.
   O armazenamento de gneros alimentcios em pocas de abundncia para
os perodos de escassez no  caracterstica dos grupos mais recentes do Calaari,
que com efeito, parecem ter considerado o meio ambiente como uma despensa
natural, sempre capaz de proporcionar alguma combinao de alimentos que,
para ser complementada, no exige grandes esforos. Ao que parece, planejando
cuidadosamente a busca anual dos recursos disponveis e guardando os alimentos
mais comuns para os tempos difceis, a necessidade de estocar mantimentos ficava

71    THOMAS, E. M. 1959.
72    MAGGS, T. M. O'C. 1973. pp. 49-53.
73    PARKINGTON, J. E. & PGGENPOEL, C. 1971.
A frica meridional: caadores e coletores                                              735



minimizada. De modo geral, o alimento era colhido e consumido no mesmo dia,
ou em poucos dias, em casos excepcionais, como, por exemplo, quando se caava
um animal de grande porte. Mais para o sul, a situao parece ter sido similar,
porquanto so raras as evidncias de fossas de estocagem nos registros arqueolgicos
e, por seu turno, os primeiros viajantes no mencionam a armazenagem como um
aspecto importante da subsistncia dos San. Kolb, que teve acesso s informaes
de diversos observadores da vida dos Khoi-Khoi e dos San no final do sculo
XVII, ressaltou que:
     "Embora os campos abundem em frutas e razes muito saudveis e nutritivas, que eles
     poderiam armazenar em grande quantidade para a eventualidade de um dia chuvoso,
      costume das mulheres [...] apanhar apenas a quantidade [...] que satisfaa por um
     dia as necessidades de sua famlia"74.
    Outros especialistas antigos mencionam a estocagem de gafanhotos secos,
razes de cana modas (espcie de Salsola) e damascos secos, itens provavelmente
no to importantes, do ponto de vista econmico, quanto as razes, os tubrculos
e os bulbos. No cabo meridional h vestgios, ainda no publicados, de numerosas
fossas de estocagem associadas aos stios das cavernas dos San75. Relatos ainda no
confirmados sugerem que as sementes encontradas nessas fossas seriam coletadas
mais por fornecer leo do que para servir de alimento.
    As evidncias at agora apresentadas levam a crer que os San se constituam
em pequenos grupos mveis altamente organizados, tendo um conhecimento
profundo dos recursos disponveis e de sua variao no tempo e no espao. A base
de subsistncia, o conjunto das tcnicas de caa, pesca e coleta e as estratgias
de povoamento vm sendo crescentemente documentados com dados das mais
variadas fontes. Conforme ressaltou Lee, a impresso de que as condies de
subsistncia dos caadores-coletores beiravam o desastre revelou-se em geral
muito distante da verdade. Em 1798, no Bokkeveld, Barrow entrevistou uma
mulher j idosa (no se sabe se khoi-khoi ou san) e escreveu a respeito:
     "Quando lhe perguntamos se sua memria a transportaria de volta ao tempo em que
     chegaram os primeiros cristos, ela assentiu com a cabea e disse ter boas razes para
     lembrar-se disso, pois antes de ter ouvido falar dos cristos ela no conhecera a falta
     de provises, enquanto agora estava difcil obter o mais simples bocado"76.



74   Apud SCHAPERA, I. 1933. p. 205.
75   DEACON, H. J. Comunicao pessoal.
76   BARROW, J. 1801-4. pp. 398-9.
736                                                                         frica Antiga



      Os pastores khoi-khoi
    Nosso conhecimento sobre a caa e a coleta em contextos ambientais
definidos torna-se, sem dvida, particularmente incompleto quando nos
reportamos ao perodo imediatamente pr-colonial, que se inicia em cerca de
-2000. Em todos os stios assinalados no mapa com exceo de Bonteberg e de
Gordons Bay (onde no foram ativamente procurados), encontraram-se restos
de animais domsticos num contexto da Idade da Pedra Recente. Como no
existem raas ovinas, caprinas ou bovinas de origem local e considerando que
a sua introduo  anterior ao contato com os pastores europeus ou negros, 
lcito admitir que os animais de pastoreio so oriundos de outra fonte. As mais
antigas dataes por radiocarbono relativas aos animais domsticos e  cermica
de stios localizados entre Angola e Cabo oriental esto relacionadas na tabela
a seguir, na qual se incluem tambm as informaes, bastante esparsas, sobre
os mesmos itens relativos a reas do interior e, para referncia, as datas mais
antigas hoje disponveis com respeito  penetrao na frica austral de grupos
de lngua bantu que praticavam a agricultura mista e conheciam o uso do ferro.
Embora o quadro apresentado possa vir a mudar com novas pesquisas, parece
vlido arriscar algumas interpretaes quanto  origem e  lngua dos pastores
khoi-khoi.
    O que de incio nos chama a ateno  que nas jazidas situadas entre Angola
e o Cabo meridional os fragmentos de cermica indicam ter ela surgido pela
primeira vez no perodo de -2000 a -1600. Essa datao dever tornar-se
mais precisa em vista da descoberta de novos fragmentos, sendo possvel que
a datao por radiocarbono venha indicar futuramente as mesmas datas para o
aparecimento de exemplares em toda a regio. Apenas quatro datas anteriores
a -2000 foram assinaladas, havendo boas razes para se acreditar que seja este
um caso de contaminao77 ou que se trata de proto-cermica78.
    Uma segunda observao no menos importante  que, onde quer que
se tenha pesquisado especificamente vestgios de animais domsticos, os
registros arqueolgicos mostram serem eles to antigos quanto a cermica.
Essa constatao pode no se aplicar a cada uma das jazidas considerada
isoladamente mas  verificvel quando se combinam as datas de stios vizinhos
para se estabelecer sequncias locais.  possvel que uma tal abordagem parea


77    SAMPSON, C. G. 1974.
78    SCHWEITZER, F. R. & SCOTT, K.1973; MAGGS, T. M. O'C. Comunicao pessoal; WADLEY.
      Comunicao pessoal.
A frica meridional: caadores e coletores                                                          737




figura 26.7 Mapa da frica meridional mostrando a distribuio de stios da Idade da Pedra Recente. A
maioria deles proporcionou fragmentos de cermicas ou restos de animais domsticos datados dos primeiros
sculos da Era Crist.



despropositada; na realidade, ela vem a ser uma forma de superar problemas
devidos simplesmente ao sistema de amostragem. Fica implcito, portanto,
que a cermica e os animais domsticos se teriam difundido rapidamente, ao
mesmo tempo e na mesma rea. A palavra "difundido" parece inevitvel, pois,
se a cermica pode ter sido inventada in loco, obviamente o mesmo no  o
caso dos animais domsticos. Alm disso, a cermica no apresenta sinais de
corresponder aos primeiros rudimentos, ou a simples tentativas incipientes de
uma inovao tecnolgica.
    Um ponto de considervel importncia, embora ainda no esteja assentado,
 que as datas que ligam os primeiros animais domsticos  cermica se
relacionam com a plancie costeira e as cadeias montanhosas adjacentes, ao
longo das costas dos oceanos Atlntico e ndico ocidental. Conquanto isso
possa ser uma decorrncia da compreensvel preocupao dos arquelogos com
as sequncias de depsitos das cavernas arenticas do Folded Belt do Cabo,
h alguma razo para se supor que a ausncia de datas mais antigas a leste do
738                                                                                     frica Antiga




figura 26.8 As mais antigas datas conhecidas para o aparecimento da cermica e dos animais domsticos
nos contextos da Idade da Pedra Recente na frica austral.
A frica meridional: caadores e coletores                                             739



rio Gamtoos e ao norte do Folded Belt  significativa79. De qualquer modo, a
associao coincide com a chegada, historicamente documentada, dos pastores
conhecidos genericamente como Khoi-Khoi80.
    Embora as pesquisas sobre a difuso do ferro e dos animais domsticos na
frica austral prossigam ao longo da rota oriental, as evidncias atualmente
disponveis sugerem os sculos IV ou V da Era Crist como poca de sua
introduo ao sul do Limpopo81. Assim, a srie de datas da Idade da Pedra Recente
em que a cermica e a domesticao de animais aparecem concomitantemente
antecede a Idade do Ferro ao norte e a leste em duzentos ou trezentos anos,
intervalo que seguramente no deve ser imputado  datao por radiocarbono.
    Esse quadro baseado nos fatores contexto, distribuio e cronologia parece
implicar que os povos pastores que conheciam a cermica se expandiram
rapidamente no Cabo meridional seguindo a rota da costa ocidental por volta
de -2000. Certamente, grupos de caadores integraram-se s sociedades pastoris,
e, ao que se imagina  pois so poucas as informaes documentadas , com
grandes repercusses na demografia e na economia. Tudo leva a crer que esses
invasores seriam os pastores khoi-khoi.
    Evidentemente,  de grande interesse especular sobre as origens, causas
e circunstncias dessa invaso, mas, devido  escassez de dados, as hipteses
devero ter larga margem de impreciso. As pesquisas realizadas na Zmbia e
no Zimbbue tenderam a estabelecer uma distino muito rgida entre a Idade
do Ferro e a Idade da Pedra, e, em consequncia, as camadas superficiais das
cavernas, abrigos ou stios a cu aberto que continham cermica foram o mais das
vezes descritas como da Idade da Pedra com contaminao da Idade do Ferro. O
fato  que nessas reas pode ter havido populaes pertencentes  Idade da Pedra
no que respeita ao seu carter tcnico, mas cuja economia inclusse o pastoreio de
animais domsticos e a manufatura de uma cermica reconhecidamente distinta
da produzida pelos agricultores locais que utilizavam o ferro. No Zimbbue,
a chamada cermica Bambata  geralmente considerada distinta da cermica
caracterstica da Idade do Ferro, e muitas vezes foi encontrada ao lado de objetos
wiltonienses, ou seja, da Idade da Pedra Recente. Que isso reflita ou no uma
expanso de pastores num perodo anterior  Idade do Ferro  discutvel, mas


79   SAMPSON, C. G. 1974; DERRICOURT, R. M. 1973-a. pp. 280-4; CARTER, P. L. 1969; CARTER,
     P. L. & VOGEL, J. C. 1971.
80 MAINGARD, L. F. 1931. pp. 487-504; ELPHICK, R. H. 1972.
81   KLAPWIJK, M. 1971 pp. 19-23; MASON, R. J. 1973. p. 324; BEAUMONT, P. B. & VOGEL, J. C.
     1971.
740                                                                    frica Antiga



pode-se buscar a confirmao dessa ideia na distribuio de pinturas de carneiros
de cauda grossa originrios do Zimbbue, que se acredita estarem associados
 Idade da Pedra. Eram esses carneiros que os pastores khoi-khoi do Cabo
criavam nos sculos XV, XVI e XVII da Era Crist.
    Se a expanso dos povos criadores de carneiros da Idade da Pedra atingiu o
Zimbbue e a Zmbia, aumenta a possibilidade de serem esses povos originrios
da frica oriental, onde, segundo algumas hipteses, se encontrariam seus
antecedentes culturais, lingusticos e mesmo biolgicos. A existncia de povos
pastores fabricantes de cermica com asas, a sobrevivncia das "lnguas com
consoantes diques" entre os Hatsa e os Sandawe e as caractersticas pretensamente
"Camticas" reivindicadas para as populaes "hotentotes", tudo isso foi apontado,
em distintas ocasies, como evidncia de uma origem norte-oriental dos povos
pastores da frica austral que desconheciam o uso do ferro. Conquanto essas
conexes sejam postas em dvida ou mesmo, em alguns casos, rejeitadas, a
continuidade de traos como a cermica, a criao de ovelhas, os tipos de ovinos
e bovinos, uma tecnologia que desconhecia o uso do ferro, os objetos de pedra
e possivelmente a lngua, se demonstrada, deporia fortemente a favor da tese
segundo a qual os pastores khoi-khoi so originrios da frica oriental. Isso, por
sua vez, sugeriria que as mesmas rupturas que determinaram os movimentos de
povos de lngua bantu, numa vaga predominantemente oriental em direo ao
sul, poderiam tambm ter induzido um movimento para oeste, talvez um pouco
anterior ou simplesmente mais rpido, de povos pastores no-agricultores, em
direo ao Cabo. A ausncia de cermica "hotentote" ou "da costa do Cabo"
no Transvaal, na Suazilndia, em Natal, no Estado Livre de Orange ou no
Transkei refletiria meramente o "fato" de que a agricultura seria um objetivo
mais exequvel nessas regies melhor irrigadas por chuvas de vero, e tambm de
que povos pastores no-agricultores com acentuada caracterstica de mobilidade
no encontravam tantos obstculos em se embrenhar pelas terras ridas da
Nambia e do Cabo setentrional e, da, para as pastagens das regies ocidentais
e meridionais do Cabo.  possvel supor que o carneiro foi introduzido pela rota
ocidental; j o gado bovino teria sido obtido pelos pastores khoi-khoi no leste
junto s populaes de lngua bantu ento residentes na regio do Transkei. Essa
hiptese pode ser corroborada pela abundncia de pinturas do Cabo ocidental,
presumivelmente datadas da Idade da Pedra Recente, retratando carneiros de
cauda grossa e pela ausncia de pinturas anlogas representando bovinos, as
quais, no entanto, so encontradas nas reas hoje habitadas por povos de lngua
bantu. Alm disso, ainda no est solidamente documentada a presena de ossos
A frica meridional: caadores e coletores                                                    741



de bovinos to antigos quanto as ossadas de carneiro nas escavaes de stios da
Idade da Pedra Recente realizadas no Cabo meridional.
    H, pois, razes para se supor que povos criadores de carneiros, aparentados
com caadores que utilizavam a pedra e fisicamente distintos dos povos de lngua
bantu, tendo obtido esses animais e a cermica dos vizinhos da frica oriental,
migraram para oeste e depois para o sul em busca de pastagens, chegando
finalmente ao Cabo, pouco depois de -2000.  possvel que tais populaes
tenham se incorporado, lutado ou simplesmente aprendido a conviver com os
povos habitantes da regio, e posteriormente tenham encontrado e se misturado
aos povos de lngua bantu na regio que corresponde hoje ao Transkei. A
pequena quantidade de cermica, de objetos de pedra e de ossadas animais ao
longo da rota acima descrita pode indicar to somente o carter acentuado de
mobilidade dessas populaes, cujos vestgios estariam to dispersos que seriam
praticamente invisveis aos olhos do arquelogo.
    Infelizmente so ainda muito reduzidas as escavaes de stios que
indiscutivelmente foram habitat daqueles pastores, e, a menos que os concheiros
em terreno aberto, os objetos de pedra espalhados na superfcie ou os vestgios
de ocupao de abrigos sob rochas venham a revelar-se como traos de sua
existncia, a ecologia dos grupos khoi-khoi continua a ser assunto para futuras
investigaes arqueolgicas. Quanto s informaes sobre sua dieta, tecnologia
e organizao, resta-nos confiar nos relatos dos primeiros colonizadores e
viajantes europeus. Um deles, Willem Ten Rhyne, botnico e mdico a servio
da Companhia Holandesa das ndias Orientais, por ocasio de uma breve visita
ao Cabo em 1673, escreveu o seguinte a respeito dos Khoi-Khoi que habitavam
a regio:
     "Sua dieta  vegetariana [...] dos brejos e taludes arrancam ris e espardanas; com as folhas
     dessas plantas recobrem suas choupanas; os bulbos so usados como po [...]. A nica
     interrupo nessa dieta ocorre ao ensejo de um casamento ou nascimento, quando matam
     um boi ou no mnimo um carneiro para dar uma festa aos amigos  a menos que tenham
     caado algum animal selvagem [...]. Bebem o leite das vacas e das cabras"82.
    H outras referncias semelhantes a sugerir que os Khoi-Khoi eram pouco
propensos a sacrificar seus animais, salvo em ocasies especficas, o que 
ilustrado por sua dieta  base de leite e vegetais. Em grande parte essa dieta
era igual  dos San  baseada na coleta de rizomas e bulbos, e complementada
ocasionalmente com carne de animal domstico ou selvagem , porm acrescida

82   Apud SCHAPERA, I. 1933. p. 129.
742                                                                                         frica Antiga




figura 26.9 Rebanho de carneiros de cauda grossa. Essa raa de carneiros era criada pelos pastores khoi e
foi observada pelos primeiros colonizadores do Cabo.
Figura 26.10 Galeo pintado nas montanhas do Cabo ocidental, presumivelmente visto em Saldanha
Bay ou em Table Bay, onde esse tipo de embarcao era usado desde o incio do sculo XVII da Era Crist.
A frica meridional: caadores e coletores                                      743



do consumo regular de leite. Isso explicaria o fato de os caadores sem acesso
ao leite, privados assim de suas propriedades nutritivas, serem frequentemente
descritos pelos antigos viajantes como menores do que os pastores83.
    Uma vez que os Khoi-Khoi dependiam tanto dos alimentos coletados e do
seu complemento, a carne de caa, no surpreende encontrar-se entre eles uma
tecnologia muito semelhante  dos San, embora se possa suspeitar que a relativa
dependncia de tcnicas especficas tenha variado segundo as caractersticas
particulares de sua economia. Assim, a meno do arco e da flecha  mais
frequente nas descries dos San, mas no resta dvida que os Namqua, no final
do sculo XVII, e os Gonqua, no final do sculo XVIII, usavam arcos, flechas
envenenadas e aljavas84. Entretanto  significativo que, nos relatos referentes a
esses dois ltimos povos, os assegays (lanas) sejam mencionados como revestindo
igual importncia, ao passo que o mesmo no ocorre nos relatos sobre os San.
Le Vaillant conta que os Gonqua usavam "armadilhas e laos", que colocavam
em pontos convenientes para apanhar animais de grande porte85. Um outro tipo
de armadilha, as covas de grandes dimenses descobertas nas proximidades do
rio Brak, no Cabo Meridional e em outras partes, foi atribudo a "hotentotes"
provavelmente pastores khoi-khoi86. Mais ainda, alguns dos antigos viajantes
referem especificamente grupos de pastores que empregam a nassa para a pesca
no Orange, arrancam bulbos e tubrculos com bastes para escavar, usam bolsas
para transportar gneros alimentcios e maas de madeira para matar focas, todo
um conjunto de prticas que no os distinguem dos caadores-coletores san.
    As trs caractersticas talvez no compartilhadas com os caadores so a
construo de choas mais slidas, de canios, a manufatura da cermica e o
conhecimento da metalurgia. Como mudassem de uma pastagem para outra
em grandes grupos, os Khoi-Khoi no se instalavam em cavernas, e parece que
construam cabanas abobadadas com uma estrutura de balizas, sobre a qual
colocavam esteiras de canios ou mesmo peles. Essas cabanas dispunham-se
geralmente num plano circular, e h repetidas referncias  prtica de,  noite,
trancar-se o gado no curral (kraal) formado por essa aldeia em crculo. Chegada
a poca de mudar, as balizas e as esteiras eram simplesmente colocadas nas
costas dos bois e transportadas para o novo habitat87. No que respeita  cermica


83   THOM, H. B. 1952. 8 v. I, p. 305.
84   THOM, H. B. 1952. 8. v. III, pp. 350-3; LE VAILLANT, F. 1790. pp. 306-9.
85   LE VAILLANT, F. 1790. p. 306.
86   THUNBERG, C. P. 1795. p. 177.
87   SPARRMAN, A. 1789. pp. 138-9.
744                                                                    frica Antiga



e  metalurgia, a situao no se apresenta de modo to evidente. Vrios dos
primeiros escritores mencionam a manufatura de "vasos de barro extremamente
frgeis e [...] quase todos modelados da mesma forma"88, mas nenhum relato
os atribui especificamente aos San. Ten Rhyne,  fato, escreveu que somente
"os mais ricos dentre eles fazem vasos de cermica", mas o significado dessa
observao  obscuro89. Os Namqua do final do sculo XVI e os Gonqua
do final do sculo XVIII fabricavam cermica, e  provvel que as observaes
de Kolb, Grevenbroek e Ten Rhyne se refiram aos Khoi-Khoi do Cabo no
final do sculo XVII90. Sentimo-nos tentados a admitir que o aparecimento da
cermica nos abrigos sob rochas e nas cavernas do Cabo nos primeiros sculos
da Era Crist assinala a chegada dos pastores fabricantes de cermica quela
regio. Talvez os potes de gargalo cnico, com as caractersticas asas reforadas
internamente, sejam o tipo-padro referido por Le Vaillant.  essa uma das
formas mais recorrentes nos stios do litoral do Cabo e arredores91; seu formato
e as asas podem ser decorrncia da necessidade de recipientes para carregar
leite. Outros usos, incluindo o derretimento de gorduras, so mencionados na
literatura antiga92.
    No h evidncias de que a metalurgia fosse uma atividade comum entre
os Khoi-Khoi do Cabo antes da chegada dos colonizadores europeus, mas 
certo que os Namqua j no sculo XVII eram hbeis no trabalho do cobre,
confeccionando contas e discos com esse metal. Em seu primeiro contato com
os Namqua da Colnia do Cabo, em 1661, Van Meerhoff mencionou "discos de
cobre... correntes de cobre e contas de ferro"93, mas no fez nenhum comentrio
sobre onde ou como se faziam essas peas. Em seu estudo sobre os Khoi-
-Khoi do Cabo, Elphick argumentou de maneira persuasiva que os Namqua
provavelmente sabiam trabalhar o cobre e exploravam ativamente os minrios
da Namaqualndia94. Acrescenta ele que "o mesmo se pode dizer, com um grau
de certeza apenas ligeiramente menor, dos Khoi do Cabo"95.



88    LE VAILLANT, F. 1790. p. 311.
89    SCHAPERA, I. 1933.
90    KOLB, P. 1719. p. 251.
91    RUDNER, J. 1968.
92    LE VAILLANT, F. 1790. p. 311.
93    Apud THOM, H. B. 1952-8. p. 353.
94    ELPHICK, R. H. 1972.
95    ELPHICK, R. H. 1972. p. 115.
A frica meridional: caadores e coletores                                             745



    Os efetivos dos grupos de pastores khoi-khoi podem ter variado sazonalmente,
mas no h dvida de que eram mais numerosos do que os dos caadores-
-coletores san. Paterson deparou com aldeias de dezenove, dezoito, onze e seis
choupanas entre os Namqua96, enquanto Le Vaillant descreveu uma "horda"
gonqua, perto do rio Great Fish, onde viviam cerca de quatrocentos indivduos
em "quarenta choupanas construdas num local de aproximadamente 600 ps
quadrados", as quais "formavam vrios crescentes e se comunicavam umas com
as outras atravs de pequenos recintos a elas anexos"97. Os Cochqua, comentou
Dapper:
     "Residem sobretudo nos vales de Saldanha Bay ou em suas proximidades [...] esto
     instalados em 15 ou 16 aldeias, cerca de um quarto de hora distantes umas das outras,
     e ao todo habitam 400 ou 450 choupanas [...] cada aldeia consiste mais ou menos em
     30, 36, 40 ou 50 choupanas, dispostas em crculo a pouca distncia umas das outras"98.
    Dapper estimou o rebanho em cerca de 100 mil bovinos e 200 mil ovinos. Vivendo
em grandes comunidades, os Khoi-Khoi obviamente precisavam deslocar-se com
frequncia para garantir sua dieta vegetal e a pastagem para os animais. Quarenta
mulheres khoi-khoi haviam de exaurir uma localidade muito mais depressa do que
cinco mulheres san. Le Vaillant registrou "essas migraes indispensveis a que eles
[os Khoi-Khoi] se vem forados em decorrncia da mudana das estaes"99; com
relao aos Namqua, o governador Van der Stel anotou que, "conforme a estao
do ano, eles vo para as montanhas, retornando depois aos vales e  praia,  procura
de melhores pastagens"100. Fica evidente que nos primeiros tempos de sua fixao
em Table Bay, os poderosos "homens de Saldanha" ocupavam as pastagens da baa
durante os veres secos, mas deslocavam-se para o norte, na direo de Saldanha
Bay, em outras pocas do ano. Em suma, os Khoi-Khoi erravam continuamente
por montes e vales e tinham  sua disposio grandes extenses de savanas ervosas,
especialmente a plancie costeira e os vales do cinturo montanhoso. Sparrman
menciona movimentos para as pastagens do Karroo, certamente aps as chuvas de
inverno, e observa que "a experincia constante e inequvoca dos colonos coincide
nesse ponto com a prtica dos Hotentotes"101.


96   PATERSON, W. 1789. pp. 57, 104, 122, 125.
97   LE VAILLANT, F. 1790. p. 289.
98   Apud SCHAPERA, I. 1933. p. 23.
99   LE VAILLANT, F. 1790. p. 328.
100 Apud WATERHOUSE, G. 1932. p. 162.
101 SPARRMAN, A. 1789. p. 178.
746                                                                               frica Antiga



   No Longkloof, adiante de Swellendam, em 1775, Sparrman fez observaes
minuciosas, as quais sugerem que os pastores khoi-khoi queimavam o veld
com regularidade a fim de estimular o crescimento de forragem e de plantas
gefitas. Essa forma de explorar a savana tinha o efeito de manter a vegetao
num estado de pr-clmax, favorecendo a predominncia das plantas teis. Seu
comentrio faz meno ao:
      "Fogo, do qual se utilizam colonos e hotentotes para limpar os campos de ervas
      daninhas. Desse modo, o terreno  [...] praticamente desnudado, mas s para que em
      seguida possa ostentar uma roupagem muito mais bonita, adornada por vrios tipos
      de gramneas e ervas anuais, lrios majestosos, antes sufocados por arbustos e plantas
      perenes [...] formando assim, com suas jovens vergnteas e folhas, uma pastagem
      encantadora e verdejante para uso dos animais de caa e do gado"102.
    Essa prtica parece ter precedido o povoamento colonial, porquanto os primeiros
visitantes do Cabo notaram a frequente ocorrncia de grandes incndios de matas,
tendo o comandante Van Riebeeck aprendido a relacionar os incndios nas montanhas
distantes com a iminente chegada dos grupos khoi-khoi.
    As relaes entre os San e os Khoi-Khoi caracterizavam-se tanto pelo conflito
como pela cooperao. Nos primeiros anos aps a fundao do povoamento de Table
Bay, Van Riebeeck ouviu frequentemente falar de "um certo povo de pequenssima
estatura que subsistia parcamente, de modo muito selvagem, sem choupanas, gado
ou qualquer outra coisa no mundo"103. Esse povo, ento conhecido como Snqua
ou Soqua, em parte vivia do roubo do gado dos pastores. Um grupo instalado no
rio Berg era conhecido como Obqua, que significa "homens ladres". No entanto,
 medida que os colonizadores vo penetrando o interior e conhecendo melhor as
relaes entre os grupos, surgem referncias ocasionais a uma forma de clientelismo
pela qual os caadores san acabavam por subordinar-se a grupos khoi-khoi mais
numerosos. Van der Stel escreveu:
      "Esses Snqua representam o mesmo papel dos pobres da Europa: cada tribo de hotentotes
      contrata alguns deles para trazer notcias da aproximao de alguma tribo estranha. Nada
      roubam dos kraals de seus patres, mas sim, e regularmente, de outros kraals"104.
   Kolb, escrevendo cerca de vinte anos depois, confirmou que "os Snqua [...]
adotam como meio de vida, na maioria dos casos, a profisso militar, e por isso fazem-


102 SPARRMAN, A. 1789. p. 264.
103 Apud THOM, H. B. 1952-8. p. 305.
104 Apud WATERHOUSE, G. 1932. p. 122.
A frica meridional: caadores e coletores   747




figura 26.11 Carroas, cavalos
e trekkers (migrantes) observados
quando se dirigiam para as
pastagens entre montanhas do
Cabo ocidental no princpio do
sculo XVIII da Era Crist.
Figura 26.12 Grupo de
pequenos ladres de gado armados
com arcos e flechas, defendendo
sua presa contra figuras maiores
munidas de escudos e lanas. A
distino reflete possivelmente a
diferena entre os caadores san
e os proprietrios negros de gado
nos distritos centrais e orientais da
frica austral.
748                                                                      frica Antiga



-se mercenrios das outras naes hotentotes em tempos de guerra, servindo-os em
troca de uma rao diria"105. Esses Snqua eram elementos dos San que se haviam
integrado nas sociedades khoi-khoi. Elphick argumenta, de forma convincente, que
a expanso dos grupos khoi-khoi para os territrios antes pertencentes aos San teria
envolvido um ciclo de integrao que passaria pela guerra, pelo clientelismo, pelo
casamento e pela assimilao106. Afigura-se provvel que a introduo do pastoreio
na frica meridional teria implicado tanto os movimentos de populaes como
a assimilao de caadores-coletores indgenas, conforme sugere Elphick, mas a
demonstrao desse duplo processo ser uma tarefa delicada para os arquelogos.
    As relaes entre os San, os Khoi-Khoi e outros grupos, como os colonizadores
imigrantes ou os agricultores que conheciam o uso do ferro, eram com certeza
to variadas como as que se estabeleceram entre os San e os Khoi-Khoi. No leste,
tanto os San como os Khoi-Khoi foram expulsos de suas terras e exterminados
ou assimilados pela sociedade colonial. Grande nmero de pinturas rupestres do
Cabo ocidental retrata carroas cobertas com lona, cavaleiros montados e armas
dos agricultores em seus trek (carroas) de pioneiros (ver fig. 26.11). No oeste,
o conflito entre os agricultores da Idade do Ferro e os caadores no est bem
documentado, mas ainda aqui as pinturas rupestres retratam roubos de gado
nos quais homens pequeninos, armados de arco, roubam pessoas representadas
em tamanho maior, armadas de lanas e escudos (ver fig. 26.12). Os ltimos
estgios dessa interao acham-se registrados nas obras de colonos letrados que
se mudaram para Natal e nas encostas dos montes Drakensberg. Os pastores
khoi-khoi  quem sabe tendo mais afinidades com as populaes de lngua
bantu, que praticavam uma agricultura mista, do que com os San  parecem
ter estabelecido relaes mais harmoniosas, por exemplo, com os grupos Xhosa
e Tswana. A descrio dos Gonqua por Le Vaillant sugere uma tradio
de relaes estreitas entre eles e os vizinhos xhosa, incluindo um nmero
considervel de casamentos entre membros dos dois grupos107. Portanto, seria
errneo imaginar distines econmicas, lingusticas, fsicas ou culturais ntidas
entre os vrios povos pr-histricos da frica austral. Ainda mais improvvel,
talvez,  a possibilidade de que tais distines tenham coincidido exatamente108.




105 KOLB, P. 1719. p. 76.
106 ELPHICK, R. H. 1972.
107 LE VAILLANT, F. 1790. p. 264.
108 DERRICOURT, R. M. 1973b. pp. 449-55.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                  749



                                       CAPTULO 27


                       Incio da Idade do Ferro
                         na frica meridional
                                           D. W. Phillipson




    Introduo
    Na frica meridional1, o episdio cultural conhecido pelos historiadores
como Idade do Ferro Antiga assistiu  introduo de um gnero de vida que
contrastava vivamente com os anteriores e que marcou a histria ulterior de
toda a regio. Em princpios do primeiro milnio da Era Crist, um movimento
considervel de populaes trouxe  frica meridional um povo agricultor
negroide cuja economia, modalidade de povoamento e talvez mesmo aparncia
fsica e lngua diferiam grandemente das dos antigos habitantes. Foi esse povo
que introduziu na rea o conhecimento da metalurgia e da cermica. Este
captulo tratar da natureza, da origem e do desenvolvimento dessas sociedades
da Idade do Ferro Antiga.
    Os arquelogos reconhecem hoje um amplo parentesco cultural entre as
comunidades que introduziram a cultura material da Idade do Ferro na frica
meridional. Os vestgios deixados por essas sociedades so atribudos a um
complexo industrial comum  Idade do Ferro Antiga na frica meridional2, que


1    A rea geogrfica abrangida por este captulo (ver mapa) compreende Angola, a metade sul da Zmbia,
     Malavi, Moambique, Botsuana, Zimbbue, Suazilndia e partes da Nambia e da frica do Sul. O leitor
     notar tambm que as dataes por radiocarbono no esto corrigidas.
2    SOPER, R. C. 1971, pp. 5-37.
750                                                                                        frica Antiga



se distingue das indstrias posteriores tanto por sua coerncia cronolgica como
pela manifesta associao de sua cermica a uma tradio comum. A distribuio
desse complexo industrial da Idade do Ferro Antiga se estende muito alm da
regio da frica meridional aqui considerada3. Numerosas subdivises regionais
podem ser reconhecidas no interior desse complexo, com base, principalmente,
na variao estilstica das cermicas; em muitas reas, essas subdivises so
confirmadas por traos culturais independentes. A tradio cermica da Idade
do Ferro Antiga parece ter sido introduzida nessa rea nos primeiros sculos da
Era Crist, tendo sobrevivido na maioria das regies at a sua substituio por
tradies distintas e mais heterogneas, que datam de um perodo posterior da
Idade do Ferro  geralmente por volta do princpio do presente milnio. Essa
data terminal  varivel: em certas regies, a Idade do Ferro Antiga desaparece
no sculo VIII, enquanto em outras pode-se observar um considervel grau de
continuidade tipolgica entre a Idade do Ferro Antiga e a cermica moderna4.
Por convenincia, no contexto da presente obra, elaborada em vrios volumes,
assumi a tarefa de discutir as culturas da Idade do Ferro Antiga at a poca em
que foram substitudas por outras culturas, sem, contudo, passar do sculo XI
da Era Crist. No abordarei, pois, os remanescentes mais tardios das culturas
da Idade do Ferro Antiga, que sero discutidos em outra parte, no contexto da
Idade do Ferro Recente.
     no quadro do complexo industrial da Idade do Ferro Antiga que um grande
nmero de traos culturais de primordial importncia faz sua primeira apario
na frica meridional5. So eles, essencialmente, a agricultura, a metalurgia, a
cermica e as aldeias semipermanentes constitudas por casas feitas de barro
(daga) aplicado a arcabouos de varas ou estacas (pau a pique). Essas quatro
caractersticas  condicionadas pela adequao do terreno e pela distribuio das
jazidas de minrios  esto presentes em todos os stios da regio pertencentes ao
incio da Idade do Ferro. A cultura material das sociedades dessa poca assinala
uma ruptura repentina com a dos seus predecessores  ou contemporneos 
da Late Stone Age. Tanto pela diversidade de seus componentes como pelo
fato de constituir uma entidade vivel, pode-se demonstrar que essa cultura foi
introduzida na frica meridional numa forma j totalmente concluda. , pois,
evidente que seus antecedentes devem ser buscados, no no interior dessa regio,
mas muito mais ao norte. Assim, nenhum stio da frica meridional forneceu

3     A abordagem mais recente  a de SOPER, R. C., op. cit.
4     PHILLIPSON, D. W. 1974, pp. 1-25; 1975, pp. 321-42.
5     Alguns desses traos difundiram-se rapidamente para alm da rea aqui considerada.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                          751




figura 27.1    frica meridional: stios da Idade do Ferro Antiga e stios conexos mencionados no texto.



cermica que de alguma forma possa ser considerada ancestral da cermica da
Idade do Ferro Antiga. A metalurgia parece ter sido introduzida como uma
tcnica acabada e eficaz numa rea onde no h indcios de um conhecimento
anterior dos rudimentos dessa tecnologia. Os animais domsticos e as plantas
cultivadas na Idade do Ferro Antiga eram espcies anteriormente desconhecidas
na parte sul do continente. Nestas condies e dado o seu aparecimento mais
ou menos simultneo ao longo de uma regio imensa,  difcil fugir  concluso
de que a Idade do Ferro Antiga foi introduzida na frica meridional por
um movimento de populao rpido e substancial, portador de uma cultura
plenamente acabada cujo processo formativo ocorreu alhures.
   Torna-se, portanto, claro que a Idade do Ferro Antiga representa apenas um
dos setores da atividade humana na frica meridional no decorrer do primeiro
milnio da Era Crist. Em muitas regies as populaes neolticas conservaram
752                                                                    frica Antiga



seu modo de vida tradicional, durante esse perodo, enquanto alguns de seus
homlogos fixados mais ao sul, para alm dos limites meridionais da expanso
da Idade do Ferro Antiga, parecem ter adotado novos traos culturais que devem
ser vistos sobretudo como decorrentes do contato, direto ou indireto, com os
novos povoadores. Essas populaes neolticas e os grupos a elas relacionados
so estudados por J. E. Parkington, no Captulo 26 do presente volume.
    A reconstituio da Idade do Ferro Antiga na frica meridional deve basear-
-se, antes de tudo, nos testemunhos arqueolgicos. Ao contrrio dos eventos
dos perodos posteriores da Idade do Ferro, os dessa poca  que corresponde
aproximadamente ao primeiro milnio da Era Crist  escapam ao alcance da
tradio oral. Como exposto em captulo anterior, houve tentativas no sentido
de basear a reconstituio histrica das sociedades sem escrita da Idade do Ferro
Antiga dessa regio em dados puramente lingusticos. No atual estgio dos
nossos conhecimentos, contudo, afigura-se prefervel considerar as concluses
da lingustica histrica como um dado secundrio em relao s sequncias
inicialmente estabelecidas pela arqueologia.


      Levantamento regional dos testemunhos aqueolgicos
      Zmbia meridional, Angola e Malavi
    O autor do presente captulo empreendeu recentemente um estudo regional
sobre a Idade do Ferro Antiga na Zmbia; um grande nmero de grupos
distintos foi reconhecido, com base principalmente na tipologia da cermica a
eles associada6. Preocupam-nos aqui to somente as peas provenientes da parte
sul do pas. Podem distinguir-se dois grupos intimamente relacionados na regio
do Copperbelt e no planalto de Lusaka. O grupo Chondwe, do Copperbelt,
caracteriza-se pelos vasos de cermica de bordas espessadas ou indiferenciadas,
cujos motivos decorativos mais frequentes so constitudos por fileiras de
impresses triangulares alternadas, formando um desenho em ziguezague em
falso relevo, por zonas cordiformes estampadas a pente delimitadas por largos
sulcos. Os stios de aldeia que at agora forneceram cermicas desse tipo  cerca
de 20  esto distribudos ao longo de rios e cursos de gua, geralmente prximos
da linha das rvores dos dambos que orlam o curso superior dos tributrios do
alto Kafue. As dataes por radio-carbono dos stios do grupo Chondwe em


6     PHILLIPSON, D. W. 1968-a, pp. 191-211.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                  753




figura 27.2    frica meridional: stios.



Kangonga e em Chondwe situam-nos entre os sculos VI e X da Era Crist, mas
o estudo da tipologia das cermicas sugerem que alguns outros stios poderiam
ser anteriores. O trabalho do ferro e do cobre  evidente em todo o perodo
correspondente aos stios em questo. No entanto, parece que a explorao das
jazidas de cobre da regio foi feita em pequena escala na Idade do Ferro Antiga,
embora se constitusse em foco de atrao para amplos contatos comerciais7.
    Ao sul, concentrados no planalto de Lusaka, ficam os stios da Idade do
Ferro Antiga atribudos ao grupo Kapwirimbwe, cuja cermica se distingue da
do grupo Chondwe pelo espessamento maior e mais frequente dos bordos e
pela extrema raridade das decoraes estampadas a pente, substitudas por uma


7    MILLS, E. A. C. & FILMER, N. T. 1972, pp. 129-45; PHILLIPSON, D. W. 1972-a, pp. 93-128.
754                                                                          frica Antiga



variedade de desenhos entalhados. Na aldeia de Kapwirimbwe, 13 km a leste
de Lusaka, o perodo de ocupao, aparentemente breve, data do sculo V da
Era Crist aproximadamente. Havia extensos remanescentes de estruturas em
daga desabadas, muitas das quais parecem ter sido fornos para a fuso de ferro.
Enormes quantidades de escrias e lingotes de ferro vieram confirmar a prtica
da metalurgia do ferro extensiva nas vizinhanas imediatas. Os utenslios de
ferro ocorrem com uma frequncia inabitual nos stios da Idade do Ferro na
Zmbia, mas parece que o cobre era desconhecido. Fragmentos de ossos indicam
a presena de gado8. O desenvolvimento ulterior do grupo Kapwirimbwe est
melhor ilustrado no stio de Twickenham Road, num subrbio a leste de Lusaka.
Nesse local criavam-se cabras domsticas e caavam-se animais selvagens. Tal
como em Kapwirimbwe, a metalurgia do ferro era bastante desenvolvida, mas
 somente na fase final da Idade do Ferro Antiga que o cobre faz sua apario
em Twickenham Road9.
    O grupo de Kapwirimbwe estende-se para sudoeste at o vale do Zambeze,
perto de Chirundu, e, mais adiante, at o planalto de Mashonaland, em torno
de Urungwe, onde  mais bem conhecido um stio adjacente  caverna Sinoia,
datada da segunda metade do primeiro milnio da Era Crist10.
    At o momento, poucos stios da Idade do Ferro Antiga foram descobertos
na Zmbia ocidental. Na Misso de Sioma, no alto Zambeze, um povoamento
est datado dos sculos intermedirios do primeiro milnio11; outro, perto
do rio Lubusi, a oeste de Kamoa, pertence ao ltimo quartel desse mesmo
milnio. Esses stios forneceram uma cermica que, embora pertencendo
incontestavelmente  Idade do Ferro Antiga,  acentuadamente distinta daquela
dos grupos reconhecidos mais a leste. H evidncias do trabalho do ferro em
ambos os stios12. Fisicamente, a regio do alto Zambeze  considerada uma
extenso da zona arenosa do Calaari angolano. No existe ali praticamente
nenhum conjunto arqueolgico de cermica datado que possa servir de termo
de comparao, mas a pequena coleo proveniente do aeroporto de Dundo,
datada dos sculos VII a IX e, portanto, virtualmente contempornea de Lubusi,
exibe muitas caractersticas em comum com os materiais encontrados naquele



8     PHILLIPSON, D. W. 1968-b, pp. 87-105.
9     PHILLIPSON, D. W. 1970-a, pp. 77-118.
10    ROBINSON, K. R. 1966-a, pp. 131-55; GARLAKE, P. S. 1970-a, p. 25-44.
11    VOGEL, J. O. 1973.
12    PHILLIPSON, D. W. 1971, pp. 51-7.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                          755



stio13. Na rea de Dundo, a produo de cermica parece remontar aos primeiros
sculos da Era Crist, se pudermos confiar no testemunho de uma datao
por radiocarbono de cascalhos fluviais da mina de Furi14. Pode-se afirmar com
razovel segurana que as comunidades da Idade do Ferro estavam presentes em
vastas reas de Angola durante o primeiro milnio da nossa Era Crist, embora
no se disponha de dados precisos.
    Neste ponto  conveniente notar que alguns stios da Idade do Ferro
datados do primeiro milnio da Era Crist so hoje conhecidos nas reas mais
meridionais de Angola;  o caso de Feti la Choya, onde a primeira ocupao
da Idade do Ferro data do sculo VII ou VIII15. A relao desse stio com o
complexo industrial da Idade do Ferro Antiga no pode ser determinada, uma
vez que nada se publicou acerca dos artefatos que lhe so associados, salvo o
fato de o ferro e a cermica estarem presentes16. No extremo norte da Nambia,
o stio de Kapako forneceu uma cermica descrita num primeiro e provisrio
relato como afim  de Kapwirimbwe e remontando, segundo as dataes por
radiocarbono, ao fim do primeiro milnio da Era Crist17.
    Ao sul do rio Kafue, nos frteis planaltos da provncia meridional da Zmbia,
foram descobertas grandes aldeias da Idade do Ferro Antiga. Alguns desses
stios, considerados individualmente, parecem ter sido povoados por muito
mais tempo do que  habitual em outros locais. As mais antigas ocupaes
tiveram lugar, ao que tudo indica, por volta do sculo IV. Esse povoamento
da Idade do Ferro Antiga parece ter sido mais denso do que a maioria dos
outros casos, em que as populaes sobreviveram por muito tempo  chegada
da agricultura e da metalurgia18. A cultura material do grupo Kalundu, da Idade
do Ferro Antiga do planalto de Batoka, tem muitos pontos em comum com a
do grupo Kapwirimbwe, mas sua cermica distingue-se facilmente sobretudo
pela raridade dos motivos em ziguezague impressos em falso relevo e das tigelas
com pronunciado espessamento interno da borda. A presena de conchas de
cauri indicam contatos com o comrcio costeiro, mas as contas de vidro esto
ausentes. Os nveis inferiores do stio de Kalundu, perto de Kalomo, forneceram

13   CLARK, J. D. 1968-b, pp. 189-205.
14   FERGUSON, C. J. & LIBBY, W. F. 1963, p. 17
15   FAGAN, B. M. 1965, pp. 107-16.
16   VANSINA, J. 1966.
17   SUTTON, J. E. G. 1972, pp. 1-24.
18   Diferentes pontos de vista sobre a questo da interao entre as populaes da Idade do Ferro Antiga e
     da Idade da Pedra Recente podem ser encontrados in PHILLIPSON, D. W. 1968-a, pp. 191-211; 1969,
     pp. 24-49; MILLER, S. F. 1969, pp. 81-90.
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um grande sortimento de ossadas de animais, dos quais menos de dois quintos
provm de animais domsticos e de gado mido; a caa continuava visivelmente
a representar importante papel na economia. O ferro era usado para a manufatura
de objetos como barbeadores, pontas de flecha e provavelmente teclas de sanza19.
Fragmentos de cobre tambm foram encontrados20. No planalto, a ocupao pelo
grupo Kalundu durou at o sculo IX21; no vale do Kafue, em torno de Namwala,
as ocupaes da Idade do Ferro Antiga em Basanga e Mwanamaimpa foram
situadas pela datao entre os sculos V a IX22.
    A poro do vale do Zambeze situada nas cercanias da cidade de Livingstone
 provavelmente a regio mais bem explorada da frica meridional no que
se refere  arqueologia da Idade do Ferro. O grupo Dambwa, dessa rea,
compartilha caractersticas tanto com o grupo Kalundu quanto com o stio
de Gokomere no Zimbbue23. Sugeriu-se que, aps uma fase inicial pouco
conhecida  ilustrada pelo pequeno conjunto de fragmentos de cermica do
stio de Situmpa, perto de Machili , o ramo principal do grupo Dambwa teria
derivado de um centro secundrio de difuso da cultura da Idade do Ferro
situado ao sul do Zambeze24. Em Kamudzulo foram encontrados vestgios de
casas de pau apique semiretangulares datados dos sculos V a VIII.
    Um pequeno pedao de vidro importado, descoberto no interior de uma
dessas casas, indica o estabelecimento de contatos com o comrcio costeiro por
volta do sculo VII. Os costumes funerrios desse perodo so melhor ilustrados
em Chundu, onde os cadveres eram sepultados individualmente em covas; eram
enterrados em posio fletida, os joelhos elevados  altura do queixo. Os objetos
funerrios parecem ter sido depositados em covas separadas; estas geralmente
continham pares de vasos de cermica utilizados como recipientes para depsitos
funerrios, que nessa localidade incluam invariavelmente uma enxada de ferro
quase sempre acompanhada de outros objetos, como braceletes de ferro ou de
cobre, cauris ou contas de concha em forma de disco. Um desses depsitos
continha tambm duas sementes, provisoriamente identificadas como um gro


19    Sanza  instrumento musical constitudo por linguetas de ferro dispostas sobre um suporte de madeira;
      estas so dedilhadas com os polegares.
20    FAGAN, B. M. 1967.
21    Como, por exemplo, em Gundu: FAGAN, B. M. 1969-b, pp. 149-69.
22    Basanga e Mwanamaimpa foram escavados pelo Dr. B. M. FAGAN. Para a datao por radiocarbono,
      ver PHILLIPSON, D. W. 1970-b, pp. 1-15.
23    DANIELS, S. G. H. & PHILLIPSON, D. W. 1969, vol. 11.
24    O que foi exposto sobre a Idade do Ferro Antiga em Victoria Falls est amplamente baseado na pesquisa de
      J. O. VOGEL, cujos relatrios publicados incluem Lusaka, 1971, e em outros autores citados mais adiante.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                757



de feijo e uma semente de abbora25. Os povoamentos dos grupos Dambwa,
como os do grupo Kalundu ao norte, proporcionaram vestgios osteolgicos
da criao de animais domsticos bem como de carneiros e/ou cabras, mas a
preponderncia de ossos de espcies selvagens corrobora a importncia da caa.
Os objetos de ferro confeccionados localmente incluam estiletes, facas, enxadas,
machados, braceletes, pontas de flecha e lanas. O cobre no ocorre na regio;
deve ter sido trazido por meio do comrcio j que as duas jazidas conhecidas
mais prximas situam-se na regio de Kafue Hook, na Zmbia, e nos arredores
de Wankie, no Zimbbue. Os artefatos de cobre encontrados nos stios Dambwa
incluem braceletes e lingotes destinados ao comrcio.
    Durante o sculo VIII, uma crescente mudana tipolgica nas cermicas
levou ao surgimento da tradio cermica de Kalomo, considerada hoje como
uma variante local da regio de Victoria Falls desenvolvida a partir da cermica
do grupo Dambwa da Idade do Ferro Antiga. Por volta da metade do sculo
IX, os ceramistas Kalomo introduziram seus produtos no planalto de Batoka,
e parecem ter desalojado rapidamente a populao do grupo Kalundu, que ali
vivia26.
    Na provncia oriental da Zmbia, a populao da Idade do Ferro Antiga
parece ter-se estabelecido por volta do sculo III da Era Crist, porm de
forma esparsa. A maioria dos habitantes dessa rea provavelmente conservou
seu gnero de vida neoltico at o milnio atual, muito tempo aps o incio da
Idade do Ferro Recente27. A cermica dos stios do grupo Kamnama da Zmbia
oriental evidencia ntimo parentesco com a dos povoamentos contemporneos
nas regies adjacentes do Malavi para o qual dispomos de uma sequncia
arqueolgica da Idade do Ferro na maior parte do pas situada a oeste do lago.
    No Malavi setentrional, um stio ribeirinho no curso meridional do Rukuru,
prximo ao norte Phopo, proporcionou evidncias de uma ocupao prolongada
na Idade do Ferro Antiga, situada entre os sculos II e V da Era Crist. A
foram descobertos cacos de cermica, ossos de animais selvagens e vestgios da
fundio do ferro, juntamente com contas de concha em forma de disco. No
se encontraram contas de vidro. A cermica  claramente aparentada com a de
Kamnama, e igualmente bvias so as afinidades gerais desse material com as
cermicas da Idade do Ferro Antiga da frica oriental, especialmente a da ilha



25   VOGEL, J. O. 1969, p. 524; 1972, pp. 583-6.
26   VOGEL, J. O. 1970, pp. 77-88.
27   PHILLIPSON, D. W. 1973, pp. 3-24.
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figura 27.3 Cermica de Mabveni (nos 1 e 2, segundo K. R. Robinson, 1961) e de Dambwa (nos 3 e 4,
segundo S. G. H. Daniels e D. W. Phillipson, 1969).
Figura 27.4 Cermica da Idade do Ferro Antiga proveniente de Twickenham Road (nos 1 e 2, segundo D.
W. Phillipson, 1970) e de Kalundu (nos 3 e 5, segundo B. M. Fagan, 1967).
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                 759



de Kwale, em Mombaa28. A datao de um material semelhante proveniente do
monte Lumbule, perto de Livingstone, indica a metade do primeiro milnio da
Era Crist, aproximadamente. No Malavi setentrional, o stio de Mwavarambo
parece representar a forma local da Idade do Ferro Antiga, mostrando afinidades
com o grupo Kalambo da Zmbia setentrional29. Mwavarambo data dos sculos
XI a XIII30. No Malavi setentrional, os achados provenientes de numerosos
stios atribudos ao grupo Nkope31 indicam povoamentos similares num perodo
que se estende do sculo IV ao XI.
    As cermicas da Idade do Ferro Antiga do Malavi e das regies adjacentes da
Zmbia formam uma clara ligao tipolgica entre as cermicas contemporneas
da frica oriental e as do Zimbbue, mas so marcadamente distintas das
dos grupos Chondwe, Kapwirimbwe e Kalundu, nas regies situadas alm de
Luangwan, a oeste. Infelizmente no dispomos de dados sobre os stios da Idade
do Ferro Antiga na regio situada a leste do lago Malavi.

     A frica ao sul do Zambeze
    No Zimbbue vamos encontrar o mesmo quadro geral de indstrias da
Idade do Ferro Antiga regionalmente diferenciadas, mas pertencentes a um
complexo industrial comum. J nos referimos s indstrias das duas regies
setentrionais do pas, claramente aparentadas s dos grupos zambianos. Na
maior parte do territrio restante as culturas da Idade do Ferro Antiga ostentam
uma similaridade fundamental. Costuma-se admitir uma diviso tripartite da
cermica a elas associada. A cermica de Ziwa concentra-se, ao que parece, nos
planaltos orientais, em torno de Inyanga, estendendo-se para oeste, na direo
de Salisbury, e para o sul, ao longo da fronteira com Moambique, na direo
de Lowveld. A cermica Zhiso (outrora conhecida como Leopard's Kopje) 32
 encontrada a sudoeste, em torno de Bulawayo. A cermica Gokomere est
amplamente distribuda na regio centro-sul do pas. A tipologia indica que os
trs grupos esto intimamente relacionados. De fato, trabalhos recentes mostram
que em vrias regies existe considervel imbricao entre os grupos e sugerem


28   SOPER, R. C. 1967-a, pp. 1-17.
29   PHILLIPSON, D. W. 1968-a, pp. 191-211.
30   Esta sumria exposio sobre a Idade do Ferro Antiga no Malavi baseia-se na pesquisa de K. R.
     ROBINSON, que a descreveu nas seguintes publicaes: 1966, pp. 169-88; com SANDELOWSKI, B.
     1968, pp. 107-46.
31   ROBINSON, K. R. 1973.
32   Sobre a cultura de Leopard's Kopje, ver ROBINSON, K. R. 1966-b, pp. 5-51
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que nem sempre se pode defini-los to nitidamente como ocorre com alguns
dos grupos zambianos da Idade do Ferro Antiga33.
    Um quadro bastante claro do povoamento da Idade do Ferro Antiga no Zimbbue
foi obtido em Mabveni, no distrito de Chibi, onde se investigaram remanescentes
de trs estruturas de pau a pique. Uma delas seria a de um celeiro, originalmente
erguido sobre pedras. Traos de uma parede em pedra insossa no poderiam ser
relacionados inequivocamente com o povoamento da Idade do Ferro Antiga, mas so
arquitetonicamente distintos das estruturas mais recentes. A cermica se caracteriza
por vasos com gargalo cuja borda espessada  decorada com impresses a pente
em diagonal, bem como por uma variedade de tigelas. Encontraram-se tambm
estatuetas de argila representando carneiros  nicos animais domsticos figurados 
e seres humanos, ao lado de contas de ferro, cobre e conchas. A presena de conchas
marinhas e contas de vidro  indcio de contatos com o comrcio costeiro34. O
stio data dos primeiros dois teros do primeiro milnio. Grande parte dos objetos
acima mencionados tambm foram registrados em um abrigo sob rocha da Misso
de Gokomere, ao norte de Fort Victoria, onde os restos de animais incluam um
chifre de cabra domstica. O povoamento da Idade do Ferro Antiga em Gokomere
situa-se entre os sculos V e VII35. A mais antiga ocupao da Idade do Ferro, na
"Acrpole" do Grande Zimbbue, constitui outro exemplo da indstria da Idade do
Ferro Antiga, cujo fim se situa entre os sculos III e V36.
    A cermica dita de Ziwa, do nordeste do Zimbbue, foi reconhecida
inicialmente na regio de Inyanga37; a cermica de Ziwa mais antiga apresenta
inmeros pontos em comum com as de Gokomere, mas sua decorao tende a
ser mais elaborada. No momento,  o chamado "Local de Oferendas", stio ainda
no datado localizado no monte Ziwa, perto de Inyanga, que melhor nos informa
sobre essa cermica. Os achados a ela associados incluem utenslios de ferro,
objetos de cobre, contas de concha e um fragmento de cauri importado. Gros de
paino e sementes de abbora esto visivelmente associadas  ocupao humana
da Idade do Ferro Antiga.
    As verses posteriores da tradio cermica de Ziwa mostram uma moderao
geral das caractersticas mais ostensivas, com a introduo de acabamentos em


33    HUFFMAN, T. N. 1971-a, pp. 20-44.
34    ROBINSON, K. R. 1961-b, pp. 75-102.
35    GARDNER, T., WELLS, L. H. & SCHOFIELD, J. F. 1940, pp. 219-53; ROBINSON, K. R. 1963, pp.
      155-71.
36    SUMMERS, R., ROBINSON, K. R. & WHITTY, A. 1961.
37    SUMMERS, R. 1958. Sobre o "Local de Oferendas", ver tambm MACIVER, D. R. 1906.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                   761



hematita e grafita. As dataes por radiocarbono indicam que a cermica de
Ziwa abrange a maior parte do primeiro milnio. Os nveis mais baixos da
construo de pedra encontrada em Nyahokwe, prximo ao monte Ziwa  que
a datao situa nos sculos X ou XI  so atribudos  fase final da tradio
de Ziwa. Nessa rea descobriram-se diversos esqueletos humanos em stios de
Ziwa pertencentes  Idade do Ferro Antiga, todos eles de caractersticas fsicas
aparentemente negroides38.
    Uma cermica aparentemente relacionada s fases finais da tradio de Ziwa
apresenta distribuio muito mais extensa do que sua equivalente mais antiga,
tendo sido encontrada numa ampla rea do nordeste do Zimbbue, at o distrito
de Salisbury, a oeste. A cermica descoberta na mina de ouro de Golden Shower,
em Arcturus, pode ser atribuda a uma manifestao tardia da tradio de Ziwa,
datada possivelmente do ltimo quartel do primeiro milnio; essa atribuio e
datao devem ser tidas como provisrias at que venham a ser confirmadas
por investigaes futuras39. A associao desse tipo de cermica com as minas
pr-histricas ser discutida com maiores detalhes mais abaixo.
    A fase final da Idade do Ferro Antiga na Mashonaland setentrional est
melhor representada pelos stios de Chitope, situados cerca de 100 km ao norte e
a nordeste de Salisbury, e de Maxton Farm, perto do monte Shamva40. Ambos os
stios so atribudos a meados do sculo XI e considerados ligeiramente anteriores
 introduo, nessa rea, da cermica Musengezi da Idade do Ferro recente.
O stio de Maxton Farm situa-se num Kopje (colina) cujo pico est rodeado
por um muro baixo, "construido com grandes blocos de diorito grosseiramente
empilhados, no desbastados, no selecionados e sem qualquer tipo de vedao
ou preenchimento"41. A construo  rodeada por monlitos erigidos a espaos
regulares. No h motivo para duvidar da associao do muro com a ocupao
do povoamento por ele cercado.
    Um significativo desenvolvimento econmico manifesta-se, assim, nessa
rea, durante as ltimas centrias da Idade do Ferro Antiga. Observa-se que
somente em suas ltimas formas est a cermica Ziwa associada s contas de
vidro importadas. Uma cermica similar  encontrada em stios com terraos
simples e muros de pedra, bem como em minas de ouro e cobre, indicando que
seus artesos estavam mais ativamente envolvidos na explorao dos recursos

38   BERNHARD, F. O. 1961; pp. 84-92; 1964; VILLIERS, H. de. 1970, pp. 17-28.
39   SCHOFIELD, J. F. 1948; HUFFMAN, T. N. 1974, pp. 238-42.
40   GARLAKE, P. S. 1967, 1969.
41   GARLAKE, P. S. 1967, p. 3; 1969.
762                                                                   frica Antiga



naturais do territrio do que aqueles que os precederam, e que mantinham
contato com a rede de comrcio do oceano ndico.
     tambm a essa poca que pertencem os primeiros animais domsticos
registrados pelas pesquisas arqueolgicas no Zimbbue. Restos desses animais
esto notoriamente ausentes de stios da fase mais antiga da Idade do Ferro
nos povoamentos ao sul do Zambeze, onde as nicas espcies domsticas
representadas so os ovinos e os caprinos. A presena de gado foi inicialmente
registrada nos stios datados do sculo VIII; no entanto, os animais domsticos
s se tornam frequentes depois do comeo da Idade do Ferro Recente42.
    Centralizados em Bulawayo, os stios onde se encontrou cermica do tipo
Zhiso tm muitos pontos em comum com as indstrias da Idade do Ferro Antiga
localizadas mais a leste. Acredita-se hoje que essa cermica no representa a
ocupao inicial da Idade do Ferro Antiga nessa rea; isso  observado em
stios como Mandau e Madiliyangwa, nos montes Matopo, onde os fragmentos
de cermica apresentam estreitos vnculos tipolgicos tanto com as primeiras
cermicas de Gokomere quanto com a cermica mais antiga da Idade do Ferro
do grupo Dambwa, da regio de Victoria Falls43. Parece provvel que, numa
grande parte da regio sudoeste do Zimbbue, a populao da Idade do Ferro
Antiga tenha permanecido esparsa at o desenvolvimento da indstria de
Zhiso no final do primeiro milnio. Os estudos da arte rupestre indicam uma
considervel sobrevivncia de povos do neoltico por essa poca, especialmente
nos montes Matopo44.
    Escavaes no monte Zhiso, na cadeia de Matopo, revelaram fragmentos de
estruturas de pau apique e conjuntos de pedras interpretados como suportes de
celeiros associados a uma cermica decorada sobretudo com motivos estampados
a pente; esse material data dos sculos IX a XI da Era Crist45.
    Em outros stios  notadamente Pumbaje e Ngwapani  paredes de pedra
formando terraos podem ser contemporneas da cermica de Zhiso, mas a
associao  incerta46. Um horizonte de Zhiso do sculo VIII ou IX representa
a mais antiga ocupao da Idade do Ferro no stio de Leopard's Kopje, 24 km a
oeste de Bulawayo. Numerosos vestgios foram encontrados no local: contas de
vidro e de concha, escrias de ferro, braceletes de cobre, dentes de carneiro ou


42    HUFFMAN, T. N. 1973.
43    JONES, N. 1933, pp. 1-44.
44    Ver Captulo 26.
45    ROBINSON, K. R. 1966-b, pp. 5-51.
46    ROBINSON, K. R. op. cit. 1966.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                           763



de cabra e, com associao mais incerta, restos de gro-de-bico. Ossos de gado
grado, comuns nas camadas superiores dos depsitos da indstria de Leopard's
Kopje (fase Mambo), no estavam representados na fauna relativamente pequena
do horizonte inferior de Zhiso47.
   No extremo sudeste do Zimbbue, uma aldeia da Idade do Ferro Antiga
em Malapati, junto ao rio Nuanetsi, foi datada do ltimo quartel do primeiro
milnio48. Este stio forneceu ossos de gado e uma cermica que mostra afinidades
com a de Gokomere e Zhiso e, atravs da ltima, com o material coletado na
Botsuana oriental (no monte Maokagani, por exemplo)49.
   A difuso do complexo industrial da Idade do Ferro Antiga ao sul do
Limpopo durante o primeiro milnio j  conhecida, mas os testemunhos so
esparsos e incompletos. Uma cermica semelhante  de Malapati foi descoberta
em Matakoma, no Soutpansberg do Transvaal setentrional; no dispomos
de dataes absolutas para esse stio, mas a semelhana com o conjunto de
Malapati, j datado, torna possvel situ-la, com alguma probabilidade, na
segunda metade do primeiro milnio 50. Perto de Tzaneen, no nordeste do
Transvaal, uma cermica da Idade do Ferro Antiga foi datada do sculo III
ou IV, indicando que a difuso desse complexo ao sul do Limpopo no 
muito posterior  sua introduo no Zimbbue51. As evidncias provenientes
do stio de Broederstroom, a oeste de Pretria, so mais abrangentes: R. J.
Mason descobriu nesse local restos de treze choupanas desabadas, bem como
indcios de trabalho do ferro. A cermica da Idade do Ferro Antiga desse stio,
datada de meados do sculo V, est associada com os ossos de gado grado,
ovinos e caprinos52.
   Mais para o sul, diversos artefatos da Idade do Ferro foram datados do
primeiro milnio, mas permanece incerta sua atribuio ao complexo industrial
da Idade do Ferro Antiga53. Em Castle Peak, Ngwenta (Suazilndia ocidental),
os vestgios da Idade do Ferro datam seguramente do sculo IV ou V. O


47   HUFFMAN, T. N. 1971-b, pp. 85-9.
48   ROBINSON, K. R. 1963, pp. 155-71; 1961-a.
49   SCHOFIELD, J. F. 1948.
50   VAAL, J. B. de. 1943, pp. 303-18.
51   KLAPWIJK, M. 1973, p. 324.
52   MASON, R. J. 1973, pp. 324-5; 1974, pp. 211-16.
53   Excluo aqui do complexo industrial da Idade do Ferro Antiga achados como os de Uitkomst e
     Phalaborwa, cujas afinidades tipolgicas parecem ligar-se a um material mais recente. Da mesma forma,
     no h evidncias das associaes culturais do forno para fundio de ferro do sculo VII descoberto no
     norte de Natal e descrito por DUTTON, T. P.1970, pp. 37-40.
764                                                                                    frica Antiga



relatrio preliminar dos arquelogos54 indica que a cermica, encontrada em
associao com instrumentos lticos de minerao, espordicos objetos de
ferro e artefatos de tipo neoltico, pode ser atribuda  Idade do Ferro Antiga.
Num stio aparentemente contemporneo, em Lydenburg, descobriu-se uma
notvel representao em terracota de uma cabea humana em tamanho natural,
associada a uma cermica do tipo que J. F. Schofield denominou NC3, cuja
relao com o complexo industrial da Idade do Ferro Antiga ainda est por ser
elucidada. A distribuio da cermica NC3 estende-se para o sul at Natal, onde,
em Muden,  encontrada num stio no qual tambm se descobriram ossos de
gado grado e mido55.


      Sntese arqueolgica
   Embora a distribuio e a qualidade das pesquisas arqueolgicas nos stios
da Idade do Ferro Antiga, sejam desiguais, conforme constatado no resumo
acima, podem-se discernir vrias tendncias gerais. Na rea investigada, o
estudo da tipologia da cermica permite reconhecer duas divises principais no
contexto da Idade do Ferro Antiga. Uma, mais conhecida na Zmbia central
e meridional, onde  representada pelos grupos de Chondwe, Kapwirimbwe e
Kalundu, estende-se por uma distncia considervel  porm desconhecida  na
direo oeste. A outra ocupa o Malavi, a Zmbia oriental e a rea de povoamento
da Idade do Ferro Antiga ao sul do Zambeze56. O grupo de Dambwa, da regio
de Victoria Falls (vale do Zambeze), tem caractersticas em comum com ambas
as divises. Essa classificao  confirmada at certo ponto pelo estudo de
determinados aspectos econmicos da Idade do Ferro antiga, o que tentaremos
fazer a seguir.

      Economia de produo de alimento
   S raramente se descobriram provas arqueolgicas de uma economia de
produo de alimentos das sociedades da Idade do Ferro Antiga. A existncia de
grandes aldeias de carter semipermanente sugere, sem dvida, uma economia
baseada em grande parte na produo de alimentos, ao passo que a descoberta

54    Citado in FAGAN, B. M. 1967, pp. 513-27.
55    SCHOFIELD, J. F. 1948; INSKEEP, R. R. & BEZING, K. L. von. 1966, p. 102; INSKEEP, R. R. 1971,
      p. 326; MAGGS, T. M. O'C. 1971.
56    PHILLIPSON, D. W. 1975, pp. 321-42.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                      765



de enxadas de ferro de numerosas ms indica a presena da agricultura. No
entanto, testemunhos especficos para a identificao das plantas cultivadas e
dos animais domesticados s foram obtidos em uns poucos stios.
    Na rea e na poca que so objeto deste captulo os nicos stios da Idade do
Ferro Antiga a proporcionar vestgios fsicos identificveis de plantas cultivadas
so os de Thundu (onde os achados foram provisoriamente identificados como
abbora e feijo), o "Local de Oferendas" em Inyanga (que forneceu gros de
paino e sementes de abbora) e o de Leopard's Kopje (onde se encontraram
gros-de-bico). Gros de sorgo foram encontrados nos nveis pertencentes 
tradio Kalomo em Kalundu e Isamu Pati57. O stio de Ingombe Ilede, perto
de Kariba (no atribudo, culturalmente,  Idade do Ferro Antiga), tambm
forneceu vestgios de sorgo, os quais foram diretamente referidos ao sculo VII
ou VIII58. As magras evidncias acima indicam algumas das culturas praticadas
pelos agricultores da Idade do Ferro Antiga na frica meridional, mas no h
motivo para se acreditar que a lista seja abrangente.
    J os vestgios fsicos de animais domsticos so um pouco mais substanciais.
Despojos de carneiros e/ou cabras so registrados em Twickenham Road, Kalundu,
Kumadzulo, Mabveni, Gokomere, Leopard's Kopje, Makuru e Broederstroom.
Esses stios, bastante esparsos, cobrem todo o perodo da Idade do Ferro Antiga
na frica meridional. No entanto, as ossadas de animais domsticos s procedem
de contextos antigos nos stios ao sul da Zmbia  Kapwirimbwe, Kalundu e
Kumadzulo. Ao sul do Zambeze o gado no ocorre, ao que parece, antes do
sculo VIII, como se pode observar nos stios de Coronation Park, Makuru
e Malapati59. A partir do estudo das pinturas rupestres dessa regio, pode-se
inferir que os carneiros foram introduzidos no Zimbbue antes do gado grado:
os carneiros de cauda grossa so amide representados, o que nunca ocorre com
o gado de grande porte60. Testemunhos recentes de Broederstroom, entretanto,
sugerem que o gado grado teria ocorrido antes no Transvaal, proveniente,
talvez, do oeste61.


57   FAGAN, B. M. 1967.
58   FAGAN, B. M., PHILLIPSON, D. W. & DANIELS, S. G. H. 1969.
59   HUFFMAN, T. N. 1973.
60   COOKE, C. K. 1971, pp. 7-10.
61   WELBOURNE, R. G. 1973, p. 325. A presena de gado grado na frica do Sul durante a Idade da
     Pedra Recente data talvez do primeiro milnio da Era Crist, possivelmente antecedendo sua chegada
     ao Zimbbue. A introduo do gado na frica do Sul por uma rota ocidental parece, assim, provvel.
     Esta tese  sustentada por evidncias lingusticas citadas por EHRET, C. 1967, pp. 1-17; EHRET, C.
     et. al. 1972, pp. 9-27.
766                                                                                       frica Antiga



   Mesmo na regio ao sul do Zambeze, o gado de grande porte parece ter
sido relativamente incomum durante a Idade do Ferro Antiga, em contraste
com a importncia que viria a assumir na economia dos perodos posteriores.
Durante a segunda metade do primeiro milnio, pode-se discernir uma mudana
gradual na economia da Idade do Ferro local. Em Kalundu, o estudo do perodo
em questo revela um aumento constante na proporo de ossos de animais
domsticos em relao aos de espcies selvagens em camadas sucessivas, o que
indica uma mudana gradual da caa para a criao de animais62. Pela mesma
poca, na regio de Victoria Falls, as enxadas de ferro vo-se tornando cada vez
menos frequentes; parece razovel admitir uma evoluo paralela da agricultura
para a criao63.

      Minerao e metalurgia
    Somente trs metais foram trabalhados numa escala considervel durante
a Idade do Ferro na frica meridional. So eles, em ordem decrescente de
importncia, o ferro, o cobre e o ouro64.
    O minrio de ferro, sob esta ou aquela forma, era extremamente difundido
por toda a regio. Nos lugares carentes desse minrio costumava-se, ao que
parece, fundir a limonita, a despeito de seu parco rendimento. Ao que tudo
indica, a introduo da metalurgia do ferro  contempornea da emergncia
de outros traos que caracterizam a cultura da Idade do Ferro conforme a
definimos aqui. As evidncias indicam que os mtodos para a extrao do
ferro limitavam-se  escavao de poos rasos; quase sempre o minrio era
simplesmente coletado na superfcie. No se conhecem detalhes dos fornos da
Idade do Ferro Antiga na frica meridional65, mas  interessante notar que
a fundio parece ter sido frequentemente realizada no interior das aldeias,
como se ainda no existissem os tabus que em perodos posteriores iriam
determinar fossem as operaes de fundio executadas longe de qualquer
contato com mulheres. Parece que o processo de fundio envolvia o uso
de condutos para o ar, mas isso no prova o emprego de foles, visto que tais
condutos so tambm empregados em fornos de tiragem natural66. Os objetos

62    FAGAN, B. M. 1967.
63    Trata-se provavelmente de um processo gradual que se estendeu por vrios sculos.
64    Tambm o estanho era trabalhado em pequena escala, pelo menos no sculo XIX, no sul da Zmbia.
65    Ainda no se sabe se o forno de Inyanga descoberto por F. O. BERNHARD deve ser atribudo  Idade
      do Ferro Antiga.
66    Ver, p. ex., PHILLIPSON, D. W. 1968-c. pp. 102-13.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                 767



de ferro tinham em geral finalidades utilitrias e domsticas: facas, pontas de
flechas, ferros de lanas, etc.  provvel que o comrcio desse metal a longa
distncia tenha sido pouco significativo.
    A distribuio dos depsitos de cobre era muito mais restrita do que
a das jazidas de ferro. As principais reas de ocorrncia desses depsitos na
frica meridional localizam-se na linha divisria das bacias dos rios Congo
e Zambeze, estendendo-se desde o atual Copperbelt at Solwezi, a oeste, na
curva do Kafue; em Sinoia e Wankie, no Zimbbue; na Botsuana oriental,
junto  fronteira do Zimbbue; no vale do Limpopo, em torno de Messina; e
na regio de Phalaborwa, rio Transvaal oriental. As jazidas localizadas mais a
oeste, em Angola e na Nambia, no sero consideradas devido  virtual ausncia
de pesquisas arqueolgicas nessas reas.  provvel que os depsitos de cobre
nas regies acima mencionadas fossem explorados durante a Idade do Ferro;
no entanto, no  fcil a distino entre as atividades mais antigas e as mais
recentes. Muitos stios pr-histricos foram destrudos ou substancialmente
modificados pelas mineraes recentes. Todavia, os artefatos de cobre esto
largamente distribudos nos stios da Idade do Ferro Antiga, embora no sejam
to comuns como nos stios de perodos posteriores. No  possvel demonstrar
que a metalurgia do cobre foi praticada em toda a rea considerada em poca
to recuada como a da Idade do Ferro Antiga, ao contrrio do que ocorre com
a tecnologia do ferro. Na regio de Lusaka, por exemplo, o uso do cobre parece
ter permanecido incgnito at uma fase tardia da Idade do Ferro Antiga. O
conhecimento do cobre em reas mais prximas das jazidas , ao que parece,
consideravelmente mais antigo, como nos stios do grupo Chondwe e na maior
parte do Zimbbue. O cobre era claramente considerado como um material de
relativo luxo, restringindo-se seu uso, em geral,  manufatura de pequenos artigos
de adorno pessoal, como contas e braceletes feitos de finas tiras entrecruzadas. O
metal era comercializado em barras; melhor exemplo, no contexto da Idade do
Ferro Antiga,  o de Kumadzulo. Ainda no se estudou nenhum forno dessa poca
destinado  fundio do cobre. Fragmentos de cermica proveniente de regies
muito afastadas foram encontrados nos stios adjacentes s minas zambianas do
Copperbelt, notadamente em Roan Antelope, donde se pode inferir que o cobre
desses stios era procurado por habitantes de territrios longnquos; essa prtica
prosseguiu nos perodos posteriores da Idade do Ferro67. Conclui-se assim que
em grande parte da frica meridional o cobre foi trabalhado em pequena escala


67   PHILLIPSON, D. W. 1972-b, pp. 93-128.
768                                                                                         frica Antiga



na Idade do Ferro Antiga, constituindo a explorao em larga escala desse metal
um fenmeno posterior68.
    Durante a Idade do Ferro, a minerao do ouro na frica meridional parece
ter-se restringido em grande parte ao Zimbbue e s regies adjacentes69.
Indcios de uma extrao em pequena escala remontando  Pr -Histria
foram assinalados na Zmbia, na frica do Sul e em outros lugares, mas
no se conduziu nenhuma investigao mais minuciosa. Em contrapartida,
registraram-se mais de mil minas de ouro pr-histricas no Zimbbue e nas
regies fronteirias da Botsuana e do Transvaal70. A maior parte das minas
antigas foram destrudas pela minerao desenvolvida nos ltimos oitenta anos;
s nuns poucos casos se dispe de descries mais detalhadas. A datao da
explorao pr-histrica dos depsitos aurferos do Zimbbue  igualmente
difcil. As dataes mais antigas por radiocarbono para as minas da regio so
as de Aboyne e Geelong, ambas remontando a meados do sculo XII. Existem
quatro referncias  cermica da Idade do Ferro Antiga encontrada no interior
de antigas minas ou nas regies imediatamente adjacentes; em todos os casos,
parece tratar-se de uma manifestao tardia da tradio de Ziwa. A ocorrncia
dessa cermica na mina de Golden Shower, perto de Arcturus, j foi registrada;
materiais similares provm de Three Skids. Ambos os stios localizam-se na
regio do vale do Mazoe. Mais para o sul, prximo de Umkondo, no vale do
Sabi, encontrou-se uma cermica anloga em Hot Springs. Finalmente, uma
cermica de Ziwa posterior procede de um stio de processamento de minrios
 em que se encontraram cavidades para a lavagem e triturao do minrio 
em Three Mile Water, perto de Que Que.  o stio que mais se assemelha s
antigas minas de Gaika, Globe e Phoenix, todas elas operadas, em pocas pr-
-histricas, em degraus e a cu aberto;  este, de fato, o tipo de explorao mais
comum no Zimbbue. As minas de Golden Shower e Hot Springs tm cada
qual apenas um desses degraus; j as de que eram muito mais extensas. A mina
de Gaika apresenta mais de 160 degraus, enquanto a de Phoenix atingiu uma
profundidade de quase 40 m;  evidente que esses dois stios foram operados
durante muitos sculos, mas no h provas de que tenham sido intensamente
explorados durante a Idade do Ferro Antiga.



68    Uma pesquisa sobre o trabalho do cobre em pocas pr-histricas na frica meridional e central, com
      particular referncia  Zmbia, est sendo realizada por M. S. BISSON.
69    A passagem a seguir est amplamente baseada em R. SUMMERS.
70    O nmero real de minas deve corresponder a vrias vezes essa cifra.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                                            769



    Embora se tenham encontrado quantidades substanciais de objetos de ouro
em stios da Idade do Ferro no Zimbbue, a grande maioria deles foi removida
por caadores de tesouros durante os primeiros anos da ocupao europeia;
em alguns casos, porm, dispomos de dados referentes  provenincia e s
associaes arqueolgicas de tais objetos. As raras amostras de ouro encontradas
em escavaes arqueolgicas cientificamente controladas provm todas de
contextos posteriores da Idade do Ferro71.
    As escassas precises cronolgicas advindas da datao das antigas minas de
ouro no nos permitem ir alm das hipteses no estudo dos dados fornecidos
pelos quatro stios onde foram encontrados artefatos de ouro pertencentes
 Idade do Ferro Antiga. Nenhum desses stios est datado, mas a cermica
indicaria uma data no anterior ao sculo IX e provavelmente no posterior ao
sculo XI72. No h provas convincentes de uma explorao dos depsitos de
ouro do Zimbbue e antes dessa poca. Essa concluso est de acordo com os
testemunhos dos textos rabes, nos quais a primeira meno ao ouro proveniente
dessa regio  comprado na costa oriental da frica  ocorre num contexto do
sculo X73.
    Os quatro stios de minerao de ouro que forneceram cermica da Idade
do Ferro Antiga localizam-se nos vales do Mazoe e do Sabi, no leste do
Zimbbue. Estes dois rios permitem uma comunicao relativamente fcil
entre o interior e a costa. Os escritos dos gegrafos rabes no deixam dvida
quanto  exportao do metal nesse perodo inicial de minerao do ouro, mas
ainda no se sabe ao certo se era tambm usado localmente. Neste contexto,
 significativo que o incio da minerao do ouro e a importao das contas
de vidro tenham sido mais ou menos contemporneos. Caso os dois eventos
estejam realmente inter-relacionados, o estmulo para o desenvolvimento da
minerao do ouro pode muito bem ter vindo do exterior. A afirmao de
Summer74, segundo a qual as tcnicas de minerao e, por deduo, um certo
nmero de mineradores seriam de origem indiana, no  muito convincente
no atual estgio dos nossos conhecimentos. Conquanto se possa atribuir o
incio da explorao do ouro do Zimbbue a uma fase tardia da Idade do


71   Sabe-se hoje que os sepulcros de Ingombe Ilede, cuja moblia funerria inclua objetos de ouro, no devem
     ser associados  ocupao do final do primeiro milnio desse stio; PHILLIPSON, D. W. & FAGAN,
     B. M. 1969, pp. 199-204.
72 R. SUMMERS e T. N. HUFFMAN sugerem a possibilidade de uma data um pouco anterior.
73 AL-MAS'UDI, in FREEMAN-GRENVILLE, G. S. P. 1962-b, p. 15.
74 SUMMERS, R. 1969.
770                                                                                          frica Antiga



Ferro Antiga, no foi seno em pocas ainda mais recentes que a minerao
foi empreendida numa escala considervel.

      Arquitetura
    Somente uns poucos stios proporcionaram informaes que permitissem
reconstituir os planos arquitetnicos e os pormenores estruturais das construes
da Idade do Ferro Antiga nessa regio; ainda assim,  difcil saber at que ponto
so eles representativos da arquitetura na frica meridional como um todo
durante o perodo em questo. Kumadzulo forneceu o plano de onze casas de
pau a pique semiretangulares sustentadas por grossos esteios colocados nos
cantos; a extenso mxima das paredes era de apenas 2-3 m. No se encontraram
testemunhos comparveis em outros stios da Idade do Ferro Antiga, na frica
meridional; no entanto, vestgios fragmentrios provenientes de stios, como
Dambwa e Chitope sugerem que o mtodo geral de construo ilustrado em
Kumadzulo era frequentemente empregado, embora a forma semiretangular e
suas casas no encontre equivalentes em outros locais.
    Na Idade do Ferro as construes em pedra achavam-se difundidas nas
regies ao sul do Zambeze, mas tal prtica no parece ter alcanado a Zmbia,
exceto, numa escala muito pequena, durante os ltimos sculos da Idade do
Ferro Recente75.
    Contudo, como ficou dito acima, h provas de que a construo em pedra
era comumente praticada no Zimbbue durante a Idade do Ferro Antiga 
conquanto numa escala mais reduzida e com um grau de elaborao menor do
que em pocas posteriores  podendo ser associada aos stios de Gokomere,
Ziwa e Zhiso. Nessa poca, a pedra bruta era empregada sobretudo na edificao
de muros em terraos ou de simples cercados. A forma arquitetnica mais
elaborada encontra-se provavelmente no tipo de edificao descrita no stio de
Maxton Farm. Os perodos posteriores trouxeram um aperfeioamento e uma
difuso muito maiores das construes em pedra, cuja tradio, no entanto, j
se estabelecera muito antes do fim do primeiro milnio. A prpria sequncia de
edificaes em pedra do Grande Zimbbue  atribuda exclusivamente  Idade
do Ferro Recente76



75    Na Zmbia, muros em terrao foram descobertos nas proximidades de Mazabuka, no planalto da provncia
      meridional; estas construes, assim como as muralhas de pedra encontradas em stios defensivos na
      regio de Lusaka e na parte sul da provncia oriental, datam possivelmente do sculo XVIII ou XIX.
76    SUMMERS, R., ROBINSON, K, R., WHITTY, A. 1961; GARLAKE, P. S. 1973.
Incio da Idade do Ferro na frica meridional                                771



   O resumo acima pde cobrir apenas alguns aspectos da economia e da
tecnologia da Idade do Ferro Antiga. Serviu ele, contudo, para ilustrar em que
medida a Idade do Ferro Antiga constitui a base do subsequente desenvolvimento
cultural da Idade do Ferro na regio da frica meridional.


    Concluso
    Tais so, em linhas gerais, os nossos conhecimentos acerca da Idade do Ferro
Antiga na frica meridional. A elucidao dos eventos desse episdio cultural
 vista aqui sobretudo como atribuio da arqueologia. A lingustica histrica
pode igualmente trazer uma contribuio importante ao estudo desse perodo,
tal como foi discutido em um captulo anterior.
    Nos limites da regio da frica meridional aqui abordada, duas divises
principais da Idade do Ferro Antiga podem ser reconhecidas a partir do estudo
dos dados arqueolgicos. Elas podem ser consideradas como divises primrias
do complexo industrial comum  Idade do Ferro Antiga, distinguindo-se uma
da outra pela tipologia das respectivas cermicas. A primeira diviso se estende
para o sul, entre o vale do Luangwa e o lago Malavi, at o Zimbbue e o norte
do Transvaal. Essa regio era povoada por pastores de ovelhas e cabras, e de
incio parece ter carecido de gado bovino. A segunda diviso  melhor conhecida
na Zmbia central e setentrional, mas h indicaes de que ela se estendeu
tambm por uma enorme rea a oeste. Nessa regio, o gado de grande porte era
conhecido desde os primeiros tempos da Idade do Ferro; foram provavelmente
seus habitantes que transmitiram a criao do gado aos antigos pastores khoisan
das regies situadas ao sul do continente, onde o prprio complexo industrial
da Idade do Ferro Antiga no logrou penetrar.
    A desigual distribuio das pesquisas arqueolgicas no permite uma viso
mais minuciosa das grandes subdivises da Idade do Ferro Antiga. A regio
de Moambique, em particular, constitui uma grande lacuna nos mapas de
distribuio, permanecendo, assim, inteiramente desconhecidos os eventos da
rea situada entre o oceano ndico e o lago Malavi. A maior parte de Angola
e da frica do Sul ainda no foi adequadamente investigada. Quando essas
deficincias tiverem sido sanadas,  provvel que a sntese aqui proposta venha
a sofrer importantes revises.
    Ficou demonstrado que a cultura introduzida na frica meridional pelos
povos da Idade do Ferro Antiga foi responsvel pelo estabelecimento de muitas
das principais tendncias histricas e culturais de pocas mais recentes. Para o
772                                                                     frica Antiga



historiador,  particularmente interessante saber, nesse contexto, at que ponto 
possvel fazer remontar  Idade do Ferro Antiga as caractersticas, diferenciadas
por regio, de perodos mais recentes. A tradio da construo em pedra no
Zimbbue e no Transvaal, a extrao do ouro no Zimbbue e o trabalho do
cobre do Copperbelt, parecem ter surgido, em suas respectivas regies, no curso
da Idade do Ferro Antiga, ainda que s mais tarde tenham adquirido plena
expanso. Portanto,  provvel que em numerosos setores a continuidade entre a
Idade do Ferro Antiga e Recente tenha sido por vezes mais pronunciada do que
se sups. Mas  s aps a realizao de pesquisas mais aprofundadas, sobretudo
nas regies ainda no exploradas pelos arquelogos, que se poder avaliar toda
a contribuio da Idade do Ferro Antiga para a histria da frica meridional.
Madagscar                                                               773



                             CAPTULO 28


                             Madagscar
                                    P. Vrin




   Investigaes culturais
   A populao de Madagscar tem sido objeto de numerosos estudos; a despeito
das hipteses frequentes e perfeitamente vlidas sobre suas origens, estas ainda
permanecem obscuras. Se por um lado o continente africano, vizinho, trouxe
contribuies tnicas a Madagscar, por outro,  digna de nota a participao
do elemento malaio-polinsio, igualmente manifesta  sobretudo nas terras altas
do centro do pas; tal  a opinio da maior parte dos estudiosos. A dupla origem
tnica dos malgaxes explicaria as diferenas fsicas entre os habitantes da ilha;
estes falam uma lngua indonsia que, embora subdividida em trs dialetos, 
de uma unidade intrnseca inquestionvel.
   Antes de 1962, ano que marca o incio de uma srie de descobertas
arqueolgicas de importncia histrica, j se tinham obtido notveis resultados
nos campos da lingustica, etnologia, musicologia e antropologia fsica
comparadas. Assim sendo, faz-se necessrio traar um breve resumo da pesquisa
acerca da histria cultural malgaxe empreendida por essas cincias auxiliares,
antes de examinarmos os dados relativos aos primeiros povoamentos.
774                                                                    frica Antiga



      Lingustica
    O holands De Houtman foi o primeiro estudioso a sugerir a incluso do
malgaxe no grupo lingustico malaio-polinsio. Em 1603 publicou ele alguns
dilogos e um dicionrio malaio-malgaxe1. Sua teoria foi corroborada pelo
portugus Lus Mariano, que anos depois reconheceu a existncia da lngua "cafre"
(o swahili), falada na costa noroeste. Essa lngua diferia do "buque" (malgaxe),
falado "no interior da ilha e no restante da costa... muito semelhante ao malaio".
    Mais tarde Van der Tuuk2 estabeleceu cientificamente a relao entre o
malgaxe e as lnguas indonsias. Sua investigao foi seguida pelos trabalhos de
Favre, Brandstetter, Marre, Richardson e, em especial, Dempwolf.
    A reconstituio do protoindonsio por Dempwolf demonstrou que o merina
 por ele denominado "hova"  no difere significativamente de outras lnguas
da famlia indonsia. Tempos depois Dahl ressaltou a influncia do bantu sobre
o malgaxe, no somente no plano lexical como tambm no fonolgico. Este
fato  de suma importncia para a discusso das interaes africano-indonsias,
as quais sero evocadas mais adiante. Hbert demonstrou em vrios de seus
trabalhos que no raro se observa uma bipartio entre os termos indonsios
da lngua malgaxe, o que demonstra a heterogeneidade das suas origens no
Sudeste Asitico. Por sua vez, Dez levou a cabo uma anlise do vocabulrio de
origem indonsia, graas  qual podemos inferir o tipo de civilizao trazido a
Madagscar pelos imigrantes3. Finalmente, a glotocronologia confirmou que o
vocabulrio bsico  predominantemente indonsio (94%) e permitiu entrever
o espao de tempo que separa o malgaxe da protolngua4. Contudo, embora
os elementos principais do corpus lingustico bsico do malgaxe pertenam ao
subgrupo indonsio, no se deve esquecer que outros elementos  indianos,
rabes e africanos  foram incorporados  lngua. Os contatos que a presena
desses elementos pressupe ajudam-nos a compreender as interaes e misturas
ocorridas por ocasio da dispora indonsia para o oeste.

      Antropologia fsica
   As pesquisas realizadas nesse domnio confirmaram que os malgaxes
apresentam ao mesmo tempo caractersticas mongoloides e negroides. Rakoto-

1     DRURY, R. 1931, pp. 323-92.
2     TUUK, Van der.
3     DEZ, J. 1965, pp. 197-214.
4     VRIN, P., KOTTAK, C. & GORLIN, P. 1970.
Madagscar                                                                         775




figura 28.1   Madagscar: lugares citados no texto. (Mapa fornecido pelo autor.)
776                                                                                            frica Antiga



-Ratsimamanga chegou a importantes concluses quanto  distribuio e 
natureza da pigmentao, mais acentuada entre os habitantes dos planaltos
centrais. Distingue ele quatro tipos morfolgicos, entre os quais a populao se
encontra dividida nas seguintes propores5:
                                   tipo indonsio-mongol                       37%
                                   tipo negro-ocenico                         52%
                                   tipo negro-africano                         2%
                                   tipo europeu                                9%
   Coloca-se aqui a seguinte questo: uma proporo to elevada de elementos
negroides seria realmente de origem ocenica? Mais recentemente, Chamla
props, com base na mensurao de crnios preservados no Museu do Homem,
a diferenciao de trs tipos morfolgicos:
              tipo moreno-claro, asitico, semelhante aos indonsios;
              tipo escuro, mais africano do que melansio;
              tipo misto, que parece ser o mais frequente.
   Pesquisas hematolgicas realizadas por Pigache6 mostraram claramente que
os negroides malgaxes so de origem africana, e no melansia.
   O tipo fsico indonsio predomina entre os indivduos descendentes das
antigas castas livres de Imerina; j os descendentes dos antigos cativos procedentes
das regies costeiras ou da frica evidenciam um tipo francamente negroide.
Os indonsios parecem tambm haver contribudo na elaborao biolgica dos
Sihanaka, dos Bezanozano, de alguns Betsimisaraka e dos Betsileo do norte.
A sua participao no processo de formao do substrato biolgico de outros
grupos costeiros, onde o tipo negroide  muito difundido ou predominante,
ainda  objeto de discusso.
   O estudo dos restos de esqueletos encontrados em Madagscar poderia nos
ajudar a compreender o processo de miscigenao e, em especial, indicar se
a fuso entre os elementos africano e indonsio ocorreu na ilha ou fora dela.
Todavia, a quase total ausncia de esqueletos obtidos em contextos arqueolgicos
tem impedido a coleta dos dados necessrios7.



5     Rakoto-Ratsimamanga foi influenciado, na definio de suas categorias, pelas teorias "sul-asiticas" de
      Grandidier. Ele no indica claramente os parmetros usados para definir esses tipos.
6     PIGACHE, J. P. 1970, pp. 175-7.
7     Afora o estudo dos restos de esqueletos encontrados em Vohemar e nos stios do noroeste, que datam
      de um perodo rabe posterior ao primeiro povoamento.
Madagscar                                                                   777




figura 28.2   Madagscar: stios importantes. (Mapa fornecido pelo autor.)
778                                                                    frica Antiga



      Etnologia e musicologia
    H. Deschamps8 foi quem primeiro se preocupou em distinguir, no interior da
civilizao malgaxe, as contribuies culturais indonsias das africanas. Traos
culturais africanos so encontrados no complexo da criao de gado, no culto
 serpente em honra dos reis mortos (praticado no oeste e em Betsileo) e em
algumas formas de organizao sociopoltica da regio costeira. No entanto, a
organizao social de Imerina  inteiramente indonsia em seu carter.
    A civilizao malgaxe deve ao leste a maior parte de seus tipos de moradia, a
cultura do arroz em terraos irrigados, alguns aspectos do culto aos ancestrais e
todo um complexo tecnolgico que inclui o fole com duplo pisto, a piroga com
balancim, o forno subterrneo guarnecido de rochas vulcnicas porosas e objetos
menos conhecidos, como o furador rotativo com arco e o ralador de coco com
suporte. Esses dois ltimos objetos, estudados na costa oeste de Madagscar,
foram encontrados em pontos to longnquos como o leste da Polinsia, onde
apresentavam forma idntica e eram conhecidos sob os nomes de hu e 'ana (em
dialeto taitiano).
    Hornell e os Culwick estudaram as ressonncias culturais indonsias na costa
oriental africana. Mais recentemente, G. P. Murdock referiu-se a um "complexo
botnico malaio" onde se incluem as plantas introduzidas em pocas remotas,
vindas do Sudeste Asitico. Entre elas o autor menciona o arroz (Oryza sativa),
a araruta polinsia (Tacca pinnatifida), o taro (Colocasia antiquorum), o inhame
(Discorea alata, D. bulbiiera e D. esculenta), a banana (Musa paradisiaca e M.
sapientium), a fruta-po (Artocarpus incisa), o coqueiro (Coco nufera), a cana-
-de-acar (Saccharum officinarum), etc. Acredita Murdock que as migraes
indonsias responsveis pela introduo desse complexo botnico em Madagscar
ocorreram no primeiro milnio antes da Era Crist, tendo percorrido as costas
meridionais da sia antes de chegarem  frica oriental.
    Murdock exclui, certamente com razo, a hiptese de uma migrao sem
escalas atravs do oceano ndico; a data por ele atribuda a essas migraes 
bastante razovel. Mas, no que se refere s provas etnobotnicas, Deschamps
e, mais recentemente, Hbert demonstraram que algumas plantas h muito
importadas para Madagscar tm ora nomes indonsios, ora nomes africanos, ora
ambos. Hbert, contudo, sublinha que "nomenclaturas idnticas em diferentes
pases no constituem prova de importao botnica". Para exemplificar, o fato
de a banana ser conhecida por um nome indonsio (fontsy) na costa ocidental


8     DESCHAMPS, H. 1960.
Madagscar                                                                        779



de Madagscar no prova de forma conclusiva que a planta foi trazida por
imigrantes indonsios, pois nas terras altas do centro a banana tem um nome
bantu (akondro); por conseguinte, pode-se fundamentar validamente qualquer
teoria a respeito da origem dessa planta. Hbert cita Haudricourt, cujo ponto de
vista  ainda mais explcito. Em seu estudo sobre a origem das plantas cultivadas
em Madagscar, Haudricourt escreve:
   "A existncia de um nome de origem indonsia no significa que ela [a planta]
   tenha provindo da Indonsia. Com efeito, os imigrantes reconheceram na flora
   local plantas semelhantes s de sua terra de origem e por isso lhes deram os mesmos
   nomes".
     lcito acrescentar que as plantas novas e desconhecidas bem poderiam
ter seus nomes inspirados na semelhana com as espcies encontradas na terra
nativa dos imigrantes.
    Os argumentos acima mostram como  delicada a manipulao das evidncias
de natureza etnobotnica. O mesmo se pode dizer quanto  musicologia. C. Sachs
demonstrou que influncias diversas se acham combinadas em Madagscar: a
indonsia, a africana e a rabe. No entanto, Jones vai mais longe. Segundo esse
autor, a influncia indonsia atingiu no s Madagscar como toda a frica. A
meu ver, embora no se possa rejeitar certas teorias de Jones, a possibilidade de
descobertas similares terem ocorrido independentemente em ambos os lados do
oceano ndico no deve ser excluda.
    Do acima exposto pode-se concluir que os ancestrais dos malgaxes tm
origem tanto africana como indonsia, e que a natureza predominantemente
indonsia da lngua no permite minimizar o papel desempenhado pela frica
no povoamento de Madagscar. O grande continente vizinho faz-se presente
por uma contribuio tnico-majoritria e por inmeros traos de sua cultura
e de sua organizao sociopoltica. Essa situao hbrida no  encontrada nem
nas ilhas Comores nem na costa da frica, onde os influxos indonsios tambm
teriam ocorrido.
    As diferentes teorias sobre as origens dos malgaxes hesitam, de fato, entre dois
plos, frica e Indonsia; isso no exclui,  verdade, pontos de vista extremamente
distorcidos como o de Razafintsalama (que sustentou, fundamentado em
milhares de derivaes etimolgicas suspeitas, a teoria segundo a qual a ilha
teria sido colonizada por monges budistas). A. Grandidier atribui  sia uma
importncia exagerada, afirmando que todos os ancestrais dos malgaxes  afora
os Makua, de imigrao recente  vieram do Sudeste Asitico, incluindo os
780                                                                                       frica Antiga




figura 28.3 Aldeia de Andavadoaka no sudoeste. As casas, de matria vegetal, so idnticas s primeiras
construes ali erigidas.
Figura 28.4 Cemitrio de Ambohimalaza (Imerina). As "casas frias" sobre os tmulos imitam o estilo das
habitaes tradicionais. (Fotos fornecidas pelo autor.)
Madagscar                                                                      781



negroides, a quem ele chama melansios. G. Ferrand9 aceita essa opinio, no
corroborada pelas evidncias geogrficas; , porm, mais razovel, ressaltando
os aspectos africanos da origem dos malgaxes. Distingue ele as seguintes fases
histricas:
            um possvel perodo pr-bantu;
            um perodo bantu, anterior  Era Crist;
            um perodo indonsio pr-merina, do sculo II ao IV, durante o qual
             imigrantes provenientes de Sumatra estabelecem sua supremacia sobre os
             Bantu;
            chegada dos rabes, do sculo VII at o sculo XI;
            chegada de novas levas de imigrantes sumatrenses (sculo X), entre os
             quais se encontram os Ramini, ancestrais dos Zafindramia, e os Rakuba,
             antepassados dos Hova;
            finalmente, chegada dos persas e, por volta de 1500, dos Zafikasinambo.
   Julien10 tambm atribui  frica um papel capital, enquanto Malzac11  de
parecer que os Hova teriam ensinado sua lngua a todos os Bantu de Madagscar.


     Os primeiros povoamento de Madagscar
   Antes de examinar mais a fundo as origens indonsias e africanas do
povo malgaxe, convm avaliar as teorias que tentaram creditar a Madagscar
imigraes antiqussimas, provenientes da regio mediterrnea.

     Fencios, hebreus ou povos do Priplo?
    Ao se escrever sobre a histria dos pases situados alm dos limites do
mundo conhecido na Antiguidade,  comum atribuir a povos como os fencios,
egpcios, sabeus, gregos e hebreus um papel muito mais importante do que
aquele que tiveram na realidade. Bent (1893), por exemplo, imputou a fundao
do Zimbbue aos fencios, enquanto C. Poirier identificou a regio de Sofala
com os pases de Punt e Ofir.
    Alguns autores acreditam que na Antiguidade remota Madagscar foi
visitada por viajantes. F. de Mahy julga ter encontrado remanescentes fencios em

9    FERRAND, G. 1908, pp. 353-500.
10   JULIEN, G. 1908-9, pp. 375, 644.
11   MALZAC, V. 1912.
782                                                                          frica Antiga



Majunga, mas Ferrand e eu prprio no conseguimos confirmar suas hipteses.
A. Grandidier12, por sua vez, afirma que os gregos e, naturalmente, os rabes
desembarcaram em Madagscar. Segundo ele:
      "Desde os tempos antigos essa ilha era conhecida pelos gregos e rabes pelos nomes
      de Menuthias, Djafuna e Chezbezat; a descrio acurada, porm breve, que eles nos
      legaram no recebeu a devida ateno dos gegrafos europeus, que s viriam a ter
      notcia da existncia de Madagscar atravs dos portugueses, em 1500".
   Na verdade, o nico nome grego, Menuthias, citado em Ptolomeu13 e no
Priplo, designa provavelmente a ilha de Pemba, ou talvez Zanzibar ou Mafia.
Um certo F. Du Mesgnil14 julgou de bom alvitre escrever uma obra cujo ttulo
 Madagscar, Homero e a Civilizao Micnica  por si s d uma ideia do que
nela h de especulativo.
   Mais obstinadas so as lendas sobre os migrantes judeus. O padre Joseph
Briant15, em seu opsculo Os Hebreus em Madagscar, est convencido de que
houve, no uma, mas duas migraes judaicas para Madagscar. Sustenta seus
argumentos com centenas de comparaes de palavras hebraicas e malgaxes.
Teorias simplistas e distorcidas como essa, baseadas em comparaes lingusticas
entre palavras aparentemente semelhantes, so comuns em Madagscar; J. Auber
desenvolveu-a em trabalhos dbios que, no obstante, foram editados pela
imprensa oficial malgaxe.
   As primeiras pesquisas sobre as origens judaicas de alguns malgaxes se devem
a Flacourt; esse autor acreditava que os primeiros estrangeiros a desembarcar na
costa oriental de Madagscar foram os "Zaffe-Hibrahim, ou seja, os da linhagem
de Abrao, habitantes da ilha de Santa Maria e regies vizinhas". No prefcio
da Histria da Grande Ilha de Madagscar, Flacourt16 justifica suas hipteses pela
presena de nomes bblicos entre os malgaxes, pela prtica da circunciso e pela
proibio do trabalho no sbado.
   G. Ferrand, por sua vez, descarta formalmente a possibilidade dessas
migraes judaicas terem ocorrido. Segundo ele, os poucos nomes semitas
usados em Madagscar podem ser atribudos aos malgaxes que se converteram



12    GRANDIDIER, A. 1885, p. 11.
13    PTOLEMACUS CLAUDIUS.
14    MESGNIL, F. du. [s.d.].
15    BRIANT, J. 1945.
16    FLACOURT, E. 1661.
Madagscar                                                                    783



ao islamismo17, ao passo que a proibio do trabalho no sbado se deveria ao fato
de ser ele um dia fady (proibido), crena muito comum entre os habitantes da
ilha: na costa oriental, podem ser fady as teras, quintas ou sbados, de acordo
com a regio. Ademais, parece que no sculo XVII a prtica da circunciso entre
vrios povos exticos fez com que os autores cristos franceses lhes atribussem
uma origem judia. Um outro exemplo desse gnero de pesquisa, em outra regio,
 o dicionrio francs-caraba compilado pelo padre Raymond Breton (sc.
XVII).
    A teoria a respeito das origens pr-islmicas dos malgaxes foi retomada
h pouco por Poirier, que v uma dualidade nas contribuies muulmanas a
Madagscar. Enquanto seus predecessores sustentavam que os remanescentes
atenuados do Isl em Madagscar sugerem uma origem judaica, Poirier os
considera uma forma primitiva de religio procedente da Arbia. No entanto, os
documentos arqueolgicos obtidos na frica e em Madagscar no vm em apoio
dessa teoria. As macias infiltraes rabes que fertilizaram a cultura Swahili
s intervm no sculo VIII, e ainda que houvesse trfico na costa oriental da
frica no sculo II da Era Crist, era Rapta, situada depois de Menuthias (que
no pode ter sido Madagscar) o porto terminal. Segundo o autor do Priplo, o
ltimo mercado digno desse nome no pas de Azania era chamado Rapta em
virtude de seus barcos "costurados" (rapton ploiarion); encontravam-se a grandes
quantidades de marfim e cascos de tartaruga.
    A cidade de Rapta ainda no foi localizada, mas acredita-se que ela se
situe entre Pangani e o delta do rio Rufiji.  provvel que Madagscar no se
interessasse por esse comrcio costeiro, no apenas por ele s chegar at Rapta
mas por ser a ilha ainda desabitada.
    Com base em testemunhos histricos e arqueolgicos confiveis,  razovel
supor que indonsios e africanos chegaram a Madagscar entre os sculos V e
VIII ou, de qualquer modo, no depois do sculo IX. Por esta razo, convm
examinar mais de perto as vicissitudes daquilo que se conhece acerca dos
primeiros povoamentos afro-asiticos.

     Os primeiros imigrantes indonsios
   Ainda que seja arriscado tentar estabelecer uma data definitiva para a
imigrao dos primeiros indonsios,  lcito conjeturar, por razes que exporemos
mais adiante, que seu incio teve lugar no sculo V da Era Crist, podendo


17   FERRAND, G. 1891-1902.
784                                                                                      frica Antiga




figura 28.5   Porta antiga de Miandrivahiny Ambohimanga, Imerina. (Foto fornecida pelo autor).
Madagscar                                                                                      785



ter prosseguido at o sculo XII, segundo Deschamps. D-se o nome de
paleoindonsios aos primeiros migrantes a entrar em contato  e provavelmente
se amalgamar  com os africanos. Os ltimos a chegar, conhecidos como
neoindonsios, foram os ancestrais dos Merina; foi a leva que melhor preservou
sua identidade biolgica original, possivelmente pela circunstncia de ter seguido
um itinerrio mais direto, mas  provvel que devido ao seu pequeno nmero
tenha adotado a lngua dos paleoindonsios chegados a Madagscar em pocas
anteriores.
    A dicotomia paleo/neoindonsios no  apenas cronolgica e biolgica, mas
se reflete tambm na organizao social. Ottino demonstrou que as sociedades
dos planaltos centrais organizaram-se inicialmente de modo muito semelhante
s da Indonsia. O foko, unidade social de Imerina  denominada deme por
Bloch ,  encontrado numa forma anloga em Timor, sob o nome de funkun.
As sociedades malgaxes do litoral, por sua vez, tm muitos pontos em comum
com as da frica bantu.
    Hbert observou uma bipartio leste-oeste em certo nmero de termos
malgaxes de origem indonsia e tece consideraes muito interessantes acerca
dos calendrios (1960). Os calendrios sakalava contm poucas palavras em
snscrito, que so muito mais frequentes nos calendrios dos descendentes dos
neoindonsios18.
    Os neoindonsios parecem possuir tradies, embora bastante vagas,
referentes s suas origens indonsias. Os Tantaran'ny Andriana, crnicas da
histria merina coletadas pelo padre Callet, aludem a um desembarque na costa
oriental, em algum lugar entre Maroantsetra e Mangoro. Ramilson, em sua
Histria dos Zafimamy, retoma essa tradio de desembarque, que situa em
Maroantsetra.
    O lugar de origem dos indonsios que emigraram para o oeste atravs do
oceano ndico, tanto nos primeiros tempos como posteriormente,  ainda
um mistrio. A meu ver, uma comparao glotocronolgica do malgaxe (ou
melhor, de seus vrios dialetos) com um grande nmero de lnguas indonsias
da Indochina insular e continental poderia revelar-se frutfera. A lngua que
possusse o maior nmero de termos em comum com o malgaxe conduziria ao
tronco comum sudeste-asitico a partir do qual as vrias lnguas divergiram.
O. Dahl mostrou o estreito parentesco entre o malgaxe e a lngua manjaam de


18   Este argumento parecer questionvel para aqueles que afirmam que a difuso dos calendrios no
     depende exclusivamente de migraes. Alm disso,  possvel que a modificao do calendrio dos
     Sakalava se deva  influncia de povos islamizados.
786                                                                   frica Antiga



Bornu; Dyen confirmou o fato com clculos glotocronolgicos, sublinhando
que o grau de reteno comum ao par malgaxe-manjaam  maior do que o
do par malgaxe-malaio, Isto no significa necessariamente que o malgaxe se
originou em Bornu, porquanto pode estar mais prximo de outras lnguas.
Ferrand, em suas Notas sobre a Fontica Malgaxe, observa haver forte parentesco
entre o malgaxe e o batak e estabelece comparaes com o kawl e o javans.
    Os protomalgaxes do Sudeste Asitico, que criaram no oceano ndico um
equivalente da epopeia polinsia, teriam tido, segundo Solheim19, um modo de
vida muito semelhante  dos Iban de Bornu, cujo ano se divide em um perodo
sedentrio, voltado a uma agricultura de desmatamentos e queimadas, e um
perodo de navegao  s vezes de pirataria. Hbert20 levanta a hiptese de que
esses intrpidos navegadores teriam sido os Bugi, cujo nome, deformado, seria
usado para designar Madagscar nos textos rabes at a presente data (Bunki
ou Bukini em swahili).
    Impressionou-me a similaridade entre as aldeias fortificadas neoindonsias,
cercadas por um fosso (A. Mille contou 16 mil stios em Imerina), e as
encontradas na Indochina e na Tailndia. Esses stios fortificados surgem na
Indonsia no princpio do Neoltico, mas alguns datam de meados do primeiro
milnio da Era Crist. Em todo caso,  razovel buscar as origens dos indonsios
de Madagscar no norte do Sudeste Asitico, uma vez que h quinze sculos as
civilizaes indonsias se estendiam at a pennsula da Indochina. As geraes
posteriores dessa protocultura hipottica bem podem ter chegado s ilhas 
Bornu e Madagscar.
    A impossibilidade de atribuir a este ou quele pas (ou pases) da Indonsia
a origem da protocultura malgaxe no significa que estejamos limitados  mera
especulao. A partir do sculo V  e sem dvida mais tarde  empreenderam
os indonsios inmeras viagens martimas, em particular para a ndia; entre os
sculos VII e XII, grandes potncias martimas se desenvolveram na Indonsia,
notadamente os imprios hinduizados de Crivijaya (sculos VII a XIII) em
Sumatra, Cailendra (sculo VIII), Mataran (sculos IX a XI) e Mojapahit
(sculo XIII) em Java, e Jambi (sculo XII) na Malsia.
    No atual estgio de nossos conhecimentos,  to difcil atribuir uma data
precisa s migraes indonsias quanto fixar sua origem geogrfica. Ferrand
e, posteriormente, Dahl observaram que apesar do grande nmero de palavras
snscritas encontradas no malgaxe, so elas muito raras nas lnguas com as quais

19    SOLHEIM, W. 1965, pp. 33-42.
20    HBERT, J. C. 1971, pp. 583-613.
Madagscar                                                                    787



esse idioma est intimamente relacionado (malaio, ou melhor, maajam). Disso
se pode deduzir que as migraes para Madagscar so posteriores ao incio do
processo de hinduizao21. Tal processo, bastante evidente a partir do sculo IV
da Era Crist, deve ter comeado muito cedo, porm sua influncia se mostrou
bastante desigual no interior da Indonsia e do Sudeste Asitico.
    As comparaes glotocronolgicas entre o malaio e o malgaxe, bem como
entre os vrios dialetos derivados do protomalgaxe, nos fornecem uma srie
de possibilidades cronolgicas que giram em torno do primeiro milnio da
nossa era22. O aspecto mais proveitoso do estudo das divergncias vocabulares
reside numa possvel classificao dos diferentes dialetos e no que dele se pode
inferir a respeito das migraes no interior de Madagscar. Deschamps assinalou
que as rotas martimas a leste da ndia foram estabelecidas h muito tempo,
enquanto as do oeste s vieram a ser conhecidas nos primeiros sculos da Era
Crist. No meu entender, esse fato tem muito mais peso do que as incertezas
da glotocronologia.
    A descoberta de artefatos de pedra poderia levar-nos a conhecer melhor a
fase primitiva da histria malgaxe, mas at o momento nada foi encontrado. A
meu ver, os primeiros malgaxes a habitar a ilha j estavam familiarizados com
o uso dos metais. Sabemos que na costa africana a Idade do Ferro sucedeu 
Idade da Pedra entre os sculos I e IV da Era Crist. Na Indonsia, a Idade
do Bronze ocorreu muito antes23, e  o que  mais importante  vrias e
diferentes civilizaes ali coexistiram; houve mesmo alguns grupos que, isolados,
continuaram a usar instrumentos de pedra at o sculo X.
    A existncia ou no de objetos de pedra em Madagscar  assunto controverso.
Dois artefatos semelhantes a enxs foram encontrados, um por Bloch, na regio
de Ambatomanoina24, outro por Marimari Kellum-Ottino, em Tambazo, a leste
de Malaimbandy. At o momento no  possvel uma concluso definitiva acerca
desses dois artefatos, provenientes de locais onde possivelmente se talhavam
pederneiras de fuzil; caso isso venha a ser confirmado, a chegada dos primeiros
indonsios ficaria situada em meados do primeiro milnio da Era Crist. A
este respeito,  de grande interesse a comunicao de Grandidier25 acerca da
descoberta de pedras talhadas semelhantes a pederneiras na jazida de subfsseis


21   DAHL, O. C. 1951, p. 367.
22   VRIN, P., KOTTAK, C. & GORLIN, P. 1970, pp. 26-83.
23   HEEKEREN, H. R. van.
24   BLOCH, M. & VRIN, P. 1966, pp. 240-l.
25   DYEN & GRANDIDIER, A.
788                                                                frica Antiga




figura 28.6 Canoa de pesca vezo de tipo indonsio, com balancim.
Figura 28.7 Fole de forja com duplo pisto do tipo encontrado na
Indonsia. (Ilustraes fornecidas pelo autor.)
Madagscar                                                                   789



de Laboara; visto ser a introduo das armas de fogo em Madagscar posterior
 extino dos subfsseis, podemos estar em presena de uma indstria ltica.
    A cermica malgaxe do centro e do leste assemelha-se em muitos aspectos
aos objetos encontrados no complexo de Bau-Kalanay; todavia, a cermica desse
perodo arcaico encontrada na frica ainda no  conhecida o suficiente para se
poder distinguir com preciso os traos africanos dos indonsios.
    Os monumentos de pedra malgaxes erigidos para o culto dos ancestrais
constituem forte reminiscncia da Indonsia. Ferrand (1905) serve-se de
slidas tcnicas etimolgicas para aproximar a palavra denotativa da divindade
(Zanahary) de suas homlogas no malaio e no chan.
    Com referncia aos meios de transporte,  frequente perguntar como podiam
os indonsios do primeiro milnio da Era Crist dispor de barcos capazes de
cobrir to longas distncias. Sabemos que naquele perodo os barcos "costurados"
 os mtepe  foram usados no oeste do oceano ndico. Esses mtepe figuram entre
os provveis ancestrais do dhow, porm seu casco  fixado por ligaduras, enquanto
o do dhow apresenta uma estrutura cavilhada. As velas dos dois barcos tambm
diferem entre si. No leste do oceano ndico, como demonstrou Deschamps,
havia embarcaes capazes de navegar em alto-mar. A mais antiga referncia a
essas embarcaes aparece numa escultura do templo de Borubudur ( Java, sculo
VIII), representando um barco com balancim, dois mastros e vela.
    Admitida a contribuio indonsia para a colonizao de Madagscar, resta
descobrir as rotas pelas quais ela se efetivou. Muitos autores sublinharam a
existncia de uma grande rota sul-equatorial que, teoricamente, poderia ter
ligado Java a Madagscar; a corrente Sul-Equatorial  muito forte entre a costa
meridional de Java e a regio vizinha do cabo Amber no perodo de agosto a
setembro. Sibre assinalou que as pedras-pomes provenientes da exploso do
Cracatoa foram levadas por essa corrente at as costas de Madagscar.
    Sem ser absolutamente inutilizvel, uma rota a unir a Insulndia a Madagscar
 difcil de conceber por razes que foram claramente explanadas por Donque:
um itinerrio direto Java-Madagscar no encontra, a priori, obstculos
intransponveis durante o inverno austral, quando os ciclones tropicais esto
ausentes dessa regio, mas existem fatores capazes de invalidar tal hiptese  a
rota direta representa uma distncia de cerca de 6000 km num "deserto" marinho
sem escalas. Assim,  prefervel admitir um itinerrio a passar pelo sul da ndia
e pelo Ceilo. Deschamps alude a incurses piratas nessas regies na primeira
metade do primeiro milnio da Era Crist.
    O trajeto ndia meridional  Madagscar no coloca maiores problemas.
A rota ao longo da costa sul da sia ocidental  conhecida desde a poca do
790                                                                    frica Antiga



Priplo, e o grande nmero de moedas chinesas encontrado mais tarde em Siraf
testemunha a importncia do comrcio entre o Extremo Oriente e o Oriente
Mdio por via martima. Do Oriente Mdio, os viajantes se dirigiam  costa
da frica  tal como na poca da prosperidade de Rapta  ; o acesso s ilhas
Comores teria constitudo um intermedirio para a descoberta de Madagscar.
Do Cabo Delgado pode-se ver, em dias claros, a silhueta de Kartala, na Grande
Comore; dessa ilha, pode-se divisar os contornos de Moheli at Mayote. 
fcil imaginar que uma embarcao com destino a uma das ilhas Comores se
tenha desgarrado e chegado a Nosy-Be ou ao cabo So Sebastio, como sucedia
amide com os barcos de Zanzibar no sculo XIX, desviados de sua rota pelo
mau tempo.
    Assim,  possvel que o povoamento das ilhas Comores seja antigo. As crnicas
dos escritores locais, como Said Ali, mencionam a presena de populaes pags
durante o perodo Beja, anterior  chegada dos muulmanos; infelizmente no
sabemos se tais populaes eram africanas ou indonsias. Segundo alguns autores,
como Repiquet e Robineau26, a populao dos Altos de Anjuan, os Wamatsa,
contam uma certa proporo de descendentes dos primeiros habitantes pr-
-islmicos. Essa hiptese ainda no foi devidamente examinada. Pode-se admitir
uma origem indonsia para os imigrantes protomalgaxes com base em dados
toponmicos (por exemplo, Antsahe pode ser aproximado do malgaxe Antsaha)
ou nos testemunhos da tecnologia tradicional. Em Uani sobrevive um tipo
de cermica tradicional que denota acentuada semelhana, quanto  forma e
 decorao dos potes, com os utenslios correspondentes malgaxes27. Hbert
indicou a presena, em Anjuan, de tabus referentes s enguias dos lagos de
montanha, muito semelhantes aos observados entre os malgaxes com relao
 mesma enguia, cujo nome, tanto em Madagscar como em Anjuan,  de
derivao indonsia. Barraux28 cita uma tradio, de origem possivelmente
malaio-polinsia, encontrada em Vueni. Naturalmente, a cultura das ilhas
Comores possui, como a da costa oriental africana, objetos vindos do Sudeste
Asitico, tais como a piroga com balancim e o ralador de coco.
    Talvez um dia o substrato indonsio de Anjuan venha a ser revelado pelas
escavaes em andamento no Velho Sima. Esse stio, onde subsiste uma mesquita
do sculo XV, foi outrora atravessado por uma estrada em cujo leito se descobriu
um estrato arqueolgico contendo cacos de cermica ocreada vermelha e

26    ROBINEAU, C. 1966, pp. 17-34.
27    VRIN, P. 1968, pp. 111-18.
28    BARRAUX, M. 1959, pp. 93-9.
Madagscar                                          791




figura 28.8   Cemitrio de Marovoay, perto de
Morondava.
Figura 28.9 Esttua de Antsary: arte antanosy das
proximidades de Fort-Dauphin. (Fotos fornecidas
pelo autor.)
792                                                                               frica Antiga



abundantes conchas marinhas provenientes de restos de cozinha. Uma datao
por carbono 14 feita num tridacnis dos estratos mais profundos indica a idade
de 1550 anos 70 para o stio (Laboratrio Gakushuin). Esse stio, de difcil
acesso, deve ainda ser escavado;  provvel que o seu estrato pr-islmico encerre
elementos que permitam solucionar o enigma dos protomalgaxes.
    Segundo Deschamps e, posteriormente, Kent (este de forma diferente, porm
igualmente hipottica), os indonsios instalados na costa africana teriam formado
o ncleo do povoamento de Madagscar. As influncias dos indonsios no litoral
africano tm sido superestimadas, porquanto o "complexo malaio" das plantas
importadas do Sudeste Asitico para a frica no est necessariamente ligado
aos indonsios; de acordo com o Priplo, a cana-de-acar e provavelmente o
coqueiro ali chegaram sem a interveno destes ltimos.
    A rea de difuso da piroga com balancim no oceano ndico  por certo um
ndice da extenso da influncia indonsia, como observou Hornell; Deschamps
 de parecer que ela indica a rota seguida pelos migrantes em sua viagem para
Madagscar. Ideia plausvel, mas sujeita a discusses, j que os fortes laos entre
as culturas Swahili e Malgaxe podem ter favorecido os emprstimos.
    Quando se avalia a extenso da influncia indonsia na costa oriental da frica,
verifica-se ser ela relativamente fraca. Uma colonizao indonsia na costa oriental
teria deixado vestgios; ora, at o momento nada se descobriu. Isso nos leva a
acreditar que o impacto asitico na costa  se  que ele existiu  foi relativamente
localizado e nunca chegou a constituir uma colnia de grande extenso. Neste
contexto, poderamos discutir as informaes fornecidas pelos primeiros gegrafos
rabes. O documento mais antigo e tambm mais estimulante sobre o assunto
 sem dvida o texto em que se narram as incurses do povo de Waqwaq nas
costas africanas durante a segunda metade do sculo X. J. e M. Fauble29 e R.
Mauny30 consideram esse texto, com justia, como de extrema importncia, mas
o interpretam de modo diferente. O texto provm do Livro das Maravilhas da
ndia, da autoria de Bozorg ibn Chamriyar, um persa de Ramhormoz31. Eis a
referncia em questo:
      "Contou-me Ibn Lakis que o povo de Waqwaq foi visto a realizar espantosas faanhas.
      Assim  que em 334 [945-946] eles ali abicaram em um milhar de embarcaes e
      os combateram com extremo vigor, sem no entanto conquist-los, pois Oambaloh


29    FAUBLE, J. & M. 1964.
30    MAUNY, R. 1965.
31    DEVIC, L. M. 1878; VAN DER LITH. 1883-6, citado por FERRAND, G. 1913-1914, pp. 586-7.
Madagscar                                                                                      793



      cercado por forte muralha,  volta da qual se estende o esturio cheio de gua do
     mar, de modo que Oambaloh surge no meio desse esturio como poderosa cidadela.
     Quando os ltimos povos de Waqwaq l se estabeleceram, foi-lhes perguntado por
     que tinham vindo exatamente para aquele lugar e no para outro. Responderam que
     ali poderiam encontrar os produtos de que necessitavam o seu pas e a China, tais
     como marfim, cascos de tartaruga, peles de leopardo e mbar; ademais, andavam
      procura dos Zeng, por sua fora fsica e facilidade em suportar a escravido.
     Afirmaram ter viajado durante um ano, tendo pilhado, antes de ali aportar, as ilhas
     situadas a seis dias de viagem de Oambaloh. Tomaram-se senhores de numerosas
     cidades e aldeias zeng em Sofala, alm de outras cidades para eles desconhecidas. Se
     esses povos falavam a verdade e se pudermos confiar em seu relato, ou seja, se eles de
     fato chegaram depois de um ano de viagem, isso confirmaria o que Ibn Lakis dizia
     das ilhas de Waqwaq: que elas estavam situadas diante da China"32.
    Oambaloh  provavelmente a ilha de Pemba, e da narrativa dessas incurses
podemos inferir a chegada de piratas procedentes do Sudeste Asitico, talvez via
Madagscar, a "seis dias de viagem". Verdade  que durante a primeira metade
do sculo X os indonsios j se encontram nessa rea do oceano ndico. No
momento, porm, no temos meios de confirmar se essas chegadas tiveram lugar
antes do incio do sculo X.
    Se examinarmos outros textos rabes encontrados e traduzidos por Ferrand,
toma-se bvio que a populao de Waqwaq era negroide; no obstante, talvez
j inclusse indonsios, constituindo o amlgama biolgico e lingustico do
complexo protomalgaxe. Seja como for, as viagens dos indonsios para a costa
africana parecem ter continuado durante o sculo X, como bem o atesta uma
passagem de Idrisi:
     "Os Zendj no dispem de navios com os quais possam empreender viagens, mas
     chegam a seu pas embarcaes vindas de Om, assim como outras, destinadas s
     ilhas Zabadj [Zabedj, isto , Sumatra], que pertencem s ndias. Esses estrangeiros
     vendem suas mercadorias e compram produtos da terra. Os habitantes das ilhas
     Zabadj chegam  terra dos Zendj em embarcaes grandes e pequenas e por
     intermdio destes comerciam sua mercadoria, visto que entendem as lnguas uns
     dos outros"33.




32   SAUVAGET, J., citado em FAUBLE, J. & M. 1964.
33   Idrisi, manuscrito 2222 da Bibliothque Nationale, fol. 16, vol. L, 9 -12; e tambm FERRAND, G.
     1913-14, p. 552.
794                                                                         frica Antiga



   Em outra passagem do mesmo manuscrito34 Idrisi afirma: "O povo de Komr
e os mercadores de Maharadja [Djaviga] chegam ali [em Zendj], recebem as
boas-vindas e comerciam com sua gente".
   Nas narrativas rabes, Waqwaq e Komr parecem s vezes se confundir, mas
as cartas nuticas de Ibn Majid e Suleyman el Mahri, datadas do sculo XV,
mostram de forma inequvoca que o termo Komr designa Madagscar e por
vezes o conjunto das ilhas Comoro e Madagscar. A confuso  interessante
porque foram provavelmente os Waqwaq que povoaram o territrio de Komr.

      O fim da migrao indonsia para o oeste
    possvel que o crescimento da influncia islmica no incio do segundo
milnio tenha tido por consequncia a cessao das viagens dos indonsios. Uma
passagem de Ibn el Mudjawir (sculo XIII) refere uma tradio rabe de grande
interesse para a compreenso do assunto. O trecho em questo foi traduzido por
Ferrand35, e Deschamps o considera, com razo, fundamental:
      "O stio de Aden foi habitado por pescadores aps a queda do Imprio dos Faras
      [provavelmente o Imprio Romano, cujo centro oriental ficava em Alexandria].
      Os povos de Al Komr invadiram den, tomaram posse da cidade, expulsaram os
      pescadores e construram edifcios de pedra nas montanhas. Chegaram todos durante
      uma nica mono. Agora esses povos morreram e suas migraes terminaram. De
      den a Mogadscio h uma mono, de Mogadscio a Quloa uma segunda mono
      e de Quloa a Al Komr uma terceira. O povo de Al Komr serviu-se dessas trs
      mones como se fossem uma s, e uma embarcao de Al Komr chegou por esse
      caminho a den no ano 626 da Hgira [+1228]; dirigia-se a Quloa e chegou a den
      por engano. Suas embarcaes tm balancins porque os mares so rasos e perigosos.
      Mas os Barabar os expulsaram de den. Atualmente, no h quem conhea as
      viagens martimas desses povos; ningum sabe dizer como viviam ou o que fizeram".
    As viagens dos indonsios pelas costas da frica cessaram muito cedo, mas
isso no significa a interrupo das relaes entre o extremo oriente e o oeste do
oceano ndico. Pelo contrrio, h indcios da expanso do comrcio no oceano
ndico, mas foram sem dvida os muulmanos, que se familiarizavam cada vez
mais com as rotas de comrcio, os responsveis por esse crescimento. As cartas
nuticas de Ibn Majid do as latitudes precisas das cidades da costa da frica


34    Idem, fol. 21, vol. L, 1-12.
35    FERRAND, G. 1913-14.
Madagscar                                      795




figura 28.10   Cermica chinesa de Vohemar.
Figura 28.11 Caldeiro de pedra, civilizao
de Vohemar. (Fotos da col. do Museu de Arte e
Arqueologia de Madagscar.)
796                                                                               frica Antiga



e dos territrios e entrepostos indonsios do outro lado do ndico. A travessia
desse oceano podia, na poca, ser feita em trinta ou quarenta dias.
    No  inconcebvel que, embora j afastados da costa da frica, os indonsios
continuassem a navegar em linha reta para Madagscar, talvez a partir das
regies meridionais da ndia. Os neo-indonsios tambm teriam seguido
essa rota, que j se mostrou praticvel: em 1930, alguns pescadores das ilhas
Laquedivas chegaram sos e salvos ao Cabo ocidental, vindos diretamente do
seu arquiplago de origem. Os neoindonsios aprenderam o dialeto malgaxe dos
habitantes do leste e entraram em contato com os muulmanos, que por essa
poca possuam entrepostos na costa oriental.
    Os pioneiros neoindonsios parecem ter estabelecido colnias na costa leste,
mas ainda se discute a regio onde se fixaram. Dahl descobriu que os nomes
dos pontos cardeais em malgaxe e nas lnguas indonsias esto fortemente
relacionados, mas s coincidem se a rosa-dos-ventos malgaxe for deslocada
de 90. Assim, se em maanjan barat significa oeste e timor leste, as palavras
malgaxes correspondentes, avaratra e atsimo, significam respectivamente norte
e sul. Essas diferenas se explicam se considerarmos que para os povos marinhos
os pontos cardeais so definidos em funo dos ventos: o vento do norte que traz
tempestades para a costa noroeste de Madagscar corresponde ao vento mido
do oeste da Indonsia, enquanto o vento seco do sul tem sido identificado com
os alsios do leste da Indonsia. A explicao de Dahl s  vlida para a costa
noroeste de Madagscar, onde, segundo ele, os imigrantes se estabeleceram
inicialmente. Mas, de acordo com Hbert, essa hiptese tentadora no resiste a
um exame crtico. Se atentarmos mais para as caractersticas gerais dos ventos
(de estao chuvosa ou seca, etc.) do que para a sua direo, entenderemos por
que os protomalgaxes, que na Indonsia denominavam barat laut o vento oeste
carregado de chuva, designaram o norte  de onde procedem as chuvas  por
avaratra em Madagscar, adotando uma medida comum entre leste e oeste. De
fato, as chuvas e tempestades da estao quente vm da direo nordeste na
costa oriental e da direo noroeste na costa ocidental; assim, nada nos autoriza
a afirmar que os malgaxes se tenham estabelecido a princpio na costa noroeste36.

      As imigraes africanas e swahili
  A discusso das vrias hipteses a respeito das origens indonsias dos
malgaxes no nos permitem esquecer que uma contribuio importante  ou


36    HBERT, J. C. 1968-a, pp. 809-20; 1968-b, pp. 159-205; 1971, pp. 583-613.
Madagscar                                                                     797



mesmo majoritria  para o povoamento de Madagscar proveio do continente
africano. Deschamps lanou duas hipteses para explicar essa simbiose afro-
-asitica: a de uma miscigenao tnica e cultural na prpria costa oriental da
frica e a de possveis razias indonsias, a partir de Madagscar, no litoral do
continente. Kent v, ainda, um momento de forte influncia indonsia na frica
e a subsequente colonizao de Madagscar. Entretanto, dado que no dispomos,
at o presente, de informaes arqueolgicas sobre os stios da costa meridional
da frica (Tanznia e Moambique) anteriores ao sculo VIII, recuso-me a ver
nessas teorias mais do que simples hipteses.  bem possvel que a simbiose
afro-indonsia se tenha iniciado nas ilhas Comores ou no norte de Madagscar.
    A ideia de que Madagscar foi inicialmente povoada por pigmeus desafia
todos os dados da geologia (a Grande Ilha encontra-se isolada desde o Tercirio)
e da navegao (os pigmeus no eram marinheiros nem participaram da ecloso
da civilizao martima dos swahili). Ademais, os membros de tribos como a
dos Mikea, que se acreditava fossem os ltimos remanescentes dos pigmeus, no
tm uma estatura particularmente pequena.
    Em minha opinio, os malgaxes de origem africana eram povos bantu. Sua
migrao para a ilha iniciou-se provavelmente no sculo IX, como ocorreu com os
indonsios, mas no parece ter-se prolongado at os tempos histricos mais recentes
(sculo XVI). Podemos supor que muitos dos africanos chegaram ao mesmo
tempo e da mesma maneira que os muulmanos ou os swahili no-islamizados.
    Embora o vocabulrio malgaxe apresente predominncia indonsia, no
se pode esquecer a contribuio das lnguas bantu; fenmeno anlogo ocorre
com o crioulo falado nas Antilhas, em que o lxico majoritariamente francs
(95%) tem alguns elementos africanos. A contribuio bantu para o malgaxe
se situa em dois nveis: primeiro, o do vocabulrio, depois, o da estrutura das
palavras. A presena de palavras bantu em todos os dialetos de Madagscar
mostra que a contribuio africana para o povoamento do territrio no foi
tardia, mas que, ao contrrio, deve-se confundir com as origens da civilizao
malgaxe, cuja lngua contm traos bastante pronunciados da influncia bantu.
To grande e de tal carter  essa influncia, que se torna impossvel explic-
-la a menos que se admita a presena de um substrato bantu. E mais: O. Dahl
demonstrou claramente que a alterao dos finais consonantais (indonsios)
para finais voclicos deve-se ao substrato bantu. Se tal  o caso, essa mudana
deve ter ocorrido logo aps a instalao dos indonsios entre os Bantu, durante
o perodo em que estes se estavam adaptando  nova lngua37.


37   DAHL, O. C. 1951, pp. 113-14.
798                                                                   frica Antiga



    H, por conseguinte, razes de sobra para se buscar na prpria Madagscar
 e no na Indonsia  a causa da transformao do malgaxe numa lngua
com finais voclicos. Se a lngua falada em Madagscar antes da chegada dos
indonsios era o bantu, torna-se fcil compreender essa transformao. Entre as
lnguas bantu, as que comportam consoantes finais no passam de umas poucas
excees; pessoalmente, no conheo nenhuma na frica oriental. Os indivduos
que falam lnguas sem consoantes finais sempre encontram dificuldades para
pronunciar as consoantes finais de outra lngua, sobretudo quanto no h uma
vogal de apoio. Aqueles que ensinaram francs em Madagscar descobriram isso
por experincia prpria!
    Assim, suponho que a alterao de finais consonantais para finais voclicos
foi motivada pelo substrato bantu. Neste caso, tal mudana deve ter ocorrido
logo depois que os indonsios se estabeleceram entre os Bantu, durante o
perodo em que estes se estavam adaptando  nova lngua. Foi esta, portanto,
uma das primeiras mudanas fonticas ocorridas aps a chegada dos imigrantes
a Madagscar. Pouco se sabe sobre o lugar ocupado pela ilha no quadro geral
da expanso bantu. Dentre esses povos, muitos foram navegadores  os Bajun
da Somlia, estudados por Grottanelli, os Mvit do Qunia e os antigos Makua
de Moambique, por exemplo  mas  difcil estabelecer uma ligao entre
eles e Madagscar, devido  falta de testemunhos arqueolgicos. Descobriu-se
recentemente que os fundamentos da lngua falada na ilha de Anjuan poderiam
estar relacionados ao Pokomo da costa do Qunia (na regio da foz do rio Tana).
Essa ilha comoriana teria sido um ponto de parada, a exemplo da ilha de Juan
de Nova, hoje frequentada por caadores de tartaruga e por embarcaes do
tipo dhow38. Os Bantu devem ter passado pelas ilhas Comores para chegar a
Madagscar; , pois, natural pensar que as lnguas bantu inicialmente faladas em
Madagscar estivessem estreitamente relacionadas com as das ilhas Comores.
As palavras antigas bantu e malgaxes vm em apoio dessa hiptese.
    Sabemos por Ibn Battuta que no princpio do sculo IV a civilizao swahili,
sem ser totalmente muulmana, estava em pleno desenvolvimento. A nosso ver, os
marinheiros da primitiva civilizao swahili, islamizada ou no, desempenharam
papel fundamental nas migraes africanas para Madagscar.
    No momento no nos  possvel desenredar as sucessivas contribuies
culturais, porm muitos autores tm sustentado a heterogeneidade do
povoamento do norte e do oeste de Madagscar. Mellis, em seu livro sobre o


38    GROTTANELLI. Instrues Nuticas. 1969, p. 159.
Madagscar                       799




figura 28.12 Arrozais em
terraos nas proximidades de
Ambositra, semelhantes aos
de Luzn, nas Filipinas.
Figura 28.13 Exerccio de
geomancia: extremo sul. (Fotos
fornecidas pelo autor.)
800                                                                        frica Antiga



noroeste, sublinha o contraste entre os povos da costa martima (antandrano) e
os do interior (olo boka antety), contraste que se reflete em certos ritos funerrios.
    Alguns malgaxes de fsico predominantemente africano reconhecem sua
origem ultramarina, deduzindo-a de seus prprios costumes;  o caso dos
Vezo-Antavelo, presentes em todo o litoral oeste e noroeste. Os Kajemby
ainda tm seus cemitrios nas dunas das praias e se reconhecem aparentados
com os Sandangoatsy. Estes ltimos vivem hoje no interior, perto do lago
Kinkony, mas nem sempre foi assim: as cartas e narrativas portuguesas do sculo
XVII fazem meno ao nome de Sarangao ou Sangao (uma corruptela de
Sandangoatsy) nas margens da baa de Marambitsy. Nos ltimos trs sculos e
meio, os Sandangoatsy voltaram as costas s suas origens marinhas, assim como,
provavelmente, os Vazimba do centro-oeste e dos planaltos.
    Os movimentos dos Bantu da costa durante o sculo IX informam-nos sobre
a contribuio africana para o povoamento de Madagscar, mas ainda resta
explicar por que a lngua indonsia se tornou lngua franca. Alguns Bantu devem
ter entrado em contato com os indonsios, e  possvel que entre os africanos que
falavam diferentes lnguas e dialetos o indonsio se tenha tornado uma lngua de
convenincia; no entanto, Madagscar deve ter permanecido por um bom tempo
um verdadeiro tabuleiro de xadrs lingustico e tnico, pelo menos no caso da
costa prxima de Baly e Maintirano (Bambala de Mariano), de Tsiribihina
(segundo Drury) e de certas tribos Vazimba do interior (segundo Ribkeli e
Hbert). Os Vazimba levavam uma vida bastante primitiva no plano econmico:
os que habitavam a costa eram pescadores, mas os do interior dependiam em
grande parte da explorao bruta dos recursos do meio natural. A caa e a coleta
de bagas e de mel bastavam s suas necessidades. Segundo Drury, os Vazimba
de Tsiribihina eram pescadores de rio; encontraram-se nas escavaes grandes
quantidades de conchas consumidas por essas populaes, que se dedicavam 
coleta em Ankazoabo e em Ankatso.
    A simbiose entre os indonsios e os africanos se processou desde o incio
do povoamento de Madagscar. Alguns Bantu marinheiros devem ter sido
islamizados antes do sculo X. Causa-me especial impresso o fato de os
malgaxes muulmanos e todas as populaes das costas oeste e nordeste
compartilharem o mesmo mito sobre sua origem, ou seja, o mito de Mojomby,
ou da "ilha desaparecida"; recontei esse mito sob forma literria39 tal qual me
foi apresentado pelos Antalaotse da baa de Boina. Segundo meus informantes,


39    VRIN, P. 1970-a, pp. 256-8.
Madagscar                          801




figura       2 8 . 1 4 T m u l o
antalaotse em Antsoheribory.
Figura 28.15 Cermicas de
Kingany e de Rasoky (sculo
XV ). Anzis de Takaly (sculo
XII). (Ilustraes fomecidas pelo
autor.)
802                                                                  frica Antiga



Selimany Sebany e Tonga, ancestrais dos Kajemby e dos Antalaotse, habitavam
outrora uma ilha situada entre a costa da frica e as ilhas Comores. Viviam
do comrcio e professavam a religio muulmana. Quando a impiedade e a
discrdia se instalaram na ilha, Al resolveu puni-los: a ilha foi submersa por
um mar furioso; s uns poucos homens justos escaparam ao castigo. Dizem uns
que eles foram milagrosamente poupados, outros pretendem que Deus enviou
uma baleia para transport-los. Kajemby e Antalaotse so os descendentes desse
contingente de homens justos.  de crer, portanto, que os muulmanos no
sobrepuseram sua cultura  de Madagscar; desempenharam, isto sim, um papel
catalisador nas migraes africanas para a ilha.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga           803



                                       CAPTULO 29


     As sociedades da frica subsaariana na
             Idade do Ferro Antiga
                                             M. Posnansky




   Nos captulos precedentes examinamos a arqueologia das diferentes regies
da frica subsaariana no decorrer do ltimo milnio antes da Era Crist e do
primeiro milnio da Era Crist. Neste captulo tentaremos pr em relevo algumas
das grandes tendncias da histria da frica durante esse perodo. Caracteriza-
-se ele por mudanas fundamentais em todos os domnios. A economia passa
do estgio de parasitismo para o de controle dos meios de produo alimentar 
vegetal e animal. Da mesma forma, a tecnologia rudimentar, fundada em grande
medida na utilizao da pedra e da madeira, cede lugar a uma forma muito mais
complexa, com base no emprego de diversos metais, paralelamente ao da pedra.
 durante esse perodo que se lanaram os alicerces das sociedades africanas
que hoje conhecemos. As fronteiras entre os diferentes grupos lingusticos
sero depois ligeiramente modificadas, enquanto a populao conhecer um
crescimento considervel e os agrupamentos sociais e polticos se tornaro mais
complexos, com o surgimento dos Estados. De modo geral, porm, a demografia
e a economia da frica subsaariana j se encontram fixadas, em suas grandes
linhas, desde o ltimo quartel do primeiro milnio da Era Crist.
   Uma das dificuldades com as quais se defronta qualquer tentativa de
reconstituir essa histria em seus grandes traos  a desigual densidade das
pesquisas arqueolgicas. Vastas regies permanecem arqueologicamente
inexploradas, particularmente em alguns dos pases mais extensos, como Angola,
804                                                                  frica Antiga



Moambique, Zaire, Repblica Centro-Africana, Camares, Benin, Costa do
Marfim, Mali, Alto Volta, Nger, Serra Leoa e Madagscar. Mesmo onde se
puderam empreender pesquisas mais srias, elas permanecem extremamente
localizadas, como no Senegal e no Chade. Convm notar que, se em certas reas
da frica do Norte existem servios relacionados a antiguidades desde o sculo
XIX (no Egito, desde 1858), em numerosos pases da regio subsaariana as
investigaes s comearam com a Independncia e a criao de universidades e
museus nacionais. Como quer que seja, o estabelecimento de uma cronologia por
radiocarbono modificou radicalmente nosso conhecimento da Idade do Ferro
Antiga no curso dos ltimos dez anos, permitindo algumas grandes generalizaes
sobre a dimenso temporal das diversas transformaes econmicas.


      A explorao dos minerais
    Quatro minerais de importncia no apenas local eram explorados durante
o perodo que nos interessa. So eles, por ordem de explorao, o cobre, o
sal, o ferro e o ouro. A utilizao da pedra prosseguiu naturalmente, mesmo
aps o emprego dos metais para a fabricao dos utenslios e das armas mais
importantes.

      O cobre
   A extrao do cobre teve incio na Mauritnia, provavelmente durante o
primeiro quartel do ltimo milnio antes da Era Crist. Pela forma dos objetos
de cobre descobertos nessa regio, parece que tal extrao foi estimulada por
contatos com o Marrocos. O aspecto dessas primeiras minas  muito mal
conhecido, mas  lcito pensar que eram relativamente pouco profundas1. As
minas da Mauritnia so as nicas que sabemos com certeza encontrarem-se
em atividade antes do ano 1000 da Era Crist. Existem outras jazidas de cobre
no Mali e no Nger, nas regies de Nioro e Takkeda, e com toda certeza eram
exploradas no comeo do segundo milnio; mas ignoramos desde quando e no
sabemos a poca em que foram descobertas.
   Segundo o testemunho de autores rabes e de textos clssicos2, o cobre
parece ter sido um elemento do comrcio transaariano desde o primeiro milnio.


1     LAMBERT, N. 1971, pp. 9-21.
2     POSNANSKY, M. 1971, pp. 110-25.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                 805



Encaminhado para o sul, talvez fosse trocado pelo ouro transportado para o
norte. Os lingotes descobertos em Macden Ijafen atestam a importncia desse
comrcio numa poca ligeiramente posterior (sculo XI ou XII). Os objetos
encontrados em Igbo Ukwu, no leste da Nigria, so importantssimos para a
avaliao da escala dessas trocas. Se eles realmente datam do sculo IX, como
afirmam o responsvel pelas escavaes, Thurstan Shaw3, e Wai-Andah, no
Captulo 24, o grande nmero de objetos j descobertos e o nmero ainda maior
dos que deveriam existir em stios anlogos demonstram que esse comrcio era
muito desenvolvido desde o sculo VIII ou IX. Vrios especialistas4, entretanto,
no aceitam uma data to antiga e atribuem tais objetos a uma poca avanada
do segundo milnio. Como a distribuio dos minerais de cobre na frica, por
razes geolgicas,  extremamente localizada, a abundncia dos achados de
Igbo s se pode explicar por trocas comerciais. Acredita Shaw que a tcnica da
fundio por cera perdida veio do norte, sendo provavelmente de origem rabe.
Com a possvel exceo de Igbo Ukwu, os objetos de cobre so de uma raridade
surpreendente na frica ocidental antes do ano +1000, salvo no Senegal e na
Mauritnia, que se encontram na proximidade tanto das minas de Akjoujit
quanto da rota comercial do Saara ocidental. O vale do Nger a montante de
Segu, onde existem tumuli monumentais como os de El Uladji e Killi,  uma
regio com objetos de cobre do fim do primeiro milnio. O metal empregado
na sua fabricao teria provindo de jazidas situadas no Sahel (Mali ou Nger)
ou sido obtido mediante trocas comerciais. Em sua maior parte, infelizmente,
esses objetos foram descobertos no comeo do sculo e no momento esto
perdidos. Restam-nos apenas as ilustraes dos relatrios de pesquisas, que s
fazem excitar a nossa curiosidade. A anlise espectrogrfica deveria ajudar a
determinar a provenincia desse metal, mas a dificuldade em relao aos objetos
de cobre reside no fato de eles serem quase sempre constitudos de uma mistura
de metal virgem e de metal reaproveitado. A deteco de certos oligoelementos
poderia, contudo, permitir determinar se os minerais de Nioro e Takkeda eram
explorados na poca da edificao dos tumuli.
    Outras jazidas eram exploradas nessa poca na regio de Shaba, no Zaire,
onde as escavaes de Sanga e Katoto proporcionaram objetos de cobre
em grande abundncia. No entanto, convm notar que, segundo a diviso
tripartite sugerida por Nenquin, que escavou vrios stios 5, a fase mais

3    SHAW, T. 1970, pp. 503-17.
4    LAWAL, B. 1973, pp. 1-8; POSNANSKY, M. 1973-b, pp. 309-11.
5    NENQUIN, J. 1957; 1963, p. 277.
806                                                                    frica Antiga



antiga, ou kisaliense,  representada por 27 tmulos dos quais apenas dois
continham lingotes de cobre. Isso parece indicar que durante o Kisaliense, que
se estende do sculo VII ao IX, o cobre, embora empregado para a fabricao
de ornamentos, no era abundante. A zona cuprfera do norte de Zmbia era
ligeiramente explorada por essa poca. A datao da explorao mineira de
Kansanshi6 indica o perodo de 400 a cerca de 90 da Era Crist. No entanto,
os objetos de cobre eram ento mais numerosos no sul do que no norte de
Zmbia. Os primeiros objetos de cobre encontrados no sul do pas, ainda pouco
numerosos, provinham provavelmente da regio de Sinoia, no Zimbbue, e
das jazidas situadas na Zmbia oriental. Ignoramos ainda tudo o que se refere
aos mtodos de explorao utilizados nessas duas regies. Em outras reas
africanas o cobre era muito raro e s iria aparecer nos stios da frica oriental
numa poca bem posterior.

      O sal
    O sal era um mineral bastante procurado, sobretudo no incio da agricultura.
Entre os caadores e coletores, as necessidades de sal eram provavelmente
supridas em sua maior parte pela carne de caa e pelos vegetais frescos. Esse
mineral s se tornaria complemento indispensvel nas regies demasiado
secas, onde  impossvel encontrar alimentos frescos e onde a transpirao
 geralmente excessiva. Nas sociedades de agricultores de regime alimentar
limitado porm, uma proviso de sal torna-se extremamente desejvel. No
temos a menor ideia quanto  data em que se exploraram pela primeira vez as
jazidas de sal saariano de Taghaza d'Awlil. Todavia, os textos rabes do ltimo
quartel do primeiro milnio da Era Crist atestam a existncia de um comrcio
saariano de sal no primeiro milnio.  provvel que a extrao do sal seja, em
parte, to antiga quanto a do cobre e o desenvolvimento das ocupaes de
Tichitt, na Mauritnia  regio onde um modo de vida sedentrio prprio a
essas duas reas pode ter imposto a necessidade de um abastecimento de sal. As
atividades mineiras do perodo medieval, que ser tratada nos prximos volumes,
 muito bem documentada. So precrias; contudo, as informaes relativas 
poca de que falamos agora. Sem dvida as operaes de extrao eram ento
muito simples. O sal devia apresentar-se em depsitos superficiais em diversas
regies do Saara, aps o processo de estiagem ocorrido depois de -2500. Talvez
o homem tenha observado os lagos, os pntanos e os poos secos que atraam


6     BISSON, M. S. 1975, pp. 276-92.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                  807



os animais selvagens. Os depsitos superficiais de sal, por outro lado, tm por
vezes uma cor bastante caracterstica.
    Vrios stios primitivos de explorao de sal foram demarcados na frica:
em Uvinza7, a leste de Kogoma, na Tanznia; em Kibiro8, s margens do lago
Mobutu Sese Seko, em Uganda; em Basanga, em Zmbia9, e talvez em Sanga10,
no Zaire, e no vale de Gwembe, em Zmbia. Em Uvinza, a extrao do sal
era provavelmente rudimentar, j que as descobertas relativas aos sculos V
e VI, feitas nas fontes salgadas, no estavam associadas aos reservatrios de
salmoura reforados por pedras que caracterizam a ocupao do segundo
milnio. O sal provinha igualmente de fontes salgadas em Kibiro, onde um
sistema aperfeioado de ebulio e filtragem dataria do primeiro milnio, pois a
ocupao do stio dificilmente se poderia explicar de outra forma. Em Basanga,
os baixios salgados foram ocupados a partir do sculo V, e, conquanto o fato
ainda no esteja definitivamente estabelecido,  possvel que o sal tenha sido
explorado muito cedo, talvez por evaporao. Parece que em outros lugares o
sal era obtido pelos diversos processos que se conservaram at o sculo XIX e
que consistiam em calcinar ou ferver ervas ou mesmo excrementos de cabra,
recolhidos em regies conhecidas pela salinidade de seus solos, depois em fazer
evaporar a salmoura assim obtida e eliminar por filtrao as impurezas mais
grossas.
    Os coadores empregados nessas operaes so muito comuns na Idade do
Ferro, mas esses vasos podiam tambm servir para outras preparaes alimentcias.
Por vezes torna-se difcil relacion-los com segurana  fabricao do sal.

     O ferro
    O minrio de ferro foi utilizado na Suazilndia11 como pigmento a partir
do Mesoltico. Ao que tudo indica, os pigmentos corporais, e depois os ocres
e os xidos de ferro destinados  decorao de superfcies rochosas, foram
ativamente procurados desde o Paleoltico. Um pedao de matria corante
composta de hematita foi mesmo levada para a bacia de Olduvai por homens
que empregavam utenslios do Paleoltico Inferior. No Neoltico, minas de


7    SUTTON, J. E. G. & ROBERTS, A. D. 1968, pp. 45-86.
8    HIERNAUX, J. & MAQUET, E., 1968, p. 49.
9    ROBERTS, A. D. 1974, p. 720.
10   FAGAN, B. M. 1969-a, p. 7.
11   DART, R. A. & BEAUMONT, P. B. 1969-a, pp. 127-8.
808                                                                      frica Antiga



mangans12, de especularita13 e de hematita eram regularmente exploradas em
Zmbia, na Suazilndia e no norte da regio do Cabo14. Escavaes efetuadas
em alguns stios de Doornfontein evidenciaram uma explorao mineira
sistemtica, com galerias e salas subterrneas, a qual teria permitido a extrao
de cerca de 45 mil toneladas de especularita a partir do sculo IX, provavelmente
por populaes de lngua Khoisan.  de crer que a existncia de minas desse
gnero e o conhecimento, que elas fazem supor, dos minerais metlicos e suas
propriedades contriburam para o rpido desenvolvimento de uma tecnologia
do ferro durante a primeira metade do primeiro milnio da Era Crist.
    As minas de ferro no se apresentam to claramente documentadas nas demais
regies da frica subsaariana, onde a crosta latertica das regies tropicais parece
ter sido a mais provvel fonte de minrio de ferro. O ferro dos pauis, era utilizado
no vale inferior do Casamance, no Senegal15, e em Machili, em Zmbia16. O
ferro assim obtido era triturado em minsculos fragmentos, posteriormente
triados a mo para serem fundidos. Ao norte da Gmbia, na regio dos meglitos
da Senegmbia (que no passam de blocos de laterita)  possvel que tenha
ocorrido verdadeira minerao e no mera coleta de laterita em superfcie. A
utilizao desses meglitos como estruturas rituais e o desenvolvimento de
uma tecnologia do ferro na regio durante o primeiro milnio indicaria que
s um passo resta a ser dado para se passar a uma minerao sistemtica da
laterita para fins metalrgicos.  possvel que o desenvolvimento da fundio da
laterita tenha propiciado a ideia de extra-la para emprego na construo. Um
processo anlogo teria ocorrido na Repblica Centro-Africana, onde tambm se
verifica a existncia de meglitos. Segundo Wai-Andah (Captulo 24), o fato de
a explorao da laterita ser mais fcil do que a extrao da hematita pode abonar
a teoria, at agora no confirmada, de uma origem indgena da tecnologia do
ferro na frica. A laterita, quando mida e recoberta por uma camada de solo,
 relativamente frivel e muito mais fcil de escavar do que uma rocha normal.
Infelizmente,  exceo das minas da frica austral, nenhuma zona a evidenciar
indcios indiscutveis de minerao do ferro foi ainda descoberta ou datada de
maneira precisa.  possvel que os machados de hematita uelienses do nordeste



12    DART, R. A. & BEAUMONT, P. 1969-b, pp. 91-6.
13    BOSHIER, A. & BEAUMONT, P. 1972, pp. 2-12.
14    BEAUMONT, P. B. & BOSHIER, A. K. 1974, pp. 41-59.
15    LINARES DE SAPIR, O. 1971, p. 43.
16    CLARK, J. D. & FAGAN, B. 1965, pp. 354-71.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                    809



do Zaire e de Uganda datem da Idade do Ferro e constituam imitaes de
machados de ferro forjado.

     O ouro
    Durante a poca aqui considerada,  quase certo ter sido o ouro extrado
do solo ou recolhido por garimpagem na frica ocidental. As fontes rabes
nos autorizam a acreditar na existncia de minas de ouro, mas nenhuma delas
foi localizada, escavada ou datada; tampouco dispomos de testemunhos acerca
dos processos de refinao empregados. Estes, porm, deviam assemelhar-se
aos empregados em perodos posteriores, bem documentados17. As principais
regies para as quais existem testemunhos  em parte no-contemporneos
 de uma explorao do ouro situavam-se junto s nascentes do Nger e do
Senegal (Guin e Mali atuais) e so conhecidas sob o nome de Bambuk e
Bure. A extrao do ouro no nordeste do Zimbbue, em minas a cu aberto, em
galerias pouco profundas ou em degraus (o assunto  abordado por Phillipson
no Captulo 27)  relativamente mais bem documentada, mas no h nenhuma
prova indiscutvel que permita afirmar seja essa explorao anterior ao sculo
VIII ou IX. Ao que parece, os minrios extrados eram triturados por meio de
piles de pedra.
     possvel que a experincia advinda do uso de diferentes minrios no
decorrer da Idade da Pedra tenha servido de base para a extrao posterior,
numa escala mais ampla, do cobre e do ouro. Os numerosos objetos de cobre
descobertos nos stios escavados nos permitem determinar a poca a partir da
qual o cobre foi utilizado para a fabricao de utenslios e ornamentos. O ouro,
por sua vez,  raro nos stios do primeiro milnio:  poca, o metal era por demais
precioso para ser pura e simplesmente perdido. Os nicos objetos de ouro de
pocas remotas so os dos tumuli do Senegal e datam do fim do perodo que
nos interessa.

     A pedra
   Ao que tudo indica, a pedra era extrada para variados fins, o mais importante
dos quais era a fabricao de utenslios de pedra polida e ms. Inmeras sociedades
se serviam de ms fixas: levavam seus gros a um afloramento rochoso, onde
podiam a um tempo fazer secar suas provises e moer gros ou triturar alimentos


17   LEVTSION, N. 1973, p. 283.
810                                                                    frica Antiga



vegetais. Esses afloramentos, contudo, no se encontram em toda parte, e 
evidente que as rochas utilizadas na confeco de ms fixas ou mveis deviam
ser procuradas e por vezes conduzidas por longas distncias. Infelizmente, esse
aspecto da arqueologia foi, at agora, pouco estudado na frica. Nos anos
vindouros, quando os arquelogos e os gelogos forem mais numerosos e
quando a geologia do continente tiver sido convenientemente mapeada, a anlise
petrogrfica de todos os tipos de rochas estranhas e a investigao de sua regio
geolgica de origem ho de ser feitas de maneira corrente. Diversas oficinas de
fabricao de machados foram descobertas  como a de Buroburo18 (Gana) 
assim como uma oficina de fabricao de ms do sculo I antes da Era Crist,
em Kintampo19 (Gana). Neste ltimo stio, um grande nmero de utenslios
de moagem, parcialmente concludos, foram descobertos ao lado de ms num
abrigo sob rocha criado em grande parte pelo homem (mediante o expediente
de desalojar as rochas pela utilizao do fogo). Os curiosos raladores de seo
oval (tambm denominados "charutos"), to caractersticos da arqueologia de
Gana, parecem, em parte, ter sido modelados num nico tipo de rocha, que era
objeto de trocas comerciais em um vasto territrio20. No conjunto da frica
subsaariana, ranhuras com 10 a 12 cm de largura e comprimento de at 50 cm
assinalam os locais onde pedras desbastadas e adequadamente talhadas eram
polidas e transformadas em machados, enxs e buris.  provvel que o processo
de extrao  mesmo em pequena escala , amoladura, polimento e troca
dos esboos ou produtos acabados tenha prosseguido no decurso do perodo
em questo, decrescendo  medida que o ferro ia substituindo a pedra. Em
certas regies, porm, os utenslios de pedra polida ainda estavam em uso no
segundo milnio. Surpreendentemente, poucos utenslios de pedra polida foram
descobertos na frica oriental e austral, enquanto na frica ocidental eles so
bastante comuns.
    A lava vacuolar cinza, que, como a laterita,  mais fcil de moldar em sua
primeira exposio ao ar, era extrada no Qunia e talvez na Tanznia, no
primeiro milnio da nossa era, servindo para fabricar tigelas de pedra. O uso
destas  desconhecido; frequentemente esto associadas a sepulturas. O material
de que so feitas  demasiado tenro para permitir triturar outra coisa alm de
alimentos vegetais. Tigelas similares foram descobertas na Nambia, sendo raras
em outros lugares.

18    NUNOO, R. 1969, pp. 321-33.
19    RAHTZ, P. A. & FLIGHT, C. 1974, pp. 1-31.
20    POSNANSKY, M. 1969-70, p. 20.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                     811



    H ainda outra atividade, relativamente pouco estudada, sobre cuja existncia
no paira a menor dvida: a busca de pedras semipreciosas para a confeco de
contas. As pedras mais comumente utilizadas eram as cornalinas e diversos tipos
de calcednia, como a gata e o jaspe, assim como os quartzos cristalinos (ou
cristais de rocha). Essas contas so encontradas em toda a frica subsaariana,
no raro em tmulos, como os das grutas do rio Njoro, no Qunia, que datam
do sculo X antes da nossa era, e em stios de habitao. Em Lantana, no
Nger21, uma mina de onde se extrai o jaspe vermelho, ainda hoje exportado
para a Nigria como matria-prima para a fabricao de contas,  considerada
muito antiga; no entanto,  impossvel determinar sua idade. As contas de
pedra raramente so abundantes, mas testemunham uma procura sistemtica
de certos tipos de rochas bem conhecidos. Sua produo teve incio na Idade da
Pedra e prosseguiu durante a Idade do Ferro, para depois ser progressivamente
substituda pela fabricao de contas de vidro, menos custosas, mais fceis de
confeccionar e eventualmente mais acessveis.

     O comrcio22
    Algumas formas de troca entre grupos humanos existiam provavelmente
desde pocas relativamente remotas da Idade da Pedra. A troca de pedras
brilhantes ou teis e de mel por carne e s vezes mesmo por mulheres marcava
provavelmente os encontros entre os povos coletores, a julgar pelo estudo dos
caadores e coletores modernos. Tais trocas, de importncia a um tempo ritual
e econmica, s se teriam tornado regulares com o desenvolvimento de um
modo de vida agrcola, mas  provvel que j na Idade da Pedra Recente os
indivduos especializados na pesca, na coleta dos produtos marinhos ou na caa
levassem uma existncia relativamente sedentria, tendo, portanto, necessidade
de pedras e outros materiais no encontrados localmente. E possvel que certos
utenslios de osso, como os arpes  cuja fabricao requeria uma habilidade
superior  mdia , tenham sido objeto de comrcio. Todavia,  razovel concluir
que o aparecimento de uma agricultura, que implicava uma vida sedentria
ou deslocamentos sazonais ou peridicos, propiciou o desenvolvimento do
comrcio. Esse comrcio, de carter relativamente restrito e local, abrangeria
artigos como o sal, certos tipos de pedra e, mais tarde, utenslios de ferro, contas,
conchas, talvez plantas de uso medicinal ou ritual, carne para as comunidades


21   BEAUCHNE, G. de. 1970, p. 63.
22   Ver Captulo 21 e POSNANSKY, M. 1971.
812                                                                    frica Antiga



agrcolas, gros e tubrculos para os grupos pastoris, utenslios especializados
ou substncias como venenos para a caa e a pesca, peixes secos e toda sorte
de objetos que encerrassem valor de raridade  gros pouco comuns, garras
e dentes de animais, pedras curiosas, ossos, etc. , os quais deviam ter um
significado mgico e ainda hoje so vistos em certas bancas dos mercados da
frica ocidental. Com exceo dos utenslios de pedra polida, das ms e do sal
mencionados acima, nada sabemos acerca desse comrcio.
   O comrcio assumiu novo carter com o surgimento dos metais. O
cobre e o ouro, mais localizados do que as pedras, foram procurados tanto
por comunidades do norte do Saara como por grupos instalados a leste, ao
longo da costa ndica. Os cauris e outras conchas do oceano ndico  cuja
presena  atestada, do sculo IV ao sculo VI, em stios como Kalundu e
Gundu (Zmbia), em Gokomere (Zimbbue) e em Sanga, no corao do
continente  testemunham um comrcio que ultrapassava o mbito local. Esses
objetos, descobertos isoladamente, talvez no passassem de meras curiosidades
transmitidas de grupo a grupo, da costa para o interior; contudo,  significativo
que eles tenham sido observados em regies cujos recursos revestiam algum
interesse para o mundo exterior. A presena de lingotes de cobre nos stios
da frica central e meridional indica uma crescente complexidade nas trocas
comerciais, e a abundncia de objetos descobertos nos tumuli do Senegal e em
Sanga reala a prosperidade desse comrcio, assim como o desenvolvimento
de estruturas sociais e polticas que tiravam partido da riqueza assim criada.
Nada nos autoriza a supor que esse comrcio tenha atingido um volume muito
grande  poca considerada, mesmo atravs do Saara; contudo, sabemos que as
redes de intercmbio estavam doravante estabelecidas. Dispomos igualmente
de parcas indicaes sobre a presena de mercados ou centros de distribuio
na frica subsaariana, embora referncias rabes  antiga capital de Gana
sugiram terem eles existido provavelmente antes da intensificao do comrcio
provocada pela conquista da frica setentrional pelos rabes. As cortes dos
chefes desempenhavam certamente o papel de centros de redistribuio, como
parecem indicar os variados objetos descobertos em tumuli do Mali e do
Senegal. Infelizmente, devemos limitar-nos, para esse perodo, a conjeturas
fundadas em informaes bastante fragmentrias. Contas de vidro, datadas
da ltima metade do primeiro milnio e provavelmente importadas, foram
descobertas em diferentes stios de Zmbia, no Shaba (Zaire) e no Zimbbue.
Uma recente tentativa23 no sentido de determinar tanto a data como a origem


23    DAVIDSON, C. C. & CLARK, J. D. 1974, pp. 75-86.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                813



dessas contas da "rota dos alsios" do oceano ndico revelou-se decepcionante.
Essas contas, encontradas por toda a volta do oceano ndico  das Filipinas 
costa da frica oriental , poderiam proceder, conforme se sugeriu, tanto do
Levante (Hebron constitua um centro antigo de fabricao de contas) quanto
de Alexandria ou das ndias. Habitualmente pequenas, tubulares e recozidas,
essas contas apresentam uma variedade de cores simples.
    Sabe-se que algumas manufaturas das ndias exportaram tais contas a partir
do sculo IX, mas  difcil associ-las a centros de produo determinados
sem uma anlise mais profunda. Mais de 150 mil contas semelhantes foram
encontradas em Igbo Ukwu; atribuindo-se a esse stio uma data antiga, pode-se
admitir a existncia de um importante comrcio transaariano de contas por volta
do fim do primeiro milnio da Era Crist.
    A teoria de Summers24, segundo a qual o comrcio do oceano ndico
teria levado a indstria do ouro do Zimbbue a adotar os mtodos indianos
de prospeco e de extrao, no tem encontrado ressonncia. O ouro j era
provavelmente explorado quando o comrcio da costa oriental da frica atingiu
a regio do Zimbbue. Os mtodos primitivos de extrao do ouro e o comrcio
desse metal durante o primeiro milnio so muito pouco conhecidos para que
se possa lig-los a uma influncia externa. O comrcio da costa da frica
oriental, estudado no Captulo 22, mostra a extenso dos contatos da frica
com as regies litorneas do oceano ndico. Esse extenso comrcio, contudo,
no era intensivo, e pouco afetou o interior do continente antes do ano 1000 
excetuando-se os vales dos rios Mazoe e Ravi (Moambique), que do acesso
ao Zimbbue.


     Os grandes temas da Histria da frica Subsaariana
    Neste ponto, convm examinar se  possvel chegar a concluses sobre
o estado da sociedade africana ao fim da Idade do Ferro Antiga com base
na massa de informaes descritivas apresentadas ao longo dos ltimos oito
captulos. No curso desse perodo, as sociedades da frica subsaariana passaram
do estgio da caa e da coleta para uma economia estribada principalmente na
agricultura.  certo que a populao aumentava: disso resultou uma vida mais
estvel, aldeias e unidades sociais de maiores propores.  difcil definir as
estruturas sociais que se esboam; no entanto, em quase toda a frica trata-

24   SUMMERS, R. 1958, pp. 256-7.
814                                                                    frica Antiga



-se, ao que parece, de aldeias relativamente modestas, compreendendo uma
ou vrias linhagens, cada qual com ramificaes mais extensas, fundadas em
relaes entre cls. Na maioria dos setores, a densidade da populao  fraca:
no passa de uns poucos habitantes por quilmetro quadrado. Sucedendo aos
rpidos movimentos iniciais consequentes ao advento do ferro e empreendendo
o desmatamento das regies africanas mais arborizadas, novas comunidades se
estabeleceram. O isolamento dessas populaes fica evidenciado pela divergncia
observada entre membros de uma mesma famlia lingustica e pela crescente
diversificao da forma e decorao das cermicas que se manifesta na maior
parte das regies desde meados do ano 600 at o ano 1000 da Era Crist.
Estimativas demogrficas, baseadas tanto nas evidncias histricas fornecidas
pela frica setentrional como numa extrapolao a partir de dados etnogrficos
e estatsticos de recenseamentos coloniais indicam que antes do ano 1000 a
populao da frica subsaariana era sensivelmente inferior a 10 milhes de
habitantes. A nos fiarmos nas indicaes orais relativas  passagem  sobretudo
na frica oriental  de sociedades matrilineares para sociedades patrilineares,
no curso dos ltimos cinco sculos, encontramo-nos com certeza diante de
sociedades matrilineares na maior parte da frica tropical.
    De acordo com a distribuio dos vestgios arqueolgicos, a floresta ocidental
africana parece ter sido ocupada apenas de maneira esparsa, ainda que certas
partes da Nigria meridional se afigurem uma exceo. Regies que, como o
planalto de Jos, so hoje menos procuradas em consequncia do desbastamento
do seu solo e da pouca abundncia das precipitaes, parecem, nessa poca, ter
oferecido maiores atrativos a populaes que dispunham de uma tecnologia
pouco sofisticada. O povoamento de maior densidade localizava-se na savana
arborizada e nas chamadas zonas de floresta seca. O grande nmero de stios
descobertos nos meandros do delta do Nger, no Mali, entre Segu e Tombuctu
 onde mais de 10.000.000 km2 so inundados anualmente, inundaes essas
que proporcionam gua (e uma maior fertilidade) a um meio de outra forma
marginal , indica que esse territrio era igualmente propcio aos agricultores e
aos pastores de outrora.  uma regio onde a pesca no cessou de ser frutuosa
e onde o comrcio se desenvolveu com grande rapidez. Esta ltima atividade
foi facilitada pelas comodidades oferecidas pelo movimento do rio e pela
necessidade de transportar artigos como lenha, madeira para construo ou
capim para regies que dispunham de poucos recursos vegetais. Parece pouco
provvel que as "matas" mais secas da Tanznia central, do norte de Uganda
ou do Qunia tenham sido ocupadas por agricultores; por certo o mesmo se
pode dizer em relao aos setores mais ridos e aos setores de maior altitude
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                    815



(como o Lesoto) da frica meridional. Vales fluviais como os do Zambeze,
do Kafue e do Alto Nilo, assim como alguns pontos do litoral dos lagos
Niassa, Vitria, Kivu e mesmo de outros menores parecem ter atrado o
estabelecimento de colonos. Todavia, as situaes de transio, apresentando
a possibilidade de explorar os recursos alimentares de dois ou mais setores
ecolgicos (florestas e savana, plancie e piemonte), foram particularmente
favorecidas.  inegvel a presena de tais vantagens no limite meridional da
savana do oeste africano ou nos confins da floresta do Zaire; a partir dessas
zonas, era mais fcil penetrar nas orlas da floresta, onde se encontravam terras
cultivveis de cujos recursos naturais se podia tirar partido: caa, riqueza vegetal
sob todas as formas, incluindo cascas de rvores (destinadas ao vesturio) e
frutos silvestres. A floresta representava uma verdadeira fronteira mvel, e
os novos grupos a penetraram lentamente, primeiro para a caa e a coleta,
depois para se estabelecerem. De modo geral, trata-se de estabelecimentos
agrcolas, sobretudo nas zonas em que as precipitaes oscilam entre 600
e 1400 mm por ano. As atividades pastoris e as culturas sazonais de curta
durao eram naturalmente possveis numa regio como o Sahel, onde a mdia
pluviomtrica no ultrapassa os 150 mm. Embora desde o incio do milnio
se encontrem carneiros no sul, em regies to longnquas quanto o Cabo, e a
despeito da presena de pastores tanto no Cabo como em alguns setores do
Sahel e do Sudo, as sociedades exclusivamente pastoris no predominaram
no decorrer dessa poca. Quando ocorrem, os Kraals so de pequeno porte.
Os agricultores do norte estavam, ao que parece, mais aptos a se acomodar
aos regimes de baixa pluviometria que os agricultores do mundo bantu, talvez
em decorrncia de sua ascendncia neoltica e das primeiras culturas que
praticaram, como a dos milhetes e a do sorgo. Parece que em nenhuma parte
contavam as costas muitos estabelecimentos, e no se encontram tradies
de pesca ligadas  utilizao de barcos. Depsitos de conchas, espinhas de
peixe e, em certas localidades, ossos de animais so encontrados ao longo do
Casamance e em outros esturios ou enseadas das regies senegambianas, ao
longo das lagunas marinhas da costa da Guin at a Costa do Marfim, nos
arredores do Cabo e na margem oriental do lago Vitria (o antigo Wilton C.
de L. S. B. Leakey). Todavia, esses habitantes do litoral marinho nunca foram
muito numerosos e pouca influncia exerceram sobre as populaes do interior.
Segundo a documentao referida no Captulo 22,  verossmil a presena de
alguns estabelecimentos disseminados pela costa da frica oriental, mas no
existe virtualmente nenhum vestgio arqueolgico de povoamentos antes do
816                                                                   frica Antiga



sculo VIII da Era Crist, poca provvel da chegada dos colonos mais estveis
provenientes do golfo Prsico e/ou da costa Benadir da Somlia.
   Curiosamente,  mais difcil obter dados precisos sobre as crenas religiosas
dos povos dessa poca do que sobre as dos caadores-coletores do fim da Idade
da Pedra; a arte rupestre destes ltimos permite numerosas associaes25. 
possvel que os primeiros agricultores tenham pintado as rochas e que sejam os
autores dos rupestres esquemticos presentes em boa parte da frica oriental
e central, em particular nas regies vizinhas ao lago Vitria26 e na Zmbia27.
Conquanto se tenha uma ideia da poca em que essa tradio artstica foi
abandonada, no se sabe quando apareceu. Com frequncia o sepultamento
dos mortos , por si s, indcio de crenas religiosas; em muitos casos os
objetos colocados no tmulo manifestam a ideia da necessidade que deles
poderia vir a ter o defunto em sua vida no alm. No  esta, evidentemente,
a nica explicao possvel. As dimenses da sepultura, o esplendor dos
objetos a encontrados, a magnificncia da cerimnia, tudo isso pode indicar,
igualmente, o estatuto  quer poltico, quer ritual, econmico ou social  da
famlia do defunto. A escala das atividades funerrias pode tambm ajudar a
estabelecer a genealogia dos principais enlutados. Convm lembrar, no entanto
 e o sculo XX fornece excelentes pontos de comparao  que as sociedades
agnsticas tambm costumam erigir mausolus suntuosos. A existncia
de impressionantes outeiros de inumao ou de admirveis monumentos
funerrios no implica necessariamente a crena num deus ou num grupo de
deuses; em contrapartida, indica indiscutivelmente uma confiana de certa
forma "social" no futuro, e representa uma manifestao poltica de um grupo
predominante ou de uma elite. Todavia, os cemitrios prximos do lago Kisale,
na regio de Shaba (Zaire), os enormes tumuli ao longo do Mdio Nger, os
meglitos e os outeiros funerrios da Senegmbia atestam a existncia de
populaes que no se contentam apenas em ocupar os lugares, mas aceitam
consagrar parte de suas riquezas e do seu trabalho a monumentos e/ou
objetos e vveres funerrios. Antes de dar uma interpretao mais completa a
essas manifestaes, convm aguardar os resultados de novas escavaes e a
publicao dos respectivos relatrios. As regras observadas nos funerais, no que
respeita  orientao dos corpos ou ao alinhamento das sepulturas, indicam um
elenco de crenas dogmticas. A imponncia dos tumuli do Mali testemunha,

25    POSNANSKY, M. 1972-a, pp. 29-44.
26    CHAPLIN, J. H. 1974, pp. 1-50.
27    PHILLIPSON, D. W. 1972-a.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                  817



provavelmente, a instituio de uma realeza que, sem ser necessariamente
divina, era por certo dotada de muitos dos atributos inerentes ao soberano
supremo. Numa zona de populao reduzida, deviam esses monarcas estar em
condies de obter  de bom grado ou pela fora (no temos meios de sab-
-lo)  os laboriosos esforos de grandes massas de trabalhadores para erigir
seus tumuli de 12 m de altura por 65 m de dimetro, como o de el-Ouladzi28.
    Alguns Estados teriam surgido, sob uma ou outra forma, no curso do perodo
aqui considerado. As duas principais regies em que isso teria ocorrido so o
Sudo e a frica central, em torno das cabeceiras do Lualaba. Na regio do
Sudo existiriam trs "ncleos": os arredores de Gana, a Mauritnia meridional
e o Senegal; o delta interior do Nger, a montante de Segu; os arredores do lago
Chade. Nessas trs zonas, o comrcio com regies distantes comeava a ganhar
impulso, e a agricultura conhecia um desenvolvimento mais acentuado do que em
reas mais meridionais. Vrias hipteses foram formuladas acerca da emergncia
de Estados. Uma ideia bem aceita, inicialmente baseada em sugestes feitas por
Frazer29, h mais de oitenta anos, em seu Golden Bough, tende a atribuir a realeza
de direito divino  considerada por muitos como uma das caractersticas das
sociedades africanas centralizadas  ao antigo Egito, de onde se teria difundido
por intermdio do ofcio de "Fazedor de Chuvas". Os primeiros chefes eram,
assim, guias espirituais carismticos, que obtinham inspirao nas sociedades
vizinhas, onde operavam sistemas anlogos e, em ltima anlise, em uma fonte
comum: o Egito. Essa teoria foi posteriormente aperfeioada por Baumann30,
que descreveu as caractersticas do Estado sudans, e, mais recentemente, por
Oliver31. O conceito do Estado sudans assim elaborado  confirmado por
descries rabes medievais de Gana e de outros Estados da frica ocidental,
assim como por narrativas portuguesas do sculo XVI relativas aos Estados
da frica central. Todos esses relatos so unnimes em realar o mistrio
que rodeava a pessoa do rei, a extrema deferncia de seus sditos e a prtica
do regicdio em caso de enfraquecimento ou perda da sade. Para Oliver, a
utilizao  cada vez mais difundida  de guerreiros a cavalo com armas de ferro
 um fator capital na difuso da ideia de Estado, na criao da elite governante,
no controle e na expanso das fronteiras. H, entretanto, outras concepes;
a maioria dos estudiosos africanos v nas ideias "difusionistas" uma tentativa

28   MAUNY, R. 1961.
29   FRAZER, J. G. 1941.
30   BAUMANN, H. & WESTERMANN, D. 1962.
31   OLIVER, R. & FAGAN, B. M. 1975.
818                                                                    frica Antiga



de atribuir ao estrangeiro os elementos culturais mais avanados, sem fazer o
inventrio das possibilidades de um desenvolvimento autnomo da autoridade
estatal. Os crticos do ponto de vista difusionista, entre os quais se encontra o
autor32, ponderam que, embora existam semelhanas entre o cerimonial e o ritual
de numerosos Estados africanos, diferenas substanciais tambm no deixam
de ser observadas.
    Muitas dessas semelhanas podem ser devidas a acrscimos tardios, ocorridos
principalmente quando da expanso do comrcio que se seguiu  islamizao
da frica. Outras razes formuladas para a formao do Estado referem-se
aos efeitos do comrcio de longa distncia e  escassa explorao mineral 
que foram, com toda probabilidade, fatores do crescimento de Gana , assim
como aos resultados da competio em torno dos magros recursos das reas de
fertilidade incerta. Esse ponto de vista foi sustentado por Carneiro33 a respeito
da expanso do antigo Egito, mas pode aplicar-se igualmente a um contexto
saheliano. Segundo essa teoria, um grupo poderia desenvolver-se  quase sempre
graas a uma tecnologia militar superior  s expensas de vizinhos mais fracos,
que se tomariam, ento, dependentes do grupo conquistador. Com o tempo,
outras regies poderiam ser absorvidas, e o grupo conquistador acabaria por se
encontrar  testa de uma vasta regio, na qual ele era anteriormente minoritrio.
Caber-lhe-ia ento reforar a sua autoridade, no apenas ao preo de proezas
militares, seno tambm pela criao de uma estrutura social encabeada pela
elite militar. As tradies orais e os rituais do grupo que detm o poder dariam
origem  religio do Estado, concorrendo, assim, para assegurar e racionalizar
a mstica de sua autoridade. O chefe da elite tornar-se-ia, se j no o fosse de
fato, o descendente nico ou a reencarnao do conquistador original, com a
assimilao de caractersticas divinas. Num modelo desse gnero a divindade
do monarca no  original, mas adquirida, por vezes de maneira gradual, quase
sempre deliberadamente, mas por vezes, tambm, acidentalmente, como um
mecanismo de defesa, destinado a preservar a integridade inerente ao chefe.
    A ideia segundo a qual o desenvolvimento do comrcio teria conduzido
 formao de Estados foi amplamente discutida. Em essncia, essa teoria
afirma que a atividade comercial d origem a um crescimento da riqueza, e
esse crescimento se manifesta eventualmente por uma estratificao social. A
riqueza permite patrocinar outras atividades, como a explorao de minrios,
a manufatura de bens de consumo e a produo alimentar, e faculta control-

32    POSNANSKY, M. 1966-b, pp. 1-12.
33    CARNEIRO, R. L. 1970, pp. 733-8.
As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga                 819



-las. Todas essas atividades geram uma riqueza maior e levam  crescente
centralizao do poder.  certo que a arqueologia est  altura de detectar
muitos desses elementos, como a aquisio da riqueza e a estratificao social,
presentes na regio de Sanga, em Shaba. Todavia, Bisson34 observou que os
vestgios dos sculos VIII e IX da Era Crist descobertos em Sanga antecedem
o estabelecimento, na regio, de um comrcio de longa distncia. Embora a
prosperidade parea reinar, h carncia de exportaes. Bisson acredita que os
lingotes de cobre em forma de cruz serviam geralmente de moeda, realando
assim o prestgio e o estatuto do grupo dominante. Nesse caso, a asceno
do grupo poderia decorrer de seus conhecimentos em metalurgia ou de sua
autoridade sobre os artesos indispensveis ou, simplesmente, da necessidade
sentida pela comunidade de ser governada, em funo do crescimento da
populao num meio particularmente favorvel.
    Passando da hiptese  certeza, o nico setor ao qual se pode associar com
segurana a existncia de um reino no decorrer do perodo aqui considerado  o
limite ocidental do Sudo, local onde a presena do reino de Gana  incontestvel
por volta de +700.  possvel que esse reino tenha estado em "devir" durante
cerca de um milnio. As razes de seu crescimento, vamos encontr-las na posse
de preciosas riquezas minerais  cobre, ferro e ouro (para respeitar a provvel
ordem de explorao) , no controle do comrcio do sal e, provavelmente,
em sua localizao numa rea onde antes se desenvolvia um modo de vida
agrcola, como evidenciado no contexto de Tichitt. Um estudo aprofundado
desse Estado ser apresentado no prximo volume;  provvel, no entanto, que
a contemporaneidade do florescimento da Gana antiga, da ereo dos meglitos
da Senegmbia e da edificao dos suntuosos outeiros funerrios do Senegal no
se possa explicar por uma simples coincidncia  sem dvida tais manifestaes
fazem parte de um mesmo contexto de expanso econmica.
    Como vimos em captulos precedentes, o perodo aqui estudado no teve
um fim uniforme na frica subsaariana, ao contrrio do que ocorreu na frica
setentrional; contudo, a conquista desta ltima pelos rabes no deixar de
ter importantes consequncias, diretas ou indiretas, tanto na frica ocidental
quanto na frica oriental. Vimos que por volta de +800 a maior parte da
frica se achava firmemente instalada na Idade do Ferro. As orlas da floresta
densa eram pouco a pouco degradadas pelo avano da agricultura, na frica
ocidental como no sul da frica central. A populao aumentava. A primeira


34   BISSON, M. S. 1975, pp. 288-9.
820                                                                      frica Antiga



fase da revoluo agrcola contribuiu largamente para a rpida expanso de
pequenos grupos de agricultores-lavradores, que provavelmente obtinham parte
das protenas de que necessitavam utilizando os mtodos antigos  e mais do
que comprovados  de seus ancestrais da Idade da Pedra, adeptos da caa e
da coleta. Quase todo o seu equipamento de caa era o mesmo dos ancestrais:
redes, anzis de osso e de chifre, lanas e flechas de madeira. Essas flechas
podem mesmo ter sido munidas de farpas, fornecidas por micrlitos, pelas
pontas aguadas de chifres de antlope ou qualquer outro material similar. Aqui
e ali o equipamento de pesca era complementado por pontas de flecha de ferro,
mais custosas porm mais eficazes, e por anzis modelados de maneira mais
rpida. O essencial da mitologia e da religio desses grupos devia igualmente
provir dos ancestrais; no entanto, como a vida tendia  se estabilizar, eles se
voltaram para novas crenas, baseadas nos mistrios da agricultura e do trabalho
dos metais.  provvel que algumas dessas crenas lhes tenham sido legadas
por aqueles que os iniciaram nos novos mistrios. Os agricultores da Idade do
Ferro tornam-se mais empreendedores: modelam cermicas, talham tambores,
tecem panos, fundem o ferro, forjam utenslios. Sua religio tende a centrar-se
em divindades criadoras, e seus sistemas de crenas visam assegurar a libertao
daquelas vicissitudes da natureza s quais os agricultores so mais vulnerveis.
Seus ritos e sua msica tornam-se provavelmente mais complexos; sua cultura
material, mais diversificada; seu senso da tradio e da perenidade social, mais
firmemente estabelecido. Produzem-se na sociedade mudanas fundamentais,
cuja influncia se far sentir em todos os perodos ulteriores da histria africana.
Anexo                                         Anexo                                                    821




                Sntese do colquio
        "O povoamento do antigo Egito e a
           decifrao da escrita merota"




   Relatrio sumrio1 do simpsio realizado no Cairo de 28 de janeiro a 3 de
fevereiro de 1974.
   O simpsio desenvolveu-se em duas etapas: a primeira, de 28 a 31 de janeiro
de 1974, foi consagrada ao "Povoamento do Antigo Egito"; a segunda tratou da
"Decifrao da Escrita Merota" e estendeu-se de 1o a 3 de fevereiro de 1974.
   Os participantes foram os seguintes:
    Professor Abdelgadir M. Abdalla (Sudo)
    Professor Abu Bakr (Repblica rabe do Egito)
    Sra. N. Blanc (Frana)
    Professor F. Debono (Malta)
    Professor J. Devisse (Frana)
    Professor Cheikh Anta Diop (Senegal)
    Professor Ghallab (Repblica rabe do Egito)
    Professor L. Habachi (Repblica rabe do Egito)
    Professor R. Holthoer (Finlndia)
    Sra. J. Gordon-Jaquet (Estados Unidos da Amrica)


1   O presente relatrio  uma verso resumida do Relatrio Final do Simpsio. Foi preparado pelo relator do
    Comit Cientfico Internacional a pedido do Comit, para insero neste volume. Os Procedimentos do
    Simpsio foram publicados na srie Histria Geral da frica  Estudos e Documentos, n. 1, Paris, Unesco, 1978.
822                                                                  frica Antiga



      Professor S. Husein (Repblica rabe do Egito)
      Professor Kaiser (Repblica Federal Alem)
      Professor J. Leclant (Frana)
      Professor G. Mokhtar (Repblica rabe do Egito)
      Professor R. El-Nadury (Repblica rabe do Egito)
      Professor T. Obenga (Repblica Popular do Congo)
      Professor S. Sauneron (Frana)
      Professor T. Sve-Sderbergh (Sucia)
      Professor P. L. Shinnie (Canad)
      Professor J. Vercoutter (Frana)
    Convidados para o simpsio, os professores Hintze (Repblica Democrtica
Alem), Knorossov, Piotrovski (URSS) e Ki-Zerbo (Alto Volta) no puderam
comparecer e enviaram suas desculpas.
    De acordo com as decises do Comit Cientfico Internacional, o professor
J. Devisse, relator do Comit, esteve presente e elaborou o relatrio final do
simpsio.
    Pela Unesco estiveram presentes o Sr. Maurice Gll, especialista do
programa, da Diviso de Estudos Culturais, representando o Diretor-Geral, e a
Sra. Monique Melcer, da Diviso de Estudos Culturais.


      I    O povoamento do antigo Egito
    Dois textos, previamente solicitados pela Unesco ao professor J. Vercoutter
e  Sra. N. Blanc2, serviram de base para a discusso.
    Podem-se distinguir trs etapas importantes no debate:
      A Resumo dos textos introdutrios;
      B Declaraes preliminares da maior parte dos participantes;
      C Discusso geral.


      A    Resumo dos textos introdutrios
      1. O professor Vercoutter desenvolveu vrias questes, tratadas com mais
      detalhe em seu relatrio escrito, e fez diversas observaes adicionais.



2     Esses documentos esto anexados ao Relatrio Final, 1974.
Anexo                                                                         823



   a) A antropologia fsica, apesar dos recentes progressos, tem fornecido,
 exceo da Nbia, relativamente poucos dados confiveis. As informaes
disponveis so insuficientes para que se tirem quaisquer concluses acerca do
povoamento do antigo Egito e as fases sucessivas por que teria passado. Alm
disso, tais informaes no so homogneas, temporal como espacialmente, e os
historiadores frequentemente discordam quanto  sua interpretao.
   Os prprios mtodos so questionados. Atualmente, porm, admite-se que
a craniometria no atende s necessidades desse tipo de pesquisa.
   Vrias regies ainda no foram estudadas em profundidade.  o caso, por
exemplo, de todo o Delta durante os perodos pr-dinstico e protodinstico e
do Alto Egito antes do Neoltico. Pouco se sabe sobre a regio entre a Segunda
e a Sexta Catarata durante o Neoltico e o perodo protodinstico. Do mesmo
modo, ainda esto mal estudados os antigos vnculos entre o Saara, o Darfur e
o Nilo.
   Desse ponto de vista, as pesquisas em andamento apresentam-se defasadas
em relao s empreendidas na frica do Norte e na regio srio-palestina.
   Os dados disponveis no momento no permitem afirmar fossem as
populaes do Egito setentrional diferentes das do sul. Provavelmente a lacuna
entre Paleoltico e Neoltico tambm se deve  atual insuficincia de pesquisas
nesse campo.
   b) A iconografia foi utilizada de maneira insuficiente e insatisfatria; os
estudos realizados basearam-se principalmente em critrios culturais. Contudo,
o material iconogrfico disponvel apresenta caractersticas extremamente
significativas a partir da XVIII dinastia.
   c) Esboo das duas teorias opostas na sua formulao mais extrema:
       i) Desde o perodo pr-dinstico, o antigo Egito foi povoado por "brancos",
       embora de pigmentao escura ou mesmo negra. Os negros s apareceram
       a partir da XVIII dinastia.
          Segundo alguns autores, a partir do perodo protodinstico a populao
       teria permanecido a mesma; outros acreditam que a penetrao estrangeira
       na frica alterou profundamente as condies de vida cultural.
       ii) O antigo Egito foi povoado por negros africanos "desde o incio do
       Neoltico at o final das dinastias nativas".

   2. A Sra. Blanc exps os resultados de suas pesquisas.
   a) Ciente de que, por razes especificamente histricas, a historiografia do
vale do Nilo assentou na suposta existncia de um vale egpcio civilizado rico
em testemunhos histricos e de um vale mais ao sul, negro e primitivo, que s
824                                                                     frica Antiga



interessava aos antroplogos, a Sra. Blanc manifestou o desejo de ver equilibrada,
no futuro, a pesquisa histrica no conjunto do vale. Isso significaria abandonar
os mtodos histricos tradicionais e ampliar o campo de investigao, adotando
uma nova metodologia. A Sra. Blanc considera o trabalho realizado na Nbia
durante os ltimos vinte anos como o primeiro passo para o reexame da questo
colocada neste simpsio.
    b) No intuito de fugir  viso tradicional do vale do Nilo, segundo a qual o
desenvolvimento histrico da regio se teria dado no sentido norte-sul, do "mais
civilizado" para o "menos civilizado", a Sra. Blanc chamou a ateno para as
regies do Nilo situadas entre o 23o paralelo e as cabeceiras do rio, em Uganda.
Sua anlise leva em conta a linha divisria ao longo do 10o paralelo, que ela
considera fundamental em termos ecolgicos, e onde se interrompeu o avano
do Isl.
    Navegvel entre o 23o e o 10o paralelo, o Nilo aparentemente poderia ter
desempenhado um papel comparvel ao que exerceu mais ao norte, no Egito.
Isso no ocorreu, sem dvida, devido s condies ecolgicas existentes nesse
brao do rio.
    Essa constatao levou a Sra. Blanc a um reexame global das respectivas
contribuies das populaes nmades sedentrias e da rea em questo.
Mas, aps reconstituir a histria das transformaes demogrficas ocorridas
com a chegada dos rabes muulmanos, dedicou especial ateno ao exame
das hipteses relativas ao povoamento da mesma rea antes dessas migraes.
A autora assinalou que o vale do Nilo facilitou a comunicao com a frica
ocidental e a frica subsaariana, sendo possvel formular-se a hiptese de que as
civilizaes que l emergiram seriam autenticamente africanas, e no civilizaes
intermedirias entre o mundo mediterrnico e a frica negra.
    O Darfur, a oeste no obstante a precariedade dos conhecimentos sobre sua
organizao social e poltica antes do sculo XVII -, desempenhou importante
papel como centro regional de desenvolvimento econmico.
    A leste, a regio de Sennar, habitada pelos Funj, foi o centro de um "sultanato
negro" cuja origem no era nem rabe nem muulmana.
    A regio ocupada pelos Beja entre o Nilo e o mar Vermelho era pouco
favorvel  sedentarizao, em funo de suas inspitas condies ecolgicas.
    Ao sul do 10o paralelo, as condies ecolgicas eram totalmente distintas.
Essa rea era habitada por populaes isoladas sobre as quais pouco se sabe, seja
com relao s pesquisas arqueolgicas, no que se refere a informaes oriundas
da tradio oral. Atualmente, as hipteses sobre o povoamento e a histria
dessa rea carecem de bases seguras, e  somente nas regies mais meridionais,
Anexo                                                                                        825



na zona interlacustre da frica oriental, que estudos histricos mais completos
tm sido empreendidos.

    B Declaraes preliminares dos participantes
    1. O professor Sve-Sderberg forneceu informaes acerca das escavaes
escandinavas efetuadas no Sudo entre 1960 e 1964. Tais escavaes
demonstraram a existncia de contatos entre o vale do Nilo, a frica setentrional
e o Saara. Os temas tratados pelas publicaes3 incluem 7 mil desenhos rupestres
e a anlise dos vestgios de 1546 indivduos humanos. Van Nielson (vol. 9)
definiu as relaes entre o Grupo A, o Grupo C, o Grupo Novo Imprio, etc.
Os estudos comparativos levaram a diferentes resultados, segundo a utilizao
exclusiva da craniometria ou do conjunto de fatores antropolgicos e tecnolgicos.
Os estudos iconogrficos e de antropologia fsica permitem supor que houve
migrao de povos saarianos e de grupos vindos do sul, e que tais populaes
mantiveram contatos considerveis com os antigos egpcios. No que diz respeito
ao Mesoltico, os estudos comparativos tm por base menos de cem esqueletos,
o que, no caso da Nbia, compromete a validade das concluses. J para o
Neoltico,  possvel obter dados mais precisos.
    De qualquer modo, o professor Sve-Sderbergh julga impossvel assentar
em distines raciais o estudo do povoamento do antigo Egito ou estudos
similares. No futuro, deveriam adotar-se outras linhas de investigao. Culturas
diferentes, contemporneas mas isoladas, podem pertencer ao mesmo complexo
tecnolgico. Esse novo mtodo confirma as origens africanas do Egito. Mas
tal descoberta no elimina outros problemas. Nagada I e II no pertenciam
ao mesmo complexo tecnolgico que a Nbia ou o Sudo contemporneo. No
Sudo,  regio que se estende de Kassala ao Chade e de Uadi Halfa a Cartum
corresponde um nico e amplo complexo tecnolgico. O Grupo A constitui
outro complexo tecnolgico, mais recente, encontrado da Primeira  Terceira
Catarata, e talvez ainda mais adiante.

   2. O professor Cheikh Anta Diop fez uma extensa exposio de suas ideias,
que sintetizou em texto escrito selecionando os pontos principais.
   a) Do ponto de vista antropolgico, as pesquisas efetuadas aps as descobertas
do professor Leakey levaram  concluso de que a raa humana se teria


3   Ver SCANDINAVIAN Joint Expedition to Sudanese Nubia, publicaes (em particular, v. I, Rock
    Pictures; v. 2, Pre-Ceramic Sites; v. 3, Neolithic and A-Group Sites; e v. 9, Human Remains).
826                                                                    frica Antiga



originado na frica, junto s nascentes do Nilo. Segundo a lei de Gloger, que
provavelmente se aplica tanto  espcie humana quanto a outras espcies, os
animais de sangue quente, que se desenvolvem sob climas quentes e midos,
apresentam pigmentao escura (melanina). Portanto, a primeira populao
humana da Terra seria etnicamente homognea e negroide. Tal populao se
teria propagado a partir dessa rea de origem, atingindo outras regies da Terra
atravs de duas nicas rotas: o vale do Nilo e o Saara.
    No vale do Nilo, essa expanso ocorreu do sul para o norte, num movimento
progressivo, entre o Paleoltico Superior e o perodo Proto-Histrico.
    O professor Massoulard chegou tambm  concluso de que a populao
do antigo Egito inclua pelo menos trs elementos raciais diferentes: negroides
(mais de um tero do total), "mediterrneos" e cro-magnoides. Desses dados, o
professor Diop inferiu que a populao do Egito era basicamente negra durante
o perodo pr-dinstico, concluso que contradiz a teoria segundo a qual o
elemento negro teria chegado ao Egito mais tardiamente.
    Elliot-Smith descobriu esqueletos com fragmentos de pele que remontam
a pocas muito antigas, anteriores  introduo da prtica da mumificao.
Tais fragmentos, afirmou o professor Diop, contm melanina em quantidade
suficiente para caracteriz-los como pele negra.
    Buscando provas positivas, o professor Diop estudou diversas preparaes
submetidas a exame de laboratrio em Dacar, constitudas por amostras de pele
extradas de mmias provenientes das escavaes de Mariette. Todas revelaram
e o professor Diop convidou os especialistas presentes a examin-las a presena
de considervel teor de melanina entre a epiderme e a derme. A melanina,
ausente na pele branca, conserva-se durante milhes de anos (ao contrrio do
que frequentemente se afirma), como se pode observar pelo exame das peles
de animais fsseis. O professor Diop manifestou o desejo de realizar pesquisas
semelhantes com as peles dos faras cujas mmias encontram-se no Museu do
Cairo.
    Prosseguindo, afirmou que uma investigao antropolgica conclusiva deveria
incluir ainda a osteometria e o estudo dos grupos sanguneos.  digno de nota,
por exemplo, o fato de os atuais egpcios, principalmente os do Alto Egito,
pertencerem ao mesmo grupo sanguneo B das populaes da frica ocidental,
e no ao grupo A2, caracterstico da raa branca.
    b) Iconografia: Com base em volumoso dossi iconogrfico e nas definies
contidas nesse trabalho, o professor Diop afirmou ser desnecessrio insistir nos
pormenores que, por exemplo, diferenciam os negros de outros personagens
aristocrticos representados num mesmo tmulo: essa diferena tem origens sociais.
Anexo                                                                                               827



Iconograficamente, o povo e a classe dominante eram representados de maneira
distinta.
    c) Em seguida, abordando os testemunhos fornecidos pelas fontes escritas
antigas, o professor Diop assinalou que os autores gregos e latinos descreveram
os egpcios como negros. Referiu-se ao testemunho de Herdoto, Aristteles,
Luciano, Apolodoro, squilo, Aquiles Tcio, Estrabo, Diodoro da Siclia,
Digenes Larcio e Amiano Marcelino. Os estudiosos modernos, asseverou
ele, recusam-se a considerar esses textos. Entretanto, um autor do sculo XVIII,
Volney, atribui aos habitantes do antigo Egito a cor negra. Alm disso, a tradio
bblica tambm considera os egpcios como descendentes de Cam. O professor
Diop colocou em questo a egiptologia, cincia que, produto do imperialismo,
sempre procurou negar os fatos por ele referidos.
    d) Em seguida, o professor Diop abordou a questo de como os prprios
egpcios se descreviam. Para isso eles se serviam de uma nica palavra: kmt4,
"o termo mais forte existente na lngua faranica para indicar a cor preta" e
que o professor Diop traduz por "negros". Por esse motivo, a palavra kmt era
representada, na escrita hieroglfica, por um pedao de carvo vegetal, e no por
escamas de crocodilo.

   3. O professor Debono reexaminou por mido as informaes constantes
do volume 1.

   4. O professor Leclant salientou, inicialmente, o carter africano da civilizao
egpcia. Ressaltou, porm, a necessidade de distinguir claramente, a exemplo do
professor Vercoutter, "raa" e "cultura".
   A antropologia fsica do Egito est em seus primrdios. No entanto,
no h por que confiar nos estudos, totalmente ultrapassados, de Chantre,
Elliot-Smith, Sergi ou Derri. Ademais, j existem importantes trabalhos de
reavaliao, como o de Wierczinski5. Os grupos que trabalham na Nbia
tambm demonstram acentuado interesse pela antropologia fsica. Nesse
aspecto, a Nbia, considerada "pobre" em termos de vestgios arqueolgicos,
paradoxalmente parece mais bem conhecida do que o Egito6. Atualmente as


4   Esta palavra deu origem ao termo "camita", que passou a ser usado correntemente.  tambm encontrado
    na Bblia sob a forma "Cam".
5   BULLETIN OF THE EGYPTIAN GEOGRAPHICAL SOCIETY, 31, 1958, 73-83.
6   O professor LECLANT refere-se aos trabalhos de NIELSEN, STROUHAL, ARMELAGOS,
    ROGALSKY, PROMINSKA, CHEMLA e BILLY.
828                                                                                          frica Antiga



expedies arqueolgicas do grande importncia aos estudos osteolgicos, o
que constitui uma auspiciosa inovao7.
    No plano cultural, as gravuras rupestres, que revelam alto grau de uniformidade
desde o mar Vermelho at o Atlntico, vm sendo alvo de cuidadosos estudos.
Trata-se de indcios deixados por sucessivos grupos culturais, caadores, pastores
e outros.
    O povoamento do antigo Egito constitui um problema considervel, e seria
muito prematuro, neste estgio, adotar uma abordagem sinttica para resolv-
-lo. O problema deveria ser tratado mediante estudos fracionados, precisos.
Para tanto, seria indispensvel o concurso de especialistas em disciplinas no
representadas neste simpsio. Encontram-se presentes apenas estudiosos da
"histria geral", qualificados para reunir e sintetizar as informaes fornecidas
por especialistas; e essas informaes, no momento, so por demais insuficientes.
    De todo modo, no  o caso de se recorrer a especialistas hoje totalmente
ultrapassados, como Lepsius ou Petrie. Embora no se lhes possa negar uma
importncia "histrica", a egiptologia conheceu posteriormente grandes
progressos.
    Quanto s evidncias iconogrficas, o nico problema  saber como os
egpcios se viam em relao a outros homens. Eles se auto denominavam rmt
(Rame), "os homens"; consideravam os outros povos como uma massa amorfa
que se estendia em todas as direes, designadas pelos pontos cardeais. Por
exemplo, as esttuas de prisioneiros em Sacar (VI dinastia, 2300 anos antes da
Era Crist) representam tanto povos do norte (asiticos, lbios) quanto do sul
(nbios, negros). Os esteretipos de homens do norte (brancos) e do sul (negros)
sob as sandlias do fara confirmam essa representao.

    5. O professor Ghallab discorreu sobre os sucessivos elementos que se
poderiam identificar no povoamento da frica entre o Paleoltico e o III milnio
antes da Era Crist.
    No nordeste da frica, uma grande quantidade de objetos de pedra datados do
segundo perodo pluvial foi encontrada no vale do Nilo e nos osis. O professor
Ghallab distinguiu pelo menos seis grupos tnicos na populao egpcia durante
o perodo mesoltico, ligados, todavia, por uma cultura homognea. Segundo ele,
a raa humana era razoavelmente homognea e "caucasiana" durante o perodo
paleoltico. Os primeiros tipos negros da frica foram o homem de Asselar e

7     Cf. o importante e recente artigo de GERVEN, P. van, CARLSON, D. S. & ARMELAGOS, G. J. "Racial
      history and biocultural adaptation of Nubian archaeological populations". JAH, XIV, 1973, 4: 555-64.
Anexo                                                                        829



o de Ondurman. No final do Paleoltico surgiu a raa negra, do Atlntico ao
mar Vermelho. Contudo, entre os primeiros egpcios encontraram-se traos de
bushmen (bosqumanos) com algumas caractersticas modificadas em funo
de sua aclimatao s condies ecolgicas mediterrnicas. Ainda hoje existem
vestgios desse tipo racial na populao egpcia. Na realidade, nenhuma cultura
negra apareceu antes do perodo neoltico.

   6. O professor Abdelgadir M. Abdalla no considera relevante saber se os
antigos egpcios eram negros ou negroides: o importante  o grau de civilizao
que atingiram.
   Os testemunhos iconogrficos evidenciam que os criadores da cultura de
Napata nada tinham em comum com os egpcios: suas caractersticas anatmicas
eram completamente diferentes. Se os egpcios eram negros, qual a cor dos
homens da cultura de Napata?
   Retomando a questo de lingustica, o professor Abdalla afirmou que km
(Kem) no significa "negro" e que seus derivados no se referem  cor dos
indivduos. Efetuou, por sua vez, uma demonstrao lingustica para ilustrar
sua teoria, que difere da enunciada pelo professor Diop, e concluiu que a
lngua egpcia no era puramente africana pertenceria ao grupo proto semtico,
em apoio do que poder-se-iam citar numerosos exemplos. Para o professor
Abdalla, os exemplos lingusticos mencionados pelo professor Diop no so
convincentes nem conclusivos, sendo arriscado estabelecer uma relao rigorosa
entre uma lngua e uma estrutura tnica ou um indivduo.  um equvoco
comparar uma lngua morta com lnguas vivas; as semelhanas apontadas so
acidentais, e no momento no se conhece a evoluo das lnguas africanas
antigas. Na verdade, as evidncias de parentesco apresentadas so muito mais
consistentes com a teoria da difuso do egpcio antigo na frica do que com
a de seu parentesco com as lnguas africanas atuais. Se o egpcio antigo e o
wolof so aparentados, por que no o seriam o egpcio antigo e o merota,
por exemplo? Ora, a lngua de Napata e o egpcio antigo so completamente
diferentes. O professor Abdalla expressou o desejo de que a investigao
prosseguisse com rigor.
   a) A seu ver,  impossvel estabelecer uma correlao automtica entre um
grupo tnico, um sistema socioeconmico e uma lngua.
   b) No  possvel chegar a concluses cientificamente vlidas trabalhando
"em larga escala". A histria praticamente no oferece exemplos puros de grandes
migraes que no se acompanhem de grandes transformaes culturais.
830                                                                                               frica Antiga



   c) Atualmente, do ponto de vista da antropologia fsica, o conceito de "negro"
no est claramente definido. O esqueleto no permite estabelecer a cor da pele.
Somente o tecido e a prpria pele so importantes.
   d)  preciso iniciar com urgncia o estudo da paleopatologia e das prticas
funerrias.

   7. O professor Sauneron interveio durante uma instigante controvrsia sobre
questes lingusticas entre os professores Abdalla e Diop, afirmando que, em
egpcio, km (feminino, kmt) significa "negro"; o masculino plural  kmu (Kemu),
e o feminino plural, kmnt.
   A forma kmtyw pode significar apenas duas coisas: "os de Kmt" e "os
habitantes de Kmt" ("o pas negro"). Trata-se de um adjetivo derivado (nisba),
formado a partir de um termo geogrfico que se tornou nome prprio e cujo
sentido original no  necessariamente "percebido" (cf. franco, Frana, francs).
   Para designar "povo negro", os egpcios diriam kmt ou kmu, e no kmtyw.
Como quer que seja, eles nunca utilizavam esse adjetivo para designar os negros
do interior da frica, a quem conheciam desde o Novo Imprio. Via de regra
no usavam nomes de cores para diferenciar os povos.

    8. Por sua vez, o professor Obenga retomou a demonstrao lingustica
iniciada pelo professor Diop8.
    a) Aps criticar o mtodo do professor Greenberg, com base no recente
trabalho do professor Istvan Fodor9, e observar que desde a obra de Ferdinand
de Saussure o testemunho lingustico  aceito como o meio mais seguro para
determinar se dois ou mais povos so culturalmente aparentados, o professor
Obenga procurou provar que existe um parentesco lingustico gentico entre o
egpcio (antigo egpcio e copta) e as lnguas negro-africanas modernas.
    Antes de arriscar qualquer comparao, deve-se tomar cuidado para no
confundir parentesco lingustico tipolgico, que no permite reconhecer o
ancestral pr-dialetal comum s lnguas comparadas, e parentesco gentico. Por
exemplo, o ingls moderno, considerado do ponto de vista tipolgico, apresenta
afinidades com o chins; j na perspectiva gentica, as duas lnguas pertencem
a diferentes famlias lingusticas. Do mesmo modo, o professor Obenga rejeitou
a noo de lngua mista com um contra-senso lingustico.

8     O texto integral, tal como foi transmitido ao relator pelo professor Obenga, est no Anexo II do Relatrio
      Final do Simpsio.
9     FODOR, I. The Problems in the Classification of the African Languages, Centre for Afro-Asian Research
      of the Hungarian Academy of Sciences, Budapest, 1966. p. 158.
Anexo                                                                         831



    O parentesco gentico depende da formulao de leis fonticas atravs da
comparao de morfemas e fonemas de lnguas prximas. Com base nessas
correspondncias morfolgicas, lexicais e fonticas, poder-se-ia chegar s
primeiras formas comuns. Tal procedimento permitiu reconstituir abstratamente
uma lngua "indo-europeia" terica, que serviu de modelo operacional e revelou
uma macroestrutura cultural comum partilhada pelas lnguas que em seguida
se desenvolveram separadamente.
    b) O professor Obenga chamou a ateno para importantes semelhanas
tipolgicas de natureza gramatical: o gnero feminino formado pelo uso do
sufixo -t, o plural de substantivos formado pelo sufixo -w (ou -u). Em seguida,
analisou formas completas, observando semelhanas entre o egpcio antigo
e um nmero considervel de lnguas africanas; entre o egpcio e o wolof, a
correspondncia  total. Essa srie de demonstraes levou o professor Obenga
a concluir que as semelhanas morfolgicas, lexicais e sintticas constituem uma
prova convincente do estreito parentesco entre o egpcio antigo e as lnguas
negro-africanas atuais. Tal paralelismo no ocorre entre o semita, o berbere
e o egpcio. A seguir, comparou os modos de expressar "ser" em combinaes
verbo-nominais: a forma arcaica comum na lngua bantu  anloga  forma mais
arcaica do egpcio antigo. A anlise dos morfemas negativos, do futuro enftico e
das partculas de ligao levou s mesmas concluses dos exemplos precedentes.
Por tudo isso, o professor Obenga acredita na possibilidade de se descobrir uma
estrutura gentica comum.
    c) Finalmente, o professor Obenga abordou o que considera o aspecto mais
interessante da comparao.
    Estabeleceu paralelos entre palavras de diferentes lnguas palmeira, esprito,
rvore, lugar e entre pequenos fonemas: por exemplo, km (Kem), "negro" em
egpcio antigo, torna-se kame, kemi, kem em copta; ikama em bantu (com o
sentido de carbonizado em consequncia de exposio a calor excessivo), kame
em azer (cinzas); Rom, "homem" em egpcio antigo, torna-se lomi em bantu. Os
mesmos fonemas exercem as mesmas funes nas diferentes lnguas comparadas.
    Dessas comparaes o professor Obenga deduziu a possibilidade de identificar,
no futuro, uma lngua "negro-egpcia", anloga ao "indo-europeu". Nesse contexto,
e considerando o inegvel fundo cultural comum a todas as lnguas comparadas,
dispe-se de uma base slida para o desenvolvimento de estudos futuros.

   9. O professor Gordon-Jaquet assinalou a possibilidade de se evocar o estudo
da toponmia egpcia em apoio da afirmao de que no Egito no se produziu
nenhuma imigrao ou invaso macia de populaes estrangeiras, pelo menos
832                                                                                             frica Antiga



desde o Neoltico. Sabe-se que os nomes topogrficos tm vida extremamente
longa. Os sucessivos grupos lingusticos que habitam uma mesma rea deixam
sua marca na forma de topnimos, mais ou menos numerosos, dependendo
do tamanho da populao e da durao de seu predomnio na rea. Qualquer
acrscimo importante  populao egpcia vindo do exterior teria sem dvida
deixado sua marca na toponmia do pas, o que no ocorreu. A toponmia do
Egito  muito homognea e se compe de nomes cuja etimologia se explicaria,
praticamente sem excees, pela prpria lngua egpcia. Foi s no perodo
ptolomaico e, mais tarde, aps a conquista rabe que os nomes de origem grega
e rabe foram acrescidos ao fundo bsico de nomes egpcios. Somente nas
regies perifricas  a Nbia, os osis ocidentais e o Delta oriental, regies em
estreito contato com os povos vizinhos que falavam outras lnguas   que vamos
encontrar nomes cuja etimologia pode derivar-se dessas lnguas estrangeiras.

    10. O professor Devisse abandonou por um instante sua funo de relator para
informar o simpsio dos surpreendentes resultados de um estudo iconogrfico10.
    Trs manuscritos11 incluem representaes de egpcios negros e merecem
especial considerao. Eliminando o que se poderia atribuir  tradio bblica (a
descendncia de Cam) e as representaes alegricas propositalmente arcaicas
(Hades, a Noite), resta ainda uma proporo varivel de egpcios representados
com traos e cor negros. Como se sabe, trata-se de escravos, mas e neste ponto
as cenas selecionadas so extremamente interessantes tambm de egpcios livres.
Alguns deles cerca de um tero dos participantes esto sentados em torno da
mesa de Jos, que oferece um banquete aos seus irmos israelitas, sentados em
outra mesa; outros participam da venda de Jos a Putifar, representado como
branco. Provavelmente o aspecto mais notvel dessas representaes, sempre
realistas nos pormenores, consiste no traje caracterstico dos egpcios negros
(em particular no octateuto do sculo XI). Os negros, muito diferentes dos
egpcios, que usavam barbas e turbantes, frequentemente portavam lanas e
vestiam uma "pele de pantera" que lhes deixava o ombro direito nu. O professor
Devisse considera importantssimas tais observaes em razo dos considerveis
contatos entre Bizncio e o Egito durante o perodo fatmida e pelo fato de as


10    Essa ampla pesquisa, de mbito internacional, vem sendo objeto de uma publicao em trs volumes,
      dois dos quais j publicados. O estudo foi realizado pela Menil Foundation (Houston, EUA), da qual
      uma unidade em Paris coordenou a coleta de uma grande quantidade de material iconogrfico.
11    Paris, Bibliothque Nationale, Novas Aquisies: latin 2334 (VI-VIIe?), Vatican grec 747 (XIe) , Vatican
      grec 746 (XIIe).
Anexo                                                                       833



representaes datadas desse perodo serem muito mais realistas do que nos
manuscritos mais antigos.
    difcil interpretar esses documentos: referem-se tanto a um fundo cultural
bizantino quanto  tradio bblica. Refletem, porm, uma viso "setentrional"
do egpcio no conforme com a teoria do padro "leucoderma".

   C    Discusso Geral
   O debate geral deixou claro que, em variados graus, diversos participantes
consideram desejvel, no estgio atual dos conhecimentos, o empreendimento de
macroanlises a abranger a histria antiga do Egito como um todo ou mesmo,
em alguns casos, do conjunto do continente africano; por outro lado, outros
participantes do preferncia s microanlises geogrficas com base disciplinar
ou interdisciplinar.

   1. Anlise cronolgica dos resultados
   O debate da questo foi iniciado pelo professor Cheikh Anta Diop. A partir
do Paleoltico Superior a homogeneidade inicial da humanidade passa por um
processo de declnio progressivo; a populao do Egito era to uniforme quanto
a das outras partes do mundo. Em geral acredita-se que o aparecimento da raa
humana ocorreu na frica h 5.300.000 anos B.P.
   O Homo sapiens surgiu por volta de -150.000 e disseminou-se progressivamente
por todas as reas habitveis da bacia do Nilo. Os homens que viviam no Egito
nessa poca eram negros.
   Rejeitando a teoria oposta, apresentada pelo professor Vercoutter em
seu relatrio sobre o povoamento do Egito durante o perodo pr-dinstico,
o professor Diop afirmou que, na realidade, 33% dos egpcios "brancos" de
pigmentao razoavelmente escura, ou mesmo negra, eram negros, o mesmo
ocorrendo com 33% dos mestios; acrescentando os ltimos 33% da populao
mencionados pelo dr. Massoulard (aceitos como negros), o professor Diop
expressou a opinio de que no perodo protodinstico a populao egpcia, em
seu conjunto, era negra.
   Prosseguindo, reafirmou ele a teoria geral, esboada anteriormente, sobre a
populao negra do Egito e sua mestiagem gradual.
   Em outro ponto da discusso, o professor Diop afirmou explicitamente que
a populao negra do Alto Egito s comeou a diminuir na poca da ocupao
persa.
834                                                                     frica Antiga



    Finalizando, fez duas observaes gerais: uma sobre o uso da palavra negroide,
termo que considera intil e pejorativo, e outra sobre os argumentos evocados
para contestar suas ideias, que lhe parecem negativos, desprovidos de rigor
crtico e de base fatual.
    A teoria do professor Diop foi rejeitada globalmente por um dos participantes.
    Nenhum dos presentes declarou expressamente apoiar a antiga teoria de uma
populao de "brancos" com pigmentao escura ou mesmo negra. O consenso
sobre o abandono dessa tese foi apenas tcito.
    Levantaram-se numerosas objees s ideias propostas pelo professor Diop,
revelando a amplitude de um desacordo que permaneceu profundo, embora no
explcito. Em algumas sequncias, as crticas surgiram a partir da argumentao
proposta.
    Em relao a pocas muito antigas  anteriores ao que a terminologia
francesa ainda chama de perodo "neoltico" , os participantes concordaram
ser extremamente difcil encontrar respostas satisfatrias.
    O professor Debono observou uma semelhana importante entre as culturas
de seixos lascados nas diferentes regies onde foram descobertas (Qunia,
Etipia, Uganda, Egito). O mesmo vale para o perodo acheulense, que apresenta
instrumentos bifaciais semelhantes em vrias regies da frica.
    Por outro lado, a homogeneidade da indstria sangoense, descoberta na
frica oriental, diminui progressivamente em direo ao norte. Em Khor Abu
Anga (ilha de Sai, no Sudo), existe uma srie de utenslios razoavelmente
completa. De Uadi Halfa em diante, perde, ao que parece, vrios elementos.
No Egito, apenas uma das caractersticas tipolgicas se manteve, entre Tebas e
Dachur, perto do Cairo.
    Durante o perodo paleoltico mdio, a debitagem Levallois com variantes
musterienses diferia muito no Egito e nas reas situadas mais ao sul ou a oeste.
    No tocante  indstria ltica durante o Paleoltico, por razes ainda obscuras,
mas provavelmente ligadas a mudanas nas condies climticas e ecolgicas,
o Egito isolou-se do resto da frica, criando indstrias originais (Sebiliense,
Epilevalloisiense ou Hawariense, Khargniense).
    Alm disso, houve no mesmo perodo uma tentativa de penetrao por parte
dos aterienses do nordeste da frica, cujos traos foram encontrados at no Saara
meridional. Tendo chegado ao osis de Siwa e tambm, em grande nmero, ao
osis de Kharga, eles se espalharam pelo vale do Nilo, e seus vestgios foram
encontrados em Tebas. Vestgios do mesmo perodo foram descobertos em Uadi
Hammamat (deserto oriental), em Esna (misturados a vestgios kargnienses),
em Dara, em Djebel el-Ahmar, perto do Cairo, e em Uadi Tumilat, no Delta
Anexo                                                                      835



oriental (alternados com remanescentes epilevalloisienses).  provvel que na
mesma poca tenha ocorrido uma mestiagem de outras raas em pequena
escala, rapidamente absorvida pela populao nativa.
    Uma penetrao igualmente importante de povos estrangeiros no Egito
foi a dos natufienses da Palestina, cuja presena em Heluan, perto do Cairo, 
conhecida h muito tempo. Escavaes recentes demonstraram que estes povos
habitavam uma rea maior. Vestgios lticos atribuveis aos natufienses foram
encontrados no Faium e no deserto oriental, ao longo de um cinturo que se
estende na direo leste-oeste atravs do vale do Nilo.
    Segundo o professor Sauneron,  possvel deduzir, pela presena de seixos
lascados nos estratos do Pleistoceno Antigo das montanhas tebanas, que a
presena humana no vale do Nilo  muito antiga.
    O professor Ghallab sustentou que os habitantes do Egito no Paleoltico
eram caucasoides. Afirmou ainda que escavaes recentes forneceram provas
da existncia de homens do tipo "san" na populao do perodo pr-dinstico.
    O professor Shinnie, que concordou com a tese relativa ao estabelecimento
do Homo sapiens (sem, contudo, mencionar-lhe a cor da pele), data a primeira
populao sedentria do vale do Nilo de aproximadamente 20 mil anos. Em
seguida teriam chegado vrios grupos humanos, procedentes de diferentes
regies, aumentando a populao e alterando-lhe a composio.
    A discusso sobre o Neoltico e o Pr-Dinstico foi tambm intensa.
    O professor Abu Bakr sublinhou que os egpcios nunca se isolaram de outros
povos nem constituram uma raa pura, sendo impossvel aceitar a ideia de uma
populao neoltica inteiramente negra no Egito. A populao do Egito no
Neoltico era uma mistura de homens vindos do oeste e do leste, incorretamente
chamados de camitas.
    A mesma teoria  perfilhada pelo professor El-Nadury. Durante o Neoltico,
migrantes de todas as partes do Saara incorporaram-se gradualmente 
populao sedentria fixada a noroeste do Delta, da resultando uma mistura
de vrios grupos tnicos. A partir desse perodo no h mais descontinuidade
no povoamento at a poca dinstica. O stio de Merinde mostra, graas a um
farto material arqueolgico claramente estratificado, que o povoamento dessa
rea seguiu um processo gradual.
    O professor Vercoutter expressou sua convico acerca do povoamento do
antigo Egito: para ele, o povo que ocupou o vale do Nilo sempre foi mestio,
em particular na poca pr-dinstica, quando chegaram numerosos elementos
estrangeiros procedentes do oeste e do leste.
836                                                                   frica Antiga



   Durante o perodo pr-dinstico e o incio do dinstico, chegou ao Egito
um novo elemento, vindo do nordeste e descrito como semita pelo professor
El-Nadury. Como o professor Abu Bakr, o professor El-Nadury considera
um fato notvel a construo de fortificaes em Abidos, durante a I dinastia,
provavelmente com o objetivo de impedir a migrao do sul para o norte.
   O professor Abu Bakr referiu-se ao caso da esposa de Quops, loira de olhos
azuis, como um exemplo da existncia de "no-negros" no Egito. O professor
Diop considera esse exemplo isolado uma exceo que confirma a regra.
   No decorrer da discusso, o professor Obenga acrescentou alguns pontos
importantes e salientou o interesse dos escritos antigos legados pela populao
do Egito. Herdoto, numa passagem sobre os Colcos no contestada pelos
especialistas modernos nem invalidada pelo estudo comparativo dos manuscritos,
procurou mostrar, por meio de uma srie de argumentos crticos, que eles eram
assemelhados aos egpcios: "Falam do mesmo modo e so, com os egpcios,
os nicos povos que praticam a circunciso, alm de tecerem o linho como
os egpcios". A essas semelhanas acrescentam-se duas outras caractersticas
comuns: a pigmentao negra e os cabelos crespos.
   O professor Leclant asseverou que os escritores antigos utilizavam-se da
expresso "face queimada" (etopes) para se referir aos nbios e negros, mas no
aos egpcios. O professor Obenga replicou que os gregos empregavam a palavra
"negro" (melas) para designar os egpcios. O professor Vercoutter perguntou
em que contexto precisamente Herdoto definiu os egpcios como negros. O
professor Diop respondeu que Herdoto lhes faz referncia em trs ocasies:
ao discutir a origem dos Colcos, a origem das enchentes do Nilo e o orculo
de Zeus-mon.
   Na opinio do professor Leclant, a unidade do povo egpcio no era racial,
mas cultural. A civilizao egpcia permaneceu estvel durante trs milnios; os
egpcios se descreviam como remet (Rome em copta) e, principalmente em suas
representaes iconogrficas, estabeleciam uma distino entre eles e os povos
do norte e do sul. O professor Obenga negou que os egpcios utilizassem a
palavra remet para se distinguir de seus vizinhos no plano racial; para ele essa
distino , sim, semelhante  que levou os gregos a se diferenciarem de outros
povos, a quem chamavam brbaros.
   O professor Leclant observou que merecem ser estudadas as importantes
caractersticas paleoafricanas da vida cultural egpcia. Como exemplo mencionou
o babuno, um atributo do deus Tot, e o frequente aparecimento na iconografia de
peles de "pantera" como vestimenta ritual no culto de Hrus a Osris. Contudo,
Anexo                                                                       837



em sua opinio, os egpcios, cuja civilizao foi culturalmente estvel durante
trs milnios, no eram brancos nem negros.
    Em seguida, o professor Sauneron questionou a ideia de uma populao
homognea, principalmente se atribuirmos essa homogeneidade ao perodo
entre o aparecimento do homem no Egito e a poca pr-dinstica. No seu
entender, nenhuma das provas disponveis permite duvidar do carter mestio
da populao egpcia.
    A concluso dos especialistas que no aceitam a teoria enunciada pelos
professores Cheikh Anta Diop e Obenga, segundo a qual a populao do vale
do Nilo seria homognea desde os primeiros tempos at a invaso persa,  que a
populao bsica do Egito se fixou na regio durante o Neoltico. Grande parte
dessa populao era proveniente do Saara, incluindo povos do norte e do sul
da regio, diferenciados pela cor. A essa teoria os professores Diop e Obenga
opuseram a sua, que enfatiza a uniformidade do povoamento do vale pelos
negros e sua progresso no sentido sul-norte.

   2 Existncia ou no-existncia de migraes
   importantes em direo ao vale do Nilo
   Com relao a esse ponto, os trabalhos do simpsio desenvolveram-se de
maneira confusa, e alguns debates no chegaram ao fim.
   Em termos gerais, os participantes consideraram que a teoria das "migraes
em larga escala" j no  aceitvel como explicao do povoamento do vale
do Nilo, ao menos at o perodo dos hicsos, quando tiveram incio as trocas
lingusticas com o Oriente Prximo (Holthoer).
   Por outro lado, vrios especialistas acreditam que os deslocamentos
populacionais ocorreram nas regies imediatamente vizinhas do vale, embora
muitos discordem quanto ao papel desempenhado pelos fatores geogrficos
ou ecolgicos como obstculos, naturais ou artificiais, a esses movimentos de
populao.
   De todo modo, acredita-se que o Egito absorveu migrantes de vrias origens
tnicas. Os participantes do simpsio reconheceram implicitamente que, de
maneira geral, o substrato da populao do vale do Nilo continuou estvel
durante trs milnios, sendo muito pouco afetado pelas migraes.
   Todavia, quando se examinam os perodos posteriores, torna-se impossvel
chegar a to amplo consenso terico.
   Em relao ao perodo Paleoltico, o professor Cheikh Anta Diop enunciou
a hiptese segundo a qual o Homo sapiens se teria instalado progressivamente
838                                                                   frica Antiga



no vale do Nilo at a latitude de Mnfis. O professor Abu Bakr afirmou serem
muito escassas as informaes disponveis sobre esse perodo, ressaltando a
possibilidade de a parte setentrional do vale do Nilo no ter sido habitada.
Por outro lado, o professor Obenga admite que entre o Paleoltico Superior
e o Neoltico houve um povoamento contnuo, efetuado por uma populao
uniforme; em suas tradies orais, os prprios egpcios deram ateno especial a
esse fato mencionando os Grandes Lagos como sua terra natal e a Nbia como
um pas idntico ao seu.
    Na poca em que o Mesoltico se fundiu com o Neoltico (professor
Vercoutter), ou durante o perodo Neoltico (professores Habachi e Ghallab),
afigura-se provvel a ocorrncia de grandes movimentos populacionais a partir
do Saara, em direo ao vale do Nilo. O professor Vercoutter expressou o desejo
de que esses movimentos, at agora pouco conhecidos, sejam datados com
preciso, sugerindo que se proceda  coleta e ao estudo do material arqueolgico
a eles concernentes.
    Em resposta, o professor Cheikh Anta Diop apresentou alguns dados mais
pormenorizados: a datao por radiocarbono para o Saara ocidental indica
um perodo de clima mido entre 30.000 B.P. e 8000 B.P. aproximadamente,
com alguns intervalos de seca; do mesmo modo, a datao do perodo de seca
posterior vem sendo feita com mais preciso. Dataes semelhantes deveriam
ser obtidas para o Saara oriental; combinando-se esses resultados com uma
pesquisa paleoclimtica e o estudo de tmulos e gravuras, seria possvel obter
as informaes desejadas pelo professor Vercoutter.
    O professor Habachi apoiou irrestritamente a teoria a respeito das migraes
originrias do Saara, fundada nos estudos ora conhecidos. O professor Sve-
-Sderbergh admite que a maioria das culturas neolticas do vale do Nilo
pertencia ao complexo tecnolgico das culturas saariana e sudanesa; contudo, 
provvel que os movimentos migratrios tenham sido mais intensos antes e no
final do perodo neoltico subpluvial.
    Como alternativa  hiptese que postula uma migrao oriunda do Saara,
principalmente durante o Neoltico, o professor Diop sugeriu a possibilidade
de o povoamento ter-se expandido do sul para o norte, reafirmando a tese,
vrias vezes referida durante o debate, segundo a qual no Capsiense essa cultura
abrangia uma vasta rea entre o Qunia e a Palestina.
    Com relao aos perodos protodinstico e pr-dinstico, os professores Diop
e Vercoutter concordaram quanto  homogeneidade da populao dos limites
egpcios do vale do Nilo  extremidade meridional do Delta. J quanto  hiptese
da migrao do norte para o sul, os dois especialistas chegaram a um acordo
Anexo                                                                         839



apenas parcial; enquanto o professor Vercoutter acha-a de difcil aceitao, o
professor Diop rejeita-a totalmente. O desacordo surgiu no momento de definir
com mais preciso a natureza desses povos. O professor Diop admitiu tratar-se
dos Anu e os identificou na gravura assinalada por Petrie no templo de Abidos.
    Durante o perodo dinstico, a estabilidade da populao dos limites egpcios
do vale do Nilo se confirma pela estabilidade de sua cultura; o professor Diop
demonstrou o emprego do calendrio egpcio a partir de -4236; esse calendrio
apresentava desde o incio um padro cclico de 1461 anos. Segundo ele, at a
invaso persa, essa estabilidade s foi ameaada pelo violento terremoto ocorrido
por volta de -1450, responsvel por uma srie de migraes que afetou o
equilbrio de todos os pases localizados na orla da bacia mediterrnica oriental.
Sobreveio depois o ataque dos Povos do Mar, que assolaram o Delta egpcio
numa poca contempornea ao desaparecimento dos hititas e ao surgimento
dos protoberberes na frica setentrional. Alm dessa grande comoo, o nico
episdio importante na vida do povo egpcio, embora no relacionado com as
migraes, foi a conquista do pas pelo fara unificador Narmer, que avanou
na direo sul-norte, por volta de -3300.
    Essa anlise no foi debatida, mas expuseram-se outras teorias. O professor
Sve-Sderbergh procurou determinar, com base nas escavaes nbias, em que
perodos e condies o Egito dos faras se separou do sul. Na Nbia, a cultura
mais antiga desapareceu gradualmente ao final da I dinastia ou talvez no incio
da II. O Grupo C, que lhe sucedeu, no surgiu antes da VI dinastia, o que
nos deixa uma "lacuna cronolgica" de cerca de quinhentos anos, entre -2800
e -2300, sobre os quais no temos nenhuma informao at o momento. Em
vista de uma tal situao, parece evidente que os contatos ativos entre o Egito
faranico e o sul foram destrudos ou interrompidos.
    O mesmo acontece entre -1000 e o incio da Era Crist: no foi encontrado na
Baixa Nbia nenhum vestgio arqueolgico. Os vestgios merotas mais antigos
ali descobertos datam do sculo I da Era Crist; portanto os intercmbios entre
o Egito e o sul variaram consideravelmente entre -2800 e o perodo merota.
    Os professores Vercoutter e Leclant chamaram a ateno para o aparecimento,
desde a XVIII dinastia, de um modelo de representao do negro totalmente
distinto do que existia antes (no tmulo de Houy ou no tmulo de Rekhmira,
por exemplo). Como essas novas populaes vieram a aparecer na iconografia
egpcia? Seriam o resultado dos contatos dos egpcios com o sul ou de migraes
de populaes meridionais para o norte, em direo  Nbia? O professor
Shinnie contestou que essa informao permita inferir uma migrao do sul
para o norte que teria afetado a populao do Egito.
840                                                                                           frica Antiga



    Para o professor Leclant,  exceo do exemplo citado da XVIII dinastia,
nenhuma mudana importante ocorreu antes da XXV dinastia, quando os cuchitas
procedentes de Dongola surgiram no Egito. Assim sendo, ele tende a admitir
que o fenmeno se deveu mais a um aumento transitrio de uma determinada
influncia na vida da populao egpcia do que a eventuais migraes.
    Duas constataes sobretudo se impuseram com tal evidncia no decorrer
dos debates que no chegaram a ser seriamente contestadas:
    a) Existe um duplo problema com relao ao Delta do Nilo12 nos tempos
pr-histricos.
    Primeiro, como salientou o professor Debono, essa regio, ao contrrio
do Alto Egito,  muito pouco conhecida, pois ainda no se completaram as
escavaes em Merinde, El-Omari e Meadi-Helipolis.
    Os vestgios humanos descobertos at agora pertencentes aos tempos pr-
-histricos e ao perodo arcaico diferem dos encontrados no Alto Egito.
    Em segundo lugar, os fatores humanos que afetaram as condies de vida no
Baixo Egito ou no Delta, at onde podemos caracteriz-los antes do perodo
dinstico, parecem diferir daqueles observados no vale, ao sul dessa regio.
    b) Na Nbia setentrional, o estudo do substrato mais antigo da populao
tornou-se possvel graas s pesquisas arqueolgicas organizadas sob os auspcios
da Unesco. Por uma srie de razes, isso no ocorreu no restante da parte egpcia
do vale do Nilo, onde as investigaes referentes aos tempos pr-dinsticos e s
antigas culturas materiais produziram resultados bem mais precrios. As reservas
e hesitaes manifestadas por alguns cientistas quanto  possibilidade de se
extrarem concluses finais talvez se devam, em parte, a esse fato.
     inegvel que pelo menos um outro fator contribuiu para a complexidade
de uma discusso que de maneira geral se desenrolou sob a forma de monlogos
sucessivos e antagnicos. Esse fator apareceu claramente numa frase enunciada
pelo professor Obenga, embora no tenha sido comentado. Na opinio do
professor Obenga, um substrato cultural homogneo implica necessariamente
um substrato tnico homogneo.
    Independente da considerao simultnea ou no dessas duas ideias, parece que
elas no foram suficientemente dissociadas durante o debate; da as concluses
obtidas no terem sido to precisas quanto seria de esperar. A possibilidade de
encontrar pontos de acordo talvez tenha sido afetada por esse fato.


12    O professor HOLTHOER chamou a ateno para o trabalho de D. G. RDER, The Economic
      Development of Lower Egypt (Delta) during lhe Archaic Period (V-IV [cenluries] BC), coleta de artigos
      publicados no Journal of Ancient Egypt, 1960 (traduo do ttulo russo).
Anexo                                                                         841



    No entanto, considerados sem uma referncia de ordem racial, os dois
importantes temas obtiveram acordo quase unnime, ao menos como hipteses
de trabalho.
    O Neoltico foi provavelmente o perodo em que a populao do vale egpcio
do Nilo mais se viu afetada por migraes em larga escala. Duas teorias foram
formuladas para explicar esse fenmeno: uma delas admite que os migrantes
vieram principalmente da regio oriental do Saara, expandindo-se no sentido
norte-sul; a outra afirma que esses movimentos de populao procederam
do sul atravs do Nilo; a partir do perodo protodinstico, o povoamento do
Egito tornou-se bastante estvel. O carter desse povoamento no se alterou
radicalmente com os vrios movimentos populacionais que afetaram a vida
poltica e a situao militar do Egito, nem com os efeitos das relaes comerciais
do pas, nem com os esforos internos de colonizao agrcola ou com as
infiltraes a partir das regies vizinhas. A estabilidade tnica acompanhou-se
de um alto grau de estabilidade cultural.
    Contudo, durante a discusso da hiptese da homogeneidade da populao,
sustentada pelo professor Diop, e da hiptese de uma populao mista, perfilhada
por vrios outros especialistas, evidenciou-se um desacordo total.

   3. Resultados da investigao da antropologia fsica
    Em vrios pontos da discusso, evidenciou-se a necessidade de se definirem
com maior rigor os termos at aqui utilizados com vistas a uma descrio racial.
    O Sr. Gll, representante do Diretor-Geral da Unesco, interveio em
favor dos especialistas que propem a excluso dos termos "negro", "preto"
e "negroide", porque o conceito de raa estaria ultrapassado e porque seria
necessrio estabelecer uma aproximao entre os homens, repudiando -se
qualquer referncia a raa. O Sr. Gll lembrou aos participantes que a Unesco
empenha-se em promover um entendimento internacional e a cooperao na
esfera cultural, no sendo inteno da Organizao, quando decidiu presidir o
Simpsio, suscitar tenses entre povos ou raas, mas sim at onde  possvel
no atual estgio dos conhecimentos elucidar e esclarecer um dos vrios temas
que despertam dvidas, isto e, a questo do povoamento do antigo Egito da
perspectiva de sua origem tnica e de suas relaes antropolgicas. Portanto,
trata-se de comparar as teorias alternativas, avaliar os argumentos cientficos
em que se baseiam e fazer o balano da situao, ressaltando as lacunas quando
necessrio. De qualquer modo, salientou ele, os termos "negro", "negroide" e
"preto" sempre foram utilizados e mencionados em todos os estudos cientficos,
842                                                                      frica Antiga



como a palavra "hamita" ou "camita", embora no atual simpsio se tenham
levantado dvidas quanto  sua validade. Lembrou ainda que os autores da
Histria Geral da frica fizeram amplo uso dessas palavras, s quais os leitores
j estavam acostumados.
    Independente do que se possa pensar, o fato  que esses termos, tal como
vm utilizados nas obras especializadas e de vulgarizao, guardam ressonncia
razoavelmente significativa e so inseparveis de julgamentos de valor, implcitos
ou no. O Sr. Gll corroborou a afirmao de um especialista com referncia
s publicaes da Unesco sobre os problemas raciais. A Unesco no repudia a
ideia de raa; a Organizao consagrou um programa especial ao estudo das
relaes raciais e no mede esforos para combater a discriminao. Publicaram-
-se vrias obras sobre esse importante problema. Por conseguinte,  impossvel
examinar as questes relativas ao povoamento do antigo Egito rejeitando de
antemo, sem propor nenhum sistema novo, a classificao geralmente aceita
dos povos como brancos, amarelos e pretos tipologia tradicionalmente utilizada
pelos egiptlogos para classificar o povo do Egito. Alm disso, se o vocabulrio
tradicional habitualmente empregado pelos historiadores precisa ser revisto, no
se deveria reavali-lo apenas para a histria da frica, mas para a do mundo
inteiro. Se o simpsio considera o assunto importante, poderia submet-lo 
apreciao a nvel internacional, da associao dos historiadores. Na dependncia
da introduo de novos termos, as palavras "preto", "negro", "negroide" e "hamita",
de uso geral, deveriam ser definidas com maior rigor.
    O debate sobre esse tema foi iniciado pelo professor Vercoutter. Lembrou ele
que o problema foi suscitado pelo trabalho de Junker, que utilizou a palavra "negro"
para denotar o tipo de representaes surgidas durante a XVIII dinastia, depois
caricaturadas pelos egpcios. Junker usa a palavra "negro" fundamentalmente
com referncia  frica ocidental, ressaltando tanto a pigmentao quanto certas
caractersticas faciais.
    O professor Vercoutter tende a achar que, em vez de se adotar esse ponto
de vista antigo, seria essencial buscar critrios mais especficos no que respeita
a uma definio cientfica da raa negra; mencionou, em particular, o critrio
sanguneo e a questo do significado preciso do grau de pigmentao da pele, e
perguntou se os nbios, por exemplo, deveriam ser considerados negros.
    Essas questes suscitaram diferentes posicionamentos. Era desejo de muitos
dos participantes que a palavra "raa", que em diversas ocasies, recentemente;
despertara fortes reaes, fosse utilizada com prudncia. O professor Obenga
respondeu que a pesquisa cientfica reconhece a validade da noo de raa e que
no estudo das raas o racismo no est necessariamente implcito.
Anexo                                                                           843



    O debate revelou a dificuldade de conferir contedo cientfico aos termos
examinados. E mais: deixou claro que um nmero razovel de especialistas
reluta, por motivos bastante respeitveis, em utilizar-se desses termos, os quais
poderiam ser considerados, com toda razo, como revestindo implicaes
perigosas ou pejorativas. Alguns, ainda, so de parecer que no se pode esperar
que as respostas bsicas para essa questo venham de historiadores e arquelogos,
pois s a antropologia fsica poderia fornec-las.
    O professor Sve-Sderbergh foi apoiado por um nmero considervel de
participantes quando manifestou sua esperana de que a terminologia racial
venha a ser estudada por especialistas da moderna antropologia fsica. Uma
definio cientfica rigorosa seria til no apenas para a frica mas tambm,
e talvez ainda mais, para a sia; do mesmo modo, os conceitos de populao
mestia, populao composta e grupos populacionais requerem uma definio
mais precisa. A Unesco j havia sido consultada nesse sentido, a propsito das
pesquisas efetuadas na Nbia.
    O Sr. Gll afirmou que, sendo os critrios para classificar uma pessoa como
negra, branca ou amarela to discutveis e os conceitos em questo to mal
definidos e talvez excessivamente subjetivos ou inseparveis dos padres habituais
de pensamento, seria conveniente admitir esse fato e passar a reexaminar, com
base em critrios cientficos novos, toda a terminologia da histria mundial, a fim
de se proceder  uniformizao do vocabulrio e atribuir s palavras as mesmas
conotaes. Isso evitaria os mal-entendidos e favoreceria a compreenso e o acordo.
    Todavia, os professores Diop e Obenga foram imprudentes ao se referirem 
srie de critrios estabelecidos pelos antroplogos para caracterizar o negro: pele
negra, prognatismo facial, cabelo crespo, nariz chato (os ndices facial e nasal so
escolhidos de maneira muito arbitrria por diferentes antroplogos), estrutura
ssea negrtica (proporo entre os membros superiores e inferiores). De acordo
com Montei, o negro possui um rosto chato e "horizontal". O professor Abu
Bakr observou que, a serem vlidas essas afirmaes, os egpcios no poderiam
ser considerados negros.
    Prosseguindo, o professor Diop especificou que as mensuraes cranianas
nunca permitiram determinar a existncia de volumes enceflicos caractersticos
de uma ou outra raa.
    Para o professor Diop, existem duas raas negras, uma com cabelo liso e outra
com cabelo crespo; se a cor da pele  negra, parece improvvel que as outras
caractersticas bsicas, anteriormente mencionadas, no sejam encontradas.
Finalmente, se o grupo sanguneo A2  caracterstico dos brancos, os negros
tendem a pertencer ao Grupo B ou, num grau menor, ao Grupo C.
844                                                                     frica Antiga



    O professor Shinnie replicou que os especialistas americanos por ele
consultados durante a preparao deste colquio lhe afirmaram ser o estudo do
esqueleto um elemento importante, mas no suficiente, para a determinao da
raa; alm disso, os critrios considerados adequados pelo professor Diop, j no
so encarados da mesma forma pelos especialistas americanos, independente de
ser esta uma postura correta.
    O professor Obenga considerou a existncia de dois grupos pertencentes
a uma nica raa negra  um com cabelo liso e outro com cabelo crespo , e
retomou a questo geral colocada para este simpsio: admitindo-se como vlida
a noo de raa e no tendo sido rejeitada a noo de raa negra, que dizer da
relao entre essa raa e os egpcios antigos?'
    O professor Diop acredita que os resultados at o momento obtidos pela
investigao antropolgica so suficientes para se extrair uma srie de concluses.
O negroide grimaldi apareceu por volta de -32.000, o homem de Cro-Magnon,
prottipo da raa humana, aproximadamente em -20.000, e o homem de
Chancelade, prottipo da raa amarela, no perodo magdaleniense, em cerca
de -15.000. As raas semitas constituem um fenmeno social caracterstico do
meio urbano e so o resultado de uma mestiagem entre negros e brancos. Por
isso ele est plenamente convicto de que os primeiros habitantes do vale do
Nilo pertenciam  raa negra, tal como a definem os resultados das pesquisas
geralmente aceitos pelos especialistas em antropologia e pr-histria. Segundo
o professor Diop, s fatores de natureza psicolgica e educacional impedem o
reconhecimento dessa evidncia.
    Na medida em que o pressuposto da pesquisa efetuada na Nbia favorece
uma concepo universalista, os resultados da investigao tm pouca utilidade
neste debate. O professor Diop no  favorvel  criao de comisses para
verificar fatos evidentes, que hoje requerem to-somente um reconhecimento
formal: a seu ver, todas as informaes disponveis, mesmo aquelas contidas
nos estudos superficiais feitos no sculo XIX, corroboram a teoria de que,
nos tempos mais antigos, os egpcios tinham a pele negra, caracterstica que
perdurou at o Egito perder definitivamente sua independncia. Em resposta
s vrias questes que lhe foram formuladas, o professor Diop declarou que as
amostras j fornecidas pela arqueologia so suficientes para confirmar sua tese.
No seu entender,  possvel aceitar a proposio do professor Vercoutter, segundo
a qual a documentao antropolgica anterior a 1939, aproximadamente, deveria
ser considerada duvidosa por carecer de rigor cientfico.
    A tese do professor Diop, embora convincente, foi criticada por vrios
participantes.
Anexo                                                                            845



    A principal objeo foi a do professor Sauneron, para quem o nmero total
de pessoas que ocuparam o vale do Nilo entre o incio dos tempos histricos e
os tempos modernos poderia ser razoavelmente avaliado em vrias centenas de
milhes de indivduos. Escavaram-se algumas centenas de stios e estudaram-se
cerca de 2 mil corpos; os dados obtidos so to raros que se torna totalmente
irrealista querer a todo custo inferir deles concluses gerais to ambiciosas. Como
as amostras disponveis no so de todo representativas,  aconselhvel esperar
at que uma investigao rigorosa e suficientemente abrangente a respeito dos
aspectos gerais fornea evidncias de aceitao universal.

   4. A validade da investigao iconogrfica
    Tambm neste campo duas teorias se defrontaram. O professor Diop
acredita que, como os egpcios eram negros, sua iconografia pintada  que ele
incidentalmente no citou na sustentao de seu argumento  no poderia
representar seno o povo negro. O professor Vercoutter, apoiado pelos professores
Ghallab e Leclant, admitiu que a iconografia egpcia, desde a XVIII dinastia,
tem representaes caractersticas de povos negros que at ento no tinham sido
retratadas; isso significa que a partir da referida dinastia, pelo menos, os egpcios
estiveram em contato com povos considerados etnicamente diferentes deles.
    O professor Diop comentou que durante sua exposio introdutria, mostrara
uma srie de representaes do domnio exclusivo da escultura. Para ele, todas
retratam negros ou apresentam traos caractersticos das sociedades negras.
Solicitou que esses documentos fossem criticados e convidou os participantes a
apresentarem representaes comparveis de brancos em postura de dignidade
ou de comando, dos primrdios da poca faranica. Vrios participantes
responderam que jamais se pensou em descobrir no Egito representaes
comparveis s da estaturia grega, por exemplo. O professor Vercoutter disse
ser possvel apresentar numerosas representaes em que os seres humanos esto
pintados de vermelho, e no de preto, mas que o professor Diop se recusaria a
reconhec-las como no-negras. O professor El-Nadury no nega a existncia
de elementos negros na populao egpcia durante o Antigo Imprio, mas
parece-lhe difcil admitir que toda a populao fosse negra.
    O professor Vercoutter afirmou que a reproduo fotogrfica do fara
Narmer est bastante ampliada, com os traos provavelmente distorcidos, e que
considerar a pessoa representada como negra envolve uma assero subjetiva.
Essa tambm foi a opinio do professor Sve-Sderbergh, para quem a fotografia
poderia ainda ser interpretada como o retrato de um lapo.
846                                                                    frica Antiga



    O professor Vercoutter no contesta a possvel existncia de elementos
negros em todo o decorrer da histria egpcia, e ele prprio apresentou vrios
outros exemplos de representaes de negros. No entanto, em dois pontos ele
discordava dos fatos apresentados: foram selecionados indiscriminadamente,
com base em todo o perodo faranico, sem referncias precisas, e selecionados
para comprovar uma teoria. O professor Diop respondeu que procurou mostrar
apenas objetos ou cenas esculpidas, a fim de evitar eventuais discusses sobre o
significado das cores, mas que foi obrigado a utilizar o material disponvel em
Dacar. A lista era abrangente, estendendo-se desde o Antigo Imprio at o fim
do perodo faranico. Na verdade as evidncias comprovavam a tese, e qualquer
teoria contrria devia ser necessariamente confirmada por representaes
iconogrficas de egpcios "no-negros".
    Durante a prolongada discusso sobre as cores, os professores Vercoutter,
Sauneron e Sve-Sderbergh, por um lado, e o professor Diop, por outro, voltaram
a discordar, e nenhum dos lados fez qualquer concesso. Aparentemente, o nico
ponto de acordo foi o fato de o tema justificar outros estudos, em particular com
a ajuda de laboratrios especializados.
    O professor Vercoutter admite a existncia de representaes de negros
na escultura egpcia do Antigo Imprio, tendo citado exemplos. Mas no
acredita serem elas representativas da populao egpcia como um todo, pois
esta se encontra igualmente representada em esculturas contemporneas com
caractersticas totalmente diversas.
    O professor Vercoutter perguntou-se por que os egpcios, caso se
considerassem negros, raramente ou mesmo nunca utilizaram o carvo para
se representar, preferindo a cor vermelha. No entender do professor Diop, essa
cor seria indicativa da raa negra egpcia, e a colorao amarela das mulheres
ilustraria o fato, salientado pelos antroplogos americanos, de as mulheres de
vrios grupos raciais estudados serem sempre mais claras do que os homens.

      5. Anlises lingusticas
   Este item, ao contrrio dos debatidos anteriormente, revelou amplo consenso
entre os participantes. O resumo do professor Diop e o relatrio do professor
Obenga foram considerados bastante construtivos.
   O debate ocorreu em dois nveis.
   Em resposta  afirmao do professor Diop de que o egpcio no era uma
lngua semtica, o professor Abdalla observou que opinio oposta tem sido
expressa com frequncia.
Anexo                                                                         847



    Uma discusso gramatical e semntica confrontou o professor Diop e o
professor Abdalla a propsito da raiz, que o primeiro interpreta como kmt,
que viria de km ("preto") e seria um nome coletivo que significaria "pretos, isto
, negros". O professor Abdelgadir M. Abdalla perfilha a interpretao aceita
como kmtyw e traduzida por "egpcios", plural de kmty, "egpcio", forma nisba
derivada de kmt ("pas negro, isto , Egito"). O professor Sauneron corroborou
a interpretao e a traduo do professor Abdalla.
    Abordando questes mais amplas, o professor Sauneron sublinhou o interesse
do mtodo sugerido pelo professor Obenga, seguindo o professor Diop. A lngua
egpcia permaneceu estvel durante um perodo de pelo menos 4500 anos.
O Egito situava-se no ponto de convergncia de influncias exteriores, sendo
lcito supor que tenham ocorrido emprstimos de lnguas estrangeiras; mas as
razes semitas limitam-se a umas poucas centenas, em contraste com um total
de vrios milhares de palavras. A lngua egpcia no poderia ser isolada de seu
contexto africano, e sua origem no seria totalmente explicada com base no
semita; por conseguinte,  perfeitamente normal a expectativa de encontrar
lnguas aparentadas na frica.
    Entretanto, uma abordagem metdica rigorosa se defronta com o difcil
problema da lacuna cronolgica de 5 mil anos, perodo que separa o egpcio
antigo das lnguas africanas atuais.
    O professor Obenga chamou a ateno para o fato de que uma lngua que
no se fixou por meio da forma escrita e se desenvolveu normalmente poderia
reter certas formas antigas; exemplos ilustrativos desse problema foram por ele
citados na comunicao apresentada no primeiro dia do simpsio.
    O professor Sauneron observou que o mtodo utilizado se reveste de
grande interesse, pois no poderia ser meramente casual a semelhana entre
pronomes sufixados na terceira pessoa do singular em egpcio antigo e em
wolof; sua expectativa  que se faa um esforo de reconstituio de uma lngua
paleoafricana, utilizando-se as lnguas atuais como ponto de partida. Isso
facilitaria a comparao com o egpcio antigo. Segundo o professor Obenga,
trata-se de um mtodo aceitvel. O professor Diop julga essencial estabelecer
um mtodo de pesquisa assentado em comparaes lingusticas, e deu um
exemplo especfico do que pretende. Ele considera os grupos dinka, nuer, shilluk
e suas respectivas lnguas, por um lado, e o wolof, por outro, tnica e, em menor
grau, linguisticamente aparentados. Os nomes prprios senegaleses ocorrem nos
referidos grupos no nvel de cl. Mais especificamente, o professor Diop acredita
ter encontrado entre os Kaw-Kaw, nas montanhas nbias, o vnculo mais claro
entre o egpcio antigo e o wolof.
   O professor Vercoutter declarou que considera significativa a existncia, no
tmulo de Sebekhotep, de representaes de trs nilotas que sem dvida eram
ancestrais dos Dinka ou dos Nuer.

   6. Desenvolvimento de uma metodologia interdisciplinar e
   pluridisciplinar
   Neste ponto todos concordaram ser necessrio estudar da forma mais
detalhada possvel todas as reas perifricas do vale do Nilo que possam fornecer
novas informaes sobre a questo examinada no simpsio.
   O professor Vercoutter julga necessrio dar o devido peso  paleoecologia do
Delta e da vasta regio que o professor Balout chamou de Crescente Frtil africano.
   O professor Cheikh Anta Diop acha conveniente seguir as rotas dos povos
que migraram do Darfur para oeste, atingindo a costa atlntica por trajetos
distintos: para o sul, ao longo do vale do Zaire, e para o norte, em direo ao
Senegal, cercando pelos dois lados os Iorub. Salientou a importncia de se
estudarem mais pormenorizadamente as relaes do Egito com o restante da
frica e mencionou a descoberta; na provncia de Shaba, de uma estatueta de
Osris datada do sculo VII antes da Era Crist.
   Dever-se-ia empreender tambm um estudo geral da hiptese de trabalho
segundo a qual os principais acontecimentos que afetaram o vale do Nilo, como
o saque de Tebas pelos srios ou a invaso persa de -525, tiveram profundas
repercusses no continente africano como um todo.

   D    Concluso Geral
   Os resultados gerais deste Simpsio certamente sero avaliados de forma
muito diferente pelos vrios participantes.
   Embora o texto preparatrio enviado pela Unesco especificasse o que se
esperava do Simpsio, nem todos os participantes prepararam comunicaes
comparveis s contribuies, minuciosamente pesquisadas, dos professores
Cheikh Anta Diop e Obenga. Em consequncia, houve um verdadeiro
desequilbrio nas discusses.
   No entanto, por uma srie de razes, as discusses foram muito construtivas.
   1. Em vrios casos, demonstrou-se claramente a importncia da troca de
novas informaes cientficas.
   2. Quase todos os participantes se convenceram das deficincias dos critrios
metodolgicos at agora utilizados na pesquisa.
Anexo                                                                         849



   3. Chamou-se a ateno para exemplos de novas abordagens metodolgicas,
mediante as quais seria possvel estudar de maneira mais cientfica a questo
proposta para o simpsio.
   4. De qualquer modo, este primeiro encontro deve ser considerado como
ponto de partida para outros debates internacionais e interdisciplinares e para
outras pesquisas que se mostraram claramente necessrias. O grande nmero de
recomendaes reflete o desejo manifestado no simpsio de sugerir um futuro
programa de pesquisa.
   5. Finalmente, o simpsio proporcionou aos especialistas que nunca tiveram
a oportunidade de comparar e contrastar seus pontos de vista, a oportunidade
de descobrir outras abordagens para os problemas tratados, outras fontes
de informaes e outras linhas de pesquisa, diferentes daquelas a que esto
habituados.  inegvel que deste ponto de vista o simpsio tambm se mostrou
construtivo.

   E    Recomendaes
   O simpsio chamou a ateno da Unesco e outras organizaes competentes
para as seguintes recomendaes:

   1. Antropologia fsica
    desejvel:
   I.   que a Unesco organize uma investigao internacional, quer atravs de
        consultas universitrias num nmero razovel de pases, quer junto a
        especialistas individuais de reputao internacional, ou ainda atravs
        de um simpsio que estabelea normas bastante precisas com base
        nos princpios cientficos o mais rigorosos possvel para definir raas e
        identificar o tipo racial dos esqueletos exumados.
   II. que se solicite a colaborao dos servios mdicos de vrios Estados-
        -membros da Unesco para que durante as autpsias se faam observaes
        estatsticas sobre as caractersticas osteolgicas dos esqueletos.
   III. que se reexaminem os vestgios humanos que j se encontram nos
        museus de todo o mundo e que se faa um rpido estudo dos vestgios
        descobertos durante escavaes recentes no Egito, em particular no
        Delta, para se ampliarem as informaes disponveis.
   IV. que as autoridades egpcias faam o possvel no sentido de facilitar o
        estudo necessrio dos vestgios de pele examinveis e que concordem
        com a criao de um departamento especializado em antropologia fsica.
850                                                                            frica Antiga



      2. Estudo de migraes
       desejvel que se empreendam os seguintes trabalhos:
      I. estudo arqueolgico sistemtico sobre os perodos mais antigos da ocupao
           humana do Delta. Essa operao poderia ser precedida pela anlise de uma
           amostra bsica extrada do solo do Delta. O estudo e a datao dessa amostra
           geolgica bsica poderiam realizar-se simultaneamente no Cairo e em Dacar.
      II. investigao comparvel nas regies do Saara fronteiras ao Egito e aos osis.
           Essa pesquisa deveria incluir o estudo simultneo de desenhos e pinturas
           rupestres e do conjunto do material arqueolgico disponvel. Ainda aqui,
           as amostras geolgicas poderiam ser analisadas e datadas ao mesmo tempo.
      III. investigao no prprio vale, comparvel  realizada na Nbia setentrional,
           que se concentraria nas sepulturas no-faranicas, no estudo das antigas
           culturas materiais e, em geral, na Pr-Histria do vale como um todo;
      IV. pesquisa sobre os vestgios paleoafricanos na iconografia egpcia e seu
           significado histrico: os exemplos do babuno e da pele de leopardo ("pantera")
           j foram citados pelo simpsio. Com certeza seria possvel descobrir outros.

      3. Lingustica
    O simpsio recomenda que se faa sem demora um estudo lingustico sobre
as lnguas africanas prestes a desaparecer: sugeriu-se o kaw-kaw como exemplo
caracterstico.
    Ao mesmo tempo, a cooperao de especialistas em lingustica comparada
deveria realizar-se a nvel internacional, a fim de se estabelecerem todas as
correlaes possveis entre as lnguas africanas e o egpcio antigo.

      4. Metodologia interdisciplinar e pluridisciplinar
      O simpsio espera sinceramente que:
      I. os estudos interdisciplinares regionais sejam empreendidos em vrias
          regies, com as seguintes prioridades:
          Darfur;
          a regio entre o Nilo e o mar Vermelho;
          a margem oriental do Saara;
          a regio do Nilo ao sul do 10o paralelo;
          o vale do Nilo entre a Segunda e a Sexta Catarata.
      II. seja efetuada com urgncia uma pesquisa interdisciplinar sobre os Kaw-
          -Kaw, ameaados de rpida extino.
Anexo                                                                                   851



     II Decifrao da escrita merota


     Relatrio preliminar
    1. A pedido da Unesco, o professor J. Leclant preparou um relatrio
preliminar13.
    a) A lngua merota, utilizada pelas culturas de Napata e de Mroe, ainda no
foi compreendida, embora j se lhe tenha decifrado a escrita.
    Como demonstram os relatos histricos dos estudos sobre o merota, as
inscries coletadas ao acaso no decorrer das escavaes s foram objeto de
pesquisas sistemticas nos ltimos anos.  provvel que, no futuro, as pesquisas
arqueolgicas venham a revelar novas inscries; at agora nada se descobriu na
regio entre a Segunda e a Quarta Catarata; o mesmo sucede com as rotas de
passagem em direo ao mar Vermelho, aos grandes vales do oeste, ao Kordofan
e ao Darfur.
     particularmente importante insistir no trabalho arqueolgico, na medida
em que  razovel esperar que algum dia se descubra uma inscrio bilngue.
    b) Os resultados foram publicados integralmente nas Meroitic Newsletters
(13a edio), o que permitiu a rpida difuso de descobertas por vezes ainda
provisrias. As reunies regulares de especialistas ocorreram em Cartum em
dezembro de 1970, em Berlim Oriental em setembro de 1971 e em Paris em
junho de 1972 e julho de 1973; os resultados desse ltimo encontro foram
publicados na Nota de Informao no 34 do Comit Cientfico Internacional
para a Redao de uma Histria Geral da frica, Unesco.
    H muitos anos comeou tambm o trabalho de anlise da lngua merota por
via da informtica, o que permitiu um considervel e rpido progresso naquele
domnio. A compilao de listas de stichs tornou possvel dar incio  anlise da
estrutura da lngua. Atualmente, o ndice de palavras registradas contm 13.405
unidades. Alm disso, descobriu-se uma linguagem para formular questes 
mquina.
    Como ponto de partida, procurou-se usar palavras cujo significado era
conhecido ou poderia ser inferido para tentar a comparao com o egpcio ou
o nbio.
    c) O professor Leclant terminou sua exposio resumindo as linhas de
pesquisa atualmente em curso:


13   Ver esse relatrio preliminar no Anexo IV do Relatrio Final do Simpsio (1974).
852                                                                   frica Antiga



       o professor Hintze trabalha com as estruturas;
       o professor Schaenkel aperfeioa os dados a serem registrados pelo
        computador;
     o professor Abdelgadir M. Abdalla desenvolve uma pesquisa sobre
        a qual falou brevemente e cujos resultados corroboram os da equipe
        internacional.
    No futuro, procurar-se- comparar o merota com outras lnguas africanas
e descobrir o lugar que ocupa no conjunto dessas lnguas, principalmente em
relao ao nbio; tambm se tentar compar-lo com as lnguas faladas nas reas
fronteirias da regio etope; finalmente, seria desejvel proceder  comparao
com o conjunto das lnguas africanas.

      Debate
    1. O professor Abdalla confirmou que endossa o sistema adotado para
transcrever o merota e o mtodo criado para registrar os textos. Chamou a
ateno para as lacunas de nosso conhecimento: ignorncia quase total do
sistema dos pronomes, do uso dos pronomes demonstrativos, da natureza dos
prefixos e sufixos. Lembrou que  essencial conhecer o parentesco lingustico
do merota.

   2. O professor Abdalla mostrou-se favorvel a um trabalho de dissecao
da lngua, de forma a estudar seus componentes. Sublinhou a mobilidade dos
elementos formativos dos nomes de pessoas, que envolvem um aspecto social: os
mesmos elementos mveis ocorrem nos nomes de vrios membros de uma dada
famlia; os nomes de certas crianas encerram elementos tirados dos nomes de
sua me e de seu pai; certos nomes constituem os ttulos, outros contm nomes
de lugares.
   3. Para o professor Shinnie, h trs mtodos de abordagem possveis: a
descoberta de um texto bilngue, a anlise interna da estrutura da lngua e a
comparao com outras lnguas africanas.
   A comparao direta entre as duas principais lnguas no-rabes do Sudo
setentrional e a do Grupo M foi infrutfera; talvez o merota pudesse ajudar
nessa tarefa.
   4. O professor Kakosy, presente como observador, enfatizou a necessidade
do estudo de fontes documentais. Informou sobre a presena em Budapeste
de fragmentos de mesas de oferenda provenientes de um stio prximo a Abu
Simbel e props inclu-los imediatamente no Repertrio de Epigrafia Merota.
Anexo                                                                         853



    5. O professor Cheikh Anta Diop manifestou sua satisfao com os
progressos realizados. Dependendo de possvel descoberta de um texto bilngue,
sugeriu o emprego de mtodos baseados no computador, os quais possibilitaram
a decifrao parcial dos hierglifos maia pela equipe de Leningrado chefiada
pelo professor Knorossov. A maior parte dos escritos foi decifrada com a ajuda
de textos bilngues ou multilngues. No caso do merota, o procedimento correto
seria combinar o multilinguismo e as potencialidades do computador da seguinte
maneira:
    a) postular, por meio de um procedimento puramente metodolgico, um
parentesco entre o merota e as lnguas negro-africanas, o que  uma maneira
de reencontrar o multilinguismo;
    b) Uma vez que dispomos atualmente, em cartes perfurados, de 22 mil
palavras merotas de leitura razoavelmente segura, estabelecer um vocabulrio
bsico de quinhentas palavras por lngua para cem lnguas africanas rigorosamente
escolhidas por uma equipe de linguistas devidamente credenciada. As palavras
selecionadas poderiam ser as que indicam, por exemplo, as partes do corpo, as
relaes de parentesco, o vocabulrio religioso, os termos relativos  cultura
material, etc.;
    c) o computador deveria ser programado para reconhecer, por exemplo, trs
consoantes idnticas, duas consoantes idnticas, etc.;
    d) com base nos resultados obtidos, seria necessrio comparar as estruturas
das lnguas justapostas.
    Esse mtodo  mais racional que a comparao casual de estruturas
lingusticas, pois ainda se sabe muito pouco sobre a gramtica merota. A
utilizao desse mtodo  mais eficiente do que esperar o resultado de um
estudo no-comparativo da estrutura interna do merota.
    O professor Leclant apoiou esse modelo de procedimento operacional e de
investigao, por ser passvel de fornecer informaes valiosas. Considerou til
fazer as concordncias no apenas das caractersticas realmente presentes como
tambm das no-presentes (ausncia de certas estruturas ou sequncias).
    O Sr. Gll perguntou em que medida os mtodos utilizados para decifrar
outras lnguas tambm poderiam servir para esclarecer o mistrio que envolve
a lngua merota. Declarou que os professores Knorossov, Pietrowski, Holthoer
e Hintze haviam sido convidados  reunio esperando-se que fornecessem as
informaes necessrias.
    O professor Leclant declarou que se fez um amplo estudo sobre aquela
questo nos encontros de Paris e Londres, no vero de 1973. Tanto o trabalho
854                                                                    frica Antiga



sobre a escrita mohenjo-daro quanto o trabalho sobre a escrita maia ainda se
encontram no estgio de hipteses.
    O professor Diop, porm, espera que no se abandone a ideia de utilizar
mtodos comparativos paralelamente ao estudo de estruturas. Sua proposta foi
aprovada pelo professor Sauneron, que aproveitou a oportunidade para assinalar
a importncia do trabalho j realizado pelo Grupo de Estudos Merotas.
    Em seguida, a discusso se concentrou mais especificamente nas lnguas
sudanesas; o professor Sve-Sderbergh salientou que sempre  importante
estud-las, pois, alm da comparao com o merota, seu conhecimento
permitiria o avano da lingustica africana. O professor Sve-Sderbergh
submeteu  apreciao dos presentes os elementos de uma recomendao nesse
sentido. Enfatizou tambm que mesmo com somas pequenas  possvel instalar
um secretariado eficiente e acelerar a coleta de material, seu processamento pelo
computador e a redistribuio da informao.
    Finalmente, discutiu-se o contedo da recomendao. O professor Diop
disse esperar que o excelente trabalho realizado pelo Grupo de Estudos Merotas
tenha continuidade e conte com a plena cooperao internacional, que se faa
uma compilao sistemtica do vocabulrio do Sudo e que se realize uma
compilao idntica em outras regies da frica, com a colaborao do professor
Obenga. O professor Sauneron aceitou sem restries todas essas propostas.
Como, em ltima instncia,  incerta a relao desse trabalho com a decifrao
do merota, ele afirmou esperar que o estudo das lnguas africanas, em seu prprio
benefcio, venha a desenvolver-se de maneira autnoma, mesmo se parcialmente
incorporado no projeto global. Isso poder demorar muito, e  essencial, aps
uma rigorosa avaliao crtica, que se determine desde o incio uma metodologia
bastante segura. O professor Obenga apoiou a ideia e sugeriu que se faa um
inventrio das caractersticas gramaticais do merota correntemente conhecidas.
O professor Leclant admitiu que tal proposta poderia efetivar-se de imediato.
O professor Habachi manifestou a esperana de que no se relegue a segundo
plano a necessidade de uma investigao arqueolgica.
    Respondendo  proposta metodolgica do professor Obenga, o Sr. Gll
afirmou que a questo dos mtodos a adotar seria decidida quando se completasse
a composio da equipe internacional responsvel. Explicou que a Unesco est
dando apoio aos estudos efetuados em Cartum sobre as lnguas sudanesas e que
se dispe a conceder subvenes de acordo com seus procedimentos normais.
A Unesco est financiando e dirigindo um programa sobre lingustica africana
e acabou de aprovar um plano de dez anos com esse objetivo.
Anexo                                                                            855



   Recomendaes
    1. a) O colquio se declara satisfeito com os trabalhos realizados pelo Grupo
de Estudos Merotas de Paris, em colaborao com especialistas de vrios outros
pases, e expressou a opinio de que os trabalhos repousam em bases slidas e
prometem bons resultados.
    b) Por unanimidade, o colquio decidiu sugerir as seguintes medidas para
dar prosseguimento ao projeto:
    I. acelerar os trabalhos de informtica mediante obteno de crditos
         adicionais e fazer circular as informaes, numa forma revisada e
         elaborada, para os principais centros de estudos merotas;
    II. elaborar listas de nomes de pessoas e, sempre que possvel, de nomes
         de lugares e de ttulos; classificar as estruturas lingusticas e procurar a
         colaborao dos especialistas em lingustica africana;
    III. elaborar e publicar um corpus completo de todos os textos merotas,
         com bibliografia, fotografias, fac-smiles e transcries baseadas na
         documentao existente (Repertrio de Epigrafia Merota);
    IV. elaborar um vocabulrio merota completo.
    c) Uma vez que os resultados do projeto at agora obtidos so cientificamente
slidos e prometem um desenvolvimento feliz, considerando que as despesas
maiores j foram cobertas por fundos provenientes de fontes diversas, este
colquio considera imperativo assegurar a sua continuidade e concluso,
fornecendo fundos para os seguintes propsitos:
    I. custos de secretariado e pessoal para publicao do material documental
         e cientfico;
    II. custos de pesquisas em colees e museus;
    III. despesas de viagem dos especialistas;
    IV. custos de perfurao de cartes e de tempo do computador.

    2. O prximo passo da pesquisa consistiria em estudos comparativos
estruturais e lexicogrficos das lnguas africanas. Em primeiro lugar, seriam
estudadas as lnguas do Sudo e das regies fronteirias da Etipia, algumas
delas em via de desaparecimento. Nesse caso, a melhor soluo seria oferecer um
treinamento lingustico aos estudantes sudaneses da Universidade de Cartum,
de preferncia aos que as tm como lngua-me.
    Este treinamento seria igualmente valioso para a consecuo de vrios outros
objetivos. Tal projeto, que complementaria o proveitoso trabalho j em curso no
856                                                                   frica Antiga



Sudo, precisaria ser negociado com a Universidade de Cartum, solicitando-se
os financiamentos para as bolsas necessrias.

   3. Alm disso, seria conveniente realizar um estudo lingustico mais amplo
de todas as lnguas africanas, com o objetivo de coletar as palavras-chave. Essa
pesquisa seria feita em colaborao com o Grupo de Estudos Merotas e dirigida
por especialistas selecionados pela Unesco, em cooperao com o Comit
Cientfico Internacional para a Histria Geral da frica. A escolha deveria
limitar-se a aproximadamente quinhentas palavras de categorias escolhidas de
uma centena de lnguas.
   Essa coleo, depois de computada, seria um instrumento valioso no s para
a decifrao da lngua merota como tambm para a soluo de vrios outros
problemas lingusticos da frica moderna.
Concluso                                                                 857




                              Concluso
                                  G. Mokhtar




   Neste volume procuramos mostrar as principais caractersticas do incio
da histria da frica: grandes transformaes, contatos fundamentais entre as
diversas regies, estado das sociedades e coletividades africanas no mbito do
perodo considerado.
   Encontram-se assim definidos um quadro geral e as principais linhas de
orientao das pesquisas e dos estudos. No entanto, parece desde j possvel tirar
certas concluses, formular algumas hipteses, muito embora  nunca  demais
sublinh-lo  um trabalho considervel ainda esteja por ser feito.
   Os captulos consagrados ao antigo Egito demonstram que antes do
terceiro milnio da Era Crist j se havia atingido ali um nvel intelectual,
social e material mais elevado do que na maioria das outras regies do mundo.
Remontando  noite dos tempos, original e rica de iniciativas, a civilizao do
antigo Egito  que nasceu da conjuno de um meio favorvel e de um povo
decidido a domin-lo com real conhecimento  durou quase trs milnios. O
papel dos elementos naturais no desenvolvimento dessa civilizao  sem dvida
importante e notvel, mas apenas na medida em que os egpcios lutaram para
dominar seu meio ambiente, superar as dificuldades e os problemas por ele
colocados e p-la a servio de sua prosperidade.
   Com a inveno da escrita, no curso do perodo pr-dinstico, o Egito antigo
deu um grande passo no sentido da civilizao. A escrita ampliou o campo
858                                                                     frica Antiga



da comunicao humana, abriu as mentes, estendeu os conhecimentos. Sua
inveno foi mais importante do que qualquer xito, militar ou de outra ordem,
dos egpcios. Os primeiros caracteres remontam aproximadamente ao ano 3200
antes da Era Crist; ainda hoje a lngua copta  utilizada nas igrejas coptas do
pas. Pode dizer-se que essa lngua, que atravessou cinquenta sculos,  o mais
antigo idioma do mundo. A inveno da escrita foi a principal etapa que os
egpcios passaram na longa trajetria que conduz  civilizao e  prosperidade.
    Nosso conhecimento sobre o antigo Egito deve -se principalmente 
descoberta da escrita e ao estabelecimento de uma cronologia. J no utilizamos
hoje o mesmo sistema, porquanto os antigos egpcios datavam os acontecimentos
cuja lembrana desejavam conservar em funo do rei que governava na poca.
Mas, com a ajuda desse sistema, o historiador Manton de Sebennytos pde
classificar os soberanos do Egito em trinta dinastias, de Mens a Alexandre,
o Grande. Os eruditos modernos reagruparam vrias dinastias sob o nome de
Imprios: h, assim, o Antigo Imprio, o Mdio Imprio e o Novo Imprio.
    Embora o Egito estivesse aberto s correntes culturais vindas sobretudo do
Oriente, este volume mostra que, em grande medida, a civilizao repousa em
bases africanas; mostra igualmente que o Egito, que  uma parte da frica,
foi outrora o principal centro da civilizao universal, de onde se irradiaram a
cincia, a arte e a literatura, influenciando principalmente a Grcia. Nos domnios
da matemtica (geometria, aritmtica, etc.), da astronomia e da medio do
tempo (calendrios, etc.), da medicina, da arquitetura, da msica e da literatura
(narrativa, lrica, dramtica, etc.), a Grcia recebeu, desenvolveu e transmitiu
ao Ocidente boa parte da herana egpcia  do Egito faranico e ptolomaico.
Por intermdio da Grcia, a civilizao do antigo Egito entrou em contato no
apenas com a Europa, mas tambm com a frica do Norte e mesmo com o
subcontinente indiano.
    As opinies se dividem quanto ao problema do povoamento do Egito, objeto
de estudos srios e aprofundados. Espera-se que os grandes progressos realizados
na metodologia da cincia antropolgica permitam estabelecer, num futuro
prximo, concluses definitivas sobre o assunto.
    Segundo as fontes mencionadas neste volume, a Nbia esteve, desde os
primeiros tempos, estreitamente ligada ao Egito por uma srie de semelhanas:
semelhana fsica, em primeiro lugar, principalmente entre a Nbia e o extremo
sul do Alto Egito; semelhana histrica e poltica, cuja importncia intrnseca
foi consideravelmente reforada pelo aspecto fsico; semelhana social, cultural
e religiosa. Assim, do comeo da primeira dinastia at o fim do Antigo Imprio,
os egpcios se mostraram muito interessados pelo norte da Nbia, por eles
Concluso                                                                      859



considerado como elemento complementar de seu prprio pas. Organizaram
trocas comerciais com os nbios, exploraram os recursos naturais do territrio e
responderam a toda resistncia nbia com o envio de misses militares. Algumas
expedies do Antigo Imprio, dirigidas por grandes pioneiros da viagem e da
explorao, como Ony, Mkhu, Sabni e Khuefeher (Herkhuf ), penetraram no
Saara e talvez na frica central.
    O interesse do Egito pela Nbia traduziu-se particularmente na construo
de numerosos templos, que se destinavam, a par de sua funo religiosa, a
ilustrar a civilizao e a fora do Egito, o poder e a santidade de seu soberano.
Tal interesse explica-se sobretudo pelo fato de a Nbia ter constitudo, desde
tempos muito antigos, o lugar de passagem das mercadorias comerciadas entre
o Mediterrneo e o corao da frica. Alis, podem-se ver a as runas de
fortalezas dos perodos faranicos, destinadas a proteger os comerciantes e a
manter a paz nessas regies.
    Contudo, desde os tempos pr-histricos a Nbia constitua uma unidade
geogrfica e social, sempre habitada por povos cuja cultura se assemelhava 
do alto vale do Nilo. Mas a partir de 3200 antes da Era Crist os egpcios
comearam a ultrapassar seus vizinhos do sul no domnio cultural e a progredir a
passos de gigante no sentido da civilizao; s muito tarde iria a Nbia segui-los.
A civilizao de Kerma, rica e prspera, floresceu na Nbia na primeira metade
do segundo milnio antes da Era Crist. Embora fortemente influenciada pela
cultura egpcia, tinha ela suas prprias caractersticas locais. Aps o incio do
primeiro milnio antes da Era Crist, no momento do declnio do poderio
egpcio, instalou-se uma monarquia autctone (com a capital em Napata), que
posteriormente viria a reinar no Egito. A dominao nbia no Egito, que durou
cinquenta anos no decorrer do stimo perodo (primeira parte da XXV dinastia),
realizou a unio entre os dois pases. A fama dessa grande potncia africana era
excepcional, como testemunham os autores clssicos.
    Aps a transferncia da capital para Mroe, a Nbia conheceu, at quase
o sculo IX, um perodo de progresso e prosperidade e restabeleceu alguns
contatos com seus vizinhos. A expanso da monarquia merotica a oeste e ao sul,
seu papel na difuso das ideias e das tcnicas e na transmisso das influncias
orientais e ocidentais ainda esto em fase de estudo. Por outro lado, mesmo aps
a publicao deste volume, seria conveniente reanimar os esforos empreendidos
para decifrar a escrita merotica. Ter-se-ia assim acesso a informaes diversas
contidas em cerca de 900 documentos, e disporamos, ao lado da lngua faranica,
de uma nova lngua clssica de carter estritamente africano.
860                                                                    frica Antiga



    A partir do sculo IV da Era Crist, o cristianismo comeou a estender-
-se pela Nbia, onde os templos foram transformados em igrejas. A Nbia
crist desempenhou um papel histrico ativo, obteve numerosos xitos e exerceu
notvel influncia sobre seus vizinhos. A Nbia crist conheceu a idade do ouro
no sculo VIII, com seu primeiro perodo de desenvolvimento e prosperidade.
    A Nbia permaneceu como monarquia crist at a chegada do islamismo.
Foi ento invadida pela cultura islmica rabe e perdeu muito do seu carter
tradicional.
    Em vista de sua situao geogrfica, a Nbia desempenhou um papel especial
 por vezes involuntariamente  como intermediria entre a frica central e o
Mediterrneo. O reino de Napata, o imprio de Mroe e o reino cristo fizeram
da Nbia o ponto de ligao entre o norte e o sul. Graas a ela, a cultura, as
tcnicas e os instrumentos se expandiram at as regies vizinhas. Prosseguindo
incansavelmente nossas pesquisas, talvez possamos descobrir que a civilizao
egpcio-nbia desempenhou na frica um papel anlogo ao da civilizao greco-
-romana na Europa.
    A histria da Nbia antiga ressurgiu recentemente, quando da elaborao
do projeto da barragem de Assu. Logo se tornou bvio que tal barragem
implicaria a submerso de dezesseis templos e de todos os tmulos, capelas,
igrejas, inscries na rocha e demais stios histricos da Nbia, que o tempo at
ento deixara quase intactos. A pedido do Egito e do Sudo, a Unesco lanou em
1959 um apelo a todas as naes, a todas as organizaes e a todos os homens
de boa vontade, pedindo-lhes ajuda tcnica, cientfica e financeira para salvar
os monumentos da Nbia. O sucesso da campanha internacional que se seguiu
salvou a maior parte desses monumentos, que representam sculos de histria
e encerram a chave das primeiras civilizaes.
    A realizao de novas escavaes arqueolgicas nos arredores do stio de
Kerma, onde os ritos funerrios eram idnticos, em particular, aos de Gana, da
regio de Dongola e dos osis do sudoeste, poderia dar-nos uma ideia melhor
sobre algumas afinidades culturais arcaicas e, talvez revelar-nos outros elos da
corrente cultural entre o vale do Nilo e o interior da frica. De qualquer modo,
poderia fornecer-nos maiores esclarecimentos acerca do itinerrio seguido por
exploradores do Antigo Imprio, como Herkhuf.
    A princpio sob influncia da Arbia do Sul, a Etipia forjou uma cultura cuja
fora unitria  pouco conhecida. Fontes materiais que remontam ao segundo
perodo pr-axumita provam a existncia de uma cultura local que assimilara
influncias estrangeiras.
Concluso                                                                      861



    O reino de Axum, que durou aproximadamente mil anos a partir do primeiro
sculo da Era Crist, assumiu uma forma toda particular, diversa da do perodo
pr-axumita. Como a do Egito antigo, a civilizao de Axum era fruto de um
desenvolvimento cultural cujas razes mergulhavam na pr-histria. Era uma
civilizao africana, produzida por um povo da frica. No entanto, podem-se
encontrar na cermica do segundo perodo pr-axumita traos de influncia
merotica.
    Nos sculos II e III, a influncia merotica foi predominante na Etipia. A
estela de Axum, h pouco descoberta, com o smbolo egpcio da vida (Ankh)
e objetos ligados a Htor, Ptah e Hrus, ao lado de escaravelhos, mostra a
influncia da religio egpcia de Mroe sobre as crenas axumitas.
    O reino de Axum era uma grande potncia comercial nas rotas que ligavam
o mundo romano  ndia e a Arbia  frica setentrional; era tambm um
grande centro de informao cultural. At o presente, estudaram-se somente
alguns aspectos da cultura axumita e de suas razes africanas. Muita coisa ainda
deve ser feita.
    A chegada do cristianismo provocou, como no Egito e em Mroe, grandes
mudanas na cultura e na vida dos etopes. O papel do cristianismo e sua
persistncia na Etipia, sua influncia no interior e no exterior desse territrio,
so assuntos interessantes que merecem estudo mais aprofundado.
    Considerando os limites de nossas fontes histricas, devemos esperar, para
melhor conhecer a evoluo da cultura lbia e o modo como reagiu  introduo
da civilizao fencia, que os arquelogos e os historiadores tenham progredido
em seus trabalhos.
    Em consequncia, julgamos que a entrada do Magreb na histria documentada
ocorre com a chegada dos fencios  costa da frica do Norte, ainda que os
contatos dos cartagineses com os povos do Saara e mesmo com aqueles que
habitavam mais ao sul permaneam mal conhecidos. Note-se, alis, que a cultura
da frica do Norte no  devedora apenas dos fencios: sua inspirao original
 essencialmente africana.
    Foi durante o perodo fencio que o Magreb entrou na histria geral do
mundo mediterrneo; a civilizao fencia comportava elementos egpcios e
orientais e era tributria de suas relaes comerciais com os outros pases do
mediterrneo. No ltimo perodo dos reinos da Numdia e da Mauritnia,
observa-se uma evoluo no sentido de uma civilizao em que as influncias
lbias e fencias se mesclam.
    Embora pouco se saiba sobre o Saara e seus aspectos culturais na Antiguidade,
dispomos de algumas certezas: a aridez do clima no privou o deserto de toda
862                                                                                            frica Antiga



vida nem de toda atividade humana; as lnguas e a escrita se consolidaram e,
graas aos camelos, cuja utilizao cada vez mais se disseminou, havia meios de
transporte que permitiam ao Saara desempenhar importante papel nas trocas
culturais entre o Magreb e a frica tropical.
    Podemos, pois, concluir que o Saara, longe de ser uma barreira ou uma zona
morta, tinha sua cultura e sua histria, que ainda devem ser estudadas caso
se pretenda descobrir a influncia permanente do Magreb sobre o cinturo
sudans. Com efeito, sempre houve entre os pases situados ao norte do Saara e
a frica subsaariana contatos culturais ativos que influenciaram profundamente
a histria do continente africano1.
    At aqui, costumava-se situar o incio da histria da frica subsaariana
no sculo XV da Era Crist2, e isso por duas razes principais: a penria de
documentos escritos e a clivagem dogmtica que os historiadores costumam
estabelecer mentalmente entre essa regio do continente, de um lado, e o Egito
antigo e a frica do Norte, de outro.
    A despeito das lacunas e insuficincias das pesquisas efetuadas, este volume
contribui para mostrar a possibilidade da existncia de uma unidade cultural do
conjunto do continente nos mais variados domnios.
    Formulou-se a teoria de um liame gentico entre o egpcio antigo e as lnguas
africanas. Se as pesquisas o confirmarem, ter-se- a prova de uma profunda
unidade lingustica do continente. A semelhana das estruturas reais, as relaes
entre os ritos e as cosmogonias (circunciso, totemismo, vitalismo, metempsicose,
etc.), a afinidade das culturas materiais, os instrumentos de cultura, so exemplos
de questes que esto a merecer estudos mais aprofundados.
    Alm do mais, satisfeita a terceira condio para a redao dos volumes
I e II, a saber, a reconstituio da rede de rotas africanas desde os tempos
proto-histricos, bem como a determinao da extenso das reas cultivadas no
decorrer do mesmo perodo a partir da anlise de fotografias tiradas por satlite,
teremos ampliado e aprofundado nosso conhecimento sobre o grau de ocupao
do solo e sobre as relaes culturais e comerciais que se estabeleceram no interior
do continente naquela poca.




1     Ver Captulo 29, "As sociedades da frica subsaariana na Idade do Ferro Antiga", do professor Merrick
      Posnansky, que trata dos resultados obtidos nos dez ltimos captulos deste volume, no que se refere 
      frica subsaariana.
2     Alguns autores da frica de fala francesa e inglesa deram muita ateno  frica subsaariana antes do
      sculo XV.
Concluso                                                                  863



   Um trabalho mais extenso sobre etnnimos e topnimos dever possibilitar
a determinao de correntes migratrias e de relaes tnicas insuspeitadas de
uma a outra extremidade do continente.
   Espero que este volume desperte nos pases africanos maior interesse pela
arqueologia da frica antiga, incentivando-os a uma contribuio mais efetiva
nessa rea.
Concluso                                                                   865




            Membros do Comit Cientfico
            Internacional para a Redao de
             uma Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria)  1971 Coordenador do volume VI
Prof. F. A. Albuquerque Mouro (Brasil)  1975
Prof. A. A. Boahen (Gana)  1971 Coordenador do volume VII
S. Exa. Sr. Boubou Hama (Nger)  1971-1978 (Demitido em 1978; falecido em 1982)
S. Exa. Sra. Mutumba M. Bull, Ph. D. (Zmbia)  1971
Prof. D. Chanaiwa (Zimbbue)  1975
Prof. P. D. Curtin (EUA)  1975
Prof. J. Devisse (Frana)  1971
Prof. M. Difuila (Angola)  1978
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal)  1971 Prof. H. Djait (Tunsia)  1975
Prof. J. D. Fage (Reino Unido)  1971-1981 (Demitido)
S. Exa. Sr. M. El Fasi (Marrocos)  1971 Coordenador do volume III
Prof. J. L. Franco (Cuba)  1971
Sr. Musa H. I. Galaal (Somlia)  1971-1981 (Falecido)
Prof. Dr. V. L. Grottanelli (Itlia)  1971
Prof. E. Haberland (Repblica Federal da Alemanha)  1971
Dr. Aklilu Habte (Etipia)  1971
S. Exa. Sr. A. Hampat Ba (Mali)  1971-1978 (Demitido)
866                                                                               frica Antiga



Dr. I. S. El-Hareir (Lbia)  1978
Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia)  1971 Codiretor do volume III
Dra. A. Jones (Libria)  1971
Pe. Alexis Kagame (Ruanda)  1971-1981 (Falecido)
Prof. I. M. Kimambo (Tanznia)  1971
Prof. J. Ki-Zerbo (Alto Volta)  1971
Coordenador do volume I
Sr. D. Laya (Nger)  1979
Dr. A. Letnev (URSS)  1971
Dr. G. Mokhtar (Egito)  1971 Coordenador do volume II
Prof. P. Mutibwa (Uganda)  1975
Prof. D. T. Niane (Senegal)  1971 Coordenador do volume IV
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana)  1971
Prof. T. Obenga (Repblica Popular do Congo)  1975
Prof. B. A. Ogot (Qunia)  1971 Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)  1971
Sr. W. Rodney (Guiana)  1979-1980 (Falecido)
Prof. M. Shibeika (Sudo)  1971-1980 (Falecido)
Prof. Y. A. Talib (Cingapura)  1975
Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal)  1978-1982 (Falecido).
Mons. T. Tshibangu (Zaire)  1971
Prof. J. Vansina (Blgica)  1971
Rt. Hon. Dr. E. Williams (Trinidad e Tobago)  1976-1978 (Demitido em 1978; fale-
cido em 1980)
Prof. A. Mazrui (Qunia) Coordenador do volume VIII (no  membro do Comit)
Prof. C. Wondji (Costa do Marfim) Codiretor do volume VIII (no  membro do
Comit)

Secretaria do Comit Cientfico Internacional para a Redao de Uma Histria Geral da frica
Sr. Maurice Glel, Diviso de Estudos e Difuso de Culturas, Unesco, 1, rue Miollis,
75015 Paris
Dados biogrficos dos autores do volume II                                             867




                Dados biogrficos dos autores
                       do volume II




  Introduo         G. Mokhtar (Egito). Arquelogo; autor de diversas publicaes sobre
                     a histria do antigo Egito; ex-diretor do Servio de Antiguidades.
  Captulo 1         Cheikh Anta Diop (Senegal). Especialista em cincias humanas; autor
                     de vrias obras e artigos sobre a frica e a origem da humanidade;
                     diretor do laboratrio de radiocarbono da Universidade de Dacar.
  Captulo 2         A. Abu Bakr (Egito). Especialista em histria antiga do Egito e da
                     Nbia; autor de vrias publicaes sobre o antigo Egito; professor na
                     Universidade do Cairo; falecido.
  Captulo 3         J. Yoyotte (Frana). Egiptlogo, autor de diversas obras sobre egiptologia;
                     coordenador de estudos na cole Pratique des Hautes tudes.
  Captulo 4         A. H. Zayed (Egito). Especialista em egiptologia e histria antiga;
                     autor de vrios livros e artigos sobre o antigo Egito.
  Captulo 5         R. El Nadury (Egito). Especialista em histria antiga; autor de vrias
                     obras e artigos sobre a histria do Magreb e do Egito; professor de
                     histria antiga e vice-presidente da Faculdade de Artes da Universi-
                     dade de Alexandria.
  Captulo 6         H. Riad (Egito). Historiador e arquelogo; autor de inmeras obras
                     sobre as pocas faranica e greco-romana; conservador-chefe do museu
                     do Cairo.
  Captulo 7         S. Donadoni (Itlia). Especialista em histria do antigo Egito; autor
                     de vrias obras sobre a histria da cultura; professor na Universidade
                     de Roma.
868                                                                          frica Antiga



 Captulo 8    S. Adam (Egito). Especialista em histria e arqueologia egpcias; autor de
               vrias publicaes sobre o antigo Egito; diretor do Centro de Documentao
               e de Estudos sobre a Civilizao do antigo Egito no Cairo.
 Captulo 9    N. M. Sherif (Sudo). Arquelogo; autor de vrias obras sobre a
               arqueologia do Sudo; diretor do Museu Nacional de Cartum.
 Captulo 10   J. Leclant (Frana). Egiptlogo; autor de vrias obras sobre o antigo
               Egito; professor na Sorbonne; membro da Acadmie des Inscriptions et
               Belles Lettres.
 Captulo 11   A. A. Hakem (Sudo). Especialista em histria antiga; autor de vrias
               obras sobre o Sudo antigo; diretor do Departamento de Histria da
               Universidade de Cartum.
 Captulo 12   K. Michalowski (Polnia). Especialista em arqueologia mediterrnica;
               autor de numerosas publicaes sobre a arte do antigo Egito; professor
               de arqueologia; vice-diretor do Museu Nacional de Varsvia.
 Captulo 13   H. De Contenson (Frana). Especialista em histria da frica; autor de
               obras sobre a arqueologia da Etipia e sobre a Nbia crist; pesquisador
               do Centre National de Recherche Scientifique.
 Captulo 14   F. Anfray (Frana). Arquelogo; autor de vrios artigos sobre as pesqui-
               sas arqueolgicas na Etipia; chefe da Misso Arqueolgica Francesa
               na Etipia.
 Captulo 15   Y. M. Kobishanov (URSS). Historiador; autor de vrios artigos sobre
               antropologia da frica; membro da Academia de Cincias da URSS.
 Captulo 16   Tekle Tsadik Mekouria (Etipia). Historiador; escritor; especialista em
               histria poltica, econmica e social da Etipia das origens ao sculo
               XX; aposentado.
 Captulo 17   J. Desanges (Frana). Especialista em histria antiga da frica; autor
               de vrias obras e artigos sobre a frica antiga; conferencista na
               Universidade de Nantes.
 Captulo 18   H. Warmington (Reino Unido). Especialista em histria da antiguidade
               romana; autor de vrias obras sobre a frica do Norte, conferencista
               em histria antiga.
 Captulo 19   A. Majhoubi (Tunsia). Especialista em histria antiga da frica
               do Norte; obras e artigos sobre a arqueologia da Tunsia; professor-
               -assistente na Universidade de Tnis.
               P. Salama (Arglia). Arquelogo; especialista na histria das instituies
               antigas do Magreb; professor na Universidade de Argel.
 Captulo 20   P. Salama (Arglia).
Dados biogrficos dos autores do volume II                                              869



  Captulo 21        M. Posnansky (Reino Unido). Historiador e arquelogo; autor de
                     importantes obras sobre a histria arqueolgica da frica oriental.
  Captulo 22        A. Sheriff (Tanznia). Especialista na histria do trfico de escravos
                     na costa oriental da frica; conferencista na Universidade de
                     Dar-es-Salaam.
  Captulo 23        J. E. G. Sutton (Reino Unido). Especialista em Pr-Histria; autor
                     de vrias obras e artigos sobre a histria da frica; ex-presidente do
                     departamento de arqueologia da Universidade de Oxford.
  Captulo 24        B. Wai-Andah (Nigria). Arquelogo; autor de obras sobre a arqueologia
                     da frica ocidental; conferencista na Universidade de Ibad.
  Captulo 25        F. Van Noten (Blgica). Especialista em pr-histria e arqueologia;
                     autor de vrias obras e publicaes sobre a pr-histria da frica cen-
                     tral; Conservador do Real Museu de Pr-histria e Arqueologia.
  Captulo 26        J. E. Parkington (Reino Unido). Arquelogo; autor de trabalhos sobre
                     a pr-histria da frica meridional; professor de arqueologia.
  Captulo 27        D. W. Phillipson (Reino Unido). Arquelogo; autor de obras sobre a
                     arqueologia da frica oriental e meridional.
  Captulo 28        P. Vrin (Frana). Historiador e arquelogo; autor de inmeras
                     publicaes sobre Madagscar e as civilizaes do oceano ndico;
                     pesquisador em Madagscar.
  Captulo 29        M. Posnansky (Reino Unido).
  Concluso          G. Mokhtar (Egito).
Abreviaes e listas de peridicos                                               871




                                   Abreviaes e
                                listas de peridicos




AA -- gyptologische Abhandlungen. Wiesbaden, Harrassowitz.
AA -- American Anthropologist. Washington DC.
AAW -- Abhandlungen der Kniglich Preussischen Akademie der Wissenschaften.
   Berlin.
AB -- Africana Bulletin. Varsvia, Universidade de Varsvia.
ACPM -- Annals of the Cape Provincial Museums. Grahamstown.
Actas VIII Congr. Intern. Arqueo. Christ. -- Actas del VIII Congreso Internacional
   de Arqueologia Christiana. Barcelona, 1972.
Actes Coll. Bamako I -- Actes du Ier Colloque International de Bamako Organis par
   la Fondation SCOA pour la Recherche Scientifique en Afrique Noire (Projet Boucle
   du Niger). Bamako, 27 jan.-1er fv. 1975.
Actes Coll. Intern. Biolog. Pop. Sahar. -- Actes du Colloque International de Biologie
   des Populations Sahariennes. Algiers, 1969.
Actes Coll. Intern. Fer. -- Actes du Colloque International: Le Fer  travers les ges.
   Nancy 3-6 oct. 1956. Annales de l'Est. Mm. no 16, Nancy, 1956.
Actes Ier Coll. Intern. Archol. Afr. -- Actes du 1er Colloque International d'Archologie
   Africaine. Fort-Lamy, 11-16 dc. 1966. Etudes et Documents Tchadiens, Mm. 1,
   Fort-Lamy, 1969.
Actes VIIe Coll. Intern. Hist. Marit. -- Actes du VIIe Colloque International d'Histoire
   Maritime. Loureno Marques, 1962, publ. em 1964, Paris, SEVPEN.
Actes VIIIe Coll. Intern. Hist. Marit. -- Actes du VIIIe Colloque International
   d'Histoire Maritime. Beyrouth, 1966, publ. em 1970, Paris, SEVPEN.
872                                                                      frica Antiga



Actes Coll. Nubiol. Intern. -- Actes du Colloque Nubiologique International au
   Muse National de Varsovie. Varsovie, 1972.
Actes Conf. Ann. Soe. Phil. Soudan -- Actes de la Confrence Annuelle de la Socit
   Philosophique du Soudan.
Actes Ier Conf. Intern. Afr. Ouest. -- Actes de la 1er Confrence Internationale des
   Africanistes de l'Ouest. Dakar, 1945.
Actes IIe Conf. Intern. Afr. Ouest. -- Actes de la IIe Confrence Internationale des
   Africanistes de l'Ouest. Bissau, 1947.
Actes XIVe Congr. Intern. t. Byz. -- Actes du XIVe Congrs International d'tudes
   Byzantines. Bucarest, 1971.
Actes IIe Congr. Intern. t. N. Afr. -- Actes du IIe Congrs International d'tudes
   Nord-Africaines. Revue de l'Occident Musulman et de la Mditerrane. Aix -
   -en-Provence, 1968, publ. em 1970, Gap. Ophrys.
Acts IIIe Congr. PPQS -- Acts of the III Panafrican Congress of Prhistory and
   Quaternary Study. Lusaka, 1955.
Actes IVe Congr. PPEQ -- Actes du IVe Congrs Panafricain de Prehistoire et de
   l'tude du Quaternaire. Lopoldville, 1959, AMRAC, n. 40.
Actes VIe Congr. PPEQ -- Actes du VIe Congrs Panafricain de Prhistoire et de
   l'tude du Quaternaire. Dakar, 1967, Chambry, Impr. Runies.
Actes VIIe Congr. PPEQ -- Actes du VIIe Congrs Panafricain de Prhistoire et de
   l'tude du Quaternaire. Addis-Abeba, 1971.
AE -- Annales d'thiopie, Paris, Inst. Ethiopien d'tudes et de Recherches, Section
   d'Archologie.
AEPHE -- Annuaire de l'Ecole Pratique des Hautes tudes, IVe Section, Paris.
AFLSD -- Annales de la Facult des Lettres et Sciences Humaines de Dakar.
AFU -- Agyptologische Forschungen. Glckstadt/Hamburg/New York.
AHS -- African Historical Studies. Boston University African Studies Centre IJAHS
   em 1972.
AI -- Africana Italiana. Roma.
AIESEE -- Association Internationale d'tudes du Sud-Est Europen. Academia
   Republicci Populare Romine, Bucarest.
AJA -- American Journal of Archaeology (the Journal of Archaeological Institute of
   America). Boston, Mass.
AKM -- Abhandlungen fr die Kunde des Morgenlands. Deustsche Morgenkindlische
   Gesellschaft, Leipzig.
Akten XI Intern. Limeskong. -- Akten des XI Internationalen Limeskongresses.
   Budapest, Akademia, Kiado, 1976.
ALOS -- Annual of the Leeds Oriental Society. University of Leeds.
ALS -- African Langage Studies. School of Oriental and African Studies. London
   University.
Abreviaes e listas de peridicos                                                  873



American Neptune -- American Neptune. Salem, Mass.
AMRAC -- Annales du Muse Royal de l'Afrique Centrale. Srie in 8, Sciences
   Humaines, Tervuren.
Ann. Afr. -- Annuaire de l'Afrique du Nord. Universit d'Aix-en-Provence.
Annaels -- Annales: Economies, Socits. Civilisations. Paris.
Ant. Afr. -- Antiquits Africaines. Editions du Centre Nationale de la Recherche
   Scientifique, Paris.
Antananarivo -- The Antananarivo Annual and Madagascar Magazine. Tananarive.
Ant. Pub. Ac. Naz. Lincei -- Antichit Publicati per Cura della Accademia Nazionale
   dei Lincei. Roma.
Anthropologie -- Anthropologie. Paris.
Antiquity -- Antiquity. Gloucester.
AQ -- African Quarterly. New Delhi.
Archaeology -- Archaeology. Archaeological Institute of America. Boston, Mass.
Archaeometry -- Archaeometry. Research Laboratory of Archaeology on the History
   of Art, Oxford.
ARSC -- Acadmie Royale des Sciences Coloniales. Classe des Sciences Morales et
   Politiques, nouvelle srie, Bruxelles.
AS -- African Studies.
ASAE -- Annales du Service des Antiquits d'Egypte. Le Caire.
ASAM -- Annals of the South African Museum.
Asian Perspectives -- Asian Perspectives. Far Eastern Prehistory Association, Hong Kong.
ASR -- African Social Research.
AT -- L' Agronomie Tropicale. Nogent-sur-Marne.
Atti IV Congr. Intern. Stud. Et. -- Atti del IV Congresso Internazionale di Studi
   Etiopici. Roma, 10-15 apr. 1972. Roma, Accademia Nazionale dei Lincei.
AUEI -- Avhandlinger Utgitt av. Egede Instituttet. Oslo, Egede Instituttet.
Azania -- Azania. Journal of the British Institute of History and Archaeology in E.
   Africa, Nairobi.
BAA -- Bulletin d'Archologie Algrienne. Alger.
BAM -- Bulletin de l'Acadmie Malgache. Tananarive.
BA Maroe. -- Bulletin d'Archologie Marocaine. Casablanca.
BHM -- Bulletin of Historical Metallurgy.
BJA -- Bulletin of Institute of Archaeology. London.
BIFAN -- Bulletin de l'Institut Franais (mais tarde, Fondamental) d'Afrique Noire.
   Dakar.
BIFAO -- Institut Franais d'Archologie Orientale. Bibliothque d'tude, Le Caire.
BM -- Bulletin de Madagascar. Tananarive.
BO -- Bibliotheca Orientalis. Leiden, Nederlands Instituut voor Het-Nabije Oosten
   te Leiden.
874                                                                         frica Antiga



Bonner Jahrbcher -- Verein von Alterthumsfreunden im Rheinlande, Bonn.
BS -- Bulletin Scientifique. Ministre de la France d'Outre-Mer, Direction de
   l'Agriculture.
BSAC -- Bulletin de la Socit d'Archologie Classique.
BSA Copte -- Bulletin de la Socit d'Archologie Copte. Le Caire.
BSFE -- Bulletin de la Socit Franaise d'Egyptologie. Paris.
BSHNAN -- Bulletin de la Socit d'Histoire Naturelle de l'Afrique du Nord.
BSNAF -- Bulletin de la Socit Nationale des Antiquaires de France. Paris.
BSNG -- Bulletin de la Socit Neuchteloise de Gographie. Neuchtel.
BSPF -- Bulletin de la Socit Prhistorique Franaise, tudes et travaux. Paris.
BSPPG -- Bulletin de la Socit Prhistorique et Protohistorique Gabonaise. Libreville.
BSRAA -- Bulletin de la Socit Royale d'Archologie d'Alexandrie.
BWS 56 -- Burg Wartensteen Symposium n 56 on the origin of African domesticated
   plants. Aug. 19-27, 1972.
Byzantinisehe Zeitsehrift -- Byzantinische Zeitschrift. Leipzig.
Byzantinoslavica -- Byzantinoslavica. Prague.
Byzantion -- Byzantion. Bruxelles.
CA -- Current Anthropology, a world journal of science of man. Chicago.
CAMP -- tudes et travaux du Centre d'Archologie Mditerranenne de l'Acadmie
   Polonaise des Sciences (ed. K. Michalowski). Varsovie.
CC -- Corsi di Cultura sull' Arte Ravennate e Bizantina. Ravenne, 1965.
CSA -- Cahiers d'tudes Africaines. Paris.
Chronique d'Egypte -- Chronique d'Egypte. Fondation Egyptologique de la Reine
   lizabeth, Bruxelles.
Cimbebasia -- Cimbebasia State Museum, Windhoek.
CHE -- Cahiers d'Histoire Egyptienne. Le Caire.
CM -- Civilisation Malgache. Antanana/Paris.
CQ -- Classical Quarterly. London.
CRAI -- Compte-Rendu des Sances de l'Acadmie des Inscriptions et Belles Lettres,
   Paris.
CRGLCS -- Compte-Rendu des Sances du Groupe Linguistique d'tudes Chamito-
   -Smitiques. cole Pratique des Hautes tudes, Paris.
CRSB -- Compte-Rendu Sommaire des Sances de la Socit de Biogographie. Paris.
CSA -- Cahiers de la Socit Asiatique, Paris.
CSSH -- Comparative Studies in Society and History. Oxford, Cambridge Univ. Press.
CTL -- Current Trends in Linguistics. The Hague.
DAE -- Deutsche Aksum Expedition, Berlin.
EAGR -- East African Geographical Review. Kampala.
EEFEM -- Egypt Exploration Fund Excavation Memoirs. London.
EHR -- The Economic History Review. Welwyn Garden City, Broadwater Press,
   New York.
Abreviaes e listas de peridicos                                                   875



Encyclopdie Berbre -- Encyclopdie Berbre. Laboratoire d' Anthropologie et de
   Prhistoire des Pays de la Mditerrane Occidentale, Ax-en-Provence.
FHP -- Fort Hare Papers.
Gazette des BeauxArts -- Gazette des Beaux-Arts. Paris.
GJ -- The Geographical Journal. London.
GNQ -- Ghana Notes and Queries. Legon.
HAS -- Harvard African Studies. Cambridge, Mass., Harvard Univ. Press.
HBZAK -- Hamburger Beitrager zur Africa-Kunde. Deutsches Institut fr Africa
   Forschung, Hamburg.
Hesperis -- Hesperis. Institut des Hautes tudes Marocaines, Rabat.
Homo -- Homo. Universit de Toulouse.
HZ -- Historische Zeitschrift. Munich.
IJAHS -- The International Journal of African Historical Studies. New York (antigo
   AHS).
JA -- Journal Asiatique. Paris.
JAH -- Journal of African History. Cambridge/London.
JAOS -- Journal of the American Oriental Society. New Haven.
JARCE -- Journal of the American Research Center in Egypt. Boston, mais tarde
   Cambridge.
JASA -- Journal of African Science Association. Paris.
JCH -- Journal of Classical History. London.
JEA -- The Journal of Egyptian Archaeology. London.
JGS -- Journal of Glass Studies. Corning, NY.
JHSN -- Journal of the Historical Society of Nigeria. Ibadan.
JRAI -- Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland.
   London.
JRAS -- Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland. London.
JRS -- Journal of Roman Studies. London.
JS -- Le Journal des Savants. Paris.
JSA -- Journal de la Societ des Africanistes. Paris.
JSAIMM -- Journal of the South African Institute of Mining and Metallurgy.
   Johannesburg.
JTG -- Journal of Tropical Geography. Singapore.
Kartbago -- Khartago. Revue d' Archologie Africaine, Tunis.
Kush -- Kush. Journal of the Sudan Antiquities Services, Khartoum.
LAAA -- Liverpool Annals of Archaeology and Anthropology. Liverpool.
Lammergeyer -- Lammergeyer. Journal of the National Parks Game and Fish Preser-
   vation Board, Pietermaritzburg.
Latomus -- Latomus. Bruxelas.
Libyca -- Libyca. Bulletin du Service des Antiquits d' Algrie, Direction de l'Intrieur
   et des Beaux-Arts. Alger.
876                                                                      frica Antiga



MADP -- Malawi Antiquities Department Publications. Zomba.
MAGW -- Mitteilungen der Anthropologischen Gesellschaft in Wien.
MAI -- Mitteilungen des Deutschen Archologischen Instituts. Wiesbaden,
   Harvasowitz.
Man -- Man. New York.
MCRAPE -- Mmoires du Centre de Recherches Anthropologiques, Prhistoriques
   et Ethnographiques. Alger.
MEJ -- Middle East Journal. Washington, D.C.
MIOD -- Mitteilungen des Instituts fr Orientforschung Deutsche Akademie der
   Wissenschaften zu Berlin.
MN -- Meroitic Newsletter.
Le Muson -- Le Muson. Revue d'tudes Orientales. Louvain.
NA -- Notes Africaines. Bulletin d'informations de l'IFAN, Dakar.
NADA -- Native Affairs Department Annual (Rhodesia). Salisbury, Government
   Printer.
NAS -- Nigerian Archaeology Seminar. Ju\. 3-5, 1974. Nature - Nature. London.
NKJ -- Nederlands Kunsthistorisch Jaarboek. Bussum, Van Dishoek.
Numismatic Chronicle -- Numismatic Chronicle. Numismatic Society, London.
OA -- Opuscula Atheniensia. Lund.
Objets et Mondes -- Objets et Mondes. Muse de l'Homme, Paris.
OCA -- Orientalia Christiana Analecta. Roma.
Od -- Od. Journal of Yoruba and Related Studies, Western Region Literature Com-
   mittee, Nigeria.
OL -- Oceanic Linguistics. Department of Anthropology, Southern Illinois University,
   Carbondale, USA.
OPNM -- Occasional Papers of the National Museums of Southern Rhodesia.
   Bulawayo.
Proc. PS -- Proceedings of the Prehistoric Society. Cambridge.
Proc. Rhod. Sci. Ass. -- Proceedings of the Rhodesian Science Association.
QAL -- Quaderni di Archeologia della Libia. Roma.
RA -- Revue Africaine. Bulletin de la Socit Historique Algrienne, Alger.
RAC -- Rivista di Archeologia Cristiana della Pontificia Commissione di Archeologia
   Sacra, Roma.
Radiocarbon -- Radiocarbon. Annual Suplement to the American Journal of Science,
   New York.
R. Anth. -- Revue Anthropologique. Paris.
R. Arch. -- Revue Archologique. Paris.
RE -- Revue d'Egyptologie. Paris, Klincksieck.
REA -- Revue des tudes Anciennes. Bordeaux.
REL -- Revue des tudes Latines. Paris.
Abreviaes e listas de peridicos                                                  877



RESEE -- Revue des tudes du Sud-Est Europen. Acadmie de la Rpublique Popu-
    laire Roumaine, Institut d'tudes du Sud-Est Europen, Bucarest.
RFHOM -- Revue Franaise d'Histoire d'Outre-Mer. Paris.
RH -- Revue Historique. Paris.
Rhodesiana -- Rhodesiana. Publication of the Rhodesiana Society, Salisbury.
RHR -- Revue de l'Histoire des Religions. Annales du Muse Guimet, Paris, Leroux.
ROMM -- Revue de l'Occident Musulman et de la Mditerrane. Aix-en-Provence.
RRAL -- Rendiconti della Reale Accademia dei Lincei. Roma.
RSE -- Rassegna di Studi Etiopici. Roma, Istituto per l'Oriente.
RSO -- Rivista degli Studi Orientali publicata a cura dei professiori della Scuola
    Orientale della Universit di Roma, Roma.
RUB -- Revue de l'Universit de Bruxelles.
SA -- Scientific American. New York.
SAAAS -- South African Association for the Advancement of Science. Johannesburg.
SAAB -- South African Archaeological Bulletin. Cape Town.
Le Saharien -- Le Saharien. Revue d'action touristique, culturelle, conomique et
    sportive, Paris, Association de la Rabla et des Amis du Sahara.
SAAJ -- South African Archaeological Journal.
SAJS -- South African Journal of Science, Johannesburg.
SAK -- Studien zur Altgyptischen Kultur. Hamburg, H. Buske Verlag.
SAs -- Socit Asiatique. Paris.
SASAE -- Supplment aux Annales du Service des Antiquits d'Egypte. Le Caire.
Sc. South Africa -- Science South Africa.
SJA -- Southwestern Journal of Anthropology. Albuquerque, New Mexico.
SLS -- Society for Libyan Studies.
SM -- Studi Magrebini. Napoli, Istituto Universario Orientale.
SNR -- Sudan Notes and Records. Khartoum.
Syria -- Syria. Revue d'Art Oriental et d'Archologie, Paris.
TJH -- Transafrican Journal of History.
TNR -- Tanganyika (Tanzania) Notes and Records. Dar-es-Salaam.
TRSSA -- Transactions of the Royal Society of South Africa.
Trav. IRS -- Travaux de l'Institut de Recherches Sahariennes. Alger, Universit d'Alger.
Trav. RCP -- Travaux de la Recherche Coordone sur Programme. Paris, CNRS.
Ufahamu -- Ufahamu. Journal of the African Activist Association, Los Angeles.
UJ -- Uganda Journal. Kampala.
WA -- World Archaeology. London.
WAAN -- West African Archaeological Newsletter. Ibadan.
WAJA -- West African Journal of Archaeology. Ibadan.
WZKM -- Wiener Zeitschrift fr die Kunde des Morgenlandes. Viena.
ZAS -- Zeitschrift fr Agyptische Sprache und Altertumskunde. Osnabrck, Zeller.
ZDMG -- Zeitschrift der Deutschen Morgenlndischen Gesellschaft. Leipzig
878                                                                  frica Antiga



Zephyrus -- Zephyrus. Crnica dei Seminario de Arqueologa. Salamanca.
ZK -- Zeitschrift fr Kirchengeschichte, Gotha.
ZMJ -- Zambia Museum Journal. Lusuka.
ZMP -- Zambia Museum Papers, Lusuka.
ZZSK -- Zbornik Zastite Spomenika Kulture.
Referncias bibliogrficas                                                      879




                        Referncias bibliogrficas




   Todas as referncias foram verificadas com o mximo cuidado, mas dada a
complexidade e o carter internacional das obras,  possvel que alguns erros
tenham persistido. (N. D. L. R.)

ABEL, A. 1972. "L'Ethiopie et ses rapports avec l'Arabie pr-islamique jusqu'
    l'migration de Ca. 615". In: ATTI IV CISE (14).
ABRAHAM, D. P. 1951. "The principality of Maungure". NADA, n. 28 (27).
__. 1959. "The Monomotapa dynasty in Southern Rhodesia". NADA, n. 36 (27).
__. 1961. "Maramuca, an exercise in the combined use of Portuguese records and oral
    tradition". JAH, II, 2: 211-25 (27).
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frica austral (frica me-    frica equatorial - 228, 633.   frica do Sul - 595, 601,
   ridional, frica do sul)   frica ocidental - 12, 215,        628, 630, 646, 693,
   - 596, 661, 715-6, 718,       481, 562-3, 586, 588,           749, 765, 768, 771.
   720-1, 723-5, 730-1,          590-2, 594-6, 600-4,         frica tropical - 405, 576,
   736, 738-9, 740, 747-8,       657-9, 661, 665-6, 671,         584, 598, 601-2, 814,
   808.                          673, 675-7, 680, 682-3,         862.
frica central - 213, 218,       687-90, 805, 809-10,         Agricultura - 78, 120, 165,
   219, 226, 228, 232,           812, 817, 819, 824,             189, 203, 221, 213,
   292, 631, 634, 636,           826, 842.                       283, 310-4, 352, 385,
   645, 686, 691-4, 696,      frica oriental - 164, 396,        395, 400-1, 417, 456,
   708, 710-2, 812, 817,         413, 464, 588, 590,             464-6, 474, 489, 497,
   819, 859-60.                  595, 598, 601, 608-9,           499, 516, 522, 526,
frica do norte (frica          611-7, 619, 621-6,              536-7, 549, 589, 592-6,
   setentrional) - 177,          627-8, 632-41, 643-5,           632, 636-8, 640-1, 654,
   183, 187, 445, 452,           647-50, 652-4, 673,             657-8, 666-8, 675-6,
   454, 456, 465, 475-6,         677, 740-1, 757, 759,           686-7, 693-4, 697, 704,
   478, 484-5, 487, 497,         778, 798, 806, 810,             706, 709, 726, 736,
   501-2, 506, 509, 514,         813-6, 819, 825, 834.           740, 748, 750, 755,
   521, 541, 547-8, 550-1,    frica subsaariana - 316,          765, 786, 806, 811,
   556, 560, 576-7, 582,         454, 585-8, 593-4, 596,         813, 817, 819-20.
   598, 602, 606, 804,           688, 803, 805, 808,          Antigo Imprio (Egito) -
   823, 858, 861-2.              810-4, 819, 824, 862.           46, 48, 50-3, 72, 74-5,
940                                                                       frica Antiga



   77, 79, 81, 102, 105-6,   Arquitetura - 29, 34, 127,       706-9, 716-22, 726,
   110-1, 121, 123, 131,        143-4, 147, 150, 154,         736, 756, 769, 806,
   135, 137-8, 161, 224,        181, 269, 326-7, 331,         811-5, 820.
   238, 241, 252, 845-6,        341, 367, 370, 380,        Calcoltico - 37, 123.
   858-60.                      386, 395, 415-7, 423,      Calendrio - 142, 178,
Antiguidade - 10, 12, 17,       470, 489, 538, 542,           711, 785, 839, 858.
   34,97-8, 104, 119, 130,      554, 573, 770, 858.        Camelo - 75, 311, 342,
   138-8, 141, 152, 156,     Arte - 21, 42, 58, 60, 69,       385, 485, 504, 532,
   171, 174, 208, 240,          72, 86, 95, 119, 121,         558, 568, 574, 580,
   302, 314, 339, 379,          127, 152, 154, 157,-8,        582-4, 606.
   387, 391, 411, 418,          164, 180, 186, 210,        Candaces - 304, 309, 320.
   451, 456, 463, 475,          229, 236, 278, 288,        Canto - 95, 427, 447-50.
   483, 495, 561, 567-8,        320, 334, 341, 344,        Caravanas - 198, 223, 242,
   602, 643, 653, 781,          346, 359, 367, 374,           279, 283, 290, 318-9,
   861.                         401, 415, 417, 489,           322, 324, 336, 342,
Antropologia - 2, 5, 11,        538, 541-2, 560, 573-4,       411-2, 504, 531-2, 577.
   638, 708, 773-4, 823,        595, 604-5, 646, 680,      Cartas de Tell el-Amarna
   825, 827, 830, 841,          728, 730, 762, 858.           - 58.
   843-4, 849.               Artesanato - 123, 236,        Cermica - 37, 106, 118,
Arbia - 111, 115, 162,         259, 317, 320-2, 374,         120, 126, 186, 221-2,
   164, 177, 212, 324,          409, 423, 690.                227-8, 235-6, 245, 259,
   354359-60, 362-3,         sia - 10, 72, 74, 84, 86,       290, 320-2, 334, 339,
   366, 371-2, 374-5, 392,      93, 104, 111, 113, 120,       346, 349, 351, 364,
   394, 399, 400-1, 403-6,      127, 130, 138, 161-2,         370, 374, 377, 381,
   408-11, 413, 417-8,          177, 215, 264, 275,           389-91, 395, 409, 453-
   420, 423, 425-7, 435,        413, 459, 475, 588,           4, 460-6, 482, 527-8,
   438-9, 441, 443-4, 583,      594-5, 598, 600, 617,         549, 586, 593, 600-1,
   597, 613, 616-9, 621,        645, 673, 778-9, 789,         633-8, 660-2, 665-6,
   624, 783, 860-1.             843.                          670-5, 677-87, 693,
Arianismo - 209, 431, 549,   sia Menor - 119, 174-6,         696-7, 699, 700-10,
   551.                         231, 359, 456.                725-6, 736,44, 749, 64,
Arqueologia - 26, 97, 101,   Atos dos Apstolos - 289,        768071, 789-90, 814,
   103, 166, 218, 227,          427.                          820, 861.
   233, 245, 313, 376-7,     Bblia - 26, 108, 206, 276,   Circunavegao - 115,
   379, 384, 396-7, 426,        395, 445-7, 474.              481, 563, 602.
   466, 470-3, 476, 496,     Biblioteca de Alexandria      Circunciso - 12-3, 26-7,
   536, 558, 561, 571,          - 174.                        34, 427, 636, 639-41,
   576, 580, , 612, 627,     Caa - 74, 101, 221, 392,        651, 782-3, 836, 862.
   707-8, 710, 718, 742,        406, 411, 444, 456,        Clima - 2, 18, 43, 53, 72,
   756, 771, 803, 810,          467, 576, 593, 628-43,        172, 223, 226-7, 312,
   819, 844, 863.               652, 666, 671, 697,           429, 456-7, 584, 634-
ndice remissivo                                                                      941



   5, 644, 659, 826, 838,      Cro-magnoides - 41, 753.          309, 314, 325=6, 340,
   861.                        Cronologia egpcia - 18,          396, 404-5, 412, 458-9,
Coleta - 72, 120, 456, 593,       22, 779.                       467, 481, 485-6, 517,
   630-3, 637, 644, 658,       Culto de mon - 88,93,            523-6, 577, 605, 625-6,
   661, 666, 671, 677,            103, 278, 280, 281,            689, 823.
   708, 717, 719, 726,            299, 321, 322, 438.         Escribas - 46, 75, 78-9, 83,
   732, 736, 741, 800,         Culto de ton - 91, 93, 270.      94, 131, 140-1, 172,
   813, 820.                   Culto de Hrus - 39, 836.         193, 196, 246, 269,
Colonizao - 451, 477-8,      Culto de sis - 168, 187,         284, 306, 309.
   485, 514-6, 524, 562-3,        540.                        Escrita - 6, 21, 34, 46, 69,
   640-5, 648, 789, 792,       Culto de Osris - 53, 116.        75, 78, 91, 96, 99, 118,
   797, 841.                   Culto de Serpis - 166,           120, 124, 130, 152,
Comrcio - 47-8, 66, 76,          187.                           156, 158, 175, 178,
   104, 112-3, 156, 163-4,     Dataes - 119, 391, 453,         209, 221, 235, 245,
   168-9, 193, 198, 212,          476, 580, 643, 661-2,          285, 298, 306, 326,
   230, 238, 241, 283,309,        671-4, 679, 688, 694-7,        349, 352, 355, 377,
   317, 320-2, 324, 336,          700-4, 711, 736, 752,          389, 394-5, 411, 414,
   340-2, 346, 374, 377,          755, 761-3, 768, 838.          421-3, 429, 448, 473,
   385, 396, 401, 405,         Despotismo faranico - 76.        500, 526, 569-70, 574,
   409-14, 441, 475-91,        Divindades faranicas -           584, 603, 608-9, 682,
   495-7, 523, 526-3,             284, 326.                      715, 821, 851-8.
   549-51, 571-8, 597,         Dominao romana - 161,        Escrita hieroglfica - 45,
   607, 604-26, 648, 671,         191, 197, 492, 497-8,          93, 152, 158, 274, 827.
   682, 689-90, 709, 755-         500-1, 522, 538, 541,       Escrita merota - 187, 285,
   7, 767, 783, 790, 802-         547.                           304, 306, 821, 851.
   6, 811-9.                   Ecologia - 113, 310, 660,      Estado - 39, 42, 53, 58,
Conclio de Calcednia            741, 848.                      65-6, 69, 76, 91-2, 161,
   - 209, 212, 446.            Economia - 69, 78, 86,            193, 196, 202-3, 205,
Conquistas - 46, 54, 56,          119-20, 163-5, 202,            207, 210, 257, 278,
   77, 84, 86, 397, 484,          212, 271, 311, 317,            286, 309-10, 333, 338,
   496, 547.                      322, 374, 385, 399,            400-1, 403-5, 413-5,
Constituio Antoniniana          522, 527, 551, 558,            428, 487, 489-90, 498,
   - 200, 206.                    586, 612, 617, 622-3,          528, 548, 584, 616,
Construo naval - 131, 162.      626, 632, 636-8, 643,          621, 689, 817-9.
Cosmogonia - 34, 87, 862.         683, 709, 715-6, 739,       Estado faranico - 69,
Cristianismo - 167, 176,          749, 756, 764, 766,            107.
   205-9, 290, 292, 294-5,        771, 803, 813.              Etnologia - 104, 773, 778.
   336, 339-41, 375, 392,      Escravismo - 78.               Europa -5, 36-7, 96, 152,
   420, 425-41, 445-6, 510,    Escravos - 17, 21, 77-8,          156, 158, 176-7, 210,
   538-41, 573, 860-1.            163, 166, 171, 266,            215, 452, 474, 500,
942                                                                           frica Antiga



   548, 576-7, 580, 680,        Idade do Bronze - 74, 474,       785-6, 793, 796-8, 800,
   688, 746, 858, 860.              596, 787.                    829-32, 847, 850-6,
Fara - 8-10, 14, 18, 34, 39,   Idade do Ferro - 74, 317,        862.
   42-6, 48, 52-8, 62, 66,          585-6, 588, 595, 600-2,   Lingustica - 27, 33, 35,
   75-8, 81-3, 86, 92-3,            628, 631, 635-6, 638-        38, 104, 113, 118, 516,
   101, 105, 107, 112-3,            41, 645-9, 657, 669-70,      588-91, 595, 601, 628,
   115-7, 123, 126, 142,            677-8, 681-4, 688-91,        638, 641, 647,649-50,
   150, 158, 164, 193, 223-         694-9, 700-1, 707-15,        707, 711, 748, 752,
   7, 229-32, 256, 266-72,          739, 748, 749-72, 787,       771, -4, 782, 814, 829-
   277-8, 460-2, 602, 794,          803-20.                      30, 837, 846-7, 850-55,
   826-8, 839, 845.             Idade da Pedra - 351, 578,       862.
Farol de Alexandria -               585-8, 593, 596, 600,     Listas de ttulos - 79, 83.
   171-2.                           611, 630-3, 652-3, 665,   Literatura - 21-2, 38, 42,
Geografia - 161, 174-5,             668-9, 671-3, 677,           95, 123, 130, 152, 145,
   566-7, 603, 608.                 693-4, 696-7, 699, 710,      186, 197, 210, 415,
Greve - 78.                         716, 725, 736, 739-41,       427, 444-5, 450, 473,
Grupo A - 106, 223-4,               787, 809, 811, 816,          541-2, 563, 568, 571,
   227, 235-40, 243, 697,           820.                         728, 744, 858.
   825.                         ndia -98, 116, 162, 164,     "Livro das Grandes Por-
Grupo B - 238, 843.                 166, 289, 392, 396,          tas" - 46.
Grupo C- 106-7, 227-8,              405-6, 408-10, 413-4,     "Livro do Que Est no
   243-6, 250, 257, 460,            417, 420-2, 423, 428,        Inferno" - 46.
   678, 825, 839, 843.              491, 598, 613, 615-6,     "Livro dos Mortos" - 8,
Grupo X - 232, 292-4,               618-9, 624-5, 714, 741,      45, 46, 96,187, 447.
   316, 334, 346.                   786-7, 789, 792-3, 796,   Livro dos Salmos - 447.
Grupos etrios - 639, 641,          813, 858, 861.            Mat - 89, 91, 93-5, 101.
   651.                         Individualismo - 52, 96.      Magia - 88, 91-2, 96, 118,
Guerra pnica, primeira         Irrigao - 38, 55, 69, 70,      138.
   480, 492.                        78, 120, 143, 147, 189,   Matemtica - 123, 135,
Guerra pnica, segunda              221, 223, 283, 312,          139-43, 175, 858.
   - 494, 496, 514.                 313, 325, 400, 456,       Matriarcado - 285.
Habitat (stio de habita-           510, 655.                 Medicina - 46, 123, 135,
   o) - 99, 101, 116,         Islamismo - 440, 783, 860.       138-9, 142, 176, 488,
   226, 318, 588, 617,          Lnguas - 27, 33-5, 106,         811, 858.
   665, 669, 674, 725,              171, 229, 233, 292,       Mdio Imprio (Egito)
   741, 743.                        421, 444, 500, 570,          - 37, 45, 48, 53, 69, 72,
Hereditariedade - 79, 82,           584, 588-91, 595-6,          82, 105, 107, 121, 126,
   308, 533.                        602, 627-8, 631, 638-9,      139, 141, 152, 154,
Homo sapiens - 452, 459,            645, 649-52, 691, 707,       225, 230, 246-52, 256-
   833, 835, 877.                   711, 714, 740, 774,          7, 263, 460-1, 858.
ndice remissivo                                                                     943



Metalurgia, difuso da -        720, 727-8, 733-5, 745,         298, 460-3,825, 830,
   635, 653.                    766, 811, 864.                  858.
Metalurgia do cobre - 124,    Mumificao - 96, 135-7,       Organizao militar - 84,
   580, 600, 767.               154, 254, 826.                  508.
Metalurgia do ferro -         Museu de Alexandria -          Organizao poltica - 81,
   316-7, 580, 591, 593,        172, 174, 180.                  221, 297, 366.
   596-8, 600-1, 647, 677,    Naos - 355, 360-1, 365,        Oriente Mdio - 445, 600,
   679, 688, 697, 711,          370.                            613, 615, 659, 790.
   754, 766.                  Navegao fluvial - 133.       Oriente Prximo - 54-5,
Metalurgia do ouro - 124,     Navegao martima                74, 113, 138, 156, 158,
   225, 374.                    - 133.                          215, 231, 275, 360,
Migraes - 16, 104, 227,     Negroide - 1-4, 9, 11, 13,        475, 500, 582, 661-2,
   583, 592, 607, 634,          36, 277, 360, 452-3,            688, 837.
   711, 745, 778, 782,          458, 471, 628, 749,          Paleoltico - 2, 36, 665,
   786, 787, 794, 796,          761, 774, 776, 781,             713, 807, 823, 826,
   798, 802, 824, 829,          793, 826, 829, 834,             828-9, 833-5, 837-8.
   837-41, 850.                 841-2, 844.                  Papiro - 45-6, 48, 51-2,
Mitos - 86, 89, 91, 175.      Neoltico - 37, 42, 98, 101,      70, 72, 75, 94, 111, 127,
Mito de Hrus - 140.            105, 120-1, 123, 126,           130, 137-44, 152, 164,
Mitologia faranica - 86.       218, 221, 223, 236,             178, 180, 193, 198,
Mobilirio funerrio - 43,      453-4, 458, 464, 473,           202, 206, 212, 241,
   573, 704, 706, 710.          569, 585-6, 605, 657,           246, 250, 341, 462.
Moeda - 164, 171,               660, 661, 665, 672-8,        Papiro de Berlim - 138.
   203, 289, 371, 375,          684, 686, 690, 693-6,        Papiro Carlsberg - 142.
   377,385, 392, 394,           710, 757, 762, 764,          Papiro Ebers - 138.
   405-12, 415, 418, 421,       786, 807, 823, 825,          Papiro Edwin Smith -
   429, 432, 445-6, 480-        829, 832, 834-5, 837-8,         138, 142.
   1, 484, 493-5, 529,          841.                         Papiro de Moscou -
   565, 570, 576-7, 582,      Neoltico da Guin - 674.         139,142.
   609-11, 617, 619, 623,     Nomadismo - 532, 570,          Papiro Rhind - 141.
   625, 702, 709-10, 790,       584, 602.                    Papiro Smith - 137-8.
   819.                       Nomos - 38-9, 51, 83-4,        Papiro de Westcar - 48, 94.
Monofisismo - 209, 340,         92, 164, 193, 195-6,         Pedra de Palermo - 47-8,
   435.                         203.                            240.
Mulheres - 3, 13, 81-2, 93,   Novo Imprio (Egito) -         Peixe, tabu do - 636, 640,
   95, 126, 166-7, 210,         45-6, 51, 56, 58, 65, 70,       651, 790.
   259, 303, 320, 322,          74, 77, 79, 81-3, 86-7,      Perodo Intermedirio,
   326, 342, 359-60, 362,       91-3, 108, 110, 127,            Primeiro (Egito) - 45,
   370, 445, 448, 469-70,       150, 157, 225, 231-2,           50, 51, 81, 84, 95, 106-
   570, 618, 706, 717,          256, 259, 268-73, 280,          7, 152, 243.
944                                                                         frica Antiga



Perodo Intermedirio,       Pr-Dinstico - 3, 4, 8, 39,      478, 542, 636, 653,
   Segundo (Egito) - 55,        99, 121, 123, 127, 224,        682, 702,710, 810, 816,
   79, 229-30, 254, 256-7,      236, 823, 826, 833,            850.
   269.                         835-6, 838, 840, 857.       Sete maravilhas do mundo
Perodo Intermedirio,       "Protestos do Campons            - 47, 144, 171.
   Terceiro (Egito).            Eloquente" - 52.            Shaduf (Shadouf ) - 70,
Priplo de Hano - 115,      Protodinstico - 4, 123,          312-3.
   563, 566.                    222, 823, 833, 838, 841.    Simpsio do Cairo - 34,
Priplo do Mar da Eritreia   Raa, noo de - 1-13, 16-        99.
   - 352, 376, 399, 414,        8, 21, 35-6, 452, 458,      Templo de mon - 60,
   608-22, 696.                 571, 825-9, 833, 835,          263, 266, 280, 288,
Pirmides - 45, 47-8, 75,       841-4, 849.                    300, 303, 313, 327.
   81, 84, 107, 131, 142-    Religio - 43, 52, 58, 60,     Templo de Lxor - 58, 63.
   4, 147, 150, 159, 187,       89, 93, 95-6, 123, 152,     Templo dos Lees - 307,
   226, 280, 283, 288,          156, 166, 186-7, 205-          320, 327-30.
   290, 300, 304, 319-20,       10, 269, 320, 326, 331,     Textos das Pirmides - 38,
   325.                         334, 336, 341, 365,            45, 226, 280.
Pirmide de Gis - 144.         377, 388, 395, 417,         Totemismo - 26, 27, 34,
Pirmide de Khufu               419, 420, 425-45, 488,         862.
   (Quops) - 47.               500, 509, 538, 540,         Tradio oral - 154, 426,
Pirmide em degraus - 29,       573, 715,783, 802, 818,        630, 669, 699, 752,
   46, 143-4.                   820, 861.                      824.
Povoamento - 37, 98,         Rota dos osis - 242, 257.     Utenslios (instrumentos)
   309, 319, 376, 451-3,     Rotas africanas - 101, 862.       - 74, 124, 222, 235,
   510, 519, 521, 639,       Rotas saarianas - 577-8,          316, 351, 466, 527,
   644-5, 659-60, 675,          580.                           578, 586, 593, 596,
   682, 715-6, 730,735,      Sacrifcios humanos - 259,        600, 630-1, 640, 644,
   746, 749, 754, 755,          488.                           652, 658, 660, 662,
   757, 759-62, 764, 773,    Saqia - 278, 310, 312-3,          665-6, 669-73, 675,
   779, 781, 783, 790,          342.                           677-9, 683-4, 686, 689,
   792, 797-8, 800, 814,     Sementi - 84.                     693-4, 709, 716, 727,
   821-48.                   Sepulturas - 69, 124, 131,        754, 760, 790, 804,
Povoamento do Egito,            228, 236, 238-40, 245,         807, 809-12, 820, 834.
   origens do - 1, 833,         256, 269, 283, 292,         Vizir - 54, 62, 83, 138,
   841, 858                     300, 304, 306, 314,            142, 144, 268, 272, 305.
Povos do Mar - 63, 65,          316, 318, 322, 334,         Wiltoniense - 630-1, 693,
   104, 459, 462-4, 839.        379, 380, 387, 419,            716, 739.
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
